quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (3)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO II
A AMOROSA
 
continuando...

     Um deus degradado não é um homem, é uma impostura; o amante não tem outra alternativa senão provar que é realmente esse rei adulado, ou denunciar-se como usurpador. A partir do momento em que não o adoram, cumpre espezinhá-lo. Em nome dessa glória com que aureolou o amado, a amorosa proíbe-lhe qualquer fraqueza; desilude-se e irrita-se se ele não se molda à imagem que ela colocou em seu lugar; se está fatigado, estonteado, se tem fome ou sede fora de propósito, se se engana, se se contradiz, ela decreta que ele está "abaixo de si mesmo" e lhe censura. Por esse viés, chega a censurar-lhe todas as iniciativas que ela própria não aprecia; julga o juiz e, para que ele mereça continuar seu senhor, denega-lhe a liberdade. O culto que lhe rende satisfaz-se por vezes melhor com a ausência do que com a presença. Há mulheres, já vimos, que se consagram a heróis mortos ou inacessíveis, a fim de nunca os confrontar com seres de carne e osso; estes fatalmente contradizem os sonhos. Daí os slogans desabusados: "Não se deve acreditar em príncipe encantado. Os homens não passam de pobres diabos". Não pareceriam anões, se não se lhes pedisse para ser gigantes.
     É uma das maldições que pesam sobre a mulher apaixonada: sua generosidade converte-se desde logo em exigência. Tendo-se alienado em outrem, quer também recuperar-se: é-lhe necessário anexar esse outro que detém o seu ser. Não se dá inteiramente a ele, mas é preciso que ele esteja inteiramente disponível para receber dignamente esse dom. Ela dedica-lhe todos os seus instantes: é preciso que a cada instante ele esteja presente; ela quer viver unicamente por ele, mas quer viver; ele deve consagrar-se a fazê-la viver.

   Amo-o por vezes bobamente e nesses momentos não compreendo por que não poderia, não fosse e não devesse ser para você um pensamento absorvente como você o é para mim, escreve Mme d'Agoult a Liszt.

     Ela tenta refrear o desejo espontâneo: ser tudo para ele. Depara-se com idêntico apelo na queixa de Mlle de Lespinasse:

   Deus meu! Se soubesse que são os dias, que é a vida privada do interesse e do prazer de vê-lo! Meu amigo, a dissipação, a ocupação, o movimento lhe bastam; eu, minha felicidade é você, e só você; não quereria viver se não devesse vê-lo e amá-lo em todos os momentos da vida.

     A princípio, a amorosa encantava-se com satisfazer o desejo do amante; depois — como o bombeiro lendário que por amor ao ofício provocava incêndio por toda parte — em não conseguindo, sente-se humilhada, inútil a ponto de o amante fingir ardores que não experimenta. Fazendo-se escrava, encontra ela o meio mais seguro de acorrentá-lo. Trata-se de mais uma mentira do amor, que muitos homens — Lawrence, Montherlant — denunciaram com rancor: apresenta-se como um dom quando é uma tirania. Benjamin Constant em Adolphe pintou asperamente os ferros com que prende o homem a generosa paixão de uma mulher. "Ela não calculava seus sacrifícios porque estava preocupada com me fazer aceitá-los", diz ele com crueldade, de Eléonore. A aceitação é efetivamente um compromisso que amarra o amante, sem que ele tenha sequer o benefício de se apresentar como aquele que dá; a mulher quer que ele acolha com gratidão os fardos com que o esmaga. E sua tirania é insaciável. O homem amoroso é autoritário, mas quando obtém o que desejava, fica satisfeito; ao passo que não há limites para a dedicação exigente da mulher. Um amante que tem confiança em sua amante admite sem desprazer que ela se ausente, que se ocupe longe dele; certo de que ela lhe pertence, prefere possuir uma liberdade a possuir uma coisa. Ao contrário, a ausência do amante é sempre uma tortura para a mulher; ele é um olhar, um juiz, ele a frustra desde que deite os olhos em outra coisa que não ela; rouba-lhe tudo o que vê: longe dele, ela sente-se despojada de si mesma e do mundo; mesmo sentado ao lado dela, lendo, escrevendo, ele a está abandonando, traindo. Ela detesta-lhe o sono. Baudelaíre se enternece ante a mulher adormecida: "Teus belos olhos estão lassos, pobre amante". Proust encanta-se com olhar Albertine dormir¹; o ciúme masculino é simplesmente a vontade de uma posse exclusiva. A bem-amada não pertence a ninguém quando o sono lhe devolve a candura desarmada da infância; para o homem essa certeza basta. Mas o deus, o senhor, não deve abandonar-se ao repouso da imanência; é com um olhar hostil que a mulher contempla essa transcendência fulminada; ela detesta-lhe a inércia animal, o corpo que não mais existe para ela e sim em si, abandonado a uma contingência que deve pagar com sua própria contingência.
[1] O fato de Albertine ser um Albert não modifica nada; aqui atitude de Proust é, em todo caso, uma atitude viril.

     Violette Leduc exprimiu, em Je hais les dormeurs, com força esse sentimento:

   Detesto os homens que dormem. Debruço-me sobre eles com minhas más intenções. Sua submissão exaspera-me. Odeio sua serenidade inconsciente, sua falsa anestesia, sua fisionomia de cego estudioso, sua embriaguez sensata, sua aplicação de incapaz... Fiquei de atalaia, esperei durante muito tempo a bolha rósea que sairia da boca de meu dorminhoco. Só reclamava dele uma bolha de presença. Não a tive... Vi que suas pálpebras de noite eram pálpebras de morto... Refugiava-me na alegria de suas pálpebras quando esse homem era intratável. O sono é duro quando de verdade. Roubou-me tudo. Detesto este meu homem dormindo, capaz de com inconsciência criar para si uma paz que me é estranha. Detesto sua fronte de mel... No fundo de si mesmo está a preocupar-se com seu repouso. Recapitula não sei quê... Tínhamos levantado voo. Queríamos deixar a terra utilizando nosso temperamento. Tínhamos decolado, subido, espiado, e esperado, cantarolado, chegado, gemido, ganho e perdido ao mesmo tempo. Era uma vagabundagem séria. Tínhamos descoberto uma nova espécie de nada. Agora dormes. Teu retraimento não é honesto... Se meu dorminhoco se mexe, minha mão toca, sem querer, a semente. É o celeiro com cinquenta sacos de grãos que é abafante, despótico. As bolsas íntimas de um homem que dorme caíram sobre a minha mão. . . Possuo os saquinhos de sementes. Tenho nas mãos os campos que serão lavrados, os vergéis que serão tratados, a força das águas que será transformada, as quatro tábuas que serão pregadas, os toldos que serão erguidos. Tenho nas mãos os frutos, as flores, os animais selecionados. Tenho na mão o bisturi, o podão, a sonda, o revólver, o fórceps e tudo isso não me enche a mão. A semente do mundo que dorme não é senão o supérfluo oscilante do prolongamento da alma. . . Odeio-te quando dormes.

     É preciso que o deus não adormeça, sem o quê, faz-se barro, carne; é preciso que não deixe de estar presente, sem o quê, sua criatura soçobra no nada. Para a mulher, o sono do homem é avareza e traição. O amante desperta por vezes a amante; é para possuí-la. Ela o desperta simplesmente para que ele não durma, não se afaste, pense somente nela, esteja presente, fechado no quarto, no leito, em seus braços — como Deus no tabernáculo. E o que a mulher deseja: é uma carcereira.
     E, no entanto, ela não consente realmente em que o homem não seja senão seu prisioneiro. É esse um dos paradoxos dolorosos do amor: cativo, o deus despoja-se de sua divindade. Destinando-lhe sua transcendência, a mulher salva-a: mas é preciso que ele a transporte para o mundo inteiro. Se dois amantes se abismam juntos no absoluto da paixão, toda liberdade se degrada em imanência: só a morte pode então trazer uma solução. É o sentido do mito de Tristão e Isolda. Dois amantes que se destinam exclusivamente um a outro, já estão mortos: morrem de tédio. Em Terres Étrangères, Marcel Arland descreveu a agonia de um amor que se devora a si mesmo. A mulher conhece esse perigo. Salvo nas crises de ciúme frenético, ela própria deseja que o homem seja projeto, ação. Não é mais um herói, se não realiza nenhuma façanha. O cavaleiro que parte para novas proezas ofende sua dama, mas ela o despreza se permanece sentado aos pés dela. Essa, a tortura do amor impossível; a mulher quer ter todo o homem, mas exige dele que supere todo dado cuja posse seja possível: não se tem uma liberdade; ela quer encerrar aqui um existente que é, segundo Heidegger, "um ser dos longes" e ela bem sabe que a tentativa é condenada. "Meu amigo, amo-o como se deve amar, com excesso, loucura, transporte e desespero", escreve Julie de Lespinasse. O amor idólatra, se lúcido, só pode ser desesperado. Porque a amante que pede ao amante que seja herói, gigante, semideus, reclama por não ser tudo para ele, quando só pode conhecer a felicidade com a condição de o conter inteiro dentro de si.

   A paixão da mulher, renúncia total a toda espécie de direitos próprios, postula precisamente que o mesmo sentimento, o mesmo desejo de renúncia não exista para o outro sexo, pois se ambos renunciassem a si 'mesmos por amor,' disso resultaria não sei bem quê, digamos talvez o horror ao vácuo? A mulher quer ser possuída... ela exige por tanto alguém que possua, que não se dê a si próprio, que não se abandone, mas que queira, ao contrário, enriquecer seu eu no amor. . . A mulher dá-se, o homem aumenta-se com ela. . . (Nietzsche, Gaia Ciência).

     Pelo menos, a mulher poderá encontrar sua alegria nesse enriquecimento que traz ao bem-amado; ela não é Tudo para ele, mas tentará acreditar-se indispensável; não há graus na necessidade. Se ele "não pode viver sem ela", ela se considera como o fundamento de sua preciosa existência, e disso aufere seu próprio valor. Põe sua alegria em servi-lo: mas é preciso que ele reconheça esse serviço com gratidão; o dom torna-se exigência, segundo a dialética comum da dedicação¹. E uma mulher de espirito escrupuloso interroga-se: é realmente de mim que ele precisa? O homem ama-a, deseja-a com uma ternura e um desejo singular: mas não teria por outra um sentimento igualmente singular? Muitas mulheres apaixonadas deixam-se iludir: querem ignorar que o geral se acha envolvido no singular, e o homem facilita-lhes essa ilusão porque antes de tudo a partilha; há constantemente em seu desejo, um arrebatamento que parece desafiar o tempo; no instante em que quer essa mulher ele a quer com paixão e somente a ela: e sem dúvida o instante é um absoluto, mas o absoluto de um instante. Iludida, a mulher passa para o eterno. Divinizada pelo amplexo do senhor, ela acredita ter sido sempre divina e destinada ao deus: ela somente. Mas o desejo masculino é tão fugaz quão imperioso; uma vez satisfeito, morre assaz depressa, ao passo que é, o mais das vezes, depois do amor que a mulher se torna sua prisioneira. É o tema de toda uma literatura fácil de canções triviais. "Um jovem passava, uma mulher cantava... um jovem cantava, uma mulher chorava." E o fato de um homem permanecer duradouramente apegado à mulher não significa que ela lhe seja necessária. É entretanto o que ela reclama: sua abdicação só a salva com a condição de lhe restituir seu império; não se pode fugir ao jogo da reciprocidade. É preciso pois que ela sofra, que ela minta a si mesma. Na maioria das vezes ela se agarra primeiramente à mentira. Imagina o amor do homem como a exata contrapartida do que ela lhe dedica; com má-fé toma o desejo por amor, a ereção por desejo, o amor por uma religião. Força o homem a mentir: tu me amas? Como ontem? Tu me amarás sempre? Habilmente, faz as perguntas no momento em que não há tempo para respostas matizadas e sinceras, ou então em que as circunstâncias as impedem; é durante o amplexo amoroso, no limiar de uma convalescença, entre soluços ou na plataforma de uma estação que ela interroga imperiosamente; faz troféus das respostas arrancadas e, na falta de respostas, faz os silêncios falarem. Toda amorosa verdadeira é mais ou menos paranóica. Lembro-me de uma amiga que, ante o silêncio prolongado de um amante longínquo, declarava: "Quando se quer romper, escreve-se para anunciar a ruptura"; e depois de ter recebido uma carta sem ambiguidade: "Quando se quer realmente romper, não se escreve". É muitas vezes muito difícil verificar onde começa o delírio patológico ante as confidencias recebidas. Descrita pela apaixonada, em pânico, a conduta de um homem apresenta-se sempre como extravagante: é um neurótico, um inconsistente, um recalcado, um masoquista, um sádico, um demônio, um covarde ou tudo isso junto; desafia as explicações psicológicas mais sutis. "X. me adora, é loucamente ciumento, desejaria que eu usasse uma mascara quando saio; mas é um ser tão estranho e que desconfia tanto do amor que, quando lhe bato à porta, me recebe no patamar e não me deixa sequer entrar." Ou então: "Z. me adorava. Mas era demasiado orgulhoso para pedir-me que fosse residir em Lião, onde mora: fui e instalei-me em casa dele. Ao fim de oito dias, sem uma briga, mandou-me embora. Tornei a vê-lo duas vezes. Na terceira vez que lhe telefonei, bateu o telefone no meio da conversa. É um neurótico". Essas histórias misteriosas esclarecem-se quando o homem explica: "Não a amava absolutamente", ou "Tinha-lhe amizade, mas não teria suportado viver com ela um mês". Sendo demasiado obstinada, a má-fé conduz ao hospício: um dos traços constantes da erotomania, está em que as condutas do amante se apresentam como enigmáticas e paradoxais; por esse desvio, o delírio da doente consegue sempre quebrar as resistências da realidade. Uma mulher nor mal acaba sempre sendo vencida pela verdade, e reconhecendo que não é mais amada. Mas, enquanto não é acuada a essa confissão, trapaceia sempre um pouco. Mesmo no amor recíproco há entre os sentimentos dos amantes uma diferença fundamental que ela se esforça por mascarar. Pois é naturalmente preciso que o homem possa justificar-se sem ela, posto que ela espera ser justificada por ele. Se ele lhe é necessário, é porque foge de sua liberdade; mas se assume a liberdade sem a qual não seria nem herói nem simplesmente homem, nada nem ninguém lhe seriam necessários. A dependência que a mulher aceita vem de sua fraqueza: como encontraria uma dependência recíproca naquele que ela ama em sua força?
     Uma alma apaixonadamente exigente não poderia encontrar sossego no amor porque visa um fim contraditório. Torturada, atormentada, arrisca-se a tornar-se um fardo para aquele de quem se sonhava escrava; não podendo ser indispensável, torna-se importuna, odiosa. É isso também uma tragédia muito comum. Mais sensata, menos intransigente, a amorosa resigna-se. Não é tudo, não é necessária: basta-lhe ser útil; outra ocuparia facilmente seu lugar: ela contenta-se com ser a que está presente, Reconhece sua servidão sem pedir reciprocidade. Pode então experimentar uma felicidade modesta; mas, mesmo dentro de tais limites, essa felicidade não será sem nuvens. Muito mais dolorosamente do que a esposa, a amorosa espera. Se a própria esposa é exclusivamente uma amorosa, as tarefas caseiras, a maternidade, suas ocupações, seus prazeres não têm valor nenhum a seus olhos: é a presença do esposo que a arranca ao limbo do tédio. "Quando não estás presente, parece-me que não vale sequer a pena olhar o dia; tudo que me acontece é então como uma morte, não passo mais de um pequeno vestido vazio jogado sobre uma cadeira", escreve Cécile Sauvage nos primeiros tempos de seu casamento¹. E vimos que muitas vezes é fora do casamento que nasce e desabrocha o amor-paixão. Um dos mais notáveis exemplos de uma vida inteira dedicada ao amor é o de Juliette Drouet: ela é apenas uma espera indefinida. "Cumpre sempre voltar ao mesmo ponto de partida, isto é, a esperá-lo sempre", escreve ela a Victor Hugo. "Eu o espero como um esquilo na gaiola." "Deus meu! Como é triste para uma natureza como a minha esperar desde um fim da vida até o outro.'' "Que dia! Pensei que não passasse, a tal ponto te esperei, e agora acho que passou depressa demais porquanto não te vi..." "Acho o dia infindável..." "Espero-o porque afinal prefiro ainda esperar, a crer que não virá mais." É verdade que Victor Hugo, depois de Juliette romper com seu rico protetor, Príncipe Demidoff, confinara-a em um pequeno apartamento e durante doze anos proibiu-a de sair sozinha, a fim de que não reatasse com nenhum de seus amigos de outrora. Mesmo quando a sorte daquela que se intitulava "sua pobre vítima enclaustrada" se amenizou, não deixou ela de ter o amante como única razão de viver e de vê-lo bem pouco. "Amo-te, meu Victor bem amado", escreve em 1841, "mas tenho o coração triste e cheio de amargura; vejo-te tão pouco, e o pouco que te vejo me pertences tão pouco, que todos esses poucos fazem um todo de tristeza que me enche o coração e o espírito." Ela sonha conciliar a independência com o amor. "Gostaria de ser independente e escrava a um tempo, independente por uma situação de que viva e escrava unicamente de meu amor." Mas tendo definitivamente malogrado em sua carreira de atriz, teve de resignar-se "de um fim de vida a outro" a ser apenas uma amante. Apesar de seus esforços para prestar serviço ao ídolo, suas horas eram demasiado vazias: as 17.000 cartas que escreveu a Hugo, ao ritmo de 300 a 400 por ano, testemunham-no. Entre as visitas do senhor não lhe restava senão matar o tempo. O pior horror na condição da mulher de harém é serem seus dias uns desertos de tédio: quando o homem não usa esse objeto que ela é para ele, ela não é absolutamente mais nada. A situação da amorosa é análoga: ela só quer ser essa mulher amada, nada mais tem valor a seus olhos. Para existir, é-lhe preciso portanto que o amante esteja a seu lado, se ocupe com ela; ela espera a chegada, o desejo, o despertar dele. E logo que ele a deixa, recomeça a esperar. É a maldição que pesa sobre a heroína de Back Street, de Fanny Hurst, sobre a de Intempéries, de R. Lehman, sacerdotisas e vítimas do amor puro. É a dura punição infligida a quem não tomou o próprio destino nas mãos.
[1] É diferente o caso quando a mulher encontra sua autonomia no casamento; então o amor entre os cônjuges pode ser uma livre troca de dois seres que se bastam.

continua página 430...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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