Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto IX - Honra para Aquiles e Preces
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia.
Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos
Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles
junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por
Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles,
que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”
Por esse modo os Troianos velavam. No entanto, os Aquivos
pensam na Fuga, somente, comparsa do Medo gelado.
Té mesmo os mais destemidos guerreiros a dor os abate.
Como o oceano piscoso batido por ventos furiosos,
Zéfiro e Bóreas, no tempo em que sopram do lado da Trácia,
subitamente, fazendo que as ondas escuras se empolem,
acavaladas, e de algas a areia da praia revestem:
o coração dos Acaios, assim, se encontrava agitado.
O grande filho de Atreu, cujo peito a aflição consumia,
foi procurar os arautos de voz harmoniosa e lhes disse
que, pelos nomes, chamassem para a ágora os fortes guerreiros,
mas sem gritar. Dava exemplo ele próprio, também, esforçando-se.
Cheios de mágoa, assentaram-se. O Atrida levanta-se logo,
a derramar muitas lágrimas, como de fonte profunda
se precipita água escura de cima de penha altanada.
Vira-se para os Aqueus, a gemer fundamente, e lhes fala:
“Vós, conselheiros e guias dos homens Argivos, ouvi-me!
O grande Crônida, Zeus, em desgraça terrível me enleia,
ele, o maldoso, que havia asselado, antes disto, a promessa
de eu retornar para a pátria, depois de destruir Ílio forte.
Presentemente resolve enganar-me, ordenando que volte
sem glória alguma, para Argos, depois de perder tanta gente.
Isso, por certo, há de ser agradável a Zeus poderoso,
que já destruiu muitos muros e grandes e fortes cidades,
e há de arrasar muitas mais, pois imenso é o poder de seu braço.
Ora façamos conforme o aconselho; obedeçam-me todos:
para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves,
pois é impossível tomar a cidade espaçosa dos Teucros.”
Isso disse ele; calados e quedos os outros ficaram.
é que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa:
“Do meu direito valendo-me, Atrida, começo insurgindo-me
contra tua ideia insensata, sem que isso provoque tua cólera.
Foste o primeiro a acoimar-me de fraco, na frente dos Dânaos,
de ser imbele e de pouco valor. Mas, sobre isso, os Argivos,
tanto os anciões como os moços, já têm uma ideia formada.
Zeus poderoso, nascido de Crono, negou-te uma dádiva:
deu-te, sem dúvida, um cetro, o mais alto penhor do comando,
mas não te deu a coragem, sem dúvida a força mais nobre.
Pensas, então, infeliz, que os Aqueus sejam tão destituídos
Pensas, então, infeliz, que os Aqueus sejam tão destituídos
de varonil decisão para vires propor tal medida?
Se o coração te concita, realmente, a viajar de tornada,
parte: o caminho está franco; na beira da praia os navios
que de Micenas trouxeste, incontáveis, a jeito se encontram.
Outros Acaios aqui ficarão, de cabelos cacheados,
para que os muros de Troia arrasemos; mas mesmo que todos
queiram voltar para a pátria querida nas céleres naves,
nós, a saber, eu e Esténelo, a luta levar haveremos
té que Ílio santa destruamos, que um deus favorável nos trouxe.”
Isso disse ele; os Aqueus prorromperam em grita estrondosa,
de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.¹
No meio deles, então, se levanta Nestor e assim fala:
“Nobre Tidida, na guerra és, sem dúvida alguma, o mais forte,
e nos conselhos excedes a quantos equevos te sejam.
Não poderá, dos Acaios presentes, nenhum censurar-te
por teu discurso, nem mesmo objetar-te; mas foste incompleto.
E que ainda tens pouca idade; podias, até, ser meu filho,
sim, o mais moço de todos. Contudo, falaste com senso.
Quanto disseste aos guerreiros Argivos foi muito oportuno.
Cabe-me, pois tenho orgulho de ser o mais velho de todos,
ora expor tudo com mais suficiência. Ninguém menospreze
minhas palavras, nem inda Agamémnone, o rei poderoso.
Sem ligações de família, ou de tribo, sem lei, sobretudo,
vive quem folga com as lutas terríveis que o povo atormenta.
À negra Noite, no entanto, convém demonstrar obediência.
A refeição preparemos; depois, sentinelas se postem
junto dos fossos abertos do lado de fora dos muros.
Isso aos mais moços inculco; o restante, Agamémnone, arranja
como te for mais do agrado, por seres o chefe supremo.
Ceia aos anciões oferece; isso te orna; não te é vergonhoso.
Cheias as tendas te vejo de vinho, que as naus dos Acaios
dia por dia, através do mar vasto, da Trácia transportam.
Sobram-te dons hospedais, porque em muitos o mando exercitas.
Segue, depois de reunires um número grande de chefes,
o parecer mais prudente, que assaz os Aqueus necessitam
de quem lhes dê bons conselhos, pois junto das naus os imigos
muitas fogueiras mantêm. A quem pode alegrar este quadro?
Ou salvação ou extermínio esta noite trará para o exército.”
Isso disse ele; os presentes, de pronto ao conselho obedecem.
Saem depressa, depois de se armarem, os homens da guarda,
sob o comando do grande Nestórida, o herói Trasimedes,
de Iálmeno, o forte, também, e de Ascálafo, de Ares discípulos,
de Licomedes divino, nascido do forte Creonte,
e dos guerreiros Deípiro, o nobre Afareu e Meríones.
Cada um dos sete guerreiros da guarda cem homens comanda,
todos em fila, munidos de lanças de sombra comprida.
Postam-se todos no espaço que fica entre os muros e o fosso,
e, tendo fogo acendido, cada um o repasto prepara.
Em sua tenda, Agamémnone reúne os anciões do conselho,
aos quais se esmera em servir copioso e variado banquete.
Todos as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas.
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
foi o primeiro a tecer argumentos Nestor de Gerena,
cuja opinião, desde muito, era sempre julgada a mais certa.
Cheio de bons pensamentos, lhes diz, arengando, o seguinte:
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso,
em ti termino; visando-te, vou dar princípio ao discurso,
por comandares a tantos Aquivos e teres do Crônida
o cetro e as leis recebido e o dever de aplicá-las com senso.
Cumpre-te, pois, não somente falar, mas saber dar ouvidos,
Cumpre-te, pois, não somente falar, mas saber dar ouvidos,
sim, conceder atenção, quando alguém for levado a propor-te
algo razoável. Depende de ti pôr em prática a ideia.
Ora pretendo falar como julgo ser mais proveitoso.
Mais salutar opinião não presumo que alguém apresente,
que a defendida por mim, não de agora, somente, de muito,
desde o momento em que tu, nobre garfo de Zeus, foste à tenda
do estomagado Pelida e lhe a jovem de Brisa tiraste,
contra a opinião de nós todos. Ao menos, no que me respeita,
dissuadir-te tentei; mas, levado por teu alto espírito,
o prestantíssimo herói, que até os deuses honrar têm por hábito,
menosprezaste, tomando-lhe o prêmio, que ainda conservas.
Excogitemos, agora, no modo de o herói aplacarmos:
ou com palavras afáveis, ou com valiosos presentes.”
Disse-lhe, então, em resposta, Agamémnone, rei poderoso
“Nessa censura aos meus erros, ó velho! não vejo exagero!
A minha falta foi grande, não posso negá-lo. Por muitos
vale o guerreiro a quem Zeus poderoso dedica alto afeto,
tal como agora o distingue, destruindo as fileiras Aquivas.
Mas, se errei tanto, levado por meu pensamento funesto
quero aplacar o guerreiro com ricos e infindos presentes.
Diante de todos farei relação dessas dádivas grandes:
trípodes sete, sem uso de fogo, dez áureos talentos,
vinte caldeiras brilhantes e doze cavalos robustos,
acostumados a prêmio ganhar, campeões de corrida.
Fora impossível dizer que de campos aráveis carece,
ou do ouro muito apreciado, o indivíduo que vier a possuí-los,
tal a importância dos prêmios que os fortes corcéis me ganharam.
Dou-lhe, outrossim, sete escravas prendadas, trazidas de Lesbo,
quando ele próprio aquela ilha arrasou, e que a mim reservara
por serem todas formosas acima das outras mulheres.
Dou-lhas; mas, a estas, a filha de Crises, ainda, acrescento,
que lhe tirara, fazendo, aqui mesmo, uma jura solene,
de nunca ter ao seu leito subido, nem com ela deitado,
como é costume entre os homens, varões a mulheres se unindo.
Isso darei desde já; mas se os deuses eternos um dia
me permitirem tomar a cidade altanada de Príamo,
entre ele os muros, também, quando a presa os Aqueus dividirmos,
e de ouro e bronze a mancheias seu barco bojudo carregue.
Vinte mulheres Troianas, pode ele apartar, além disso,
as mais formosas depois da mais bela de todas, Helena.
as mais formosas depois da mais bela de todas, Helena.
Se para os campos ubérrimos de Argos de Acaia voltarmos,
seja meu genro; honrá-lo-ei, sem fazer distinção, como a Orestes,
meu filho amado, que vive cercado de grande opulência.
Três filhas tenho em meu bem-construído palácio: Crisótemis,
Ifinassa e Laódice. Aquela que for do seu gosto,
sem que se veja obrigado a pagar dote algum, para casa
leve ao velho Peleu. Preciosíssimos dons lhe acrescento,
em tanta cópia, tal como jamais alcançou filha alguma.
Sete cidades também lhe darei, populosas e belas:
Hira de prados ervosos, Enope e, também, Cardamila,
Feras divina, a dos prados famosos e pingues; Anteia,
Pédaso, célebre por suas vinhas, e Epeia risonha,
todas marinhas, não longe da Pilo de solo arenoso.
Muitos senhores de gado infinito e de armentos vistosos
nelas demoram, que, certo, o honrarão qual a um deus do alto Olimpo,
e que, ao seu cetro submissos, tributos dar-lhe-ão copiosíssimos.
Tudo isso dele será, se quiser dominar sua cólera.
Deixe-se, pois, convencer que, por ser implacável e duro,
Hades é o deus mais odiado por todos os homens terrenos.
Ceda, submeta-se a mim, pois que sou mais potente do que ele,
sobre orgulhar-me, também, da vantagem de ser mais idoso.”
Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos:
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso,
o que ofereces a Aquiles, de fato, não é despiciendo.
Ora, sem perda de tempo, emissários a jeito escolhamos,
para os enviar com recados à tenda de Aquiles Peleio.
Deixa que eu próprio os nomeie; ninguém objeções anteponha.
A direção tome o herói predileto dos deuses, Fenice;
o grande Ajaz, depois, venha, e Odisseu, o divino guerreiro.
Sigam, também, como arautos, Odio e o impecável Euríbates.
As mãos lavemos; observe-se em tudo completo silêncio,
quando imploramos a Zeus que há de ter de nós todos piedade.”
Foi o discurso do velho Nestor agradável a todos.
Fazem vir água, e os arautos por cima das mãos a despejam.
Té pelas bordas escravos as taças encheram de vinho.
Distribuindo por todos os copos as sacras primícias.
Logo que todos haviam comido e bebido à vontade,
os emissários deixaram a tenda do Atrida Agamémnone.
Observações a eles todos o velho Nestor faz ainda,
acompanhadas de olhar expressivo, a Odisseu com mais ênfase,
sobre a maneira melhor de suadir o divino Pelida.
Ambos, então, pela praia do mar ressoante se foram,
preces alçando a Posido, que os muros da terra sacode,
para que fosse possível dobrar o Pelida altanado.
Quando chegaram às tendas e naves dos fortes Mirmídones,
aí enlevado o encontraram tangendo uma lira sonora
de cavalete de prata, toda ela de bela feitura,
que ele do espólio do burgo de Eecião para si separara.
O coração deleitava, façanhas de heróis decantando.
Em frente dele, somente, calado, encontrava-se Pátroclo,
pacientemente a esperar que o Pelida concluísse o seu canto.
Ambos, então, avançaram; servia Odisseu como guia.
Param defronte do herói. Espantado de vê-los, Aquiles,
sem que o instrumento soltasse, a cadeira, de um salto, abandona.
O mesmo Pátroclo fez, ao notar a presença de estranhos.
A ambos, Aquiles veloz cumprimenta, dizendo o seguinte:
“Salve! Bem grave é, sem dúvida, a causa de aqui terdes vindo.
Ainda que muito agastado, sois ambos os que eu mais distingo.”
Tendo isso dito, o divino Pelida os convida a assentar-se
em escabelos forrados com belos tapetes de púrpura.
E, para o herói que se achava ao seu lado, virando-se, fala:
“Pátroclo, põe sobre a mesa uma grande cratera e prepara
vinho bem forte; depois uma taça a cada um oferece.
Sob meu teto ora se acham varões a quem muito distingo.”
Obedeceu, logo, Pátroclo às ordens do amigo dileto.
E, junto ao lar, colocando uma grande e vistosa travessa,
lombos põe nela de cabra e de ovelha de velo nitente,
e o dorso inteiro de um porco selvagem, com muita gordura.
Automedonte o auxiliava; ele próprio as porções determina.
Logo os pedaços retalha e nas postas espetos enfia.
Logo os pedaços retalha e nas postas espetos enfia.
Pátroclo, igual a um dos deuses, prepara uma grande fogueira;
e, quando a lenha ficou toda gasta e o braseiro apagado,
a cinza quente espalhando, assadores sobre ela coloca.
O nobre Aquiles, depois, espalhou sal divino na carne.
Quando toda ela ficou bem assada, nos pratos a deita.
Pão alvo, então, trouxe Pátroclo, em cestas de bela feitura,
que sobre a mesa coloca; o Pelida reparte os assados,
indo sentar-se, a seguir, encostado, no muro do fundo,
em frente ao divo Odisseu. As primícias, então, manda Pátroclo,
seu companheiro, que aos deuses oferte; este, ao fogo as atira.
Todos, as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas.
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
ao forte Ajaz fez Fenice um sinal: Odisseu compreendeu-o;
cheio de vinho um dos copos, a Aquiles, desta arte, saúda:
“Salve, Pelida! De lautos banquetes, de fato, não temos
tido carência. Tal como os do filho de Atreu, Agamémnone,
este que agora nos dás é notável, à vista da grande
variedade de assados. Contudo, em festins não pensamos.
Na expectativa de enormes desgraças, ó aluno de Zeus!
temos receio; é fatal o dilema: ou salvamos as naves,
ou as perdemos, se não te vestires de toda a tua força.
Junto das naves, bem junto, e dos muros, o campo assentaram
os orgulhosos Troianos e aliados de fama excelente.
Por todo o exército queimam fogueiras sem conta. Mais ainda:
dizem que nada os impede de ir ter aos navios escuros.
Zeus poderoso lhes manda sinais favoráveis, fazendo
que lhes troveje à direita. Ensoberba-se Heitor sem medida,
por sua grande bravura; confiando em Zeus forte, não teme
deuses nem homens; terrível furor dele, agora, se apossa.²
continua página 242...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a / Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d /
Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c /
Canto VI.a / Canto VI.b /
Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c / Canto IX.a / Canto IX .b /
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
________________[1] Este belo trecho da Ilíada (tradicionalmente situado no Canto IX, no qual os aqueus enfrentam um momento de profunda desesperança após reveses na guerra) apresenta um dos momentos mais dramáticos e reveladores da relação entre líderes, deuses e guerreiros na épica homérica.
* O Desespero dos Aqueus e a Comparação Homérica
A passagem começa contrapondo a vigília dos troianos ao pânico que consome os gregos (aqui chamados de Aquivos ou Acaios).- O símile do oceano agitado: Para descrever a agitação no coração dos gregos, Homero recorre a uma de suas comparações mais expressivas da natureza. Os ventos violentos (Zéfiro e Bóreas) que agitam o mar piscoso e empurram as ondas e as algas espelham perfeitamente a mente coletiva dos aqueus: desordenada, revolta e instigada por forças externas maiores (neste caso, a pressão da derrota e a vontade divina).
- A vulnerabilidade dos heróis: É marcante ver que "até mesmo os mais destemidos guerreiros a dor os abate" e que o poderoso Agamenon (o filho de Atreu / o Atrida) chora copiosamente, comparado a uma "fonte profunda" de água escura que despenca de um penhasco. Na epopeia, o pranto dos reis não é sinal de fraqueza vergonhosa, mas a expressão legítima de uma dor trágica diante de um fardo intransponível.
* A Culpa Divina e a Proposta de Fuga de Agamenon
Agamenon encarna o peso da responsabilidade e a angústia da liderança sob o desígnio dos deuses:
- A ilusão do favor divino: O rei culpa Zeus (o grande Crônida), acusando-o de trair sua promessa de glória e retorno vitorioso após a queda de Troia (Ílio).
- O teste ou o desespero real: Agamenon propõe abertamente a retirada geral ("para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves"). Embora por vezes se discuta se essa rendição inicial é um teste retórico para medir o ânimo das tropas, o texto transmite uma atmosfera de genuína prostração e exaustão física e mental após anos de cerco infrutífero.
* A Coragem e a Oposição de Diomedes
O silêncio mortal que se segue ao discurso de Agamenon é quebrado pela voz firme de Diomedes (filho de Tideu), um dos maiores heróis aqueus, cuja intervenção marca uma reviravolta moral no trecho:
- Franqueza e autoridade: Diomedes desafia a ordem estabelecida com ousadia, relembrando Agamenon de que, embora tenha recebido de Zeus o cetro do comando supremo, faltou-lhe a virtude mais essencial de um líder em tempos de crise: a coragem (alkē).
- A defesa do Kleos (Glória): Diomedes rejeita categoricamente a covardia e o retorno sem honra. Ele desafia Agamenon a ir embora se quiser, afirmando que ele e Esténelo (seu aliado) permanecerão lutando até destruir Troia, mesmo que todos os outros fujam.
- A reação do exército: A resposta de Diomedes funciona como um catalisador psicológico. A "grita estrondosa" de assentimento dos Aqueus mostra que o exército precisava resgatar sua dignidade guerreira, trocando o desespero paralisante pelo brio heroico.
Este trecho ilustra magistralmente a tensão central da Ilíada: a fragilidade humana diante do destino e da vontade dos deuses, contraposta à ética inflexível da honra heroica. Enquanto Agamenon cede ao peso das circunstâncias e pensa na desistência, Diomedes ergue-se como o baluarte da resistência, reafirmando que o verdadeiro guerreiro homérico prefere perecer a aceitar uma vida sem glória.
[2] Este trecho complementa perfeitamente a leitura do Canto IX da Ilíada, transportando-nos para uma das cenas mais famosas e humanas da epopeia: a Embaixada a Aquiles.
Enquanto a primeira passagem mostrava o pânico e o desespero do exército grego, este trecho revela a intimidade, a hospitalidade e a gravidade diplomática que ocorrem na tenda de Aquiles (o divino Pelida). A análise desta passagem desdobra-se nos seguintes aspectos fundamentais:
* O Banquete Heroico e a Hospitalidade (Xenia)
Antes que qualquer palavra sobre guerra e política seja trocada, Homero segue rigorosamente o código arcaico da hospitalidade (xenia): os hóspedes devem ser recebidos, alimentados e purificados antes de apresentarem suas demandas.
- O papel de Pátroclo: A figura de Pátroclo é central aqui. Ele atua como o braço direito leal, executando as ordens de Aquiles com presteza ("obedecendo ao amigo dileto"). A descrição minuciosa do abate, do corte das carnes (lombos de cabra, ovelha e o dorso de porco selvagem) e do preparo do fogo nos oferece um vislumbre fascinante dos rituais culinários da nobreza micênica.
- O Sagrado e o Profano: O ato de espalhar "sal divino" e de Pátroclo lançar as primícias ao fogo como oferenda aos deuses lembra que o banquete é também um ato religioso. A ordem social é mantida através do compartilhamento da comida e da bebida (cratera de vinho forte).
* A Quebra do Silêncio e a Retórica de Odisseu
Com o apetite saciado, o tom muda. Há um sinal sutil entre Fenice e Ajaz, e Odisseu (o divo Odisseu), conhecido por sua astúcia e eloqüência, toma a palavra para cumprir a missão mais difícil de sua vida: convencer Aquiles a retornar à batalha.
- Diplomacia e bajulação refinada: Odisseu começa reconhecendo a generosidade da mesa de Aquiles ("De lautos banquetes, de fato, não temos tido carência"), criando um ambiente de cortesia antes de expor a verdadeira urgência.
- O senso de iminência do perigo: Odisseu expõe a vulnerabilidade extrema dos aqueus. Os troianos avançaram, acamparam perto dos navios, queimam fogueiras e contam com o favor direto de Zeus (manifestado pelos trovões à direita).
- O apelo à responsabilidade de Aquiles: A fala de Odisseu prepara o terreno para o alerta definitivo: se Aquiles não vestir sua armadura e não usar sua força, a frota grega será destruída, selando o fracasso total da expedição.
Enquanto no primeiro trecho Agamenon chorava e queria fugir, e Diomedes exigia bravura solitária, aqui percebe-se o momento de virada diplomática. Os líderes gregos engolem o orgulho e vão até a tenda daquele que haviam ofendido (Aquiles), implorando por sua ajuda. Este trecho é a calmaria tensa que antecede a famosa e intransigente recusa de Aquiles, marcando o ápice do conflito psicológico e do orgulho ferido que movem a tragédia homérica.
- A vulnerabilidade dos heróis: É marcante ver que "até mesmo os mais destemidos guerreiros a dor os abate" e que o poderoso Agamenon (o filho de Atreu / o Atrida) chora copiosamente, comparado a uma "fonte profunda" de água escura que despenca de um penhasco. Na epopeia, o pranto dos reis não é sinal de fraqueza vergonhosa, mas a expressão legítima de uma dor trágica diante de um fardo intransponível.
* A Culpa Divina e a Proposta de Fuga de Agamenon
Agamenon encarna o peso da responsabilidade e a angústia da liderança sob o desígnio dos deuses:
- A ilusão do favor divino: O rei culpa Zeus (o grande Crônida), acusando-o de trair sua promessa de glória e retorno vitorioso após a queda de Troia (Ílio).
- O teste ou o desespero real: Agamenon propõe abertamente a retirada geral ("para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves"). Embora por vezes se discuta se essa rendição inicial é um teste retórico para medir o ânimo das tropas, o texto transmite uma atmosfera de genuína prostração e exaustão física e mental após anos de cerco infrutífero.
* A Coragem e a Oposição de Diomedes
O silêncio mortal que se segue ao discurso de Agamenon é quebrado pela voz firme de Diomedes (filho de Tideu), um dos maiores heróis aqueus, cuja intervenção marca uma reviravolta moral no trecho:
- Franqueza e autoridade: Diomedes desafia a ordem estabelecida com ousadia, relembrando Agamenon de que, embora tenha recebido de Zeus o cetro do comando supremo, faltou-lhe a virtude mais essencial de um líder em tempos de crise: a coragem (alkē).
- A defesa do Kleos (Glória): Diomedes rejeita categoricamente a covardia e o retorno sem honra. Ele desafia Agamenon a ir embora se quiser, afirmando que ele e Esténelo (seu aliado) permanecerão lutando até destruir Troia, mesmo que todos os outros fujam.
- A reação do exército: A resposta de Diomedes funciona como um catalisador psicológico. A "grita estrondosa" de assentimento dos Aqueus mostra que o exército precisava resgatar sua dignidade guerreira, trocando o desespero paralisante pelo brio heroico.
Este trecho ilustra magistralmente a tensão central da Ilíada: a fragilidade humana diante do destino e da vontade dos deuses, contraposta à ética inflexível da honra heroica. Enquanto Agamenon cede ao peso das circunstâncias e pensa na desistência, Diomedes ergue-se como o baluarte da resistência, reafirmando que o verdadeiro guerreiro homérico prefere perecer a aceitar uma vida sem glória.
[2] Este trecho complementa perfeitamente a leitura do Canto IX da Ilíada, transportando-nos para uma das cenas mais famosas e humanas da epopeia: a Embaixada a Aquiles.
Enquanto a primeira passagem mostrava o pânico e o desespero do exército grego, este trecho revela a intimidade, a hospitalidade e a gravidade diplomática que ocorrem na tenda de Aquiles (o divino Pelida). A análise desta passagem desdobra-se nos seguintes aspectos fundamentais:
* O Banquete Heroico e a Hospitalidade (Xenia)
Antes que qualquer palavra sobre guerra e política seja trocada, Homero segue rigorosamente o código arcaico da hospitalidade (xenia): os hóspedes devem ser recebidos, alimentados e purificados antes de apresentarem suas demandas.
- O papel de Pátroclo: A figura de Pátroclo é central aqui. Ele atua como o braço direito leal, executando as ordens de Aquiles com presteza ("obedecendo ao amigo dileto"). A descrição minuciosa do abate, do corte das carnes (lombos de cabra, ovelha e o dorso de porco selvagem) e do preparo do fogo nos oferece um vislumbre fascinante dos rituais culinários da nobreza micênica.
- O Sagrado e o Profano: O ato de espalhar "sal divino" e de Pátroclo lançar as primícias ao fogo como oferenda aos deuses lembra que o banquete é também um ato religioso. A ordem social é mantida através do compartilhamento da comida e da bebida (cratera de vinho forte).
* A Quebra do Silêncio e a Retórica de Odisseu
Com o apetite saciado, o tom muda. Há um sinal sutil entre Fenice e Ajaz, e Odisseu (o divo Odisseu), conhecido por sua astúcia e eloqüência, toma a palavra para cumprir a missão mais difícil de sua vida: convencer Aquiles a retornar à batalha.
- Diplomacia e bajulação refinada: Odisseu começa reconhecendo a generosidade da mesa de Aquiles ("De lautos banquetes, de fato, não temos tido carência"), criando um ambiente de cortesia antes de expor a verdadeira urgência.
- O senso de iminência do perigo: Odisseu expõe a vulnerabilidade extrema dos aqueus. Os troianos avançaram, acamparam perto dos navios, queimam fogueiras e contam com o favor direto de Zeus (manifestado pelos trovões à direita).
- O apelo à responsabilidade de Aquiles: A fala de Odisseu prepara o terreno para o alerta definitivo: se Aquiles não vestir sua armadura e não usar sua força, a frota grega será destruída, selando o fracasso total da expedição.
Enquanto no primeiro trecho Agamenon chorava e queria fugir, e Diomedes exigia bravura solitária, aqui percebe-se o momento de virada diplomática. Os líderes gregos engolem o orgulho e vão até a tenda daquele que haviam ofendido (Aquiles), implorando por sua ajuda. Este trecho é a calmaria tensa que antecede a famosa e intransigente recusa de Aquiles, marcando o ápice do conflito psicológico e do orgulho ferido que movem a tragédia homérica.
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