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segunda-feira, 6 de março de 2023

O Brasil Nação - V2: § 90 – Por fim (10) - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil Nação volume 2



SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


POR FIM...


(10)


A massa da nação brasileira se há de redimir, num esforço próprio, projetada no torvelinho que lhe acelerará a marcha de ascensão. Para tanto, basta que se infiltre nas consciências, para que sejam livres e fortes, esse espírito revolucionário, em que se fundem ruínas, e o caos convulso soerguer-se-á em cosmos que se organiza. Donde virá, porém, a chama que nos abrasará?... Quando um povo deve subsistir, não lhe será existência a perene resignação na covardia. A mesma necessidade de viver, em indestrutível energia comprimida, fulgirá, finalmente, numa ou noutra consciência. Alastrará, depois. Para que tal se pronuncie, não vale o número, mas a intensidade da devoção e a inflexibilidade do propósito. Algumas inteligências de elite, absorvidas no sentimento da humanidade indispensável, definirão a doutrina, que o ânimo de apostolado difundirá, incorporada, sempre, no mesmo sentimento. E tudo se condensará em vontade de redenção, como de inspirado que entrega o ânimo à comovida ideia que exclusivamente o dominou. E, bem nitidamente, a missão de uma pequena minoria, votada ao sacrifício pessoal, preço fatal de toda vitória contra a injustiça. Iluminados, em cujo ardor social, o sofrimento, o tédio, o desgosto, se caldeiam e se transformam em revolta construtora, esses apóstolos da revolução brotam da emergência, e, uma vez, pronunciados, tornam-se a condição essencial de toda a preparação revolucionária. Ora, aí está um povo, não revelado ainda para a legítima liberdade, com as qualidades bastantes de temperamento, coração e inteligência, e estão, também, os motivos que se fundirão em revolucionarismo; falta-nos, somente, essa minoria capaz de transformar o sofrimento em redenção. Será uma carência irremissível?... Tantos têm havido para sacrificarem-se em aventuras de pura demagogia, sinceros, na fé de ideais esgotados: como não admitir que algumas consciências se exaltem, eficazmente, a querer a legítima redenção?

Se algumas vontades, fortes em convicção e inteligência, nitidamente inspiradas das nossas realidades e dos grandes fins humanos se votassem a essa obra de redenção, acabariam criando e derramando o indispensável espírito revolucionário. E tanto é a ignomínia, e tão patente a insuficiência da ordem reinante, que haverá, sempre, facilidade de infundir e disseminar o inflamável em que essa ordem arderá: cada lineamento de infâmias será o motivo de um novo tracejar, cada processo de injustiça, um veio de remissão, pois que a podridão resiste mal, e melhor destaca a pureza. No contraste, entre o mundo atual e o anunciado, patentear-se-á a verdade, essencial nesses momentos: de que o principal não é a vida, mas o como a vivemos. E haverá consciências para a indispensável constância de sacrifícios, com que se levam a termo as revoluções, aceitando-se, então, refazer a vida bem do ínfimo. O opróbrio da condenação já será aura de redenção. É quando o Gólgota santifica-se em Calvário; o sacrifício, a luta de almas livres, têm de abrir o caminho à renovação. Não pela ufania de provocar a morte: que ela venha, se está no traço da campanha, porque a coragem da revolução não é bem a de morrer, mas a de viver plenamente, ainda que no seio da morte, simples diversão do destino, sem poder de frená-lo.

Com o ânimo de sacrifício, o essencial, na revolução, é a legitimidade e pureza do ideal, que não aceita meia verdade nem simples miragem de solução; não transige, nem se ilude. Se o espetáculo do mundo ambiente não dá frestas por onde passe o pensamento anunciador, tanto melhor: será quando a pressão provoca a ruptura. Ânsia de melhor, desejo de palpar grandezas morais, o sofrimento da vida recalcada, por sobre a eterna realidade do amor e da esperança, farão brotar o ideal em todo o seu poderoso influxo. Plenitude de vida, a crise-revolução distingue de pronto o legítimo ideal da mera utopia, pois que deriva daqueles imediatamente, das mesmas condições determinantes, apuradas nos fatos. E, sobre o fundo das casualidades reais, é ele força e direção, para tornar-se também em razão final. Ilumina, sustém, eleva, dinamiza toda a obra, conduzindo-a numa ascendência que lhe dá feição divina. Em verdade, não há, na história, vitória revolucionária que não seja vitória de um ideal (Marx). Como, de outro modo, tirar da nossa natureza falível, os cálidos, radiantes e esplêndidos efeitos que consagram a renovação social? Tudo isso que nutre o coração e nele se vivifica, doçura, essencial generosidade,respeito humano, inteira justiça, bondade desafrontada, tudo que é a mesma beleza da alma, é o próprio ideal reclamado. E, tanto, que o verdadeiro realizador social é, de essência, um artista: realiza uma das formas superiores de harmonia e perfeição.

A perspectiva dá para consolar. Se nos penetramos e inteiramos desse pensamento, abate o tapume negro, e pelo desvão da garganta derrama-se a vista: a imaginação se precipitará para traçar a curva sobre o porvir... Ergamos no coração a forma do destino ideado: beleza, a escalar grandezas, numa marcha de lâminas ao sol. E, por que não?.. A grandeza de um povo está nos fins morais que ele inclui, na dose de bondade que vai deixando pela vida, nos recursos intelectuais que incorpora aos destinos sociais. E, nisto, pelo menos, podemos francamente organizar e mover a nossa vontade prática. Ideias que revolvamos em torno da generosidade e da justiça, hão de multiplicar-se; aspirações de humanidade que associemos à realidade onde estamos, serão gérmens infalíveis. Cada um de nós, que mergulha a consciência na miséria circundante, e tem fundido o seu destino no desta tradição brasileira, erguerá o olhar para o longe, e dará um passo para lá... E tanta, tanta realização generosamente humana podemos alcançar no gesto simples, como o salutar desprezo de puros preconceitos! Substituir essas arcaicas militanças por um serviço realmente nacional, em todos os ramos da atividade útil, serviço essencialmente solidarizante e educativo; a sociedade garantindo a mantença e assegurando a conveniente educação a toda criança que carecer de boa assistência para o pleno desenvolvimento de sua personalidade; um efetivo e cordial movimento de aproximação de todos os povos ibéricos do continente, o sonho generoso de Arruda Câmara e dos seus pupilos, e que foi o glorioso programa de Bolívar; toda a América irmanada no sonho-utopia para o resto do mundo, possibilidade banal para este Novo Mundo, sem perspectivas de guerras; um bem-disseminado regime educativo, solidarizante em torno do sentimento nacional, embora simples e crescente expansão da cordialidade; a possibilidade, para todos que o quiserem, de dar-se à pura ciência; o Estado, apenas, para impedir a injustiça e assegurar a defesa social contra o mal evitável...

Nesta hora mesmo: de cada criança ao nosso influxo façamos um homem, certos de que todo espírito forte e justo inclui uma parcela de divindade. Jaurés, realmente grande e bom, fez a sua melhor página, quando ergue a dolorida canção da miséria humana no concertante donde irradiam perenes esperanças: “... c’est un même souffle de plainte et d’espérance qui sort de la bouche de l’esclave, du serf, du proletaire, c’est ce soufle immortel de l’humanité qui est l’âme même de ce qu’on appelle droit”. Nos eternos espoliados deste Brasil, a subir idealmente, o sopro é bem de humanidade, tanto com ele se incorpora a pátria na justiça. Acompanhemo-lo, e esperemos, seguros de confiança. O pântano apodrece, ganha calor da podridão; banha-o o sol rutilante, penetra-o a luz soberana, eterno palpitar de novas energias, que ao seio da vasa leva a própria vibração de vida... E a podridão se regenera: organiza-se o paul – o pântano purifica-se...

Março de 1928.

fim

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"Manoel Bomfim morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira
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Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).

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Leia também:

O Brasil nação - v1: Prefácio - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário (fim)
O Brasil Nação - v2: § 50 – O poeta - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 51 – O influxo da poesia nacional - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 52 – De Gonçalves Dias a Casimiro de Abreu... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 53 – Álvares de Azevedo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 54 – O lirismo brasileiro - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 55 – De Casimiro de Abreu a Varela - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 56 – O último romântico - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 57 – Romanticamente patriotas - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 58 – O indianismo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 59 – O novo ânimo revolucionário - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 60 – Incruentas e falhas... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 61 – A Abolição: a tradição brasileira para com os escravos - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 62 – Infla o Império sobre a escravidão - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 63 – O movimento nacional em favor dos escravizados - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 64 – O passe de 1871 e o abolicionismo imperial - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 65 – Os escravocratas submergidos - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 66 – Abolição e República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana (2) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 68 – A revolução para a República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 69 – Mais Dejanira... e nova túnica - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 70 – A farda na República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 71 – O positivismo na República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 72 – A reação contra a República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 73 – A Federação brasileira - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 73-a – Significação da tradição de classe  - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 74 – A descendência de Coimbra - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 75 – Ordem... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 81 – A Queda... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 82 – As formas, na política republicana - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 83 – O presidencialismo... do presidente - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 84 – Incapacidade: política e mental - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 85 – A finança dos republicanos “práticos” - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 86 – ... até no materialismo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 87 – Da materialidade à corrupção integral - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 88 – Sob a ignomínia política, a miséria do povo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 89 – O indispensável preparo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (1) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (2) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (3) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (4) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (5) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (6) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (7) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (8) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por fim (10) - Manoel Bomfim

nunca é demais pensar...


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

O Brasil Nação - V2: § 90 – Por fim (9) - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil Nação volume 2



SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


POR FIM...


(9)


Indispensável, a revolução inadiável, a remissão que entregue a si mesma a nação brasileira, nada a prenuncia, no entanto. Falta-nos, mais do que nunca, espírito revolucionário: isto que, influindo uma época, torna possível a condensação de reformas essenciais da transmutação. Uma revolução legítima não cabe, nem se poderia conter num jato explosivo. Terá, ou não, esse momento expressivamente culminante; mas havemos de representá-la, e compreendê-la, num bem característico desenvolvimento, relativamente longo, pois que aí se inclui o que é preparo, já bem distinto da realização. Uma aspiração a disseminar-se, contagiosa intensidade de sentir social, abre a era da renovação, e logo, em efeito imediato, pronuncia-se a constante, ideal e intransigente oposição às formas que têm de cair. Dado, então, que tais formas estão na injustiça vigente, a oposição processual se define, sobretudo, como luta ativa, pertinaz, formal, contra a iniquidade apontada. Compreende-se bem que tal preparo exige sacrifícios; mas se deste modo se pronuncia o movimento, a revolução fatalmente se realizará, em crises sucessivas, em renovados assaltos, ou mesmo sem crises definidas e limitadas. Garante-lhe o êxito a tensão e propagação do espírito revolucionário, para ânimo da campanha que, entre triunfos e revezes, firmará a conquista definitiva. Espírito revolucionário revela-se na Revolução Cartista, cuja vitória foi a formidável organização da conquista política pelo operariado inglês. Também contamos, bem característico, o espírito revolucionário de 1882-88, em torno da Abolição: não houve momento de convulsão propriamente dita; no entanto, através de uma campanha à margem da política governamental, veio a impor-se uma solução de oposição. Dir-se-ia, mesmo, que mais se garantem as revoluções que passam sem explosões, pois que estas muitas vezes iludem, presumindo-se obtido de um transe momentâneo o que exige longo estágio.

Por isso mesmo, há que negar a qualidade de revolucionário a tudo isso que se tem tentado contra a política dos tradicionais dirigentes brasileiros, tudo isso que, acaso, ainda é esperança de ingênuos. E cabe, até, a pergunta: há, de fato, nesta hora do Brasil, um legítimo espírito revolucionário? É lícito duvidar, pois que nem se definiram aspirações para o quadro da nossa vida, nem luzem, ainda, ideais prontos a propagarem-se. Há, no entanto, o bastante de desgosto pelas formas políticas e sociais prevalecentes, para que a incoercível aspiração de um viver melhor e mais digno, agravada no descrédito dos dominantes, se possa converter em revolta de ânimo, em que se moverão as consciências abertas ideia da revolução. Mas há que levá-las, essas consciências, até lá. E, agora, onde, essa minoria de sinceros, abnegados, ativos, intemeratos, pertinazes... que, incompatíveis com a injustiça essencial, iluminarão as hostes que devem impor a solução, ou as soluções? Onde – os que se moldem numa ideia, foco do seu sentimento, e que a ela se sacrifiquem?... Preparar a indispensável revolução seria, em vez de armar motins, formar uma opinião também incompatível com a injustiça, e, para tanto, não bastam palavras, mas um inteiro programa de vida, dentro da vida comum, sem conspirações, nem demagogias, como sem temor da iniquidade. Então, cada proceder pessoal erguerá o constante e lúcido protesto com que se faz o melhor e mais eficaz da propaganda. Aspirações que se definem, programas que se concretizam: facetam-se em múltiplas afirmações, exigentes, preceituadas, e que são outros tantos direitos a conquistar, outras tantas injustiças a reparar.

Tudo isto se compendia na ideologia revolucionária. Mas, para o efeito, em propagação do espírito revolucionário, a simples dialética será também tristemente insuficiente. O reclamo imediato, para cada caso e o protesto formal e desembaraçado, para cada iniquidade, são atos, e só estes, quando em abnegação edificante, terão o poder miraculoso de acender a chama. A lei, o próprio objeto do ataque, dará proteção algumas vezes, e proporcionará os ensejos mais propícios para mover ostíbios e abalar os hesitantes. A infração propositada, a provocar a pena estoicamente aceita, vale definitivamente. Não é com o tomar das bastilhas que começa a ação, mas com o sacrifício dos que chegam até o cárcere, e, com isto, patenteiam a iniquidade. Não se provoca a ostentação de força, que dará em resultado prestígio dos opressores, e reforço de opressão. É indispensável, porém, arrostar pessoalmente os riscos de apontar o crime legal, de mostrar os resultados da opressão, e dizer francamente como vivem os que não se resignam à injustiça

Num desabusado luxo de força, legisla-se contra o pensamento; mas, é da essência deste ser inacessível às cadeias, e, por si mesmo, achar o caminho para, apesar de tudo, ganhar as consciências. [1] Na planície baixa da política nacional, marcado com a sujice própria, o capitalismo é livre para todo o crime que a espoliação sugere e a ganância exige: por que não afrontar a iniquidade que em cada ensejo reforça o seu domínio? Considere-se aberta uma propaganda, em cuja realização imediata atacar-se-iam os males já patentes, por conta do mesmo capital. Há, para ela, todo um acervo de verdades, com o formidável poder que é o da verdade, e contra a qual não valem os véus tintos no medo dos que a temem. Quem pode esconder, em face do mundo sofredor, a esplêndida experiência desta Rússia redimida? A fotografia, irrecusável como prova, não depende das legislações amedrontadas...


[1] Nos dias tétricos, de um sítio apavorado e apavorante, quando até a essencial bondade da alma brasileira parecia condenada à simples propaganda falada, por isso inatacável e incorrigível, apesar da delação reinante; essa propaganda de conversas fez mais contra a tirania do que toda outra que pudesse passar pelas malhas perras da nossa contorcida Constituição.


continua pág 366...

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"Manoel Bomfim morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira
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Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).

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Leia também:

O Brasil nação - v1: Prefácio - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário
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O Brasil Nação - v2: § 61 – A Abolição: a tradição brasileira para com os escravos - Manoel Bomfim
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O Brasil Nação - V2: § 74 – A descendência de Coimbra - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 75 – Ordem... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 81 – A Queda... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 82 – As formas, na política republicana - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 83 – O presidencialismo... do presidente - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 84 – Incapacidade: política e mental - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 85 – A finança dos republicanos “práticos” - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 86 – ... até no materialismo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 87 – Da materialidade à corrupção integral - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 88 – Sob a ignomínia política, a miséria do povo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 89 – O indispensável preparo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (1) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (2) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (3) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (4) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (5) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (6) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (7) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (8) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (9) - Manoel Bomfim


segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

O Brasil Nação - V2: § 90 – Por fim (8) - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil Nação volume 2



SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


POR FIM...


(8)

Desprezemos o terror com que a estupidez da política indígena encara o fato comunismo, certos de que a justiça imanente, ou o equivalente dela, nos levará um dia até lá. Bolshevique, Soviete... expressões com que a ignorância dos nossos joga tão mal, aplicam-se a casos que são motivos distantes da nossa história. A nós chegarão programas e instituições correspondentes, em correspondência, porém, de fato, com a nossa situação e as nossas necessidades. Chegarão a seu tempo. De socialização rudimentar através de instituições políticas secularmente falsificadas, concretamente atrasado, o Brasil não pode contar com a imediata solução comunista. Lembremo-nos, antes de tudo de que a revolução necessária e esperada, há-de ser missão nacional, possibilidade de libertação desta pátria, possuída e dominada desde sempre pela tradição política em que se continuou o domínio da metrópole. O proletariado brasileiro mal se define como classe, tanto se continua nele o escravo de ontem, espoliado de tudo, sem hábito, sequer, de levantar os olhos. Nos campos, o trabalhador mal-implantado na terra, muitas vezes, sem motivos para amá-la, indiferenciado. Nos grandes e raros centros urbanos, uma organização industrial ainda escassa, com um operariado tão reduzido, e, em muitos casos, tão alheio às condições históricas do resto da nação, que não poderia incorporar a realização integral da revolução. Daí, a dificuldade da remissão: dirigentes radicalmente impróprios para ela; povo sem consciência dos seus direitos, inculto, sem valor explícito – sem preparo, para a realização justamente reivindicada. Visto, porém, que só a revolução nos mudará o destino, trazendo-nos, para as formas de progresso social, temos de aceitá-la na significação primeira de dissolução em convulsão salvadora: o mergulho no caos, para a seguinte diferenciação de gentes, propósitos e programas... A história não nos deixou possibilidade de escolha na solução: ao emergir, será a própria realidade da nação a manifestar-se.

E há de ser de pronto, ou este Brasil se encontrará tão jungido, e, ao mesmo tempo, tão transviado de propósitos, que a tardia libertação não será mais a solução reclamada pela pátria brasileira, pois que esta nacionalidade, onde ainda se nos banha a consciência, se terá dissipado. Avança sobre nós, e já nos constringe órgãos importantes, o polvo-capital. Saímos facilmente do seio podre de Portugal; não será dificuldade sensível vencer o domínio dessa oligarquia infecta que nos possui; mas as roscas cheias do capitalismo, se ele aqui assenta o pleno domínio, esmigalhar-nos-ão os membros antes que tenhamos achado a forma da luta eficaz contra elas. Entregues a dirigentes por sua vez à disposição do capital, rendidos definitivamente ao seu prestígio, estamos sem defesa. Valha-nos – que, por este vasto Brasil, as suas ventosas ainda não alcançam muito; mas, quando ele se estender na proporção das facilidades que encontra, estaremos inteiramente possuídos. Tratando-nos como colônia, o capitalismo estrangeiro tem para nós processos despejados, e mais simples, para efeitos de mais espoliação, e mais dissolventes, ainda, que nas nações solidamente construídas. Aí, houve que apelar para meios indiretos: desviou em proveito da minoria enriquecida a verdadeira força política, e viciou essencialmente o jogo das reações político-sociais, fazendo com que, finalmente, a democracia se convertesse em garantia dos mesmos privilégios capitalistas. Mais de uma vez, em nações poderosas, o Estado esteve descaradamente prisioneiro do capital, que não hesita em impor-se implacavelmente [1]. E, por aí, todos sentem que, no seio da riqueza dissolve-se a própria essência das nacionalidades.


[1] Agora mesmo, a afrontada da guerra, obra dos seus conservadores, a França elegeu uma Câmara de formidável maioria à esquerda, maioria que trazia um programa de reivindicações quase socialistas. E os bancos franceses, conluiados com os outros, sob a capa de desconfiança, abriram campanha sem mercê contra os governos de esquerda. Foi quando o franco desceu a menos de um décimo de seu valor, e a França teve de ser governada por Poincaré, o derrotado da véspera, porque assim o impuseram os bancos. Políticos de esquerda como Painlevé, Herriot, Sarraut, curvaram-se para ser secundários no gabinete Poincaré-Barthout.


Pura reserva de valores materiais, pronta e irremissivelmente manejável em símbolos – a moeda, o capital tramou a sua força por fora das pátrias, superior a elas, pondo-as brutalmente à sua disposição, sempre que se aninha em qualquer delas. Realmente senhor, ele tem a seu dispor os milhares de canhões – ingleses, americanos, franceses... porque o Estado, em cada um desses povos, está inteiramente enfeudado à riqueza, apesar de que, em si mesmo, o capital é todo cosmopolita. Quem negará que o mundo dos negócios seja, por natureza, internacional? As particularizações nacionais valem tão somente como estações, para o franco trânsito de ações, debêntures, apólices... registradas nas bolsas, aí negociadas, mas soberanas em face às tímidas restrições das pátrias políticas. Por necessidade essencial, o capitalismo mercantiliza e comercializa tudo, criando o ambiente por excelência materialista. E, com isto, se torna a desgraça irreparável dos povos nacionalmente mal diferenciados, socialmente mal protegidos. Então (e já o vimos nas palavras de Mommsen), capitalismo, patriotismo e justiça vêm a ser inconciliáveis [2]. Numa dialética irrecusável, Engels nos mostra o “Estado saído da sociedade, e cada vez mais estranho a ela.. personificando somente o capital”. De fato, é o capital que, em todos os grandes povos, faz a lamentável distinção de classes, com o domínio dos desfrutadores, assim como, nos povos coloniais, tudo empenha para mantê-los, assim, sem capacidade de afirmação nacional, e que é como consciência do próprio existir.


[2] A Lei de Imprensa foi combatida e condenada por todos os órgãos e todas as vozes que pretendem passar por liberais. Imagine-se que, em resposta ao poder reacionário, dezenas de jornalistas houvessem propositadamente infringido o novo estatuto legal, de sorte a serem condenados: o sacrifício deles teria imposto a revogação da iniquidade. Seria uma vitória revolucionária; mas, fora preciso quem se sacrificasse por uma aspiração: tal é o efeito do espírito revolucionário, a impor soluções, a fazer conquistas, em contraste com a simples aceitação da iniquidade.


Por tudo isto, se nos aproximamos dos aspectos concretos, só vemos um tipo de revolução que seria o próprio caminho para o Brasil – a que o México vem fazendo nos últimos doze ou quinze anos: afastamento definitivo, como que eliminação, dos dirigentes antigos dominadores, e reparações que, sendo parte da justiça reclamada, são, ao mesmo tempo, estímulo, soerguimento de ânimo nacional... E compreende-se que tal nos convenha: as condições históricas aproxima-nos tanto...

Tolhidos num descritério que é ibérico, abstraímos do meio a que pertencemos, nada aproveitamos da experiência que é a história deste continente, como incapazes de aprender o que é realmente lição para nós outros. Por outro lado, apurando se possíveis as formas e os processos mexicanos, teríamos o lineamento da revolução possível, indispensável e eficaz. Nem fascismo nem jargão da III Internacional, mas um programa que dimana diretamente da situação histórica e geográfica: reparações justíssimas e inadiáveis; afirmação de ânimo nacional com a emersão bem explícita numa pátria para a massa popular a quem ela deve pertencer; preparo inteligente desta mesma população com a plena consciência dos fins diretos, quanto possível; terra para os que desejam trabalhá-la... Isto, que é absolutamente indispensável, ali se vem realizando desde o modesto zapatismo. Isto, poderíamos tentá-lo... desde que haja a trama renovadora e renovada em que as eras se desenham para refazerem-se. Essa trama, expressão cinemática bem própria, seria a nova classe realizadora.



continua pág 363...

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"Manoel Bomfim morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira
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Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).

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Leia também:

O Brasil nação - v1: Prefácio - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário (fim)
O Brasil Nação - v2: § 50 – O poeta - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 51 – O influxo da poesia nacional - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 52 – De Gonçalves Dias a Casimiro de Abreu... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 53 – Álvares de Azevedo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 54 – O lirismo brasileiro - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 55 – De Casimiro de Abreu a Varela - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 56 – O último romântico - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 57 – Romanticamente patriotas - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 58 – O indianismo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 59 – O novo ânimo revolucionário - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 60 – Incruentas e falhas... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 61 – A Abolição: a tradição brasileira para com os escravos - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 62 – Infla o Império sobre a escravidão - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 63 – O movimento nacional em favor dos escravizados - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 64 – O passe de 1871 e o abolicionismo imperial - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 65 – Os escravocratas submergidos - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 66 – Abolição e República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana (2) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 68 – A revolução para a República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 69 – Mais Dejanira... e nova túnica - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 70 – A farda na República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 71 – O positivismo na República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 72 – A reação contra a República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 73 – A Federação brasileira - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 73-a – Significação da tradição de classe  - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 74 – A descendência de Coimbra - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 75 – Ordem... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 81 – A Queda... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 82 – As formas, na política republicana - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 83 – O presidencialismo... do presidente - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 84 – Incapacidade: política e mental - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 85 – A finança dos republicanos “práticos” - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 86 – ... até no materialismo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 87 – Da materialidade à corrupção integral - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 88 – Sob a ignomínia política, a miséria do povo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 89 – O indispensável preparo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (1) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (2) - Manoel Bomfim
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O Brasil Nação - V2: § 90 – Por Fim (8) - Manoel Bomfim

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

O Brasil Nação - V2: § 90 – Por fim (7) - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil Nação volume 2



SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


POR FIM...


(7)

Concretamente, que se pode esperar, na necessária e inevitável revolução brasileira?

O Brasil apresenta-se em condições históricas muito próprias, com uma situação de época e de local muito específica, sem identidade imediata com a dos grandes povos do Ocidente, onde as reivindicações reparadoras estão definidas, na intensa propaganda revolucionária dos últimos decênios. Toda a diferença que haja, porém, será para tornar mais justa, e relativamente mais fácil, a definitiva e integral renovação de que precisamos. Em todos os povos cultos, de longa evolução, por essa mesma evolução se delineou o sentido da revolução, definindo-se explicitamente o seu objeto. São os povos que, sob a política da burguesia capitalizadora, chegaram à plena expansão industrial, de que resultou distinguir- -se a nação nas duas classes típicas: a do trabalhador, proletário, votado à miséria, por isso mesmo que trabalha, assalariado, escravizado economicamente ao capital; e a dos desfrutadores, senhores do capital, e, com ele, dominadores, servidos pela récua dos parasitas, no apanágio das altas funções do Estado. Então, a revolução, francamente pronunciada, assistida de toda a justiça, é para a solução – social-comunista. A classe dos trabalhadores, já consciente do seu valor, organizando-se ativamente, e melhorando constantemente o seu preparo, reclama desafrontadamente a ascendência política, em relação com a significativa condição do trabalho, essencial na produção, e em face do qual o capital, acumulado como riqueza particular, não passa de espoliação. E dá a gestão política aos que realmente valem, como trabalho e produção, e que as reservas da mesma produção, a riqueza feita, tenha significação explicitamente social, gerida pela comunidade, para benefício dela. A batalha, rudemente travada por toda parte onde o proletariado tem consciência do seu valor e da justiça da sua causa, já não pode deixar dúvidas quanto ao desfecho. Não importa que, na perspectiva da derrota, com o desespero da morte, os dirigentes de algumas nações tenham levado a reação até a destemperada tirania fascista, ou a apavorada eliminação de liberdades políticas essenciais, como os torys destes dias – a renegarem a tradição política britânica do último século. Pouco importa: são oscilações de longa campanha, e que não desviarão o resultado final.

No Brasil, a situação, por mais retrógrada, torna-se mais simples e fácil, ao passo que nos grandes povos, solidamente organizados, a complexidade e solidez são dificuldades imediatas. Nações tradicionais, de grande riqueza, ou longa história, elas todas têm, nas respectivas classes dirigentes, uma parte muito importante e significativa da substância em que se formaram. Desta sorte, se essas classes representam a oposição constante à radical reforma social, também incorporam o que há de mais explícito no passado guerreiro, ou aristocrático, e na transformação industrial da pátria. Inglaterra, França, Holanda, Itália, Alemanha... existem sob governantes que se ligam a uma tradição nacional arrogante, porque é patente – conquistas, glórias guerreiras, e toda a organização política eficiente no passado. Enquanto isto, no nosso Brasil, os dirigentes correspondem, apenas, à misera insuficiência em que continuam, e que não poderia ser parte essencial da nação. Nestas condições, com a vida rudimentar e falha que fazemos, quando, não há grande riqueza acumulada, nem complicadas e extensas organizações de produção capitalizadora, fácil e pronta seria a renovação revolucionária, mesmo no sentido que a evolução e a experiência humana estão apontando. Sim: não nos fecham, para a essencial reparação, nem privilégios milenários, nem específico poder da classe dirigente, nem emaranhado feudalismo financeiro, realmente nosso, estendido na trama social como ostensivo domínio. Tudo que há são esboços, que, fatalmente, se estenderão se o campo lhes for indeterminadamente deixado. Como temos de sair da insignificância vil em que estamos, a saída é franca...

Nisso se resume a relativa facilidade do nosso caso. Quem nos levará, no entanto?... Aí começa a suprema dificuldade, na inadiável remissão da pátria brasileira. Todo o argumentado até aqui – Brasil na História, Brasil Nação, e que é a história de dois séculos, demonstra-nos que não se pode esperar que venha de cima a obra salvadora. A revolução tem de ser inicialmente contra a classe dirigente, fator constante nas nossas desgraças. Sem poder contar que o conduzam à forma política e social conveniente; não devendo adiar a solução, pois o mundo transbordaria sobre nós: é o próprio povo que, pelo seu pé, tem de sair, aproveitando a porta larga que a própria história lhe fez. Não basta, no entanto, apontar a solução final, nem ela se poderia fazer na fórmula simples enunciada: é um movimento para a grande maioria da nação, mas inspirado e derramado nos ânimos por uma minoria ativa, intelectual, esclarecida, absolutamente desinteressada, sinceramente exaltada, cordialmente revoltada contra a injustiça, sublime de abnegação, capaz de produzir, em intensidade de propulsão, o que lhe falta em desenvolvimento. É bem de ver que tal crise nada tem de comum e de solidariedade com as anteriores sedições e mazorcas, que, estupidamente ambiciosas, desprestigiaram o nome – revolução, e que só têm de digno os heroísmos perdidos, mais das vezes, o sacrifico de humildes, seduzidos ou arrastados pelos manejos dos mesmos ambiciosos, a assaltar o poder.

Nem mesmo se pense em simples ataque de destruição... “Só quem sabe construir, tem o direito de destruir...” (Gandry). Destruir será, apenas, o penoso e fácil negativo da obra, que nada há de mais banal: não se faz preciso aprender a destruir, nem é objeto de nota. Para nós, então, quando o passado, mesmo maléfico, é quase inválido, o destruir se fará como simples afastamento, e as forças ficam intactas para a verdadeira obra revolucionária – a nova construção. E toda a ideologia inspiradora se desenvolverá com vistas a essa construção: revolução ostensivamente organizadora, fecunda disposição de solidariedade, criadora de liberdades essenciais, como o exige a justiça. Sem subordinação a preconceitos de ordem, o programa de tal revolução dará para a verdadeira ordem, a que se retempera porque inclui princípios essenciais de vida.



continua pág 359...

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"Manoel Bomfim morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira
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Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).

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nunca é demais pensar...