Terceira Parte - Mário
Como no corredor já não encontrasse ninguém, dirigiu-se para a escada, onde
também não encontrou vivalma. Desceu, portanto, apressadamente, e chegou ao
boulevard a tempo de ver um carro a voltar a esquina da Rua do Petit-Banquier e
encaminhar-se para Paris.Livro Oitavo — O mau pobre
X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
Mário não tinha perdido um só pormenor desta cena, e, contudo, na realidade nada tinha visto. Os olhos tinham-lhe ficado fixos na jovem, que ele, para assim dizer,
abarcara toda com o coração, apenas ela entrou na mansarda. Durante todo o tempo
que ela ali se detivera, o jovem vivera a vida do êxtase que suspende as percepções
materiais, fazendo concentrar a alma toda num só ponto. Ele contemplava, não a jovem,
mas aquela luz que trazia um mantelete de cem e um chapelinho de veludo. O jovem
não ficaria mais deslumbrado do que ficou se naquela sala vesse entrado a estrela
Sírio.
Ao mesmo tempo que a graciosa jovem ia desatando a trouxa, desdobrando a roupa e
os cobertores, e fazendo perguntas com bondade à doente e com enternecimento à
pequena que se cortara, Mário observava-lhe todos os movimentos e tentava ouvir
todas as palavras que ela proferia. Conhecia-lhe os olhos, a fronte, a beleza, a cintura, o
andar, só não lhe conhecia o som da voz. Julgara uma ocasião no Luxemburgo que lhe
ouvira algumas palavras, mas não tinha a certeza disso. De bom grado dava dez anos da
sua vida para a ouvir falar, para poder levar na alma um bocado desta música. Tudo,
porém, que a jovem dizia era abafado pelos lamentosos queixumes de Jondrette e pelos
seus guinchos, com o que o transportado jovem muito se encolerizava. Mário fitava-lhe
os olhos com a maior ternura. Não podia capacitar-se de que era, realmente, aquela
criatura divina que ele divisava no meio daqueles imundos entes, naquela mansarda
monstruosa. Parecia-lhe um colibri entre sapos.
Quando ela saiu, o seu pensamento foi segui-la, não a perder de vista, acompanhá-la
até saber onde ela morava, ou ao menos não a tornar a perder, depois de a haver
encontrado tão miraculosamente. Saltou, pois, abaixo da cômoda e pegou no chapéu,
mas, ao deitar a mão ao fecho da porta para sair, suspendeu-o uma reflexão. O corredor
era comprido, a escada empinada, Jondrette falador, por isso o senhor Leblanc ainda de
certo não se tinha medo na carruagem, e se ele no corredor ou na escada ou no limiar
da porta se voltasse, avistá-lo-ia naquela casa, e decerto se assustaria e acharia modo de
lhe escapar de novo, e lá ia outra vez tudo. Que fazer? Esperar um bocado? Mas, durante
esse tempo de espera, podia a carruagem ir-se embora. Mário estava perplexo. Afinal,
aventurou-se a sair do quarto.
Mário precipitou-se naquela direção, e, chegado ao ângulo do boulevard, tornou a
avistar o carro, que seguia rapidamente pela rua Mouffetard; já ia muito distante,
tornando-se impossível apanhá-lo; mesmo que ele tentasse isso, deitando a correr
com toda a força atrás dele, decerto o avistariam de dentro e o velho o conheceria.
Neste momento, porém, singular e maravilhoso acaso, Mário avistou um cabriole de
aluguer, que ia a passar pelo boulevard sem ninguém dentro. O único expediente, pois,
que tinha a tomar era meter-se no cabriole e seguir o carro. Era uma coisa certa, eficaz e
sem perigo.
Mário fez sinal ao cocheiro para que parasse e gritou-lhe:
— Por hora!
Mário estava sem gravata, com o fato velho com que trabalhava, ao qual faltavam alguns botões, e uma camisa rota numa das pregas do peito.
Mário estava sem gravata, com o fato velho com que trabalhava, ao qual faltavam alguns botões, e uma camisa rota numa das pregas do peito.
O cocheiro parou, piscou o olho e estendeu a mão para Mário, esfregando
brandamente o índex com o polegar.
— Que é? — perguntou Mário.
— Pague adiantado — respondeu o cacheiro.
O rapaz lembrou-se então de que não trazia consigo senão dezesseis soldos.
O rapaz lembrou-se então de que não trazia consigo senão dezesseis soldos.
— Quanto? — indagou.
— Quarenta soldos.
— Eu pago na volta.
O cocheiro, por única resposta, pôs-se a assobiar a cantiga de La Palisse e fustigou os cavalos.
O cocheiro, por única resposta, pôs-se a assobiar a cantiga de La Palisse e fustigou os cavalos.
Mário viu partir o cabriole com gesto desvairado. Por vinte e quatro soldos que lhe
faltavam, perdia a sua alegria, a sua ventura, o seu amor, ficava outra vez nas trevas,
tornava a cegar, depois de ter visto! Lembrou-se então amargamente, e, devemos dizê-lo, com profundo pesar, dos cinco francos que pela manhã dera à miserável rapariga,
filha do seu vizinho Jondrette. Se ele ali tivesse esses cinco francos, estava salvo,
renasceria, sairia dos limbos e das trevas, sairia do isolamento, do spleen, da viuvez,
tornaria a atar o fio negro do seu destino àquele belo fio de ouro que há um instante lhe
flutuara diante dos olhos, quebrando-se ainda outra vez!
Mário entrou em casa no cúmulo do desespero.
Pudera servir-lhe de lenitivo a lembrança, de que o senhor Leblanc prometera voltar
de tarde e que então tomaria melhor as suas precauções para o seguir; o jovem, porém,
alheado na sua contemplação, mal ouvira a promessa do velho.
Na ocasião em que ia a subir a escada, avistou do outro lado do boulevard, junto da
parede deserta da rua da Barreira dos Gobelinos, Jondrette, vestido com o sobretudo do
«filantropo», a falar com um desses homens de aspecto pouco tranquilizador, a quem
por convenção chamamos vagabundos das barreiras; homens de rostos equívocos e
monólogos suspeitos, que têm ar de más intenções e que de ordinário dormem de dia, o
que faz supor que trabalham de noite.
Estes dois homens parados a conversar, apanhando a neve que caía em espessos
flocos, formavam um grupo, que um agente de polícia com certeza se poria a observar,
mas em que Mário mal fez reparo.
Não obstante, porém, a grande preocupação que o agitava, não pôde deixar de notar
que aquele vagabundo das barreiras com quem Jondrette estava a falar se parecia com
um certo Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, que
Courfeyrac uma vez lhe mostrara, e que passava no bairro por um perigoso passeante
noturno. O leitor já no livro precedente viu o nome deste homem. O tal Panchaud,
conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, veio depois a figurar em
muitos processos criminais, o que o tornou célebre entre os gatunos. Neste tempo não
passava de um famoso gatuno. Hoje apenas resta dele uma vaga tradição entre os
salteadores e ratoneiros. Fazia escola pelos fins do último reinado. Ao cair da noite, à
hora em que se formam os grupos falando em voz baixa, conversava-se a respeito dele
na Force, na Cova dos Leões. Podia-se até, na prisão, justamente no sítio em que por
baixo do caminho de circunvalação passava o cano das latrinas, por onde em 1843
conseguiram evadir-se, em pleno dia, trinta presos, podia-se ler, logo por cima, o seu
nome — PANCHAUD — audaciosamente gravado por ele no muro de circunvalação,
numa das suas tentativas de evasão.
Em 1832 já a polícia o vigiava, porém ainda ele não tinha feito a sua estreia de um
modo sério.
continua na página 571...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
_________________[1] "Aluguer"... significa a cedência provisória do uso de um bem mediante pagamento, equivalente a aluguéis ou arrendamentos. A palavra "aluguer" refere-se à cedência temporária do uso ou usufruto de um bem, que pode ser um imóvel, veículo, objeto ou serviço, mediante pagamento de um valor previamente acordado, ou seja, trata-se de aluguel ou arrendamento. "Alugueres" é o plural de "aluguer" e é mais comum em Portugal e em contextos jurídicos. No Brasil, a forma equivalente é "aluguéis," plural de "aluguel," sendo a forma mais usada no português brasileiro. Ambas as formas são corretas gramaticalmente, mas a escolha depende da variante do português utilizada.
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