Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto IV - A quebra do juramento e revista de Agamémnone
“Hera, na assembleia dos deuses, obtém de Zeus que a luta recomece entre
Gregos e Troianos e que estes últimos paguem pela derrota de Páris. Atena desce
à Terra e faz com que Pândaro, o Lício, desrespeite o juramento, acertando
Menelau com uma flecha. Atena salva a vida de Menelau, que fica apenas ferido.
As duas partes se preparam para a guerra e Agamémnone faz a revista de sua
tropa, distribuindo elogios e reprovações. Começa uma batalha terrível, onde
Ares e Apolo estão ao lado de Troia e Atena e outras divindades ao lado dos
Gregos.”
Junto de Zeus, entretanto, se achavam reunidos os deuses,
no soalho de ouro sentados. De néctar enchia Hebe augusta
os copos de ouro maciço, que todos recebem, trocando
brindes corteses, enquanto a cidade de Troia admiravam.
A Hera, de súbito, o filho potente de Crono provoca,
com frase irônica, que pronunciou sem para ela virar-se:
“Ao louro filho de Atreu, Menelau, duas deusas amparam,
Hera, que em Argos cultuam, e Atena, a auxiliar poderosa.
Ambas, no entanto, a de parte ficaram, prazer encontrando
só no espetác’lo da luta. A Alexandre a risonha Afrodite
não abandona jamais, protegendo-o da lívida Morte,
tal como o fez nesse instante, ao julgar-se ele próprio perdido.
Mas é evidente que o herói Menelau alcançou a vitória.
Ora é mister refletir de que modo fazer precisamos:
se novamente devemos a guerra e as contendas funestas
encarniçar, ou se é bem que a amizade entre os povos impere.
Caso aceitemos esse último alvitre, por justo e exequível,
bem, continue povoada a cidade elevada de Príamo
e volte Helena ao poder do discípulo de Ares potente.”
A essas palavras as deusas morderam os lábios com força.
Juntas se achavam, planejando a extinção dos guerreiros Troianos!
Palas Atena calada ficou, sem dizer coisa alguma,
ainda que contra Zeus pai transbordasse de raiva selvagem.
Hera, porém, explodiu sem corte o rancor do imo peito:
“Zeus prepotente, nascido de Crono, que coisa disseste?
Vãs, por acaso, desejas que fiquem, sem fruto de todo,
minhas fadigas e o suor derramado? Estafei meus cavalos
para reunir muitos povos que a Príamo e os filhos punissem.
Seja, se o queres; conquanto nós outras jamais te aprovemos.”
Disse-lhe Zeus, indignado, que as nuvens no Olimpo cumula:
“Deusa implacável, que ofensa tão grave de Príamo e os filhos
te compungiu, para, assim, te afanares, com tanta insistência,
em destruir a cidade de Troia, de bela feitura?
Se conseguisses entrar a cidade potente e suas portas,
e, vivo, Príamo e os filhos e os outros Troianos comesses,
provavelmente acalmaras a fúria que o peito te abrasa.
Faze conforme o desejas; não seja esta rixa motivo
de originar-se entre nós, em futuro, discórdia insanável.
Ora outra coisa te quero dizer; guarda-a bem no imo peito:
vir a destruir, habitado por homens, que a ti sejam caros,
deixa-me agir livremente, não quero que venhas obstar-me,
que esta consinto destruas bem contra o que eu próprio quisera.
Entre as cidades que os homens nascidos da terra construíram
sob a luz viva do Sol e as estrelas do Céu, refulgentes,
nenhuma tanto prezava como Ílio de muros sagrados,
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.
Em meus altares jamais sacrifícios condignos faltaram,
nem libações, nem perfumes, as honras, em suma, devidas.”
Hera, a magnífica, de olhos bovinos, lhe disse, em resposta:
“Três prediletas cidades, meu peito, realmente, distingue:
Argos, Esparta e Micenas, construída com ruas muito amplas.
Todas destrói, quando odiosas, enfim, para ti se tornarem,
que não pretendo a isso opor-me, ou pedir-te, sequer, que o não faças.
Pois se, realmente, tentasse evitar que destruídas ficassem,
nada obteria, pois muito mais que eu és dotado de força.
Os meus trabalhos, contudo, não devem ficar infrutuosos.
Sou, também, deusa imortal e a ascendência que tens também tenho,
filha mais velha de Crono, deidade de mente tortuosa.
Sim, não somente por esse motivo; também por chamar-me
tua consorte e imperares em todos os deuses eternos.
Reciprocar concessões é, por isso, dever de nós ambos:
cedo-te um pouco; outro pouco me cede, que o exemplo, sem dúvida,
hão de os demais imitar. Ora cumpre que Atena despaches
para a terrível batalha dos homens Aqueus e Troianos,
porque os Troianos primeiro aos Aqueus exultantes ofendam,
com se tornarem perjuros, quebrando a aliança firmada.”
O pai dos homens e deuses de pronto aceitou esse alvitre
e, para Atena voltado, lhe disse as palavras aladas:
“Baixa, sem perda de tempo, às fileiras dos Teucros e Aquivos,
porque os Troianos primeiro aos Aqueus exultantes ofendam,
em se tornarem perjuros, quebrando a aliança firmada.”
Essas palavras a Atena ainda mais excitada deixaram;
célere baixa, passando por cima dos cumes do Olimpo.
Tal como estrela cadente, que o filho de Crono astucioso
manda, em sinal, para os nautas e os homens no campo da luta,
cheia de vivo esplendor, desferindo faúlhas inúmeras:
Palas Atena, da mesma maneira, baixou para a Terra,
em meio ao campo caindo. Tomados de espanto ficaram
os picadeiros Troianos e Aquivos de grevas bem-feitas.
Uns para os outros palavras aladas, então, pronunciaram:
“Ou vai haver, novamente, contendas funestas e guerra,
ou vai fazer Zeus potente que a paz entre todos impere,
ele que é o árbitro sumo das lutas sangrentas dos homens.”
Os Aqueus todos e os homens Troianos, desta arte, falavam.
Palas Atena, entretanto, nas filas dos Teucros penetra,
sob a figura do forte lanceiro Antenórida, Laódoco,
com a intenção de achar Pândaro, o Lício, de formas divinas.
Foi encontrar, em verdade, de pé, o notável guerreiro,
filho do forte Licáone, junto das filas dos Lícios,
que, com escudos possantes, das margens do Esepo o seguiram.
Chega-se bem para perto e lhe diz as palavras aladas:
“Pândaro, herói prudentíssimo, queres ouvir-me um conselho?
Atrever-te-ás, porventura, a atirar uma seta ligeira
em Menelau? Glória excelsa obterás e o favor dos Troianos,
mas, sobretudo, do Príncipe Páris, o divo Alexandre.
Dele, em primeiro lugar, obtiveras magníficos brindes,
se visse o filho de Atreu, Menelau, de Ares forte discípulo,
por tua seta domado, subir para a triste fogueira.
Vamos! dispara uma seta no herói Menelau valoroso,
e a Febo Apolo, o notável archeiro nascido na Lícia,
uma hecatombe promete de ovelhas de menos de um ano,
quando estiveres de novo nos muros sagrados de Zélia.”
Essas palavras de Atena suadiram o néscio guerreiro.
Sem mais demora o arco forte tomou, preparado dos chifres
de um cervo agreste e impetuoso, por ele apanhado em tocaia,
quando o ferira no esterno, ao pular de um rochedo para outro.
O coração traspassado, da pedra caiu, ressupino.
Dezesseis palmos haviam os chifres na fronte crescido,
os quais, um no outro, com muita perícia ajustou o torneiro,
para, depois, o lavrar e lhe apor o anel de ouro num lado.
O arco, com muito cuidado, no solo depôs o guerreiro,
para entesá-lo; os consócios, na frente os escudos puseram,
com a intenção de evitar que os valentes Aqueus o assaltassem
antes de ser Menelau atingido, o discípulo de Ares.
Tira, depois, do carcás, pós o haver destapado, uma seta
nova e provida de pena, fautora de dores atrozes.
Sem mais demora esse dardo amargoso na corda ele adapta
e a Febo Apolo, o notável archeiro nascido na Lícia,
uma hecatombe promete de ovelhas de menos de um ano,
quando de novo se achasse nos muros sagrados de Zélia.
Puxa a um só tempo da corda e da parte chanfrada da seta;
no peito a corda encostou, no arco a ponta aguçada do ferro.
Quando o grande arco adquiriu o feitio de um círculo grande,
forte vibrou; zune a corda possante, a silvar disparando
a flecha aguda, sedenta de voar para a turba inimiga.
Não se esqueceram de ti, Menelau, os eternos e beatos
deuses, mormente a donzela de Zeus, a imortal predadora,
que, pressurosa, de ti pôde a seta desviar aguçada.
Frustra-lhe a mira, de fato, tal como procede afetuosa
mãe afastando uma mosca do filho que dorme tranquilo,
e para o ponto a dirige em que as áureas fivelas do cinto
se superpõem, formando, desta arte, uma dupla couraça.
No cinto bem-ajustado encravou-se-lhe o dardo amargoso,
atravessando, no impulso em que vinha, sua bela textura,
bem como a forte couraça, trabalho de fino remate.
A própria malha, que o rei costumava trazer sobre o corpo
como anteparo, por certo, eficaz, foi, também, transpassada;
mas a epiderme somente esflorada ficou pelo dardo,
ainda que o sangue corresse, anegrado, do corte, então, feito.
Como se dá quando serva da Meônia, ou da Cária, de púrpura
tinge o marfim, que vai pôr, como enfeite, nas cambas de um freio,
que deixa exposto na sala a acender a cobiça de muitos
equitadores — a um rei, entretanto, é que está destinado,
para adornar-lhe o cavalo e acender o entusiasmo do auriga:
desta maneira as tuas coxas, ó herói Menelau, se tingiram
de vivo sangue, que às pernas desceu, e depois aos maléolos.
Treme de susto Agamémnone, rei de infinitos guerreiros,
ao ver o sangue de cor anegrada escorrer da ferida;
treme, também, Menelau, o discípulo de Ares potente.
Ao perceber, entretanto, que as farpas e o nervo que liga
o ferro à vara visíveis estavam, cobrou novo alento.
Entre sentido clamor dos presentes, o herói Agamémnone
a Menelau pela mão segurou, suspirando, e lhe disse:
“À Morte, assim, caro irmão, minhas juras te haviam sagrado,
ao aceitares a luta, por nós, contra os homens de Troia?
Foste por eles ferido, que, assim, as alianças violaram.
Vãs, entretanto, essas juras não foram, o sangue das vítimas,
as libações e os apertos de mão que, confiados, trocamos.
Ainda que o filho de Crono se abstenha de, agora, puni-los,
há de lhes dar o castigo adequado, mais tarde acrescido,
pois vai custar-lhes a vida e a das próprias esposas e filhos.
O coração claramente o diz e a razão o confirma:
há, sim, de o dia chegar de caírem os muros de Troia,
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.
Zeus poderoso, que no éter demora, nascido de Cronos
a égide fosca há de, certo, agitar lá de cima contra eles,
vendo a traição cometida; cumprido há de ser isso tudo.
Mas grande dor, Menelau, por tua causa, meu peito angustiara,
caso o Destino fatal te atingisse, entregando-te à Morte.
A Argos sequiosa voltara coberto de eterna vergonha,
pois aos Aqueus ocorrera, de pronto, tornar para a pátria,
abandonando, aos Troianos e a Príamo, Helena, motivo
certo de toda esta guerra; teus ossos, nos campos de Troia,
hão de esfazer-se, sem teres levado até o fim essa empresa.
Há de dizer, porventura, algum Teucro de mente soberba,
a espezinhar, insultuoso, do herói Menelau o sepulcro:
‘Possa Agamémnone, em todos sempre a ira saciar deste modo,
como ao trazer para aqui seu inútil exército Aquivo,
para, depois, ser forçado a voltar para a terra da pátria
com suas naves vazias, privado do irmão valoroso!’
Que a terra vasta me suma bem antes de assim se jactarem.”
O louro herói Menelau tranquiliza-o, falando desta arte:
“Ânimo, irmão! Não consternes, sem causa, os guerreiros Aquivos.
A seta, agora, não deu em lugar perigoso, porque antes
foi pela malha detida, a couraça de aspecto brilhante
e o cinturão, que o bronzista forjou com bastante perícia.”
Disse-lhe, então, em resposta, Agamémnone, rei poderoso:
“Ó Menelau, caro irmão, oxalá seja tudo assim mesmo!
Que venha um médico, logo, explorar a ferida e cobri-la
com salutíferas drogas, que possam da dor libertar-te.”
Vira-se, então, para o arauto divino, Taltíbio, e lhe fala:
“Corre, Taltíbio, e nos traze, sem perda de tempo, Macáone,
médico irrepreensível, o filho notável de Asclépio,
para que o filho de Atreu, Menelau valoroso, examine,
que um dos archeiros de Troia, ou da Lícia, feriu, com perícia,
glória para ele, sem dúvida, mas, para nós, mágoa imensa.”¹
Obedeceu-lhe Taltíbio, sem perda de tempo, ao mandado,
pondo-se, logo, à procura do forte Macáone, em meio
continua página 137...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a / Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b /
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
______________[1] O que está acontecendo:
Menelau é ferido, mas a flecha não o atinge mortalmente porque é detida pela armadura — a couraça, o cinturão e as malhas metálicas.
Agamémnon, seu irmão e comandante dos Aqueus, fica profundamente preocupado e teme que o ferimento seja grave.
Menelau tenta tranquilizar Agamémnon, dizendo que não é tão sério.
Mesmo assim, Agamémnon ordena que chamem Macáon, filho de Asclépio, o médico mais habilidoso entre os gregos.
O arauto Taltíbio é enviado imediatamente para buscá-lo.
Por que Macáon é chamado:
Ele é médico divino, descendente direto de Asclépio, o deus da medicina.
Sua presença simboliza que, na guerra, a cura é tão importante quanto a força.
A preocupação de Agamémnon mostra o valor político e emocional de Menelau: perder o marido de Helena seria um golpe moral enorme para os Aqueus.
Esse episódio reforça alguns temas centrais da Ilíada:
A preocupação de Agamémnon mostra o valor político e emocional de Menelau: perder o marido de Helena seria um golpe moral enorme para os Aqueus.
Esse episódio reforça alguns temas centrais da Ilíada:
A vulnerabilidade dos heróis: mesmo os mais fortes dependem de armaduras, médicos e da sorte.
A importância da fraternidade: Agamémnon demonstra afeto e preocupação genuína por Menelau.
A tensão entre glória e sofrimento: o arqueiro troiano ganha “glória”, mas os Aqueus ganham “mágoa imensa”.
A cena é construída com muito cuidado por Homero:
A importância da fraternidade: Agamémnon demonstra afeto e preocupação genuína por Menelau.
A tensão entre glória e sofrimento: o arqueiro troiano ganha “glória”, mas os Aqueus ganham “mágoa imensa”.
A cena é construída com muito cuidado por Homero:
Primeiro, o impacto da flecha.
Depois, o alívio ao perceber que não foi fatal.
Por fim, a mobilização imediata de líderes e especialistas.
É quase um pequeno drama médico dentro do épico guerreiro.
Depois, o alívio ao perceber que não foi fatal.
Por fim, a mobilização imediata de líderes e especialistas.
É quase um pequeno drama médico dentro do épico guerreiro.
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