contos e poesia no butekudu baitasar.
a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre!
li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
Com a estreia do programa 'Centenário Antônio Ruiz Soler' no Teatro de la Maestranza de Sevilha, recordamos um dos bailarinos e coreógrafos que mais marcaram a evolução da dança espanhola no século XX no ano do seu centenário, obra de aquele que a Câmara Municipal nos concedeu com o prêmio Giraldillo Ciudad de Sevilla da Bienal de Flamenco, o maior prêmio de flamenco da cidade. Obrigado, Sevilla!
Antonio Ruiz Soler «el bailarín».
- Martinete (1952)
Antônio Ruiz Soler conhecido como Antônio «o dançarino» dança um martinete no Tajo de Ronda. Cante El Pili. "Duende e o mistério do flamenco" (1952).
Pepa Flores & Antonio "El Bailarin"
- Zorongo Gitano & Rumba
Pepa Flores em uma com Antônio "El Bailarin" no filme "La Nueva Cenicienta" - 1964.
Josefa Flores González, mais conhecida como Marisol ou Pepa Flores, é uma atriz e cantora espanhola. Criança prodígio, Marisol fez sucesso na Espanha nos anos 1960, com filmes musicais do gênero infantil, um deles, Cabriola, dirigido pelo ator americano Mel Ferrer.
Nasceu em 04 de fevereiro de 1948 (idade 73), Málaga, Espanha
(Orchestre philharmonique de Radio France / Lionel Bringuier)
A Orquestra Filarmônica da Radio France dirigida por Lionel Bringuier executa o Bolero de Maurice Ravel. Gravado em 16 de fevereiro de 2018 no Auditório da Maison de la Radio (Paris).
Criado em 1927 por encomenda da dançarina espanhola Ida Rubinstein, Ravel, que originalmente orquestraria peças de Isaac Albeniz, optou por compor um Bolero, uma dança espanhola: “Estou particularmente interessado em que não haja nenhum engano sobre o meu Bolero. Esta é uma experiência em uma direção muito particular e muito limitada, e não se deve suspeitar que ela almeje outra coisa senão o que está almejando. Antes da primeira apresentação, avisei que havia escrito uma peça de dezessete minutos consistindo apenas em tecido orquestral sem música - um crescendo longo e progressivo. "
O Bolero de Ravel consiste em duas frases que se alternam e se repetem sem a menor mudança de ritmo ou andamento. É a adição de instrumentos uns aos outros, e o crescendo perpétuo (do sussurro ao estrondo) que produz o efeito irresistível desta peça obsedante.
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Valery Gergiev
London Symphony Orchestra
Maya Plisetskaya - Bolero (choreography by Maurice Béjart)
À glória de CASTRO ALVES Potente e comovida voz de revolução
capítulo 8
A Revolução Republicana
§ 85 – A finança dos republicanos “práticos”
Já foi acentuado: finança, prosperidade material, riqueza... são os fins em que os nossos políticos de qualidade consagram, ensoberbecidos, os seus sonhos, e a que, sinceramente, dão os seus esforços. É mesmo o caso único de sinceridade, em todas as suas atitudes. É bem de ver que se, nas mãos deles, a finança prestasse; se houvesse prosperidade no geral das gentes; se se contasse com acúmulo crescente de riqueza, ainda assim, não se poderia aceitar tais limitados e grosseiros efeitos como prova de geral capacidade dirigente. Consideremos, agora, que, aí mesmo, nessas materialidades a que eles exclusivamente se consagram, é que são mais sensíveis as insuficiências, os erros, desastres, até crimes, para irrecusável prova da definitiva incapacidade. Finanças de bacharéis, ignorantes de tudo que faz base à economia política, na República, elas se qualificam em déficits, empréstimos, suspensão de pagamentos, fiscalidade de carrapato, ou preguiça a roer os brotos da embaúba, a passar a sua tartigrada estupidez de uma ramagem a outra, enquanto houver embaúbas pelo capoeirão... Tome-se do parecer da receita: é um espelho, em vidro barato, onde, todavia, se retrata a degringolada, em dissipações, do que tem sido a finança republicana. No último quatriênio 1922-1925, um déficit anual, em média, de cerca de 200 mil contos, para uma receita média de 1.500:000$000. Note-se que esta política deficitária se verifica apesar de empréstimos entrados como renda, e devorados como receita ordinária, apesar de suspenso o pagamento do serviço da dívida estrangeira. Para o próximo exercício, o déficit já calculado será de 36.000 contos. Considera-se, contudo, que não se computam aí os famosos créditos extraordinários, autorizados, e que, em certos exercícios financeiros têm atingido a importância de dezenas de milhares de contos. Também constata o parecer que todos os serviços industriais do Estado têm apresentado déficit...
Empréstimos no estrangeiro, e serviço da respectiva dívida, formam um dos capítulos mais ricos em estupidez e infâmia do financismo da República. Na União: maior soma (funding é empréstimo) convertida em dívida, nos últimos vinte anos da gestão republicana do que em toda a vida anterior do país, aí compreendidos os empréstimos em vista da guerra do Paraguai; suspensão de pagamentos por um período de mais de metade da existência da República; formidável soma de empréstimos negados ao seu destino obrigado, para um emprego que chega a ser verdadeiro desvio; as rendas, uma por uma, dadas em penhor... Por fora da União, a federação veio a ser como ciosa prerrogativa, a prerrogativa de contraírem, Estados e Municipalidades, tantos empréstimos quantos obtenham, que nunca serão bastantes para os que os procuram. E, então, aí tem havido de tudo: juros acima de usura, comissões devorantes, desvios confessados, e que vão a 40, 50 % do total; contratadores ou negociadores dos empréstimos que por lá ficam a comer e gozar todo o empréstimo, sem parar na emissão dos títulos, até que a polícia os trancafia, e a justiça os condena (a justiça de lá); juros cujos pagamentos se suspendem, sem nenhuma explicação, por decênios... Agora mesmo, a Bolsa de Fundos Públicos de São Paulo oficiou a 12 Câmaras municipais que paguem os “cupons” de suas dívidas “cujos serviços não estão em dia, com grave dano do crédito público...” E, com isto, de fato, esboroou-se o famoso crédito do Brasil. O último empréstimo no estrangeiro, pelo último governo, nos últimos dias, e cujo produto se evaporou; esse foi obtido através de comissões e garantias tais, como tal juro, que só mesmo para um Estado falido.
Completa-se, este financeirismo de empréstimos, déficits e calotes, com a tributação de desvario sugador com que se fazem as receitas. O termo – tributos é usual, deles, inconscientes e atávicos, na tradicional fiscalidade de saque. A tarifa alfandegária, precioso legado de D. João, com os seus 15% ad valorem, essa é o teor, mesmo, da ignorância incurável com que eles financiam. A técnica, indispensável nessas pautas, só entra como manejos de interessados em fraudarem, ou privilegiarem-se. No mais, há erros inadmissíveis mesmo no bacharelismo vigente. Aí, como em todas as receitas, taxa-se com o intuito explícito de fazer renda. Mas, objeta-se, há um evidente comércio, apesar dos mesmos impostos. Sim: um comércio feito por profissionais... profissionais, sobretudo, em achar o meio de evitar a finta. Lembremo-nos de que, se na Capital da União o imposto é universal, pois que a fiscalidade está fora da política, nos Estados, só pagam o duro das receitas os alheios à política, sobretudo a oposição quando há heroicos para tal mister.
E nos veios dessa finança escoa-se o que seria efetiva prosperidade, como se perde o melhor da riqueza já feita; câmbio, Banco do Brasil, cobranças em ouro... são os outros símbolos da finança oficial. A República recebeu o câmbio ao par – 27, libra 9$600, e ei-lo, agora a 5 e avos, libra a quarenta e tantos mil réis. A isto, respondem imediatamente os construtores republicanos: foram as seguidas turbações políticas, levantes, revoluções formais que deram neste resultado. Não: as turbações formais, não concorreram nem com 30% para a desvalorização do dinheiro nacional. A primeira e mais sensível das depreciações veio como correspondência do financismo inicial da República, com as emissões a jorro e as subsequentes encampações. Quando Floriano começou o seu governo, sem nenhum levante, ainda, o câmbio já estava a 15. E passou todo o período do grande alagoano atormentado pela mais violenta e poderosa das guerras civis do Brasil, sem que o câmbio descesse mais de quatro pontos. Veio o prudentismo – paz, reinado da sensatez, poderio dos conservadores na República... aura da reação, garantia dos homens de bem... perseguição aos republicanos, desvirtuação essencial da política, verdadeira turbação íntima... e, o câmbio degringola numa desvalorização nunca vista até a casa dos 6. Vem o reinado da ostensiva finança, com suspensão de pagamentos, para que o câmbio possa subir, e fique nessa flutuação em torno de 10, até que se faça a economia política de brutal enfeudamento da finança aos interesses do café, cuja valorização se torna o eixo de toda a caranguejola financista: Convênio da Taubaté, Caixa de Conversão... tréguas à degringolada, até que a grande guerra dá o pretexto de nova suspensão de pagamentos, e novos empréstimos. Em verdade, na desgraça universal, a guerra foi negócio vantajoso para o Brasil: forçada restrição de importação, incremento da produção nacional, reforço de exportação... Pois bem, com isto e os milhares de dólares entrados por empréstimo, degringola o câmbio, numa queda que começou bem antes de 5 de julho de 1922, derrocada que se acentua até a atual regeneração financeira em câmbio miserável, por uma degringolada propositada, e cujas peripécias e datas são inteiramente independentes das crises de revolta armada. Desta sorte, só a filáucia coimbrense poderá explicar a definitiva desvalorização da moeda nacional pelas perturbações armadas, Aliás, nem seria preciso insistir em demonstrar o contrário, quando a renascença de agora, neste prometido Cruzeiro, de câmbio a cinco, vem patentear que toda essa finança é o encaminhamento, todo instintivo, para o atual preço do café. Que importa toda a imensa fortuna em que os brasileiros foram roubados? O câmbio, que de libra – 16$000 vem, no interregno de um decênio, a libra – 40$000, reduziu a riqueza da nação, papel-moeda ou títulos, a 30% do valor da emissão. Foi uma verdadeira espoliação, de que ninguém aproveitou, no entanto, nem o café, jubilante do câmbio baixo, nem o Estado, que continua em déficit; espoliação que corresponde ao desbarato dos empréstimos últimos, de que ela é o preço.
Para digno remate, alinhava-se, em oito dias, uma radical reforma financeira, estabilização, moeda-ouro... justificada no estafadíssimo truísmo de que o inconveniente do câmbio é a instabilidade, não a mesquinhez da taxa. Sem dúvida: quando, numa governança um tanto razoável, com um câmbio natural, expressão legítima dos fatores econômicos, fazia-se o valor do mil-réis em variações pouco sensíveis, já esperadas. Tudo ia regularmente, apesar de que esse – REAL – unidade monetária, fosse expressão de uma taxa tão rebaixada que já não é valor palpável, se não uma mera abstração, ou insignificância, que, para ser unidade, multiplica-se por mil. Pouco nos importava a formidável depreciação histórica da nossa moeda. Mas importa infinitamente que, justamente no fundo de uma nunca vista depreciação da moeda, dentro de uma crise financeira resultante principalmente dos erros políticos, adote-se como remédio o definitivo amesquinhamento da moeda, aproveitando-se esse aviltamento monetário como padrão de moeda-ouro. Aliás, só a irremissível insuficiência da finança bacharelesca pode admitir que o remédio colhesse: que o Cruzeiro, a mil-réis baratinho, será um símbolo de ouro, que teremos câmbio estável, a coberto de jogatina e de sustos. Estabilidade de câmbio e circulação metálica não são coisas a fazerem-se por simples decreto, quando a nação é pobre, isto é, sem reservas. Neste caso, ou o Estado é o próprio senhor da economia nacional (Rússia), e o pode fazer porque incorpora o mercado cambial, ou o câmbio oscilará, à mercê de uma economia inarmônica, dependente de múltiplos fatores, não fortuitos, mas dissociados e relativos, muitas vezes, a motivos superiores à economia nacional, mesmo com uma balança comercial favorável. Então, só quando se acumule riqueza e a nação seja economicamente independente, ela será senhora de sua finança, para um câmbio estável. Por enquanto, aqui, a providência servirá para impedir ao câmbio de melhorar. Cheguem, porém, dias análogos aos de 1890, 97, 1915, 1922-25... e o câmbio achará por onde descer, dos cinco em que pretendem estabilizá-lo.
Quando se criaram os impostos aduaneiros em ouro, foi, bem explicitamente, para que a finança oficial tivesse o ouro do que precisa, sem depender do câmbio. Uma parte desse ouro seria para um fundo de resgate. Destarte, retomando o serviço da dívida externa, o Tesouro estaria inteiramente fora das oscilações cambiais: iniciar-se-ia o anunciado resgate, e o Brasil viria a ser um país de moeda sã, superior à contingência de câmbios... Talvez, bem imaginado, mas sem ajuste da realidade; nem a fração-ouro, reservada ao resgate, seria valor-força para elevar o país à circulação metálica, nem os estadistas republicanos têm tenacidade, honesta e sincera, indispensável para execução de um programa. E o ouro do resgate, que já se elevaria a £ 300 milhões, foi sempre desviado para... o sorvedouro comum, pelo que houve de votar-se uma lei autorizando o desvio, já realizado.
Através de toda essa finançaria, em que o Estado se empobreceu tanto quanto se endividava, e a nação estiolava, sugada pelos impostos; inflando nessa finança, o simbólico Banco do Brasil passou da suspensão de pagamentos (inclusive depósitos) de 1900, à opulência de hoje. Apesar de quanto o tesouro já tinha ajudado ao banco periclitante, nem ele tinha crédito, nem as respectivas ações valiam coisa alguma: corrida, intervenção do Estado – a forçar os credores a deixar na carteira do falido os seus créditos, ao mesmo tempo que o Tesouro dava a sua responsabilidade aos correspondentes débitos. E, mais uma vez, derivou a fortuna do Brasil em benefício dos felizes acionistas do Banco. Daí para cá multiplicaram-se os favores, privilégios e negócios, em que os magros recursos da nação se esvaem para os cofres do estabelecimento cuja melhor função é a de ser canal escuso dos favores governamentais em dinheiro, e que, nos seus privilégios asfixiantes de crédito, pôde passar, em vinte anos, de escória bancária, à suntuosidade finançante de agora. É bem o retrato, avesso, da finança oficial.
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"Manoel Bomfim morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."
Cecília Costa Junqueira
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Bomfim, Manoel, 1868-1932
O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gigante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agravao a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeiramente conversa com um amigo, cai logo — cai é o termo — de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.
É o homem permanentemente fatigado.
Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
Nada é mais surpreendedor do que vê-lo desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias ador- mecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.
Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida sertaneja — caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas.
É impossível idear-se cavaleiro mais xucro e deselegante; sem posição, pernas coladas ao bojo da montaria, tronco pendido para a frente e oscilando à feição da andadura dos pequenos cavalos do sertão, desferrados e maltratados, resistentes e rápidos como poucos. Nesta atitude indolente, acompanhando morosamente, a passo, pelas chapadas, o passo tardo das boiadas, o vaqueiro preguiçoso quase transforma o campeão que cavalga na rede amolecedora em que atravessa dous terços da existência.
Mas se uma rês alevantada envereda, esquiva, adiante, pela caatinga garranchenta, ou se uma ponta de gado, ao longe, se trasmalha, ei-lo em momentos transformado, cravando os acicates de rosetas largas nas ilhargas da montaria e partindo como um dardo, atufando-se velozmente nos dédalos inextricáveis das juremas.
Vimo-lo neste steeple chase bárbaro.
Não há contê-lo, então, no ímpeto. Que se lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, moitas de espinhos ou barrancas de ribeirões, nada lhe impede encalçar o garrote desgarrado, porque por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo...
Colado ao dorso deste, confundindo-se com ele, graças à pressão dos jarretes firmes, realiza a criação bizarra de um centauro bronco: emergindo inopinadamente nas clareiras; mergulhando nas macegas altas; saltando valos e ipueiras; vingando cômoros alçados; rompendo, célere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida, no largo dos tabuleiros...
A sua compleição robusta ostenta-se, nesse momento, em toda a plenitude. Como que é o cavaleiro robusto que empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil, sustendo-o nas rédeas improvisadas de caroá, suspendendo-o nas esporas, arrojando-o na carreira — estribando curto, pernas encolhidas, joelhos fincados para a frente, torso colado no arção, — escanchado no rastro do novilho esquivo: aqui curvando-se agilíssimo, sob um ramalho, que lhe roça quase pela sela; além desmontando, de repente, como um acrobata, agarrado às crinas do animal, para fugir ao embate de um tronco percebido no último momento e galgando, logo depois, num pulo, o selim; — e galopando sempre, através de todos os obstáculos, sopesando à destra sem a perder nunca, sem a deixar no inextricável dos cipoais, a longa aguilhada de ponta de ferro encastoado em couro, que por si só constituiria, noutras mãos, sérios obstáculos à travessia...
Mas terminada a refrega, restituída ao rebanho a rês dominada, ei-lo, de novo caído sobre o lombilho retovado, outra vez desgracioso e inerte, oscilando à feição da andadura lenta, com a aparência triste de um inválido esmorecido.
Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho
O gaúcho do Sul, ao encontrá-lo nesse instante, sobreolhá-lo-ia comiserado.
O vaqueiro do Norte é a sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos não há equipará-lo. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta, tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do equador. Não tem, no meio das horas tranquilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos, o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada.
As suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais, no galope fechado ou no corcovear raivoso, não se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das árvores garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redomão desensofrido, calçando as largas botas russilhonas, em que retinem as rosetas das esporas de prata; lenço de seda, encarnado, ao pescoço; coberto pelo sombreiro de enormes abas flexíveis e tendo à cinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca — é um vitorioso jovial e forte. O cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de luxo. Demonstra-o o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso sobre um pingo bem aperado, está decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa.
O vaqueiro
O vaqueiro, porém, criou-se em condições opostas, em uma intermitência, raro, perturbada, de horas felizes e horas cruéis, de abastança e misérias — tendo sobre a cabeça, como ameaça perene, o Sol, arrastando de envolta no volver das estações períodos sucessivos de devastações e desgraças.
Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes. Fez-se homem, quase sem ter sido criança. Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o espantalho das secas no sertão. Cedo encarou a existência pela sua face tormentosa. É um condenado à vida. Compreendeu-se envolvido em combate sem tréguas, exigindo-lhe imperiosamente a convergência de todas as energias.
Fez-se forte, esperto, resignado e prático.
Aprestou-se, cedo, para a luta.
O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o de guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em joelheiras de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés de pele de veado — é como a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo.
Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha ferida pelo Sol. É fosca e poenta. Envolve ao combatente de uma batalha sem vitórias...
A sela da montaria, feita por ele mesmo, imita o lombilho rio-grandense, mas é mais curta e cavada, sem os apetrechos luxuosos daquele. São acessórios uma manta de pele de bode, um couro resistente, cobrindo as ancas do animal, peitorais que lhe resguardam o peito, e as joelheiras apresilhadas às juntas.
Este equipamento do homem e do cavalo talha-se à feição do meio. Vestidos doutro modo não romperiam, incólumes, as caatingas e os pedregais cortantes.
Nada mais monótono e feio, entretanto, do que esta vestimenta original, de uma só cor — o pardo avermelhado do couro curtido — sem uma variante, sem uma lista sequer diversamente colorida. Apenas, de longe em longe, nas raras encamisadas, em que aos descantes da viola o matuto deslembra as horas fatigadas, surge uma novidade — um colete vistoso de pele de gato do mato ou de suçuarana com o pelo mosqueado virado para fora, ou uma bromélia rubra e álacre fincada no chapéu de couro.
Isto, porém, é incidente passageiro e raro.
Extintas as horas do folguedo, o sertanejo perde o desgarre folgazão — largamente expandido nos sapateados, em que o estalo seco das alpercatas sobre o chão se parte nos tinidos das esporas e soalhas dos pandeiros, acompanhando a cadência das violas vibrando nos rasgados — e cai na postura habitual, tosco, deselegante e anguloso, num estranho manifestar de desnervamento e cansaço extraordinários.
Ora, nada mais explicável do que este permanente contraste entre extremas manifestações de força e agilidade e longos intervalos de apatia.
Perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra, o sertanejo do Norte teve uma árdua aprendizagem de reveses. Afez-se, cedo, a encontrá-los, de chofre, e a reagir, de pronto.
Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de tréguas. É o batalhador perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre para um recontro que não vence e em que se não deixa vencer; passando da máxima quietude à máxima agitação; da rede preguiçosa e cômoda para o lombilho duro, que o arrebata, como um raio, pelos arrastadores estreitos, em busca das malhadas. Reflete, nestas aparências que se contrabatem, a própria natureza que o rodeia — passiva ante o jogo dos elementos e passando, sem transição sensível, de uma estação à outra, da maior exuberância à penúria dos desertos incendidos, sob o reverberar dos estios abrasantes.
É inconstante como ela. É natural que o seja. Viver é adaptar-se. Ela o talhou à sua imagem: bárbaro, impetuoso, abrupto...
O gaúcho
O gaúcho, o pealador valente, é certo, inimitável numa carga guerreira; precipitando-se, ao ressoar estrídulo dos clarins vibrantes, pelos pampas, como o conto da lança enristada, firme no estribo; atufando-se loucamente nos entreveros; desaparecendo, com um grito triunfal, na voragem do combate, onde espadanam cintilações de espadas; transmudando o cavalo em projétil e varando quadrados e levando de rojo o adversário no rompão das ferraduras, ou tombando, preste, na luta, em que entra com despreocupação soberana pela vida.
O jagunço
O jagunço é menos teatralmente heroico; é mais tenaz; é mais resistente; é mais perigoso; é mais forte; é mais duro.
Raro assume esta feição romanesca e gloriosa. Procura o adversário com o propósito firme de o destruir, seja como for.
Está afeiçoado aos prélios obscuros e longos, sem expansões entusiásticas. A sua vida é uma conquista arduamente feita, em faina diuturna. Guarda-a como capital precioso. Não esperdiça a mais ligeira contração muscular, a mais leve vibração nervosa sem a certeza do resultado. Calcula friamente o pugilato. Ao riscar da faca não dá um golpe em falso. Ao apontar a lazarina longa ou o trabuco pesado, dorme na pontaria...
Se ineficaz o arremesso fulminante, o contrário enterreirado não baqueia, o gaúcho, vencido ou pulseado, é fragílimo nas aperturas de uma situação inferior ou indecisa.
O jagunço, não. Recua. Mas no recuar é mais temeroso ainda. É um negacear demoníaco. O adversário tem, daquela hora em diante, visando-o pelo cano da espingarda, um ódio inextinguível, oculto no sombreado das tocaias...
Os vaqueiros
Esta oposição de caracteres acentua-se nas quadras normais.
Assim todo sertanejo é vaqueiro. À parte a agricultura rudimentar das plantações da vazante pela beira dos rios, para a aquisição de cereais de primeira necessidade, a criação de gado é, ali, a sorte de trabalho menos impropriada ao homem e à terra.
Entretanto não há vislumbrar nas fazendas do sertão a azáfama festiva das estâncias do Sul.
Parar o rodeio é para o gaúcho uma festa diária, de que as cavalhadas espetaculosas são ampliação apenas. No âmbito estreito das mangueiras ou em pleno campo, ajuntando o gado costeado ou encalçando os bois esquivos, pelas sangas e banhados, os pealadores, capatazes e peões, preando à ilhapa dos laços o potro bravio, ou fazendo tombar, fulminando pelas bolas silvantes, o touro alçado, nas evoluções rápidas das carreiras, como se tirassem argolinhas, seguem no alarido e na alacridade de uma diversão tumultuosa. Nos trabalhos mais calmos, quando nos rodeios marcam o gado, curam-lhe as feridas, apartam os que se destinam às charqueadas, separam os novilhos tambeiros ou escolhem os baguais condenados às chilenas do domador, — o mesmo fogo que encandesce as marcas dá as brasas para os ágapes rudes de assados com couro ou ferve a água para o chimarrão amargo.
Fonte: CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984 (Biblioteca do Estudante).
Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Amor! Em que loucura não nos fazes encontrar prazer?
CARTAS DE UMA RELIGIOSA PORTUGUESA
JULIEN RELEU SUAS CARTAS. Quando ouviu a sineta do almoço, pensou: Como devo ter sido ridículo aos olhos dessa boneca parisiense! Que loucura dizer-lhe realmente aquilo em que eu pensava! Mas talvez loucura não tão grande. A verdade, naquele momento, era digna de mim.
Por que vir interrogar-me sobre coisas íntimas? A pergunta foi indiscreta da parte dela, foi uma falta de educação. Meus pensamentos sobre Danton não fazem parte do serviço para o qual seu pai me paga. Ao chegar à sala de jantar, o mau humor de Julien foi surpreendido pelo luto pesado da srta. de La Mole, que o impressionou ainda mais porque nenhuma outra pessoa da família estava vestida de preto. Depois do almoço, viu-se completamente livre do acesso de entusiasmo que o obsedara durante a jornada. Por sorte, o acadêmico que sabia latim estava presente. É o homem que menos zombará de mim, pensou, se, como presumo, minha pergunta sobre o luto da srta. de La Mole for descabida. Mathilde olhava-o com uma expressão singular. Aí está a coqueteria das mulheres desta cidade, tal como a sra. de Rênal me havia pintado, pensou Julien. Não fui amável com ela esta manhã, não cedi à sua vontade de conversar. Assim aumento de valor aos olhos dela. Certamente o diabo nada perde com isso. Mais tarde, sua altivez desdenhosa saberá vingar-se. Desafio-a a fazer pior. Que diferença em relação àquela que perdi! Sua naturalidade encantadora! Sua ingenuidade! Eu sabia seus pensamentos antes dela, via-os nascer; meu único antagonista, em seu coração, era o medo da morte dos filhos; era uma afeição razoável e natural, amável mesmo para mim, que padecia com ela. Fui um tolo. As ideias que eu fazia de Paris impediram-me de apreciar aquela mulher sublime. Que diferença, meu Deus! E o que encontro aqui? Vaidade seca e orgulhosa, todos os matizes do amor-próprio e nada mais. Deixavam a mesa. Não posso perder meu acadêmico, pensou Julien. Aproximou-se dele quando passavam ao jardim, assumiu um ar afável e submisso e partilhou seu furor contra o sucesso de Hernani.
– Se ainda estivéssemos no tempo das ordens de prisão emitidas pelo rei!... ele disse.
– Então ele não teria ousado, exclamou o acadêmico, com um gesto à Talma.
A propósito de uma flor, Julien citou algumas palavras das Geórgicas, de Virgílio, e achou que nada se comparava aos versos do abade Delille. Em suma, adulou o acadêmico de todas as maneiras, para então dizer, com o ar mais indiferente:
– Suponho que a srta. de La Mole recebeu a herança de um tio pelo qual veste o luto.
– Como! O senhor é da casa, disse o acadêmico, estacando, e não conhece essa mania? Em realidade, é estranho que sua mãe permita tais coisas; mas, cá entre nós, não é precisamente pela força de caráter que se brilha nesta casa. A srta. Mathilde tem essa força por todos eles, e os dirige. Hoje é 30 de abril! E o acadêmico deteve-se, olhando para Julien com um ar esperto. Julien sorriu do jeito mais espirituoso que pôde.
Que relação pode haver entre dirigir toda uma família, usar um vestido preto e o dia 30 de abril?, ele pensava. Devo ser ainda mais ignorante do que imaginava.
– Confesso-lhe..., disse ao acadêmico, e seu olhar continuava a interrogar.
– Vamos dar uma volta pelo jardim, disse o acadêmico, entrevendo com entusiasmo a ocasião de fazer uma longa narração elegante. Então é possível que não saiba o que se passou em 30 de abril de 1574?
– E onde?, perguntou Julien, espantado.
– Na praça de Grève.
Julien estava tão espantado que nada associou a esse nome. A curiosidade, a expectativa de uma informação trágica, tão de acordo com seu caráter, davam-lhe aqueles olhos brilhantes que um narrador tanto gosta de ver na pessoa que o escuta. O acadêmico, encantado de encontrar um ouvido virgem, contou longamente como, em 30 de abril de 1574, o moço mais bonito de seu século, Boniface de La Mole, e seu amigo Annibal de Coconasso, fidalgo piemontês, foram decapitados na praça de Grève. La Mole era o amante adorado da rainha Marguerite de Navarra; e observe, acrescentou o acadêmico, que a srta. de La Mole chama-se Mathilde-Marguerite. La Mole era ao mesmo tempo o favorito do duque d’Alençon e amigo íntimo do rei de Navarra, depois Henrique IV, marido de sua amante. Na terça-feira gorda daquele ano de 1574, a corte achava-se em Saint-Germain com o pobre rei Carlos IX, que estava morrendo. La Mole quis libertar os príncipes, seus amigos, que a rainha Catarina de Médicis retinha como prisioneiros na corte. Fez avançar duzentos cavalos contra os muros de Saint-Germain; o duque d’Alençon teve medo, e La Mole foi entregue ao carrasco.
– Mas o que comove a srta. Mathilde, o que ela mesma confessou-me, há sete ou oito anos, quando tinha apenas doze, pois é uma inteligência, uma inteligência!... e o acadêmico ergueu os olhos ao céu, o que a impressionou nessa catástrofe política é que a rainha Marguerite de Navarra, escondida numa casa da praça de Grève, ousou mandar pedir ao carrasco a cabeça do amante. E na noite seguinte, à meia-noite, foi ela mesma enterrá-la numa capela ao pé da colina de Montmartre.
– Será possível?, exclamou Julien, comovido.
– A srta. Mathilde despreza o irmão, porque, como vê, ele não dá a menor importância a essa história antiga e não veste luto em 30 de abril. Foi depois desse famoso suplício, e para lembrar a amizade íntima de La Mole por Coconasso – o qual, como italiano que era, chamava-se Annibal –, que todos os homens desta família passaram a ter esse nome. E o acadêmico acrescentou, baixando a voz: esse Coconasso, no dizer do próprio Carlos IX, foi um dos mais cruéis assassinos do 24 de agosto de 1572. Mas como é possível, meu caro Sorel, que ignore essas coisas, o senhor, comensal da casa?
– Eis então por que, duas vezes no jantar, a srta. La Mole chamou seu irmão de Annibal. Julguei ter ouvido mal.
– Era uma censura. É estranho que a marquesa tolere tais manias... O marido dessa moça inteligente terá muitas surpresas!
Essa tirada foi seguida de cinco ou seis frases satíricas. A satisfação e a intimidade que brilhavam nos olhos do acadêmico chocaram Julien. Parecemos dois criados a falar mal dos patrões, pensou. Mas nada deve espantar-me da parte desse homem de academia. Um dia, Julien surpreendera-o ajoelhado ante a marquesa de La Mole; pedia-lhe um emprego de fiscal de tabaco para um sobrinho da província. À noite, uma camareira da srta. de La Mole, que o cortejava, como Elisa outrora, fez Julien pensar que o luto da patroa não era para chamar a atenção. Essa esquisitice tinha fundamento em seu caráter. Ela amava realmente aquele La Mole, amante da rainha mais inteligente de seu século, e que morreu por ter querido dar a liberdade aos amigos, e que amigos! O príncipe herdeiro e Henrique IV. Acostumado à naturalidade perfeita que brilhava na conduta da sra. de Rênal, Julien via apenas afetação nas mulheres de Paris; e, mesmo quando não se aborrecia com elas, nada encontrava para lhes dizer. A srta. de La Mole foi uma exceção. Ele começava a não mais tomar como secura de coração esse tipo de beleza associado à nobreza do porte. Teve longas conversas com a srta. de La Mole, que, às vezes depois do almoço, passeava com ele pelo jardim, ao longo das janelas abertas do salão. Um dia ela disse-lhe que estava lendo a história de d´Aubigné, e Brantôme. Leitura singular, pensou Julien; e a marquesa não lhe permite ler os romances de Walter Scott! Um dia ela contou, com aqueles olhos brilhantes que provam a sinceridade da admiração, um episódio que acabara de ler nas Memórias, de l’Étoile: durante o reinado de Henrique III, uma dama, ao descobrir a infidelidade do marido, o apunhalou. O amor-próprio de Julien sentia-se lisonjeado. Uma pessoa cercada de tantos respeitos, e que, nas palavras do acadêmico, dirigia toda a casa, dignava-se falar-lhe de um jeito que podia quase parecer amizade. Eu estava enganado, pensou logo em seguida Julien; não se trata de familiaridade, sou apenas um confidente de tragédia, é a necessidade de falar. Sou tido por sábio nesta família. Vou ler Brantôme, d’Aubigné, l’Étoile, assim poderei contestar algumas das anedotas de que me fala a srta. de La Mole. Quero deixar esse papel de confidente passivo. os poucos, suas conversas com essa moça, de um porte tão imponente e ao mesmo tempo tão desembaraçado, tornaram-se mais interessantes. Ele esquecia seu triste papel de plebeu revoltado. Achava-a uma pessoa culta, e mesmo razoável. Suas opiniões no jardim eram muito diferentes das que ela mostrava no salão. Às vezes tinha com ele um entusiasmo e uma franqueza que formavam um contraste perfeito com sua maneira de ser usual, tão orgulhosa e fria. As guerras da Liga são os tempos heroicos da França, disse ela um dia, com olhos faiscantes de gênio e de entusiasmo. Cada um combatia então para obter uma certa coisa desejada, para fazer triunfar seu partido, e não para ganhar vulgarmente uma medalha como no tempo do seu imperador. Convenha que havia menos egoísmo e mesquinhez. Gosto daquele século.
– E Boniface de La Mole foi seu herói, disse ele.
– Pelo menos, foi amado como talvez seja doce sê-lo. Que mulher atualmente viva não teria horror de tocar a cabeça de seu amante decapitado?
A sra. de La Mole chamou a filha. A hipocrisia, para ser útil, deve ocultar-se; e Julien, como se percebe, fizera à srta. de La Mole uma semiconfidência sobre sua admiração por Napoleão. Eis a imensa vantagem que eles têm sobre nós, pensou Julien, tendo ficado a sós no jardim. A história de seus antepassados os eleva acima dos sentimentos vulgares, e eles não precisam pensar em sua subsistência! Que miséria! Acrescentava com amargor, sou indigno de pensar sobre esses grandes assuntos. Minha vida não passa de uma série de hipocrisias, porque não tenho mil francos de renda para manter-me.
– Em que está pensando, senhor?, disse-lhe Mathil de, que retornava correndo.
Julien estava cansado de desprezar-se. Por orgulho, disse francamente o que pensava. Corou muito ao falar de sua pobreza a uma pessoa tão rica. Procurou mostrar claramente, por seu tom orgulhoso, que não estava pedindo nada. Ele nunca parecera tão belo a Mathilde, que viu nele uma expressão de sensibilidade e de franqueza que com frequência lhe faltava. Menos de um mês depois, Julien passeava pensativo pelo jardim da mansão de La Mole; mas seu rosto não tinha mais a dureza e a arrogância filosófica que nele imprimia o sentimento contínuo de sua inferioridade. Acabava de reconduzir até a porta do salão a srta. de La Mole, que dizia ter torcido o pé ao correr com seu irmão. Ela apoiou-se em meu braço de um modo bastante singular!, dizia-se Julien. Sou um presumido ou seria verdade que ela gosta de mim? Escuta-me com um ar tão doce, mesmo quando lhe confesso os sofrimentos de meu orgulho! Logo ela, tão orgulhosa com todo o mundo! Ficariam muito espantados no salão se lhe vissem tal fisionomia. Essa expressão doce e amável, é certo que não a tem com ninguém. Julien procurava não exagerar essa singular amizade, comparando-a a um comércio armado. Todo dia ao reencontrarem-se, antes de retomarem o tom quase íntimo da véspera, era como se perguntassem: seremos hoje amigos ou inimigos? Julien compreendera que deixar-se ofender impunemente uma única vez por aquela jovem orgulhosa era perder tudo. Se devo indispor-me, não será melhor que seja desde o início, defendendo os justos direitos de meu orgulho, e não repelindo as marcas de desprezo que logo acompanhariam o menor abandono do que devo à minha dignidade pessoal? Várias vezes, em dias de mau humor, Mathilde tentou adotar com ele o tom de uma grande dama, o que fazia com rara delicadeza; mas Julien repelia rudemente essas tentativas. Certo dia, ele a interrompeu bruscamente:
– A senhorita de La Mole tem alguma ordem a dar ao secretário de seu pai?, perguntou. Ele deve escutar suas ordens e executá-las com respeito; mas, de resto, não tem a obrigação de dirigir-lhe a palavra. Ele não é pago para comunicar-lhe seus pensamentos.
Essa maneira de ser e as dúvidas singulares de Julien fizeram desaparecer o tédio que ele sentia regularmente naquele salão magnífico, onde havia um medo de tudo e onde não era conveniente fazer qualquer gracejo. Seria divertido se ela me amasse. Quer me ame ou não, continuava Julien, tenho por confidente íntima uma mulher de espírito, diante da qual vejo tremer a casa inteira e, mais do que todos, o marquês de Croisenois, esse jovem polido, amável, corajoso, que reúne todas as vantagens de nascimento e de fortuna, das quais uma só já deixaria meu coração tão à vontade! Ele está loucamente apaixonado, quer casar com ela. Quantas cartas o sr. de La Mole fez-me escrever aos dois notários para arranjar o contrato! E eu, que me vejo tão subalterno ao redigi-las, duas horas depois, aqui no jardim, triunfo desse jovem tão amável: pois, enfim, as preferências são visíveis, diretas. Pode ser também que ela odeie nele um futuro marido. Tem bastante altivez para isso. E as amabilidades que demonstra comigo, obtenho-as a título de confidente subalterno. Mas não, ou estou louco, ou ela me corteja; quanto mais mostro-me frio e respeitoso com ela, mais ela me procura. Isso poderia ser uma atitude fingida; mas vejo seus olhos animarem-se quando apareço de improviso. Sabem as mulheres de Paris fingir a esse ponto? Que importa! Tenho a aparência a meu favor, desfrutemos das aparências. Meu Deus, como ela é bela! Como seus grandes olhos azuis me agradam, vistos de perto, e olhando-me como o fazem com frequência! Que diferença entre esta primavera e a do ano passado, quando eu vivia infeliz e sustentando-me à força de caráter, em meio a trezentos hipócritas perversos e sórdidos! Eu estava ficando quase tão perverso quanto eles. Nos dias de desconfiança, Julien pensava: Essa moça zomba de mim. Está de conluio com o irmão para ludibriar-me. Mas ela dá a impressão de desprezar tanto a falta de energia desse irmão! Ele é corajoso, nada mais que isso, ela me disse. Não tem um pensamento que ouse afastar-se da moda. Sou sempre eu que sou obrigada a defendê-lo, eu, uma moça de dezenove anos! Com essa idade, pode-se ser fiel, a cada instante do dia, à hipocrisia prescrita? Por outro lado, sempre que a srta. de La Mole fixa em mim seus grandes olhos azuis com uma certa expressão singular, o conde Norbert afasta-se. Isso é suspeito; ele não deveria indignar-se com o fato de a irmã distinguir um cria do de sua casa? Foi com essa palavra que ouvi o duque de Chaulnes referir-se a mim. A tal lembrança, a cólera substituía em Julien qualquer outro sentimento: Esse duque maníaco diz isso por amor à linguagem antiga? Bem, mas ela é bonita! continuava Julien, com olhares de tigre. Eu a terei, depois cairei fora, e ai de quem perturbar-me em minha fuga! Essa ideia tornou-se a única preocupação de Julien, não conseguia mais pensar noutra coisa. Seus dias passavam como horas. A todo instante, buscando ocupar-se de algum assunto sério, seu pensamento abandonava tudo, e ele despertava um quarto de hora depois, o coração palpitando, a cabeça confusa, e sonhando com esta ideia: ela me ama?
continua página 214...
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ADVERTÊNCIA DO EDITOR
Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.
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Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.
Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.
Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.
"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.
Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.
Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.
Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.
Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.
O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.