terça-feira, 20 de outubro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: A inversão

Elias Canetti

A ORDEM

     A inversão

          "Pois o alimento que o homem comer neste mundo há de comer ele no outro". Esta frase enigmática e inquietante se encontra no Shatapatha-Brahmana, um dos antigos tratados de sacrifício dos hindus. Mais inquietante ainda é o relato que aparece neste mesmo tratado. Trata-se da excursão do vidente Bhrigu ao além.
     Bhrigu, um santo, era filho do deus Varuna; ele tinha adquirido uma grande sabedoria brâmane e isto lhe tinha subido à cabeça. Tornou-se arrogante e colocou-se acima do próprio deus seu pai. Este lhe quis demonstrar o quão pouco sabia e lhe recomendou visitar, uma depois da outra, as diferentes regiões celestes: Leste, Sul, Oeste e Norte. Deveria prestar o máximo de atenção a tudo quanto visse e, no regresso, contar-lhe tudo o que tinha presenciado.
     "Primeiro, ou seja, no Leste, Bhrigu viu homens que arrancavam a machadadas os membros de outros homens, um depois do outro, e os repartiam entre si dizendo: 'Isto pertence a você, isto pertence a mim'. Quando Bhrigu viu isso ficou espantado e as pessoas que esquartejavam os outros lhe deram como explicação o fato de que as vítimas tinham feito o mesmo com eles no mundo dos vivos e que eles agora nada mais faziam do que proceder da mesma forma.
     "Depois disso Bhrigu iniciou sua viagem para o Sul, e lá viu homens que cortavam os membros de outros homens, um depois do outro, e os repartiam entre si dizendo: 'Isto pertence a você, isto pertence a mim'. Quando perguntou o motivo, Bhrigu tornou a ouvir a mesma resposta: os que agora estavam sendo cortados tinham feito a mesma coisa no outro mundo com os que agora os cortavam. No Oeste, depois disso, Bhrigu viu pessoas que, caladas, devoravam outras pessoas, as quais, também caladas, se deixavam devorar. Exatamente desta forma eles tinham se comportado no outro mundo com os que os devoravam. No Norte, viu novamente homens que aos gritos devoravam outros homens que também gritavam, exatamente como estes tinham feito com aqueles no outro mundo.
     "Depois do seu retorno, Bhrigu foi convidado por seu pai Varuna a recitar sua lição como um aluno na escola. Mas Bhrigu disse: 'O que devo dizer? Não existe lição alguma!' Ele tinha visto coisas por demais pavorosas e tudo lhe parecia sem sentido.
     "Então Varuna soube que Bhrigu tinha visto essas coisas e lhe explicou: 'Os homens do Leste, que arrancavam com machados os membros de outros, eram árvores. Os homens do Sul, que cortavam os membros de outros, eram bois e vacas. Os homens do Oeste, que calados devoravam homens calados, eram ervas. Os homens do Norte, que gritando devoravam outros homens, eram as águas'."
     Para todos estes casos ele conhecia um remédio. Mediante determinados sacrifícios, que indicou ao filho, podiam evitar-se as consequências, no além, das próprias ações.
     Noutro tratado de sacrifícios, o Jaiminiya-Brahmana, a mesma história de Bhrigu é contada de forma algo diferente. Ele não percorre as várias direções cardeais, mas vai de um mundo para outro. Em vez das quatro cenas que foram narradas, existem apenas três. Primeiro Bhrigu vê árvores, que assumiram formas humanas no além, e agora cortam homens em pedaços e os devoram. Depois Bhrigu vê um homem que devora outro que grita. A este respeito dá-se uma explicação: "O gado que foi sacrificado e comido aqui assumiu no além uma figura humana e agora faz ao homem o que este lhe fez antes". Finalmente, ele vê um homem devorando outro que não diz coisa alguma. O arroz e a cevada assumiram forma humana e retribuem agora o que sofreram antes.
     Também aqui são indicados determinados sacrifícios. Quem os realiza corretamente escapa do destino de ser devorado no além pelas árvores, pelo gado ou pelo arroz e a cevada. Mas o que aqui nos interessa não são os antídotos contra o destino. O importante é a ideia popular que se oculta por trás do disfarce sacerdotal. O que fazemos aqui nos é feito no além. Não são instituídos servidores especiais de justiça para executar este castigo; pelo contrário, cada qual castiga seu próprio inimigo. Também não se trata de ações quaisquer, mas sim do próprio ato de comer. "Assim como neste mundo os homens comem animais e os consomem, da mesma forma, os animais no outro mundo comem os homens e os consomem".
     Esta frase de um outro Brahmana, semelhante ao que colocamos no início deste capítulo, encontra uma estranha confirmação no Código de Manu. Lá explica-se que não é pecado comer carne, porque este é o comportamento natural das criaturas. Mas promete-se uma recompensa especial a quem se abstiver da carne. A palavra em sânscrito para designar a carne, mamsa, se explica pela decomposição de suas sílabas: mam significa "a mim", sa significa "ele"; mamsa quer dizer "a mim-ele"; "a mim" "ele" lá no além irá comer, ele cuja carne eu comi aqui; isto é o que os sábios explicam como a "carnalidade da carne". Nisto consiste a natureza-carne da carne; este é o verdadeiro sentido da palavra carne.
     A inversão é reduzida aqui à mais concisa de todas as fórmulas, e é captada na imagem da carne. Eu a como, ela me come. A segunda parte, a consequência do que eu fiz, é então precisamente a palavra que designa a carne. O animal que nós comemos lembra-se de quem o comeu. A morte não acabou com este animal. Sua alma continua vivendo, e no além ela se trans ma em homem. Este aguarda então pacientemente a morte do seu devorador. Assim que este morre e chega ao além, a situação primitiva se inverte, transformando-se no oposto. A vítima encontra seu devorador, agarra-o, corta-o e come-o.
     A relação que tudo isso tem com nossa concepção da ordem e do aguilhão é evidente. Entretanto tudo foi levado a tais extremos, tudo se transforma em algo tão concreto que se começa a ter medo. Em vez de acontecer nesta vida, a inversão ocorre no outro mundo. Em vez da ordem, que apenas ameaça com a morte e que assim consegue por extorsão todos os tipos de serviço, trata-se realmente de morte em sua forma mais extrema, na qual o morto é devorado.
     Segundo nossa maneira de ver, que já não encara seriamente a existência no além, o aguilhão que a ameaça de morte provoca continua existindo enquanto a vítima vive. Se ela irá conseguir uma inversão é sempre algo duvidoso; de qualquer forma a vítima tentará consegui-la. Finalmente, o homem é governado por seus aguilhões, sua fisionomia interna é de terminada por eles; conseguindo ou não libertar-se deles, eles são o seu destino. Segundo a concepção hindu, para a qual o além é uma premissa segura, o aguilhão como núcleo duro da alma continua existindo no além, mesmo depois da morte; a inversão ocorre de qualquer maneira, ela se converte na atividade propriamente dita da existência no além. Faz-se exatamente o que nos foi feito, e somos nós mesmos que o fazemos.
     O fato de a mudança de aparência não constituir um obstáculo parece ser uma característica especial. Já não é o animal que comemos que nos agarra no além e que nos retalha: é um homem com a alma desse animal. Externamente a criatura se modificou completamente, mas o aguilhão continua sendo invariavelmente o mesmo. Nas visões de horror que são presenciadas por Bhrigu em sua viagem, o aguilhão aparece como o tema principal da alma; seria inclusive possível dizer que esta é formada inteiramente por aguilhões. A essência propriamente dita do aguilhão, do qual tanto se falou nesta análise da ordem, sua absoluta imutabilidade e a precisão da inversão à qual ele aspira encontram nesta crença hindu do devorado que deve devorar por sua vez sua expressão mais conclusiva.

continua na página 184...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem respostas te incomodam?

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