sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
             
          Mário não tinha perdido um só pormenor desta cena, e, contudo, na realidade nada tinha visto. Os olhos tinham-lhe ficado fixos na jovem, que ele, para assim dizer, abarcara toda com o coração, apenas ela entrou na mansarda. Durante todo o tempo que ela ali se detivera, o jovem vivera a vida do êxtase que suspende as percepções materiais, fazendo concentrar a alma toda num só ponto. Ele contemplava, não a jovem, mas aquela luz que trazia um mantelete de cem e um chapelinho de veludo. O jovem não ficaria mais deslumbrado do que ficou se naquela sala vesse entrado a estrela Sírio.
     Ao mesmo tempo que a graciosa jovem ia desatando a trouxa, desdobrando a roupa e os cobertores, e fazendo perguntas com bondade à doente e com enternecimento à pequena que se cortara, Mário observava-lhe todos os movimentos e tentava ouvir todas as palavras que ela proferia. Conhecia-lhe os olhos, a fronte, a beleza, a cintura, o andar, só não lhe conhecia o som da voz. Julgara uma ocasião no Luxemburgo que lhe ouvira algumas palavras, mas não tinha a certeza disso. De bom grado dava dez anos da sua vida para a ouvir falar, para poder levar na alma um bocado desta música. Tudo, porém, que a jovem dizia era abafado pelos lamentosos queixumes de Jondrette e pelos seus guinchos, com o que o transportado jovem muito se encolerizava. Mário fitava-lhe os olhos com a maior ternura. Não podia capacitar-se de que era, realmente, aquela criatura divina que ele divisava no meio daqueles imundos entes, naquela mansarda monstruosa. Parecia-lhe um colibri entre sapos.
     Quando ela saiu, o seu pensamento foi segui-la, não a perder de vista, acompanhá-la até saber onde ela morava, ou ao menos não a tornar a perder, depois de a haver encontrado tão miraculosamente. Saltou, pois, abaixo da cômoda e pegou no chapéu, mas, ao deitar a mão ao fecho da porta para sair, suspendeu-o uma reflexão. O corredor era comprido, a escada empinada, Jondrette falador, por isso o senhor Leblanc ainda de certo não se tinha medo na carruagem, e se ele no corredor ou na escada ou no limiar da porta se voltasse, avistá-lo-ia naquela casa, e decerto se assustaria e acharia modo de lhe escapar de novo, e lá ia outra vez tudo. Que fazer? Esperar um bocado? Mas, durante esse tempo de espera, podia a carruagem ir-se embora. Mário estava perplexo. Afinal, aventurou-se a sair do quarto.
     Como no corredor já não encontrasse ninguém, dirigiu-se para a escada, onde também não encontrou vivalma. Desceu, portanto, apressadamente, e chegou ao boulevard a tempo de ver um carro a voltar a esquina da Rua do Petit-Banquier e encaminhar-se para Paris.
     Mário precipitou-se naquela direção, e, chegado ao ângulo do boulevard, tornou a avistar o carro, que seguia rapidamente pela rua Mouffetard; já ia muito distante, tornando-se impossível apanhá-lo; mesmo que ele tentasse isso, deitando a correr com toda a força atrás dele, decerto o avistariam de dentro e o velho o conheceria. Neste momento, porém, singular e maravilhoso acaso, Mário avistou um cabriole de aluguer, que ia a passar pelo boulevard sem ninguém dentro. O único expediente, pois, que tinha a tomar era meter-se no cabriole e seguir o carro. Era uma coisa certa, eficaz e sem perigo.
     Mário fez sinal ao cocheiro para que parasse e gritou-lhe: 

— Por hora!

     Mário estava sem gravata, com o fato velho com que trabalhava, ao qual faltavam alguns botões, e uma camisa rota numa das pregas do peito.
     O cocheiro parou, piscou o olho e estendeu a mão para Mário, esfregando brandamente o índex com o polegar. 

— Que é? — perguntou Mário. 
— Pague adiantado — respondeu o cacheiro.

     O rapaz lembrou-se então de que não trazia consigo senão dezesseis soldos. 

— Quanto? — indagou. 
— Quarenta soldos. 
— Eu pago na volta.

     O cocheiro, por única resposta, pôs-se a assobiar a cantiga de La Palisse e fustigou os cavalos.
     Mário viu partir o cabriole com gesto desvairado. Por vinte e quatro soldos que lhe faltavam, perdia a sua alegria, a sua ventura, o seu amor, ficava outra vez nas trevas, tornava a cegar, depois de ter visto! Lembrou-se então amargamente, e, devemos dizê-lo, com profundo pesar, dos cinco francos que pela manhã dera à miserável rapariga, filha do seu vizinho Jondrette. Se ele ali tivesse esses cinco francos, estava salvo, renasceria, sairia dos limbos e das trevas, sairia do isolamento, do spleen, da viuvez, tornaria a atar o fio negro do seu destino àquele belo fio de ouro que há um instante lhe flutuara diante dos olhos, quebrando-se ainda outra vez!
     Mário entrou em casa no cúmulo do desespero.
     Pudera servir-lhe de lenitivo a lembrança, de que o senhor Leblanc prometera voltar de tarde e que então tomaria melhor as suas precauções para o seguir; o jovem, porém, alheado na sua contemplação, mal ouvira a promessa do velho.
     Na ocasião em que ia a subir a escada, avistou do outro lado do boulevard, junto da parede deserta da rua da Barreira dos Gobelinos, Jondrette, vestido com o sobretudo do «filantropo», a falar com um desses homens de aspecto pouco tranquilizador, a quem por convenção chamamos vagabundos das barreiras; homens de rostos equívocos e monólogos suspeitos, que têm ar de más intenções e que de ordinário dormem de dia, o que faz supor que trabalham de noite.
     Estes dois homens parados a conversar, apanhando a neve que caía em espessos flocos, formavam um grupo, que um agente de polícia com certeza se poria a observar, mas em que Mário mal fez reparo.
     Não obstante, porém, a grande preocupação que o agitava, não pôde deixar de notar que aquele vagabundo das barreiras com quem Jondrette estava a falar se parecia com um certo Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, que Courfeyrac uma vez lhe mostrara, e que passava no bairro por um perigoso passeante noturno. O leitor já no livro precedente viu o nome deste homem. O tal Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, veio depois a figurar em muitos processos criminais, o que o tornou célebre entre os gatunos. Neste tempo não passava de um famoso gatuno. Hoje apenas resta dele uma vaga tradição entre os salteadores e ratoneiros. Fazia escola pelos fins do último reinado. Ao cair da noite, à hora em que se formam os grupos falando em voz baixa, conversava-se a respeito dele na Force, na Cova dos Leões. Podia-se até, na prisão, justamente no sítio em que por baixo do caminho de circunvalação passava o cano das latrinas, por onde em 1843 conseguiram evadir-se, em pleno dia, trinta presos, podia-se ler, logo por cima, o seu nome — PANCHAUD — audaciosamente gravado por ele no muro de circunvalação, numa das suas tentativas de evasão.
     Em 1832 já a polícia o vigiava, porém ainda ele não tinha feito a sua estreia de um modo sério.

continua na página 571...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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[1] "Aluguer"... significa a cedência provisória do uso de um bem mediante pagamento, equivalente a aluguéis ou arrendamentos. A palavra "aluguer" refere-se à cedência temporária do uso ou usufruto de um bem, que pode ser um imóvel, veículo, objeto ou serviço, mediante pagamento de um valor previamente acordado, ou seja, trata-se de aluguel ou arrendamento. "Alugueres" é o plural de "aluguer" e é mais comum em Portugal e em contextos jurídicos. No Brasil, a forma equivalente é "aluguéis," plural de "aluguel," sendo a forma mais usada no português brasileiro. Ambas as formas são corretas gramaticalmente, mas a escolha depende da variante do português utilizada.

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