segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto V.a - Os feitos heroicos de Diomedes)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto V - Os feitos heroicos de Diomedes (Aristia de Diomedes)
 
“Atena convence Ares a abandonar a guerra aos homens, e, assim, os Gregos sobrepujam os Troianos. Diomedes, ferido por Pândaro, e protegido por Palas Atena, se sobressai ainda mais. Lutando com Pândaro e Eneias, mata o primeiro e quase mata o segundo, que é salvo por Afrodite. No entanto, Diomedes fere a própria Afrodite. Apolo cura Eneias e Ares volta ao combate, reanimando os Troianos. Os Gregos começam a perder e Hera e Atenas os ajudam. Diomedes, ajudado por Atena, fere o próprio Ares, que vai ao Olimpo reclamar com Zeus da ousadia de Diomedes.”


   Palas Atena, a donzela de Zeus, em Diomedes infunde 
força e coragem sem-par, para que entre os Argivos pudesse 
sobressair mais que todos e glória imortal conquistasse. 
Inextinguível luzeiro faz do elmo surgir e do escudo, 
de brilho igual ao da estrela que, mais do que as outras, no outono 
incontrastável esplende, depois de banhar-se no oceano: 
com tal fulgor ao redor da cabeça e das largas espáduas, 
faz ela o herói avançar para o ponto mais denso da pugna.¹ 
   Certo Darete vivia entre os Teucros, em muita abastança, 

ínclito antiste de Hefesto: dois filhos distintos possuía,
que eram: Ideu e Fegeu, mestres, ambos, nas artes da guerra. 
Estes, que estavam de carro, adiantaram-se dos companheiros 
na direção de Diomedes, que, a pé, sobre o solo, avançava. 
Quando, desta arte, um para o outro avançando, mais perto ficaram, 
joga, primeiro, Fegeu a sua lança de sombra comprida. 
Pelo ombro esquerdo do grande Tidida a hasta longa e pontuda, 
sem o tocar, perpassou. Por sua vez, joga o bronze Diomedes, 
com força ingente, sem que lhe partisse da mão, frustra, a lança, 
pois bem no peito o inimigo atingiu, derrubando-o do carro.

Rapidamente, Ideu salta, largando o belíssimo carro, 
sem ter coragem de junto do corpo do irmão vir postar-se. 
Ele também deveria ser presa da lívida Morte; 
mas por Hefesto foi salvo, que logo o envolveu num nevoeiro, 
para que o velho abatido não fosse por dor excessiva. 
Apoderou-se Diomedes dos belos cavalos, passando-os 
aos companheiros, que os fossem levar para as côncavas naves. 
Ao perceberem os Teucros a um filho do claro Darete 
junto do carro, sem vida, enquanto o outro escapara, fugindo, 
cheios de medo ficaram. Tomando da mão de Ares forte,

a de olhos glaucos, Atena, lhe disse as palavras aladas: 
   “Ares guerreiro, dos homens flagelo, eversor de cidades, 
não nos seria possível deixar que os Troianos e Aquivos 
digladiassem, té vermos a quem Zeus concede a vitória? 
Nós a de parte fiquemos, a Zeus não façamos ofensa.” 
   A Ares terrível, então, retirou da batalha sangrenta, 
e o fez sentar-se num alto da margem do rio Escamandro. 
Cedem os Troas aos homens Aqueus; cada herói põe por terra 
um inimigo. Primeiro de todos, o Atrida Agamémnone 
dos Halizônios o príncipe, Odio, derruba do carro;

quando tentava fugir, atirou-lhe, nas costas, a lança, 
entre as espáduas, no peito saindo-lhe a ponta aguçada. 
Com grande estrondo caiu, ressoando-lhe em torno a armadura. 
   Idomeneu mata a Festo, Meônio, nascido de Boro, 
que, havia pouco, chegara de Tarne, de solo ubertoso. 
Quando tentava subir para o carro, o famoso lanceiro 
Idomeneu o feriu no ombro esquerdo com a lança comprida: 
precipitou-se do carro; envolveu-o caligem sinistra. 
Pelos criados do herói, da armadura foi logo despido. 
   Ao caçador mui famoso, Escamândrio, nascido de Estrófio,

com a sua lança fraxínea, também, Menelau pôs por terra. 
Era excelente mateiro, que fora instruído por Ártemis 
na arte de as feras caçar, que nas abas dos montes vagueiam. 
Mas, desta vez, nem a deusa frecheira lhe foi de vantagem, 
nem a perícia de exímio frecheiro que tanto o exaltava, 
pois o nascido de Atreu, Menelau, mui famoso lanceiro, 
quando tentava fugir, o atingiu com a lança, nas costas, 
entre as espáduas, no peito saindo-lhe a ponta aguçada. 
Tomba no solo, de bruços, ressoando-lhe em torno a armadura. 
   Foi por Meríones morto o nascido de Téctone Harmônida,

Féreclo, em todas as artes manuais mui notável artífice. 
A de olhos glaucos, Atena, especial afeição lhe dicava. 
O fabricante ele fora das naves de Páris simétricas, 
que tinham sido o princípio da grande desgraça dos Teucros 
e dele próprio, por ter desprezado os orác’los divinos. 
Tendo Meríones saído no encalço de Féreclo exímio, 
fere-o do lado direito, na nádega; a ponta da lança 
veio sair sob o pube, depois de passar a bexiga. 
Cheio de dor ajoelhou-se, envolvendo-o a caligem da Morte. 
   Mata Megete ao guerreiro Pedeu, de Antenor descendente.

Em que bastardo ele fosse, a divina Teano o criara 
sem distinção de seus filhos, a fim de agradar ao marido. 
O valoroso Filida no encalço lhe foi, enterrando-lhe 
a lança aênea bem no alto da nuca, de forma que a ponta 
veio sair pelo meio dos dentes, cortando-lhe a língua. 
O frio bronze entre os dentes aperta, ao tombar na poeira. 
   O nobre Eurípilo, filho de Evémone, prostra sem vida 
ao forte Ipsénor, antiste do rio Escamandro; acatava-o 
como a um dos deuses, o povo; do estulto Dolópio era filho. 
A esse, o notável Eurípilo, filho de Evémone claro,

quando tentava fugir, alcançou, para um golpe atirar-lhe 
no ombro, com a espada cortante, cerceando-lhe o braço pesado, 
que pelo chão foi rolando, vermelho de sangue. Apodera-se-lhe 
a Morte rubra dos olhos, cedendo-o ao Destino implacável. 
   Por esse modo, eles todos, no prélio terrível, lutavam. 
Não poderíeis dizer se o Tidida se achava do lado 
dos picadores de Troia ou dos nobres Aquivos guerreiros. 
Corta, furioso, através da planície, tal como corrente 
pelo degelo engrossado, que pontes arrasta, precípite; 
os próprios diques, construídos em fila, não podem retê-la,

nem mesmo os valos à volta dos campos cobertos de flores, 
quando impetuosa extravasa no tempo em que Zeus manda as chuvas, 
a destruir as lavouras formosas dos homens industres: 
as densas turmas Troianas, assim, pelo forte Diomedes 
eram desfeitas; ainda que muitas, cediam-lhe ao ímpeto. 
   Logo que o viu o rebento notável do herói Licaônio, 
enfurecido, no campo, e, dispersas, as Teucras falanges, 
o arco recurvo, depressa, ajeitou contra o bravo Tidida, 
no ombro direito atingindo-o, ao saltar para a frente, impetuoso. 
A seta amarga passou pelo cavo da coura, indo a ponta

do lado oposto sair; a couraça tingiu-se de sangue. 
Grita, exultante, o belíssimo filho do heroico Licáone: 
   “Ora avançai, impertérritos Troas, valentes ginetes, 
pois já se encontra ferido o melhor dos Aqueus; muito tempo 
não poderá resistir ao poder do meu dardo, se é fato 
que foi o filho de Zeus quem me fez vir da Lícia querida.” 
   Por esse modo, exultava. Diomedes, porém, não caíra; 
sim, recuando para onde os cavalos e o carro se achavam, 
diz para Esténelo, o filho do herói Capaneu preclaríssimo: 
“Filho do herói Capaneu, caro Esténelo, desce do carro,

para que a seta amargosa consigas tirar-me da espádua.” 
   Isso disse ele; do carro pulou, para a terra, o guerreiro, 
e, logo, o dardo arrancou, que se achava encravado na espádua. 
Sangue jorrou da ferida, banhando-lhe as malhas da túnica. 
Súplice, então, o Tidida, de voz retumbante, suplica: 
   “Ouve-me, Atena, donzela indomável de Zeus poderoso! 
Se hás, em verdade, ajudado a meu pai nas batalhas cruentas, 
mostra-te — ó deusa — também generosa no transe em que me acho. 
Faze que com minha lança consiga atingir o indivíduo 
que me asseteou em primeiro lugar e, ora, ufano, assevera

que a luz fulgente do sol eu não hei de gozar muito tempo.” 
   A fervorosa oração foi ouvida por Palas Atena; 
leves lhe torna ela os membros, os braços e as pernas robustas, 
e, ao lado dele se pondo, lhe disse as palavras aladas: 
   “Podes, com todo o teu brio, lutar com os Troianos, Diomedes, 
pois no imo peito te faço nascer a indomável coragem, 
própria do grande Tideu picador, quando o escudo vibrava. 
Vou desfazer a caligem que os olhos brilhantes te cobre, 
que distinguir, facilmente, consigas os deuses e os homens. 
Não te aventures, jamais, a lutar contra os deuses eternos,

caso te venha tentar algum nume do Olimpo elevado; 
contra nenhum; mas se a filha de Zeus poderoso, Afrodite, 
se aventurar a lutar, então fere-a com o bronze afiado.” 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao dizer tais palavras. 
Mais uma vez, o Tidida voltou para as linhas de frente. 
Se antes já ardia em desejos de aos Teucros vencer nos combates, 
três vezes mais ardoroso se achava. Um leão parecia, 
a que o pastor, que se encontra de guarda às lanzudas ovelhas, 
fere, ao querer escalar o curral, sem, contudo, prostrá-lo, 
só conseguindo espertar-lhe a coragem. Sem ter mais defesa,

corre o pastor a esconder-se no estáb’lo, largando o rebanho; 
apavoradas, comprimem-se a um canto as balantes ovelhas. 
A fera, entanto, furiosa, o redil abandona, de um salto: 
com igual fúria, o Tidida as fileiras Troianas penetra. 
   Logo de início, ali prostra os caudilhos Hipírone e Astínoo, 
a hasta de bronze, potente, encravando no peito deste último, 
e no ombro do outro assestando, bem junto à clavícula, um golpe 
com a espada, que a um tempo o apartou do pescoço e das costas. 
Deixa-os, saindo, depois, à procura de Abante e Políido, 
de Euridamante nascidos, intérprete exímio de sonhos,

que não lhes fez vaticínio nenhum, quando foi da partida. 
A ambos, Diomedes, o forte, despiu da bonita armadura. 
Contra os irmãos Xanto e Tóone, após, arremete, de Fénopo 
ambos nascidos, na extrema velhice; acabrunha-se o velho 
por não ter tido outro filho a quem possa deixar seus haveres. 
A ambos Diomedes privou da armadura e da vida preciosa, 
ao pai deixando tristezas, somente, e suspiros magoados, 
por não os ter acolhido com vida, de volta da guerra. 
Pelos parentes remotos seus bens divididos ficaram. 
   Dá, logo após, com dois filhos de Príamo, o neto de Dárdano,

que num só carro se achavam, Equéfronte e Crômio galhardos. 
Tal como um leão que se atira no meio do gado que pasta 
no prado ervoso, e espedaça a cerviz de um bezerro ou de um touro, 
a ambos, assim, o Tidida, do carro arrancou com violência, 
por vergonhosa maneira, espoliando-os das armas preciosas. 
Aos companheiros deu ordens que às naus os cavalos levassem. 
   Foi por Eneias notado como ele as fileiras destruía; 
corta o guerreiro a batalha, onde as lanças, mais densas, se agitam, 
com a intenção de achar Pândaro, o Lício de formas divinas. 
Ao belo filho do heroico Licáone achou, finalmente;

para defronte do herói, e lhe diz as seguintes palavras: 
   “Pândaro, acaso perdeste teu arco, tuas setas aladas 
e tua fama sem-par, que nenhum dos Troianos contesta? 
Nem mesmo os Lícios guerreiros presumem que possam vencer-te. 
Vamos, eleva teus braços a Zeus e dispara uma seta 
contra o varão destemido que tanta desgraça nos causa, 
com dissolver o vigor de tão nobres e fortes Troianos. 
Temo que seja um dos deuses que se ache zangado, por termos 
com sacrifícios faltado; é terrível de um deus, sempre, a cólera.” 
   Disse-lhe o filho do heroico Licáone, então, o seguinte:

“Príncipe Eneias, mentor dos Troianos de vestes de bronze, 
os sinais todos me dizem tratar-se do grande Tidida; 
sim, pelo escudo o conheço, pelo elmo de quatro saliências, 
e pelos próprios cavalos. Ao certo não sei se é um dos deuses. 
Se se tratar de um varão, como penso, o prudente Diomedes, 
não sem o auxílio de um deus tantas coisas comete, que se acha 
perto do herói, escondido, sem dúvida, em névoa densíssima, 
e que de pouco o livrou de uma seta que o havia tocado. 
Já lhe mandei uma seta amargosa, que foi atingi-lo 
no ombro direito, furando a couraça na chapa escavada.

Já me gloriava de o haver enviado para o Hades sombrio, 
mas foi baldada esperança; é-me hostil um dos deuses, sem dúvida. 
Não tenho aqui nem cavalos nem carros, que possam servir-me; 
onze, no entanto, se encontram na casa do heroico Licáone, 
todos construídos de pouco, sem uso nenhum, protegidos 
por belas mantas, com uma parelha, cada um, de cavalos, 
que de centeio e de espelta, com muito regalo, se nutrem. 
Bem que Licáone, o velho guerreiro, comigo instou muito, 
recomendando insistente, ao me vir do palácio bem-feito, 
para que carros trouxesse e cavalos possantes, e o mando

dos picadores Troianos houvesse de ter nas batalhas. 
Mas não lhe quis aceitar o conselho — quão útil me fora! —, 
porque poupasse os cavalos, com bom tratamento habituados, 
pelo receio de vir a faltar-lhes forragem no assédio. 
Por isso tudo os deixei, tendo vindo de pé para Troia, 
no arco, somente, confiando, que inútil, aliás, me seria. 
Já disparei duas vezes, visando excelentes guerreiros, 
o louro Atrida e Diomedes, e de ambas, com toda certeza, 
vi correr sangue; no entanto, só pude, ainda mais, excitá-los. 
Foi em má hora que o arco do gancho tirei, por sem dúvida,

quando pensei em trazer para Troia os meus Lícios valentes, 
a fim de a Heitor, o guerreiro divino, agradável mostrar-me. 
Mas se algum dia eu voltar para a terra dos meus ascendentes, 
e contemplar, novamente, a querida consorte e o palácio, 
pode qualquer estrangeiro a cabeça dos ombros cortar-me, 
se não jogar ali mesmo, nas chamas, este arco, após tê-lo 
feito em pedaços. Bem má companhia me fez até agora.” 
   Disse-lhe Eneias, o chefe dos Teucros, então, em resposta: 
“Não continues assim, que tudo isto alterar não se pode, 
sem que nós dois para o carro subamos e contra aquele homem

nos decidamos a ir, para as armas com as dele medirmos. 
Vem para cá, porque vejas, alfim, como são excelentes 
estes cavalos de Trós, que tão rápidos correm no plaino, 
quer quando cumpre fugir, quer no encalço do imigo ligeiro. 
Ainda que Zeus a Diomedes de glória cobrir determine 
mais uma vez, hão de aos muros de Troia levar-nos incólumes. 
Faze uso, tu, do chicote e das rédeas de bela feitura, 
que eu descerei para a pé, facilmente, of’recer-lhe combate; 
ou, se o preferes, enfrenta-o, ficando a meu cargo os cavalos.”² 
   Disse-lhe o filho do heroico Licáone, então, o seguinte:

continua página 157...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b /                 
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1Palas Atena (Atena) intervém diretamente no campo de batalha para fortalecer Diomedes, um dos maiores heróis aqueus. É uma cena típica da épica homérica: os deuses descem ao combate, escolhem seus favoritos e alteram o destino humano; infunde coragem e força sobre-humana em Diomedes; faz sua figura brilhar como uma estrela de outono recém-nascida do oceano — uma imagem poética que simboliza poder, claridade e destino; e conduz o herói ao centro da batalha, onde o combate é mais feroz. Esse brilho não é só visual: é simbólico. Diomedes passa a ser um guerreiro iluminado pela razão, pela estratégia e pela coragem — atributos da própria Atena.
     Esse trecho marca o início da aristeia de Diomedes, o momento em que o herói se destaca acima de todos os outros. Na Ilíada, cada grande guerreiro tem sua “aristeia”: um episódio de glória máxima, quase divina. 
Atena escolhe Diomedes porque ele é: disciplinado, obediente aos deuses, estrategista, e capaz de agir com honra mesmo em meio ao caos.
Nenhum herói vence sozinho. A glória humana depende da vontade dos deuses.
[2] Aqui vemos Eneias, príncipe troiano, respondendo ao seu companheiro (Pândaro, no contexto do canto V). Ele tenta convencê-lo a enfrentar Diomedes, que naquele momento está em plena aristeia — seu auge heroico — graças à intervenção direta de Atena.
     Eneias, mesmo sabendo que Diomedes está temporariamente além do humano, fala como um verdadeiro líder: Ele recusa a fuga; propõe estratégia; confia nos cavalos troianos, descendentes de Trós, famosos por sua velocidade e resistência; aceita o risco, mas acredita que Zeus ainda pode protegê-los.
     Quando Eneias diz que os cavalos podem levá-los “incólumes aos muros de Troia”, ele está evocando um símbolo central da épica: Os cavalos são extensão da honra do guerreiro, herança, linhagem, destino.
     Esses cavalos são descendentes dos que Zeus deu a Trós — portanto, carregam uma marca divina. Eneias confia neles como confia no próprio sangue troiano.
     Eneias oferece duas opções: Pândaro conduz o carro, e Eneias desce para lutar ou Pândaro enfrenta Diomedes, enquanto Eneias assume o controle dos cavalos.
     Essa flexibilidade mostra Eneias como um guerreiro completo: ele sabe lutar, sabe conduzir, sabe decidir.
     Esse trecho revela sobre Eneias que ele é: corajoso, estrategista, leal, consciente da força do inimigo, mas não paralisado por ela. É o tipo de heroísmo que não depende apenas da força bruta, mas da capacidade de pensar em meio ao caos.

MPB: Deus me proteja

Chico César

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber
Perigo é se encontrar perdido
Deixar sem ter sido
Não olhar, não ver
Bom mesmo é ter sexto sentido
Sair distraído espalhar bem-querer

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber
Perigo é se encontrar perdido
Deixar sem ter sido
Não olhar, não ver
Bom mesmo é ter sexto sentido
Sair distraído espalhar bem-querer

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim






Deus me proteja de mim,
        de soldados armados
matando e morrendo sem razão,
e da maldade de gente boa
Deus me proteja da bondade da pessoa ruim
Somos todos e todas iguais
essa gente ruim querendo ou não,
chega de morrer pela pátria delas.
     Viva a Mamma África!
Essa mãe solteira
        e trabalhadeira
  esgotada, escravizada
  na bondade dessa gente de bem ruim.
Chega de soldados armados
   matando nas ruas, vielas
  e construção
pelo patrão.
Deus me proteja dessa gente boa ruim!
Viva o terreiro da alegria! A alma pede proteção!
Deus me proteja dessa gente ruim que veste a máscara da bondade
que esgota, escraviza, controla e
espalha coisa ruim
enquanto o sangue do suor escorre
na sombra do sol
Que Deus nos proteja dessa bondade cruel, 
dessa moral que mata, 
dessa paz que só existe para alguns.
Deus proteja essa mãe preta e branca que carregam 
   o mundo nas costas
     em cada esquina, 
      trabalhadeiras, 
          cansadas, 
       sobreviventes!
Deus nos proteja!


Chico Céasar - Mama África/Brilho de Beleza/Pra Não Dizer que Não Falei das Flores




Chico César 
| Podcast Palavra de Autor 
| 3ª temporada




Recortes do Episódio:
00:01:44 – As primeiras memórias musicais: a mãe cantando benditos e o pai cantando aboios em casa
00:03:38 – O colégio de freiras e a irmã Iraci: a flautinha doce que encheu Catolé do Rocha de música
00:04;37 – A loja de discos dos 8 aos 15 anos: o caldo cultural que formou o artista
00:07:10 – O disco Phono 73 tocando de madrugada — Fagner, Elis, Caetano e o desejo de ser artista
00:19:38 – A primeira composição: um samba que surgiu na cabeça enquanto vendia discos de porta em porta
00:21:14 – O festival de música aos 13 anos, o quarto lugar e o violão ganho como prêmio especial
00:15:01 – O grupo mirim de baile, o pessoal mirim e as primeiras experiências no palco
00:33:11 – O grupo Teatral Chão Poeira: leitura dramática de Morte e Vida Severina nas escolas e mercados
00:34:31 – O Grupo Ferradura: primeiras composições autorais, influenciado pelo Quinteto Violado e o Pink Floyd
00:37:21 – A chegada a João Pessoa aos 16 anos e o Grupo Jaguaribe Carne: a virada que mudou tudo
00:39:43 – Pedro Osmar e os discos mais raros que já viu: quando entendeu que música era linguagem
00:41:48 – Abrindo o show de Arrigo Barnabé em João Pessoa — e a decisão de ir para São Paulo
00:43:21 – Dois anos como jornalista em João Pessoa, mais oito em São Paulo — e a primeira entrevista: Nara Leão
00:49:29 – A chegada ao Rio e o conselho de Fernando Lobo: "Vai pra São Paulo, o Rock in Rio vai mudar tudo"
00:54:32 – O encontro com a música africana: Salif Keita e a descoberta de uma nova atitude no palco
00:58:42 – Como nasceu À Primeira Vista: escrita num ônibus em São Paulo, entre loucura e poesia de amor
01:04:03 – Hamilton Godoy, a bolsa no Centro Livre de Aprendizagem e a tentativa frustrada de entrar na Unicamp
01:11:02 – Como nasceu Deus Me Proteja: veio inteira no banho, gravada no celular e depois com Dominguinhos
01:15:30 – A parceria de décadas com Zeca Baleiro: de vizinhos de apartamento ao disco Ao Arrepio da Lei
01:20:00 – A simbiose tão grande com Zeca que hoje nenhum dos dois lembra quem fez o quê
01:22:22 – A nova parceria com Zé Renato e a dificuldade de botar letra em melodia pronta
01:27:28 – O mistério da composição: de onde vêm as músicas e por que a vida é mais importante que a música
01:30:12 – Paulinho Moska recusando massagem: "Não dissolva meus nódulos, é daí que vêm minhas músicas"
01:33:05 – A pergunta mais difícil: qual música você queria ter feito? — "O Ciúme", de Caetano Veloso


Recortes musicais:
00:01:30 – Bendita e Louvada Seja — Tradicional
00:01:40 – De La Tierra — Manduka
00:14:23 – Ouro de Tolo — Raul Seixas
00:14:50 – Canto das Três Raças — Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro
00:15:27 – Flores Astrais — João Apolinário e João Ricardo
00:16:00 – Tamanco Malandrinho — Tom e Dito
00:16:34 – Esquenta Moreninha — Assisão
00:19:38 – Quando Chega o Carnaval — Chico César
00:21:42 – (música de Chico César — título não identificado)
00:25:47 – Preta Pretinha — Moraes Moreira e Luiz Galvão
00:35:00 – Zeca — Grupo Ferradura
00:50:00 – 9 Linhas 22 Toques Corpo — Chico César
01:00:00 – À Primeira Vista — Chico César
01:05:20 – Por Causa de um Ingresso de um Festival Matou Roqueira de Quinze Anos — Chico César
01:14:50 – Deus Me Proteja — Chico César
01:20:20 – Ao Arrepio da Lei — Chico César e Zeca Baleiro
01:37:10 – Mama África — Chico César e George Thomaz

______________
Vem pra cá /             



Chico César - 01 Folia de Príncipe (aboio)

Dante: A Divina Comédia - Canto I

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

NOTA INTRODUTÓRIA
Eugênio Vinci de Moraes


     Primeiro reino do além-túmulo, o Inferno é um abismo formado pelo impacto do corpo de Lúcifer, que foi atirado do céu após liderar a rebelião dos anjos. Em forma de cone, o buraco aberto pelo demônio é mais estreito na sua parte final, onde é mais fundo, e mais largo no início, que fica em Jerusalém, no hemisfério norte. Sua queda também originou a montanha do Purgatório, no hemisfério oposto.
     O Inferno tem nove círculos e uma antessala ou vestíbulo. Nesses círculos são punidos os pecadores em grau crescente, do pecado menor ao maior – dos gentios e não batizados até os traidores.
     No vestíbulo ou antessala estão os indolentes ou pusilânimes. Essa falta impede-os de adentrar o Inferno. Eles correm atrás de um estandarte enquanto são picados por vespas e moscas. Entre eles estão os anjos que nem seguiram Lúcifer, nem ficaram ao lado de Deus.
     O primeiro círculo fica na outra margem do rio Aqueronte, depois da entrada do Inferno. Essa seção também é chamada de Limbo, e as almas dos mortos chegam até ele no barco de Caronte, o primeiro barqueiro dos reinos do além. No Limbo ficam as almas das crianças, mulheres e homens que morreram sem batismo ou que viveram antes de Cristo. Grandes figuras da Antiguidade vagam por ali, como Homero, Aristóteles e o próprio Virgílio. Não se sente dor nele, só melancolia.
     Os próximos cinco círculos (do segundo ao sexto) são destinados àqueles que pecaram por incontinência, ou seja, por luxúria, gula, avareza e prodigalidade, ira e heresia (cantos V a XI). Na porta do segundo círculo está Minós, o monstro infernal que sinaliza para que círculo o pecador deve ser lançado; no terceiro está Cérbero; no quarto, Pluto; no quinto, está o pântano formado pelo segundo rio do Inferno, o Estige; e no sexto círculo ergue-se a cidadela de Dite.
     No sétimo círculo estão os violentos. Essa seção é dividida em três giros, onde são castigados os violentos com o próximo, consigo mesmos e com Deus. Na entrada desse círculo está o Minotauro. No primeiro giro, os condenados ficam imersos no Flegetonte, rio de sangue escaldante, e recebem flechadas de centauros quando emergem; no segundo giro estão os suicidas e os dissipadores; e, no último giro, os blasfemadores, os sodomitas e os usurários, que ficam debaixo de uma chuva de fogo (cantos XII a XVII).
     O oitavo círculo é dividido em dez fossas concêntricas, nas quais são punidos os fraudulentos. Com rosto de homem, corpo de serpente e cauda de escorpião, o monstro Gerião guarda essa seção, conhecida também como Malebolge. Nessas valas, estão os sedutores, os aduladores, os simoníacos, os adivinhos ou mágicos, os trapaceiros, os hipócritas, os ladrões, conselheiros fraudulentos, os cismadores ou semeadores da discórdia e os falsificadores (canto XVIII a XXX).
     O último círculo, destinado aos traidores, é um poço repartido em quatro zonas (cantos XXXI a XXXIV). Esse poço é cercado de gigantes e no fundo há um lago congelado, o Cocito. É o lugar mais fundo do Inferno e é muito frio. A primeira zona chama-se Caína, onde estão os que traíram os parentes; a segunda zona, Antenora, onde penam os traidores da política e da pátria; Ptolomeia é a terceira zona, onde estão os traidores dos hóspedes; e a quarta zona, Judeca, em que penam aqueles que traíram seus benfeitores. No fundo, está Lúcifer, em cujas costas Virgílio e Dante caminham e encontram a saída do Inferno, que dá na praia do Purgatório, no hemisfério sul.


Canto I (Prosa)

Dante se vê perdido, à noite, numa selva escura depois de ter se desviado do caminho da verdade. Pela manhã ele chega ao pé de uma colina, cuja encosta recebe os primeiros raios de sol. Aliviado, começa a subida, mas três feras aparecem, uma em seguida da outra, à sua frente. Elas o impedem de subir e o empurram de volta para a selva. Desesperado, encontra o poeta Virgílio, que foi até lá para ajudá-lo. O poeta latino convida Dante a segui-lo, a fim de cumprir o itinerário espiritual da salvação, começando pelo Inferno, passando pelo Purgatório até atingir o Paraíso.

     [1] No meio do caminho desta vida me vi numa selva escura, onde me perdi da verdadeira via. Ah, mas como é duro falar desta selva selvagem, que, só de relembrá-la, traz-me de volta o pavor que lá senti. Tão amarga era que só à morte se compara. Mas para tratar do bem que lá vi, direi de outras coisas que lá encontrei.
     [10] Não sei muito bem como entrei, tanto sono eu sentia no ponto onde me perdi do reto caminho. Porém, depois que cheguei ao pé de uma colina, ali onde terminava o vale que havia trespassado de pavor meu coração, olhei para o alto e vi suas encostas já vestidas dos raios do Sol, planeta que guia a todos retamente pelas veredas que trilhamos. Então apaziguou-se o medo que senti, no lago do coração, nessa noite em que passei tão aflito.
     [22] E como aquele que, como um náufrago, ofegante, chega à praia e se volta para encarar as águas traiçoeiras, assim minha alma, que ainda se afastava, voltou-se para olhar o lugar do qual homem algum jamais saiu vivo. Depois de repousar um pouco, retomei o caminho pela praia deserta, e passo a passo comecei a subir a colina. Mas eis que logo apareceu uma fera, de pelo todo manchado, ágil e muito ligeira. E, em vez de fugir ao me ver, me impedia o caminho, fazendo-me recuar várias vezes.
     [37] Era a primeira parte da manhã, e o sol subia junto com as estrelas que o acompanhavam quando o amor divino criou as primeiras coisas belas. Estas mais a aurora e a doce primavera davam-me motivo para esperar e não temer a besta malhada. Porém, não houve como não me apavorar à vista de um leão. Ele se dirigia a mim, com a cabeça erguida, raivoso e esfomeado, tão feroz que o ar estremecia em sua presença. E uma loba, cuja avidez marcava-se em sua magreza e que a tanta gente fez infeliz, perturbou-me de tal modo com o pavor que sua visão me encetava que perdi a esperança de continuar a subir. Como alguém que algo conquista, mas tudo perde com o tempo, e então chora e se entristece, assim fez-me sentir a fera persistente, que vindo lentamente em minha direção me empurrava para a região onde o sol se cala.
     [61] Enquanto descia apareceu-me à frente um vulto, tão calado quanto um mudo. Ao vê-lo assim naquele grande deserto, gritei para ele:
– Tem piedade de mim!¹ Quem está aí, sombra ou homem certo?
[1] Em latim, no original “Miserere di me” (vv. 64).
     Ele me respondeu
– Homem? Homem, não, homem fui um dia. Meus pais eram lombardos, mantuanos ambos. Quando nasci, Júlio César governava, e vivi na Roma governada pelo valoroso Augusto, no tempo dos deuses falsos e mentirosos. Fui poeta e cantei a vinda de Troia do justo filho de Anquises, Enéas, depois que sua soberba cidadela foi queimada. Mas por que tu recuas tão desalentado? Por que não sobes a amável colina que é princípio e razão de toda a felicidade?
     [79] – Mas és tu, Virgílio, a fonte de eloquência da qual jorra tão imenso rio? – respondi a ele, envergonhado. – Ó, dos outros poetas o lume e a honra valham-me o estudo e o grande amor que à tua obra tantos anos dediquei. Tu és meu mestre e o meu autor; e foi de ti que colhi o estilo que muito me honra. Vê a fera que me faz recuar, ajuda-me com ela, renomado sábio, pois ela faz minhas veias e pulsos gelarem.
     [91] – A ti convém fazer outra viagem – respondeu ele, depois de ver minhas lágrimas –, se queres escapar deste lugar selvagem. Porque esta besta fera, razão do teu apelo, não deixa ninguém atravessar seu caminho e não só impede a todos como a todos assassina. É tão naturalmente malvada e depravada que jamais sacia sua vilania, assim que acaba de comer sente mais fome ainda. Ela se acasala com muitos animais, e com muitos haverá ainda de se acasalar, até o dia em que o Galgo virá e a matará dolorosamente. Ele não se nutrirá de terras nem de moeda, mas de saber, amor e virtude e irá redimir a Itália, pela qual morreram dolorosamente a virgem Camila, Euríalo, Turno e Niso.¹ O Galgo a caçará por todos os cantos até lançá-la ao Inferno, lá de onde a inveja é primeiramente distribuída. [110] Para o Inferno quero que me sigas, porque penso ser isso o melhor para ti. Lá serei teu guia. Vou te levar ao sítio eterno, onde ouvirás gritos desesperados; onde verás os antigos espíritos sofrendo sua segunda morte; além de ver aqueles que estão contentes no fogo do Purgatório porque esperam atingir, quando assim tiver de ser, as almas felizes. Às quais depois, se desejares subir, outra alma mais digna te conduzirá, com a qual te deixarei ao partir, porque o imperador que lá em cima governa, tendo sido eu rebelde à sua lei, não me quer em seu reino.² Em todas partes impera e lá ele reina, lá é sua cidade e o alto trono. Ah, feliz daquele que por ele é escolhido!
[1] Heróis da Guerra de Troia.
[2] O imperador é Deus, e seu reino é o Céu.
     [130] Disse a ele então:
– Poeta, te peço, pelo Deus que não conheceste, para fugir deste mal maior, que me leves para onde disseste, para que eu veja a porta de São Pedro e aqueles sobre os quais falas com tanta dor.
     [136] Então ele andou e eu o segui.

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Canto I (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue.

      Da nossa vida, em meio da jornada, 
           Achei-me numa selva tenebrosa, 
3         Tendo perdido a verdadeira estrada.
      Dizer qual era é cousa tão penosa, 
           Desta brava espessura a asperidade, 
6         Que a memória a relembra inda cuidosa.
      Na morte há pouco mais de acerbidade; 
           Mas para o bem narrar lá deparado 
9         De outras cousas que vi, direi verdade.
      Contar não posso como tinha entrado; 
           Tanto o sono os sentidos me tomara, 
12       Quando hei o bom caminho abandonado.
      Depois que a uma colina me cercara, 
           Onde ia o vale escuro terminando, 
15       Que pavor tão profundo me causara.
      Ao alto olhei, e já, de luz banhando, 
           Vi-lhe estar às espaldas o planeta, 
18       Que, certo, em toda parte vai guiando.
      Então o assombro um tanto se aquieta, 
           Que do peito no lago perdurava, 
21       Naquela noite atribulada, inquieta.
      E como quem o anélito esgotava 
           Sobre as ondas, já salvo, inda medroso 
24       Olha o mar perigoso em que lutava, 
      O meu ânimo assim, que treme ansioso,
           Volveu-se a remirar vencido o espaço 
27       Que homem vivo jamais passou ditoso.
      Tendo já repousado o corpo lasso, 
           Segui pela deserta falda avante; 
30       Mais baixo sendo o pé firme no passo.
      Eis da subida quase ao mesmo instante 
           Assoma ágil e rápida pantera 
33       Tendo a pele por malhas cambiante.
      Não se afastava de ante mim a fera; 
           E em modo tal meu caminhar tolhia, 
36       Que atrás por vezes eu tornar quisera.
      No céu a aurora já resplandecia, 
           Subia o sol, dos astros rodeado, 
39       Seus sócios, quando o Amor divino um dia
      A tais primores movimento há dado. 
           Me infundiam desta arte alma esperança 
42       Da fera o dorso alegre e mosqueado,
      A hora amena e a quadra doce e mansa. 
           De um leão de repente surge o aspecto, 
45       Que ao meu peito o pavor de novo lança.
      Que me investisse então cuido inquieto; 
           Com fome e raiva atroz fronte levanta; 
48       Tremer parece o ar ao seu consepto.
      Eis surge loba, que de magra espanta; 
           De ambições todas parecia cheia; 
51       Foi causa a muitos de miséria tanta!
      Com tanta intensa torvação me enleia 
           Pelo terror, que o cenho seu movia, 
54       Que a mente à altura não subir receia,
      Como quem lucro anela noite e dia, 
           Se acaso o tempo de perder lhe chega, 
57       Rebenta em pranto e triste se excrucia,
      A fera assim me fez, que não sossega; 
           Pouco a pouco me investe até lançar-me 
60       Lá onde o sol se cala e a luz me nega.
      Quando ao vale eu já ia baquear-me 
           Alguém fraco de voz diviso perto, 
63       Que após largo silêncio quer falar-me.
      Tanto que o vejo nesse grão deserto, 
           — “Tem compaixão de mim” — bradei transido — 
66       “Quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”
      “Homem não sou” — tornou-me — “mais hei sido, 
           Pais lombardos eu tive; sempre amada 
69       Mântua lhes foi; haviam lá nascido.
      “Nasci de Júlio em era retardada, 
           Vivi em Roma sob o bom Augusto, 
72       Quando em deuses havia a crença errada.
      “Poeta, decantei feitos do justo 
           Filho de Anquíses, que de Troia veio, 
75       Depois que Ilion soberbo foi combusto.
      “Mas por que tornas da tristeza ao meio? 
           Por que não vais ao deleitoso monte, 
78       Que o prazer todo encerra no seu seio?”
      “— Oh! Virgílio, tu és aquela fonte 
           Donde em rio caudal brota a eloquência?” 
81       Falei, curvando vergonhoso a fronte. —
      “Ó dos poetas lustre, honra, eminência! 
           Valham-me o longo estudo, o amor profundo 
84       Com que em teu livro procurei ciência!
      “És meu mestre, o modelo sem segundo; 
           Unicamente és tu que hás-me ensinado; 
87       O belo estilo que honra-me no mundo.
      “A fera vês que o passo me há vedado; 
           Sábio famoso, acode ao perseguido! 
90       Tremo no pulso e veias, transtornado!”
      Respondeu, do meu pranto condoído: 
           “Te convém outra rota de ora avante 
93       Para o lugar selvagem ser vencido.
      “A fera, que te faz bradar tremente, 
           Aqui passar não deixa impunemente; 
96       Tanto se opõe, que mata o caminhante.
      “Tem tão má natureza, é tão furente, 
           Que os apetites seus jamais sacia, 
99       E fome, impando, mais que de antes sente.
      “Com muitos animais se consorcia, 
           Há-de a outros se unir té ser chegado 
102     Lebréu, que a leve à hórrida agonia.
      “Por ouro ou por poder nunca tentado 
           Saber, virtude, amor terá por norte, 
105     Sendo entre Feltro e Feltro potentado.
      “Será da humilde Itália amparo forte, 
           Por quem Camila a virgem dera a vida, 
108     Turno Eurialo, Niso acharam morte.
      “Por ele, em toda parte, repelida 
           Irá lançar-se no infernal assento, 
111     Donde foi pela Inveja conduzida.
      “Agora, por teu prol, eu tenho o intento 
           De levar-te comigo; ir-te-ei guiando 
114     Pela estância do eterno sofrimento,
      “Onde, estridentes gritos escutando, 
           Verás almas antigas em tortura 
117     Segunda morte a brados suplicando.
      “Outros ledos verás, que, em prova dura 
           Das chamas, inda esperam ter o gozo 
120     De Deus no prêmio da imortal ventura.
      “Se lá subir quiseres, um ditoso 
           Espírito, melhor te será guia, 
123     Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.
      “Do céu o Imperador, a rebeldia 
           Minha à lei castigando, não consente 
126     Que eu da cidade haja a alegria.
      “Em toda parte impera onipotente, 
           Mas tem no Empíreo sua augusta sede: 
129     Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!”
      — “Vate, rogo-te” — eu disse — “me concede, 
           Por esse Deus, que nunca hás conhecido, 
132     Porque este e maior mal de mim se arrede.
      “Que, até onde disseste conduzido, 
           A porta de São Pedro eu vá contigo 
           E veja os maus que houveste referido”.
136     Move-se o Vate então, após o sigo

continua na página... 30
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—     1. Em meio etc. Aos 35 anos. Dante tinha 35 anos no dia 25 de março de 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro Jubileu. 
—     2. Tenebrosa etc., simbólica selva dos vícios humanos. 
—   32. Pantera, símbolo da luxúria e da fraude; politicamente, de Florença. 
—   44. Um leão, símbolo da soberba e da violência; politicamente, da França. 
—   49. Loba, símbolo da avareza e da incontinência; politicamente da Cúria Romana. 
—   62. Alguém etc., o poeta Virgílio Maro, símbolo da razão humana. 
— 105. Entre Feltro e Feltro, entre Montefeltro e Feltro. 
— 122. Espírito melhor, Beatriz, a mulher que Dante amou. 

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A Divina Comédia
Canto I /