quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O Apanhador no Campo de Centeio - 15: Dormi pouco

O Apanhador no Campo de Centeio


J.D. Salinger


15

     Dormi pouco, porque eram só umas dez horas quando acordei. Fumei um cigarro e logo depois senti uma fome desgraçada. Não tinha comido nada desde aqueles dois hamburgers com o Brossard e o Ackley, quando fomos ao cinema em Agerstown. Já fazia um bocado de tempo, parecia que tinha sido uns cinquenta anos antes. O telefone estava pertinho de mim e tive vontade de pedir o café no quarto, mas fiquei com medo que mandassem o Maurice trazer. Para ser franco, não estava lá muito ansioso por vê-lo de novo. Por isso, fiquei rolando na cama algum tempo e acendi outro cigarro. Pensei em dar um telefonema para a Jane, para ver se ela já estava em casa e tudo, mas a ideia não chegou a me entusiasmar.
     O que fiz foi ligar para a Sally Hayes. Ela estudava no Colégio Mary A. Woodruff e eu sabia que já devia ter voltado para casa, por causa da carta que eu tinha recebido umas duas semanas antes. Ela não me atraía muito, embora eu a conhecesse há anos. Antigamente eu achava a Sally muito inteligente, mas só de burro que eu sou. Só porque ela entendia de teatro, e peças, e literatura e todo esse negócio. Quando as pessoas sabem um bocado sobre essas coisas, a gente leva um tempão para descobrir se são burras ou não. No caso da Sally eu levei anos. Com certeza teria descoberto muito antes, se nós não tivéssemos namorado tanto. O meu problema é que eu sempre acho inteligente a pequena com quem estou me esfregando no momento. Uma coisa não tem droga nenhuma a ver com a outra, mas continuo pensando assim. 
     De qualquer maneira, liguei para a casa dela. Primeiro me respondeu a empregada. Depois o pai. Depois veio ela.

- Sally? - Sim... Quem fala? - ela perguntou. Era uma cretinazinha de marca maior. Eu já tinha dito ao pai dela que era eu. 
- É Holden Caulfield. Como vai? 
- Holden! Vou bem, e você? 
- Muito bem. Escuta. Como vai você? Quer dizer, como vai de colégio? 
- Vou bem - ela disse. 
- Quer dizer, sabe como é, né? 
- Ótimo. Bem, escuta aqui. Será que você tem algum compromisso para hoje? É domingo, mas sempre tem uma ou duas matinês no domingo. De caridade, ou coisa que o valha. Quer ir? 
- Gostaria muito. Grande ideia. Magnífico! 

     Magnífico. Se há uma palavra que eu odeie é magnífico. É tão cretina. Por um segundo tive vontade de dizer que era melhor desistir da matinê. Mas batemos papo durante algum tempo. Isto é, ela bateu. Não consegui encaixar nem uma palavra. Primeiro me falou de um camarada de Harvard que andava doido atrás dela - um calouro, com certeza, mas é claro que isso ela não ia dizer. O cara telefonava dia e noite. Dia e noite - não aguento. Depois contou que outro cara, um cadete de West Point, também estava gamado por ela. Grande vantagem. Afinal, mandei que ela me encontrasse debaixo do relógio de Biltmore, às duas horas, e que não se atrasasse, porque a peça ia começar às duas e meia. Ela sempre se atrasava. Aí desliguei. Ela era chata pra burro, mas era um bocado bonita. 
     Depois de marcar o encontro, levantei, me vesti e arrumei a mala. Espiei pela janela antes de ir embora, para ver como iam os tarados, mas todas as venezianas estavam baixadas. Eram um padrão de decência pela manhã. Aí tomei o elevador e paguei a conta. Não vi o tal do Maurice em parte alguma. Claro que não me danei a procurar por ele, o filho da mãe.
     Peguei um táxi na porta do hotel, mas não tinha a mínima ideia para onde ir. Não tinha mesmo para onde ir. Era domingo ainda e eu só podia ir para casa na quarta-feira. Ou, no mínimo, na terça. E, no duro mesmo, não estava com vontade nenhuma de me meter noutro hotel para me quebrarem a cara. Por isso, mandei o motorista me levar para a Estação Grand Central. Era juntinho do Biltmore, onde ia encontrar a Sally mais tarde, e calculei que o melhor era deixar as malas guardadas num daqueles armários de aço que a gente leva a chave, e depois, ir tomar café. Estava com fome. Enquanto o táxi seguia, tirei a carteira e mais ou menos contei o dinheiro que me sobrava. Não me lembro exatamente quanto tinha, mas não era nenhuma fortuna. Tinha jogado fora um dinheirão naquelas duas miseráveis semanas. Tinha mesmo. No fundo, eu sou um tremendo esbanjador. E o que não gasto, acabo perdendo. A maioria das vezes, até esqueço de apanhar meu troco nos restaurantes, buates e tudo. Meus pais ficam furiosos com isso e, afinal de contas, têm razão. Mas meu pai é bastante rico. Não sei quanto ele ganha - nunca conversamos sobre isso - mas sei que é um bocado. Ele é advogado de uma companhia. Esses camaradas faturam uma nota alta. Outra prova de que ele está muito bem de vida é que está sempre investindo em peças da Broadway. As peças sempre fracassam e minha mãe fica maluca quando ele faz isso. Desde que meu irmão Allie morreu ela não tem estado muito bem. É muito nervosa. Por isso também, por causa dela, é que fiquei meio chateado de ter levado bomba outra vez.
     Depois de deixar minhas malas num armário da estação, entrei num barzinho e tomei café. Para mim foi um vastíssimo café - suco de laranja, bacon e ovos, torrada e café. Em geral, fico só no suco de laranja. Como muito pouco. Verdade mesmo. É por isso que sou tão esquelético. Eu devia fazer uma espécie de superalimentação, para aumentar o peso e tudo, mas nunca fiz. Quando estou fora de casa, geralmente só como sanduíches de queijo e leite maltado. Não é muita coisa, mas o leite maltado tem um monte de vitaminas. H. V. Caulfield. Holden Vitamina Caulfield.
     Enquanto comia meus ovos, entraram duas freiras, com valises e tudo - achei que estavam se mudando de convento ou coisa parecida e esperavam um trem -, e sentaram no balcão. Pareciam não saber que diabo fazer com as valises, por isso dei uma mãozinha. As valises eram daquelas baratas pra burro - das que não são de couro de verdade nem nada. Isso não tem grande importância, eu sei, mas odeio ver alguém com essas malas ordinárias. É chato confessar, mas sou capaz de odiar alguém, só de olhar, se a pessoa estiver carregando umas valises iguais àquelas. Uma vez me aconteceu um troço enjoado. Foi quando eu estava no Elkton Hills e meu companheiro de quarto, um tal de Dick Slagle, tinha uma dessas malas muito vagabundas. Ele guardava a mala debaixo da cama e não no porta-malas, para que ninguém a visse junto das minhas. Isso me deprimia pra burro. Eu tinha vontade de jogar fora as minhas malas ou coisa parecida, ou até mesmo fazer uma troca com ele. Minhas malas tinham sido compradas numa loja de classe, eram de couro de bezerro e tudo mais, e acho que custaram um dinheirão. No fim, acabei escondendo também as minhas malas debaixo da minha cama, em vez de botá-las no porta-malas, para que o Slagle não ficasse com complexo de inferioridade. Sabe o quê que ele fez? No dia seguinte tirou minhas malas de baixo da minha cama e pôs tudo de novo no porta-malas. E fez isso - levei algum tempo para descobrir - porque queria dar a impressão a todo mundo de que as minhas malas eram dele. Queria mesmo. Era um sujeito gozado. Por exemplo, vivia falando sobre as minhas valises, que eram novas e burguesas demais. Essa era a palavra predileta dele. Tudo meu era burguês pra diabo. Até minha caneta-tinteiro era burguesa. Vivia pedindo a caneta emprestada, mas nem por isso ela deixava de ser burguesa. Só moramos juntos uns dois meses. Depois nós dois pedimos para mudar de quarto. O mais engraçado é que, depois da mudança, eu senti falta dele, porque o safado tinha um senso de humor infernal e, de vez em quando, nós nos divertíamos à bessa. Não me admiraria se ele também sentisse saudade de mim. No começo, ele chamava minhas coisas de burguesas só de brincadeira, e eu não dava bola. Achava até meio engraçado. Depois de algum tempo, ficou evidente que ele não estava mais brincando. O negócio é que é um bocado duro ser companheiro de quarto de um sujeito se as malas da gente são muito melhores que as dele - se as da gente são boas mesmo e as dele não. A gente ainda pensa que, se o outro é inteligente e tudo mais, e se tem senso de humor, não vai dar pelota para esse negócio das malas. Mas o fato é que dá. Dá mesmo. É por isso que fui morar com um filho da mãe imbecil feito o Stradlater. Pelo menos as malas dele eram tão boas quanto as minhas.
     Afinal as duas freiras se sentaram ao meu lado e nós acabamos conversando. A que estava junto de mim carregava uma daquelas cestinhas em que as freiras e as donas do Exército da Salvação coletam dinheiro na época do Natal. Essas que a gente encontra pelas esquinas, principalmente na Quinta Avenida, em frente das grandes lojas e tudo. A cestinha da que estava ao meu lado caiu no chão e me abaixei para apanhar. Perguntei se ela estava recolhendo dinheiro para as obras de caridade e tal. Ela disse que não. Disse que a cesta tinha sobrado na hora de arrumar as malas e, por isso, a havia trazido na mão. Ela tinha um sorriso simpático quando olhava para a gente. Tinha um nariz grande e usava óculos, daqueles com uma espécie de aro de ferro, que não são lá muito elegantes, mas tinha uma cara bondosa pra chuchu.

- Se a senhora estivesse recolhendo dinheiro - falei - eu talvez pudesse fazer uma pequena contribuição. Ou então a senhora podia guardar o dinheiro para quando for a época. 
- Oh, que bondade a sua - ela disse, e a outra, a amiga dela, olhou para mim. 

     A outra estava lendo um livrinho de capa preta enquanto bebia o café. Parecia uma Bíblia, mas era fininho demais. Mas era como uma Bíblia. As duas estavam tomando só café com torradas. Já isso me deprimiu. Odeio estar comendo bacon com ovos ou qualquer outra coisa, e ver outra pessoa tomar só café com torradas. 
     Elas acabaram aceitando uma contribuição de dez dólares. Ficaram perguntando se eu tinha certeza de que não ia me fazer falta e tudo. Eu disse que tinha bastante dinheiro, mas elas pareciam não acreditar muito. Mas acabaram aceitando o dinheiro. E continuaram a me agradecer tanto que chegava a encabular. Levei a conversa para assuntos gerais e perguntei para onde elas iam. Contaram que eram professoras e estavam chegando de Chicago para começar a ensinar num convento da rua 168 ou 186, uma daquelas ruas lá nos cafundós do Judas. A que estava sentada ao meu lado, com os óculos de aro de ferro, disse que ensinava inglês e a amiga dela ensinava história e política americana. E eu comecei a pensar o que é que aquela que estava ao meu lado e ensinava inglês devia pensar, sendo freira e tudo, quando lia certos livros como parte de seu trabalho de professora. Livros que não são só sobre esses troços de sexo, mas com estórias de amantes e tudo. Assim como a tal de Eustacia Vye, em "A Volta do Nativo", de Thomas Hardy. Embora o livro não tivesse sexo demais, a gente não pode deixar de imaginar o que é que uma freira pensa quando lê sobre a tal da Eustacia. Não falei nada, claro. Só disse que inglês era o meu forte.

- É mesmo? Ah, que bom! - falou a de óculos, que ensinava inglês. - Que foi que você leu este ano? Gostaria muito de saber. 

     Ela era boazinha mesmo.  

- Bem, passamos quase o tempo todo nos Anglo-Saxões, Beowulf e Grendel e Lord Randal My Son, e tudo isso. Mas tivemos que ler alguns livros fora do currículo, para melhorar as notas. Eu li "A Volta do Nativo", de Thomas Hardy, e "Romeu e Julieta" e "Júlio..." 
- Ah, "Romeu e Julieta"! Que beleza! Você não adorou? 

     Na verdade ela não falava muito como uma freira.

- Gostei. Gostei muito. De umas coisas eu não gostei, mas, no todo, achei muito comovente. 
- De que não gostou? Lembra-se? 

     Para dizer a verdade, era meio esquisito falar com ela de "Romeu e Julieta". Quer dizer, a peça é meio cheia de sexo, em alguns pedaços, e ela era uma freira e tudo, mas ela perguntou, e por isso discuti um pouco o assunto. 

- Bem, não sou maluco pelo Romeu e pela Julieta. Quer dizer, gosto deles, mas... sei lá. Às vezes os dois conseguem ser meio irritantes. Quer dizer, tive muito mais pena quando mataram o tal de Mercúrio do que quando Romeu e Julieta morreram. O negócio é que nunca simpatizei muito com o Romeu, depois que aquele outro homem, o primo de Julieta - como é mesmo o nome dele? - apunhalou o Mercúrio. 
- Tebaldo. 
- Isso mesmo. Tebaldo - repeti. Eu sempre esqueço o nome desse cara. - Foi culpa do Romeu. Quer dizer, o tal do Mercúrio era de quem, eu mais gostava na peça. Não sei. Eles eram bons, todos aqueles Montecchios e Capuletos - principalmente a Julieta - mas o Mercúrio era... É difícil explicar. Ele era esperto e divertido e tudo. O negócio é que fico danado quando alguém morre - principalmente alguém esperto e divertido e tudo - e por culpa de outro sujeito, ainda por cima. Pelo menos, com o Romeu e a Julieta foi culpa deles mesmos. 
- Em que colégio você está? - ela perguntou. Provavelmente queria sair do assunto Romeu e Julieta.

     Disse que estava no Pencey e ela conhecia o colégio. Ela disse que era muito bom. Deixei pra lá. Então a outra, a que ensinava história e política, disse que precisavam ir embora. Apanhei a conta delas, mas não deixaram que eu pagasse. A que usava óculos me fez devolver a nota. 

- Você já foi muito generoso. Você é um rapaz muito distinto.

     Ela era mesmo muito boazinha. Me fazia lembrar um pouco a mãe do tal Ernest Morrow, aquela que conheci no trem. Principalmente quando sorria. 

- Gostamos muito de conversar com você - ela disse.

     Falei que também tinha gostado muito de conversar com elas. E era verdade mesmo. E acho que ainda teria gostado mais se o tempo todo não estivesse preocupado com que, de repente, elas quisessem saber se eu era católico ou não. Os católicos estão sempre procurando descobrir se a gente é católico. Isso me acontece muito, em parte, eu sei, porque o meu sobrenome é irlandês, e quase todos os descendentes de irlandeses são católicos. Realmente, meu pai era católico. Mas abandonou a religião quando casou com minha mãe. Mas os católicos estão sempre querendo saber se a gente é católico, mesmo sem saber o sobrenome. No colégio Whooton, conheci um camarada católico, Louis Shaney. Foi o primeiro garoto que eu conheci lá. Nós estávamos sentados nas duas primeiras cadeiras, do lado de fora da droga da enfermaria, esperando a chamada para o exame médico e, não sei como, começamos a conversar sobre tênis. Ele se interessava por tênis e eu também. Ele me disse que nunca perdia o torneio de Forest Hills, e eu disse que também não perdia. Aí ficamos falando de alguns cobras durante algum tempo. Ele entendia um bocado de tênis, para um garoto da idade dele. Entendia mesmo. Aí, logo depois, bem no meio da droga da conversa, ele me perguntou: 

- Você reparou, por acaso, onde fica a igreja católica aqui na cidade?

     Acontece que, pelo jeito de falar, a gente via logo que o que ele queria mesmo era descobrir se eis era católico. Queria mesmo. Não porque ele tivesse preconceito religioso ou coisa parecida, mas só porque queria saber. Ele estava gostando da conversa sobre tênis, mas a gente via logo que ele ia gostar mais ainda se eu fosse católico e tudo. Esse negócio me deixa maluco. Isso não quer dizer que o troço tenha estragado a nossa conversa nem nada - não estragou, não - mas melhorar é que não melhorou. Por isso fiquei contente das duas freiras não me perguntarem se eu era católico. Não teria estragado a conversa, mas provavelmente ia tornar tudo diferente. Não que eu reprove os católicos. Não. Se eu fosse católico, com toda a certeza faria o mesmo. Mas, de certo modo, é parecido com o negócio das valises. O que eu quero dizer é que não contribui para tornar uma conversa agradável. É só isso. 
     Quando elas se levantaram para ir embora - as duas freiras - fiz uma coisa idiota, que me deixou um bocado sem jeito. Eu estava fumando e, quando levantei para me despedir, sem querer soprei fumaça no rosto delas. Não foi de propósito, mas soprei. Pedi um milhão de desculpas, e elas se mostraram muito educadas e boazinhas, mas assim mesmo fiquei encabulado.
     Depois que foram embora, comecei a ficar arrependido de só ter dado dez dólares. Mas acontece que eu tinha aquele encontro com a Sally Hayes e precisava de dinheiro para comprar as entradas e tudo. Mas fiquei arrependido de qualquer maneira. Dinheiro é uma droga. Acaba sempre fazendo a gente se sentir triste pra burro.

O Apanhador no Campo de Centeio - 15: Dormi pouco
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“O Apanhador” narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 17 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias. Na volta para casa, ao se preparar para enfrentar o inevitável esporro da família, Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça.

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