quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Marcel Proust - O Caminho de Guermantes (2a.Parte - o grande sarau na casa da princesa)

em busca do tempo perdido

volume III
O Caminho de Guermantes

Segunda Parte

Capítulo Segundo

continuando...

     De fato, o jantar ao qual devia comparecer o duque divertia-o, o grande sarau na casa da princesa de Guermantes não o aborrecia, mas principalmente devia ele ir, à uma da manhã, com sua mulher, a uma ceia de gala e um baile à fantasia, para o qual estavam prontas uma fantasia de Luís XI para ele e uma de Isabel da Baviera para a duquesa. E o duque pretendia não ser perturbado nesses múltiplos divertimentos pelo sofrimento do bom Amanien d'Osmond. Duas outras damas portadoras de bengala, a Sra. de Plassac e a Sra. de Tresmes, ambas filhas do conde de Bréquigny, chegaram em seguida para uma visita a Basin e declararam que o estado do primo Mamá já era sem esperanças. Depois de dar de ombros, e para mudar de assunto, o duque lhes perguntou se elas iam à noite à casa de Marie Gilbert. Responderam que não, devido ao estado de Amanien, que se achava nas últimas, e até haviam desistido do jantar aonde ia o duque, e do qual enumeraram os convivas, o irmão do rei Teodósio, a infanta Maria-Conceição etc.. Como o marquês d'Osmond era parente delas num grau menos próximo que de Basin, sua "defecção" pareceu ao duque uma espécie, censura indireta de seu comportamento, e ele se mostrou pouco amável. Assim, embora tivessem descido das alturas do palácio de Bréquigny para ver a duquesa (ou melhor, para lhe anunciar o caráter alarmante da doença de seu primo, incompatível para os parentes com reuniões mundanas), permaneceram por muito tempo, e, munidas de seu bastão de alpinista Walpurge e Dorothée (tais eram os prenomes das duas irmãs) retomaram caminho escarpado de sua cumeeira. Nunca me ocorreu indagar aos Guermantes a que correspondiam aquelas bengalas, tão comuns em certo lugar do faubourg Saint-Germain. Talvez, considerando toda a paróquia como: domínio e não gostando de tomar fiacres, davam longas caminhadas, as quais alguma fratura antiga, devida ao uso imoderado da caça e as quedas de cavalo que muitas vezes comportam, ou simplesmente aos reumatismos provenientes da umidade da margem esquerda do Sena e dos ventos dos castelos, tornavam a bengala necessária. Talvez não houvessem partido em expedição tão distante pelo bairro; e, tendo apenas descido ao seu poder (pouco afastado do da duquesa) para a colheita das frutas necessárias: compotas, vinham, antes de voltar para casa, dar boa-noite à Sra. de Guermantes, a cuja casa não chegavam contudo ao ponto de levar uma podeira ou um regador. O duque pareceu comovido pelo fato de eu o ter visitado no próprio dia de seu regresso. Mas seu rosto se anuviou quando falei que viera para pedir à sua esposa que se informasse se a sua prima havia de fato convidado. Eu acabava de tocar num desses tipos de serviços que o Sr. e a Sra. de Guermantes detestavam prestar. O duque me disse - era demasiado tarde, que, se a princesa não me enviara convite, ele daria impressão de estar pedindo um, que seus primos já lhe haviam recusado outro, certa ocasião, e ele não mais queria, nem de perto nem de longe parecer estar se metendo nas listas deles, "de se imiscuir", enfim, que nada sabia sequer se ele e sua esposa, que jantavam na cidade, voltariam imediatamente para casa, que nesse caso a melhor desculpa de não terem ido à recepção da princesa seria ocultar-lhe seu regresso a Paris, que, certamente a não ser isso, ao contrário se apressariam em comunicá-lo, enviando uma palavra ou dando um telefonema a meu respeito, seguramente demasiado tarde, pois em qualquer hipótese as listas da princesa já estariam fechadas.

- O senhor não está de mal com ela - disse-me com ar de suspeita os Guermantes receavam sempre não estarem a par das últimas desavenças e que as pessoas procurassem reconciliar-se às suas costas. Enfim, como o duque possuía o hábito de tomar a si todas as decisões que podiam parecer pouco amáveis: 
- Olhe, meu menino - disse-me de súbito como se a ideia lhe viesse bruscamente ao espírito -, tenho até vontade de não dizer a Oriane que me falou neste caso. O senhor sabe como ela é gentil. Além do mais, ela gosta imensamente do senhor e desejaria mandar um recado à prima, apesar de tudo o que lhe dissesse, e, se estiver cansado depois do jantar, não mais teria desculpa, seria obrigado a comparecer à recepção. Não, decididamente não lhe direi nada. Aliás, o senhor irá vê-la daqui a pouco. Nem uma palavra sobre o assunto, peço-lhe. Se o senhor resolver ir à casa de meus primos, não preciso lhe externar que alegria teremos em passar a noite em sua companhia. - 

     Os motivos de humanidade são sagrados para que aquele, diante de quem os invocam, não se incline perante eles, creia-o sinceros ou não; não quis nem por um momento pesar na balança o meu convite e o possível cansaço da Sra. de Guermantes e prometi ao duque não falar à esposa acerca do objetivo de minha visita, exatamente como se estivesse iludido pela pequena comédia representada pelo Sr. de Guermantes. Perguntei-lhe se achava que eu teria ocasião de ver, na casa da princesa, a Sra. de Stermaria. 

- Não - disse-me ele com ar de conhecedor -; conheço o nome que o senhor diz por vê-lo nos anuários dos clubes, não é absolutamente o tipo de gente que frequente a casa de Gilbert. Lá o senhor só verá pessoas excessivamente distintas e muito enfadonhas, duquesas que usam títulos que se julgariam extintos e que vieram à luz devido às circunstâncias, todos os embaixadores, muitos Coburgos, Altezas estrangeiras, mas não espere nem a sombra de um Stermaria; Gilbert ficaria doente só de ouvir a sua hipótese. Olhe, o senhor aprecia a pintura, é preciso que lhe mostre um quadro soberbo que comprei do meu primo, em parte em troca dos Elstir de que decididamente não gostávamos. Foi-me vendido como sendo um Philippe de Champagne, mas acho que é ainda superior. Quer saber a minha opinião? Creio que é um Velásquez e da melhor época - disse-me o duque fitando-me nos olhos, ou para conhecer a minha impressão, ou para aumentá-la. Entrou um lacaio. 
- A senhora duquesa manda perguntar ao senhor duque se o senhor duque deseja receber o Sr. Swann, pois a senhora duquesa ainda não está pronta. 
- Mande entrar o Sr. Swann - disse o duque depois de ter consultado o relógio de pulso e visto que ele próprio ainda dispunha de alguns minutos antes de ir se preparar. 
- Naturalmente minha mulher, que lhe disse que viesse, ainda não se aprontou. É inútil falar diante de Swann do sarau de Marie-Gilbert - disse o duque. - Não sei se ele está convidado. Gilbert o estima bastante, por julgá-lo neto natural do duque de Berri; é uma história comprida. (Se não fosse isso, imaginei meu primo que tem um ataque sempre que vê um judeu a cem metros.) Mas enfim, isto agora se agrava com o Caso Dreyfus; Swann deveria compreender, mais do que ninguém que precisava cortar todos os laços com essas pessoas; mas, pelo visto anda dizendo coisas desagradáveis.

     O duque chamou de novo o lacaio para saber se o criado que enviara à casa do primo Osmond já estava de volta. Com efeito, o plano do duque era o seguinte: como achasse, e com razão, que o primo estava agonizante, fazia questão de pedir notícias suas antes da morte, ou seja, antes do luto forçado. Uma vez protegido pela certeza oficial de que Amanien vivia, sairia rápido para o seu jantar, para a recepção do príncipe, para o baile onde estaria fantasiado de Luís XI e onde iria ter o mais picante encontro com uma amante nova, e não mandaria mais pedir notícias antes do dia seguinte, quando os prazeres houvessem terminado. Então poriam luto caso o primo tivesse morrido durante a noite. 

- Não, senhor duque, ainda não chegou. 
- Diabo! Aqui só fazem as coisas à última hora! - exclamou o duque, ante a ideia de que Amanien pudera ter tido tempo de "rebentar" antes da saída dos vespertinos e assim lhe fazer gorar o baile à fantasia. Mandou comprar Le Temps, onde não havia nada. Fazia muito tempo que eu não via Swann, e me indaguei por instante se ele outrora não raspava o bigode, ou não tinha os cabelos todos à escovinha, pois achava-o bem mudado; mas era apenas que ele de fato se achava muito "mudado", pois estava bem doente, e a doença produz modificações tão profundas no rosto como usar barba ou variar a repartição do cabelo. (A doença de Swann era a mesma que lhe arrebatar a mãe e que a acometera exatamente na idade em que ele estava. Nossas existências são de fato, pela hereditariedade, tão cheias de cifras cabalísticas, de maus-olhados, como se na verdade existissem feiticeiras. E assim como há uma certa duração da vida para a humanidade em geral, também existe uma para as famílias em particular; isto é, nas famílias, para os metidos que se parecem.) Swann estava trajado com uma elegância que, como a de sua mulher, associava o que ele era ao que havia sido. Ajustado numa sobrecasaca cinzento-pérola, que acentuava a sua alta estatura, esbelto, luvas brancas riscadas de negro, usava uma cartola gris de forma dilata que Delion só fabricava para ele, para o príncipe de Sagan, para o Sr. de Charlus, para o marquês de Módena, para o Sr. Charles Haas e para o de Louis de Turenne.

     Surpreendeu-me o encantador sorriso e o afeto do aperto de mão com que ele respondeu ao meu cumprimento, pois julguei, depois de tanto tempo, ele não me reconheceria de imediato; falei do meu espanto; ele o acolheu às gargalhadas, meio indignado, e com nova pressão da mão, como se supor que não me reconhecer fosse da sua sanidade mental ou da sinceridade de seu afeto. E, no entanto, o que ocorria; soube mais tarde que só me identificou alguns minutos depois, ouvindo chamarem o meu nome. Porém mudança alguma na sua fisionomia, nas suas palavras, nas coisas que me disse traiu a descoberta que uma palavra do Sr. de Guermantes lhe fez ver, tal a sua maestria e segurança no jogo da vida mundana. Aliás, punha nessa vida aquela espontaneidade de maneiras e a iniciativa pessoal, mesmo em matéria de indumentária, que caracterizavam o gênero dos Guermantes. Assim é que a saudação que me fizera o velho clubman sem me reconhecer não fora o cumprimento frio e empertigado do mundano puramente formalista, mas uma saudação cheia de uma amabilidade real, de graça verdadeira, como por exemplo a da duquesa de Guermantes (que chegava a ser a primeira a sorrir antes mesmo que a gente a houvesse cumprimentado, caso nos reconhecesse), por oposição aos cumprimentos mais mecânicos, habituais às damas do faubourg Saint-Germain. Foi assim ainda que o seu chapéu, que conforme um hábito que tendia desaparecer ele colocara a seu lado no chão, era forrado de couro verde, o que em geral não se fazia, mas isso porque dizia ele sujava menos, mas na realidade por ser muito elegante. 

- Olhe, Charlus, você, que é um grande conhecedor, venha ver uma coisa; depois disso, meus meninos, vou pedir licença para deixá-los um instante enquanto ponho uma casaca; aliás, acho que Oriane não deve de morar. -

     E mostrou o seu "Velásquez" a Swann. 

- Mas parece-me que conheço isto - disse Swann, com a careta das pessoas enfermas para quem falar já é uma fadiga. 
- Sim - disse o duque, carrancudo pela demora do conhecedor em expressar sua admiração. - Provavelmente o viu na casa de Gilbert. 
- Ah, de fato, lembro-me. 
- Que é que você pensa que seja? 
- Muito bem; se estava na casa de Gilbert é provavelmente um de seus ancestrais -disse Swann num misto, de ironia e deferência para com a grandeza que teria achado descortês em ignorar, mas da qual, por bom gosto, não queria falar. 
- Certamente que sim – disse o duque. - É Boson (nem sei mais que número) mas que me importa. Você sabe que não sou tão feudal como o meu primo. Ouvi pronunciar, o nome de Rigaud, - disse ele pregando em Swann um olhar da aristocracia e ao mesmo tempo para tentar ler o seu pensamento. - Vejamos, nada de lisonjas. Julga que isto seja de uma sumidade que acabei de nomear? 
- Não. - disse Swann. 
- Mas então, afinal eu não conheço nada, não me cabe decidir de quem é esse borrão. Mas você, um diletante, um mestre na matéria, à quem o atribuiu?

     Swann hesitou por um momento diante da tela que visivelmente achava horrenda: 

- À malevolência! - respondeu rindo ao duque, o duque não pôde evitar um gesto de raiva. Quando se acalmou: 
- Vocês são amáveis. Esperem Oriane por um instante; vou pôr a minha casaca e já volto, Mandarei dizer à minha patroa que os dois a estão esperando.

     Conversei um instante com Swann sobre o Caso Dreyfus e perguntei-lhe como era possível que todos os Guermantes fossem antidreyfusista. 

- Primeiro, porque no fundo toda essa gente é antissemita - respondeu Swann, que no entanto sabia muito bem, por experiência própria, que alguns não o eram, mas que, como todas as pessoas que esposam uma opinião apaixonada, preferia, para explicar que certas pessoas dela não compartilhassem, supor-lhe uma razão preconcebida, um preconceito contra o qual nada havia de fazer, em vez de razões que se pudessem discutir. Aliás, tendo chegado à cláusula prematura de seus dias, como um animal fatídico e a que provocam, ele execrava essas perseguições e retornava ao reduto religioso de seus pais. 
- Quanto ao príncipe de Guermantes, isto é verdade. - declarava. 
- Já me haviam dito que ele era antissemita. 
- Oh, esse nem se fala!

     De tal modo que, quando oficial e tendo uma terrível dor de dentes, preferiu continuar sofrendo a consultar o único dentista da região, que era judeu; e mais tarde deixou incendiar-se em seu castelo, que havia pegado fogo porque teria sido necessário mandar pedir as bombas emprestadas ao castelo vizinho, que é dos Rothschild. 

- Por acaso o senhor irá esta noite à sua casa? 
- Sim. - respondeu -, embora esteja muito cansado. Mas me enviou um telegrama para me avisar que tinha algo a me dizer. Penso que estarei por demais adoentado por esses dias para ir até lá ou para recebê-lo, o que me deixará muito agitado. Prefiro desembaraçar-me de tudo isso. 
- Mas o duque de Guermantes não é antissemita. 
- Claro que sim, pois é antidreyfusista - respondeu Swann, sem perceber que fazia uma declaração de princípios. - Isto não importa que me sinta desgostoso por ter decepcionado esse homem (que digo, é duque) não admirando o seu pretenso Mignard, ou coisa que o valha. 
- Mas enfim - prossegui, voltando ao Caso Dreyfus -, a duquesa é inteligente. 
- Sim, é encantadora. Aliás, na minha opinião, era-o ainda mais quando se chamava apenas princesa des Laumes. Seu espírito adquiriu algo de mais anguloso, tudo isso era mais tenro na grande dama juvenil. Mas enfim, mais ou menos jovens, homens ou mulheres que quer o senhor? -, todos eles pertencem a uma outra raça, não se tem impunemente mil anos de feudalismo no sangue. Naturalmente, eles creem que isto não pesa nada em suas opiniões.
- Mas Robert de Saint-Loup, no entanto, é dreyfusista. 
- Ah, tanto melhor, ainda mais que o senhor sabe que sua mãe é contra. Tinham-me dito que ele o era, mas não estava certo disso. Isto me dá uma grande satisfação. Não me espanta, pois ele é muito inteligente. É uma grande coisa isto! 

     O dreyfusismo tornara Swann de uma ingenuidade extraordinária e atribuíra ao seu modo de ver um impulso e um desvio mais notáveis ainda do que outrora o fizera o seu casamento com Odette; essa nova desclassificação melhor se chamaria reclassificação; só podia ser honrosa para ele, visto que o fazia voltar ao caminho pelo qual tinham vindo os seus e de onde o haviam desviado as suas relações aristocráticas. Mas Swann, precisamente no momento mesmo em que, tão lúcido, era-lhe dado, graças aos dons herdados de sua ascendência, enxergar uma verdade ainda oculta às pessoas da alta sociedade, mostrava-se todavia de uma cômica cegueira. Submetia todas as suas admirações e desprezos a um critério novo: o dreyfusismo. Que o antidreyfusismo da Sra. Bontemps o fizesse considerá-la idiota não era menos espantoso que o fato de que, quando se casara, a havia achado inteligente. Também não era muito grave que a nova onda atingisse nele os juízos políticos e o fizesse perder a lembrança de haver tratado de mercenário, de espião da Inglaterra (era um absurdo do meio Guermantes) a Clemenceau, a quem agora declarava ter considerado sempre uma consciência, um homem de ferro, como Cornély.

- Não, eu nunca lhe disse coisa diversa. O senhor está confundindo. -

     Mas, ultrapassando os julgamentos políticos, a onda invertia em Swann os juízos literários e até a forma de exprimi-los. Barres perdera todo talento, e mesmo suas obras da juventude eram fraquinhas, mal podiam ser relidas. 

- Tente, não conseguirá ir até o fim. Que diferença de Clemenceau! Pessoalmente, não sou anticlerical, mas como, a seu lado, se nota que Barres não tem ossos! Grande sujeito o velho Clemenceau. Como conhece a sua língua! -

     Além do mais, os antidreyfusistas não teriam direito de criticar estas loucuras. Explicavam que se era dreyfusista porque se era de origem judaica. Se um católico praticante, como Saniette, manifestava-se a favor da revisão, devia-se isto a ele ser dominado pela Sra. Verdurin, que agia como feroz radical. Ela sobretudo contra os "padrecos". Saniette era mais imbecil do que ela, não sabia o dano que a Patroa lhe causava. Se objetavam que Brichot também era amigo da Sra. Verdurin e pertencia à "Pátria Francesa", é quando era mais inteligente. 

- O senhor o vê de quando em vez? - perguntei a Swann, referindo-me à Saint-Loup. 
- Não, nunca. Escreveu-me outro dia para que pedisse ao de Mouchy e a alguns outros que votassem a seu favor no Jockey, onde entrou sem dificuldade alguma. 
- Apesar do Caso Dreyfus? 
- Não levantaram essa questão. De resto, direi que depois disso, não ponho mais os pés naquele lugar.

     Voltou o Sr. de Guermantes e em breve surgiu sua mulher, já pronta, alta e magnífica em um vestido de cetim vermelho cuja saia era bordada de lantejoulas. Ostentava nos cabelos uma grande pluma de avestruz tingida de púrpura; e trazia nos ombros uma écharpe de tule do mesmo vermelho. 

- Como fica bem forrar o chapéu de verde - disse a duquesa, a quem nada escapava. - Aliás, em você, Charlus, tudo é bonito, tanto o que você usa como o que fala, tanto o que lê como o que faz. -

     Swann, sem parecer ouvi-la, contemplava a duquesa como o teria feito diante de uma tela de mestre e, a seguir, buscou o seu olhar, fazendo com a boca o trejeito que quer dizer:

"Puxa!"

     A Sra. de Guermantes desatou a rir. 

- Minha toalete lhe agrada, fico feliz com isso. Mas devo dizer que não agrada muito continuou, com ar aborrecido. - Meu Deus, como é terrível a gente se vestir e ter de sair quando gostaria de ficar em casa! 
- Que rubis esplêndidos! 
- Ah, meu caro Charles, pelo menos vê-se que conhece o assunto. Não é como aquele idiota do Monserfeuil que me perguntava se eram verdadeiros. Devo confessar que jamais vi outros tão lindos. É um presente da duquesa. Para o meu gosto são um pouquinho grandes, um tanto cálida bordeaux cheio até às bordas, mas resolvi pô-los porque veremos esta grã-duquesa na casa de Marie-Gilbert - acrescentou a Sra. de Guermantes sem desconfiar que semelhante afirmação destruía as do duque. 
- O que há na casa da princesa? - perguntou Swann. 
- Quase nada - apressou-se a dizer o duque, a quem Swann fizera crer que ele não fora convidado. - Mas como, Basin? Pois foi convocada toda a nobreza e seu domínio. Será uma tremenda carnificina. O que vai ser bonito - acrescentou a duquesa, olhando para Swann com ar delicado são aqueles maravilhosos jardins, se a tempestade que está se aprontando não desabar. Você os conhece. Já estive lá, há coisa de um mês, na ocasião em que os lilases estavam em flor; não se pode ter uma ideia de como aquilo conseguia ser bonito. E depois o chafariz; enfim, é verdadeiramente Versalhes em Paris. - Que espécie de mulher é a princesa? - perguntei. 
- Mas o senhor já sabe, pois a viu aqui; sabe que é linda como o sol, é também um pouco tola, muito gentil, apesar de toda a sua altivez germânica, de grande coração e cheia de gafes. 

     Swann era bastante fino para não perceber que a Sra. de Guermantes procurava naquele momento "fazer espírito Guermantes", e sem muito esforço, pois não fazia mais que tornar a servir, sob uma forma menos perfeita, antigas frases suas. Não obstante, para provar à duquesa que compreendia a sua intenção de ser engraçada, e como se ela o fosse realmente, sorriu com ar meio forçado, causando-me, por esse tipo especial de insinceridade, o mesmo constrangimento que eu sentira outrora ao ouvir meus pais falarem com o Sr. Vinteuil sobre a corrupção em certos meios (ao passo que sabiam perfeitamente que a maior delas era a que reinava em Montjouvain) ou Legrandin nuançar a conversação para uns bobos, escolher epítetos delicados que ele sabia muito bem não poderem ser compreendidos por um público rico ou elegante, porém iletrado. 

- Mas Oriane, o que é que você está dizendo? Marie tola? Ela leu tudo, é musical como um violino. 
- Mas meu pobre Basin, você é uma criança que acaba de nascer. Como se não se pudesse ser tudo isso e um pouco tola! Tola, de fato, é exagerado. Não, ela é nebulosa, é Hesse Darmstadt, Santo Império e uma lesma. Só a sua pronúncia já me enerva. Reconheço, aliás, que é uma encantadora maluquinha. Para começar, só essa ideia de descer do seu trono alemão para se casar bem burguesmente com um simples particular. É certo que ela o escolheu! Ah, mas é verdade - disse ela voltando-se para mim - o senhor não conhece Gilbert! Vou lhe dar uma ideia dele: faz algum tempo, ficou de cama porque deixei um cartão de visitas na casa da Sra. Carnot... Mas não, meu caro Charlus - disse a duquesa para mudar de assunto, vendo que a história do seu cartão de visitas à Sra. Carnot parecia enfurecer o Sr. de Guermantes -, você sabe que não mandou a fotografia dos nossos cavaleiros de Rodes, de que gosto por sua causa, e que estava com tanta vontade de conhecer. 
 
continua na página 261...
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Volume 2
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O Caminho de Guermantes (2a.Parte - Acaba enterrando a todos nós!)
Volume 4
Volume 5
Volume 7

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