A Divina Comédia
Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes
INFERNO
Canto V (Prosa)
Dante passa do primeiro para o segundo círculo. Ali encontra o
primeiro dos seres infernais: Minós, o demônio que julga as almas que
chegam ao Inferno e indica em que círculo devem ser atiradas. No segundo
círculo estão os condenados pelo pecado da luxúria. Seu castigo é serem
açoitados por uma tempestade perpétua. Dante pergunta a Virgílio se pode
conversar com alguma daquelas almas. Autorizado, ouve Francesca da
Rimini, que gira pela tempestade agarrada a seu amante, Paolo Malatesta,
contar a dolorosa história de sua culpa. Depois de ouvi-la, desmaia de
compaixão.
[1] Desci então do primeiro ao segundo círculo, onde o espaço se estreita,
a dor se amplia e nos machucam os lamentos que ouvimos. Ali estava o
horripilante Minós, que examina a culpa das almas que chegam e, rosnando,
as julga e as envia para as fossas infernais. Quando a alma condenada surge
diante dele, ela confessa todos seus pecados.¹ Ao conhecer a culpa de cada
uma delas, Minós determina onde a alma deve ficar no Inferno. Ele faz isso
enrolando a horrenda cauda até chegar ao número do círculo em que a alma
deve ser atirada. Diante dele sempre há uma multidão de sombras, que, uma
após a outra, confessam e ouvem a sentença depois da qual são jogadas no
fosso.
(1) “Dico, che quando l’anima mal nata...”, verso ligeiramente modificado por Machado de Assis,
que o usou como epígrafe do romance Esaú e Jacó (1904). [16] – Ó tu que vens ao doloroso asilo – disse Minós, quando me viu,
deixando de lado seu trabalho –, olha o que fazes e aquele em que te fias;
não deixes a porta enorme pela qual entraste te enganar!
E meu guia a ele:
E meu guia a ele:
– Por que gritas assim? Isso não impedirá que ele entre, pois quis assim
quem está onde se pode fazer tudo que se deseja, e mais não digas.
[25] Então comecei a ouvir os dolorosos gemidos. Estava no ponto onde
a força do pranto tocava duro em minha alma. Era o lugar onde a luz cala e
um mugido perene ressoa, tal como faz o mar durante a tempestade quando
os ventos se combatem. O ventarrão infernal¹ que nunca cessa de carregar
os espíritos em seu redemoinho e ainda os verga e os golpeia, molestando
os. Quando chegam à beira do precipício, soltam gritos, gemidos e
lamentos, e blasfemam contra a virtude divina. Compreendi então que essa
era a forma do castigo destinado aos pecadores da carne, que submetem a
razão ao desejo. Como as andorinhas que no inverno voam em bandos,
formando fileiras largas e densas, assim iam aquelas almas más, jogadas
para lá e para cá, para cima e para baixo, à força do sopro do redemoinho
infernal. Nenhuma esperança as conforta, nem de pousar, nem de obter uma
pena menor. Como os grous que ao mesmo tempo voam e cantam seus ais,
traçando no ar uma longa linha, assim eu as vi, lamentando-se, enquanto
eram levadas pela tempestade. Por isso, eu disse:
(1) Tradução de Mario de Andrade para “bufera infernale”.
– Mestre, quem é essa gente que o ar negro tanto castiga?
– A primeira entre elas – disse-me por partes – foi imperatriz de muitas estirpes. O vício da luxúria a deixou tão sem freios que, para remover qualquer culpa de seus atos, fez da libido lei. É Semíramis, de quem lemos ter sido esposa de Nino, a quem sucedeu para governar a Assíria, que hoje o Sultão governa. A outra ali é Dido, que se enamorou depois de viúva traindo as cinzas de Siqueu. A outra ali é a luxuriosa Cleópatra; e vê Helena, pela qual tantos reis brigaram, e também o grande Aquiles, que fez seu último combate apaixonado. Veja Páris, Tristão – e mais de mil sombras me mostrou e apontou-me com o dedo, sombras que desta vida partiram à força do amor.
[70] Depois que ouvi o meu doutor nomear as damas e os cavalheiros da Antiguidade, fiquei comovido e quase sucumbi. Então comecei:
(1) Tradução de Mario de Andrade para “bufera infernale”.
– Mestre, quem é essa gente que o ar negro tanto castiga?
– A primeira entre elas – disse-me por partes – foi imperatriz de muitas estirpes. O vício da luxúria a deixou tão sem freios que, para remover qualquer culpa de seus atos, fez da libido lei. É Semíramis, de quem lemos ter sido esposa de Nino, a quem sucedeu para governar a Assíria, que hoje o Sultão governa. A outra ali é Dido, que se enamorou depois de viúva traindo as cinzas de Siqueu. A outra ali é a luxuriosa Cleópatra; e vê Helena, pela qual tantos reis brigaram, e também o grande Aquiles, que fez seu último combate apaixonado. Veja Páris, Tristão – e mais de mil sombras me mostrou e apontou-me com o dedo, sombras que desta vida partiram à força do amor.
[70] Depois que ouvi o meu doutor nomear as damas e os cavalheiros da Antiguidade, fiquei comovido e quase sucumbi. Então comecei:
– Poeta, gostaria muito de falar com aqueles dois que vão abraçados
parecendo mais leves e rápidos que os demais.
Ele a mim:
– Presta a atenção à hora em que eles estiverem mais perto de nós e pede
a eles pelo amor que os une, que eles te atenderão.
Assim que o vento os aproximou de nós, falei-lhes:
Assim que o vento os aproximou de nós, falei-lhes:
– Ó almas fatigadas, vinde falar conosco, se nada vos impede!
Como pombas que voltam ao ninho, com as asas elevadas e firmes,
guiadas pela vontade, voaram até nós saindo do grupo em que estava Dido.
Tão forte e afetuoso foi nosso apelo que vieram pelo ar imundo.¹
(1) “[...] chegando ambos a nós pelo ar imundo”, tradução de Jorge Vanderley (2004, p. 107).
[88] – Ó animal gracioso e benevolente que visita o ar fosco, nós que tingimos o mundo de sangue, se fôssemos amigos do rei do universo, pediríamos para ele a paz que desejas, pois tu te apiedas do nosso perverso mal. O que quiseres ouvir e falar nós falaremos e ouviremos enquanto o vento continuar assim, estático. Nasci na terra onde o rio Pó deságua para encontrar sossego junto com seus afluentes. Amor, que tão rápido toma o coração gentil, prendeu-me a esta bela pessoa que foi arrancada de mim; e o modo como isso aconteceu ainda me ofende. Amor, que a amado algum amar desobriga, me prendeu a ele com desejo tão forte que, como vês, ainda não me abandona. 13 O amor nos levou a uma mesma morte. A Caína, o nono círculo, espera aquele que apagou a chama de nossa vida – com estas palavras, narrou sua história.
[109] Quando entendi o que aquelas almas suportavam, baixei a cabeça e assim a mantive até o poeta dirigir-se a mim:
[88] – Ó animal gracioso e benevolente que visita o ar fosco, nós que tingimos o mundo de sangue, se fôssemos amigos do rei do universo, pediríamos para ele a paz que desejas, pois tu te apiedas do nosso perverso mal. O que quiseres ouvir e falar nós falaremos e ouviremos enquanto o vento continuar assim, estático. Nasci na terra onde o rio Pó deságua para encontrar sossego junto com seus afluentes. Amor, que tão rápido toma o coração gentil, prendeu-me a esta bela pessoa que foi arrancada de mim; e o modo como isso aconteceu ainda me ofende. Amor, que a amado algum amar desobriga, me prendeu a ele com desejo tão forte que, como vês, ainda não me abandona. 13 O amor nos levou a uma mesma morte. A Caína, o nono círculo, espera aquele que apagou a chama de nossa vida – com estas palavras, narrou sua história.
[109] Quando entendi o que aquelas almas suportavam, baixei a cabeça e assim a mantive até o poeta dirigir-se a mim:
– Em que pensas?
Respondi:
– Ó dor, quantos pensamentos doces, quanto desejo levou os dois a dar
esse doloroso passo!
Em seguida, me voltei na direção deles e comecei:
Em seguida, me voltei na direção deles e comecei:
– Francesca, teu martírio me deixa triste e penalizado. Mas diz-me: no
tempo dos doces suspiros, a quem e como concedeste teu amor, quando
conheceste os desejos duvidosos?
E ela a mim:
– Nada dói mais do que recordar-se, na miséria, dos tempos felizes; e isso
o teu doutor sabe muito bem. Mas se tens tanta vontade de conhecer a
origem do nosso amor, eu te direi tudo, chorando e falando ao mesmo
tempo. [124] Um dia líamos por deleite a história de Lancelote, de como o
amor o coagia. Estávamos sozinhos, sem nada recear. Por várias vezes
erguemos os olhos do livro e face a face nos encarávamos, até que uma hora
fomos vencidos por isso. Enquanto líamos a cena em que a desejada boca de
Guinevere era beijada por seu amante, Paolo, que nunca mais será separado
de mim, beijou-me a boca todo trêmulo. O livro fez a nós o que Galeotto fez
no romance, e daquele dia em diante não lemos nunca mais.¹
(1) Em Lancelote, romance anônimo do século XIII, Galeotto induz Guinevere a beijar Lancelote.
[139] Enquanto uma alma nos contava, a outra chorava. E isso me fez sentir a morte por dentro. E caí como corpo morto cai.¹
[139] Enquanto uma alma nos contava, a outra chorava. E isso me fez sentir a morte por dentro. E caí como corpo morto cai.¹
(1) Versão do poeta Augusto de Campos (Invenção. São Paulo: Cia das Letras, 1986, p. 35) para o
original “E caddi come corpo morto cade”.
Desci desta arte ao círculo segundo,
continua na página....43
Canto V (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro
No ingresso do segundo círculo está Minos, que julga as almas e designa-lhes
a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são continuamente
arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão. Aqui Dante encontra
Francisca de Rimini, que lhe narra a história do seu amor infeliz.
Que o espaço menos largo compreendia,
3 Onde o pungir da dor é mais profundo.
Lá ‘stava Minos e feroz rangia:
Examinava as culpas desde a entrada,
6 Dava a sentença como ilhais cingia
Ante ele quando uma alma desditada
Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,
9 Com perícia em pecados consumada.
Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando,
Do abismo o circ’lo arbitra, a que pertença,
12 Pelas voltas da cauda graduando.
Sempre muitas se lhe acham na presença;
Cada qual tem sua vez de ser julgada,
15 Diz, ouve, cai, se some sem detença.
Minos, logo me vendo, iroso brada,
Do grave ofício no ato sobrestando:
18 — “Ó tu, que vens das dores à morada;
“Olha como entras e em quem’stás fiando:
Não te engane do entrar tanta largueza!”
21 — “Por que falar” — meu guia diz — “gritando?”
“Vedar não tentes a fatal empresa:
Assim se quer lá onde o que se ordena
24 Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!”
Eis já começo da infernal geena
A ouvir os lamentos: sou chegado
27 Onde intenso carpir me aviva a pena.
Em lugar de luz mudo tenho entrado:
Rugia, como faz mar combatido
30 Dos ventos, pelo ímpeto encontrado.
Da tormenta o furor, nunca abatido,
Perpetuamente as almas torce, agita,
33 Molesta, em seus embates recrescido.
Quando à borda do abismo as precipita,
Ais, soluços, lamentos vão rompendo.
36 Blasfema a Deus a multidão maldita.
Ouvi que estão no padecer horrendo
Os que aos vícios da carne se entregavam,
39 Razão aos apetites submetendo.
Quais estorninhos, que a voar se travam
Em densos bandos na estação já fria,
42 Em rodopio as almas volteavam,
Ao capricho do vento, que as trazia.
De pausa não, de menos dor a esp’rança
45 Conforto lhes não dá nessa agonia.
Como nos ares longa série avança
De grous, que vão cantado o seu grasnido,
48 Assim no gemer seu, que não descansa,
Traz o tufão as sombras desabrido.
— “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas
51 Que o vendaval fustiga denegrido?”
— “A primeira — tornou Virgílio — “entre elas
De quem notícias ter desejarias,
54 Regeu nações, diversas nas loquelas.
“De luxúria fez tantas demasias
Que em lei dispôs ser lícito e agradável
57 Para desculpa às torpes fantasias.
“Semíramis chamou-se: o trono estável
Herdou de Nino e foi a sua esposa.
60 Do Soldão teve a terra memorável.
“A morte deu-se a outra, de amorosa,
“A morte deu-se a outra, de amorosa,
Às cinzas de Siqueu traidora e infida;
63 Cleópatra após vem luxuriosa”.
Helena vi, a causa fementida
De tanto mal, e Aquiles celebrado
66 Que teve por amor a extrema lida.
Páris, Tristão e um bando assinalado
De sombras me indicou, nomes dizendo,
69 Que à sepultura amor tinha arrojado.
A compaixão me estava confrangendo,
Dessas damas e antigos cavaleiros
72 Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.
Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros
Dois, que ali vêm, falar muito desejo:
75 Ao vento ser parecem tão ligeiros!”
“Hás de ter” — me tornou — “azado ensejo,
Quando forem mais perto; então lhes pede
78 Pelo amor que nos uniu: virão sem pejo”. —
Quando acercar-se o vento lhes concede
A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas,
81 Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. —
Quais pombas, que saudosas de asas fitas,
Ao doce ninho, em voo despedido,
84 Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas:
Tais saíram da turba, em que era Dido,
A nós as duas sombras se inclinando,
87 Tanto as moveu da voz o tom sentido!
— “Entre beni’no, compassivo e brando,
Que nos vem visitar por este ar perso,
90 Tendo nós dado o sangue ao mundo infando,
“Seu amigo o Senhor fosse do universo,
Da paz aos rogos nossos, gozarias,
93 Pois te enternece o nosso mal perverso.
“Enquanto o vento é quedo, o que dirias
Havemos nós de ouvir atentamente;
96 Diremos quanto ouvir desejarias
“Onde, a paz desejando, o Pado ingente
Com seus vassalos para o mar descende,
99 A terra, em que hei nascido, está jacente.
“Amor, que os corações súbito prende,
Este inflamou por minha formosura,
102 Que roubaram-me: o modo inda me ofende.
“Amor, em paga exige igual ternura,
Tomou por ele em tal prazer meu peito,
105 Que, bem o vês, eterno me perdura.
“Amor nos igualou da morte o efeito:
A quem no-la causou, Caína, esperas”.
108 Após tais vozes foi silêncio feito.
Daquelas almas as angústias feras
Em meditar amargo a fronte inclino
111 Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?”
Quando pude, falei: “Cruel destino!
Que doce cogitar! Que meigo encanto,
114 Precederam do par o fim maligno!” —
Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto:
“Teus martírios, Francesca, me angustiam,
117 Movem-me o triste, compassivo pranto.
“Quando os doces suspiros só se ouviam,
Como, em que Amor mostrar-vos há querido
120 Os desejos, que ainda se escondiam?” —
— “Não há” — disse — “tormento mais dorido
Que recordar o tempo venturoso
123 Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido.
“Mas porque de saber és desejoso,
Como nasceu a flor do nosso afeto,
126 Direi chorando o lance lastimoso.
“Por passatempo eu lia e o meu dileto
De Lanceloto extremos namorados;
129 Éramos sós, de coração quieto.
“Nossos olhos, por vezes encontrados,
Cessam de ler; ao gesto a cor mudara.
132 Um ponto só deu causa aos nossos fados.
“Ao lermos que nos lábios osculara
“Ao lermos que nos lábios osculara
O desejado riso, o heroico amante,
135 Este, que mais de mim se não separa,
“A boca me beijou todo tremante,
De Galeotto fez o autor e o escrito.
138 Em ler não fomos nesse dia avante”.
Enquanto a história triste um tinha dito,
Tanto carpia o outro, que eu, absorto
Em piedade, senti letal conflito,
142 E tombei, como tomba corpo morto.
continua na página... 52
__________________— 4. Minos, rei de Creta e que na mitologia pagã era juiz do Inferno.
— 58.
Semíramis, rainha de Babilônia, viúva do rei Nino.
— 61. Dido, rainha de
Cartago, que amou a Eneias.
— 63. Cleópatra, rainha do Egito.
— 64.
Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta que causou a guerra de Troia.
—
67. Páris e Tristão, cavaleiros dos romances medievais.
— 73.
Companheiros dois, Francisca de Rimini e Paulo Malatesta, que foram
mortos por Gianciotto Malatesta, marido de Francisca e irmão de Paulo, por
eles terem ficado apaixonados um pelo outro.
— 89. Que nos vem visitar por este ar perso, A expressão "ar perso" merece atenção. O adjetivo italiano original é perso, que significa algo como escuro, sombrio, de cor azul-escura ou cinzenta. Nos tradutores clássicos do português, costuma ser mantido como "perso" para preservar o sabor poético do texto. Portanto, "por este ar perso" significa aproximadamente: "por este ar escuro", "por esta atmosfera sombria", "por este ambiente tenebroso". Francesca está se admirando de que um homem vivo, bondoso e compassivo, tenha descido até aquele lugar sombrio do Inferno para visitar os condenados.
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