terça-feira, 27 de outubro de 2026

Dante: A Divina Comédia - Canto V

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

INFERNO

Canto V (Prosa)

Dante passa do primeiro para o segundo círculo. Ali encontra o primeiro dos seres infernais: Minós, o demônio que julga as almas que chegam ao Inferno e indica em que círculo devem ser atiradas. No segundo círculo estão os condenados pelo pecado da luxúria. Seu castigo é serem açoitados por uma tempestade perpétua. Dante pergunta a Virgílio se pode conversar com alguma daquelas almas. Autorizado, ouve Francesca da Rimini, que gira pela tempestade agarrada a seu amante, Paolo Malatesta, contar a dolorosa história de sua culpa. Depois de ouvi-la, desmaia de compaixão.
     
     [1] Desci então do primeiro ao segundo círculo, onde o espaço se estreita, a dor se amplia e nos machucam os lamentos que ouvimos. Ali estava o horripilante Minós, que examina a culpa das almas que chegam e, rosnando, as julga e as envia para as fossas infernais. Quando a alma condenada surge diante dele, ela confessa todos seus pecados.¹ Ao conhecer a culpa de cada uma delas, Minós determina onde a alma deve ficar no Inferno. Ele faz isso enrolando a horrenda cauda até chegar ao número do círculo em que a alma deve ser atirada. Diante dele sempre há uma multidão de sombras, que, uma após a outra, confessam e ouvem a sentença depois da qual são jogadas no fosso. 
(1) “Dico, che quando l’anima mal nata...”, verso ligeiramente modificado por Machado de Assis, que o usou como epígrafe do romance Esaú e Jacó (1904).

     [16] – Ó tu que vens ao doloroso asilo – disse Minós, quando me viu, deixando de lado seu trabalho –, olha o que fazes e aquele em que te fias; não deixes a porta enorme pela qual entraste te enganar!
     E meu guia a ele:

– Por que gritas assim? Isso não impedirá que ele entre, pois quis assim quem está onde se pode fazer tudo que se deseja, e mais não digas.

     [25] Então comecei a ouvir os dolorosos gemidos. Estava no ponto onde a força do pranto tocava duro em minha alma. Era o lugar onde a luz cala e um mugido perene ressoa, tal como faz o mar durante a tempestade quando os ventos se combatem. O ventarrão infernal¹ que nunca cessa de carregar os espíritos em seu redemoinho e ainda os verga e os golpeia, molestando os. Quando chegam à beira do precipício, soltam gritos, gemidos e lamentos, e blasfemam contra a virtude divina. Compreendi então que essa era a forma do castigo destinado aos pecadores da carne, que submetem a razão ao desejo. Como as andorinhas que no inverno voam em bandos, formando fileiras largas e densas, assim iam aquelas almas más, jogadas para lá e para cá, para cima e para baixo, à força do sopro do redemoinho infernal. Nenhuma esperança as conforta, nem de pousar, nem de obter uma pena menor. Como os grous que ao mesmo tempo voam e cantam seus ais, traçando no ar uma longa linha, assim eu as vi, lamentando-se, enquanto eram levadas pela tempestade. Por isso, eu disse:
(1) Tradução de Mario de Andrade para “bufera infernale”.

– Mestre, quem é essa gente que o ar negro tanto castiga?
– A primeira entre elas – disse-me por partes – foi imperatriz de muitas estirpes. O vício da luxúria a deixou tão sem freios que, para remover qualquer culpa de seus atos, fez da libido lei. É Semíramis, de quem lemos ter sido esposa de Nino, a quem sucedeu para governar a Assíria, que hoje o Sultão governa. A outra ali é Dido, que se enamorou depois de viúva traindo as cinzas de Siqueu. A outra ali é a luxuriosa Cleópatra; e vê Helena, pela qual tantos reis brigaram, e também o grande Aquiles, que fez seu último combate apaixonado. Veja Páris, Tristão – e mais de mil sombras me mostrou e apontou-me com o dedo, sombras que desta vida partiram à força do amor.

     [70] Depois que ouvi o meu doutor nomear as damas e os cavalheiros da Antiguidade, fiquei comovido e quase sucumbi. Então comecei:

– Poeta, gostaria muito de falar com aqueles dois que vão abraçados parecendo mais leves e rápidos que os demais.

     Ele a mim:

– Presta a atenção à hora em que eles estiverem mais perto de nós e pede a eles pelo amor que os une, que eles te atenderão.

     Assim que o vento os aproximou de nós, falei-lhes:

– Ó almas fatigadas, vinde falar conosco, se nada vos impede!     

     Como pombas que voltam ao ninho, com as asas elevadas e firmes, guiadas pela vontade, voaram até nós saindo do grupo em que estava Dido. Tão forte e afetuoso foi nosso apelo que vieram pelo ar imundo.¹
(1) “[...] chegando ambos a nós pelo ar imundo”, tradução de Jorge Vanderley (2004, p. 107).

     [88] – Ó animal gracioso e benevolente que visita o ar fosco, nós que tingimos o mundo de sangue, se fôssemos amigos do rei do universo, pediríamos para ele a paz que desejas, pois tu te apiedas do nosso perverso mal. O que quiseres ouvir e falar nós falaremos e ouviremos enquanto o vento continuar assim, estático. Nasci na terra onde o rio Pó deságua para encontrar sossego junto com seus afluentes. Amor, que tão rápido toma o coração gentil, prendeu-me a esta bela pessoa que foi arrancada de mim; e o modo como isso aconteceu ainda me ofende. Amor, que a amado algum amar desobriga, me prendeu a ele com desejo tão forte que, como vês, ainda não me abandona. 13 O amor nos levou a uma mesma morte. A Caína, o nono círculo, espera aquele que apagou a chama de nossa vida – com estas palavras, narrou sua história.
     [109] Quando entendi o que aquelas almas suportavam, baixei a cabeça e assim a mantive até o poeta dirigir-se a mim:

– Em que pensas?

     Respondi:

– Ó dor, quantos pensamentos doces, quanto desejo levou os dois a dar esse doloroso passo!

     Em seguida, me voltei na direção deles e comecei:

– Francesca, teu martírio me deixa triste e penalizado. Mas diz-me: no tempo dos doces suspiros, a quem e como concedeste teu amor, quando conheceste os desejos duvidosos?

     E ela a mim:

– Nada dói mais do que recordar-se, na miséria, dos tempos felizes; e isso o teu doutor sabe muito bem. Mas se tens tanta vontade de conhecer a origem do nosso amor, eu te direi tudo, chorando e falando ao mesmo tempo. [124] Um dia líamos por deleite a história de Lancelote, de como o amor o coagia. Estávamos sozinhos, sem nada recear. Por várias vezes erguemos os olhos do livro e face a face nos encarávamos, até que uma hora fomos vencidos por isso. Enquanto líamos a cena em que a desejada boca de Guinevere era beijada por seu amante, Paolo, que nunca mais será separado de mim, beijou-me a boca todo trêmulo. O livro fez a nós o que Galeotto fez no romance, e daquele dia em diante não lemos nunca mais.¹
(1) Em Lancelote, romance anônimo do século XIII, Galeotto induz Guinevere a beijar Lancelote.

     [139] Enquanto uma alma nos contava, a outra chorava. E isso me fez sentir a morte por dentro. E caí como corpo morto cai.¹
(1) Versão do poeta Augusto de Campos (Invenção. São Paulo: Cia das Letras, 1986, p. 35) para o original “E caddi come corpo morto cade”.

continua na página....43

Canto V (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

No ingresso do segundo círculo está Minos, que julga as almas e designa-lhes a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão. Aqui Dante encontra Francisca de Rimini, que lhe narra a história do seu amor infeliz.

     Desci desta arte ao círculo segundo, 
Que o espaço menos largo compreendia, 
3        Onde o pungir da dor é mais profundo. 
     Lá ‘stava Minos e feroz rangia: 
Examinava as culpas desde a entrada, 
6        Dava a sentença como ilhais cingia 
     Ante ele quando uma alma desditada 
Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando, 
9        Com perícia em pecados consumada. 
     Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando, 
Do abismo o circ’lo arbitra, a que pertença, 
12      Pelas voltas da cauda graduando. 
     Sempre muitas se lhe acham na presença; 
Cada qual tem sua vez de ser julgada, 
15      Diz, ouve, cai, se some sem detença. 
     Minos, logo me vendo, iroso brada, 
Do grave ofício no ato sobrestando: 
18      — “Ó tu, que vens das dores à morada; 
     “Olha como entras e em quem’stás fiando: 
Não te engane do entrar tanta largueza!” 
21      — “Por que falar” — meu guia diz — “gritando?” 
     “Vedar não tentes a fatal empresa: 
Assim se quer lá onde o que se ordena 
24      Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!” 
     Eis já começo da infernal geena 
A ouvir os lamentos: sou chegado 
27      Onde intenso carpir me aviva a pena. 
     Em lugar de luz mudo tenho entrado: 
Rugia, como faz mar combatido 
30      Dos ventos, pelo ímpeto encontrado. 
     Da tormenta o furor, nunca abatido, 
Perpetuamente as almas torce, agita, 
33      Molesta, em seus embates recrescido. 
     Quando à borda do abismo as precipita, 
Ais, soluços, lamentos vão rompendo. 
36      Blasfema a Deus a multidão maldita. 
     Ouvi que estão no padecer horrendo 
Os que aos vícios da carne se entregavam, 
39      Razão aos apetites submetendo. 
     Quais estorninhos, que a voar se travam 
Em densos bandos na estação já fria, 
42      Em rodopio as almas volteavam, 
     Ao capricho do vento, que as trazia. 
De pausa não, de menos dor a esp’rança 
45      Conforto lhes não dá nessa agonia. 
     Como nos ares longa série avança 
De grous, que vão cantado o seu grasnido, 
48      Assim no gemer seu, que não descansa, 
     Traz o tufão as sombras desabrido. 
— “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas 
51      Que o vendaval fustiga denegrido?” 
     — “A primeira — tornou Virgílio — “entre elas 
De quem notícias ter desejarias, 
54      Regeu nações, diversas nas loquelas. 
     “De luxúria fez tantas demasias 
Que em lei dispôs ser lícito e agradável 
57      Para desculpa às torpes fantasias. 
     “Semíramis chamou-se: o trono estável 
Herdou de Nino e foi a sua esposa. 
60      Do Soldão teve a terra memorável. 
     “A morte deu-se a outra, de amorosa, 
Às cinzas de Siqueu traidora e infida; 
63      Cleópatra após vem luxuriosa”. 
     Helena vi, a causa fementida 
De tanto mal, e Aquiles celebrado 
66      Que teve por amor a extrema lida. 
     Páris, Tristão e um bando assinalado 
De sombras me indicou, nomes dizendo, 
69      Que à sepultura amor tinha arrojado. 
     A compaixão me estava confrangendo, 
Dessas damas e antigos cavaleiros 
72      Nomes ouvindo e mágoas conhecendo. 
     Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros 
Dois, que ali vêm, falar muito desejo: 
75      Ao vento ser parecem tão ligeiros!” 
     “Hás de ter” — me tornou — “azado ensejo, 
Quando forem mais perto; então lhes pede 
78      Pelo amor que nos uniu: virão sem pejo”. — 
     Quando acercar-se o vento lhes concede 
A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas, 
81      Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. — 
     Quais pombas, que saudosas de asas fitas, 
Ao doce ninho, em voo despedido, 
84      Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas: 
     Tais saíram da turba, em que era Dido, 
A nós as duas sombras se inclinando, 
87      Tanto as moveu da voz o tom sentido! 
     — “Entre beni’no, compassivo e brando, 
Que nos vem visitar por este ar perso, 
90      Tendo nós dado o sangue ao mundo infando, 
     “Seu amigo o Senhor fosse do universo, 
Da paz aos rogos nossos, gozarias, 
93      Pois te enternece o nosso mal perverso. 
     “Enquanto o vento é quedo, o que dirias 
Havemos nós de ouvir atentamente; 
96      Diremos quanto ouvir desejarias
     “Onde, a paz desejando, o Pado ingente 
Com seus vassalos para o mar descende, 
99      A terra, em que hei nascido, está jacente. 
     “Amor, que os corações súbito prende, 
Este inflamou por minha formosura, 
102    Que roubaram-me: o modo inda me ofende. 
     “Amor, em paga exige igual ternura, 
Tomou por ele em tal prazer meu peito, 
105    Que, bem o vês, eterno me perdura. 
     “Amor nos igualou da morte o efeito: 
A quem no-la causou, Caína, esperas”. 
108    Após tais vozes foi silêncio feito. 
     Daquelas almas as angústias feras 
Em meditar amargo a fronte inclino 
111    Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?” 
     Quando pude, falei: “Cruel destino! 
Que doce cogitar! Que meigo encanto, 
114    Precederam do par o fim maligno!” — 
     Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto: 
“Teus martírios, Francesca, me angustiam, 
117    Movem-me o triste, compassivo pranto. 
     “Quando os doces suspiros só se ouviam, 
Como, em que Amor mostrar-vos há querido 
120    Os desejos, que ainda se escondiam?” — 
     — “Não há” — disse — “tormento mais dorido 
Que recordar o tempo venturoso 
123    Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido. 
     “Mas porque de saber és desejoso, 
Como nasceu a flor do nosso afeto, 
126    Direi chorando o lance lastimoso. 
     “Por passatempo eu lia e o meu dileto 
De Lanceloto extremos namorados; 
129    Éramos sós, de coração quieto. 
     “Nossos olhos, por vezes encontrados, 
Cessam de ler; ao gesto a cor mudara. 
132    Um ponto só deu causa aos nossos fados. 
     “Ao lermos que nos lábios osculara 
O desejado riso, o heroico amante, 
135    Este, que mais de mim se não separa, 
     “A boca me beijou todo tremante, 
De Galeotto fez o autor e o escrito. 
138    Em ler não fomos nesse dia avante”. 
Enquanto a história triste um tinha dito,
Tanto carpia o outro, que eu, absorto 
Em piedade, senti letal conflito, 
142    E tombei, como tomba corpo morto.

continua na página... 52
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— 4. Minos, rei de Creta e que na mitologia pagã era juiz do Inferno. 
— 58. Semíramis, rainha de Babilônia, viúva do rei Nino. 
— 61. Dido, rainha de Cartago, que amou a Eneias. 
— 63. Cleópatra, rainha do Egito. 
— 64. Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta que causou a guerra de Troia. 
— 67. Páris e Tristão, cavaleiros dos romances medievais. 
— 73. Companheiros dois, Francisca de Rimini e Paulo Malatesta, que foram mortos por Gianciotto Malatesta, marido de Francisca e irmão de Paulo, por eles terem ficado apaixonados um pelo outro.  
— 89. Que nos vem visitar por este ar perso, A expressão "ar perso" merece atenção. O adjetivo italiano original é perso, que significa algo como escuro, sombrio, de cor azul-escura ou cinzenta. Nos tradutores clássicos do português, costuma ser mantido como "perso" para preservar o sabor poético do texto. Portanto, "por este ar perso" significa aproximadamente: "por este ar escuro", "por esta atmosfera sombria", "por este ambiente tenebroso". Francesca está se admirando de que um homem vivo, bondoso e compassivo, tenha descido até aquele lugar sombrio do Inferno para visitar os condenados.
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A Divina Comédia
Inferno
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