Mostrando postagens com marcador Guermantes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guermantes. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Marcel Proust - O Caminho de Guermantes (2a.Parte - Acaba enterrando a todos nós!)

em busca do tempo perdido

volume III
O Caminho de Guermantes

Segunda Parte

Capítulo Segundo

continuando...

     Entretanto, o duque não cessara de encarar fixamente a mulher: 

- Oriane, precisaria pelo menos contar a verdade e não engolir metade dela. É preciso dizer - retificou, dirigindo-se a Swann que a embaixatriz da Inglaterra naquela ocasião, uma boa mulher, mas que, um pouco no mundo da lua e era useira e vezeira nesse tipo de indecência, tivera a ideia bem extravagante de convidar-nos junto com o doente e sua esposa. Ficamos, até Oriane e eu, bastante surpresos, tanto mais que a embaixatriz conhecia as mesmas pessoas que nós para não nos convidar justamente para uma reunião tão estranha. Havia um ministro que orou mas enfim passo uma esponja sobre isso, nós não tínhamos sido avisados, caímos na armadilha; mas é preciso reconhecer, aliás, que toda essa gente era muito polida. Só que aquilo já era demais. A Sra. de Guermantes, nem sempre me dá a honra de me consultar, julgou dever deixar seu castelo no Élysées. Gilbert talvez tenha ido um pouco longe, ao ver nisso uma é espécie de mancha sobre o nosso nome. Mas não convém esquecer que, à parte, o Sr. Carnot, que de resto ocupava muito convenientemente seu posto, era neto de um membro do tribunal revolucionário que mandava matar num só dia onze dos nossos. 
- Pois então, Basin, por que é que você ia jantar todas as noites em Chantilly? O duque de Aumale não era menos neto de um membro do tribunal revolucionário, com a diferença de que Carnot era um homem correto e Philippe-Égalité um tremendo canalha. 
- Desculpe-me interrompê-los para dizer que mandei a fotografia. - disse Swann. - Não compreendo como não tenha sido entregue. 
- Isso me deixa só meio espantada - observou a duquesa. Meus criados dizem-me apenas o que julgam necessário. Provavelmente não apreciam a Ordem de São João. - E tocou a campainha. 
- Você sabe, Oriane, que, quando eu ia jantar em Chantilly, era sem entusiasmo. 
- Sem entusiasmo, mas com camisola de dormir para o caso de príncipe convidá-lo para passar a noite, o que aliás raramente fazia; um perfeito grosseirão que era, feito todos os Orléans... Sabe com quem jantaremos na casa da Sra. de Saint-Euverte? - perguntou a Sra. de Guermantes ao marido. - Fora os convidados que você já sabe, estará, convidado à última hora, o irmão do rei Teodósio.

     A essa notícia, os traços da duquesa respiraram satisfação, e as palavras de tédio: 

- Ah, meu Deus; mais príncipes. 
- Mas este é gentil e inteligente - disse Swann. 
- Mas, mesmo assim, não completamente -respondeu a duquesa, dando a impressão de escolher as palavras para conferir mais novidade a seu pensamento. - Já repararam que, entre os príncipes, os mais inteligentes não o são inteiramente? Claro que sim, asseguro-lhes! É preciso ter sempre uma opinião sobre tudo. Então, como não possuem nenhuma, passam a primeira parte de suas vidas perguntando as nossas, e a segunda a nos tornar a servi-las. É absolutamente necessário que digam que isto foi bem representado, que aquilo não foi representado tão bem. Não há qualquer diferença. Vejam, este jovem Teodósio Caçula (não me recordo de seu nome) me perguntou como se chamava um motivo de orquestra. Respondi -disse a duquesa, de olhos brilhantes e desatando a rir com os lindos lábios vermelhos que se chamava um "motivo de orquestra". Pois bem; no fundo ele não ficou satisfeito. Ah, meu querido Charles - prosseguiu a Sra. de Guermantes com ar lânguido -, como pode ser aborrecido jantar fora! Há noites em que seria preferível morrer! É verdade que morrer talvez também seja tão tedioso, pois não se sabe de que se trata.

     Surgiu um lacaio. Era o jovem noivo que tivera desavenças com o porteiro até que a duquesa, na sua bondade, estabelecera uma paz aparente entre ambos. 

- Deverei ir esta noite pedir notícias do Sr. marquês d'Osmond? - indagou ele. 
- De jeito nenhum, nada disso antes de amanhã de manhã! Nem quero que você permaneça na sua casa esta noite. O lacaio do marquês, que você conhece, não teria mais que vir lhe dar as notícias e dizer que fosse nos procurar. Saia, vá para onde quiser, caia na esbórnia, durma fora, não quero saber de você antes de amanhã cedo.

     Uma alegria imensa transbordou do rosto do lacaio. Enfim ia poder passar longas horas com sua prometida, a quem quase não via mais desde que, após uma nova cena com o porteiro, a duquesa gentilmente lhe explicara que era melhor não sair para evitar novos conflitos. À ideia de que por fim teria uma noite livre, o lacaio nadava em felicidade. A duquesa o percebeu e compreendeu. Sentiu um aperto no coração e uma alegria em todos os membros à vista daquela felicidade que sentiam sem o seu consentimento, escondendo-se dela, e que a irritava e enciumava. 

- Não, Basin, pelo contrário, que ele permaneça aqui, que não se mexa da casa. 
- Mas Oriane, isto é um absurdo; todos os seus criados estão aqui; e, além disso, você terá à meia-noite a camareira e o roupeiro para o baile à fantasia. Ele não vai servir para coisa nenhuma, e, como só ele é amigo do lacaio de Mamá, prefiro mil vezes mandá-lo para longe daqui. 
- Escute, Basin deixe-me; terei justamente de lhe mandar dizer algo esta noite, não sei bem a que horas. Não saia daqui um só minuto - disse ela ao lacaio desesperado.

     Se sempre havia discussões e se os criados ficavam pouco na casa da duquesa, a pessoa a quem se devia atribuir essa guerra contínua era bastante inenarrável, mas não se tratava do porteiro. Sem dúvida para barulhos mais rudes, para os martírios mais cansativos a infligir, para os quais terminavam em pancadaria, a duquesa lhe confiava os instrumentos; além do mais, ele desempenhava seu papel sem imaginar que o haviam confiado. Como os criados, admirava a bondade da duquesa; os lacaios pouco esclarecidos vinham, depois de ser despedidos, muitas vezes com Françoise, afirmando que a casa do duque teria sido o lugar de Paris se não fosse a portaria. A duquesa manobrava a portaria se manobrou por muito tempo o clericalismo, a franco maçonaria, o povo judeu, etc.. Um lacaio entrou. 

- Por que não mandaram subir o pacote que o Sr. Swann trouxe? Mas a propósito (você sabe que Mamá está muito doente, Charlus), quem foi buscar notícias do Sr. marquês d'Osmond já voltou? 
- Acabou de chegar, senhor duque. Espera-se que o senhor marquês faleça de um momento para o outro. 
 - Ah, ele está vivo! - exclamou o duque com um suspiro de alívio. - Espera-se, espera-se! Grande agoureiro é você! Enquanto há vida, há esperança - disse-nos o duque com ar satisfeito. - Pintavam-no como já morto e enterrado. Dentro de oito dias estará mais galhardo que eu. 
- Os médicos é que disseram que ele não passaria desta noite eles queriam voltar durante a madrugada. O chefe disse que era inútil, pois o senhor marquês já deveria estar morto. Só sobreviveu graças às lavagens de óleo canforado 
- Cale-se, pedaço de asno - gritou o duque no auge da cólera. - Quem lhe está perguntando tudo isso? Você não compreendeu nada do que lhe disseram. 
- Não foi a mim, foi a Jules. 
- Vai calar ou não? - o duque; e, voltando-se para Swann - Que felicidade que esteja vivo! Vai readquirir as forças pouco a pouco. Estar vivo depois de semelhante crise. Já é uma coisa excelente. Não se pode pedir tudo ao mesmo tempo. Uma pequena lavagem a óleo canforado não deve ser desagradável - disse o duque esfregando as mãos. - Ele está vivo, que mais querem? Depois de ter passado pelo que passou, já é muito bom. É mesmo de dar inveja uma compleição destas. Ah, os doentes! Tem-se por eles, uns cuidados que não têm para conosco. Hoje de manhã, o diabo do cozinheiro me fez uma perna de carneiro assada, com molho bearnês, reconheço que foi caprichado, mas justamente por isso comi tanto que ainda me pesa no estômago. O que não impede que venham pedir notícias minhas, como as vão pedir ao meu caro Amanien. Pedem até demais. Isto cansa. É preciso deixá-lo respirar. Matam-no, indo saber a todo instante notícias suas. 
- Muito bem! - disse a duquesa ao lacaio que se retirava. - Eu havia dito que me subissem a fotografia envelopada que o Sr. Swann me mandou. 
- Senhora duquesa, é tão grande que não sei se passaria pela porta. Deixamo-la no vestíbulo. A senhora duquesa quer que a traga? 
- Bem, neste caso não; deveriam ter-me dito; mas, se é tão grande, eu a verei daqui a pouco ao descer. 
- Também esqueci de dizer à senhora que a senhora condessa Molé deixara hoje de manhã um cartão de visitas para a senhora duquesa. 
- Como, hoje de manhã? - exclamou a duquesa com ar descontente e achando que uma senhora tão jovem não podia se permitir deixar cartões de visita pela manhã. 
- Cerca das dez horas, senhora duquesa. 
- Mostre-me os cartões. 
- Em todo caso, Oriane, quando você diz que Marie teve uma ideia esquisita em se casar com Gilbert - prosseguiu o duque, voltando à sua primeira conversa -, é você mesma quem tem um modo singular de escrever a história. Se alguém foi idiota nesse casamento, foi Gilbert, por ter desposado justamente uma parenta tão próxima do rei dos belgas, que usurpou o nome de Brabante, que nos pertence. Numa palavra, somos do mesmo sangue dos Hesse, e do ramo mais antigo. É sempre cabotino falar de si mesmo - disse ele dirigindo-se a mim. - Mas, afinal, quando estivemos não só no Darmstadt, mas até no Cassei e em todo o Hesse eleitoral, todos os landgraves sempre fizeram notar amavelmente que nos cediam o passo e o primeiro lugar, visto sermos nós do ramo mais antigo. 
- Mas afinal, Basin, não me venha contar que aquela pessoa que era major em todos os regimentos de seu país, que noivou com o rei da Suécia... 
- Oh, Oriane, esta é forte demais! Dir-se-ia que você não sabe que o avô do rei da Suécia cultivava a terra em Pau, quando fazia novecentos anos que já pertencíamos à mais alta estirpe da Europa. 
- Isto não impede que quando se dizia na rua: "Vejam, eis o rei da Suécia", todo mundo corresse para vê-lo até a Praça da Concórdia, e, se disserem: "Eis o Sr. de Guermantes", ninguém saiba quem seja. 
- Eis já uma razão! 
- Aliás, não posso compreender como, desde o momento em que o título de duque de Brabante passou para a família real da Bélgica, você possa ter pretensões a ele.

     O lacaio voltou com o cartão de visitas da condessa Molé, ou antes, com o que ela deixara como cartão. Alegando não ter nenhum consigo, tirara do bolso uma carta que havia recebido e, guardado o conteúdo, dobrara o canto do envelope que trazia o nome: "A condessa Molé". Como o envelope era muito grande, de acordo com o formato do papel para que estava em moda naquele ano, esse "cartão", manuscrito, tinha quase o dobro do tamanho de um cartão de visitas comum. 

- É o que se chama a simplicidade da Sra. Molé - disse a duquesa com ironia. - Quer nos fazer acreditar que não tinha cartão de visitas para mostrar a sua originalidade. Mas nós conhecemos tudo isso (não é mesmo, meu caro, Charlus?); somos nós próprios bastante velhos e originais, para aprender com o espírito de uma damazinha que estreou há quatro anos; é encantadora, mas ainda assim não me parece possuir lastro suficiente, imaginar que possa espantar a alta sociedade com coisa tão trivial como deixar um envelope feito fosse um cartão de visitas, e deixá-lo às dez da manhã. A rata velha da sua mãe lhe mostrará que sabe tanto quanto ela sobre esse capítulo.

     Swann não pôde se abster de sorrir pensando que a duquesa, aliás era um tanto ciumenta do sucesso da Sra. Molé, julgaria bem definido "espírito dos Guermantes" alguma resposta impertinente a propósito da visitante. 

- Quanto ao título de duque de Brabant, já lhe disse cem vez, Oriane...- continuou o duque, a quem a duquesa cortou a palavra 
- Mas meu caro Charlus, incomodo-me com a sua fotografia. 
- Ah! extinctor draconis latrator Anúbis - disse Swann. [Matador do dragão, ladrador Anúbis] 
- Sim, é tão bonito o que você me disse sobre isso em comparação com o São Jorge de Veneza. Mas não entendo por que Anúbis. 
- Como é aquele que é antepassado de Babal? - indagou o Sr. de Guermantes. 
- Você queria ver a sua baballe - disse a Sra. de Guermantes no tom seco, para mostrar que ela própria desprezava esse trocadilho. - Queria vê-los a todos - acrescentou. 
- Escute, Charlus, desçamos para esperar que o carro fique pronto - disse o duque -; você nos fará sua visita no vestíbulo, pois minha mulher não nos deixará em paz enquanto não tiver visto a sua fotografia. Para falar a verdade, estou menos impaciente - acrescentou com ar de satisfação. 
- Sou um homem calmo, mas ela é bem capaz de nos fazer morrer se não o vir. - Sou inteiramente de sua opinião, Basin - disse a duquesa -; vamos para o vestíbulo e pelo menos ficamos sabendo por que é que viemos do seu gabinete, ao passo que jamais saberemos por que viemos dos condes de Brabant. 
- Já lhe repeti cem vezes de que modo o título entrou na casa de Hesse - disse o duque (enquanto íamos ver a fotografia e eu pensava naquelas que Swann me trazia em Combray) -; pelo casamento de um Brabant, em 1241, com a filha do último landgrave da Turíngia e de Hesse, de forma que foi antes o título de príncipe de Hesse que entrou na casa de Brabant do que o de duque de Brabant na casa de Hesse. De resto, você se lembra que o nosso grito de guerra era o dos duques de Brabant: "Limburgo a quem o conquistou", até que trocamos as armas dos Brabants pelas dos Guermantes, no que aliás creio que fizemos mal, e o exemplo dos Gramonts não contribuiu para me fazer mudar de opinião. 
- Mas - respondeu a Sra. de Guermantes - como foi o rei dos belgas que o conquistou... Além disso, o herdeiro da Bélgica chama-se duque de Brabant. 
- Mas, minha filha, o que você diz não tem pé nem cabeça e peca pela base. Sabe tão bem quanto eu que existem títulos de pretensão que subsistem perfeitamente se o território é ocupado por um usurpador. Por exemplo, o rei da Espanha se intitula precisamente duque de Brabant, invocando desse modo uma possessão menos antiga que a nossa, porém mais antiga que a do rei dos belgas. Ele também se diz duque de Borgonha, rei das Índias Ocidentais e Orientais, e duque de Milão. Ora, ele não possui mais a Borgonha, as Índias ou o Brabant do que eu próprio possuo este último, como igualmente o não possui o príncipe de Hesse. Da mesma forma, o rei da Espanha nem por isso deixa de proclamar-se rei de Jerusalém, o mesmo fazendo o imperador da Áustria, e nem um nem outro possuem Jerusalém.

     Parou por um instante, no constrangimento de que o nome de Jerusalém pudesse deixar Swann embaraçado, devido aos "casos em andamento", mas prosseguiu tanto mais rápido: 

- O que você está dizendo, pode dizer de tudo. Fomos duque de Aumale, ducado que passou tão regularmente para a casa da França como Joinville e Chevreuse para a casa de Alberto. Não erguemos mais reivindicações sobre esses títulos do que sobre o de marquês de Noirmoutiers, que foi nosso e se tornou bem regularmente apanágio da casa de La Trémoille, mas, pelo fato de que certas cessões sejam válidas, não se conclui que todas o sejam. Por exemplo - disse ele voltando-se para mim -, o filho da minha cunhada ostenta o título de príncipe de Agrigento, que nos vem de Joana a Louca, como aos de La Trémoille o de príncipe de Tarento. Napoleão deu esse título de Tarento a um soldado, que aliás podia ser excelente veterano, mas nisso o imperador dispôs do que ainda menos pertencia do que Napoleão III, ao fazer um duque de Montmorency, Périgord tinha ao menos por mãe uma Montmorency, ao passo que o Tarento de Napoleão I só possuía de Tarento a vontade do imperador de que ele fosse. Isto não impediu Chaix d'Est-Ange, fazendo alusão ao nosso tio Cote de perguntar ao procurador imperial se ele fora pegar o título de duque, Montmorency nos fossos de Vincennes. 
- Escute, Basin, não peço nada melhor que segui-lo aos fossos de Vincennes e até a Tarento. E a propósito, meu caro Charlus, é justamente o que eu queria lhe dizer enquanto me falava do seu São Jorge de Veneza que eu e Basin temos a intenção de passar a primavera próxima na Itátiê e na Sicília. Se viesse conosco, veja como seria diferente! Não falo apenas da alegria de vê-lo, mas imagine, com tudo o que me contou muitas vezes sobre os vestígios da conquista normanda e os vestígios da antiguidade; imagine o que seria uma viagem como essa, feita em sua companhia, quer dizer que até Basin que digo! Até Gilbert tirariam proveito dela, pois sinto que mesmo as pretensões à coroa de Nápoles e todas essas imaginações me interessariam, caso fossem explicadas por você nas velhas igrejas romanas ou em pequenas aldeias empoleiradas como nos quadros dos primitivos. Mas vamos olhar a sua fotografia. Desfaça o embrulho - disse a duquesa a um lacaio. 
- Mas, Oriane, esta noite não! Você poderá vê-la amanhã - o duque, que já me fizera sinais de terror ao ver o tamanho da fotografia. 
- Mas agrada-me ver isto na companhia de Charlus - retorquiu a duquesa com um sorriso a um tempo fingidamente sensual e finamente psicológico, pois, em seu desejo de ser amável para com Swann, falava do prazer que sentiria em contemplar essa fotografia como do prazer que um enfermo teria em chupar uma laranja, ou como se, ao mesmo tempo, combinasse uma escapada com amigos ou informasse a um biógrafo sobre os gostos lisonjeiros para ela. 
- Pois bem, ele virá visitá-la expressamente para isso - declarou o duque, a quem a mulher teve de ceder. - Vocês vão passar três horas juntos diante da fotografia, se lhes agrada - disse ele ironicamente. - Mas onde vai pôr um troço desse tamanho? 
- Mas no meu quarto; quero tê-lo diante dos olhos. 
- Ah, como quiser; se ficar no seu quarto, terei chances de não vê-lo nunca mais - disse o duque, sem pensar na revelação que fazia tão estouvadamente sobre a natureza negativa de suas relações conjugais. 
- Pois bem, você vai desembrulhar isto com todo o cuidado - ordenou a Sra. de Guermantes ao criado (ela multiplicava as recomendações para ser amável com Swann). 
- Não estrague também o envelope! 
- Precisaremos respeitar até o envelope! - disse-me baixinho o duque, erguendo as mãos para o céu. 
- Mas, Swann. - acrescentou - eu, que não passo de um pobre marido bem prosaico, o que me admira nisso tudo é que você tenha podido achar um envelope dessas dimensões. Onde desencravou isso? 
- É a casa de fotogravuras que frequentemente faz esse tipo de remessas. Mas o dono é um grosseirão, pois vejo que sobrescritou "Duquesa de Guermantes", sem "Senhora". 
- Perdoo-lhe - disse distraidamente a duquesa, que, parecendo subitamente invadida por uma ideia que a alegrava, reprimiu um leve sorriso, mas voltando logo a Swann: 
- E então, não diz se vai conosco à Itália? 
- Senhora, acho que não será possível. 
- Então a Sra. de Montmorency tem mais sorte. O senhor esteve com ela em Veneza e Vicenza. Ela me disse que, na sua companhia, viam-se coisas que a gente jamais veria sozinha, de que ninguém nunca havia falado, que o senhor lhe mostrou coisas espantosas e, mesmo nas coisas conhecidas, disse que pôde compreender detalhes diante dos quais, sem o senhor, teria passado vinte vezes sem nunca notá-los. Decididamente, foi mais beneficiada que nós... Tome o imenso envelope de fotografias do Sr. Swann - disse ela ao criado - vá pô-lo, dobrado num canto, de minha parte, às dez e meia da noite, na casa da Sra. condessa de Molé.

     Swann deu uma gargalhada. 

- Mesmo assim gostaria de saber - disse-lhe a Sra. de Guermantes - como, com dez meses de antecipação, o senhor pode saber que será impossível? 
- Minha cara duquesa, eu lhe direi, se faz muita questão; mas, antes de tudo, pode ver como estou doente. 
- Sim, meu caro Charlus, acho que está com uma cara nada boa, não estou contente com sua cor; mas não lhe peço isso para daqui a oito dias, peço-lhe para daqui a dez meses. Em dez meses a gente tem tempo de se curar, você sabe.

     Nesse momento, um lacaio veio anunciar que o carro já estava parado. 

- Vamos, Oriane, a cavalo - disse o duque, que já batia os pés de impaciência há alguns instantes, como se ele próprio fosse um dos cavalos que esperavam. 
- Pois bem, numa palavra, qual o motivo que o impedirá de ir à Itália? - indagou a duquesa, levantando-se para se despedir de nós. 
- Mas, minha cara amiga, é que já estarei morto há vários meses. Segundo os médicos que consultei, no fim do ano o mal de que sofro e aliás, pode me levar de repente, em todo caso não me deixará mais de três, ou quatro meses de vida. E isto ainda é um grande maximum - respondeu Swann sorrindo, enquanto um lacaio abria a porta envidraçada do vestíbulo, para deixar passar a duquesa. 
- Que é que está me dizendo? - exclamou a duquesa, deteve-se por um segundo em seu caminho para o carro, e erguendo os olhos azuis e melancólicos, mas cheios de incerteza. Colocada pela primeira vez na vida entre dois deveres tão diversos como subir para o carro a fim de ir jantar fora, e manifestar piedade por um homem que vai morrer, ela não via nada no código das conveniências que indicasse a jurisprudência a seguir e, não sabendo a que dar a primazia, julgou dever fazer cara de não acreditar que a segunda alternativa ocorresse, de modo a obedecer à primeira, que naquele momento exigia menos esforço; e pensou que a melhor maneira de resolver o conflito era negá-lo: 
- Está gracejando? - perguntou à Swann. 
- Seria um gracejo de gosto encantador - respondeu ironicamente Swann. - Não sei por que lhe digo isto, até hoje não lhe havia falado da minha doença. Mas, como me perguntou e que agora posso morrer de um dia para o outro... Mas sobretudo não desejo que se atrase, vai jantar - acrescentou ele, porque sabia que, para os outros, seus próprios compromissos mundanos têm prioridade sobre a morte de um amigo, e que ele se punha no lugar deles graças à sua polidez. Porém a da duquesa permitia a esta perceber também, confusamente, que o jantar ao qual compareceria devia contar menos para Swann que a sua própria morte. Assim, continuando o seu caminho na direção do carro, deu de ombros dizendo: 
- Não se preocupe com esse jantar. Não tem nenhuma importância. -

     Mas essas palavras puseram de mau humor o duque, que gritou: 

- Vamos, Oriane, não fique aí tagarelando e trocando as suas lamentações com Swann, você sabe muito bem que a Sra. de Saint-Euverte faz questão de que a gente esteja na mesa às oito em ponto. É necessário saber o que você quer; já faz cinco minutos que os cavalos estão esperando. Peço-lhe perdão, Charles - disse ele voltando-se para Swann -, mas já são dez para as oito. Oriane está sempre atrasada; vamos levar mais de cinco minutos para chegar à casa da velha Saint-Euverte.

     A Sra. de Guermantes avançou decididamente na direção do carro e deu um último adeus a Swann: 

- O senhor sabe, voltaremos a falar disso; não creio numa só palavra do que me diz, mas precisamos ter uma conversa a respeito juntos. Deixaram-no impressionado; venha almoçar o dia que quiser (para a Sra. de Guermantes, tudo se resolvia sempre em almoços), o senhor me dirá o dia e a hora e, erguendo a saia vermelha, pousou o pé no estribo. Ia entrar no carro quando, vendo aquele pé, o duque exclamou com voz terrível: 
- Oriane, que é que você vai fazer, infeliz! Está de sapatos pretos! Com um vestido vermelho! Suba para o quarto depressa e ponha sapatos vermelhos, ou então dirigiu-se ao lacaio avise imediatamente a camareira da Sra. duquesa para mandar descer os sapatos vermelhos. 
- Mas, meu amigo - respondeu docemente a duquesa, constrangida por ver que Swann, que saía comigo mas quisera deixar passar o carro a nossa frente, ouvira tudo -, visto que estamos atrasados... 
- Não, não; temos todo o tempo. Faltam apenas dez para as oito, não gastaremos dez minutos para ir ao parque Monceau. E depois, afinal, o que é que deseja? Mesmo que fossem oito e meia eles esperariam; mas você não pode ir com um vestido vermelho e sapatos pretos. Além disso, não seremos os últimos, ande, há os Sassenage, você sabe que eles nunca chegam antes de vinte para as nove.

     A duquesa tornou a subir para o quarto. 

- Os pobres maridos, hem! - disse o Sr. de Guermantes -; zomba-se muito deles, mas ainda têm algo de bom. Não fosse eu, Oriane ia jantar de sapatos pretos. 
- Não fica feio - observou Swann -; eu já havia reparado nos sapatos pretos e absolutamente não me chocaram. 
- Não digo que não - respondeu o duque -; mas é mais elegante que sejam da mesma cor do vestido. E depois, fique tranquilo, logo ao chegar, ela teria notado, e eu é que seria obrigado a vir buscá-los. Teria jantado às nove horas. Adeus, meus meninos - disse ele afastando-nos suavemente -, vão tratando de ir antes que Oriane desça. Não é que ela não goste de ver os dois. Ao contrário, gosta muito de vê-los. Se ainda os encontra aqui, vai voltar a tagarelar, já está bem cansada, chegará morta ao jantar. E depois, confesso francamente que estou morrendo de fome. Almocei muito mal esta manhã ao descer do trem. É verdade que havia um tal molho bearnês, mas, apesar disso, não me incomodaria nada, de jeito nenhum, em sentar-me de novo à mesa. Cinco para as oito! Ah, as mulheres! Ela vai fazer mal ao estômago de nós dois, pois é bem menos forte do pensam.

     O duque absolutamente não se vexava de falar das indisposições da mulher e de suas próprias a um agonizante, já que os primeiros o interessavam mais, parecendo-lhe, assim, mais importantes. Desse modo, apenas por boa educação e galhardia que, depois de nos ter gentilmente despedido, gritou da porta com voz ostentatória a Swann, que já se achava no pátio: 

- E além disso, não se deixe impressionar pelas asneiras dos médicos, que diabo! São uns burros! Você está firme como o Pont-Neuf. Acaba enterrando a todos nós!

Fim

 ________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
O Caminho de Guermantes (2a.Parte - Acaba enterrando a todos nós!)
Volume 7

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Marcel Proust - O Caminho de Guermantes (2a.Parte - o grande sarau na casa da princesa)

em busca do tempo perdido

volume III
O Caminho de Guermantes

Segunda Parte

Capítulo Segundo

continuando...

     De fato, o jantar ao qual devia comparecer o duque divertia-o, o grande sarau na casa da princesa de Guermantes não o aborrecia, mas principalmente devia ele ir, à uma da manhã, com sua mulher, a uma ceia de gala e um baile à fantasia, para o qual estavam prontas uma fantasia de Luís XI para ele e uma de Isabel da Baviera para a duquesa. E o duque pretendia não ser perturbado nesses múltiplos divertimentos pelo sofrimento do bom Amanien d'Osmond. Duas outras damas portadoras de bengala, a Sra. de Plassac e a Sra. de Tresmes, ambas filhas do conde de Bréquigny, chegaram em seguida para uma visita a Basin e declararam que o estado do primo Mamá já era sem esperanças. Depois de dar de ombros, e para mudar de assunto, o duque lhes perguntou se elas iam à noite à casa de Marie Gilbert. Responderam que não, devido ao estado de Amanien, que se achava nas últimas, e até haviam desistido do jantar aonde ia o duque, e do qual enumeraram os convivas, o irmão do rei Teodósio, a infanta Maria-Conceição etc.. Como o marquês d'Osmond era parente delas num grau menos próximo que de Basin, sua "defecção" pareceu ao duque uma espécie, censura indireta de seu comportamento, e ele se mostrou pouco amável. Assim, embora tivessem descido das alturas do palácio de Bréquigny para ver a duquesa (ou melhor, para lhe anunciar o caráter alarmante da doença de seu primo, incompatível para os parentes com reuniões mundanas), permaneceram por muito tempo, e, munidas de seu bastão de alpinista Walpurge e Dorothée (tais eram os prenomes das duas irmãs) retomaram caminho escarpado de sua cumeeira. Nunca me ocorreu indagar aos Guermantes a que correspondiam aquelas bengalas, tão comuns em certo lugar do faubourg Saint-Germain. Talvez, considerando toda a paróquia como: domínio e não gostando de tomar fiacres, davam longas caminhadas, as quais alguma fratura antiga, devida ao uso imoderado da caça e as quedas de cavalo que muitas vezes comportam, ou simplesmente aos reumatismos provenientes da umidade da margem esquerda do Sena e dos ventos dos castelos, tornavam a bengala necessária. Talvez não houvessem partido em expedição tão distante pelo bairro; e, tendo apenas descido ao seu poder (pouco afastado do da duquesa) para a colheita das frutas necessárias: compotas, vinham, antes de voltar para casa, dar boa-noite à Sra. de Guermantes, a cuja casa não chegavam contudo ao ponto de levar uma podeira ou um regador. O duque pareceu comovido pelo fato de eu o ter visitado no próprio dia de seu regresso. Mas seu rosto se anuviou quando falei que viera para pedir à sua esposa que se informasse se a sua prima havia de fato convidado. Eu acabava de tocar num desses tipos de serviços que o Sr. e a Sra. de Guermantes detestavam prestar. O duque me disse - era demasiado tarde, que, se a princesa não me enviara convite, ele daria impressão de estar pedindo um, que seus primos já lhe haviam recusado outro, certa ocasião, e ele não mais queria, nem de perto nem de longe parecer estar se metendo nas listas deles, "de se imiscuir", enfim, que nada sabia sequer se ele e sua esposa, que jantavam na cidade, voltariam imediatamente para casa, que nesse caso a melhor desculpa de não terem ido à recepção da princesa seria ocultar-lhe seu regresso a Paris, que, certamente a não ser isso, ao contrário se apressariam em comunicá-lo, enviando uma palavra ou dando um telefonema a meu respeito, seguramente demasiado tarde, pois em qualquer hipótese as listas da princesa já estariam fechadas.

- O senhor não está de mal com ela - disse-me com ar de suspeita os Guermantes receavam sempre não estarem a par das últimas desavenças e que as pessoas procurassem reconciliar-se às suas costas. Enfim, como o duque possuía o hábito de tomar a si todas as decisões que podiam parecer pouco amáveis: 
- Olhe, meu menino - disse-me de súbito como se a ideia lhe viesse bruscamente ao espírito -, tenho até vontade de não dizer a Oriane que me falou neste caso. O senhor sabe como ela é gentil. Além do mais, ela gosta imensamente do senhor e desejaria mandar um recado à prima, apesar de tudo o que lhe dissesse, e, se estiver cansado depois do jantar, não mais teria desculpa, seria obrigado a comparecer à recepção. Não, decididamente não lhe direi nada. Aliás, o senhor irá vê-la daqui a pouco. Nem uma palavra sobre o assunto, peço-lhe. Se o senhor resolver ir à casa de meus primos, não preciso lhe externar que alegria teremos em passar a noite em sua companhia. - 

     Os motivos de humanidade são sagrados para que aquele, diante de quem os invocam, não se incline perante eles, creia-o sinceros ou não; não quis nem por um momento pesar na balança o meu convite e o possível cansaço da Sra. de Guermantes e prometi ao duque não falar à esposa acerca do objetivo de minha visita, exatamente como se estivesse iludido pela pequena comédia representada pelo Sr. de Guermantes. Perguntei-lhe se achava que eu teria ocasião de ver, na casa da princesa, a Sra. de Stermaria. 

- Não - disse-me ele com ar de conhecedor -; conheço o nome que o senhor diz por vê-lo nos anuários dos clubes, não é absolutamente o tipo de gente que frequente a casa de Gilbert. Lá o senhor só verá pessoas excessivamente distintas e muito enfadonhas, duquesas que usam títulos que se julgariam extintos e que vieram à luz devido às circunstâncias, todos os embaixadores, muitos Coburgos, Altezas estrangeiras, mas não espere nem a sombra de um Stermaria; Gilbert ficaria doente só de ouvir a sua hipótese. Olhe, o senhor aprecia a pintura, é preciso que lhe mostre um quadro soberbo que comprei do meu primo, em parte em troca dos Elstir de que decididamente não gostávamos. Foi-me vendido como sendo um Philippe de Champagne, mas acho que é ainda superior. Quer saber a minha opinião? Creio que é um Velásquez e da melhor época - disse-me o duque fitando-me nos olhos, ou para conhecer a minha impressão, ou para aumentá-la. Entrou um lacaio. 
- A senhora duquesa manda perguntar ao senhor duque se o senhor duque deseja receber o Sr. Swann, pois a senhora duquesa ainda não está pronta. 
- Mande entrar o Sr. Swann - disse o duque depois de ter consultado o relógio de pulso e visto que ele próprio ainda dispunha de alguns minutos antes de ir se preparar. 
- Naturalmente minha mulher, que lhe disse que viesse, ainda não se aprontou. É inútil falar diante de Swann do sarau de Marie-Gilbert - disse o duque. - Não sei se ele está convidado. Gilbert o estima bastante, por julgá-lo neto natural do duque de Berri; é uma história comprida. (Se não fosse isso, imaginei meu primo que tem um ataque sempre que vê um judeu a cem metros.) Mas enfim, isto agora se agrava com o Caso Dreyfus; Swann deveria compreender, mais do que ninguém que precisava cortar todos os laços com essas pessoas; mas, pelo visto anda dizendo coisas desagradáveis.

     O duque chamou de novo o lacaio para saber se o criado que enviara à casa do primo Osmond já estava de volta. Com efeito, o plano do duque era o seguinte: como achasse, e com razão, que o primo estava agonizante, fazia questão de pedir notícias suas antes da morte, ou seja, antes do luto forçado. Uma vez protegido pela certeza oficial de que Amanien vivia, sairia rápido para o seu jantar, para a recepção do príncipe, para o baile onde estaria fantasiado de Luís XI e onde iria ter o mais picante encontro com uma amante nova, e não mandaria mais pedir notícias antes do dia seguinte, quando os prazeres houvessem terminado. Então poriam luto caso o primo tivesse morrido durante a noite. 

- Não, senhor duque, ainda não chegou. 
- Diabo! Aqui só fazem as coisas à última hora! - exclamou o duque, ante a ideia de que Amanien pudera ter tido tempo de "rebentar" antes da saída dos vespertinos e assim lhe fazer gorar o baile à fantasia. Mandou comprar Le Temps, onde não havia nada. Fazia muito tempo que eu não via Swann, e me indaguei por instante se ele outrora não raspava o bigode, ou não tinha os cabelos todos à escovinha, pois achava-o bem mudado; mas era apenas que ele de fato se achava muito "mudado", pois estava bem doente, e a doença produz modificações tão profundas no rosto como usar barba ou variar a repartição do cabelo. (A doença de Swann era a mesma que lhe arrebatar a mãe e que a acometera exatamente na idade em que ele estava. Nossas existências são de fato, pela hereditariedade, tão cheias de cifras cabalísticas, de maus-olhados, como se na verdade existissem feiticeiras. E assim como há uma certa duração da vida para a humanidade em geral, também existe uma para as famílias em particular; isto é, nas famílias, para os metidos que se parecem.) Swann estava trajado com uma elegância que, como a de sua mulher, associava o que ele era ao que havia sido. Ajustado numa sobrecasaca cinzento-pérola, que acentuava a sua alta estatura, esbelto, luvas brancas riscadas de negro, usava uma cartola gris de forma dilata que Delion só fabricava para ele, para o príncipe de Sagan, para o Sr. de Charlus, para o marquês de Módena, para o Sr. Charles Haas e para o de Louis de Turenne.

     Surpreendeu-me o encantador sorriso e o afeto do aperto de mão com que ele respondeu ao meu cumprimento, pois julguei, depois de tanto tempo, ele não me reconheceria de imediato; falei do meu espanto; ele o acolheu às gargalhadas, meio indignado, e com nova pressão da mão, como se supor que não me reconhecer fosse da sua sanidade mental ou da sinceridade de seu afeto. E, no entanto, o que ocorria; soube mais tarde que só me identificou alguns minutos depois, ouvindo chamarem o meu nome. Porém mudança alguma na sua fisionomia, nas suas palavras, nas coisas que me disse traiu a descoberta que uma palavra do Sr. de Guermantes lhe fez ver, tal a sua maestria e segurança no jogo da vida mundana. Aliás, punha nessa vida aquela espontaneidade de maneiras e a iniciativa pessoal, mesmo em matéria de indumentária, que caracterizavam o gênero dos Guermantes. Assim é que a saudação que me fizera o velho clubman sem me reconhecer não fora o cumprimento frio e empertigado do mundano puramente formalista, mas uma saudação cheia de uma amabilidade real, de graça verdadeira, como por exemplo a da duquesa de Guermantes (que chegava a ser a primeira a sorrir antes mesmo que a gente a houvesse cumprimentado, caso nos reconhecesse), por oposição aos cumprimentos mais mecânicos, habituais às damas do faubourg Saint-Germain. Foi assim ainda que o seu chapéu, que conforme um hábito que tendia desaparecer ele colocara a seu lado no chão, era forrado de couro verde, o que em geral não se fazia, mas isso porque dizia ele sujava menos, mas na realidade por ser muito elegante. 

- Olhe, Charlus, você, que é um grande conhecedor, venha ver uma coisa; depois disso, meus meninos, vou pedir licença para deixá-los um instante enquanto ponho uma casaca; aliás, acho que Oriane não deve de morar. -

     E mostrou o seu "Velásquez" a Swann. 

- Mas parece-me que conheço isto - disse Swann, com a careta das pessoas enfermas para quem falar já é uma fadiga. 
- Sim - disse o duque, carrancudo pela demora do conhecedor em expressar sua admiração. - Provavelmente o viu na casa de Gilbert. 
- Ah, de fato, lembro-me. 
- Que é que você pensa que seja? 
- Muito bem; se estava na casa de Gilbert é provavelmente um de seus ancestrais -disse Swann num misto, de ironia e deferência para com a grandeza que teria achado descortês em ignorar, mas da qual, por bom gosto, não queria falar. 
- Certamente que sim – disse o duque. - É Boson (nem sei mais que número) mas que me importa. Você sabe que não sou tão feudal como o meu primo. Ouvi pronunciar, o nome de Rigaud, - disse ele pregando em Swann um olhar da aristocracia e ao mesmo tempo para tentar ler o seu pensamento. - Vejamos, nada de lisonjas. Julga que isto seja de uma sumidade que acabei de nomear? 
- Não. - disse Swann. 
- Mas então, afinal eu não conheço nada, não me cabe decidir de quem é esse borrão. Mas você, um diletante, um mestre na matéria, à quem o atribuiu?

     Swann hesitou por um momento diante da tela que visivelmente achava horrenda: 

- À malevolência! - respondeu rindo ao duque, o duque não pôde evitar um gesto de raiva. Quando se acalmou: 
- Vocês são amáveis. Esperem Oriane por um instante; vou pôr a minha casaca e já volto, Mandarei dizer à minha patroa que os dois a estão esperando.

     Conversei um instante com Swann sobre o Caso Dreyfus e perguntei-lhe como era possível que todos os Guermantes fossem antidreyfusista. 

- Primeiro, porque no fundo toda essa gente é antissemita - respondeu Swann, que no entanto sabia muito bem, por experiência própria, que alguns não o eram, mas que, como todas as pessoas que esposam uma opinião apaixonada, preferia, para explicar que certas pessoas dela não compartilhassem, supor-lhe uma razão preconcebida, um preconceito contra o qual nada havia de fazer, em vez de razões que se pudessem discutir. Aliás, tendo chegado à cláusula prematura de seus dias, como um animal fatídico e a que provocam, ele execrava essas perseguições e retornava ao reduto religioso de seus pais. 
- Quanto ao príncipe de Guermantes, isto é verdade. - declarava. 
- Já me haviam dito que ele era antissemita. 
- Oh, esse nem se fala!

     De tal modo que, quando oficial e tendo uma terrível dor de dentes, preferiu continuar sofrendo a consultar o único dentista da região, que era judeu; e mais tarde deixou incendiar-se em seu castelo, que havia pegado fogo porque teria sido necessário mandar pedir as bombas emprestadas ao castelo vizinho, que é dos Rothschild. 

- Por acaso o senhor irá esta noite à sua casa? 
- Sim. - respondeu -, embora esteja muito cansado. Mas me enviou um telegrama para me avisar que tinha algo a me dizer. Penso que estarei por demais adoentado por esses dias para ir até lá ou para recebê-lo, o que me deixará muito agitado. Prefiro desembaraçar-me de tudo isso. 
- Mas o duque de Guermantes não é antissemita. 
- Claro que sim, pois é antidreyfusista - respondeu Swann, sem perceber que fazia uma declaração de princípios. - Isto não importa que me sinta desgostoso por ter decepcionado esse homem (que digo, é duque) não admirando o seu pretenso Mignard, ou coisa que o valha. 
- Mas enfim - prossegui, voltando ao Caso Dreyfus -, a duquesa é inteligente. 
- Sim, é encantadora. Aliás, na minha opinião, era-o ainda mais quando se chamava apenas princesa des Laumes. Seu espírito adquiriu algo de mais anguloso, tudo isso era mais tenro na grande dama juvenil. Mas enfim, mais ou menos jovens, homens ou mulheres que quer o senhor? -, todos eles pertencem a uma outra raça, não se tem impunemente mil anos de feudalismo no sangue. Naturalmente, eles creem que isto não pesa nada em suas opiniões.
- Mas Robert de Saint-Loup, no entanto, é dreyfusista. 
- Ah, tanto melhor, ainda mais que o senhor sabe que sua mãe é contra. Tinham-me dito que ele o era, mas não estava certo disso. Isto me dá uma grande satisfação. Não me espanta, pois ele é muito inteligente. É uma grande coisa isto! 

     O dreyfusismo tornara Swann de uma ingenuidade extraordinária e atribuíra ao seu modo de ver um impulso e um desvio mais notáveis ainda do que outrora o fizera o seu casamento com Odette; essa nova desclassificação melhor se chamaria reclassificação; só podia ser honrosa para ele, visto que o fazia voltar ao caminho pelo qual tinham vindo os seus e de onde o haviam desviado as suas relações aristocráticas. Mas Swann, precisamente no momento mesmo em que, tão lúcido, era-lhe dado, graças aos dons herdados de sua ascendência, enxergar uma verdade ainda oculta às pessoas da alta sociedade, mostrava-se todavia de uma cômica cegueira. Submetia todas as suas admirações e desprezos a um critério novo: o dreyfusismo. Que o antidreyfusismo da Sra. Bontemps o fizesse considerá-la idiota não era menos espantoso que o fato de que, quando se casara, a havia achado inteligente. Também não era muito grave que a nova onda atingisse nele os juízos políticos e o fizesse perder a lembrança de haver tratado de mercenário, de espião da Inglaterra (era um absurdo do meio Guermantes) a Clemenceau, a quem agora declarava ter considerado sempre uma consciência, um homem de ferro, como Cornély.

- Não, eu nunca lhe disse coisa diversa. O senhor está confundindo. -

     Mas, ultrapassando os julgamentos políticos, a onda invertia em Swann os juízos literários e até a forma de exprimi-los. Barres perdera todo talento, e mesmo suas obras da juventude eram fraquinhas, mal podiam ser relidas. 

- Tente, não conseguirá ir até o fim. Que diferença de Clemenceau! Pessoalmente, não sou anticlerical, mas como, a seu lado, se nota que Barres não tem ossos! Grande sujeito o velho Clemenceau. Como conhece a sua língua! -

     Além do mais, os antidreyfusistas não teriam direito de criticar estas loucuras. Explicavam que se era dreyfusista porque se era de origem judaica. Se um católico praticante, como Saniette, manifestava-se a favor da revisão, devia-se isto a ele ser dominado pela Sra. Verdurin, que agia como feroz radical. Ela sobretudo contra os "padrecos". Saniette era mais imbecil do que ela, não sabia o dano que a Patroa lhe causava. Se objetavam que Brichot também era amigo da Sra. Verdurin e pertencia à "Pátria Francesa", é quando era mais inteligente. 

- O senhor o vê de quando em vez? - perguntei a Swann, referindo-me à Saint-Loup. 
- Não, nunca. Escreveu-me outro dia para que pedisse ao de Mouchy e a alguns outros que votassem a seu favor no Jockey, onde entrou sem dificuldade alguma. 
- Apesar do Caso Dreyfus? 
- Não levantaram essa questão. De resto, direi que depois disso, não ponho mais os pés naquele lugar.

     Voltou o Sr. de Guermantes e em breve surgiu sua mulher, já pronta, alta e magnífica em um vestido de cetim vermelho cuja saia era bordada de lantejoulas. Ostentava nos cabelos uma grande pluma de avestruz tingida de púrpura; e trazia nos ombros uma écharpe de tule do mesmo vermelho. 

- Como fica bem forrar o chapéu de verde - disse a duquesa, a quem nada escapava. - Aliás, em você, Charlus, tudo é bonito, tanto o que você usa como o que fala, tanto o que lê como o que faz. -

     Swann, sem parecer ouvi-la, contemplava a duquesa como o teria feito diante de uma tela de mestre e, a seguir, buscou o seu olhar, fazendo com a boca o trejeito que quer dizer:

"Puxa!"

     A Sra. de Guermantes desatou a rir. 

- Minha toalete lhe agrada, fico feliz com isso. Mas devo dizer que não agrada muito continuou, com ar aborrecido. - Meu Deus, como é terrível a gente se vestir e ter de sair quando gostaria de ficar em casa! 
- Que rubis esplêndidos! 
- Ah, meu caro Charles, pelo menos vê-se que conhece o assunto. Não é como aquele idiota do Monserfeuil que me perguntava se eram verdadeiros. Devo confessar que jamais vi outros tão lindos. É um presente da duquesa. Para o meu gosto são um pouquinho grandes, um tanto cálida bordeaux cheio até às bordas, mas resolvi pô-los porque veremos esta grã-duquesa na casa de Marie-Gilbert - acrescentou a Sra. de Guermantes sem desconfiar que semelhante afirmação destruía as do duque. 
- O que há na casa da princesa? - perguntou Swann. 
- Quase nada - apressou-se a dizer o duque, a quem Swann fizera crer que ele não fora convidado. - Mas como, Basin? Pois foi convocada toda a nobreza e seu domínio. Será uma tremenda carnificina. O que vai ser bonito - acrescentou a duquesa, olhando para Swann com ar delicado são aqueles maravilhosos jardins, se a tempestade que está se aprontando não desabar. Você os conhece. Já estive lá, há coisa de um mês, na ocasião em que os lilases estavam em flor; não se pode ter uma ideia de como aquilo conseguia ser bonito. E depois o chafariz; enfim, é verdadeiramente Versalhes em Paris. - Que espécie de mulher é a princesa? - perguntei. 
- Mas o senhor já sabe, pois a viu aqui; sabe que é linda como o sol, é também um pouco tola, muito gentil, apesar de toda a sua altivez germânica, de grande coração e cheia de gafes. 

     Swann era bastante fino para não perceber que a Sra. de Guermantes procurava naquele momento "fazer espírito Guermantes", e sem muito esforço, pois não fazia mais que tornar a servir, sob uma forma menos perfeita, antigas frases suas. Não obstante, para provar à duquesa que compreendia a sua intenção de ser engraçada, e como se ela o fosse realmente, sorriu com ar meio forçado, causando-me, por esse tipo especial de insinceridade, o mesmo constrangimento que eu sentira outrora ao ouvir meus pais falarem com o Sr. Vinteuil sobre a corrupção em certos meios (ao passo que sabiam perfeitamente que a maior delas era a que reinava em Montjouvain) ou Legrandin nuançar a conversação para uns bobos, escolher epítetos delicados que ele sabia muito bem não poderem ser compreendidos por um público rico ou elegante, porém iletrado. 

- Mas Oriane, o que é que você está dizendo? Marie tola? Ela leu tudo, é musical como um violino. 
- Mas meu pobre Basin, você é uma criança que acaba de nascer. Como se não se pudesse ser tudo isso e um pouco tola! Tola, de fato, é exagerado. Não, ela é nebulosa, é Hesse Darmstadt, Santo Império e uma lesma. Só a sua pronúncia já me enerva. Reconheço, aliás, que é uma encantadora maluquinha. Para começar, só essa ideia de descer do seu trono alemão para se casar bem burguesmente com um simples particular. É certo que ela o escolheu! Ah, mas é verdade - disse ela voltando-se para mim - o senhor não conhece Gilbert! Vou lhe dar uma ideia dele: faz algum tempo, ficou de cama porque deixei um cartão de visitas na casa da Sra. Carnot... Mas não, meu caro Charlus - disse a duquesa para mudar de assunto, vendo que a história do seu cartão de visitas à Sra. Carnot parecia enfurecer o Sr. de Guermantes -, você sabe que não mandou a fotografia dos nossos cavaleiros de Rodes, de que gosto por sua causa, e que estava com tanta vontade de conhecer. 
 
continua na página 261...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
O Caminho de Guermantes (2a.Parte - o grande sarau na casa da princesa)
O Caminho de Guermantes (2a.Parte - Acaba enterrando a todos nós!)
Volume 4
Volume 5
Volume 7

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Marcel Proust - O Caminho de Guermantes (2a.Parte - Mudei de assunto)

em busca do tempo perdido

volume III
O Caminho de Guermantes

Segunda Parte

Capítulo Segundo

continuando...

     Mudei de assunto e lhe perguntei se a princesa de Léna era uma pessoa inteligente. O Sr. de Charlus parou e, assumindo o tom mais depreciativo que lhe conheci: 

- Ah, senhor, faz alusão aqui a uma ordem de nomenclatura corte a qual nada tenho a ver. Talvez haja uma aristocracia entre os taitianos, mas confesso que não a conheço. O nome que acaba de pronunciar é estranho; entretanto, ressoou aos meus ouvidos faz alguns dias. Perguntavam-me se condescenderia em que me fosse apresentado o jovem duque de Guastalla! O pedido me espantou, pois o duque de Guastalla não tem necessidade de ser apresentado a mim, pela simples razão de que é meu primo e me conhece desde sempre; é filho da princesa de Parma e, como parente jovem bem-educado, nunca deixa de vir me cumprimentar no dia de Ano Novo. Mas, dadas as informações, não se tratava do meu parente e sim de um filho da pessoa que lhe interessa. Como não existe princesa com esse nome supus que se tratasse de uma mendiga que dormisse debaixo da ponte de Léna e que assumira pitorescamente o título de princesa de Léna, como se costuma dizer a Pantera dos Batignolles ou o Rei do Aço. Mas não, tratava-se de uma pessoa rica, cujos móveis muito bonitos, que eu admirara numa exposição, têm sobre o nome do proprietário a vantagem de não serem falsos. Quanto ao pretenso duque de Guastalla, devia ser corretor de câmbio do meu secretário, o dinheiro consegue tantas coisas. Mas não o imperador, parece, divertiu-se em dar a tais pessoas um título precisamente indisponível. Talvez seja uma demonstração de poder, ou de ignorância, ou malícia; acho principalmente que é uma partida que ele pregou dessa forma aos usurpadores sem querer. Mas enfim, não posso lhe dar esclarecimentos sobre tudo isso, minha competência se limita ao faubourg Saint-Germain onde entre todos os Courvoisiers e os Gallardons o senhor encontrará, se conseguir alguém que o apresente à eles, velhas megeras extraídas expressamente de Balzac e que hão de diverti-lo. Naturalmente, tudo isto nada tem a ver com o prestígio da princesa de Guermantes, mas, sem mim e meu Sésamo, a morada desta é inacessível. 
- Senhor, o palácio da princesa de Guermantes é verdadeiramente muito bonito. 
- Oh, não é muito bonito. É o que há de mais bonito; depois da princesa, é claro. 
- A princesa de Guermantes é superior à duquesa de Guermantes? 
- Ah, não tem comparação. (É de notar que, quando as pessoas da sociedade têm um pouco de imaginação, coroam ou destronam, ao sabor de suas simpatias ou brigas, aqueles cuja posição parecia ser a mais sólida e a mais bem estabelecida.) A duquesa de Guermantes (não a chamando de Oriane, talvez quisesse colocar mais distância entre ela e mim) é deliciosa, muito superior ao que o senhor possa imaginar. Mas enfim é imensurável como a sua prima. Esta é exatamente o que as pessoas dos Mercados imaginam que era a princesa de Metternich. Mas a Metternich julgava ter lançado Wagner porque conhecia Victor Maurel. A princesa de Guermantes, ou melhor, sua mãe, conheceu o verdadeiro. O que é um prestígio, sem falar da incrível beleza dessa mulher. E nada como os jardins de Ester! 
- Não se pode visitá-los? 
- Não, é preciso ser convidado, mas não convidam ninguém a menos que eu intervenha. -

     Porém, logo retirando, após haver lançado, a isca dessa oferta, estendeu-me a mão, pois acabávamos de chegar à minha casa. 

- Meu papel está findo, senhor; apenas acrescento estas poucas palavras. Um dia, um outro talvez lhe ofereça a sua simpatia como eu o fiz. Que o exemplo de hoje lhe sirva de ensino. Não o negligencie. Uma simpatia é preciosa sempre. O que não se pode fazer sozinho na vida, pois há coisas que não se pode pedir, nem querer, nem aprender por si mesmo, vários o conseguem, e sem necessidade de serem treze como no romance de Balzac, nem quatro, como em Os três Mosqueteiros. Adeus.

     Devia estar cansado e ter desistido de ir ver o luar, pois me pediu para dizer ao cocheiro que voltasse para casa. E logo fez um movimento rápido como se quisesse mudar de ideia. Mas eu já transmitira a ordem e, para não me atrasar mais, fui tocar a campainha da porta, sem mais pensar no que tinha de fazer ao Sr. de Charlus, relativamente ao imperador da Alemanha; ao general Botha, narrativas há pouco tão obsedantes, mas que a sua acolhida inesperada e fulminante tinha feito voar para bem longe de mim.
     Entrando em casa, vi sobre minha escrivaninha uma carta que o jovem lacaio de Françoise escrevera a um de seus amigos e que havia esquecido. Desde que minha mãe estava ausente, ele não recuava diante de nenhuma sem-cerimônia; mas culpado fui eu por ter lido a carta sem e envelope, inteiramente aberta e que, para minha única desculpa, parecia oferecer-se a mim.
     Caro amigo e primo:
     Espero que a saúde vá sempre bem e que seja o mesmo, - toda a pequena família, particularmente para meu jovem afilhado Joseph, que eu ainda não tive o prazer de conhecer mas que prefiro a todos como sendo meu afilhado, essa relíquia do coração também o seu pó, sobre seus restos sagrados não erguemos. Aliás caro amigo e primo quem te diz que amanhã tu e tua mulher minha prima Marie, não serão ambos precipitados até o fim do mar como o marinheiro atado ao auto do grande mastro, pois esta vida não é mais que um vale obscuro. Caro amigo é preciso dizer que minha principal ocupação do teu espanto tenho certeza, agora a poesia que amo com delícia, pois é preciso passar o tempo. Assim caro amigo não fique muito surpreso se não respondi ainda tua última carta, na falta do perdão deixa que venha o olvido. Corto tu sabes, a mãe da Senhora morreu em sofrimentos inexprimíveis a deixaram muito cansada pois ela teve a visita de três médicos até. No dia de seu enterro fez um lindo dia pois todas as amizades, Senhor vieram em multidão assim como vários ministros. Levaram mais de duas horas para ir ao cemitério o que fará a todos abrir grandes olhos em sua aldeia onde certamente não se fará outro lado pela tia Michu. Assim minha vida não será mais que um longo soluço. Divirto-me enormemente com a motocicleta que ultimamente aprendi. Que diriam vocês amigos se eu chegasse assim a toda pressa aos Écorres. Mas aqui não me calarei mais pois sinto que a embriaguez da desgraça arrebata a razão. Freqüento a duquesa Guermantes, pessoas que tu nem nunca ouviu seus nomes em nossas terras ignorantes. Assim é com prazer que mandarei livros de Racine, de Victor-Hugo, de Páginas escolhidas de Chenedollé, de Musset, pois desejaria curar a terra que me deu a luz da ignorância que leva fatalmente até o crime. Não vejo mais nada para te dizer e te envio como o pelicano cansado de uma longa viagem minhas boas saudações assim como tua mulher a meu afilhado e a irmã Rose. Possam não dizer dela: E rosa ela só viveu o que vivem as rosas, como disse Victor Hugo, o soneto de Arvers, Alfred de Musset todos esses grandes gênios que por causa disso fizeram morrer nas chamas da fogueira como Joana d'Arc. Em breve a tua próxima missiva recebe meus beijos como os de um irmão Périgot (Joseph).
     Somos atraídos por qualquer vida que nos apresente algo de desconhecido, por uma última ilusão a destruir. Apesar disso, as misteriosas palavras, graças às quais o Sr. de Charius me levara a imaginar a princesa de Guermantes como uma criatura extraordinária e diferente daquilo que eu conhecia, não bastam para explicar a estupefação em que fiquei, em breve seguida pelo temor de ser vítima de uma brincadeira de mau gosto, maquinada por alguém que quisesse me levar à porta de uma residência aonde eu iria sem ser convidado, quando, cerca de dois meses depois do jantar na casa da duquesa, e enquanto ela se achava em Cannes, tendo aberto um envelope cuja aparência não me advertia de nada de extraordinário, li estas palavras impressas num cartão: "A princesa de Guermantes, nascida duquesa de Baviera, estará em sua residência no dia ***." Sem dúvida, ser convidado para a casa da princesa de Guermantes talvez não fosse, do ponto de vista mundano, algo de mais difícil que jantar na casa da duquesa, e meus frágeis conhecimentos de heráldica me haviam ensinado que o título de príncipe não está acima do de duque. Depois, dizia comigo que a inteligência da mulher da alta sociedade não pode ser de uma essência tão heterogênea à de suas congêneres como o pretendia o Sr. de Charlus, e de uma essência tão heterogênea à de uma outra mulher. Porém minha imaginação, semelhante a Elstir quando reproduzia um efeito de perspectiva sem levar em conta noções de física que no entanto poderia possuir, pintava-me não o que eu sabia, mas o que ela via; o que ela via, isto é, o que lhe mostrava o nome. Ora, mesmo quando eu não conhecia a duquesa, o nome de Guermantes precedido do título de princesa, como uma nota ou uma cor ou uma quantidade profundamente modificada por valores contíguos, pelo "signo" matemático ou estético que as afeta, sempre me evocara algo bem diverso. Com esse título, o encontramos sobretudo nas Memórias do tempo de Luís XIII e de Luís XIV, da corte da Inglaterra, da rainha da Escócia, da duquesa de Aumale; e eu imaginava o palácio da princesa de Guermantes como mais ou menos freqüentado pela duquesa de Longueville e pelo grande Condé, cuja presença tornava bem pouco verossímil que eu penetrasse ali alguma vez. Muitas coisas que o Sr. de Charlus me dissera tinham dado uma vigorosa chicotada na minha imaginação e, fazendo-a esquecer o quanto a realidade a desapontara na casa da duquesa de Guermantes (tanto novos nomes das pessoas como no dos nomes de lugares), haviam-na empurrado na direção da prima de Oriane. Aliás, o Sr. de Charlus só me enganou por algum tempo quanto ao valor e à variedade imaginária das pessoas da alta sociedade, porque ele próprio se enganava. E isso talvez porque não fazia nada, não escrevia, não pintava, nem mesmo lia de uma forma séria e aprofundada. Mas, superior às pessoas da alta sociedade em vários graus, se era deles e de seu espetáculo que extraía a matéria de sua conversação, não era por isso compreendido deles. Falando como artista, podia quando muito fazer emanar o encanto falacioso das pessoas da alta sociedade. Mas fazer emanar tão só para os artistas, em relação aos quais pode ele representar o papel de rena entre os esquimós; este precioso animal arrebatado para eles, sobre as rochas desertas, musgos e líquens que eles não saberiam descobrir nem utilizar, mas que, uma vez digeridos pelas renas produziam se para os habitantes do extremo setentrional um alimento assimilável. Ao que eu acrescentarei que aqueles quadros que o Sr. de Charlus fazia da alta sociedade eram animados de muita vida pela mistura de ódios ferozes e de suas devotas simpatias. Os ódios dirigidos sobretudo contra as pessoas jovens, a adoração excitada principalmente por certa mulheres. Se, entre estas, a princesa de Guermantes era colocada pelo Sr. de Charlus no trono mais elevado, suas misteriosas palavras sobre "o inacessível palácio de Aladim", que sua prima habitava, não bastavam para explicar a minha estupefação. Apesar do que se refere aos diversos pontos de vista subjetivos neles ampliações artificiais de que falarei, não é menos verdadeiro que experimentei alguma realidade objetiva em todas essas criaturas e, por conseguinte, uma diferença entre elas.
     Aliás, como poderia ser de outro modo? A humanidade que frequentamos e que se assemelha um pouco aos nossos sonhos é, no entanto, a mesma que, nas Memórias, nas cartas de pessoas notáveis, vemos descritas e temos desejado conhecer. O velho mais insignificante com quem jantamos é o mesmo de quem, num livro sobre a guerra de 70, lemos emocionados a orgulhosa carta ao príncipe Frederico Carlos. Aborrecemo-nos ao jantar porque a imaginação está ausente e nos distraímos com um livro, pois aí ela nos faz companhia. Mas é das mesmas pessoas que se trata. Gostaríamos de ter conhecido Madame Pompadour, que tão bem protegeu as artistas, e tanto nos aborreceríamos a seu lado como junto das modernas Egérias, a cuja casa não podemos nos decidir a voltar, de tão medíocres que são elas. Nem por isso é menos verdadeiro que essas diferenças permanecem. As pessoas nunca são inteiramente idênticas umas às outras, o seu modo de comportar-se a nosso respeito, mesmo em nível igual de amizade, traz diferenças que afinal servem de compensação. Quando conheci a Sra. de Montmorency, ela gostava de me dizer coisas desagradáveis, mas, se eu precisava de um favor, ela utilizava, para obtê-lo com eficiência, todo o crédito que possuía, sem poupar coisa alguma. Ao passo que uma outra, como a Sra. de Guermantes, jamais desejou desagradar-me, só me dizia coisas que me dessem prazer, cumulava-se de todas as gentilezas que formavam o rico modo de vida moral dos Guermantes; mas se eu lhe pedisse uma ninharia além de tudo isso, não teria dado um passo para consegui-lo, como nesses castelos onde a gente tem à nossa disposição um automóvel, um lacaio, mas onde é impossível obter um copo de cidra não previsto no arranjo das festas. Qual era para mim a verdadeira amiga: a Sra. de Montmorency, tão feliz em melindrar-me e sempre disposta a me servir, ou a Sra. de Guermantes, sofrendo com o menor desagrado que me causassem e incapaz do menor esforço para me ser útil? Por outro lado, dizia-se que a duquesa de Guermantes só falava de frivolidades, e sua prima, com o mais medíocre espírito, de coisas sempre interessantes. As formas de espírito são tão variadas, tão opostas, não só na literatura mas na sociedade, que não são só Baudelaire e Mérimée que têm o direito de se desprezar mutuamente. Tais particularidades formam em todas as pessoas um sistema de olhares, de discursos, de ações, tão coerente, tão despótico, que quando estamos em sua presença parece nos superior ao resto. Na Sra. de Guermantes, suas palavras, deduzidas como um teorema de seu gênero de espírito, me pareciam as únicas que se poderiam dizer. E, no fundo, eu era de sua opinião quando ela me dizia que a Sra. de Montmorency era estúpida e possuía o espírito aberto a todas as coisas que não compreendia, ou quando, tendo sabido de uma maldade sua, a duquesa me dizia: 

- É isto a que o senhor chama de uma boa mulher; é o que eu chamo de monstro. -

     Porém essa tirania da realidade que está diante de nós, essa evidência da luz da lâmpada que faz empalidecer a aurora já distante como uma simples lembrança desapareciam quando eu estava longe da Sra. de Guermantes, e uma dama diversa me dizia, pondo-se ao mesmo nível que eu, e considerando a duquesa muito acima de nós: 

- No fundo, Oriane não se interessa por nada, nem por ninguém - e até o que na presença da Sra. de Guermantes teria parecido impossível de acreditar, tanto que ela mesma proclamava o contrário: 
- Oriane é esnobe. -

     Matemática alguma nos permitindo converter a Sra. d'Arpajon e a Sra. de Montpensier em quantidades homogêneas, era-me impossível responder, caso me perguntassem qual delas se me afigurava superior à outra. Ora, dentre os traços peculiares ao salão da princesa de Guermantes, o mais habitualmente citado era um exclusivismo em parte ao nascimento real da princesa, e sobretudo o rigorismo quase fóssil de preconceitos aristocráticos do príncipe, preconceitos que aliás o duque e a duquesa não deixavam de ridicularizar na minha presença e que, naturalmente, devia me fazer considerar como mais inverossímil ainda que convidasse aquele homem para quem só contavam as Altezas e os duques; e que em todo jantar fazia uma cena porque não tivera na mesa o lugar que teria tido direito sob Luís XIV, lugar que, graças à sua extrema erudição em matéria de história e genealogia, era o único a conhecer. Por causa disso, muitas pessoas da sociedade decidiam em favor do duque e da duquesa as diferenças que os separavam de seus primos.

- O duque e a duquesa são muito mais modernos, muito mais inteligentes, não se ocupam apenas, como os outros, com o número de quartéis do escudo, o salão deles está trezentos anos mais adiantado que o do seu primo! Eram frases costumeiras cuja lembrança me fazia agora estremecer ao olhar o cartão de convite, ao qual essas frases davam muito mais probabilidades de ter sido enviado por um mistificador.

     Se o duque e a duquesa ainda não houvessem partido para Cannes; eu teria podido procurar saber por eles se o convite recebido era verdadeiro. Essa dúvida em que me encontrava não se deve nem mesmo, como por um momento me lisonjeara em acreditar, ao sentimento que um homem, mundano não experimentaria e que em consequência um escritor, embora pertencendo além disso à categoria das pessoas da sociedade, deveria reproduzir a fim de ser bem "objetivo" e pintar diversamente cada classe. De fato, encontrei ultimamente, num encantador volume de Memórias, o registro de incertezas análogas àquelas pelas quais me fazia passar o cartão de convite da princesa. "Georges e eu; ou Hely e eu, não tenho o livro à mão para verificar ardíamos tanto de vontade de sermos admitidos no salão da Sra. Delessert que, tendo dela recebido um convite, julgamos prudente, cada um por seu lado, assegurarmo-nos que não éramos vítimas de uma brincadeira." Ora, o narrador não é outro senão o conde d'Haussonville; o que se casou com a filha do duque de Broglie, e o outro rapaz que, "por seu lado" vai se certificar se não é objeto de uma mistificação é, conforme se chame Georges ou Hely, um dos dois inseparáveis amigos do Sr. D'Haussonville; ou Sr. d'Harcourt ou o príncipe de Chalais.
     No dia em que deveria ter lugar o sarau na casa da princesa de Guermantes, fiquei sabendo que o duque e a duquesa estavam de volta à Paris desde a véspera. O baile da princesa não os teria feito regressar, porém um de seus primos se achava muito enfermo e, além do mais, o duque fazia muita questão de ir a uma festa que se daria naquela noite e onde ele próprio devia comparecer fantasiado de Luís XI e sua mulher de Isabel da Baviera. E resolvi ir visitá-los de manhã. Mas, tendo eles saído muito cedo, ainda não haviam regressado; primeiro fiquei espreitando a chegada do carro de um pequeno cômodo que julgava ser um bom posto de vigia. Na realidade, escolhera muito mal o meu observatório, de onde pouco enxergava do nosso pátio, mas vi diversos outros, o que, sem utilidade para mim, divertiu-me por alguns instantes. Não é somente em Veneza que dispomos desses pontos de vista sobre várias casas ao mesmo tempo que têm tentado os pintores, mas igualmente em Paris. Não me refiro a Veneza por acaso. É em seus bairros pobres que fazem pensar certos bairros pobres de Paris, de manhã, com suas altas chaminés dilatadas, às quais o sol dá os róseos mais vivos, os mais claros vermelhos; é todo um jardim que floresce acima das casas, e floresce em matizes tão variados que se diria, plantado sobre a cidade, o jardim de um amador de tulipas de Delft ou de Haarlem. Além disso, a extrema proximidade das casas, de janelas opostas, dando para um mesmo pátio, faz ali, de cada quadrado de janela, a moldura onde uma cozinheira sonha olhando para o chão, ou mais adiante, uma moça se deixa pentear por uma velha com cara, mal distinta na sombra, de bruxa; assim cada pátio formava para o vizinho da casa, suprimindo o ruído pela sua distância, deixando ver os gestos silenciosos por detrás do retângulo envidraçado das janelas, uma exposição de cem quadros holandeses justapostos. É claro que do palácio de Guermantes não se possuía o mesmo gênero de vistas, mas sim igualmente curiosas, principalmente do estranho ponto trigonométrico em que me havia colocado e onde o olhar não era interrompido por nada, por serem muito íngremes e relativamente vagos os terrenos que precediam as alturas distantes que formavam o palácio da princesa de Silistrie e da marquesa de Plassac, primas muito nobres do Sr. de Guermantes, e a quem eu não conhecia. Até esse palácio (que era do pai delas, Sr. de Bréquigny) não havia senão corpos de edifícios pouco elevados, orientados das mais diversas formas, e que, sem deter a vista, prolongavam a distância com seus planos oblíquos. O torreão de telhas rubras da cocheira onde o marquês de Frécourt guardava seus carros bem que terminava numa agulha mais alta, mas tão delgada que não escondia coisa alguma, e fazia pensar nessas lindas construções antigas da Suíça que despontam, isoladas, do sopé de uma montanha. Todos esses pontos, vagos e divergentes, em que os olhos repousam, faziam parecer mais distante do que se estivesse separado de nós por várias ruas ou numerosos contrafortes o palácio da Sra. de Plassac, na realidade bem vizinho, mas quimericamente afastado como uma paisagem alpestre. Quando suas largas janelas quadradas, fulgurantes do sol como lâminas de cristal de rocha, eram feitas para limpeza, ao seguir nos diferentes andares os lacaios, impor de distinguir muito bem, mas que batiam tapetes ou passavam os espanadores, sentia-se o mesmo prazer que em examinar, numa paisagem de Elstir, um viajante em diligência, ou um guia, em diferentes grau altitude do São Gotardo. Mas, do "ponto de vista" em que me colocava arriscava-me a não ver voltar o Sr. e a Sra. de Guermantes, de modo que tarde, quando fiquei livre para retomar a minha espreita, simplesmente coloquei na escada, de onde não me podia passar despercebida a abertura da porta principal, e foi ali que me postei, embora não mais surgissem, fulgurantes com seus lacaios tornados minúsculos pelo afastamento e empenhados na limpeza, as belezas alpestres dos palácios de Bréquig Tresmes. Ora, semelhante espera na escada deveria ter para mim conseqüências tão consideráveis e revelar-me uma paisagem não mais tumultuada, porém moral, tão importante que é preferível retardar a narrativa por uns momentos, fazendo-a ser precedida primeiro pela da visita que fiz aos Guermantes logo que soube que tinham regressado. Foi o duque somente quem me recebeu na biblioteca. No momento em que entrei, saía um homenzinho de cabelos completamente brancos, ar pobre, com uma gravata preta como as que usavam o tabelião de Combray e vários amigos de meu avô, porém de aspecto ainda mais tímido, e que, fazendo-me grandes cumprimentos, não quis descer enquanto eu não passasse. O duque gritou da biblioteca alguma coisa que não entendi, e o outro respondeu com os cumprimentos dirigidos à parede, pois o duque não podia vê-lo, mesmo assim repetidos sem cessar, como esses inúteis sorrisos de pé as que conversam com a gente por telefone; tinha uma voz de falsete voltou a cumprimentar-me com a humildade de um homem de negócio bem podia tratar-se de um negociante de Combray, de tal modo era do provinciano, antiquado e afável da gente humilde, dos velhos modelos daquelas bandas. 

- O senhor verá Oriane dentro em breve - disse o duque, quando entrei. - Como Swann deve chegar daqui a pouco, trazendo-lhe as preciosas de seu estudo sobre as moedas da Ordem de Malta e, o que é pior a fotografia imensa onde mandou reproduzir as duas faces dessas mesma Oriane preferiu vestir-se primeiro, para poder ficar com ele até o momento de ir jantar. Já estamos atulhados de coisas, a ponto de não saber onde colocá-las, e me pergunto onde vamos pôr essa fotografia. Mas eu tenho uma mulher muito gentil, que gosta muito de ser agradável. Achou que era amável pedir a Swann para olhar, uns ao lado dos outros, todos esses grandes senhores da Ordem, cujas medalhas ele encontrou em Rodes. Pois ele dizia Malta, e é Rodes, mas é a mesma Ordem de São João de Jerusalém. No fundo, ela só se interessa por isso porque Swann se ocupa do assunto. Nossa família está muito mesclada a toda essa história; mesmo hoje em dia, meu irmão, que o senhor conhece, é um dos mais altos dignitários da ordem de Malta. Mas, por mais que eu tivesse falado de tudo isso a Oriane, ela não teria me dado ouvidos. Em compensação, bastou que as pesquisas de Swann sobre os Templários (pois é incrível o empenho das pessoas de uma religião em estudar a dos outros) o tenha conduzido à história dos Cavaleiros de Rodes, herdeiros dos Templários, para que logo Oriane quisesse ver as cabeças desses cavaleiros. Eles eram bem insignificantes em comparação com os Lusignan, reis de Chipre, de que descendemos em linha direta. Mas até agora Swann não se ocupou deles, e assim Oriane não quer saber nada sobre os Lusignan. -  

     Não pude falar imediatamente ao duque sobre o motivo da minha visita. Com efeito, algumas parentas ou amigas, como a Sra. de Silistrie e a duquesa de Montrose, tinham vindo fazer uma visita à duquesa que frequentemente recebia antes do jantar, e, não a encontrando, ficaram por um instante com o duque. A primeira dessas damas (a princesa de Silistrie), trajada com simplicidade, seca porém de aspecto amável, segurava uma bengala na mão. A princípio, receei que estivesse machucada ou fosse doente. Pelo contrário, mostrava-se bem ágil. Falou com tristeza ao duque sobre um primo-irmão dele não do lado dos Guermantes, porém mais brilhante ainda, se possível-, cujo estado de saúde, muito abalado desde algum tempo, agravara se de repente. Mas era visível que o duque, mesmo compadecendo-se da sorte de seu primo e repetindo: - Pobre Mamá! É um bom rapaz -, formava um diagnóstico favorável.
      
continua na página 255...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
O Caminho de Guermantes (2a.Parte - Mudei de assunto)
Volume 7

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Marcel Proust - O Caminho de Guermantes (2a.Parte - Minha cólera passara)

em busca do tempo perdido

volume III
O Caminho de Guermantes

Segunda Parte

Capítulo Segundo

continuando...

     Apesar de tudo, bem diversas nisto daquilo que eu pudera sentir diante dos espinheiros alvares ou degustando uma madeleine, as histórias que ouvira na casa da duquesa eram-me estranhas. Tendo penetrado no instante em mim, que só fisicamente era possuído por elas, ter-se ia que (de natureza social e não individual) estavam impacientes por sair, me agitava no carro, como uma pitonisa. Esperava um novo jantar em que pudesse tornar-me uma espécie de príncipe X, da Sra. de Guermantes, recontá-las. Enquanto esperava, elas faziam trepidar meus lábios, que balbuciavam, e em vão tentava recobrar meu espírito vertiginosamente arrastado por uma força centrífuga. Foi assim, com a febril impaciência não carregar por mais tempo o seu peso, solitário num carro, onde ali compensava a falta de conversação falando em voz bem alta, que toquei campainha da porta do Sr. de Charlus, e foi em longos monólogos comigo mesmo, onde repetia me tudo o que iria lhe contar e já não pensava no que podia ele ter a me dizer, que passei o tempo todo que permanecendo num salão aonde me conduzira um lacaio, e que, de qualquer modo, estava agitado demais para observar. Sentia uma tal necessidade de que o Sr. Charlus escutasse os relatos que eu ardia por lhe contar, que fiquei cruelmente decepcionado ao pensar que o dono da casa talvez dormisse e que me seria necessário voltar a cozer no meu quarto minha embriaguez de palavras. Com efeito, acabava de verificar que fazia vinte e cinco minutos que ali estava, que talvez me houvessem esquecido naquele salão, do qual, não obstante a longa espera, podia pelo menos dizer que era imenso, verdoengo, com alguns retratos. A necessidade de falar não impede apenas de escutar, mas de ver; e, nesse caso, a ausência de toda descrição do meio exterior já é uma descrição de um estado interno. Ia sair do salão para tentar chamar alguém e, se não encontrasse pessoa alguma, refazer o caminho até as antecâmaras e mandar que me abrissem a porta, quando, no momento mesmo em que acabara de me erguer e dar alguns passos no chão de mosaico, surgiu um lacaio com ar preocupado: 

- O Sr. barão teve encontros até agora – disse-me - Ainda há várias pessoas que o aguardam. Vou fazer todo o possível para que receba o senhor. Já mandei telefonar duas vezes ao secretário. 
- Não, não se incomode, tinha um encontro com o Sr. barão, mas já é muito tarde e, desde que está ocupado esta noite, voltarei outro dia. 
- Oh! não se vá senhor! - exclamou o criado. - O senhor barão poderia ficar descontente. Vou tentar de novo.  

     Lembrei-me do que ouvira contar acerca dos criados do Sr. de Charlus e de seu devotamento ao patrão. Não se podia dizer dele exatamente como o príncipe de Conti, que procurava agradar tanto ao criado como ao ministro, mas de tal modo soubera fazer das menores coisas que pedia uma espécie de favor que, à noite, reunidos os criados a seu redor a uma respeitosa distância, depois de havê-los percorrido com o olhar, dizia: "Coignet, o castiçal!" ou: "Ducret, a camisa!", e era com resmungos de inveja que os outros se retiravam, enciumados daquele que acabava de ser distinguido pelo patrão. Até dois deles, que se detestavam, cuidavam cada qual de retirar o favor ao outro, indo sob o pretexto mais absurdo, dar recados ao barão, se este subira mais cedo, na esperança de ser incumbido aquela noite de levar o castiçal ou a camisa de dormir. Se o barão dirigia diretamente a palavra a um deles sobre qualquer coisa que não se relacionasse com o serviço, mais ainda, se, durante o inverno, no jardim, sabendo que um dos cocheiros estava gripado, lhe dizia ao cabo de dez minutos: "Cubra-se!", os outros ficavam quinze dias sem falar ao doente, por ciúme, devido à graça que lhe fora concedida.
     Ainda esperei dez minutos e, depois de me pedirem que não demorasse muito porque o Sr. barão, cansado, precisara mandar embora diversas pessoas importantes, que haviam marcado encontro há longo tempo introduziram-me à sua presença. Tal encenação em torno ao Sr. de Charlus, me parecia ter muito menos grandeza que a simplicidade de seu irmão Guermantes, mas a porta já estava aberta, e eu acabava de ver o barão de chambre chinês, colo desnudo, estendido num canapé. Impressionou-me, no mesmo instante a vista de uma cartola huit-reflets sobre uma cadeira, e uma peliça, como se o barão tivesse acabado de chegar. O lacaio se retirou. Julguei que o Sr. de Charlus viesse ao meu encontro. Sem fazer um; movimento, fixou em mim o olhar implacável. Aproximei-me dele e o cumprimentei não me estendeu a mão, não me correspondeu, nem me disse que pegasse uma cadeira. Ao fim de um momento perguntei-lhe, como se faria um médico mal-educado, se era necessário que eu ficasse de pé. Falei sem má intenção, mas o ar de cólera fria do Sr. de Charlus pareceu agravar-se mais ainda. Eu ignorava, aliás, que na sua casa de campo, no castelo de Charlus, ele tinha o hábito de, após o jantar de tanto que gostava de se fazer de rei; instalar-se numa poltrona no fumoir, deixando os convidados de pé a seu redor. Pedia o fogo a um, a outro oferecia um charuto e após alguns instantes, dizia: 

- Mas d'Argencourt, sente-se, pegue uma cadeira meu caro, etc. -, tendo feito questão de prolongar o tempo deles em pé apenas para lhes mostrar que era dele que emanava a permissão de se sentarem. - Sente-se na poltrona Luís XIV - respondeu-me com ar imperioso e mais para me obrigar a afastar-me dele que como um convite para que me sentasse. Peguei uma poltrona que não se achava distante. - Ah! Eis o que o senhor chama uma poltrona Luís XIV! Vejo que é um rapaz instruído exclamou com escárnio.

     Eu estava de tal modo estupefato que não me mexi, nem para ir embora, como deveria, nem para mudar de assento como ele desejava. 

- Senhor - disse-me ele, pesando todas as palavras e fazendo preceder as mais impertinentes de um duplo par de consoantes a entrevista que condescendi em lhe dar, a instâncias de uma pessoa quer deseja ou não ser nomeada, há de marcar coisa melhor; talvez forçasse um pouco o sentido dos vocábulos, o que não se deve fazer, mesmo que ignore o seu valor, e pelo simples respeito por si mesmo, ao lhe dizer que sentirei simpatia pelo senhor. Entretanto, creio que "benevolência", no seu sentido mais eficazmente protetor, não excederia nem o que eu sentia nem o que me propunha a manifestar. - Desde meu regresso a Paris, eu lhe fizera saber: mesmo em Balbec, que o senhor podia contar comigo. - Eu, que me lembrava com que despropósito o Sr. de Charlus se separara de mim em Balbec esbocei um gesto de recusa. - Como? - gritou ele encolerizado (e na verdade o seu rosto convulso e branco diferia tanto de sua fisionomia ordinária como o mar, quando, numa manhã de tempestade, percebemos, em vez da sorridente superfície habitual, mil serpentes de baba e de espuma) - O senhor afirma que não recebeu minha mensagem (quase uma declaração) para ter de se lembrar de mim? Que havia como decoração em torno ao livro que lhe fiz chegar às mãos? 
- Uns entrelaçamentos historiados muito bonitos - disse-lhe. 
- Ah! - respondeu ele com ar de desprezo - os jovens franceses conhecem pouco as obras primas de nosso país. Que se diria de um jovem berlinense que não conhecesse A Valquíria? Aliás, é preciso que o senhor tenha mesmo olhos de não ver, pois me disse que havia passado duas horas diante dessa obra-prima. Vejo que não é maior conhecedor de flores que de estilos; não proteste quanto aos estilos - gritou ele num tom de raiva extremamente agudo -, o senhor nem sequer sabe sobre o que está sentado, oferece ao seu traseiro um banquinho de estilo Diretório por uma bergere Luís XIV. Qualquer dia há de tomar os joelhos da Sra. de Villeparisis por um lavabo e nem se sabe o que fará neles. Da mesma forma, o senhor nem mesmo reconheceu na encadernação do livro de Bergotte o dintel de miosótis da igreja de Balbec. Existiria um modo mais límpido de lhe dizer: "Não se esqueça de mim"?

     Eu encarava o Sr. de Charlus. Certamente, sua cabeça magnífica, e que repugnava, levava contudo vantagem sobre a de todos os seus; dir-se-ia um Apolo envelhecido; porém uma escuma olivácea, hepática, parecia estar a ponto de escorrer de sua boca ruim. Quanto à inteligência, não se podia negar que a sua, por um vasto ângulo de compasso, abarcava muitas coisas que estariam para sempre desconhecidas do duque de Guermantes. Mas, por mais que algumas belas palavras colorissem todos os seus ódios, sentia-se que, ainda que em seu discurso houvesse ora orgulho ofendido, ora um amor decepcionado, ou um rancor, sadismo, impertinência, uma idéia fixa, aquele homem era capaz de assassinar e de provar, à força de lógica e de hábeis palavras, que tivera razão em fazê-lo e nem por isso era menos superior em cem côvados ao seu irmão, à sua cunhada, etc., etc...

- Assim como em As Lanças de Velásquez - continuou ele -, o vencedor avança na direção do mais humilde, como deve fazê-lo todo indivíduo nobre, visto que eu era tudo e o senhor não era nada, fui eu que dei os primeiros passos na sua direção. O senhor respondeu bobamente ao que não me cabia denominar grandeza. Mas não me deixei desanimar. Nossa religião prega a paciência. A que tive para com o senhor me será creditada, espero como igualmente o ter apenas sorrido daquilo que poderia ser tachado de impertinência, se estivesse a seu alcance ser impertinente com alguém que o ultrapassa de tantos côvados; mas enfim, senhor, já não se trata mais disso. Submeti-o à prova que o único homem eminente do nosso mundo chama, com espírito, prova da excessiva amabilidade e declara de direito ser a mais terrível de todas, a única em condições de separar o joio do trigo. Eu lhe censuraria somente o tê-la suportado sem pois os que triunfam dela são muito raros. Mas pelo menos, e essa conclusão que pretendo tirar das últimas palavras que havemos de tratar aqui na Terra, julgo estar ao abrigo de seus intentos caluniadores.

     Até então, não havia imaginado que a cólera do Sr. de Charlus pudesse ter sido causada por alguma frase desabonadora que lhe houvesse repetido. Interroguei minha memória; não falara dele a ninguém. O malvado a construíra com todas as letras. Garanti ao Sr. de Charlus absolutamente não dissera coisa alguma a seu respeito. 

- Não creio ter podido aborrecê-lo ao dizer à Sra. de Guermantes que era ligado ao senhor.

     Ele sorriu com desdém, fez altear-se a voz aos mais extremos registros e de lá ferindo com doçura a nota mais aguda e insolente: 

- Oh, senhor falou com extrema lentidão e em tom natural, como que se encantando, de passagem, com as estranhezas dessa graça - descendente -, acho que o senhor prejudica a si mesmo ao se acusar ter dito que possuímos "ligações". Não espero uma grande exatidão de alguém que facilmente tomaria um móvel de Chippendale por uma cadeira rococó, mas enfim não penso - acrescentou com afagos vocais à voz, mais maliciosos e que faziam flutuar em seus lábios até mesmo urgir um sorriso encantador -, não penso que o senhor tenha dito, nem julgado; que éramos ligados! Quanto ao fato de se ter gabado de ter sido apresentado à mim, de ter conversado comigo, de me conhecer um pouco, de ter obtido, quase sem solicitação, a possibilidade de um dia ser meu protegido; acredito pelo contrário, muito natural e inteligente que o tenha feito. A enorme diferença de idade que existe entre nós permite-me reconhecer, sem ridicularizar que essa apresentação, essas conversas, esse vago princípio de relação sejam para o senhor, não me cabe dizer uma honra, mas enfim, pelo menos uma vantagem, e que julgo foi tolice de sua parte não o tê-la divulgado, mas sim não ter sabido conservá-la. Acrescentarei até disse ele, pensando bruscamente, e por um instante, da cólera altaneira a uma doçura de tal modo repassada de tristeza que pensei fosse começar a chorar - que quando deixou sem resposta a proposição que lhe havia feito em Paris, me pareceu de tal forma inaudito da parte do senhor, pessoa que se afigurava de boa educação e de boa família burguesa (apenas neste aditivo a sua voz teve um pequeno assobio de impaciência), que tive a ingenuidade de acreditar em todas as historietas que não ocorrem nunca, nas quadras extraviadas, nos erros de endereço. Reconhecia ser de minha parte uma grande ingenuidade, porém São Boaventura preferia crer que pudesse voar a que um religioso mentisse. Enfim, tudo isso acabou, a coisa não o satisfez, não se fala mais no assunto. Unicamente, parece-me que o senhor poderia ter-me escrito (e havia mesmo um tom de choro em sua voz), nem que fosse apenas em consideração à minha idade. Eu imaginara, em relação ao senhor, coisas infinitamente sedutoras, que evitara lhe contar. O senhor preferiu recusar sem saber, é problema seu. Mas, como lhe digo, sempre se pode escrever. Eu, em seu lugar, e mesmo no meu, o teria feito. Por causa disso, prefiro o meu lugar ao seu, e digo por causa disso porque acredito que todos os lugares são iguais, e sinto mais simpatia por um operário inteligente do que por muitos duques. Mas posso dizer que prefiro o meu lugar porque na minha vida inteira, que já principia a ser bastante longa, sei que jamais fiz o que o senhor fez. (Sua cabeça estava virada para a sombra, eu não podia ver se de seus olhos escorriam lágrimas, como a sua voz dava a entender.) Dizia-lhe que dei cem passos em sua direção o que teve por efeito que o senhor desse duzentos para trás. Agora é a minha vez de me afastar e nós não nos conheceremos mais. Não guardei o seu nome, e sim o seu caso, para que, nos dias em que for tentado a crer que os homens têm coração, cortesia ou simplesmente a inteligência de não deixar escapar uma oportunidade sem igual, eu me lembre que isto será situá-los muito alto. Não, que o senhor tenha dito que me conhecia quando isso era verdadeiro pois agora vai deixar de sê-lo só posso achar que seja natural e o tenho por homenagem, ou seja, por agradável. Infelizmente, noutro local e em circunstâncias diversas, o senhor teve palavras bem diferentes. 
- Senhor, juro-lhe que não disse nada que pudesse ofendê-lo. 
- E quem disse que me senti ofendido? - gritou ele com fúria, erguendo-se violentamente no canapé onde até então permanecera imóvel, enquanto, ao passo que se crispavam as lívidas serpentes escumosas de seu rosto, sua voz tornava-se alternadamente aguda e grave como uma borrasca desencadeada e ensurdecedora. A força com que de hábito falava, e que fazia os desconhecidos se virarem na rua, estava centuplicada como o é de um forte se, ao invés de ser tocado ao piano, é executado pela orquestra e cada vez mais se transforma em fortíssimo. O Sr. de Charlus uivava. - Pensa que está em condições de me ofender? Por acaso não sabe com quem está falando? Julga que a saliva envenenada de quinhentos sujeitinhos seus amigos, empilhados uns sobre os outros, conseguiria babar sequer sobre meus augustos artelhos?

     Desde um momento, ao desejo de convencer o Sr. Charlus de que jamais dissera nem ouvira dizer mal dele, havia sucedido uma raiva louca, provocada pelas palavras que lhe ditava apenas, segundo achava, o seu imenso orgulho. Talvez fossem elas, aliás, ao menos em parte, o efeito desse orgulho. Quase tudo o mais provinha de um sentimento que eu ignorava e ao qual, portanto, não tinha culpa de não atribuir seu respeitável papel. Poderia ao menos, à falta do sentimento desconhecido, mesclar de orgulho, se me lembrasse das palavras da Sra. de Guermantes, um tom de loucura. Mas naquele momento, a idéia de loucura nem sequer me apareceu ao espírito. Segundo achava, não havia nele mais que orgulho, e em apenas furor. Este furor (no momento em que o Sr. de Charlus deixou de uivar para falar de seus augustos artelhos, com uma majestade acompanhada de um esgar, uma expressão de vômito pelo nojo que lhe causavam obscuros blasfemadores), este furor não se conteve mais. Com um movimento impulsivo, eu quis quebrar alguma coisa, e, como um resto de discernimento me fazia respeitar um homem tão mais velho que eu, e devido à sua dignidade artística, as porcelanas alemãs colocadas a seu redor, precipitei-me para a cartola nova do barão, atirei-a ao assoalho, pisoteei encarnicei-me em rebentá-la totalmente, arranquei-lhe o forro, rasguei a aba, sem escutar as vociferações do Sr. de Charlus que continuavam, atravessando a peça para ir embora, abri a porta. Para meu grande espanto, a cada lado desta, se mantinham dois lacaios que se afastaram devagar para dar a impressão de que ali se achavam unicamente de passagem de serviço. (Mais tarde soube seus nomes, um se chamava Burnier e o Charmel.) Não me enganei um só instante com a explicação que seu ar despreocupado parecia me propor. Era inverossímil; três outras me pararam menos: uma, que o barão recebia, por vezes, hóspedes contra quem poderia necessitar de auxílio (mas por quê?), julgando necessário ter posto de socorro por perto; a outra, que, atraídos pela curiosidade, tinha-se posto à escuta, não imaginando que eu saísse tão depressa; a terceira que toda a cena que me fizera o Sr. de Charlus fora preparada e representada, e ele próprio lhes pedira que escutassem, por amor ao espetáculo, junto a um erudito de que todos tirariam proveito. Minha cólera não acalmara a do barão; mas a minha saída do que pareceu causar-lhe viva dor. Chamou-me, mandou me chamar e, afinal, esquecendo que um momento antes, ao falar de "seus augustos artelhos acreditara me fazer o testemunho de sua própria deificação, correu as pressas, alcançou-me no vestíbulo e barrou-me a porta. 

- Vamos, não se faça de criança, volte por um minuto; quem muito ama, bem diga, e, se o castiguei muito, foi porque o amo de fato. -

     Minha cólera passara, deixei seguir o verbo "castigar" e acompanhei o barão que, chamando um lacaio, mandou, sem nenhum amor-próprio, que levasse os pedaços da cartola destruída e a substituíssem por outra. 

- Se quiser me dizer, senhor, quem me caluniou perfidamente - disse eu ao Sr. de Charlus- ficarei para sabê-lo e confundir o impostor. 
- Quem? Não o sabe? Não guarda lembrança do que fala? Pensa que as pessoas que me prestam o serviço de me advertir dessas coisas não começam por me pedir segredo? E julga que vou faltar ao que prometi? 
- Senhor, é impossível dizer-me? - perguntei, buscando uma última vez em minha cabeça (onde não encontrava ninguém) a pessoa a quem pudera ter falado do Sr. de Charlus. 
- O senhor não me ouviu falar que prometi manter segredo a quem me informou? - disse me com voz estridente. - Vejo que, ao gosto pelas conversas abjetas, o senhor junta o das insistências vãs. Deveria ter pelo menos a inteligência de aproveitar esta última entrevista, e falar para dizer algo que não seja exatamente nada. 
- Senhor - respondi afastando-me -, insulta-me; estou desarmado, visto que tem várias vezes a minha idade, a partida não é igual; por outro lado, não posso convencê-lo, jurei-lhe que não disse nada. 
- Então estou mentindo! - exclamou ele num tom terrível, e dando um tamanho salto que se achou de pé a dois passos de mim. 
- Enganaram-no.

     Então, com voz suave, afetuosa, melancólica, como naquelas sinfonias que executam sem interrupção entre os diversos trechos, e onde um gracioso scherzo amável, idílico, sucede aos trovões do primeiro trecho: 

- É bem possível - disse. - Em princípio, uma frase repetida raramente é verdadeira. Sua é a culpa, se não tendo aproveitado as ocasiões de me visitar que eu lhe havia oferecido, o senhor não pode fornecer-me, com essas palavras francas e diárias que criam a confiança, o preservativo único e soberano contra uma palavra que o apresentasse como um traidor. Em todo caso, verdadeira ou falsa, a frase realizou sua obra. Já não posso me livrar da impressão que ela me causou. Não posso nem dizer que aquele que ama bastante castiga muito, pois castiguei-o muito, mas já não o estimo. -

     Dizendo tais palavras, ele me forçara a sentar de novo e tocara a campainha. Um novo lacaio entrou. 

- Traga bebidas, e diga que mandem preparar o cupê, -

     Observei que não tinha sede, que era bem tarde e que aliás possuía um carro. 

- Provavelmente, pegaram-no e o mandaram de volta - disse ele -; não se preocupe. Mandei preparar para que o levem... Se receia, que seja muito tarde... poderia lhe dar um quarto aqui...

     Disse que minha mãe estaria inquieta. 

- Ah, sim, verdadeira ou falsa, a frase realizou a sua obra. Minha simpatia um tanto prematura florescera cedo e, como aquelas macieiras de que o senhor falava poeticamente em Balbec não pôde resistir à primeira geada. -

     Se a simpatia do Sr. de Charlus fora destruída, no entanto, ele não poderia agir de outra maneira, visto que sempre dizendo que estávamos brigados, fazia-me ficar, beber, convidava-me para dormir na casa e ia mandar-me levar à minha. Dava a impressão até de que receava o instante de me deixar e achar-se a sós, esse tipo de temor um tanto ansioso que sua cunhada e prima Guermantes me parecia sentir, uma hora atrás quando quis forçar-me a permanecer ainda um pouco com uma espécie de igual queda passageira por mim, do mesmo esforço para prolongar um minuto. 

- Infelizmente - prosseguiu ele -, não possuo o dom de fazer reflorir o que uma vez foi destruído. Minha simpatia pelo senhor está morta. Nada pode ressuscitá-la. Creio não ser indigno de me confessar o lamento. Sempre me sinto um pouco feito o Booz de Victor Hugo: de viúvo, sou só e sobre mim a noite desce.

     Voltei a atravessar com ele o grande salão verdoengo. Disse-lhe, bem ao acaso, o quanto o achava bonito seus móveis. 

- Não é mesmo? Respondi 
- É necessário amar alguma coisa. O madeiramento é de Bagard. E bonito mesmo, veja o senhor, é que foi feito para combinar com as cadeiras de Beauvais e os consolos. Repare, estes repetem o mesmo tema decorativo do madeiramento. Só existiam dois lugares onde ocorria o mesmo: Louvre e a casa do Sr. d'Hinnisdal. Mas naturalmente, quando decidi morar nesta rua, encontrou-se um velho palácio Chimay que ninguém tinha visto, pois aqui estava somente para mim. Em suma, está muito bem. Poderia talvez ser melhor, mas enfim não está mal. Há coisas bonitas não? O retrato de meus tios, o rei da Polônia e o rei da Inglaterra, de Mignard. Mas o que estou lhe dizendo? O senhor o sabe tão bem quanto eu, pois esteve esperando neste salão. Não? Ah, é que o levaram para o salão azul - disse ele com um ar seja de impertinência devido à minha falta de curiosidade, seja de superioridade pessoal e por não ter indagado porque havia feito esperar. - Olhe, neste gabinete há todos os chapéus usados por Madame Élisabeth, pela princesa de Lamballe e pela Rainha. Não lhe interessa, dir-se-ia que o senhor nem está vendo. Talvez esteja sofrendo de uma afecção do nervo óptico. Se gosta mais desse tipo de Natureza, eis um arco-íris de Turner que principia a brilhar entre esses dois Rebrancits, como sinal de nossa reconciliação. Ouça: Beethoven se junta.

     E, de fato, distinguiam-se os primeiros acordes da terceira parte da sinfonia Pastoral, "A alegria após a tempestade", executados por músicos junto de nós, sem dúvida no andar de cima. Perguntei ingenuamente se por acaso tocavam aquilo e quem eram os músicos. 

- Bem, não se sabe. Não se sabe nunca. São músicos invisíveis. Lindo, não? - disse-me num tom levemente impertinente e que, entretanto, lembrava um pouco a influência e o acento de Swann. - Mas o senhor importa-se com isso como um peixe com uma maçã. Deseja voltar para casa, arriscando-se a faltar com o respeito a Beethoven e a mim. Ergue contra si mesmo o julgamento e a condenação - acrescentou num tom afetuoso e triste, ao chegar o momento da minha partida. - Desculpar-me-á por não acompanhá-lo como as boas maneiras me obrigariam a fazer disse-me. - Desejoso de não mais revê-lo, pouco me importa passar cinco minutos mais com o senhor. Todavia, estou cansado e tenho muito que fazer. - No entanto, reparando que o tempo estava bom: - Muito bem! Sim, vou subir ao carro. Está fazendo um luar magnífico, que irei contemplar no Bois depois de o ter deixado em casa. Como! O senhor não sabe se barbear, mesmo numa noite em que janta na cidade ainda mostra alguns pelos - comentou, segurando-me o queixo entre dois dedos, por assim dizer magnetizados, que, depois de resistirem por um momento, subiram até as minhas orelhas como os dedos de um cabeleireiro. - Ah, seria agradável olhar este "luar azul" no Bois com alguém como o senhor falou-me com uma súbita doçura como que involuntária; e, depois, com ar triste: - Pois ainda assim o senhor é gentil, poderia sê-lo mais que ninguém - acrescentou, tocando-me paternalmente o ombro. - Outrora, devo dizer que o achava bem insignificante. -

     Eu deveria pensar que ele me considerava como tal, ainda hoje. Bastava lembrar-me da raiva com que me falara há meia hora apenas. Apesar disso, tinha a impressão de que ele estava sendo sincero naquele momento, que seu bom coração triunfava do que eu supunha ser um estado quase delirante de suscetibilidade e orgulho. O carro estava à nossa frente, e ele ainda encompridava a conversa. 

- Vamos - disse de repente -; suba. Em cinco minutos iremos até sua casa. E lhe darei uma boa-noite que cortará rente e para sempre as nossas relações. Já que devemos nos separar de uma vez por todas, é preferível que o façamos como na música, num acorde perfeito. -

     Apesar dessas afirmações solenes de que não nos veríamos nunca mais, eu teria jurado que o Sr. de Charlus, desgostoso por não ter sabido controlar-se há pouco, temendo me haver magoado, não se aborreceria se me revisse mais uma vez. Não me enganava, pois, ao cabo de um momento: 

- Ora, ora! Pois não é que ia me esquecendo do principal? - disse ele. - Em memória da senhora sua avó, mandei encadernar para o senhor uma curiosa edição da Sra. de Sévigné. Eis o que vai impedir este nosso encontro de ser o último. É preciso que a gente se console, dizendo que raramente se liquidam num dia os assuntos complicados. Veja quanto tempo durou o Congresso de Viena. 
- Mas eu poderia mandar buscá-lo sem o incomodar - respondi atenciosamente. 
- Queira calar-se, bobinho - retrucou encolerizado-; e não tinha o ar grotesco de considerar como coisa de pouca monta a honra de ser provavelmente (não digo certamente, pois será talvez um lacaio que - entregará os volumes) recebido por mim. - Recobrou-se: - Não queria, deixá-lo com tais palavras. Nada de dissonância; antes o silêncio eterno do acorde dominante! - Era por causa dos próprios nervos que parecia temer o regresso imediatamente após as ásperas palavras de briga. - Não quer vir até o Bois - me disse, num tom antes afirmativo que interrogativo segundo me pareceu, não porque não quisesse me convidar, mas por recear que seu amor-próprio sofresse uma recusa. - Muito bem, então - disse, alongando o assunto - é o momento em que, segundo Whistler, os burgueses voltam para casa (talvez quisesse ferir meu amor-próprio) e é quando convém começar a olhar. Mas o senhor nem sabe mesmo quem é Whistler. -

continua na página 250...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
O Caminho de Guermantes (2a.Parte - Minha cólera passara)
Volume 7