sexta-feira, 24 de julho de 2026

Ilíada: Homero (Canto I.c - A peste e a ira)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto I - A Peste e a Ira
 
“Invocação às Musas. Crises, sacerdote de Apolo, vem ao campo dos Gregos para recuperar sua filha, que era escrava de Agamémnone. Não a conseguindo, e sendo até insultado pelo rei, pede a Apolo para ser vingado. Uma peste é então enviada a toda a tropa Grega. Aquiles convoca a assembleia e Calcante, um adivinho, revela a causa da peste e indica o remédio: devolver a filha de Crises. Ocorre uma briga entre Agamémnone e Aquiles. Agamémnone devolve Criseide, mas leva Briseide, a escrava de Aquiles. Este, irado contra o ultraje, sai da Guerra de Troia. Tétis, sua mãe, a seu pedido, vai até Zeus para pedir que os Gregos saiam perdedores na guerra para que todos vejam a falta que Aquiles faz. Zeus concede a Tétis que os Troianos saiam vencedores. Ocorre uma briga entre Hera e Zeus sobre o destino da guerra.”

continuando..
.
Hera e Posido, de escuros cabelos, e Palas Atena. 
Tu, porém, deusa, acorreste e o livraste das fortes cadeias, 
e para o Olimpo muito amplo fizeste que viesse o Centímano, 
que pelos deuses é dito Briareu, mas Egeu pelos homens, 
e que mais força apresenta que o próprio Posido, pai dele. 
Ele, orgulhoso do cargo, assentou-se ali a par de Zeus Crônida, 
medo inspirando aos eternos, que logo dos elos desistem. 
Faze-o de tudo lembrado, abraçando-lhe os joelhos; procura-o, 
porque se mostre inclinado a prestar todo o apoio aos Troianos, 
para que possam premir os Acaios té as popas e as ondas,    

e eles assim destroçados, do chefe que têm se gloriem. 
Veja, com isso, Agamémnone, o filho de Atreu, poderoso, 
quão cego estava ao querer desprezar o maior dos Aquivos.” 
Tétis, então, a chorar, lhe responde as seguintes palavras: 
“Ai, caro filho, por que te criei, se te dei vida infausta? 
Já que nasceste fadado a tão curta existência, prouvera 
que junto às naves vivesses, sem dor conheceres, nem lágrimas. 
Mas, em vez disso, tua vida fugaz é a mais rica de dores. 
Para um destino infeliz te dei vida no nosso palácio. 
Hei de subir até o Olimpo cercado de neve, e a Zeus grande

tudo, sem falha, contar, para ver se consigo dobrá-lo. 
Perto das naves velozes, entanto, conserva-te e a cólera 
contra os Aqueus alimenta; de vez, dos combates te afasta, 
pois Zeus, de fato, foi ontem, seguido de todos os deuses, 
para o banquete dos puros Etíopes, que moram no oceano. 
Somente após doze dias de novo estará no alto Olimpo. 
Dirigir-me-ei, nesse tempo, à morada de Zeus esplendente, 
para os joelhos cingir-lhe, esperando poder comovê-lo.” 
Logo depois de falar, retirou-se, deixando-o sozinho, 
cheio de dor, a pensar na Briseide de porte gracioso,

que, a seu mau grado, lhe haviam tirado. Odisseu, entretanto, 
tinha chegado até Crises, levando a sagrada hecatombe. 
Logo depois de alcançada a porção mais profunda do porto, 
a vela amainam depressa, deitando-a na nau de cor negra, 
e, com o soltar as adriças, o mastro ao comprido deitaram 
rapidamente, levando com remos a nau para o porto. 
A âncora logo soltaram, firmando as amarras traseiras. 
Desembarcaram na praia sonora do mar, depois disso, 
com a hecatombe sagrada, que a Apolo frecheiro traziam. 
Desce, também, do navio veloz a donzela de Crises,

a qual o astuto Odisseu conduziu para junto das aras 
e ao pai querido a entregou, dirigindo-lhe afável discurso: 
“Crises, a ti me mandou Agamémnone, rei poderoso, 
para que a filha te viesse trazer e ofertasse hecatombe 
a Febo Apolo da parte dos Dânaos, que o deixe benigno, 
que ele os Argivos, agora, por modo tão grave castiga.” 
Tendo assim dito, nas mãos lha entregou. Crises, grato, recebe 
a filha amada. Entretanto, a sagrada hecatombe 
em ordem punham ao lado do altar de formosa feitura. 
Água lustral receberam nas mãos e a cevada espalharam.

Ambos os braços alçando, o ancião implorou em voz alta: 
“Ouve-me, ó deus do arco argênteo, que Crises, cuidoso, proteges, 
e a santa Cila, e que tens o comando supremo de Tênedo! 
Do mesmo modo que ouviste o pedido que fiz no outro dia, 
e me deste honra, infligindo castigo ao exército Acaio, 
mais uma vez te suplico atenderes-me ao que ora te peço: 
livra os Argivos da peste terrível que as hostes dizima.” 
Isso disse ele na súplica; ouvido por Febo foi logo. 
Dessa maneira, concluída a oração e espalhada a farinha, 
as reses, postas a jeito, degolam, o couro lhes tiram,

as coxas cortam, peritos, e em dupla camada da própria 
graxa as envolvem, jogando por cima pedaços de músculos. 
Assa-as na lenha o ancião, tendo vinho por cima aspergido; 
com garfos de cinco pontas, ao lado os rapazes o ajudam. 
Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas, 
logo o restante retalham, espetos enfiam nas postas, 
e cuidadosos as tostam, tirando-as, depois, dos espetos. 
Quando concluído o trabalho, e o convívio, desta arte, aprontado, 
se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,

té pelas bordas escravos as taças encheram de vinho, 
distribuindo por todos os copos as sacras primícias. 
Por todo o resto do dia, depois, para o deus aplacarem, 
o canto em honra a Apolo entoaram os moços Argivos, 
a celebrar o frecheiro: escutando-os, o deus se alegrava. 
Logo que o Sol se acolheu, e baixou sobre a terra o crepúsculo, 
foram-se todos deitar junto à popa da célere nave. 
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
eis que de novo zarparam, rumando ao exército Argivo. 
Vento ponteiro lhes deu Febo Apolo, frecheiro infalível.

O mastro, então, levantaram, prendendo-lhe a cândida vela. 
Logo se enfuna no meio com o vento, e ao redor da querena 
da nau, que avança, ressoam ruidosas as ondas inquietas. 
Corre veloz sobre as ondas, fazendo o caminho do estilo. 
Quando, afinal, alcançaram o forte arraial dos Acaios, 
a nau veloz de cor negra no seco puseram, puxando-a 
muito para o alto, na areia, firmando-a com paus apropriados. 
Todos, então, se espalharam por entre os navios e as tendas. 
Junto da nave ligeira, entretanto, se achava agastado 
o divo Aquiles, de céleres pés, de Peleu descendente,  

sem frequentar a assembleia, onde os homens de glória se cobrem, 
nem tomar parte nas lutas. Ralado de fundo despeito, 
só pelos gritos de guerra e sangrentos combates ansiava. 
Quando a dozena manhã prometida raiou matutina, 
para o alto Olimpo voltaram os deuses de vida perene, 
todos, com Zeus grande à frente. Não pôde do filho esquecer-se 
Tétis, do que lhe pedira; emergindo das ondas marinhas, 
em névoa envolta, ao céu alto subiu e ao Olimpo altanado, 
onde foi dar com o filho de Crono, que ao longe discerne, 
dos demais deuses à parte, no pico mais alto do monte.

Ao lado dele assentando-se, passa-lhe em torno dos joelhos 
o braço esquerdo, e, tomando-lhe o queixo na destra, afagando-o, 
desta maneira a Zeus grande, nascido de Crono, suplica: 
“Se já algum dia, Zeus pai, te fui grata entre os deuses eternos, 
seja por meio de ações ou palavras, atende-me agora: 
honra concede a meu filho, fadado a tão curta existência, 
a quem o Atrida Agamémnone, rei poderoso, de ultraje 
inominável cobriu: de seu prêmio, ora, ufano, se goza. 
Compensação lhe concede, por isso, Zeus sábio e potente; 
presta aos Troianos o máximo apoio, até quando os Acaios

a distingui-lo retornem e de honras condignas o cerquem.” 
Nada lhe disse, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula. 
Quedo e silente ficou. Tétis, logo, lhe os joelhos abraça 
mais firmemente, insistindo outra vez no primeiro pedido: 
“Abertamente concede, ou recusa o que venho pedir-te, 
pois desconheces o medo. Que obtenha, desta arte, a certeza 
de que, em verdade, entre os deuses eu sou a que menos distingues.” 
Muito abalado lhe diz Zeus potente que as nuvens cumula: 
“Coisa mui grave me pedes, que vai contra mim chamar o ódio 
de Hera, que tem por costume irritar-me com ditos molestos.

Té sem motivo lhe apraz, ante os numes eternos, lançar-me 
acusações, com dizer-me parcial, nesta guerra, aos Troianos. 
Trata de ir logo daqui: não suceda que sejas por ela 
reconhecida, que tomo ao meu cargo fazer o que pedes. 
Para que tenhas confiança, far-te-ei o sinal com a cabeça, 
que é o mais seguro penhor com que aos deuses eternos me obrigo. 
Pois fatalmente se cumpre, jamais pode ser duvidoso 
nem revogável quando eu prometer sacudindo a cabeça.” 
As sobrancelhas escuras franziu o nascido de Crono, 
a cabeleira divina ondulou sobre a fronte altanada,

o potentíssimo deus, abalando os pilares do Olimpo. 
Pós este acordo, apartaram-se. Tétis, então, sem demora, 
das luminosas cumeadas do Olimpo saltou para as ondas. 
Para o palácio foi Zeus. Os mais deuses, entanto, dos tronos 
se levantaram, saindo ao encontro do pai. Nenhum deles 
indiferença mostrou e a saudá-lo, em conjunto, avançaram. 
No trono, entanto, assentou-se. Mas de Hera à visão desconfiada 
não escapara a conversa que Zeus mantivera com Tétis 
de pés de prata, nascida do Velho das Águas Marinhas. 
Para Zeus Crônida vira-se, e ditos pungentes lhe assaca:

“Qual dentre as deusas, doloso, contigo tramou novos planos? 
Sempre do agrado te foi entreter clandestinas conversas, 
quando acontece eu achar-me distante. Jamais te resolves 
a revelar-me, uma parte sequer, do que na alma ponderas.” 
O pai dos homens e deuses lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Hera, não penses que podes saber quanto na alma concebo, 
pois, apesar de me seres esposa, ser-te-ia difícil. 
Antes de ti, ninguém vem a saber o que é lícito ouvir-se, 
nem entre os deuses eternos do Olimpo nem mesmo entre os homens. 
Mas do que à parte resolvo ocultar, sem que os deuses o saibam,

averiguar não presumas, nem faças perguntas inúteis.” 
Hera, a magnífica, de olhos bovinos, lhe disse, em resposta: 
“Crônida terribilíssimo, como me falas desta arte? 
Creio que até este momento jamais tendo sido importuna. 
Sem molestar-te, te deixo fazer o que na alma concebes. 
Mas tenho muito receio que te haja vencido, alfim, Tétis 
de pés de prata, a donzela donosa do Velho Marinho. 
Em névoa envolta, sentou-se ao teu lado e tocou-lhe os joelhos. 
Ora suspeito de que hajas anuído a que Aquiles se torne 
cheio de glória e que muitos Acaios nas naves pereçam.”

Disse-lhe, então, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula: 
“Alma danada, hás de sempre sondar-me com tuas suspeitas! 
Mas coisa alguma consegues com isso, senão afastar-te 
cada vez mais do meu peito, o que muito mais grave há de ser-te. 
Se, como dizes, tudo isso se der, é que quis assim mesmo. 
Senta-te, agora; sossega e reflete bem nisso que digo. 
Nem mesmo todos os deuses do Olimpo valer-te puderam, 
se minhas mãos invencíveis em ti suceder que se abatam.” 
Hera, a magnífica, de olhos bovinos, ficou temerosa, 
e foi sentar-se calada, refreando o rancor do imo peito.

Na sala grande de Zeus perturbaram os deuses do Olimpo. 
O fabro célebre, Hefesto, começa a dizer, então, logo, 
para sua mãe consolar, Hera nobre, de braços reluzentes: 
“Desagradável, realmente, e de forma nenhuma aceitável, 
é que por causa dos homens fiqueis a tal ponto em discórdia 
e que os mais deuses, também, se aborreçam. Dos gratos banquetes 
há de cessar a alegria se as coisas ruins prevalecem. 
Por isso, à mãe aconselho, por mais que se mostre sensata, 
que a Zeus procure agradar, porque não aconteça que venha 
de novo o pai a irritar-se e conturbe o prazer dos banquetes.

Pois facilmente Zeus grande, que os raios maneja, a nós todos 
destes assentos jogara, se tanto fazer decidisse. 
Vamos, procura aplacá-lo com gestos e vozes afáveis, 
para que o Olímpico a todos se torne de novo propício.” 
Disse, e se ergueu. E, tomando uma taça com alças ornada, 
à mãe querida a ofertou, prosseguindo no afável discurso: 
“Mãe, tem paciência e acomoda-te, embora ofendida te encontres. 
Não seja dado aos meus olhos, pois muito te estimo, de novo 
verem-te, assim, castigada, que, então, não me fora possível 
em teu auxílio sair, pois com Zeus contender é muito árduo.

Já da outra vez, quando quis defender-te e acorri pressuroso, 
por um dos pés me agarrou, dos celestes umbrais atirando-me. 
O dia todo rolei; mas, no tempo em que o sol cai no ocaso, 
fui ter a Lemno, sem dar quase mostras de ainda estar vivo, 
onde, ao cair, agasalho me deram os Síntios bondosos.” 
Hera, de braços luzentes, sorriu ao lhe ouvir tais palavras; 
e, sorridente, aceitou logo a taça que o filho lhe dava. 
Pela direita começa a deitar para os deuses presentes 
O doce néctar, que a ponto retira de grande cratera. 
Em gargalhada infinita rebentam os deuses beatos

ao perceberem Hefesto solícito, assim, pela sala. 
Por todo o resto do dia, até o sol acolher-se no poente, 
se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva. 
Todos, prazer encontravam na lira de Apolo, belíssima, 
quando, com as Musas, com voz deliciosa, alternados cantavam. 
Mas, quando a luz radiante do sol já se havia escondido, 
foram dormir, procurando cada um sua própria morada, 
onde, para eles, palácios construíra, com senso elevado, 
o ínclito Hefesto, famoso ferreiro de braços robustos. 
Foi para o leito, também, Zeus potente, que os raios dispara,

onde só ia deitar-se ao lhe vir, agradável, o sono. 
Para ali sobe; ao seu lado a de trono dourado, Hera estava.

continua página 85...
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A peste e a ira
Canto I.a / Canto I.b / Canto I.c / 
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.

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