Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto I - A Peste e a Ira
“Invocação às Musas. Crises, sacerdote de Apolo, vem ao campo dos Gregos para recuperar sua filha, que era escrava de Agamémnone. Não a conseguindo, e sendo até insultado pelo rei, pede a Apolo para ser vingado. Uma peste é então enviada a toda a tropa Grega. Aquiles convoca a assembleia e Calcante, um adivinho, revela a causa da peste e indica o remédio: devolver a filha de Crises. Ocorre uma briga entre Agamémnone e Aquiles. Agamémnone devolve Criseide, mas leva Briseide, a escrava de Aquiles. Este, irado contra o ultraje, sai da Guerra de Troia. Tétis, sua mãe, a seu pedido, vai até Zeus para pedir que os Gregos saiam perdedores na guerra para que todos vejam a falta que Aquiles faz. Zeus concede a Tétis que os Troianos saiam vencedores. Ocorre uma briga entre Hera e Zeus sobre o destino da guerra.”
.
Hera e Posido, de escuros cabelos, e Palas Atena.
Tu, porém, deusa, acorreste e o livraste das fortes cadeias,
e para o Olimpo muito amplo fizeste que viesse o Centímano,
que pelos deuses é dito Briareu, mas Egeu pelos homens,
e que mais força apresenta que o próprio Posido, pai dele.
Ele, orgulhoso do cargo, assentou-se ali a par de Zeus Crônida,
medo inspirando aos eternos, que logo dos elos desistem.
Faze-o de tudo lembrado, abraçando-lhe os joelhos; procura-o,
porque se mostre inclinado a prestar todo o apoio aos Troianos,
para que possam premir os Acaios té as popas e as ondas,
Veja, com isso, Agamémnone, o filho de Atreu, poderoso,
quão cego estava ao querer desprezar o maior dos Aquivos.”
Tétis, então, a chorar, lhe responde as seguintes palavras:
“Ai, caro filho, por que te criei, se te dei vida infausta?
Já que nasceste fadado a tão curta existência, prouvera
que junto às naves vivesses, sem dor conheceres, nem lágrimas.
Mas, em vez disso, tua vida fugaz é a mais rica de dores.
Para um destino infeliz te dei vida no nosso palácio.
Hei de subir até o Olimpo cercado de neve, e a Zeus grande
tudo, sem falha, contar, para ver se consigo dobrá-lo.
Perto das naves velozes, entanto, conserva-te e a cólera
contra os Aqueus alimenta; de vez, dos combates te afasta,
pois Zeus, de fato, foi ontem, seguido de todos os deuses,
para o banquete dos puros Etíopes, que moram no oceano.
Somente após doze dias de novo estará no alto Olimpo.
Dirigir-me-ei, nesse tempo, à morada de Zeus esplendente,
para os joelhos cingir-lhe, esperando poder comovê-lo.”
Logo depois de falar, retirou-se, deixando-o sozinho,
cheio de dor, a pensar na Briseide de porte gracioso,
que, a seu mau grado, lhe haviam tirado. Odisseu, entretanto,
tinha chegado até Crises, levando a sagrada hecatombe.
Logo depois de alcançada a porção mais profunda do porto,
a vela amainam depressa, deitando-a na nau de cor negra,
e, com o soltar as adriças, o mastro ao comprido deitaram
rapidamente, levando com remos a nau para o porto.
A âncora logo soltaram, firmando as amarras traseiras.
Desembarcaram na praia sonora do mar, depois disso,
com a hecatombe sagrada, que a Apolo frecheiro traziam.
Desce, também, do navio veloz a donzela de Crises,
a qual o astuto Odisseu conduziu para junto das aras
e ao pai querido a entregou, dirigindo-lhe afável discurso:
“Crises, a ti me mandou Agamémnone, rei poderoso,
para que a filha te viesse trazer e ofertasse hecatombe
a Febo Apolo da parte dos Dânaos, que o deixe benigno,
que ele os Argivos, agora, por modo tão grave castiga.”
Tendo assim dito, nas mãos lha entregou. Crises, grato, recebe
a filha amada. Entretanto, a sagrada hecatombe
em ordem punham ao lado do altar de formosa feitura.
Água lustral receberam nas mãos e a cevada espalharam.
Ambos os braços alçando, o ancião implorou em voz alta:
“Ouve-me, ó deus do arco argênteo, que Crises, cuidoso, proteges,
e a santa Cila, e que tens o comando supremo de Tênedo!
Do mesmo modo que ouviste o pedido que fiz no outro dia,
e me deste honra, infligindo castigo ao exército Acaio,
mais uma vez te suplico atenderes-me ao que ora te peço:
livra os Argivos da peste terrível que as hostes dizima.”
Isso disse ele na súplica; ouvido por Febo foi logo.
Dessa maneira, concluída a oração e espalhada a farinha,
as reses, postas a jeito, degolam, o couro lhes tiram,
as coxas cortam, peritos, e em dupla camada da própria
graxa as envolvem, jogando por cima pedaços de músculos.
Assa-as na lenha o ancião, tendo vinho por cima aspergido;
com garfos de cinco pontas, ao lado os rapazes o ajudam.
Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas,
logo o restante retalham, espetos enfiam nas postas,
e cuidadosos as tostam, tirando-as, depois, dos espetos.
Quando concluído o trabalho, e o convívio, desta arte, aprontado,
se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva.
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
té pelas bordas escravos as taças encheram de vinho,
distribuindo por todos os copos as sacras primícias.
Por todo o resto do dia, depois, para o deus aplacarem,
o canto em honra a Apolo entoaram os moços Argivos,
a celebrar o frecheiro: escutando-os, o deus se alegrava.
Logo que o Sol se acolheu, e baixou sobre a terra o crepúsculo,
foram-se todos deitar junto à popa da célere nave.
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina,
eis que de novo zarparam, rumando ao exército Argivo.
Vento ponteiro lhes deu Febo Apolo, frecheiro infalível.
O mastro, então, levantaram, prendendo-lhe a cândida vela.
Logo se enfuna no meio com o vento, e ao redor da querena
da nau, que avança, ressoam ruidosas as ondas inquietas.
Corre veloz sobre as ondas, fazendo o caminho do estilo.
Quando, afinal, alcançaram o forte arraial dos Acaios,
a nau veloz de cor negra no seco puseram, puxando-a
muito para o alto, na areia, firmando-a com paus apropriados.
Todos, então, se espalharam por entre os navios e as tendas.
Junto da nave ligeira, entretanto, se achava agastado
o divo Aquiles, de céleres pés, de Peleu descendente,
nem tomar parte nas lutas. Ralado de fundo despeito,
só pelos gritos de guerra e sangrentos combates ansiava.
Quando a dozena manhã prometida raiou matutina,
para o alto Olimpo voltaram os deuses de vida perene,
todos, com Zeus grande à frente. Não pôde do filho esquecer-se
Tétis, do que lhe pedira; emergindo das ondas marinhas,
em névoa envolta, ao céu alto subiu e ao Olimpo altanado,
onde foi dar com o filho de Crono, que ao longe discerne,
dos demais deuses à parte, no pico mais alto do monte.
Ao lado dele assentando-se, passa-lhe em torno dos joelhos
o braço esquerdo, e, tomando-lhe o queixo na destra, afagando-o,
desta maneira a Zeus grande, nascido de Crono, suplica:
“Se já algum dia, Zeus pai, te fui grata entre os deuses eternos,
seja por meio de ações ou palavras, atende-me agora:
honra concede a meu filho, fadado a tão curta existência,
a quem o Atrida Agamémnone, rei poderoso, de ultraje
inominável cobriu: de seu prêmio, ora, ufano, se goza.
Compensação lhe concede, por isso, Zeus sábio e potente;
presta aos Troianos o máximo apoio, até quando os Acaios
a distingui-lo retornem e de honras condignas o cerquem.”
Nada lhe disse, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula.
Quedo e silente ficou. Tétis, logo, lhe os joelhos abraça
mais firmemente, insistindo outra vez no primeiro pedido:
“Abertamente concede, ou recusa o que venho pedir-te,
pois desconheces o medo. Que obtenha, desta arte, a certeza
de que, em verdade, entre os deuses eu sou a que menos distingues.”
Muito abalado lhe diz Zeus potente que as nuvens cumula:
“Coisa mui grave me pedes, que vai contra mim chamar o ódio
de Hera, que tem por costume irritar-me com ditos molestos.
Té sem motivo lhe apraz, ante os numes eternos, lançar-me
acusações, com dizer-me parcial, nesta guerra, aos Troianos.
Trata de ir logo daqui: não suceda que sejas por ela
reconhecida, que tomo ao meu cargo fazer o que pedes.
Para que tenhas confiança, far-te-ei o sinal com a cabeça,
que é o mais seguro penhor com que aos deuses eternos me obrigo.
Pois fatalmente se cumpre, jamais pode ser duvidoso
nem revogável quando eu prometer sacudindo a cabeça.”
As sobrancelhas escuras franziu o nascido de Crono,
a cabeleira divina ondulou sobre a fronte altanada,
o potentíssimo deus, abalando os pilares do Olimpo.
Pós este acordo, apartaram-se. Tétis, então, sem demora,
das luminosas cumeadas do Olimpo saltou para as ondas.
Para o palácio foi Zeus. Os mais deuses, entanto, dos tronos
se levantaram, saindo ao encontro do pai. Nenhum deles
indiferença mostrou e a saudá-lo, em conjunto, avançaram.
No trono, entanto, assentou-se. Mas de Hera à visão desconfiada
não escapara a conversa que Zeus mantivera com Tétis
de pés de prata, nascida do Velho das Águas Marinhas.
Para Zeus Crônida vira-se, e ditos pungentes lhe assaca:
“Qual dentre as deusas, doloso, contigo tramou novos planos?
Sempre do agrado te foi entreter clandestinas conversas,
quando acontece eu achar-me distante. Jamais te resolves
a revelar-me, uma parte sequer, do que na alma ponderas.”
O pai dos homens e deuses lhe disse o seguinte, em resposta:
“Hera, não penses que podes saber quanto na alma concebo,
pois, apesar de me seres esposa, ser-te-ia difícil.
Antes de ti, ninguém vem a saber o que é lícito ouvir-se,
nem entre os deuses eternos do Olimpo nem mesmo entre os homens.
Mas do que à parte resolvo ocultar, sem que os deuses o saibam,
averiguar não presumas, nem faças perguntas inúteis.”
Hera, a magnífica, de olhos bovinos, lhe disse, em resposta:
“Crônida terribilíssimo, como me falas desta arte?
Creio que até este momento jamais tendo sido importuna.
Sem molestar-te, te deixo fazer o que na alma concebes.
Mas tenho muito receio que te haja vencido, alfim, Tétis
de pés de prata, a donzela donosa do Velho Marinho.
Em névoa envolta, sentou-se ao teu lado e tocou-lhe os joelhos.
Ora suspeito de que hajas anuído a que Aquiles se torne
cheio de glória e que muitos Acaios nas naves pereçam.”
Disse-lhe, então, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula:
“Alma danada, hás de sempre sondar-me com tuas suspeitas!
Mas coisa alguma consegues com isso, senão afastar-te
cada vez mais do meu peito, o que muito mais grave há de ser-te.
Se, como dizes, tudo isso se der, é que quis assim mesmo.
Senta-te, agora; sossega e reflete bem nisso que digo.
Nem mesmo todos os deuses do Olimpo valer-te puderam,
se minhas mãos invencíveis em ti suceder que se abatam.”
Hera, a magnífica, de olhos bovinos, ficou temerosa,
e foi sentar-se calada, refreando o rancor do imo peito.
Na sala grande de Zeus perturbaram os deuses do Olimpo.
O fabro célebre, Hefesto, começa a dizer, então, logo,
para sua mãe consolar, Hera nobre, de braços reluzentes:
“Desagradável, realmente, e de forma nenhuma aceitável,
é que por causa dos homens fiqueis a tal ponto em discórdia
e que os mais deuses, também, se aborreçam. Dos gratos banquetes
há de cessar a alegria se as coisas ruins prevalecem.
Por isso, à mãe aconselho, por mais que se mostre sensata,
que a Zeus procure agradar, porque não aconteça que venha
de novo o pai a irritar-se e conturbe o prazer dos banquetes.
Pois facilmente Zeus grande, que os raios maneja, a nós todos
destes assentos jogara, se tanto fazer decidisse.
Vamos, procura aplacá-lo com gestos e vozes afáveis,
para que o Olímpico a todos se torne de novo propício.”
Disse, e se ergueu. E, tomando uma taça com alças ornada,
à mãe querida a ofertou, prosseguindo no afável discurso:
“Mãe, tem paciência e acomoda-te, embora ofendida te encontres.
Não seja dado aos meus olhos, pois muito te estimo, de novo
verem-te, assim, castigada, que, então, não me fora possível
em teu auxílio sair, pois com Zeus contender é muito árduo.
Já da outra vez, quando quis defender-te e acorri pressuroso,
por um dos pés me agarrou, dos celestes umbrais atirando-me.
O dia todo rolei; mas, no tempo em que o sol cai no ocaso,
fui ter a Lemno, sem dar quase mostras de ainda estar vivo,
onde, ao cair, agasalho me deram os Síntios bondosos.”
Hera, de braços luzentes, sorriu ao lhe ouvir tais palavras;
e, sorridente, aceitou logo a taça que o filho lhe dava.
Pela direita começa a deitar para os deuses presentes
O doce néctar, que a ponto retira de grande cratera.
Em gargalhada infinita rebentam os deuses beatos
ao perceberem Hefesto solícito, assim, pela sala.
Por todo o resto do dia, até o sol acolher-se no poente,
se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva.
Todos, prazer encontravam na lira de Apolo, belíssima,
quando, com as Musas, com voz deliciosa, alternados cantavam.
Mas, quando a luz radiante do sol já se havia escondido,
foram dormir, procurando cada um sua própria morada,
onde, para eles, palácios construíra, com senso elevado,
o ínclito Hefesto, famoso ferreiro de braços robustos.
Foi para o leito, também, Zeus potente, que os raios dispara,
onde só ia deitar-se ao lhe vir, agradável, o sono.
Para ali sobe; ao seu lado a de trono dourado, Hera estava.
continua página 85...
_________________
A peste e a ira
_________________
A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário