sexta-feira, 27 de março de 2026

MPB: Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque


Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada nao se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada nao se abre a boca

Compositor: Francisco Buarque de Hollanda (Chico Buarque) e João Cabral de Melo Neto


Funeral de um lavrador, trecho do filme: 
Morte e Vida Severina (1977)



Morte e Vida Severina é um livro do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto, escrito entre 1954 e 1955 e publicado em 1955. O nome do livro é uma alusão ao sofrimento enfrentado pelo personagem. O livro apresenta um poema dramático, que relata a dura trajetória de um migrante sertanejo (retirante) em busca de uma vida mais fácil e favorável na capital pernambucana. 
Em 1965, Roberto Freire, diretor do teatro TUCA da PUC de São Paulo pediu ao então muito jovem Chico Buarque que musicasse a obra.



Funeral de um lavrador 
- Chico Buarque



Severino...

 ASSISTE AO ENTERRO DE UM 
 TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE 
 DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE 
 O LEVARAM AO CEMITÉRIO 


- Essa cova em que estás, 
com palmos medida, 
é a cota menor 
que tiraste em vida. 

- É de bom tamanho, 
nem largo nem fundo, 
é a parte que te cabe 
neste latifúndio. 

- Não é cova grande. 
é cova medida, 
é a terra que querias 
ver dividida. 

- É uma cova grande 
para teu pouco defunto, 
mas estarás mais ancho 
que estavas no mundo. 

- É uma cova grande 
para teu defunto parco, 
porém mais que no mundo 
te sentirás largo. 

- É uma cova grande 
para tua carne pouca, 
mas a terra dada 
não se abre a boca. 

- Viverás, e para sempre 
na terra que aqui aforas: 
e terás enfim tua roça. 

- Aí ficarás para sempre, 
livre do sol e da chuva, 
criando tuas saúvas. 

- Agora trabalharás 
só para ti, não a meias, 
como antes em terra alheia. 

- Trabalharás uma terra 
da qual, além de senhor, 
serás homem de eito e trator. 

- Trabalhando nessa terra, 
tu sozinho tudo empreitas: 
serás semente, adubo, colheita. 

- Trabalharás numa terra 
que também te abriga e te veste: 
embora com o brim do Nordeste. 

- Será de terra 
tua derradeira camisa: 
te veste, como nunca em vida. 

- Será de terra 
a tua melhor camisa: 
te veste e ninguém cobiça. 

- Terás de terra 
completo agora o teu fato: 
e pela primeira vez, sapato. 

- Como és homem, 
a terra te dará chapéu: 
fosses mulher, xale ou véu. 

- Tua roupa melhor 
será de terra e não de fazenda: 
não se rasga nem se remenda. 

- Tua roupa melhor 
e te ficará bem cingida: 
como roupa feita à medida. 

- Esse chão te é bem conhecido 
(bebeu teu suor vendido). 

- Esse chão te é bem conhecido 
(bebeu o moço antigo) 

- Esse chão te é bem conhecido 
(bebeu tua força de marido). 

- Desse chão és bem conhecido 
(através de parentes e amigos). 

- Desse chão és bem conhecido 
(vive com tua mulher, teus filhos) -

 Desse chão és bem conhecido 
(te espera de recém-nascido). 

- Não tens mais força contigo: 
deixa-te semear ao comprido. 

- Já não levas semente viva: 
teu corpo é a própria maniva. 

- Não levas rebolo de cana: 
és o rebolo, e não de caiana. 

- Não levas semente na mão: 
és agora o próprio grão. 

- Já não tens força na perna: 
deixa-te semear na coveta. 

- Já não tens força na mão: 
deixa-te semear no leirão. 

- Dentro da rede não vinha nada, 
só tua espiga debulhada. 

- Dentro da rede vinha tudo, 
só tua espiga no sabugo. 

- Dentro da rede coisa vasqueira, 
só a maçaroca banguela. 

- Dentro da rede coisa pouca, 
tua vida que deu sem soca. 

- Na mão direita um rosário, 
milho negro e ressecado. 

- Na mão direita somente 
o rosário, seca semente. 

- Na mão direita, de cinza, 
o rosário, semente maninha, 

- Na mão direita o rosário, 
semente inerte e sem salto. 

- Despido vieste no caixão, 
despido também se enterra o grão. 

- De tanto te despiu a privação 
que escapou de teu peito à viração. 

- Tanta coisa despiste em vida 
que fugiu de teu peito a brisa. 

- E agora, se abre o chão e te abriga, 
lençol que não tiveste em vida. 

- Se abre o chão e te fecha, 
dando-te agora cama e coberta. 

- Se abre o chão e te envolve, 
como mulher com que se dorme.


Lindo lago do amorMorte e Vida Severina /        

Nenhum comentário:

Postar um comentário