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domingo, 13 de julho de 2025

O Apanhador no Campo de Centeio - 17: Cheguei lá cedo demais

O Apanhador no Campo de Centeio

J.D. Salinger

17

     Cheguei lá cedo demais e, por isso, me sentei num daqueles sofás de couro, bem pertinho do relógio do saguão, e fiquei olhando as garotas. Muita gente já tinha chegado de férias e acho que havia mais ou menos um milhão de pequenas por ali, sentadas ou em pé esperando os namorados. Garotas de pernas cruzadas, garotas de pernas descruzadas, garotas com pernas fabulosas, garotas com pernas pavorosas, garotas que pareciam boazinhas, garotas que, se a gente fosse conhecer, ia ver que eram umas safadas. Era realmente uma paisagem interessante. De certo modo, também era meio deprimente, porque a gente ficava pensando no que ia acontecer com todas elas. Quer dizer, depois que terminassem o ginásio e a faculdade. A maioria ia provavelmente casar com uns bobalhões. Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina. Sujeitos que ficam doentes de raiva, igualzinho umas crianças, se perdem no golfe ou até mesmo num jogo besta como pingue-pongue. Sujeitos que são um bocado perversos. Sujeitos que nunca na vida abriram um livro. Sujeitos chatos pra burro. Mas é preciso ter cuidado com isso, com essa mania de chamar certos caras de chatos. Não entendo bem os chatos. Juro que não. No Elkton Hills, durante uns dois meses fui companheiro de quarto dum garoto, o Harris Macklin. Ele era muito inteligente e tudo, mas era um dos maiores chatos que já encontrei na minha vida. Tinha uma dessas vozes de taquara rachada e praticamente não parava nunca de falar. Não havia jeito de se calar, e o pior de tudo é que, em primeiro lugar, nunca dizia uma única coisa que a gente tivesse interesse em ouvir. Mas tinha uma coisa que ele fazia como ninguém: o filho da puta assoviava como gente grande. Ele ficava fazendo a cama ou pendurando seus trecos no armário - vivia pendurando alguma coisa no armário, me deixava maluco - e, quando não estava tagarelando com aquela voz de taquara rachada, ficava assoviando o tempo todo. Ele era capaz de assoviar até troços clássicos, mas quase sempre assoviava músicas de jazz. Era capaz de pegar um negócio em como, por exemplo, "Tin Roof Blues", e assoviar tão fácil e bonito - sem parar de pendurar os trecos no armário - que deixava a gente doido. Claro que eu nunca disse a ele que o achava um assoviador fabuloso. Ninguém vai chegar junto de um cara e dizer: "Você é um assoviador fabuloso". Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem pra burro. Por isso, tenho minhas dúvidas quanto aos chatos. Talvez a gente não deva sentir tanta pena de ver uma garota legal se casar com um deles. A maioria não faz mal a ninguém e talvez, sem que a gente saiba, sejam todos uns assoviadores fabulosos ou coisa parecida. Nunca se sabe...
     Afinal, avistei a Sally subindo a escada e comecei a descer para encontrá-la. Ela estava um estouro. No duro, mesmo. Estava com um casaco preto e uma espécie de boina preta. Ela quase nunca usava chapéu, mas aquela boina ficava cem por cento. O mais engraçado é que, na hora que a vi, me deu uma bruta vontade de casar com ela. Sou biruta. Nem ao menos gostava muito dela e, apesar disso, de repente, me senti como se estivesse apaixonado e quisesse casar com ela. Juro por Deus que sou biruta. Reconheço. 

- Holden! - ela gritou. - Que bom te encontrar! Faz séculos que não nos vemos! 

     Ela tinha uma dessas vozes altas pra chuchu, que encabulam a gente. Podia dar-se ao luxo de fazer aquele escândalo porque era mesmo bonita pra cachorro, mas aquela maneira de falar sempre me aporrinhava. 

- Que bom encontrar com você - falei. Era verdade mesmo. - Como vai você? 
- Maravilhosamente bem. Estou atrasada?

     Disse que não, mas, para falar a verdade, ela estava atrasada uns dez minutos. Mas eu estava pouco ligando para isso. Toda aquela besteira que vem nas piadas do "Saturday Evening Post" e tudo, mostrando uns caras esperando pela namorada na esquina, furiosos porque ela está atrasada - isso é tudo conversa fiada. Se uma garota está bonita quando chega, qual é o sujeito que vai se importar por causa do atraso? Ninguém se importa. 

- É melhor a gente andar depressa - falei. - A peça começa às duas e quarenta.

     Começamos a descer as escadas em direção ao ponto de táxis. 

- O que é que nós vamos ver? - ela perguntou. 
- Sei lá. Os Lunts. Só consegui arranjar entrada para eles. 
- Os Lunts! Oh, que maravilhoso!

     Tinha certeza que ela ia ficar maluca quando soubesse que ia ver os Lunts. 
     Ficamos nos esfregando um pouco no táxi, a caminho do teatro. No começo ela não queria, por causa do baton e tudo, mas eu estava sedutor pra diabo e ela não teve outra alternativa. Duas vezes, quando a porcaria do táxi teve que frear de repente, por causa do tráfego, por pouco não caí do assento. Essas drogas desses motoristas nunca olham por onde vão, palavra de honra. Aí, só mesmo de doido que eu sou, quando estávamos saindo dum apertão daqueles, eu disse a ela que estava apaixonado e tudo. Claro que era mentira, mas o caso é que eu estava sendo sincero na hora que falei. Sou louco mesmo. Juro que sou. 

- Meu querido, também gosto muito de você - ela disse. E aí engrenou uma segunda: - Me promete que vai deixar teu cabelo crescer. Esse cabelo à escovinha está ficando fora de moda. E teu cabelo é tão bonito...

     Bonito uma ova.
     A peça não era tão ruim. Eu já tinha visto piores. Mas era meio morrinha. Era a estória de uns quinhentos mil anos na vida de um casal velho. Começa quando os dois são jovens e os pais da moça são contra o casamento, mas ela acaba mesmo casando com o cara. E aí eles vão envelhecendo. O marido vai para a guerra e a mulher tem um irmão que é porrista. Não consegui me interessar muito. Quer dizer, não dei muita bola quando morria alguém na família ou coisa que o valha. Eles eram apenas um bando de atores. O marido e a mulher até que formavam um casal simpático - os dois eram muito espirituosos e tudo - mas não consegui me interessar muito por eles. Em parte porque ficaram a peça inteirinha tomando chá ou coisa parecida. Toda vez que apareciam, lá vinha um mordomo empurrando um carrinho de chá para eles, ou então a mulher estava servindo chá a alguém. E todo o mundo estava sempre entrando ou saindo o tempo todo. A gente ficava tonto só de ver o pessoal se sentar e se levantar. O Alfred Lunt e a Lynn Fontanne faziam o papel do casal velho e trabalhavam muito bem, mas não gostei muito deles. Que eles eram diferentes, isso eram. Não agiam feito gente, mas não representavam como atores. É difícil de explicar. Agiam assim como se soubessem que eram famosos e tudo. Quer dizer, eram bons, mas eram bons demais. Quando um deles acabava de dizer sua parte, imediatamente o outro tratava de falar alguma coisa bem depressa. Queriam parecer gente de verdade, conversando e se interrompendo e tudo. Mas o problema é que pareciam demais com gente conversando e se interrompendo. Era um pouco como o Ernie tocando lá no Village. Se a gente faz uma coisa bem demais, aí, depois de algum tempo, se não tiver muito cuidado, começa a se exibir. E aí a gente deixa de ser bom de verdade. De qualquer modo, eles eram as únicas pessoas na peça - os Lunts, é claro - que pareciam ter algum miolo. Isso eu tenho que admitir.
     No fim do primeiro ato, saímos com todos os outros trouxas para fumar um cigarro. Uma palhaçada completa. Nunca vi tanto cretino junto de uma vez só, todos fumando como umas chaminés e falando alto sobre a peça para que os outros vissem como eles eram inteligentes. O bestalhão de um artista de cinema estava fumando perto de nós. Não sei o nome dele, mas é o tal que faz sempre o papel dum cara que, na guerra, se borra todo de medo na hora de enfrentar o fogo. Estava com uma loura do barulho, e os dois estavam tentando bancar o blasé e tudo, como se não soubessem que todo mundo estava olhando para ele. Modesto pra burro. Me diverti um bocado com a estória. A Sally não falou muito, a não ser para se babar com os Lunts, porque estava ocupada em achar tudo bacana e em ser simpática. Aí, de repente, descobriu do outro lado do saguão um imbecil qualquer que ela conhecia. O cara estava de terno de flanela cinza-escuro e um desses coletes de xadrez. Completamente metido a besta. Crente que estava abafando. Ele estava encostado na parede, fumando pra chuchu, dando a impressão de que estava mortalmente aporrinhado. A Sally ficou repetindo: "Conheço aquele rapaz de algum lugar". Ela sempre conhecia alguém, em qualquer lugar que estivesse, ou pelo menos pensava que conhecia. Ficou repetindo tanto, que me enchi e disse:

- Se conhece, porque não vai até lá e dá um beijinho nele? Aposto que ele vai gostar.

     Ela ficou furiosa comigo. Finalmente, o bobalhão nos viu e veio cumprimentá-la. Valia a pena ver os dois se cumprimentando. Parecia até que não se viam há uns vinte anos. Parecia até que os dois tomavam banho juntos, na mesma banheira, quando eram crianças. Velhos faixas. Era nojento. O mais engraçado é que eles, provavelmente, só se haviam encontrado uma única vez, em alguma festa cretina. Afinal, quando deram a baboseira por terminada, a Sally resolveu me apresentar. O nome do cara era George qualquer coisa - nem me lembro - e estudava no Andover. Grande coisa. Dava gosto ver a cara do sujeito quando a Sally pediu a opinião dele sobre a peça. Tratava-se de um desses cretinos que precisam de espaço quando começam a falar. Deu um passo para trás e pisou em cheio no pé de uma dona que estava bem ali. Acho que não sobrou um dedo inteiro no pé da infeliz. Disse que a peça em si não era nenhuma obra-prima, mas os Lunts, evidentemente, eram uns anjos. Anjos, pomba! Anjos. Era o fim. Aí, ele e a Sally começaram a falar de uma porção de gente que os dois conheciam. Era a conversa mais cretina do mundo. Ficavam pensando no nome dum lugar, o mais depressa que podiam, e então soltavam o nome de alguém que morava no tal lugar. Eu estava a ponto de vomitar quando chegou a hora de sentar outra vez. Estava mesmo. E então, quando acabou o segundo ato, os dois continuaram a tal conversa morrinha. Ficaram pensando em outros lugares e outros nomes de pessoas que moravam lá. Para piorar, o palhação tinha uma dessas vozes bem cretinas e pedantes, como se estivesse cansado pra burro. Parecia uma moça, com aquela voz de fresco. Mas o filho da mãe não teve o menor escrúpulo de se meter com minha pequena. Quando saímos do teatro pensei até que ele ia entrar conosco na droga do táxi, porque andou uns dois quarteirões com a gente, mas acabou dizendo que tinha de tomar uns drinques com uma turma de cretinos. Imaginei os caras sentados num bar, cada um metido numa droga dum colete xadrez, comentando peças, livros e mulheres com aquelas vozes cansadas e esnobes. Esses caras me enchem. 
     Quando tomamos o táxi, depois de ouvir aquele filho da mãe do Andover bem umas dez horas seguidas, eu já estava odiando a Sally. Estava decidido a levá-la para casa - estava mesmo - quando ela disse:

- Tenho uma ideia maravilhosa! 

     Ela vivia tendo ideias maravilhosas. 

- Escuta. A que horas você precisa estar em casa para jantar? Você está com muita pressa? Tem hora certa para chegar em casa? - ela continuou. 
- Eu? Não. Não tenho hora certa - respondi. Puxa, nunca falei uma coisa mais verdadeira na minha vida. - Por quê? 
- Vamos patinar no gelo na Radio City? 

     Esse era o tipo de ideia maravilhosa que ela vivia tendo. 

- Patinar na Radio City? Agora? Agorinha mesmo? 
- Só uma hora, mais ou menos. Você não quer? Se não quiser... 
- Não disse que não queria. Claro. Se você quer... 
- Verdade? Não precisa dizer sim só para me agradar. Francamente, ir ou não ir é a mesmíssima coisa para mim. 

     A mesmíssima coisa uma ova. 

- A gente pode alugar aqueles amores de saiotes de patinar - ela disse. - A Jeannette Cultz alugou um, na semana passada. 

     Era por isso que ela estava tão seca para ir. Estava louca para se ver num daqueles saiotinhos que mal dão para cobrir a bundinha e tudo.
     E lá fomos nós. Depois que nos deram os patins, entregaram à Sally um saiotinho azul justíssimo. Para falar a verdade, ela ficou ótima com aquilo. E o pior é que ela sabia. Ficou o tempo todo andando na minha frente, para que eu visse como a bundinha dela era bonitinha. E era bonitinha mesmo. Confesso que era.
     O mais gozado é que nós dois éramos os piores patinadores na droga do ringue. Mas os piores mesmo. E olha que tinha cada cara ruim... Os tornozelos da Sally se entortavam tanto que só faltavam encostar no gelo. Não só tinham uma aparência grotesca, mas também deviam estar doendo pra burro. Sei que os meus estavam. Os meus estavam acabando comigo. Nós devíamos estar uma gracinha. Para piorar ainda mais, tinha no mínimo uns duzentos desocupados sem nada de melhor para fazer do que ficar ali parados, vendo a gente cair uns por cima dos outros.

- Vamos sentar numa mesa lá dentro e tomar um troço qualquer? - perguntei finalmente. 
- Foi a ideia mais maravilhosa que você teve hoje - ela disse. A infeliz estava se matando. Era de doer. Juro que tive pena dela. 

     Tiramos a porcaria dos patins e fomos para aquele bar onde a gente pode tomar uma bebida e espiar os patinadores, só de meias nos pés. Assim que sentamos, a Sally tirou as luvas e eu lhe dei um cigarro. Ela não estava com cara de muito feliz. Veio o garçon e eu pedi uma Coca-Cola para ela - ela não bebia - e um uísque com soda para mim, mas o sacana não quis trazer, e então eu pedi uma coca para mim também. Aí comecei a riscar fósforos. Eu faço muito isso, quando estou num certo estado de espírito. Deixo o fósforo queimar até eu não poder mais segurar, e então jogo no cinzeiro. É um tique nervoso.
     Aí, de repente, sem mais nem menos, a Sally disse: 

- Escuta, preciso saber de uma coisa. Você vem ou não vem me ajudar a arrumar a árvore de Natal? Preciso saber. 

     Estava sendo malcriada, ainda por causa dos tornozelos. 

- Escrevi dizendo que ia. Você já me perguntou esse troço umas vinte vezes. Vou, sim, já disse. 
- Preciso saber mesmo - ela falou.

     Começou a olhar em volta da porcaria do salão. De repente, parei de acender fósforos e me debrucei sobre a mesa, na direção dela. Eu tinha uns assuntos na cachola. 

- Êi, Sally - falei. 
- O que é? - ela perguntou. Estava olhando para uma garota do outro lado da sala. 
- Você já se sentiu alguma vez cheia de tudo? - perguntei. - Quer dizer, você alguma vez na vida já ficou com medo de que tudo vai dar errado, a menos que você faça alguma coisa? Quer dizer, você gosta do colégio e desse negócio todo? 
- É uma chatice
- Quer dizer, você detesta o colégio? Sei que é uma chatice, mas estou perguntando se você detesta mesmo. 
- Bem, detestar mesmo, não detesto. Você vive sempre... 
- Bom, eu odeio a escola. Pôxa, como detesto o troço - falei. - E não é só isso. É tudo. Detesto viver em Nova York e tudo. Táxis, ônibus da Avenida Madison, com os motoristas gritando sempre para a gente sair pela porta de trás, e ser apresentado a uns cretinos que chamam os Lunts de anjos, e subir e descer em elevadores quando a gente só quer sair, e os sujeitos ajustando as roupas da gente nas lojas, e as pessoas sempre... 
- Não grita, por favor - Sally falou. O que era muito engraçado, porque eu nem estava gritando. 
- Os carros, por exemplo - eu disse. E falei numa voz muito calma. - A maioria das pessoas, são todos malucos por carros. Ficam preocupados com um arranhãozinho neles, e estão sempre falando de quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina e, mal acabam de comprar um carro novo, já estão pensando em trocar por outro mais novo ainda. Eu não gosto nem de carros velhos. Quer dizer, nem me interesso por eles. Eu preferia ter uma droga dum cavalo. Pelo menos o cavalo é humano, pôxa. Pelo menos, o cavalo você pode... 
- Não sei nem de que é que você está falando. Você pula de uma coisa... 
- Sabe de um troço? - perguntei. - Só estou agora aqui em Nova York por tua causa. Se você não estivesse por aqui, eu provavelmente estaria numa porcaria dum lugar qualquer, lá pro fim do mundo. No mato ou em qualquer outra droga de lugar. Praticamente só estou aqui por tua causa. 
- Você é um amor - ela disse. Mas via-se que ela estava querendo que eu mudasse de assunto.
- Você devia ir a um colégio de rapazes, só pra ver. Experimenta só - falei. - Estão entupidos de cretinos, e você só faz estudar bastante para poder um dia comprar uma droga dum cadilaque, e você é obrigado a fingir que fica chateado se o time de futebol perder, e só faz falar de garotas e bebida e sexo o dia inteiro, e todo mundo forma uns grupinhos nojentos. Os caras do time de basquete formam um grupinho, os camaradas que jogam bridge formam um grupinho. Até os que são sócios da porcaria do Clube do Livro formam um grupinho. Se você tenta bater um papo inteligente... 
- Escuta aqui - ela disse. - Muitos rapazes encontram mais do que isso no colégio. 
- Concordo! Concordo, alguns deles encontram mesmo. Mas eu só encontro isso. Compreendeu? Esse é que é o caso. É exatamente o meu problema. Não encontro praticamente nada em nada. Estou mal de vida. Estou péssimo. 
- E está mesmo. 

     Aí, de repente, tive uma ideia. 

- Olha aqui - falei. - Escuta a minha ideia. Que tal a gente dar o fora? Escuta só minha ideia. Conheço um camarada que mora lá em Greenwich Village que pode me emprestar o carro dele por uns quinze dias. Ele era meu colega na escola, até hoje me deve dez dólares. Podíamos fazer o seguinte: podíamos sair em direção a Massachusetts e Vermont, amanhã de manhã, e por aí tudo, sabe. É bonito pra burro por lá. É mesmo. 

     Quanto mais pensava no troço, mais excitado ficava, e cheguei a me esticar e pegar a droga da mão da Sally. Que idiota que eu era. 

- Fora de brincadeira - continuei. - Tenho uns 180 dólares no banco. Posso tirar o dinheiro amanhã, quando o banco abrir, e então a gente vai e pega o carro dele. Fora de brincadeira. Vamos ficar numa daquelas casinhas de campo e tudo, até acabar o dinheiro. Aí então, quando terminar a grana, posso arranjar um emprego e nós vamos viver num lugar qualquer, com um riacho, e depois a gente pode se casar e tudo. Eu mesmo ia rachar a lenha no inverno. Palavra de honra, ia ser bom mesmo! Quê que você acha? Vambora! Que tal? Você vem comigo! Por favor! 
- A gente não pode fazer uma coisa dessas - ela disse. Parecia danada da vida. 
- Por que não? Por quê que não pode? 
- Para de gritar comigo, por favor - ela falou, mas era conversa, porque eu nem estava gritando com ela nem nada. 
- Por quê que não pode? Hem? Por quê? 
- Porque não pode, só por isso. Em primeiro lugar, praticamente ainda somos crianças. E você já parou para pensar no quê que ia acontecer se você não arranjasse um emprego quando o dinheiro acabasse? Íamos morrer de fome. Esse negócio todo é tão maluco, que nem é... 
- Não vejo nada de maluco. Eu arranjava um emprego, não se preocupe com isso. Não precisa se preocupar com isso. Quê que há? Não quer ir comigo? Se não quiser, diz logo.
- Não é isso. Não é isso, absolutamente. 

     De certa maneira, eu já estava começando a ficar com raiva dela. 

- Nós vamos ter um mundo de tempo para fazer essas coisas, todas essas coisas. Quer dizer, depois que você acabar a universidade e tudo, e se a gente se casar. Vai ter um mundo de lugares maravilhosos para a gente ir. Você está... 
- Não, não vai ter mundo nenhum de lugares maravilhosos para a gente ir. Ia ser completamente diferente - falei. Estava começando novamente a ficar deprimido como o diabo. 
- O quê? - ela perguntou. - Não estou ouvindo direito. Uma hora você grita, na outra você... 
- Eu disse que não, que não vai ter lugar maravilhoso nenhum para se ir, depois que eu terminar a universidade e tudo. Vê se escuta direito. Ia ser completamente diferente. Teríamos que descer de elevador, com as malas e a tralha toda. Íamos ter que telefonar para todo mundo, dizendo "até à volta", e mandar cartões postais dos hotéis e tudo. E eu estaria trabalhando em algum escritório, ganhando um dinheirão, e indo para o trabalho de táxi ou nos ônibus da Avenida Madison, e lendo jornais, e jogando bridge o tempo todo, e indo ao cinema, e vendo uma porção de documentários idiotas e traillers e jornais. Jornais cinematográficos. Puxa vida. Tem sempre uma corrida de cavalos imbecil, e uma dona quebrando uma garrafa no casco de um navio, e um chipanzé andando numa droga duma bicicleta, vestido de calças. Não ia ser a mesma coisa nem um pouquinho. Você não entendeu nada do que eu falei. 
- Talvez não! Talvez nem você também entenda - ela respondeu. Já estávamos um com raiva do outro. Estava na cara que não adiantava tentar uma conversa inteligente. Eu estava danado de ter começado o troço. 
- Vamos, vambora daqui - falei. - Pra falar a verdade, você enche o meu saco. 

     Pôxa, ela foi bater lá no teto quando eu disse isso. Sei que não devia ter dito, e provavelmente não teria dito em outra situação, mas ela estava me fazendo ficar tremendamente deprimido. Em geral, nunca digo esse tipo de coisa a uma garota. Pôxa, ela subiu a serra. Eu me desculpei como um doido, mas ela não quis aceitar minhas desculpas. Estava até chorando. Isso me deixou meio apavorado, porque fiquei com medo que ela fosse para casa e contasse ao pai que eu tinha dito que ela enchia meu saco. O pai dela era um daqueles filhos da mãe enormes e caladões, e nunca tinha ido muito com a minha cara. Ele uma vez disse a Sally que eu era muito barulhento.

- Fora de brincadeira. Me desculpe - eu continuava a repetir. 
- Desculpe. Desculpe. É muito engraçado - ela disse. Ela ainda estava meio chorando e, de repente, acho que me senti arrependido mesmo de ter dito aquilo. 
- Vambora. Vou te levar em casa. Fora de brincadeira. 
- Sei ir pra casa sozinha, muito obrigada. Se pensa que vou deixar você me levar em casa, está louco. Nenhum rapaz nunca me disse isso em toda a minha vida. 

     Pensando bem, o negócio todo era de certo modo meio cômico e, de repente, fiz uma coisa que não devia ter feito. Ri. E eu tenho uma dessas gargalhadas imbecis, altas pra burro. Dessas assim que, se eu sentasse atrás de mim num cinema ou coisa parecida, eu provavelmente me debruçaria e diria a mim mesmo para fazer o favor de calar a boca. A Sally ficou ainda mais danada. 
     Fiquei por ali algum tempo, pedindo desculpas e tentando fazer com que ela me desculpasse, mas não houve jeito. Continuava a me dizer para ir embora e deixá-la em paz. Acabei fazendo isso mesmo. Fui lá dentro, apanhei meus sapatos e meus trecos, e fui embora sem ela. Não devia ter feito isso, mas nessas alturas eu já estava mesmo cheio. 
     Para ser franco, nem sei porque comecei aquela história toda com ela. Quer dizer, aquele troço de ir para algum canto, para Massachusetts e Vermont e tudo. Provavelmente não a levaria comigo, nem que ela quisesse. Ela não era o tipo de garota que valesse a pena levar para um negócio daqueles. Mas o pior de tudo é que eu estava falando sério na hora que fiz o convite. Isso é que é o pior. Juro por Deus que sou maluco. 

O Apanhador no Campo de Centeio - 17: Cheguei lá cedo demais
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“O Apanhador” narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 17 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias. Na volta para casa, ao se preparar para enfrentar o inevitável esporro da família, Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça.

sábado, 7 de junho de 2025

O Apanhador no Campo de Centeio - 16: Depois do café

O Apanhador no Campo de Centeio


J.D. Salinger


16

     Depois do café, como o meu encontro com a Sally era às duas horas e ainda não havia passado de meio dia, resolvi dar um passeio a pé. Não conseguia parar de pensar nas duas freiras. Não me saía da cabeça aquela bolsa de palha surrada em que elas coletavam dinheiro quando não estavam dando aula. Tentei imaginar minha mãe ou outra pessoa, minha tia ou aquela doida da mãe da Sally Hayes, paradas na porta de uma grande loja, catando dinheiro numa cesta de palha. Era difícil. Minha mãe nem tanto, mas as outras duas... Minha tia é um bocado caridosa. Trabalha muito para a Cruz Vermelha e tudo. Mas ela anda sempre muito elegante, e toda vez que faz alguma caridade está sempre podre de chic, de batom e todos esses troços. Era impossível imaginá-la fazendo caridade sem pintura nem nada e toda vestida de preto. E a mãe da Sally Hayes! Puxa vida. Só via um jeito dela sair recolhendo dinheiro numa cesta: era se todo mundo ainda tivesse que fazer a maior reverência, se dobrar até o chão, cada vez que entregasse um donativo. Só botar o dinheiro na cesta e ir em frente, sem dizer nada, isso não bastava. Ela assim desistia em menos de uma hora. Ia ficar chateada, devolvia a cesta e se mandava para algum lugar elegante para almoçar. Era isso que eu apreciava naquelas freiras. A gente podia jurar que elas nunca tinham comido num lugar bacana. Só de pensar que nunca tinham posto os pés num lugar grã-fino para almoçar me deixou triste. Sabia que isso não tinha nenhuma importância, mas fiquei triste de qualquer maneira.  
     Comecei a andar na direção da Broadway, só de farra, porque fazia mais de um ano que eu não ia lá. Além disso, queria achar uma loja de discos aberta. Queria comprar para a Phoebe um disco chamado "Little Shirley Beans". Era um disco difícil de encontrar. Era a estória de uma menininha que não queria sair de casa porque dois dentes da frente tinham caído e ela tinha vergonha de sair assim. Foi no Pencey que eu ouvi esse disco. Quem tinha era um garoto que morava em outro andar. Fiz tudo para comprar dele, porque sabia que a Phoebe ia vibrar com o troço, mas o garoto não quis vender. O disco tinha sido gravado há uns vinte anos por uma cantora negra, a Estella Fletcher. Ela canta com muita bossa e num estilo de cabaré, sem nenhum sentimentalismo barato. Se fosse cantado por uma branca ia sair água com açúcar, mas a Estella Fletcher sabia o que estava fazendo, e o disco é um dos melhores que eu conheço. Minha ideia era comprá-lo, se achasse alguma loja aberta, e depois levá-lo para o parque. Era domingo, e quase todo domingo a Phoebe vai patinar lá. Conheço bem o roteiro dela.
     Não estava tão frio quanto na véspera, mas o sol não havia aparecido e o dia não era dos mais agradáveis para se andar a pé. Mas vi uma coisa boa. Bem na minha frente caminhava uma família que, pelo jeito, estava vindo da igreja. O pai, a mãe e um garotinho de uns seis anos. Pareciam meio pobres. O pai estava usando um desses chapéus de feltro cinzento que o pessoal pobre usa quando quer ficar elegante. Ele e a mulher caminhavam despreocupados, conversando, sem ligar para o garoto. O guri era o máximo. Tinha descido da calçada e vinha andando pela rua, juntinho ao meio-fio. Fazia de conta que estava andando bem em cima de uma linha reta, como todos os meninos fazem, e cantarolava o tempo todo. Cheguei perto para ver se escutava o quê que ele estava cantando. Era aquela música "Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio". A vozinha dele até que era afinada. Estava cantando só por cantar, via-se logo. Os carros passavam por ele zunindo, os freios rangiam em volta, os pais não davam a mínima bola para ele, e o menino continuava a andar colado ao meio-fio, cantando - "Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio". Isso me fez sentir melhor. Deixei de me sentir tão deprimido.
     A Broadway estava uma bagunça, de tanta gente. Era domingo, mais ou menos meio-dia, e já estava entupida de gente. Todo mundo estava indo para o cinema - Paramount, ou Astor, ou Capitol, ou qualquer droga parecida. Todo mundo estava enfatiotado, só porque era domingo, e isso ainda piorava a coisa. O pior mesmo de tudo é que a gente via logo que todo mundo queria ir ao cinema. Eu não conseguia nem olhar para aquela gente. Compreendo que uma pessoa vá ao cinema porque não tem nenhum programa melhor, mas ver alguém querendo mesmo ir, e até andar mais depressa para chegar logo lá, isso me deprime pra chuchu. Principalmente se vejo milhões de pessoas em pé numa dessas filas compridas como o diabo, de dar volta no quarteirão, esperando com a maior paciência sua vez de comprar a entrada e tudo. Puxa, eu só queria sair dali o mais depressa possível. Tive sorte. Encontrei o disco na primeira loja em que entrei. Pediram cinco dólares, porque era muito raro, mas não me importei. Puxa, o troço me fez ficar feliz assim de repente. Mal podia esperar até chegar no parque e ver se a Phoebe estava por lá, para dar o disco a ela.
     Quando saí da loja, passei por uma farmácia e resolvi entrar. Estava pensando em dar um telefonema para a Jane e saber se ela já tinha vindo de férias. Entrei numa cabine e disquei. O problema é que a mãe dela atendeu e desliguei depressa. Não estava com nenhuma vontade de me meter numa conversa comprida com ela. Não me entusiasmo muito com a ideia de ficar conversando pelo telefone com a mãe de garota nenhuma. Eu devia pelo menos ter perguntado se a Jane já estava em casa. Isso não ia me arrancar nenhum pedaço. Só que não estava com vontade. E a gente precisa estar com disposição para fazer um troço desses.
     Ainda não tinha comprado a droga das entradas, por isso fui ver no jornal as peças em cartaz. Como era domingo e tudo, só três teatros estavam abertos. O que fiz foi comprar duas poltronas, na plateia, para "Conheço meu amor". Era um espetáculo de caridade ou coisa que o valha. Eu não tinha o menor interesse em ver a tal peça, mas conhecia bem a Sally, a rainha da cretinice, e tinha certeza de que ela ia se babar toda assim que soubesse onde é que nós íamos, porque os artistas eram os Lunts e tudo. Sally só gostava das peças consideradas muito sofisticadas e metidas a besta, com os Lunts e tudo. Eu, não. Para ser franco, não gosto muito de teatro. Não é tão ruim quanto o cinema, mas não é coisa que me faça vibrar. Pra começo de conversa, detesto os atores. Nunca se comportam como gente normal. Só pensam que se comportam. Alguns dos bons conseguem, mas ligeiramente, e de uma forma que não dá prazer de ver. E, se um ator é bom mesmo, a gente percebe logo que ele sabe que é bom, e isso estraga tudo. Sir Lawrence Olivier é um exemplo. Eu o vi trabalhar em "Hamlet". O D. B. me levou com a Phoebe, no ano passado. Primeiro nos levou para almoçar e depois fomos ver o filme. O D. B. já tinha visto uma vez e, pelo jeito que ele falou na hora do almoço, fiquei realmente ansioso para ver também. Mas não gostei muito. Não consigo descobrir o quê que é tão fabuloso em Sir Lawrence Olivier, só isso. Tem uma voz infernal e é um sujeito simpático pra diabo, e muito bom da gente olhar quando está andando ou duelando ou coisa parecida, mas não era nada parecido com a descrição que o D. B. tinha feito do Hamlet. Ele mais parecia uma porcaria dum general do que um camarada meio triste e confuso. A melhor parte do filme foi quando o irmão da tal Ofélia - aquele que trava um duelo com o Hamlet no final - estava de partida e o pai dele fica dando uma porção de conselhos. Enquanto o pai estava dando os maiores conselhos, a Ofélia estava fazendo uma hora bárbara com o irmão, tirando o punhal da bainha e implicando com ele, enquanto o cara faz uma força danada para parecer interessado nos assuntos do velho. Isso foi cem por cento e me divertiu pra burro. Mas não é o tipo da coisa que a gente vê muito por aí. A Phoebe só gostou de uma coisa, foi quando o Hamlet fez carinho na cabeça dum cachorrinho. Ela achou o troço engraçado e bonito, e era mesmo. Uma coisa que eu tenho que fazer é ler essa peça. o problema comigo é que sempre tenho de ler esses negócios sozinho, por conta própria. Se vejo um ator representando, mal consigo escutar direito. Fico preocupado, achando que ele vai fazer um troço cretino e falso a qualquer instante.
     Com as entradas para os Lunts no bolso, tomei um táxi para o parque. Devia ter apanhado o metrô ou coisa parecida, porque estava começando a ficar curto de dinheiro, mas queria dar o fora da droga da Broadway o mais rápido possível.
     Estava horrível no parque. O frio até que não era de matar, mas o sol não tinha saído ainda, e não parecia haver nada no parque a não ser bosta de cachorro e poças de cuspe e pontas de charutos dos velhos, e todos os bancos onde a gente ia sentar pareciam molhados. Além de deprimente, de vez em quando - e sem o menor motivo - a gente ficava todo arrepiado. Nem parecia que estava tão próximo do Natal. Não parecia que estava próximo de coisa nenhuma. Continuei a andar na direção da pista de patinação, que é onde a Phoebe costumava ficar. Ela gosta de patinar perto do coreto. Engraçado. É o mesmo lugar onde eu também gostava de patinar quando era garoto.
     Mas neca da Phoebe quando cheguei lá. Havia uns meninos patinando e tudo, e dois deles jogavam bola, mas nada da Phoebe. Vi uma garota mais ou menos da idade dela, sentada sozinha num banco, apertando o patim. Pensei que talvez conhecesse a Phoebe e pudesse me dizer onde ela estava ou qualquer coisa assim, por isso fui me sentar no banco ao lado dela e perguntei:

- Por acaso você conhece a Phoebe Caulfield? 
- Quem? 

     Ela estava vestida só com uma calça blue-jeans e uns vinte suéteres. Estava na cara que tinham sido feitos pela mãe dela, porque eram um bocado mal-ajambrados.

- Você conhece a Phoebe? 
- Conheço sim. Sou irmão dela. Sabe onde é que ela está? 
- Ela é da classe de Miss Callon, não é? - perguntou. 
- Não sei. Acho que é. 
- Ela deve estar no museu. Nós fomos lá no sábado passado.
- Qual museu? 

     Ela sacudiu os ombros. 

- Sei lá. O museu. 
- Isso eu sei. O que eu estou perguntando é se é o museu que tem os quadros ou o que tem os índios. 
- O que tem os índios. 
- Obrigado - falei. 

     Me levantei e comecei a andar, mas aí me lembrei de repente que era domingo. 

- Hoje é domingo - disse à menina. Ela levantou os olhos para mim. 
- Ah, é. Então ela não está lá. 

     Ela estava tendo um trabalhão dos diabos para apertar os patins. Não tinha luvas nem nada, e as mãos dela estavam vermelhas de frio. Dei-lhe uma ajuda. Puxa, fazia não sei quantos anos que eu não segurava uma chave de patins. Mas não estranhei nem um pouquinho. Sou capaz de apostar que, se puserem uma chave de patins na minha mão daqui a uns cinquenta anos, e na maior escuridão do mundo, ainda sou capaz de dizer o quê que é. Ela me agradeceu e tudo quando acabei. Era uma garotinha muito simpática e bem educada. No juro, fico um bocado feliz quando uma criança sabe ser simpática e educada na hora em que eu acabo de apertar os patins dela ou coisa parecida. A maioria das crianças é assim. É mesmo. Perguntei se ela queria tomar um chocolate quente comigo ou outra coisa qualquer, mas ela disse que não, muito obrigada. Disse que tinha de se encontrar com uma amiguinha. Criança tem sempre um encontro marcado com algum amigo. Eu me esbaldo com isso.
     Mesmo sendo domingo e já sabendo que a Phoebe não estava no museu - e apesar do tempo estar tão úmido e ruim - atravessei o parque a pé até lá. Era do Museu de História Natural que a menina tinha falado. Eu conhecia aquele museu como a palma de minha mão. Eu tinha sido da mesma escola da Phoebe, quando era garoto, e íamos muito lá. Tínhamos uma professora, a Miss Aigletinger, que nos levava lá quase todo sábado. Às vezes íamos ver os animais, outras vezes os troços feitos pelos índios nos tempos antigos. Cerâmica e cestas de palha e outros troços assim. Fico feliz só de me lembrar. Até hoje. Me lembro que, depois de olhar as coisas dos índios, a gente quase sempre ia ver um filme qualquer num auditório enorme. Colombo. Eles viviam mostrando à gente o Colombo descobrindo a América, e dando um duro danado para convencer o velho Fernando e a Isabel a emprestarem a grana para comprar os navios, e depois os motins da tripulação e tudo. Ninguém ligava muito para o pobre do Colombo, mas a gente sempre levava uma porção de balas e chicletes e outros troços, e o auditório tinha um cheiro muito gostoso. Sempre cheirava como se estivesse chovendo lá fora, mesmo quando não estava, e a gente se sentia como se estivesse no único lugar bonito, seco e gostoso do mundo. Eu adorava aquela droga daquele museu. Me lembro que a gente tinha que passar pelo Salão dos Índios para chegar ao auditório. Era um salão muito comprido e a gente só podia falar aos cochichos. A professora ia na frente, a turma atrás, formando duas colunas. Cada um de nós tinha um companheiro e eu quase sempre ficava ao lado de uma menina chamada Gertrudes Levine. Ela vivia o tempo todo segurando a mão da gente, e a mão dela era sempre pegajosa ou suada ou sei lá o quê. O chão era todo de pedra e, se a gente levava umas bolas de gude e deixava cair uma de repente, a danada saía quicando como o diabo pelo salão, fazendo um barulho infernal. Aí a professora parava o pessoal e voltava para ver o que é que estava acontecendo, mas nem por isso ficava zangada. Aí a gente passava por uma canoa de guerra dos índios, comprida pra chuchu, do tamanho de uns três cadilaques juntos, com uns vinte índios dentro - uns remando, outros sem fazer nada, fazendo pose de machão, mas todos com pintura de guerra. Lá atrás, sentado, tinha um cara estranho, com uma máscara de meter medo. Era o curandeiro. Ele me deixava arrepiado, mas eu até que gostava dele. Outra coisa: se a gente punha a mão num dos remos ou noutro troço qualquer, um dos guardas dizia logo:

- Não peguem em nada, crianças. 

     Mas sempre com uma voz simpática, não como uma droga dum tira nem nada.  
     Aí a gente passava por um baita dum mostruário, todo de vidro. Lá dentro, uns índios esfregavam paus para fazer fogo e uma índia tecia um cobertor. A índia que tecia o cobertor estava meio curvada e dava para a gente ver os seios dela e tudo. Todos nós dávamos uma olhada caprichada, até mesmo as meninas, porque elas ainda eram crianças e tinham tanto seio quanto qualquer um de nós. Aí, quase na porta do auditório, passava-se por um esquimó. Ele estava sentado perto de um buraco, cortado na superfície gelada de um lago, e pescava dentro dele. Bem na borda do buraco havia dois peixes que ele já tinha apanhado. Aquele museu estava cheio de mostruários de vidro. E tinha mais alguns lá em cima, com veados lá dentro bebendo água nuns laguinhos pequenos, e os pássaros voando, para o sul no outono. Os pássaros que ficavam mais perto da gente eram empalhados e presos por arames, e os outros, mais longe, eram pintados na parede, mas todos davam mesmo a impressão de estar voando para o sul. E, se a gente se curvasse e olhasse bem de baixo para cima, parecia que eles estavam com mais pressa ainda de voar para o sul. Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição. Ninguém se mexia. A gente podia ir lá cem mil vezes, e aquele esquimó ia estar sempre acabando de pescar os dois peixes, os pássaros iam estar ainda a caminho do sul, os veados matando a sede no laguinho, com suas galhadas e suas pernas finas tão bonitinhas, e a índia de peito de fora ainda ia estar tecendo o mesmo cobertor. Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós. Não que a gente tivesse envelhecido nem nada. Não era bem isso. A gente estaria diferente, só isso. Podia estar metido num sobretudo, dessa vez. Ou o outro garoto, companheiro de fila da visita anterior, não tinha vindo porque estava com caxumba e a gente teria outro companheiro. Ou então a substituta de Miss Aigletinger é que estaria levando a turma. Ou então a gente tinha ouvido o pai e a mãe da gente terem a maior briga no banheiro. Ou então a gente tinha acabado de passar, na rua, por uma poça d'água com um arco-íris de gasolina dentro dela. Quer dizer, a gente estaria diferente, de um jeito qualquer - não sei explicar direito, mas o negócio é assim mesmo. E, mesmo que eu soubesse, acho que não ia ter muita vontade de explicar.
     Enquanto andava, fui tirando o chapéu de caça do bolso e pus na cabeça. Tinha certeza que não ia encontrar nenhum conhecido e estava uma umidade desgraçada. Andei e andei, e continuei pensando na Phoebe, indo todo sábado ao museu assim como eu ia antigamente. Fiquei pensando que ela ia ver todos aqueles troços que eu tinha visto antigamente, e que ela estaria diferente cada vez que fosse lá. Não cheguei a ficar deprimido de pensar nisso, mas não vou dizer que tenha ficado alegre como o diabo. Há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles mostruários enormes de vidro e deixá-las em paz. Sei que isso não é possível, mas é uma pena que não seja. De qualquer maneira, continuei a pensar em tudo isso enquanto ia andando.
     Passei por um playground e parei para ver dois garotinhos bem pequenos numa gangorra. Um deles era meio gorducho, e eu quis dar uma ajuda ao magricela para ver se equilibrava o peso. Mas estava na cara que eles não me queriam por ali, por isso deixei os dois sozinhos.
     Aí aconteceu uma coisa engraçada. Quando eu cheguei ao museu, de repente, senti que não entraria lá nem por um milhão de dólares. O museu simplesmente não me atraía - e ali fiquei eu, depois de ter atravessado toda a droga do parque, pensando em visitar de novo o museu e tudo. Se a Phoebe estivesse lá eu provavelmente ainda teria entrado, mas ela não estava. O que fiz foi tomar um táxi na frente do museu e seguir para o Biltmore. Já não tinha a mínima vontade de ir. Mas o fato é que tinha marcado aquela droga daquele encontro com a Sally.

O Apanhador no Campo de Centeio - 16: Depois do café
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“O Apanhador” narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 17 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias. Na volta para casa, ao se preparar para enfrentar o inevitável esporro da família, Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O Apanhador no Campo de Centeio - 15: Dormi pouco

O Apanhador no Campo de Centeio


J.D. Salinger


15

     Dormi pouco, porque eram só umas dez horas quando acordei. Fumei um cigarro e logo depois senti uma fome desgraçada. Não tinha comido nada desde aqueles dois hamburgers com o Brossard e o Ackley, quando fomos ao cinema em Agerstown. Já fazia um bocado de tempo, parecia que tinha sido uns cinquenta anos antes. O telefone estava pertinho de mim e tive vontade de pedir o café no quarto, mas fiquei com medo que mandassem o Maurice trazer. Para ser franco, não estava lá muito ansioso por vê-lo de novo. Por isso, fiquei rolando na cama algum tempo e acendi outro cigarro. Pensei em dar um telefonema para a Jane, para ver se ela já estava em casa e tudo, mas a ideia não chegou a me entusiasmar.
     O que fiz foi ligar para a Sally Hayes. Ela estudava no Colégio Mary A. Woodruff e eu sabia que já devia ter voltado para casa, por causa da carta que eu tinha recebido umas duas semanas antes. Ela não me atraía muito, embora eu a conhecesse há anos. Antigamente eu achava a Sally muito inteligente, mas só de burro que eu sou. Só porque ela entendia de teatro, e peças, e literatura e todo esse negócio. Quando as pessoas sabem um bocado sobre essas coisas, a gente leva um tempão para descobrir se são burras ou não. No caso da Sally eu levei anos. Com certeza teria descoberto muito antes, se nós não tivéssemos namorado tanto. O meu problema é que eu sempre acho inteligente a pequena com quem estou me esfregando no momento. Uma coisa não tem droga nenhuma a ver com a outra, mas continuo pensando assim. 
     De qualquer maneira, liguei para a casa dela. Primeiro me respondeu a empregada. Depois o pai. Depois veio ela.

- Sally? - Sim... Quem fala? - ela perguntou. Era uma cretinazinha de marca maior. Eu já tinha dito ao pai dela que era eu. 
- É Holden Caulfield. Como vai? 
- Holden! Vou bem, e você? 
- Muito bem. Escuta. Como vai você? Quer dizer, como vai de colégio? 
- Vou bem - ela disse. 
- Quer dizer, sabe como é, né? 
- Ótimo. Bem, escuta aqui. Será que você tem algum compromisso para hoje? É domingo, mas sempre tem uma ou duas matinês no domingo. De caridade, ou coisa que o valha. Quer ir? 
- Gostaria muito. Grande ideia. Magnífico! 

     Magnífico. Se há uma palavra que eu odeie é magnífico. É tão cretina. Por um segundo tive vontade de dizer que era melhor desistir da matinê. Mas batemos papo durante algum tempo. Isto é, ela bateu. Não consegui encaixar nem uma palavra. Primeiro me falou de um camarada de Harvard que andava doido atrás dela - um calouro, com certeza, mas é claro que isso ela não ia dizer. O cara telefonava dia e noite. Dia e noite - não aguento. Depois contou que outro cara, um cadete de West Point, também estava gamado por ela. Grande vantagem. Afinal, mandei que ela me encontrasse debaixo do relógio de Biltmore, às duas horas, e que não se atrasasse, porque a peça ia começar às duas e meia. Ela sempre se atrasava. Aí desliguei. Ela era chata pra burro, mas era um bocado bonita. 
     Depois de marcar o encontro, levantei, me vesti e arrumei a mala. Espiei pela janela antes de ir embora, para ver como iam os tarados, mas todas as venezianas estavam baixadas. Eram um padrão de decência pela manhã. Aí tomei o elevador e paguei a conta. Não vi o tal do Maurice em parte alguma. Claro que não me danei a procurar por ele, o filho da mãe.
     Peguei um táxi na porta do hotel, mas não tinha a mínima ideia para onde ir. Não tinha mesmo para onde ir. Era domingo ainda e eu só podia ir para casa na quarta-feira. Ou, no mínimo, na terça. E, no duro mesmo, não estava com vontade nenhuma de me meter noutro hotel para me quebrarem a cara. Por isso, mandei o motorista me levar para a Estação Grand Central. Era juntinho do Biltmore, onde ia encontrar a Sally mais tarde, e calculei que o melhor era deixar as malas guardadas num daqueles armários de aço que a gente leva a chave, e depois, ir tomar café. Estava com fome. Enquanto o táxi seguia, tirei a carteira e mais ou menos contei o dinheiro que me sobrava. Não me lembro exatamente quanto tinha, mas não era nenhuma fortuna. Tinha jogado fora um dinheirão naquelas duas miseráveis semanas. Tinha mesmo. No fundo, eu sou um tremendo esbanjador. E o que não gasto, acabo perdendo. A maioria das vezes, até esqueço de apanhar meu troco nos restaurantes, buates e tudo. Meus pais ficam furiosos com isso e, afinal de contas, têm razão. Mas meu pai é bastante rico. Não sei quanto ele ganha - nunca conversamos sobre isso - mas sei que é um bocado. Ele é advogado de uma companhia. Esses camaradas faturam uma nota alta. Outra prova de que ele está muito bem de vida é que está sempre investindo em peças da Broadway. As peças sempre fracassam e minha mãe fica maluca quando ele faz isso. Desde que meu irmão Allie morreu ela não tem estado muito bem. É muito nervosa. Por isso também, por causa dela, é que fiquei meio chateado de ter levado bomba outra vez.
     Depois de deixar minhas malas num armário da estação, entrei num barzinho e tomei café. Para mim foi um vastíssimo café - suco de laranja, bacon e ovos, torrada e café. Em geral, fico só no suco de laranja. Como muito pouco. Verdade mesmo. É por isso que sou tão esquelético. Eu devia fazer uma espécie de superalimentação, para aumentar o peso e tudo, mas nunca fiz. Quando estou fora de casa, geralmente só como sanduíches de queijo e leite maltado. Não é muita coisa, mas o leite maltado tem um monte de vitaminas. H. V. Caulfield. Holden Vitamina Caulfield.
     Enquanto comia meus ovos, entraram duas freiras, com valises e tudo - achei que estavam se mudando de convento ou coisa parecida e esperavam um trem -, e sentaram no balcão. Pareciam não saber que diabo fazer com as valises, por isso dei uma mãozinha. As valises eram daquelas baratas pra burro - das que não são de couro de verdade nem nada. Isso não tem grande importância, eu sei, mas odeio ver alguém com essas malas ordinárias. É chato confessar, mas sou capaz de odiar alguém, só de olhar, se a pessoa estiver carregando umas valises iguais àquelas. Uma vez me aconteceu um troço enjoado. Foi quando eu estava no Elkton Hills e meu companheiro de quarto, um tal de Dick Slagle, tinha uma dessas malas muito vagabundas. Ele guardava a mala debaixo da cama e não no porta-malas, para que ninguém a visse junto das minhas. Isso me deprimia pra burro. Eu tinha vontade de jogar fora as minhas malas ou coisa parecida, ou até mesmo fazer uma troca com ele. Minhas malas tinham sido compradas numa loja de classe, eram de couro de bezerro e tudo mais, e acho que custaram um dinheirão. No fim, acabei escondendo também as minhas malas debaixo da minha cama, em vez de botá-las no porta-malas, para que o Slagle não ficasse com complexo de inferioridade. Sabe o quê que ele fez? No dia seguinte tirou minhas malas de baixo da minha cama e pôs tudo de novo no porta-malas. E fez isso - levei algum tempo para descobrir - porque queria dar a impressão a todo mundo de que as minhas malas eram dele. Queria mesmo. Era um sujeito gozado. Por exemplo, vivia falando sobre as minhas valises, que eram novas e burguesas demais. Essa era a palavra predileta dele. Tudo meu era burguês pra diabo. Até minha caneta-tinteiro era burguesa. Vivia pedindo a caneta emprestada, mas nem por isso ela deixava de ser burguesa. Só moramos juntos uns dois meses. Depois nós dois pedimos para mudar de quarto. O mais engraçado é que, depois da mudança, eu senti falta dele, porque o safado tinha um senso de humor infernal e, de vez em quando, nós nos divertíamos à bessa. Não me admiraria se ele também sentisse saudade de mim. No começo, ele chamava minhas coisas de burguesas só de brincadeira, e eu não dava bola. Achava até meio engraçado. Depois de algum tempo, ficou evidente que ele não estava mais brincando. O negócio é que é um bocado duro ser companheiro de quarto de um sujeito se as malas da gente são muito melhores que as dele - se as da gente são boas mesmo e as dele não. A gente ainda pensa que, se o outro é inteligente e tudo mais, e se tem senso de humor, não vai dar pelota para esse negócio das malas. Mas o fato é que dá. Dá mesmo. É por isso que fui morar com um filho da mãe imbecil feito o Stradlater. Pelo menos as malas dele eram tão boas quanto as minhas.
     Afinal as duas freiras se sentaram ao meu lado e nós acabamos conversando. A que estava junto de mim carregava uma daquelas cestinhas em que as freiras e as donas do Exército da Salvação coletam dinheiro na época do Natal. Essas que a gente encontra pelas esquinas, principalmente na Quinta Avenida, em frente das grandes lojas e tudo. A cestinha da que estava ao meu lado caiu no chão e me abaixei para apanhar. Perguntei se ela estava recolhendo dinheiro para as obras de caridade e tal. Ela disse que não. Disse que a cesta tinha sobrado na hora de arrumar as malas e, por isso, a havia trazido na mão. Ela tinha um sorriso simpático quando olhava para a gente. Tinha um nariz grande e usava óculos, daqueles com uma espécie de aro de ferro, que não são lá muito elegantes, mas tinha uma cara bondosa pra chuchu.

- Se a senhora estivesse recolhendo dinheiro - falei - eu talvez pudesse fazer uma pequena contribuição. Ou então a senhora podia guardar o dinheiro para quando for a época. 
- Oh, que bondade a sua - ela disse, e a outra, a amiga dela, olhou para mim. 

     A outra estava lendo um livrinho de capa preta enquanto bebia o café. Parecia uma Bíblia, mas era fininho demais. Mas era como uma Bíblia. As duas estavam tomando só café com torradas. Já isso me deprimiu. Odeio estar comendo bacon com ovos ou qualquer outra coisa, e ver outra pessoa tomar só café com torradas. 
     Elas acabaram aceitando uma contribuição de dez dólares. Ficaram perguntando se eu tinha certeza de que não ia me fazer falta e tudo. Eu disse que tinha bastante dinheiro, mas elas pareciam não acreditar muito. Mas acabaram aceitando o dinheiro. E continuaram a me agradecer tanto que chegava a encabular. Levei a conversa para assuntos gerais e perguntei para onde elas iam. Contaram que eram professoras e estavam chegando de Chicago para começar a ensinar num convento da rua 168 ou 186, uma daquelas ruas lá nos cafundós do Judas. A que estava sentada ao meu lado, com os óculos de aro de ferro, disse que ensinava inglês e a amiga dela ensinava história e política americana. E eu comecei a pensar o que é que aquela que estava ao meu lado e ensinava inglês devia pensar, sendo freira e tudo, quando lia certos livros como parte de seu trabalho de professora. Livros que não são só sobre esses troços de sexo, mas com estórias de amantes e tudo. Assim como a tal de Eustacia Vye, em "A Volta do Nativo", de Thomas Hardy. Embora o livro não tivesse sexo demais, a gente não pode deixar de imaginar o que é que uma freira pensa quando lê sobre a tal da Eustacia. Não falei nada, claro. Só disse que inglês era o meu forte.

- É mesmo? Ah, que bom! - falou a de óculos, que ensinava inglês. - Que foi que você leu este ano? Gostaria muito de saber. 

     Ela era boazinha mesmo.  

- Bem, passamos quase o tempo todo nos Anglo-Saxões, Beowulf e Grendel e Lord Randal My Son, e tudo isso. Mas tivemos que ler alguns livros fora do currículo, para melhorar as notas. Eu li "A Volta do Nativo", de Thomas Hardy, e "Romeu e Julieta" e "Júlio..." 
- Ah, "Romeu e Julieta"! Que beleza! Você não adorou? 

     Na verdade ela não falava muito como uma freira.

- Gostei. Gostei muito. De umas coisas eu não gostei, mas, no todo, achei muito comovente. 
- De que não gostou? Lembra-se? 

     Para dizer a verdade, era meio esquisito falar com ela de "Romeu e Julieta". Quer dizer, a peça é meio cheia de sexo, em alguns pedaços, e ela era uma freira e tudo, mas ela perguntou, e por isso discuti um pouco o assunto. 

- Bem, não sou maluco pelo Romeu e pela Julieta. Quer dizer, gosto deles, mas... sei lá. Às vezes os dois conseguem ser meio irritantes. Quer dizer, tive muito mais pena quando mataram o tal de Mercúrio do que quando Romeu e Julieta morreram. O negócio é que nunca simpatizei muito com o Romeu, depois que aquele outro homem, o primo de Julieta - como é mesmo o nome dele? - apunhalou o Mercúrio. 
- Tebaldo. 
- Isso mesmo. Tebaldo - repeti. Eu sempre esqueço o nome desse cara. - Foi culpa do Romeu. Quer dizer, o tal do Mercúrio era de quem, eu mais gostava na peça. Não sei. Eles eram bons, todos aqueles Montecchios e Capuletos - principalmente a Julieta - mas o Mercúrio era... É difícil explicar. Ele era esperto e divertido e tudo. O negócio é que fico danado quando alguém morre - principalmente alguém esperto e divertido e tudo - e por culpa de outro sujeito, ainda por cima. Pelo menos, com o Romeu e a Julieta foi culpa deles mesmos. 
- Em que colégio você está? - ela perguntou. Provavelmente queria sair do assunto Romeu e Julieta.

     Disse que estava no Pencey e ela conhecia o colégio. Ela disse que era muito bom. Deixei pra lá. Então a outra, a que ensinava história e política, disse que precisavam ir embora. Apanhei a conta delas, mas não deixaram que eu pagasse. A que usava óculos me fez devolver a nota. 

- Você já foi muito generoso. Você é um rapaz muito distinto.

     Ela era mesmo muito boazinha. Me fazia lembrar um pouco a mãe do tal Ernest Morrow, aquela que conheci no trem. Principalmente quando sorria. 

- Gostamos muito de conversar com você - ela disse.

     Falei que também tinha gostado muito de conversar com elas. E era verdade mesmo. E acho que ainda teria gostado mais se o tempo todo não estivesse preocupado com que, de repente, elas quisessem saber se eu era católico ou não. Os católicos estão sempre procurando descobrir se a gente é católico. Isso me acontece muito, em parte, eu sei, porque o meu sobrenome é irlandês, e quase todos os descendentes de irlandeses são católicos. Realmente, meu pai era católico. Mas abandonou a religião quando casou com minha mãe. Mas os católicos estão sempre querendo saber se a gente é católico, mesmo sem saber o sobrenome. No colégio Whooton, conheci um camarada católico, Louis Shaney. Foi o primeiro garoto que eu conheci lá. Nós estávamos sentados nas duas primeiras cadeiras, do lado de fora da droga da enfermaria, esperando a chamada para o exame médico e, não sei como, começamos a conversar sobre tênis. Ele se interessava por tênis e eu também. Ele me disse que nunca perdia o torneio de Forest Hills, e eu disse que também não perdia. Aí ficamos falando de alguns cobras durante algum tempo. Ele entendia um bocado de tênis, para um garoto da idade dele. Entendia mesmo. Aí, logo depois, bem no meio da droga da conversa, ele me perguntou: 

- Você reparou, por acaso, onde fica a igreja católica aqui na cidade?

     Acontece que, pelo jeito de falar, a gente via logo que o que ele queria mesmo era descobrir se eis era católico. Queria mesmo. Não porque ele tivesse preconceito religioso ou coisa parecida, mas só porque queria saber. Ele estava gostando da conversa sobre tênis, mas a gente via logo que ele ia gostar mais ainda se eu fosse católico e tudo. Esse negócio me deixa maluco. Isso não quer dizer que o troço tenha estragado a nossa conversa nem nada - não estragou, não - mas melhorar é que não melhorou. Por isso fiquei contente das duas freiras não me perguntarem se eu era católico. Não teria estragado a conversa, mas provavelmente ia tornar tudo diferente. Não que eu reprove os católicos. Não. Se eu fosse católico, com toda a certeza faria o mesmo. Mas, de certo modo, é parecido com o negócio das valises. O que eu quero dizer é que não contribui para tornar uma conversa agradável. É só isso. 
     Quando elas se levantaram para ir embora - as duas freiras - fiz uma coisa idiota, que me deixou um bocado sem jeito. Eu estava fumando e, quando levantei para me despedir, sem querer soprei fumaça no rosto delas. Não foi de propósito, mas soprei. Pedi um milhão de desculpas, e elas se mostraram muito educadas e boazinhas, mas assim mesmo fiquei encabulado.
     Depois que foram embora, comecei a ficar arrependido de só ter dado dez dólares. Mas acontece que eu tinha aquele encontro com a Sally Hayes e precisava de dinheiro para comprar as entradas e tudo. Mas fiquei arrependido de qualquer maneira. Dinheiro é uma droga. Acaba sempre fazendo a gente se sentir triste pra burro.

O Apanhador no Campo de Centeio - 15: Dormi pouco
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“O Apanhador” narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 17 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias. Na volta para casa, ao se preparar para enfrentar o inevitável esporro da família, Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

O Apanhador no Campo de Centeio - 14: Depois que a tal de Sunny foi embora

O Apanhador no Campo de Centeio


J.D. Salinger


14

     Depois que a tal de Sunny foi embora, me sentei numa cadeira e fumei uns dois cigarros. O dia estava começando a clarear. Puxa, eu estava nas últimas. Ninguém imagina como eu estava deprimido. Foi então que comecei a falar mais ou menos em voz alta com o Allie. Às vezes, quando estou muito deprimido, costumo fazer isso. Fico dizendo a ele para apanhar a bicicleta em casa e me encontrar em frente da casa do Bobby Fallon. O Bobby Fallon morava bem pertinho de nós no Maine - isto é, há muitos anos atrás. Um dia, Bobby e eu combinamos ir de bicicleta até o Lago Sedebego. Íamos levar um lanche e tudo, e nossas espingardinhas de ar comprimido - éramos garotos e estávamos pensando em dar uns tiros. Afinal o Allie ouviu nossa conversa e quis ir também, mas eu não deixei, dizendo que ele era muito criança. Por isso, hoje em dia, de vez em quando - quando estou muito deprimido - fico dizendo a ele: "Tá bem, vai em casa, apanha a bicicleta e me encontra em frente da casa do Bobby. Vai depressa". Não é que eu não costumasse levá-lo comigo quando ia a esses lugares. Eu levava. Mas naquele dia não deixei. Ele não ficou magoado por isso - nunca ficava magoado por coisa alguma - mas, mesmo assim, penso sempre nisso quando estou muito deprimido.  
     Afinal, tirei a roupa e me deitei. Na cama, me deu uma bruta vontade de rezar ou coisa parecida. Mas não consegui. Não é sempre que consigo rezar quando tenho vontade. Em primeiro lugar, sou meio ateu. Gosto de Jesus e tudo, mas não dou muita bola para a maioria das outras coisas da Bíblia. Os Apóstolos, por exemplo. Pra falar a verdade, os Apóstolos são uns chatos. Depois que Jesus morreu e tudo eles trabalharam direitinho, mas, enquanto Ele estava vivo, não serviam pra nada. Deixavam Ele na mão o tempo todo. Gosto de todo mundo na Bíblia mais que dos Apóstolos. Pra dizer a verdade, o cara que eu mais gosto na Bíblia é aquele maluco que morava nos túmulos e vivia se cortando com as pedras. Gosto dez vezes mais daquele filho da mãe do que dos Apóstolos. Quando eu estudava no Colégio Whooton, discutia um bocado sobre isso com um garoto chamado Arthur Childs, que morava no fim do corredor. O tal do Childs era Quaker e tudo, e não largava a Bíblia. Era um bom menino e eu gostava dele, mas nunca chegamos a um acordo sobre uma porção de troços da Bíblia, principalmente os Apóstolos. Ele cansou de repetir que, se eu não gostava dos Apóstolos, então não gostava de Jesus nem nada. Se foram escolhidos por Jesus, a gente tinha que gostar deles. Eu respondia que sabia que tinha sido Jesus quem tinha escolhido, mas que a escolha tinha sido feita ao acaso, porque Ele não teve tempo de andar por aí analisando meio mundo. Eu não culpava Jesus nem nada. Ele não tinha culpa de não ter tido tempo. Me lembro que um dia eu perguntei ao tal de Childs se ele achava que Judas, o cara que traiu Jesus e tudo, tinha ido para o inferno depois que se suicidou. Childs respondeu que não tinha nem dúvida. Aí é que discordei dele. Eu disse que era capaz de apostar um milhão que Jesus não tinha mandado Judas para o inferno. Até hoje eu botava dinheiro, se tivesse um milhão. Acho que qualquer um dos Apóstolos teria mandado ele para o inferno - e o mais depressa possível - mas aposto qualquer coisa como Jesus não mandou. O tal de Childs disse que o problema comigo é que eu não ia à missa nem nada. De certo modo, ele tinha razão. Não vou mesmo. Em primeiro lugar, meus pais são de religiões diferentes e por isso nós lá em casa somos todos ateus. Pra falar a verdade, não suporto padre. Todos os que conheci, nas escolas por onde andei, tinham essa voz de juízo final quando faziam os sermões. Juro por Deus que detesto isso. Não sei por que diabo eles não falam com uma voz normal. E é por isso que soam tão cretinos quando falam.
     De qualquer maneira, não consegui rezar droga nenhuma. Era só começar e me lembrava logo da tal Sunny me chamando de bobalhão. Acabei sentando na cama e fumando mais um cigarro. Estava com um gosto horrível. Acho que já tinha fumado uns dois maços desde que havia saído do Pencey.
     Eu ainda estava sentado ali na cama, fumando, quando de repente alguém bateu na porta. Fiquei torcendo para que as pancadas não fossem na minha porta, mas sabia muito bem que eram. Não sei como é que eu sabia, mas o fato é que eu sabia. E também sabia quem era. Sou meio vidente.

- Quem é? - perguntei. Eu estava meio apavorado. Sou um bocado medroso para esse tipo de negócio.

     Ninguém respondeu. Bateram de novo, com mais força. Acabei me levantando, só de pijama, e abri a porta. Nem precisei acender a luz, porque já era dia. Dei de cara com a Sunny e o Maurice, o cafetão do elevador. 

- Quê que há? Quê que vocês querem? - perguntei com uma voz que não era lá das mais firmes. 
- Pouca coisa - o tal de Maurice disse. - Só cinco dólares. 

     Maurice era o único a falar. A tal de Sunny só ficava lá em pé, de boca aberta e tudo.

  - Já paguei. Dei cinco dólares a ela. Pode perguntar.

     Puxa, como minha voz estava tremendo.

- São dez, chefe. Dez por uma bimbada e quinze até meio-dia. Eu te avisei. 
- Não foi isso que você disse. Você disse cinco dólares por uma bimbada. Quinze até o meio-dia está certo, mas ouvi perfeitamente... 
- Abre aí, chefe. 
- Pra quê? - perguntei. 

     Puxa, meu coração batia tanto que por pouco não me derrubava no chão. Queria, pelo menos, estar vestido. É horrível a gente estar só de pijama quando acontece um troço desses.

- Vamos logo, chefe - Maurice disse. Aí me deu um empurrão, com aquela mão nojenta. Quase caí sentado. O filho da puta era forte pra burro. Quando dei por mim, os dois já estavam dentro do quarto. Pareciam até os donos daquela droga. Ela sentou no peitoril da janela. O Maurice sentou na poltrona e afrouxou o colarinho do uniforme de ascensorista. Puxa, como eu estava nervoso. 
- Pronto, chefe, vai passando a nota. Tenho que voltar pro trabalho. 
- Já disse mais de dez vezes. Não devo um centavo a ninguém. Já dei cinco a ela... 
- Como é... Chega de conversa. Vai passando a nota. 
- Por que é que eu tenho que te dar mais cinco dólares? - falei, com uma voz de cana rachada. - Você está querendo me tapear.

     O tal do Maurice desabotoou a túnica, do primeiro ao último botão. A única coisa que ele tinha embaixo era um colarinho falso, sem camisa nem nada, e uma barrigona cabeluda.

- Ninguém tá querendo te tapear. Vai passando a nota, chefe. 
- Não. 

     Quando disse isso, o Maurice se levantou da cadeira e começou a andar na minha direção e tudo. Parecia que ele estava muito, muito cansado, ou então muito, muito chateado. Puxa, que medão. Me lembro que eu estava de braços cruzados. Acho que não teria sido tão ruim se eu não estivesse só com a droga do pijama.

- Vai passando a nota, chefe.

     Ele veio direto para onde eu estava. Não sabia dizer outra coisa. Era só: "Vai passando a nota, chefe". Era um imbecil total.

- Não. 
- Chefe, você assim vai me obrigar a engrossar um pouco. Não queria fazer isso, mas tou vendo que não tem outro jeito. Você deve cinco dólares à gente. 
- Não te devo nada. Se você me bater, vou fazer um barulhão danado. Vou acordar o hotel inteiro. Até a polícia e tudo. 

     Minha voz tremia feito uma filha da mãe.

- Então começa. Pode se esgoelar à vontade. Ótimo - ele falou. - Quer que seus velhos fiquem sabendo que você passou a noite com uma puta? Um garoto da alta sociedade, como você?

     Ele era um bocado vivo, lá à moda dele. Era mesmo.

- Me deixa em paz. Se você tivesse dito dez ainda vá lá. Mas ouvi perfeitamente... 
- Como é, vai dar ou não vai? 
     
     Me imprensou contra a porta. Estava praticamente em cima de mim, com aquela barrigona imunda e cabeluda e tudo.

- Me deixa em paz. Dá o fora do meu quarto - respondi. Eu continuava de braços cruzados e tudo. Puxa, como eu era trouxa.

     Aí a Sunny falou pela primeira vez: 

- Ô, Maurice, quer que eu apanhe a carteira dele? Está ali bem em cima daquele troço. 
- Quero, apanha duma vez. 
- Êi, deixa a minha carteira aí! 
- Pronto, já peguei - Sunny disse. Ela acenou para mim com os cinco dólares. - Tá vendo? Tou tirando só os cinco que você me deve. Não sou nenhuma vigarista.  

     De repente, comecei a chorar. Dava tudo para não ter chorado, mas chorei. 

- Não, vocês não são vigaristas, não - eu disse. - Só estão roubando cinco... 
- Cala a boca - o tal do Maurice disse, me dando um empurrão. 
- Deixa esse cara aí e vambora, anda - a Sunny disse. - Anda, vambora. Já tamos com a grana que ele deve. Vem, vambora, anda. 
- Tou indo - disse o tal do Maurice. Mas não foi. - Tou falando sério, Maurice, anda. Deixa ele pra lá. 
- Nem tou tocando nele - disse o Maurice, inocente como um anjinho. Foi aí que ele me deu um peteleco com toda a força no meu pijama. Não vou dizer onde foi, mas o peteleco doeu pra chuchu. Eu aí chamei ele de imbecil. 
- Quê que você disse? - ele perguntou, com a mão atrás da orelha, como se fosse surdo. - Que que é? O que é que eu sou?  

     Eu ainda estava mais ou menos chorando. Continuava nervoso e com raiva.

- Você é um idiota - falei. - Você é um vigarista dum imbecil nojento e não dou dois anos para ver você aí pela rua, igual a esses vagabundos raquíticos que atracam a gente pra pedir dinheiro prum café. Você vai andar com um paletó imundo, todo sujo de catarro, e vai ser um...

     Aí ele me acertou. Nem tentei sair do caminho, ou me esquivar, nem nada. Só senti aquele murro tremendo no estômago.
     Mas não desmaiei nem nada, porque me lembro que ainda estava no chão quando vi os dois saírem e fecharem a porta. Aí fiquei deitado uma porção de tempo, mais ou menos como aconteceu da outra vez com o Stradlater. Só que dessa vez pensei que ia morrer mesmo. No duro. Pensei que estivesse me afogando ou coisa parecida. O caso é que eu mal podia respirar. Quando afinal levantei, tive que ir até o banheiro todo dobrado, apertando a barriga e tudo.
     Mas eu sou doido. Verdade. Juro por Deus. Na metade do caminho para o banheiro, comecei a fingir que estava com uma bala no bucho. O tal de Maurice tinha me chumbado. Por isso eu estava indo para o banheiro tomar uma bruta talagada de uísque ou coisa parecida, para acalmar os nervos e me ajudar a entrar mesmo em ação. Me imaginei saindo da porcaria do banheiro de terno e tudo, com minha pistola no bolso e cambaleando um pouco. Aí, em vez de usar o elevador, eu descia pela escada, me agarrando no corrimão e tudo, enquanto um filete de sangue escorria pelo canto da minha boca. Ia descer alguns andares - apertando a barriga, sangue pingando por todo lado - e aí chamava o elevador. Assim que o tal do Maurice abrisse a porta, dava de cara comigo, de pistola na mão, e ia começar a gritar, com aquela voz esganiçada de quem está apavorado, me pedindo para deixar ele em paz. Mas eu chumbava ele assim mesmo. Seis tiros bem no meio daquela barrigona cabeluda. Aí eu jogava a pistola no poço do elevador - depois de apagar as impressões digitais e tudo. Aí me arrastava escada acima até o quarto e chamava a Jane para vir fazer um curativo na minha barriga. Fiquei imaginando a Jane botando um cigarro aceso na minha boca e segurando para eu tragar, enquanto o sangue continuava a correr e tudo. 
     A culpa é da droga dos filmes de bandido. Por mais que a gente evite, acaba influenciado. Fora de brincadeira. 
     Fiquei no banheiro quase uma hora, tomando banho e tudo. Depois voltei para a cama. Levei muito tempo para dormir, não estava nem cansado, mas acabei pegando no sono. A vontade que tive foi de me matar: tive vontade de me atirar pela janela. Provavelmente teria pulado mesmo, se tivesse a certeza de que alguém ia me cobrir assim que eu me esborrachasse no chão. Não queria é que um bando de imbecis curiosos ficassem me olhando quando eu estivesse todo ensanguentado.  

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“O Apanhador” narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 17 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias. Na volta para casa, ao se preparar para enfrentar o inevitável esporro da família, Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

O Apanhador no Campo de Centeio - 13: Voltei a pé para o hotel

O Apanhador no Campo de Centeio


J.D. Salinger


13

     Voltei a pé para o hotel. Quarenta e um gloriosos quarteirões. Não que eu estivesse com vontade de andar nem nada. Foi mais porque não queria entrar e sair de outro táxi. De vez em quando a gente se cansa de andar de táxi, da mesma maneira que se cansa de andar de elevador. De repente, a gente sente que tem de ir a pé, qualquer que seja a distância ou a altura. Quando eu era menor, costumava subir para nosso apartamento pelas escadas. Doze andares.
     Nem parecia que tinha nevado, as calçadas já estavam quase limpas. Mas fazia um frio de rachar e tratei de tirar do bolso meu chapéu vermelho e botei na cabeça - estava pouco ligando para minha aparência. Cheguei até a baixar os protetores de orelha. Bem que gostaria de saber qual o safado que tinha roubado minhas luvas no Pencey, porque minhas mãos estavam geladas. Não que eu fosse fazer muita coisa se soubesse. Sou um desses sujeitos covardes pra chuchu. Procuro não demonstrar, mas sou. Por exemplo, se tivesse descoberto quem roubou minhas luvas no Pencey, provavelmente teria ido até o quarto do vigarista e diria: "Muito bem. Que tal ir me passando as luvas?" Aí, o vigarista que as tinha roubado provavelmente responderia, com a voz mais inocente do mundo: "Que luvas?" Aí eu provavelmente ia até o armário dele e encontrava as luvas num canto qualquer, escondidas na porcaria das galochas ou coisa que o valha. Apanhava as luvas, mostrava a ele e perguntava: "Quer dizer que essas luvas são tuas, não é?" Aí o filho da mãe provavelmente olharia para mim, com a maior cara de anjinho, e diria: "Nunca vi essas luvas em toda a minha vida. Se são tuas, pode levar. Não quero mesmo essa droga pra nada." Aí eu provavelmente teria ficado uns cinco minutos de pé, no mesmo lugar, com as luvas na mão e tudo. Ia me sentir na obrigação de dar um soco no queixo do sujeito, quebrar a cara dele. Só que não ia ter coragem de fazer nada. Ia só ficar ali, de pé, tentando fazer cara de mau. Talvez dissesse alguma coisa bem cortante e sarcástica, para aporrinhar o sujeito - em vez de lhe dar um soco no queixo. Seja lá como for, se eu dissesse alguma coisa bem cortante e sarcástica, ele provavelmente se levantaria, chegaria perto de mim e perguntaria: "Escuta, Caulfield. Você tá me chamando de ladrão?" , em vez de dizer que era isso mesmo, que ele era um filho da mãe dum ladrão, eu provavelmente só teria dito: "Só sei é que a droga das minhas luvas estavam na droga das tuas galochas." A essa altura o sujeito já saberia com certeza que eu não ia mesmo dar um soco nele e diria: "Olha, vamos deixar esse negócio bem claro. Você tá me chamando de ladrão?" Eu então provavelmente responderia: "Ninguém está chamando ninguém de ladrão. Só sei que as minhas luvas estavam na porcaria das tuas galochas." O negócio podia continuar assim durante horas. Finalmente eu iria embora sem ter dado nem um sopapo nele. Provavelmente ia para o banheiro, acendia um cigarro e ficava me olhando no espelho, fazendo cara de valente. De qualquer maneira, era nisso que eu estava pensando enquanto voltava para o hotel. Não é nada engraçado ser covarde. Talvez eu não seja totalmente covarde. Sei lá. Acho que talvez eu seja apenas em parte covarde, e em parte o tipo do sujeito que está pouco ligando se perder as luvas. Um de meus problemas é que nunca me importo muito quando perco alguma coisa - quando eu era pequeno minha mãe ficava danada comigo por causa disso. Tem gente que passa dias procurando alguma coisa que perdeu. Eu acho que nunca tive nada que me importaria muito de perder. Talvez por isso eu seja em parte covarde. Mas isso não é desculpa. Sei que não é. O negócio é não ser nem um pouquinho covarde. Se é hora de dar um soco na cara de alguém, e dá vontade mesmo de fazer isso, a gente não devia nem conversar. Mas não consigo ser assim. Eu preferia empurrar um sujeito pela janela, ou cortar a cabeça dele com um machado, do que dar um soco no queixo dele. Odeio briga de soco. Não que me importe muito de apanhar - embora, naturalmente, não seja fanático por pancada - mas o que me apavora mais na briga é a cara do outro sujeito. Não consigo ficar olhando a cara do outro sujeito, esse é que é o meu problema. Não seria tão ruim se a gente estivesse com os olhos vendados, ou coisa que o valha. Pensando bem, é um tipo gozado de covardia, mas não deixa de ser covardia. E eu não procuro me iludir.
     Quanto mais eu pensava nas minhas luvas e na minha covardia, mais deprimido ficava, e por isso decidi, no meio do caminho, entrar em algum canto para tomar um drinque. Só tinha tomado três doses no Ernie's, e nem tinha acabado a última. Se há um troço que eu tenho é resistência para bebida. Quando me dá na veneta, sou capaz de beber a noite inteira e ficar cem por cento. Uma vez, no Colégio Whooton, eu e um outro garoto, o Raymond Goldfard, compramos uma garrafa de uísque e fomos beber na Capela, num sábado de noite, porque lá ninguém ia ver a gente. Ele ficou na maior água, mas eu acabei inteirinho. Só fui ficando cada vez mais superior, mais indiferente. Vomitei antes de dormir, mas na verdade não precisava - tive mesmo que fazer força para vomitar.
     De qualquer modo, antes de chegar ao hotel resolvi entrar num bar de aparência infecta, mas dois sujeitos vinham saindo, bêbados que nem gambá, e queriam saber onde era a entrada do metrô. Um deles, com pinta de cubano, ficou respirando com um hálito podre em cima da minha cara, enquanto eu dava a informação. Perdi até a vontade de entrar na porcaria do bar e tratei de seguir direto para o hotel.
     O vestíbulo estava inteiramente deserto, cheirando a cinquenta milhões de cigarros apagados. Eu não estava com sono nem nada, mas estava me sentindo um bocado mal. Deprimido e tudo. Tive vontade de estar morto.
     Aí, mais que de repente, me meti numa enrascada dos diabos.
     Aí, mais que de repente, me meti numa enrascada dos diabos. Mal entrei no elevador, o cabineiro perguntou: - Que tal uma diversãozinha, meu chapa? Ou já está muito tarde pra você?

- Como é que é? - perguntei. Não sabia aonde ele queria chegar nem nada.

- Tá interessado num rabo de saia pra hoje de noite?

- Eu? - respondi. Era o tipo da resposta idiota, mas a gente fica sem jeito quando um sujeito pergunta um troço desses assim de surpresa.

- Qual é tua idade, chefe? - perguntou o cabineiro.

- Por quê? Vinte e dois.

- Hum, hum. Bom, como é que é? Tá interessado? Cinco pacotes uma bimbada. Quinze pacotes a noite toda. Cinco pacotes uma bimbada, quinze pacotes até meio-dia.

- Tá bom - eu disse. Era contra meus princípios e tudo, mas eu estava me sentindo tão deprimido que nem pensei. Esse é que é o problema. Quando a gente está se sentindo muito deprimido não consegue nem pensar.

- Tá bom o quê? Uma hora ou até o meio-dia? Tenho que saber.

- Só uma hora.

- Tá bem, qual é o seu quarto?

     Olhei o trocinho vermelho, pendurado na chave, que tinha o número do meu quarto. - Mil duzentos e vinte e dois - falei. Já estava me sentindo meio aporrinhado de ter embarcado naquela estória, mas agora era tarde.

- Perfeito. Vou mandar uma garota lá daqui a quinze minutos.

     Abriu a porta do elevador e eu saí.

- Êi, ela é boa? - perguntei. - Não quero nenhum bagulho.

- Que bagulho nada, pode ficar tranquilo, chefe.

- A quem que eu pago?

- A ela - respondeu. - Vambora, chefe.

     Fechou a porta quase na minha cara.
     Fui para o quarto e passei uma água no cabelo, mas é realmente impossível pentear um cabelo cortado à escovinha. Aí procurei ver se estava com mau hálito, de tantos cigarros e uísques, que tinha fumado e bebido no Ernie's. Basta por a mão em baixo da boca e soprar para cima em direção ao nariz. Até que não estava muito ruim, mas escovei os dentes assim mesmo. Aí vesti uma camisa limpa. Sabia que não precisava caprichar tanto por causa duma prostituta e tudo, mas era alguma coisa para me ocupar. Estava um pouco nervoso. Estava começando a me sentir muito sensual e tudo, mas estava meio nervoso de qualquer jeito. Pra dizer a verdade, eu sou virgem. No duro. Já tive algumas oportunidades de perder minha virgindade e tudo, mas até agora nunca cheguei ao fim da linha. Sempre acontece alguma coisa. Por exemplo, se a gente está na casa de uma garota, os pais dela sempre chegam na hora errada - ou a gente fica com medo que eles cheguem. Ou, se a gente está no banco de trás do carro de alguém, tem sempre a namoradinha do outro sujeito, no banco da frente, que quer saber o que está acontecendo no carro todo. E fica virando para ver o que está se passando lá atrás. Seja lá como for, sempre acontece alguma coisa. Mas já andei muito perto de fazer o troço algumas vezes. Uma vez, eu me lembro bem, fiquei por pouco. Mas alguma coisa desandou - nem sei mais o que foi. O caso é o seguinte: na maioria das vezes que a gente está quase fazendo o negócio com uma garota - uma garota que não seja uma prostituta nem nada, evidentemente - ela fica dizendo para a gente parar. Meu problema é que eu paro. A maioria dos sujeitos não para, mas eu não consigo ser assim. A gente nunca sabe se elas realmente querem que a gente pare, ou se estão apenas com um medo danado, ou se estão pedindo que a gente pare só para que, se a gente continuar mesmo, a culpa seja só nossa, e não delas. De qualquer jeito, eu estou sempre parando. O problema é que acabo sentindo pena delas, porque quase todas as garotas são tão burrinhas... Basta um pouquinho de bolinação, e a gente que elas estão perdendo a cabeça. Quando uma garota fica excitada mesmo, a gente vê logo que ela está completamente desmiolada. Sei lá. Elas me pedem para parar, e eu paro. Quando volto para casa sempre me arrependo de ter parado, mas continuo a fazer a mesma coisa.
     De qualquer maneira, enquanto vestia uma camisa limpa, pensei cá comigo que essa era, de certo modo, minha grande chance. Pensei que, sendo ela uma prostituta e tudo, eu podia treinar um pouco para o caso de vir a me casar um dia ou coisa que o valha. Eu me preocupo com isso de vez em quando. Uma vez, no colégio Whooton, li um livro que tinha um sujeito muito experiente e sensual, um bocado sofisticado. O nome dele era Monsieur Blanchard. O livro era uma droga, mas esse Blanchard até que era bem razoável. Tinha um baita dum castelo na Riviera, na Europa, e sua distração nas horas vagas era bater nas mulheres com uma bengala. Era um cretino e tudo, mas as mulheres ficavam doidinhas por ele. A certa altura ele diz que o corpo da mulher é como um violino, e que a gente precisa ser um grande artista para tocá-lo bem. Era um livro um bocado imbecil - disso eu sei - mas de qualquer maneira não conseguia tirar da cabeça esse negócio do violino. E é por isso que eu queria mais ou menos treinar um pouco, para o caso de vir a me casar algum dia. Caulfield e seu Violino Mágico, que tal? É ridículo, não há dúvida, mas não é tão ridículo assim. Eu até que gostaria de ser bamba nesse troço. Para ser franco, quando estou me badalando com uma garota, perco metade do tempo só para encontrar aquilo que estou procurando, se é que vocês entendem o que eu quero dizer com isso. Por exemplo, essa garota com quem eu quase tive relações sexuais. Passei quase uma hora só para tirar a droga do soutien dela. Quando afinal consegui, a menina já estava a ponto de cuspir em cima de mim.
     De qualquer forma, continuei a andar pelo quarto, esperando que a prostituta aparecesse. E desejando que ela não fosse um bagulho. Mas até que não me importava muito. Só queria mesmo era acabar logo com o troço todo. Afinal, alguém bateu à porta e, quando ia abrir, minha mala estava bem no meio do caminho, tropecei e quase quebrei a droga do joelho. Escolho sempre as ocasiões mais formidáveis para tropeçar numa mala ou coisa parecida.
     Quando abri a porta, a tal prostituta estava lá esperando. Com um casaco três-quartos e sem chapéu. Era mais para o louro, mas via-se logo que ela pintava os cabelos. Mas não era nenhum bagulho.

- Como vai? - perguntei, com a voz mais melosa do mundo.

- Você é o sujeito que o Maurice falou? - perguntou. Não parecia lá muito amigável.

- O cabineiro?

- É - respondeu.

- Sou eu sim. Quer fazer o favor de entrar?

     Estava me sentindo cada vez mais superior, no duro mesmo. Ela entrou, foi logo tirando o casaco e jogando na cama. Por baixo estava com um vestido verde. Aí ela sentou de lado na cadeira em frente da escrivaninha e começou a balançar o pé para cima e para baixo. Cruzou as pernas e começou a balançar o mesmo pé para cima e para baixo. Para uma prostituta, ela era um bocado nervosa. Era mesmo. Talvez porque fosse tão moça, devia ter mais ou menos a minha idade. Sentei numa poltrona ao lado dela e lhe ofereci um cigarro.

- Eu não fumo - respondeu. Tinha uma voz fininha e fraca, a gente quase não escutava o que ela dizia. Mas nem agradecia quando alguém lhe oferecia alguma coisa. Acho que por simples ignorância.

- Permita que eu me apresente. Meu nome é Jim Steele.

- Você tem um relógio aí? - ela perguntou. Evidentemente, estava pouco ligando para o meu nome. - Êi, espera aí, quantos anos você tem?

- Eu? Vinte e dois.

- Ah, essa não!

     Era o tipo da coisa gozada dela dizer, parecia uma criança. A gente espera que uma prostituta responda "não aporrinha", ou "vai à merda", em vez de "essa não".

- E quantos anos você tem? - perguntei.

- O bastante para não ser tapeada - foi a resposta que me deu. Era realmente um bocado espirituosa. - Você tem um relógio aí? - insistiu, e aí se levantou e tirou o vestido por cima da cabeça.

     Tenho de confessar que me senti meio esquisito quando ela fez isso. É de se esperar que a gente fique todo excitado quando alguém se levanta e tira o vestido por cima da cabeça, mas não fiquei não. Excitado era talvez a última coisa que eu estava me sentindo. Estava muito mais deprimido do que excitado.

- Êi, você tem ou não tem um relógio aí contigo?

- Não, não tenho não - respondi. Puxa, estava me sentindo esquisito. - Qual é o teu nome? - perguntei.

     Ela estava só com uma combinação vermelha. Era um bocado embaraçoso, era mesmo.

- Sunny - respondeu. - Vamos logo, tá?

- Não está com vontade de conversar um pouco? - perguntei. Era o tipo da coisa infantil de dizer, mas estava me sentindo um bocado esquisito. - Você está com muita pressa?

     Olhou para mim como se eu fosse um maluco.

- Afinal, você quer conversar sobre o quê?

- Sei lá. Nada de especial. Só pensei que você talvez quisesse bater um papo.

     Ela sentou de novo na cadeira ao lado da escrivaninha. Mas via-se logo que ela não estava gostando. Começou a balançar o pé outra vez - puxa, que garota nervosa.

- Você gostaria de fumar um cigarro agora? - perguntei. Esqueci que ela não fumava.

- Eu não fumo. Escuta, se você quer falar, fala logo. Eu tenho mais o que fazer.

     Mas eu não conseguia pensar em nada para dizer. Pensei em perguntar como é que ela havia se tornado uma prostituta e tudo, mas fiquei com medo de fazer uma pergunta dessas. De qualquer maneira, provavelmente ela não teria me respondido.

- Você não é de Nova York, é? - acabei dizendo. Não consegui pensar em outra coisa.

- Hollywood - respondeu. Aí se levantou e foi até onde tinha deixado o vestido, em cima da cama. - Tem um cabide aí? Não quero que o meu vestido fique todo amassado, está saindo da lavanderia.

- Perfeitamente - respondi depressa. Fiquei muito feliz de poder me levantar e fazer alguma coisa. Levei o vestido até o armário e pendurei. Foi engraçado. Me senti meio triste quando pendurei o vestido. Pensei nela entrando numa loja para comprá-lo, sem ninguém saber que ela era uma prostituta e tudo. Provavelmente, o vendedor pensou que ela era uma garota direita. Não sei bem por que, mas o troço me deixou um bocado triste.

     Sentei de novo e procurei manter a conversa acesa. Ela era uma péssima interlocutora.

- Você trabalha toda noite? - perguntei, mas, mal tinha acabado de falar, a coisa me soou horrível.

- Trabalho.

      Ela estava andando pelo quarto. Apanhou o menu de cima da escrivaninha e ficou lendo.

- Que é que você faz durante o dia?

      Sacudiu os ombros. Era um bocado magricela.

- Durmo, vou a um cinema... - deixou de lado o menu e olhou para mim: - Vamos logo, tá? Não vou ficar aqui...

- Olha - eu disse - não estou me sentindo muito bem hoje. Tive uma noite desgraçada. No duro. Eu te pago e tudo. Você se importa se a gente não fizer o troço? Você se importa?

     O  problema é que, pura e simplesmente, eu não queria fazer o troço. Para ser sincero, estava mais deprimido do que excitado. Ela era deprimente. O vestido verde pendurado no armário e tudo. E, além disso, acho que eu não poderia nunca fazer esse troço com alguém que passa o dia inteiro sentada numa porcaria dum cinema. Acho que não poderia mesmo.
     Ela se aproximou de mim, assim com um olhar engraçado, como se não estivesse me acreditando: - Quê que há? - perguntou.

- Não há nada - respondi. Puxa, já estava começando a ficar nervoso. - Acontece que eu fui operado há pouco tempo.

- É? Aonde?

- No meu... como é que se chama... no meu clavicórdio.

- Como é que é? Onde é que fica isso?

- O clavicórdio? Bem, para dizer a verdade, é na coluna vertebral. Quer dizer, é bem lá embaixo na espinha.

- É mesmo? - ela disse. - Que pena.

     Aí ela sentou na droga do meu colo.

- Você é bonitinho.

     Ela me punha tão nervoso que eu continuei mentindo como um louco.

- Ainda estou em fase de recuperação.

- Você se parece com um sujeito que trabalha no cinema. Você sabe... Como é que é o nome dele? Você sabe quem eu estou falando. Qual é o nome dele mesmo, hem?

- Sei lá - respondi. E ela nada de sair da droga do meu colo.

- Sabe sim. Ele trabalhou naquele filme com o Melvine Douglas, era o irmão menor do Melvine Douglas. Aquele que cai do bote. Você sabe quem eu estou falando.

- Não, não sei não. Só vou ao cinema quando não tenho outro jeito.

     Aí ela começou a se fazer de engraçadinha. Pra valer.

- Você se importa de parar com isso? Não estou com vontade, já disse. Acabei de fazer essa operação.

      Nem assim saiu do meu colo, mas me jogou um olhar furioso.

- Olha, eu estava dormindo quando esse maluco desse Maurice foi me acordar. Se você pensa que eu...

- Já disse que vou te pagar e tudo por você ter vindo. Vou pagar mesmo. Tenho um bocado de dinheiro. O problema é que ainda estou me recuperando de uma séria...

- Então pra quê que você disse que queria uma garota a esse maluco do Maurice? Se você acabou de fazer uma droga duma operação na porcaria do teu negócio... Hem?

- Pensei que estaria me sentindo muito melhor do que estou. Fui um pouco prematuro nos meus cálculos. Sem brincadeira, me desculpe. Se você se levantar só um segundo vou apanhar minha carteira. No duro.

     Ela estava danada da vida, mas levantou do meu colo para que eu pudesse ir buscar minha carteira em cima da cômoda. Apanhei uma nota de cinco dólares e entreguei a ela.

- Muito obrigado - falei. - Muitíssimo obrigado.

- Aqui só tem cinco. É dez.

     Ela estava começando a bancar a engraçadinha, a gente via logo. Eu estava adivinhando que ia acontecer um troço desses.

- O Maurice me disse que era cinco. Disse que era quinze até o meio-dia e só cinco por uma bimbada.

- Uma bimbada é dez.

- Ele disse cinco. Me desculpe, mas é só isso que eu vou dar.

     Ela deu uma sacudidela de ombros, como já havia feito antes, e aí disse, muito friamente: - Você se importa de apanhar meu vestido? Ou seria muito incômodo?
     Era uma garotinha um bocado invocada. Mesmo com aquela vozinha de nada ela conseguia deixar a gente meio assustado. Se fosse uma baita duma prostituta velha, com um bocado de pintura na cara e tudo, não teria metade daquela arrogância.
     Fui apanhar o vestido para ela. Ela se vestiu e tudo, e apanhou o casaco de cima da cama.

- Até logo, bobalhão.

- Até logo - respondi. Não agradeci nem nada. Ainda bem que não agradeci.

O Apanhador no Campo de Centeio - 13: Voltei a pé para o hotel
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“O Apanhador” narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 17 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias. Na volta para casa, ao se preparar para enfrentar o inevitável esporro da família, Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça.