sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Ilíada: Homero (Canto IV.c - A quebra do juramento e revista de Agamémnone)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IV - A quebra do juramento e revista de Agamémnone
 
“Hera, na assembleia dos deuses, obtém de Zeus que a luta recomece entre Gregos e Troianos e que estes últimos paguem pela derrota de Páris. Atena desce à Terra e faz com que Pândaro, o Lício, desrespeite o juramento, acertando Menelau com uma flecha. Atena salva a vida de Menelau, que fica apenas ferido. As duas partes se preparam para a guerra e Agamémnone faz a revista de sua tropa, distribuindo elogios e reprovações. Começa uma batalha terrível, onde Ares e Apolo estão ao lado de Troia e Atena e outras divindades ao lado dos Gregos.”

continuando...

nas conjunturas da guerra, se bem que orador excelente.” 
   Nada lhe disse em resposta Diomedes, o forte guerreiro, 
mas suportou com respeito a censura do rei venerando. 
O filho, entanto, do herói Capaneu, lhe retruca o seguinte: 
   “Conscientemente, Agamémnone, torces os fatos verídicos. 
Temos orgulho de ser mais prestantes que os nossos maiores. 
De sete portas, foi Tebas por nós facilmente expugnada, 
com pouca gente, lançada de encontro às possantes muralhas, 
pois nos sinais dos eternos confiamos e em Zeus poderoso, 
ao passo que eles morreram por ímpios se terem mostrado.

Não queiras, pois, comparar à dos nossos avós nossa glória.”    
   Com os olhos fixos no chão o adverte o possante Diomedes: 
“Cala-te, Esténelo; fica quieto e obedece ao que digo. 
De forma alguma censuro Agamémnone, rei poderoso, 
por exortar para a luta os Aquivos de grevas bem-feitas. 
Dele será toda a glória se os fortes Acaios entrarem 
os muros de Ílio sagrada, vencendo os guerreiros Troianos; 
mas dele o opróbrio, também, se os Aquivos vencidos ficamos. 
Vamos, pensemos, agora, no ardor impetuoso da guerra.” 
   Ao dizer isso, do carro pulou, sem que as armas soltasse.

Tão rijamente soava no peito do herói a armadura, 
quando marchava, que até nos mais fortes pavor causaria. 
   Tal como quando na praia do mar ressoante se elevam 
ondas frequentes, movidas da força impetuosa de Zéfiro: 
primeiramente, a distância elas se alçam; depois, impetuosas, 
com grande estrondo se quebram na praia, encurvando-se à volta 
dos promontórios, e espuma salgada nas margens atiram: 
por esse modo esquadrões sucessivos os Dânaos moviam 
para os combates, sem pausa, guiados, cada um, por um chefe, 
que ordens transmite; os guerreiros, calados, os seguem; difícil

fora saberdes se aquilo era exército de homens em marcha, 
de voz dotado. Nenhum som se ouvia, que aos chefes temiam. 
Com o movimento da marcha refulge a armadura variada. 
Os picadeiros Troianos, da mesma maneira que ovelhas, 
balam, sem pausa, no estábulo de homens de muitos haveres, 
quando ordenhadas vão ser, ao ouvirem a voz dos cordeiros: 
por todo o exército de Ílio a chamada os guerreiros repetem. 
Não era idêntico o acento; a palavra, também, diferia; 
línguas diversas falavam, pois vinham de troncos variados. 
Estimulava a uns, Atena; a outros, Ares, o deus poderoso,

pelo Terror secundados, e a Fuga, e a Discórdia insaciável,
a companheira e irmã de Ares, que dele jamais se despega, 
e que, ao passar pela terra, mal se ergue, a princípio, do solo, 
indo, porém, logo após, entestar com o Céu estrelado. 
O Ódio semeava exicial pelo meio da turba guerreira, 
multiplicando, por onde passava, os gemidos dos homens. 
   Quando os inimigos exércitos vieram, num ponto, a encontrar-se, 
lanças e escudos se chocam, bem como a coragem dos homens 
com armaduras de bronze; broquéis abaulados se chocam 
uns contra os outros; estrépito enorme se eleva da pugna.

Dos vencedores os gritos de júbilo se ouvem e as queixas 
dos que tombavam vencidos; de sangue se encharca o chão duro. 
Como dois rios, oriundos de um grande degelo dos montes, 
numa bacia, somente, o volume das águas despejam, 
para reuni-las, depois, nas entranhas do côncavo abismo, 
de onde o barulho vai longe, ao pastor, que num monte se encontra: 
tal era a grita e o trabalho dos dois combatentes exércitos¹
   Foi o primeiro a prostrar a um dos Troas guerreiros Antíloco, 
que, na vanguarda, a Equepolo matou, de Talísio nascido. 
Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta,

que fez o crânio partir-se-lhe, entrando até o cérebro a ponta 
aênea da lança potente; cobriram-lhe as trevas os olhos. 
Como se efunde uma torre, tombou na batalha terrível. 
No mesmo instante o puxou pelos pés Elefénor, gerado 
por Calcodonte, magnânimo chefe dos fortes Abantes, 
para tirá-lo do alcance dos dardos, e, mais facilmente, 
o despojar da armadura; contudo, a intenção foi fugace, 
pois Agenor, de alma nobre, notou que, ao querer debruçar-se 
sobre o cadáver, o escudo um dos flancos deixara visível: 
fere-o com a ponta de bronze, solvendo-lhe a força dos joelhos.

A alma o deixou; em redor ainda mais se incrementa a batalha, 
entre os guerreiros Troianos e os fortes Aqueus; como lobos 
uns contra os outros se atiram, travando-se luta corpórea. 
   O grande Ajaz Telamônio feriu a Simoésio florente, 
o Antemiônio garboso, que a mãe deu à luz junto à margem 
do Simoente, num dia em que fora com os pais do monte Ida 
para ajudá-los no afã de vigiar os vistosos rebanhos. 
Daí lhe chamaram Simoésio: aos pais não lhe foi, pois, possível 
retribuir os cuidados na curta existência que teve, 
pois deveria cair sob a lança de Ajaz de alma grande.

Quando avançava na frente, o feriu junto ao seio direito 
o Telamônio, na espádua sair indo a lança de bronze. 
Ei-lo que tomba na poeira, tal como se abate um grande álamo, 
que se criara e crescera na beira de um lago espaçoso, 
de tronco liso, que em ramos inúmeros no alto se alarga. 
O carpinteiro, depois, a estes corta com ferro brilhante, 
para dobrá-los em rodas de um carro de bela feitura; 
o tronco, entanto, na margem do lago a secar é deixado: 
por esse modo despoja das armas ao filho de Antêmio, 
o Telamônio. Entrementes, um Teucro de bela armadura,

Ántifo, filho de Príamo, a lança ligeiro lhe atira, 
sem que o atingisse, no entanto, que a Leuco acertou na virilha, 
Leuco, do herói Odisseu companheiro, que a um morto arrastava: 
das mãos o solta, sobre ele caindo de braços abertos. 
Vendo sem vida tombar, assim, Leuco, Odisseu, indignado, 
corta através das primeiras fileiras, em bronze envolvido; 
para defronte do imigo, examina em redor, e desfere 
a lança aênea pontuda; abaixaram-se os homens Troianos 
ante o disparo do herói; mas frustrâneo não foi este golpe, 
pois atingiu um bastardo de Príamo, o herói Democoonte,

que, recém-vindo de Abido, deixara seus belos cavalos. 
Enraivecido Odisseu por motivo da morte do amigo, 
na fronte a lança lhe acerta, saindo-lhe a ponta de bronze 
no lado oposto da testa. Cobriram-lhe as trevas os olhos. 
Com grande estrondo caiu, ressoando-lhe em torno a armadura. 
Os combatentes da frente recuaram e Heitor esplendente. 
Grita os Argivos elevam; os mortos do campo retiram, 
e, denodados, avançam. Indigna-se Apolo frecheiro, 
que das alturas do Pérgamo olhava, e gritou aos Troianos: 
   “Ânimo, Teutros valentes; deveis enfrentar os Aquivos,

pois nenhum deles tem corpo de ferro ou de pedra, que nada 
possa ceder, ao tocar-lhes a fúria do bronze cortante. 
Não mais o filho de Tétis, Aquiles, com eles se encontra, 
sim, ruminando nas tendas a bile que o peito lhe amarga.” 
   Do alto dos muros, Apolo terrível procura inflamá-los; 
a Tritogênia, no entanto, as fileiras corria, incitando 
para o combate os Acaios que via indecisos ou fracos. 
Diores, o filho do herói Amaríncio, foi presa do Fado. 
No tornozelo da perna direita se viu atingido 
por uma pedra pontuda que o Imbrásida Píroo atirou-lhe,

chefe dos homens da Trácia, que de Eno chegara de pouco. 
Os tendões ambos e os ossos a pedra angulosa de todo 
esmigalhou; cai de costas na areia, e a vida ali deixa, 
quando ainda, súplice, os braços tentava soerguer para os sócios 
fiéis companheiros. Mas Píroo, que o tinha ferido, saltando, 
junto do umbigo lhe a lança enterrou; pelo solo derramam-se 
os intestinos; cobriram-lhe as trevas os olhos brilhantes. 
Mas, ao recuar, Píroo foi atacado por Toante da Etólia, 
junto ao seio, com fúria, indo o bronze o pulmão alcançar-lhe. 
Aproximando-se dele, o guerreiro da Etólia arrancou-lhe

do peito a lança; em seguida, sacando da espada cortante, 
fere-lhe o ventre, com o que, mais depressa, o privou da existência. 
Mas espoliá-lo não pôde que os sócios da Trácia, de tufos 
no alto do crânio, o cercaram, armados de lanças compridas, 
os quais, conquanto soberbo e de grande estatura ele fosse, 
o repeliram dali. Cede à força do número toante. 
Dessa maneira ficaram deitados na poeira os dois chefes, 
um, dos guerreiros Epeios de vestes de bronze; outro, Trácio. 
À volta de ambos inúmeros outros heróis pereceram.
   De forma alguma dissera tratar-se de feitos somenos 

quem, sem se ver atingido por golpes do bronze cortante, 
atravessasse a batalha levado por Palas Atena, 
que, pela mão segurando-o, o livrasse da fúria dos dardos, 
pois numerosos guerreiros Troianos e Acaios naquele 
dia se achavam sem vida na poeira, uns ao lado dos outros. 

continua página 149...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c /             
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica

Ilíada, de Homero - Canto IV




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[1] Esse trecho é um dos momentos mais potentes do Canto IV da Ilíada: a descrição da ruptura do tratado e do início efetivo da batalha campal. Homero aqui faz aquilo que sabe fazer melhor — transformar o caos da guerra em poesia de altíssima força imagética.
     Este é o instante em que os dois exércitos — Aqueus e Troianos — finalmente colidem após o rompimento do juramento.
lanças chocando-se,
escudos rangendo,
bronze contra bronze,
gritos de vitória,
gemidos dos que tombam,
sangue encharcando o solo.
     É a primeira grande batalha campal do poema, e Homero quer que o leitor sinta o impacto físico e sonoro desse encontro.
     Homero compara o choque dos exércitos ao encontro de dois rios de degelo que:
descem das montanhas,
despejam suas águas numa mesma bacia,
se unem num “côncavo abismo”,
e produzem um estrondo que ecoa até o pastor distante.
     Essa imagem amplifica a escala da batalha, desumaniza o conflito, cria distância poética
     Esse trecho marca a transição de uma guerra que ainda parecia ritualizada para uma guerra total, caótica, sangrenta. É o momento em que a Ilíada deixa de ser negociação e se torna tragédia.

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