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sábado, 19 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VI.b - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”
. 
continuando...

grato fruíam, ao lado de suas esposas legítimas. 
Foi nessa altura que a mãe amorosa ao encontro lhe veio, 
que acompanhava até a casa a mais bela das filhas, Laódice. 
Toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Filho, a que vens até aqui? Por que causa deixaste o combate? 
Sim, certamente é mui grande a pressão dos malditos Acaios 
contra a cidade sagrada. Por isso, teu peito te trouxe, 
para que do alto da Acrópole a Zeus as mãos ambas alçasses. 
Para, aqui, um pouco, que vinho mais doce que o mel vou buscar-te, 
para que libes a Zeus e às demais divindades eternas, 

e tuas forças restaures, também, pós haveres bebido. 
Tônico é o vinho, excelente, para o homem no extremo das forças, 
tal como te achas, de tanto lutar em defesa da pátria.” 
   Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Mãe veneranda, não tragas a doce bebida; receio 
que os fortes braços me enerve, vindo eu a perder toda a força. 
A reverência me impede de vinho ofertar a Zeus grande 
com mãos impuras. É impróprio, assim, sujo de poeira e de sangue, 
preces alçar ao que nuvens cumula no Olimpo vastíssimo. 
Com muito incenso, no entanto, dirige-te ao templo de Palas,

a predadora, depois de as matronas haveres reunido. 
Toma do manto maior que na régia bem-feita encontrares, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro te seja, 
e sobre os joelhos de Atena o coloca, de belos cabelos. 
Mais: doze vacas promete imolar no interior do santuário, 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo guerreiro selvagem. 
Ao templo, pois, te dirige, de Palas Atena indomável,

enquanto eu vou à procura de Páris, a fim de incitá-lo 
para o combate, se ouvidos me der. Ah, se a terra se abrisse 
subitamente! Um fautor de desgraças nascer fez o Olimpo 
para o magnânimo Príamo, os filhos e o povo Troiano.      
Se concedido me fosse assistir-lhe à descida para o Hades, 
esquecer-se-ia minha alma, por certo, dos males presentes.”¹
Disse; ela, então, para casa voltou, tendo às servas dado ordens 
que as venerandas matronas, por toda a cidade, chamassem. 
Ao aposento flagrante baixou, logo após, onde peplos 
inumeráveis se achavam de grande brancura, tecidos

pelas mulheres Sidônias. O divo Alexandre os trouxera 
da populosa Sidão, justamente no tempo em que Helena, 
de nobilíssimo pai, por caminhos extensos raptara. 
Hécabe um desses tomou para a Palas Atena ofertá-lo, 
o mais bonito e maior, que se achava por baixo de todos, 
de brilho igual ao dos astros e enfeites de fino trabalho. 
Pelas matronas seguida, a caminho se pôs, sem demora. 
Logo que o templo de Atena alcançaram, no burgo elevado, 
Teano formosa, nascida do claro Cisseu, lhe abre as portas, 
filha e consorte do forte Antenor, domador de cavalos.

Sacerdotisa a elegeram, de Palas Atena, os Troianos. 
Todas a Palas elevam as mãos e, bradando, suplicam. 
Tendo tomado do peplo, Teano, de faces formosas, 
foi colocá-lo nos joelhos de Atena, de belos cabelos, 
e, em prece ardente, implorou à nascida de Zeus poderoso: 
   “Ó venerável Atena, defesa de nossa cidade, 
quebra do forte Diomedes a lança, ou o derruba tu própria 
das Portas Ceias em frente, de bruços no solo fecundo, 
que doze vacas ao templo, sem mora, viremos trazer-te, 
ainda indomadas, apenas de um ano, se fores benigna

para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos!” 
   Não foi a súplica, entanto, por Palas Atena acolhida. 
Enquanto à filha de Zeus poderoso elas todas oravam, 
encaminhava-se Heitor ao palácio do divo Alexandre, 
belo de ver, que ele próprio construíra com a ajuda de artífices 
de fama excelsa, os melhores da terra abençoada de Troia. 
Estes, o tálamo e a sala elevaram, e o pátio espaçoso, 
perto dos paços de Príamo e Heitor, no ponto alto da Acrópole. 
Entra o guerreiro, a Zeus caro, no belo palácio, levando 
a forte lança na mão, de onze cúbitos, com reluzente

extremidade de bronze firmada por círculo de ouro. 
Acha a Alexandre no tálamo, atento no exame das armas 
de primorosa feitura, a apalpar o arco forte e brunido. 
A Argiva Helena se achava a seu lado, no meio das servas, 
a dirigir os trabalhos que todas, cuidosas, faziam. 
Vendo-o, com termos violentos, Heitor o censura, dizendo: 
   “Recomendáveis não são, ó infelizes, esses teus sentimentos. 
Fora dos muros, o povo perece na crua peleja. 
Por tua causa, acendeu-se esta guerra, que em volta de Troia 
arde, sem pausa nenhuma. Tu próprio, quiçá, te indignaras,

caso encontrasses alguém que fugisse à defesa da pátria. 
Vamos; se não, logo, logo, há de a chama inimiga atingir-nos.” 
   Páris, de formas divinas, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“É justo, Heitor, o que dizes; contrário à razão não me falas. 
Por isso vou contestar-te, pedindo que ouvido me prestes. 
Certo, não foi achar-me agastado com os Troas, que ao tálamo 
me recolhi, mas por causa da dor que me o peito angustia. 
Neste momento, com doces palavras, a cara consorte 
me aconselhava a voltar para a luta. Eu, também, já pensara 
que é bem melhor desse modo. A vitória tem suas mudanças.

Por uns instantes espera que as armas de guerra eu envergue; 
ou melhor, vai; que em teus passos já sigo, esperando alcançar-te.” 
   Nada lhe disse, em resposta, o guerreiro do casco ondulante. 
Vira-se Helena para esse, com termos afáveis, e fala: 
   “Caro cunhado da pobre que apenas desgraças espalha! 
Fora melhor, bem melhor, que, no dia em que a luz vi do mundo, 
arrebatado me houvesse de casa terrível procela, 
para nos montes lançar-me, ou nas ondas do mar ressoante,
que me teriam tragado, evitando esta grande catástrofe. 
Mas já que os deuses quiseram que tudo, desta arte, se desse,

fosse-me, então, destinado marido melhor, que as censuras 
dos companheiros sentisse e a desonra daí decorrente. 
Este, porém, nunca teve firmeza, nem nunca há de tê-la. 
Por isso mesmo, estou certa, há de os frutos colher dentro em breve. 
Mas entra, um instante sequer, e repousa sobre esta cadeira, 
caro cunhado, que mais do que todos suportas o peso 
das consequências de minha cegueira e da culpa de Páris. 
Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem, 
nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates.” 
   Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante:

 “Não é possível, Helena, aceitar-te o convite amigável, 
pois o meu peito me incita a correr em ajuda dos nossos, 
que já se encontram, por certo, impacientes com a minha demora. 
A este, porém, manda-o logo, ou se apresse, espontâneo, a vestir-se, 
para que possa alcançar-me ainda dentro dos muros de Troia, 
enquanto a casa, de bela feitura, dirijo-me para 
mais uma vez ver os criados, a esposa dileta e o filhinho. 
É, por sem dúvida, incerto se possa voltar a revê-los, 
ou se por mão dos Aquivos os deuses à Morte me entregam.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco.

 Pouco depois alcançava o palácio de bela feitura; 
mas não achou no interior do aposento a formosa consorte, 
que, juntamente com o filho e uma serva de manto vistoso, 
no alto da torre se fora postar, a chorar aflitíssima. 
Não tendo Heitor no palácio encontrado a impecável Andrômaca, 
para a saída retorna, apressado, e às escravas pergunta: 
   “Toda a verdade, donzelas, dizei-me, sem nada ocultar-me: 
para onde foi a senhora, se dentro de casa não se acha? 
Foi, porventura, em visita às cunhadas de peplos formosos, 
ou, com as outras Troianas, ao templo de Palas Atena,

onde procuram a deusa tremenda aplacar com pedidos?” 
   A despenseira, solícita, disse-lhe, então, em resposta: 
“Já que me mandas, Heitor, informar-te de toda a verdade, 
nem em visita se encontra às cunhadas de peplos formosos, 
nem, com as outras Troianas, no templo de Palas Atena, 
onde procurem a deusa tremenda aplacar com pedidos. 
Foi, sim, à torre altanada, depois de saber que os Troianos 
cedem terreno ante a força maior dos guerreiros Acaios. 
Fora de si, para os muros correu, onde, agora, se encontra, 
como uma louca; o menino pela ama, também, foi levado.”

A essas palavras da serva, Heitor sai, novamente, de casa, 
a desandar o caminho de bela feitura, apressado. 
Quando, depois de correr pela grande cidade, alcançara 
as Portas Ceias, por onde devia passar para o campo, 
sai-lhe ao encontro, a correr, a consorte de dote copioso, 
a nobre filha de Eecião, o guerreiro magnânimo, Andrômaca, 
o grande Eecião, que o palácio construíra no Placo selvoso 
e comandava os Cilícios em Tebas, chamada a Hipoplácia. 
A filha a Heitor, como esposa, entregara, o guerreiro arnesado. 
Esta, ao encontro lhe veio, seguida de uma ama solícita,

a qual nos braços trazia o filhinho de Heitor, ainda infante, 
só comparável à vista inefável de um astro fulgente. 
O nome, Heitor, de Escamândrio, lhe pôs; mas as outras pessoas, 
o de Astianacte, que o pai era o amparo dos muros de Troia. 
Ao ver o filho, o guerreiro sorriu, sem dizer coisa alguma. 
Pôs-se-lhe ao lado a impecável Andrômaca, em pranto desfeita; 
toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Tua coragem te perde, cruel! Não te apiadas, ao menos, 
de teu filhinho inocente, ou de minha desdita, ficando 
cedo viúva de ti quando os feros Aqueus te matarem?

A ti, somente, eles visam. Bem mais vantajoso me fora 
que, antes de vir a perder-te, se abrisse o chão duro. Nenhuma 
outra esperança me resta, colhendo-te o negro Destino. 
Dores, somente; nem pai ora tenho nem mãe veneranda. 
Foi por Aquiles divino meu pai da existência privado, 
quando a cidade imponente dos homens Cilícios destruiu, 
Tebas, de portas muito altas. Aquiles a Eecião tira a vida, 
sem despojá-lo das armas, contudo; a consciência o impediu. 
Tendo-o queimado na pira com as armas de fino trabalho, 
um monumento lhe fez erigir, que as Oréades, logo,

de olmos vistosos cercaram, as filhas de Zeus poderoso. 
Meus sete irmãos, que comigo viviam em nosso palácio, 
em um só dia baixaram para o Hades de aspecto sombrio, 
o divo Aquiles, de rápidos pés, a eles todos deu morte, 
quando guardavam bois tardos e ovelhas de velo argentino. 
A minha mãe, tão somente, senhora do Placo selvoso, 
que para aqui ele trouxe, com seus opulentos haveres, 
deu liberdade, depois de exigir um vultoso resgate; 
ela, no entanto, por Ártemis foi no palácio frechada. 
És para mim, caro Heitor, assim pai como mãe veneranda,

és meu irmão, de igual modo, e marido na idade florente. 
Tem, pois, piedade de mim; fica um pouco na torre; não queiras 
órfão o filho deixar, nem viúva a consorte querida. 
Junto da grande figueira coloca mais gente, onde há acesso, 
para a cidade, mais fácil, que o muro permite escalada. 
Já por três vezes tentaram subi-lo os heróis mais valentes 
da companhia dos fortes Ajazes, dos claros Atridas, 
de Idomeneu valoroso e do forte e preclaro Tidida, 
ou por conselho de algum sabedor do fatal vaticínio,
ou pela própria coragem a assim proceder impelidos.”

Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Tudo isso, esposa, também me preocupa; mas quanta vergonha 
dos outros homens e, assim, das Troianas de peplos compridos, 
eu sentiria se, infame, fugisse às pelejas cruentas. 
Isso meu peito proíbe, ensinando-me a ser valoroso 
e a combater sempre à frente dos fortes guerreiros de Troia, 
para mor lustre da glória paterna e de meu próprio nome. 
O coração claramente mo diz e a razão mo confirma: 
dia virá em que Troia sagrada será destruída, 
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.

Menos, porém, me acabrunha o destino que aos Teucros espera, 
ou mesmo o de Hécabe, ou a sorte que a Príamo está reservada, 
e a meus irmãos numerosos, que, embora valentes, na poeira 
hão de jogados ficar, sob os golpes de imigos ferozes, 
que imaginar-te arrastada por um desses duros Aquivos 
de vestes brônzeas, em prantos, sem nada dos dias felizes. 
Às ordens de outra mulher hás de, em Argos, tecer belos panos,
ou te verás obrigada a trazer, de Hipereia ou Messeida, 
água, bem contra a vontade, agravada por doestos pesados. 
E, porventura, dirá quem te vir humilhada chorando:

‘Eis aí a esposa de Heitor, o guerreiro mais forte e galhardo, 
quando, ao redor das muralhas de Troia, incessante era a luta.’ 
Isso dirão, aumentando-te a dor de não teres esposo, 
o homem capaz de livrar-te dos dias do vil cativeiro. 
É preferível que a terra fecunda meu corpo recubra, 
a ter de ouvir-te os lamentos, ao seres levada de rastos.” 
   Disse, e estendeu para o filho as mãos ambas, visando a abraçá-lo. 
Mas teve medo a criança do aspecto do pai; e, gritando, 
ao seio da ama acolheu-se, de bela cintura. Estranhara 
o inusitado fulgor do elmo aêneo de grande cimeira,

pelo galhardo e oscilante penacho de crina encimado. 
O pai e a mãe veneranda, a um só tempo, sorriram, de gozo. 
O refulgente elmo, então, da cabeça tirou o guerreiro, 
pondo-o, cuidoso, depois, ao seu lado, na terra fecunda. 
E, logo, o filho nos braços tomando, depois de beijá-lo, 
a Zeus e a todos os deuses eternos suplica, fervente: 
   “Zeus poderoso, e vós outros, ó deuses eternos do Olimpo, 
que venha a ser o meu filho como eu, distinguido entre os Teucros, 
de igual vigor, e que em Ílio, depois, venha a ter o comando. 
E que, ao voltar dos combates alguém diga, ao vê-lo: ‘É mais

ainda, que o pai!’ Possa a mãe veneranda à sua vista alegrar-se 
pós ter matado o inimigo, pesado de espólios cruentos!” 
   Disse, e nos braços da esposa dileta depõe o filhinho. 
Ela, afetuosa, o acolheu e o afagou no fragrante regaço, 
rindo, entre lágrimas. Mui comovido ante o quadro, o guerreiro, 
acariciando-a com a mão, lhe dirige as seguintes palavras: 
   “Minha tolinha, por que, desse modo, afliges tua alma? 
Homem nenhum poderá, contra o Fado, mandar-me para o Hades, 
pois quero crer que a ninguém é possível fugir ao destino, 
desde que nasça, seja ele um guerreiro de prol ou sem préstimo.

Para tua casa recolhe-te e cuida dos próprios lavores, 
roca e tear, assim como às criadas transmite tuas ordens, 
para que tudo executem, que aos homens que em Troia nasceram, 
mormente a mim, está afeto pensar quanto à guerra concerne.” 
   O elmo de equino penacho depois retomou o guerreiro. 
Para o palácio retorna, entrementes, a esposa, virando-se 
a cada passo, a verter, pela estrada, amaríssimo pranto. 
Quando chegou ao palácio de bela feitura do insigne 
e incontrastável guerreiro, cercada se viu pelas servas, 
que prorromperam, também, a chorar, quando aflita a enxergaram.

 Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam, 
pois esperança não tinham de que ele voltar conseguisse 
salvo das mãos dos Aquivos, à fúria da guerra escapando. 
   Páris, também, não ficou muito tempo na estância elevada, 
mas, tendo as armas de bronze vestido, de fino trabalho, 
corta, apressado, a cidade, nos rápidos pés confiado. 
Como galopa um cavalo habituado no estábulo, quando 
pode do laço escapar e, fogoso, a planície atravessa 
para ir banhar-se, impaciente, na bela corrente do rio, 
cheio de orgulho, soleva a cabeça; por sobre as espáduas

bate-lhe a crina, agitada; consciente da própria beleza, 
levam-no os pés para o prado, onde os outros cavalos se reúnem: 
Páris, o filho de Príamo, assim, desce do alto da Acrópole 
da sacra Pérgamo, envolto em couraça que a vista ofuscava. 
Vem exultante; seus rápidos pés o conduzem em pouco 
tempo aonde Heitor se encontrava, o divino guerreiro, que tinha 
precisamente deixado o local em que à esposa falara. 
Foi o primeiro a falar Alexandre, de formas divinas: 
   “Mano, bem vejo que muito te fiz esperar, quando tinhas 
tão grande pressa; não fui diligente, conforme o ordenaste.”

Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Páris, nenhuma pessoa de espírito justo pudera 
desconhecer teu valor nos combates, porque és corajoso. 
Mas, voluntário, te escusas; não queres lutar. Isto o peito 
muito me punge, quando ouço as censuras que soem fazer-te 
os picadores Troianos, que tanto por ti têm sofrido. 
Mas, por agora, sigamos; que disso, depois, cuidaremos, 
quando Zeus pai consentir que ofertemos a grande cratera 
da liberdade aos eternos, nos nossos palácios bem-feitos, 
quando dos muros de Troia expulsarmos os fortes Aquivos.”² 

continua página 198...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1} Aqui outro momento extraordinário da Ilíada: Heitor falando com sua mãe, Hécuba, antes de ir ao encontro de Páris. É uma cena cheia de religiosidade, tensão e frustração. 
*    O que está acontecendo na cena: Heitor retorna à cidade durante a batalha e encontra sua mãe, Hécuba, que lhe oferece vinho para revigorar as forças. Ele recusa — e a recusa é significativa:
- Vinho enfraquece os braços, diz ele, e um guerreiro não pode perder vigor.
- Além disso, não é correto oferecer libações a Zeus com as mãos sujas de sangue e poeira. Heitor demonstra respeito religioso e autocontrole.
     Em vez disso, ele pede que Hécuba vá ao templo de Atena, levando as mulheres da cidade para suplicar proteção.
 *    O pedido ritual de Heitor, ele instrui sua mãe a:
- reunir as matronas troianas;
- escolher o manto mais belo e precioso do palácio;
- colocá-lo sobre os joelhos da deusa Atena;
- prometer o sacrifício de doze novilhas de um ano, ainda indomadas.
     O objetivo é claro: implorar que Atena afaste Diomedes, o “Tidida”, que naquele canto está devastando os troianos com força quase sobre-humana. Esse detalhe é importante: Heitor reconhece que Diomedes é, naquele momento, o maior perigo no campo de batalha.
*     A frustração com Páris
     Depois de orientar sua mãe, Heitor diz que irá atrás de Páris, para fazê-lo voltar ao combate. E aqui surge o tom mais humano e amargo da passagem:
“Ah, se a terra se abrisse subitamente! Um 
fautor de desgraças nascer fez o Olimpo para 
o magnânimo Príamo, os filhos e o povo 
troiano.”
     Heitor expressa sua exasperação: Páris é visto como a causa da guerra, um peso para a família e para a cidade. Ele deseja, quase desesperadamente, que Páris desapareça — e confessa que isso o faria esquecer todos os males presentes. É um dos momentos em que Heitor revela sua profundidade emocional: ele é o defensor de Troia, mas carrega o fardo das escolhas de outros.
*     Por que esse trecho é tão importante?
1. Mostra o caráter de Heitor: disciplinado, religioso, responsável, consciente da gravidade da guerra.
2. Revela a fragilidade de Troia: a cidade depende da proteção divina e sofre com a irresponsabilidade de Páris.
3. Constrói o clima para o encontro com Andrômaca, que virá logo depois — um dos momentos mais tocantes da Ilíada.
4. Expõe a tensão entre dever e família, tema central do canto VI.

[2] Aqui a continuação perfeita do episódio entre Heitor e Páris — e este trecho é especialmente rico para análise, porque mostra o contraste entre os dois irmãos e aprofunda o drama moral da Ilíada. 
*     O diálogo entre Heitor e Páris: coragem, vergonha e esperança
1. Páris fala primeiro — e tenta justificar-se (Páris, “de formas divinas”, começa reconhecendo que demorou e que não cumpriu o que Heitor lhe pediu. É uma fala suave, quase resignada, que tenta atenuar sua falta de prontidão.)
     Esse detalhe é importante: Páris não é covarde no sentido físico — ele luta bem quando quer — mas é irresponsável, volúvel, incapaz de assumir o peso das consequências de seus atos.
2. A resposta de Heitor: elogio e reprovação ao mesmo tempo
     Heitor responde com uma mistura de verdade e dor:
- Ele admite que ninguém de espírito justo negaria o valor de Páris no combate.
- Mas logo acrescenta: Páris evita lutar voluntariamente, e isso “punge” seu peito.
     Heitor sofre não apenas pela guerra, mas pela vergonha que Páris traz à família e à cidade. Os “picadores troianos” — os cidadãos comuns — murmuram contra Páris, e Heitor sente o peso dessas críticas. Esse é um dos momentos mais humanos do poema: Heitor ama o irmão, mas não consegue esconder sua frustração.
3. A promessa de futuro — quando Troia expulsar os aqueus
     Heitor tenta encerrar o assunto, porque a urgência da guerra não permite longas discussões. Ele diz:
“Por agora, sigamos; que disso, depois, 
cuidaremos.”
     E então imagina um futuro idealizado:
- Zeus permitirá que os troianos ofereçam a “cratera da liberdade” aos deuses.
- Eles celebrarão nos palácios bem-feitos.
- Os aqueus serão expulsos dos muros de Troia.
     Esse momento é profundamente irônico: Heitor fala com esperança, mas o leitor sabe que Troia jamais verá essa celebração. A frase revela sua fé, sua honra, mas também sua tragédia.
*     Por que este trecho é tão significativo?
1. Constrói o contraste entre os irmãos:
     - Heitor: dever, disciplina, responsabilidade.
     - Páris: beleza, talento, mas falta de compromisso.
2. Mostra a tensão interna de Troia:
     A guerra não é apenas contra os aqueus — é também contra a desordem moral dentro da própria cidade.
3. Revela a liderança de Heitor:
     Ele não humilha Páris; ele o chama à luta, tentando preservar a unidade.
4. Antecipação trágica:
     A esperança de expulsar os aqueus é uma sombra do destino inevitável de Troia
.


Ilíada, de Homero - Canto VI




Ilíada: Homero (Canto VI.a - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”
. 

   Ficam sozinhos na luta os Troianos e os Dânaos grevados, 
recrudescendo na vasta planície a terrível batalha. 
Uns contra os outros, as lanças de bronze os guerreiros atiram, 
entre a corrente do Xanto divino e do belo Simoente. 
   Primeiramente, o baluarte dos Gregos, Ajaz Telamônio, 
rompe a falange dos Troas, abrindo uma luz para os sócios,
com derrubar o melhor dos guerreiros chegados da Trácia, 
o destemido e membrudo Acamante, nascido de Eussoro. 
Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta,

indo encravar-se na testa do herói a hasta longa de bronze, 
atravessando-lhe os ossos; as trevas os olhos lhe envolvem. 
Mata Diomedes, de voz retumbante, o admirável Axilo, 
filho do forte Teutrante, que tinha em Arisbe a morada 
bem-construída e opulenta; por todos era ele estimado, 
pois para todos sua casa, na beira da estrada, era franca. 
Mas nenhum desses amigos lhe veio servir de anteparo, 
para livrá-lo da Morte; Diomedes a vida tirou-lhe 
e ao próprio pajem Calésio que, então, dirigia os cavalos,
na qualidade de auriga; ambos eles à terra baixaram.

Priva das armas brilhantes Euríalo a dois, Dreso e Oféltio, 
indo, depois, contra Pédaso e Esepo que, outrora, uma náiade, 
Abarbareia, gerou do formoso pastor Bucolionte, 
de Laomedonte divino o mais velho dos filhos, embora 
de nascimento sem brilho, provindo de amores furtivos. 
Quando cuidava das belas ovelhas, à náiade uniu-se, 
de quem, ali concebidos, dois gêmeos famosos nasceram. 
Mas o vigor lhes dissolve dos joelhos e membros o filho 
de Mecisteu, que dos ombros as armas, também, lhes retira. 
A morte a Astíalo deu Polipetes, guerreiro ardoroso;

com sua lança de bronze Odisseu tira a vida a Pedites, 
nado em Percote; Aretáone divo por Teucro foi morto; 
foi pela lança brilhante de Antíloco, o moço Nestórida, 
Áblero morto; Agamémnone a Elato, também, prostra exânime 
o qual em Pédaso excelsa morava, nas margens do rio 
Sátnio, de bela corrente, ao fugir, foi por Lito alcançado 
Fílaco; as armas Eurípilo toma do escuro Melântio. 
   Por Menelau gritador foi Adrasto com vida apanhado; 
desobedientes ao freio, corriam no plaino os cavalos, 
os quais levaram o carro recurvo a chocar contra um galho

de tamargueira, o que fez que o timão se partisse; assustados, 
para a cidade os cavalos retornam, no rasto dos outros. 
Cai o guerreiro de bruços, bem junto da roda do carro, 
indo de boca no chão; logo perto se achou dele o louro 
filho de Atreu, Menelau, com sua lança de sombra comprida. 
Passa-lhe os braços à volta dos joelhos Adrasto e suplica: 
   “Ó Menelau, não me mates; aceita resgate condigno. 
Em seu palácio, meu pai acumula preciosos tesouros, 
bem trabalhados objetos de ferro, e ouro e bronze abundantes. 
Meu genitor te dará, de boamente, um resgate elevado,

quando souber que me encontro com vida nas naus dos Aquivos.”¹
   Isso disse ele, abalando, sem dúvida, o peito do Atrida, 
que já inclinado se achava a entregá-lo a um dos servos, que o fosse 
para os navios velozes levar, quando o Atrida Agamémnone 
chega, apressado, e o impediu, com dizer-lhe, em voz alta, o seguinte: 
   “Ó Menelau compassivo, por que para os homens te mostras 
tão sem vigor? Belas coisas, de fato, em tua casa fizeram 
esses Troianos! Por isso da Morte escapar não deixemos 
quantos às mãos nos caírem, sendo homens, embora ainda se achem 
no próprio ventre materno. Que todos pereçam bem longe

de Ílio destruída, sem túmulo algum, nem memória, deixarem.” 
   Essas palavras do herói, de fatais e prudentes conceitos, f
azem que o peito mudasse do irmão, que, com o braço, repele 
o suplicante. Este foi pelo forte guerreiro Agamémnone 
no baixo-ventre ferido, caindo de costas; o Atrida 
sobe-lhe em cima do peito, arrancando a hasta longa de freixo. 
   Em altas vozes Nestor os guerreiros Argivos exorta: 
“Dânaos guerreiros, amigos diletos, discípulos de Ares! 
Nenhum se deixe ficar para trás, tendo em vista, somente, 
presas valiosas levar para as naves de casco anegrado.

Ora, inimigos maternos; depois, com vagar, na planície 
procurareis os cadáveres, para das armas despi-los.” 
   Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos. 
E, porventura, os Troianos teriam para Ílio fugido, 
sob a pressão dos Acaios valentes, em franco desânimo, 
se para Eneias e Heitor não tivesse falado nesta hora 
o nobre filho de Príamo, Heleno, excelente adivinho: 
   “Em vós, Eneias e Heitor, os Troianos e os Lícios confiam 
os mais pesados trabalhos da guerra, por terdes em tudo 
a iniciativa, não só nos combates, também nos conselhos.

Ora, detende-vos para correr as fileiras e os nossos 
homens conter ante as portas, se não todos eles aos braços 
se atirarão das mulheres, objetos de mofa do imigo. 
Mas, uma vez as falanges em ordem, de novo, e inflamadas, 
procuraremos, também, contra os Dânaos lutar aqui mesmo, 
ainda que muito cansados, que o aperto é, de fato, imperioso. 
Para a cidade, depois, Heitor corre, e instruções leva logo 
à nossa mãe, que, sem perda de tempo, as matronas reúna 
no alto da rocha, onde o templo se encontra de Palas Atena. 
Pós ter franqueado com a chave o recesso sagrado do templo,

tome no manto maior que na régia bem-feita se encontra, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro lhe seja, 
e sobre os joelhos de Atena, de belos cabelos, deponha. 
Mais: doze vacas prometa imolar no interior do santuário 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo, selvagem guerreiro, 
o qual, afirmou-o, é o mais forte de todos os homens Acaios. 
Tanto pavor nem de Aquiles sentimos, senhor de guerreiros,

filho, segundo se diz, de uma deusa. Porém tanta é a fúria 
deste, que fora estultícia a um dos nossos querer enfrentá-lo.” 
   Obedeceu, logo, Heitor ao conselho que Heleno lhe dera. 
Rapidamente do carro pulou, sem que as armas soltasse, 
e, duas lanças brandindo, correu as fileiras do exército, 
a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura. 
Voltam agora os Troianos, de novo, a enfrentar aos Aquivos 
que, por sua vez, retrocedem; cessou desse modo a matança. 
Imaginaram que algum dos eternos do Céu se atirara 
para ajudar os Troianos, que insólito ardor manifestam.

Em altos brados Heitor se dirige aos guerreiros Troianos: 
   “Vós, corajosos Troianos e aliados de fama excelente! 
Sede homens, caros amigos, e força mostrai impetuosa, 
enquanto vou à cidade falar aos anciões do conselho 
e a nossas caras esposas, que preces aos deuses elevem, 
a todos eles perfeita hecatombe ofertar prometendo.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco. 
Nos calcanhares e no alto da nuca o debrum lhe batia, 
de couro preto, que à volta se achava do escudo de umbigo. 
   Glauco, nascido de Hipóloco, e o grande e valente Tidida,

cheios de ardor, se avistaram no meio do teatro da luta, 
e, caminhando um para o outro, afinal frente a frente ficaram. 
Disse Diomedes, de voz retumbante, falando primeiro: 
“Homem de grande valor, de que estirpe mortal te originas? 
Ainda não tive ocasião de te ver nas batalhas, que aos homens 
glória concedem; no entanto, os demais, em coragem, superas, 
pois vens, agora, enfrentar a minha lança de sombra comprida. 
Os que se medem comigo são filhos de pais sem ventura. 
Mas, se um dos deuses tu fores, que moram no Olimpo vastíssimo, 
sabe que contra os eternos não quero em combate medir-me.

Nem mesmo o filho de Driante, Licurgo valente, mui longa 
vida alcançou, por haver contra os deuses celestes lutado. 
Ébrio, uma vez, de Dioniso ele as amas, violento, repele 
do sacro monte de Nisa. Tomadas de medo indizível, 
quando o homicida Licurgo, contra elas, brandiu a aguilhada, 
os tirsos jogam no chão. Aterrado, nas ondas marinhas 
corre Dioniso a lançar-se, onde, trêmulo, Tétis ao seio 
o recolheu, que assaz medo sentia do herói com seus gritos. 
Mas, depois disso, contra ele irritaram-se os deuses felizes, t
endo-o cegado Zeus Crônida. A vida bem curta ele teve,

por se ter feito odioso aos eternos que moram no Olimpo. 
Por isso tudo, não quero lutar contra os deuses beatos. 
Mas se, contrário, és humano e te nutres dos frutos da terra, 
chega-te, e logo hás de ver-te, por certo, no extremo funesto.” 
   Disse-lhe, então, em resposta o preclaro rebento de Hipóloco: 
“Grande Tidida, por que saber queres a minha ascendência? 
As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores, 
que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam 
na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa. 
Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.

Já que desejas, porém, conhecer meus avós, vou dizer-te 
qual seja a minha progênie, por muitos, decerto, sabida. 
No centro de Argos, nutriz de cavalos, os muros se elevam 
de Éfira, sob o comando do mais astucioso dos homens, 
Sísifo, de Éolo filho; de Sísifo Glauco proveio. 
Belerofonte, o admirável, de Glauco a existência recebe. 
Deram-lhe os deuses beleza e vigor varonil aliado 
a gênio afável. Mas Preto, insidioso, da pátria o repele, 
pois tinha mais influência do que ele entre os homens Argivos, 
por os haver submetido ao seu cetro o nascido de Crono.

A diva Anteia, consorte de Preto, em desejos ardia 
de, às escondidas, unir-se-lhe, sem ter, contudo, abalado 
Belerofonte prudente, de castos e leais pensamentos. 
Vira-se, então, para o esposo, e, falseando a verdade, lhe disse: 
‘Ou tira a vida de Belerofonte, ou consente em morreres. 
Preto, por ter querido ele obrigar-me a um ilícito amplexo.’ 
A essas palavras, o rei foi tomado de cólera ingente. 
Não quis da vida privá-lo, por ter, em verdade, receio; 
mas para a Lícia o enviou, tendo escrito uns sinais mui funestos 
em duas tábuas fechadas, que ao sogro mandou que entregasse,

para que viesse a morrer, visto morte os sinais inculcarem. 
Em companhia dos deuses, se pôs a caminho o guerreiro. 
Quando, porém, alcançou a corrente do Xanto, na Lícia, 
foi pelo rei do amplo reino, por modo benigno, acolhido. 
Em nove dias matou nove bois, que aos celestes oferta: 
mas, quando, ao décimo, a Aurora de dedos de rosa surgiu, 
fez-lhe perguntas, de ver os sinais desejoso mostrando-se 
que de seu genro, da parte de Preto, lhe tinha trazido. 
Logo, porém, que o sentido aventou dos fatais caracteres, 
primeiramente, a incumbência lhe deu de extinguir a Quimera

originária, não de homens mortais, mas de estirpe divina: 
era, na frente, leão; drago, atrás, e, no meio, quimera, 
que borbotões horrorosos de fogo lançava das fauces. 
Certo do amparo dos deuses, sozinho, ele o monstro aniquila. 
Teve, depois, de lutar contra os Sólimos fortes, sozinho, 
seu mais terrível encontro, segundo ele próprio o dizia. 
Como terceira incumbência, destruiu as viris Amazonas. 
Outra perfídia contra ele, ao voltar, o hospedeiro excogita: 
tendo escolhido os melhores guerreiros da Lícia vastíssima, 
numa emboscada os postou; não reviu nenhum deles a pátria;

Belerofonte, o impecável, a todos privou da existência. 
Reconhecendo, afinal, que um dos deuses o tinha gerado, 
soube retê-lo no reino, fazendo-o casar com a filha 
e dividindo com ele a honraria e o poder da realeza. 
Deram-lhe os Lícios, também, um pedaço excelente de terra, 
própria, igualmente, para uso do arado e cultivo de frutas. 
Três filhos teve da esposa o magnânimo Belerofonte; 
foram: Hipóloco, Isandro e Laodâmia gentil e formosa. 
A esta se uniu, em conúbio amoroso, Zeus grande e prudente, 
tendo gerado ao guerreiro esforçado, o divino Sarpédone.

Mas, quando, alfim, se tornara também, pelos deuses, odiado, 
e pelos campos Aleios famosos vagava sozinho, a alma por dentro
a roer e a fugir do convívio dos homens, 
Ares, o deus insaciável, a Isandro privou da existência 
em um combate com os Sólimos fortes, de fama excelente. 
Ártemis, das rédeas de ouro, zangada, matou a Laodâmia. 
Enquanto a mim, tenho orgulho de filho chamar-me de Hipóloco, 
que me mandou para Troia sagrada, insistindo comigo 
para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me, 
sem desonrar a linhagem dos nossos, que sempre entre os fortes

de Éfira foram contados, bem como na Lícia vastíssima. 
Esse o meu sangue, essa a estirpe, que só de nomear me envaideço.” 
   Isso disse ele; alegrou-se Diomedes, de voz retumbante; 
finca a hasta brônzea na terra, de heróis a nutriz generosa, 
e, com palavras afáveis, saudou o pastor de guerreiros: 
   “Hóspede és meu desde o tempo de nossos avós, vejo-o agora. 
Por vinte dias seguidos Eneu, o divino, agasalho 
deu em seu belo palácio ao magnânimo Belerofonte, 
tendo ambos dons hospedais, de subido valor permutado. 
Foi o penhor da amizade de Eneu cinturão purpurino;

Belerofonte lhe deu uma copa, adornada com alça, 
de ouro, que em casa deixei quando tive de vir para Troia. 
Quanto a Tideu, não me lembro, pois era criança quando ele 
foi para Tebas e o exército Acaio ficou destruído. 
Por essa antiga amizade, és meu hóspede em Argos, ao passo 
que me farás grato hospício se um dia eu chegar até a Lícia. 
Cumpre, portanto, que, em meio da pugna, um ao outro poupemos. 
Para matar, não me faltam Troianos excelsos e aliados, quem 
quer que um deus me conceda, ou quem chegue a alcançar na carreira; 
sobram-te Aqueus, outrossim, para a muitos privares da vida.

Ora troquemos as armas, porque possam todos os outros 
reconhecer que nós dois nos gloriamos da avita amizade.”²
   Ambos dos carros desceram, depois de assim terem falado, 
e, logo, apertos de mão, como prova de afeto, trocaram. 
Foi quando o Crônida Zeus o juízo de Glauco conturba, 
por ter querido trocar com Diomedes as armas que tinha, 
ouro por bronze, o valor de cem bois pelo preço de nove. 
   Às Portas Ceias Heitor, entrementes, e à faia chegando, 
pelas esposas e filhas dos Teucros se viu circundado, 
que pelos seus perguntavam, ansiosas, por filhos e manos,

primos e esposos. Heitor recomenda que aos deuses orassem, 
em procissão; mas a muitos já havia a desgraça atingido. 
Logo depois, alcançou o palácio mui belo de Príamo, 
todo ladeado de pórticos feitos de pedras lavradas. 
Nele cinquenta aposentos se viam, de mármore polido, 
todos contíguos, nos quais, numerosos, os filhos de Príamo 
do grato sono fruíam ao lado de suas esposas. 
Do lado oposto do pátio, de frente para estes, havia 
doze aposentos, também, para as filhas, de mármore polido, 
todos contíguos. Os genros de Príamo, ali, do repouso

continua página 180...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] A cena é um trecho do momento em que Adrasto, um dos troianos, é capturado vivo por Menelau, irmão de Agamêmnon. 
    O que acontece na cena:
Adrasto é derrubado do carro quando seus cavalos, em pânico, chocam o veículo contra um galho de tamargueira. O timão se parte, os animais fogem de volta para a cidade, e o guerreiro cai de bruços no chão, indefeso.
Menelau, o “louro filho de Atreu”, se aproxima com a lança. Adrasto, percebendo que não tem como lutar, agarra os joelhos de Menelau — gesto clássico de súplica na tradição grega — e implora por sua vida.
Ele oferece resgate: seu pai possui grandes riquezas e pagará generosamente se souber que o filho está vivo entre os aqueus.
     Significado literário do episódio:
- O gesto de suplicar pelos joelhos é um símbolo forte de submissão e pedido de misericórdia na cultura grega.
- Adrasto tenta escapar da morte apelando ao código de honra dos guerreiros, que muitas vezes aceitavam resgates.
- A cena prepara o conflito moral entre Menelau, inclinado a poupar o suplicante, e Agamêmnon, que logo adiante exigirá que nenhum troiano seja poupado — um dos momentos que mostram a brutalidade crescente da guerra.

[2] Aqui outro momento belíssimo da Ilíada: o encontro entre Diomedes e Glauco, quando dois guerreiros, prestes a lutar, descobrem que seus avós foram hóspedes e amigos — e, por isso, não devem se enfrentar. É um dos episódios mais humanos e simbólicos de todo o poema.
     O sentido da cena: a amizade antiga que suspende a guerra
O trecho pertence ao famoso episódio da xenia — a hospitalidade sagrada entre famílias — que une Diomedes (aqueu) e Glauco (lício). Eles se encontram no campo de batalha, prontos para lutar, mas antes trocam palavras sobre suas origens.
     O que Glauco revela: Glauco conta que seu avô, Belerofonte, foi recebido por Eneu, avô de Diomedes. Durante essa estadia:
- Eneu ofereceu a Belerofonte um cinturão púrpura como presente de hospitalidade.
- Belerofonte retribuiu com uma taça de ouro com alça, que Diomedes diz ter deixado em casa ao partir para Troia.
     Esses presentes eram o selo de uma amizade hereditária, transmitida de geração em geração.
     Glauco conclui:
“Por essa antiga amizade, és meu hóspede em 
           Argos, e eu serei teu hóspede na Lícia.”
     Ou seja: mesmo em lados opostos da guerra, eles pertencem a uma mesma rede de respeito e obrigação moral.
     A decisão: não lutar entre si - Glauco propõe que ambos evitem ferir um ao outro no combate, pois há muitos outros inimigos disponíveis. É uma forma de preservar a honra sem quebrar o vínculo ancestral. Ele então sugere o gesto simbólico:
“Ora troquemos as armas, para que todos 
reconheçam que nos gloriamos da avita amizade.”
     Esse ato — trocar armaduras — é um sinal público de que a amizade entre suas casas é mais antiga e mais forte que a guerra presente.
     Por que esse episódio é tão famoso?
1. Humaniza a guerra: mostra que, mesmo em meio à carnificina, há memória, tradição e respeito.
2. Ilustra a força da xenia: um valor sagrado que ultrapassa fronteiras e conflitos.
3. Cria um contraste dramático: dois guerreiros que deveriam se matar escolhem a paz por causa de seus antepassados.
4. Tem um detalhe irônico (que aparece logo depois no poema): Zeus faz Glauco perder o juízo e ele troca sua armadura de ouro pela de bronze de Diomedes — um negócio terrível, lembrado até hoje como símbolo de ingenuidade.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto V.d - Os feitos heroicos de Diomedes)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto V - Os feitos heroicos de Diomedes (Aristia de Diomedes)
 
“Atena convence Ares a abandonar a guerra aos homens, e, assim, os Gregos sobrepujam os Troianos. Diomedes, ferido por Pândaro, e protegido por Palas Atena, se sobressai ainda mais. Lutando com Pândaro e Eneias, mata o primeiro e quase mata o segundo, que é salvo por Afrodite. No entanto, Diomedes fere a própria Afrodite. Apolo cura Eneias e Ares volta ao combate, reanimando os Troianos. Os Gregos começam a perder e Hera e Atenas os ajudam. Diomedes, ajudado por Atena, fere o próprio Ares, que vai ao Olimpo reclamar com Zeus da ousadia de Diomedes.”

continuando... 

o grande filho de Príamo, Heitor, desejoso, somente, 
de repelir os Argivos e a muitos privar da existência. 
Os companheiros galhardos do divo Sarpédone, entanto, 
para debaixo da faia de Zeus poderoso o levaram, 
onde o fiel Pelagonte, dos sócios o mais acatado, 
a hasta comprida fraxínea, sem mais, arrancou-lhe da coxa. 
Perde os sentidos o herói; densas trevas aos olhos lhe baixam, 
mas logo volta a viver, que de Bóreas o sopro agradável 
pôde insuflar novo alento no espírito pronto a evolar-se. 
   Ainda que sob a pressão de Ares forte e de Heitor, os Argivos

nem procuravam fugir para o lado das naves escuras, 
nem conseguiam forçar o inimigo; mas cedem, recuando, 
por terem visto que ao lado dos Teucros lutava Ares forte. 
Qual o primeiro, qual o último, ali, da existência privaram 
Ares de bronze e o alto Heitor, o guerreiro nascido de Príamo? 
O domador de cavalos, Orestes, o divo Teutrante, 
Treco, lanceiro da Etólia, o magnânimo Enómao, Heleno, 
filho de Enópio e, por último, Orésbio, do cinto brilhante, 
que em Hile tinha o palácio pejado de grandes tesouros, 
junto do lago Cefísio, onde muitos vizinhos contava,

homens da Beócia, que pingues campinas, ali, cultivavam. 
   Hera, a magnânima deusa dos cândidos braços, notando 
como os Argivos, na pugna terrível, tombavam sem vida, 
súbito a Palas Atena dirige as palavras aladas: 
   “Palas Atena indomável, donzela de Zeus poderoso, 
não passará de promessa o que ao rei Menelau predissemos, 
de que faria o retorno depois de destruir Ílio forte, 
se consentirmos que, assim, Ares fero prossiga, furioso. 
Vamos, depressa, também, tomar parte na pugna terrível.” 
   A de olhos glaucos, Atena, aceitou-lhe o conselho, de pronto

Os corredores, ornados com belo frontal de ouro puro, 
foi Hera, logo, atrelar, que de Crono potente nascera 
Hebe, sem perda de tempo, adaptou no eixo férreo do carro 
as rodas curvas de bronze, nas quais oito raios se viam. 
As pinas, de ouro maciço eram feitas, e o círculo extremo 
era composto de bronze infrangível, espanto dos olhos; 
de prata pura, os dois cubos, que giram para ambos os lados; 
de tiras de ouro e de prata enlaçadas a caixa é formada, 
que protegida se achava por dois parapeitos; do carro 
sai o timão, feito todo de prata; na ponta do mesmo

os jugos de ouro afirmou, adaptando, por último, neles, 
os peitorais, também de ouro. Os velozes cavalos, por último. 
Hera conduz para o jugo, sequiosa de entrar em combate. 
   A de olhos glaucos, Atena, donzela de Zeus poderoso, 
deixa cair logo o peplo no soalho brilhante do Olimpo, 
obra de fino lavor, que ela própria tecera e enfeitara. 
Veste a loriga de Zeus atroante, que as nuvens cumula, 
e as demais armas empunha, adequadas às guerras lutuosas. 
A égide ornada de franjas, então, sobre os ombros coloca, 
coisa espantosa de ver, pelo frio Terror circundada,

pela Discórdia, a Violência e, também, pelo Assalto horroroso, 
bem como pela cabeça da Górgona, monstro terrível, 
horripilante espetác’lo, do Crônida Zeus maravilha. 
O elmo de dupla cimeira e de quatro saliências coloca, 
de ouro, que os homens de cem fortalezas cobrir poderia. 
Logo subiu para o carro brilhante, tomando da lança 
grande, pesada e robusta, com que derrotar costumava 
turmas de heróis, ao zangar-se a nascida do pai poderoso. 
   Hera os cavalos velozes com o látego, logo, estimula. 
Por próprio impulso, rangeram as portas do Céu, que se encontram

sob a custódia das Horas, que têm a incumbência, no Olimpo 
e no Céu vasto, de abrir ou fechar a cortina das nuvens. 
Estimulando os cavalos, depressa por elas passaram, 
indo a Zeus Crônida achar, que sentado sozinho se via, 
dos demais deuses à parte, no pico mais alto do Olimpo. 
Hera, de cândidos braços, detém, nesse ponto, os ginetes, 
e para o Crônida sumo se vira, dizendo o seguinte: 
   “Indignação não te causa, Zeus pai, ver como Ares se excede? 
Já destruiu muitos homens Acaios, dos mais afamados, 
sem conveniência nenhuma, ao acaso, o que muito me aflige.

A Cípria, entanto, se alegra e, assim, Febo, o deus do arco de prata, 
que a esse demente, das leis ignorante, a tal ponto excitaram. 
Provocarei, porventura, tua cólera, Zeus, retirando 
a Ares do meio da pugna e infligindo-lhe duro castigo?” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula: 
“Seja; mas é preferível que Palas atires contra ele, 
a predadora, que está acostumada a lhe dar tais castigos.” 
   Hera, de cândidos braços, de pronto aceitou-lhe o conselho; 
com chicotada os cavalos esperta, que partem, velozes, 
pelo caminho que fica entre a terra e o Céu vasto e estrelado.

Quanto consegue com a vista alcançar, no horizonte, indivíduo 
que, da alta penha, procure esguardar o amplo mar cor de vinho, 
tanto, de um salto, os cavalos das deusas, nitrindo, avançaram. 
Mas, quando o plaino de Troia alcançaram e o ponto em que as águas 
o Simoente e o Escamandro divino, confluentes, misturam, 
Hera, de cândidos braços, deteve os fogosos ginetes, 
desatrelou-os e espessa neblina em redor lhes atira. 
Pasto divino fez logo, para eles, brotar do Simoente. 
As duas deusas, então, como trépidas pombas, se foram, 
impacientes de auxílio levar aos guerreiros Argivos.

Mas, ao chegarem ao ponto em que turmas de heróis se apinhavam 
em torno da força do grande Diomedes, que doma cavalos, 
densos, num grupo, quais leões voradores de carne cruenta, 
ou javalis, cuja força não é para ser desprezada, 
Hera, de cândidos braços, parou, dando um grito terrível, 
sob a figura de Esténtor, o herói de voz brônzea, tão forte 
como o clamor que cinquenta mortais, em conjunto, elevassem: 
   “Ó geração de covardes de bela presença, que opróbrio! 
Enquanto Aquiles divino nos prélios convosco se achava, 
nunca os Troianos ousaram sair pelas Portas Dardânias,

pois medo tinham da lança terrível do herói valoroso. 
Ora se luta bem longe dos muros, ao lado das naves.” 
   Por esse modo excitava o furor e a coragem de todos. 
A de olhos glaucos, Atena, correu para o grande Diomedes. 
Junto do carro e dos belos cavalos achou o guerreiro 
que procurava acalmar a ferida causada por Pândaro. 
Muito o afligia o suor sob o peso do escudo redondo 
de bálteo largo; cansado o deixava e com o braço impotente. 
O bálteo afasta da chaga, abstergendo-a dos cruores escuros. 
Toca nos freios a deusa, e dirige a palavra ao guerreiro:

“Em nada o filho do grande Tideu se parece com ele. 
Era Tideu, em verdade, pequeno, mas forte e impetuoso. 
Lembra-me, sim, que o proibi, certa vez, de lutar e, até mesmo, 
de procurar distinguir-se, quando ele sem outros Aquivos 
a Tebas fora, qual núncio, onde achou numerosos Cadmeios. 
Quieto insisti que ficasse na sala dos lautos banquetes; 
ele, porém, que no peito abrigava o valor consueto, 
nos mais variados torneios venceu os nascidos de Cadmo 
sem grande esforço, que sempre o amparava por modo eficiente. 
Ora me encontro ao teu lado e procuro, zelosa, ajudar-te,

expressamente ordenando que contra os Troianos combatas. 
Mas o cansaço opressivo teus membros domina de todo, 
ou pelo frio temor inibido te encontras. Por isso, 
vejo que o filho não és do guerreiro de Eneu descendente.” 
   Disse-lhe o forte Diomedes, então, em resposta, o seguinte: 
“Eu te conheço, sem dúvida, filha de Zeus que sustenta 
a égide. Quero, por isso, falar-te sem mais subterfúgios. 
Nem indeciso me sinto, nem fraco por causa do medo; 
mas ainda tenho presente o que há pouco tu própria ordenaste, 
ao me proibires lutar contra os deuses eternos do Olimpo,

sem distinção; mas se a filha de Zeus poderoso, Afrodite, 
na pugna entrasse, podia feri-la com bronze afiado. 
Por essa causa, recuei, tendo a todos os outros Argivos 
aconselhado a que viessem reunir-se-me onde ora me encontro, 
pois vejo que Ares, também, toma parte na luta terrível.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Ó claro filho do grande Tideu, diletíssimo amigo, 
não tenhas medo nem de Ares, nem de outro qualquer dos eternos 
deuses do Olimpo, que sempre te assisto por modo eficiente. 
Vamos, dirige contra Ares os teus ardorosos ginetes,

e, bem de perto, o acomete, sem ter complacência nenhuma 
com esse louco furioso, inconstante, a maldade em pessoa, 
que prometeu a Hera augusta e a mim própria, não faz muito tempo, 
contra os Troianos lutar, protegendo os guerreiros Aquivos, 
e ora do lado daqueles se encontra, esquecido dos outros.” 
   Mal acabou de falar, para trás, com a mão, puxa a Esténelo 
para tirá-lo do carro; este, lestes, saltou para o solo. 
A deusa, entanto, ardorosa, subiu para o carro, postando-se 
a par do divo Diomedes. Com o peso da deusa terrível 
e de tão grande guerreiro, estalou o eixo forte de faia.

Toma das rédeas e empunha o chicote, sem perda de tempo, 
Palas, e os brutos de cascos possantes, contra Ares, dirige, 
que a Perifante membrudo, das armas, nessa hora, espoliava, 
o belo filho de Oquésio e o mais forte dos homens da Etólia. 
Ares sanguíneo o espoliava. Com o fim de tornar-se invisível 
ao deus terrível, Atena depressa cingiu o elmo de Hades. 
Quando o flagelo dos homens notou que o divino Diomedes 
vinha para ele, no mesmo lugar logo o corpo abandona 
de Perifante membrudo, que tinha, de pouco, matado, 
indo direto ao encontro do grã-cavaleiro Diomedes.

Logo que os dois combatentes em frente se acharam um do outro, 
Ares, primeiro, inclinado por cima do jugo e das rédeas, 
a lança brônzea jogou, desejando da vida privá-lo. 
Palas Atena, porém, de olhos glaucos, com a mão a desvia, 
de forma que ela, frustrânea, passou por debaixo do carro. 
Foi o segundo a atirar a sua lança de bronze o guerreiro 
de voz possante, Diomedes, a qual, por Atena guiada, 
no baixo-ventre foi dar de Ares forte, onde o cinto o apertava. 
Nesse lugar o feriu, tendo a pele macia rasgado, 
Palas, de novo, a arma extrai; Ares brônzeo soltou tão grande urro

como o alarido que soem fazer nove ou dez mil guerreiros, 
de uma só vez, quando se acham travados em dura batalha. 
Amedrontados, tremeram os homens Aquivos e Teucros, 
tão formidável o grito do deus insaciável da guerra. 
Tal como fica todo o ar, recoberto por nuvens escuras, 
quando o excessivo calor faz soprar algum vento impetuoso: 
tal ao Tidida Diomedes o vulto do deus Ares brônzeo 
apareceu, ao subir para o céu, pelas nuvens envolto. 
   Rapidamente à morada dos deuses chegou, no alto Olimpo, 
indo sentar-se, de par com Zeus grande, agastado no espírito,

a quem o sangue imortal, que manava da chaga, revela. 
Rompe, depois, em queixumes, dizendo as palavras aladas: 
   “Indignação não te causa, Zeus pai, assistir tanto abuso? 
Por comprazer os mortais, nós, os eternos, estamos sujeitos 
a indescritíveis tormentos, que a mútua discórdia nos causa. 
De tudo a culpa tens tu, pois geraste uma filha funesta 
e destituída de senso, a quem ímpias ações só comprazem. 
Todos os deuses eternos, que moram no Olimpo vastíssimo, 
te obedecemos, de grado, e acatamos, submissos, tuas ordens. 
A ela, somente, nenhuma censura ou castigo incomoda,

se é que não serves de estímulo à peste por ti concebida. 
Neste momento acabou de excitar contra os deuses eternos 
a esse insensato, Diomedes, que vem de Tideu valoroso. 
Primeiramente, achegando-se à Cípria, feriu-a no carpo; 
logo depois contra mim se atirou, qual se fosse um demônio. 
Se não me houvessem livrado meus rápidos pés, certamente 
por muito tempo ficaria a sofrer entre as rimas de mortos, 
ou, vivo embora, sem ânimo, aos golpes da lança de bronze.” 
   Com torvo aspecto lhe disse Zeus grande, que as nuvens cumula: 
“Cessa, leviano; não venhas, de novo, com tuas lamúrias.

És, entre todos os deuses, aquele a quem mais ódio tenho. 
Sempre encontraste prazer em combates, contendas e lutas. 
De tua mãe, por sem dúvida, o gênio indomável herdaste 
e insuportável, que a minhas palavras a custo obedece. 
De seus conselhos, presumo, teus males origem tiveram. 
Mas, ainda assim, não desejo que sofras por tempo mais longo; 
és de meu sangue também; tua mãe te gerou de mim próprio. 
Se, tal como és, tão nefasto, tivesses por pais outros deuses, 
há muito, sim, te encontrarias mais baixo que os filhos de Urano.” 
   Manda que Péone, então, sem demora, ali mesmo, o curasse.

Péone, logo, deitou sobre a chaga eficaz lenitivo, 
que o fez sarar, pois, de fato, não era de estirpe terrena. 
Como o queijeiro, que o leite, antes líquido, faz que coagule 
em pouco tempo, agitando-o, depois de lançar nele o coágulo, 
Ares violento, desta arte, depressa curado encontrou-se. 
Hebe, depois, lhe deu banho, envolvendo-o em magníficas vestes. 
Junto do Crônida Zeus foi sentar-se, radiante de glória. 
   Para a morada de Zeus poderoso, também, retornaram 
Hera, que em Argos cultuam, e Atena, a auxiliar poderosa, 
pós terem feito que a sanha homicida do deus se acalmasse.¹ 

continua página 180...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a /                    
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Chegamos a um dos trechos mais intensos e reveladores do Canto V da Ilíada — o momento em que Zeus repreende Ares depois de o deus da guerra ter sido ferido por Diomedes. É uma cena que expõe a psicologia dos deuses, suas tensões internas, suas hierarquias e até suas fragilidades. 
* Zeus humilha Ares — e isso é central nos cantos homéricos
     Zeus começa com um ataque direto: “És, entre todos os deuses, aquele a quem mais ódio tenho.”
     Isso é extraordinário. O rei dos deuses admite desprezar o próprio filho. E por quê?
- Ares representa violência irracional,
- guerra sem propósito,
- destruição pela destruição.
     Zeus, apesar de ser o deus do trovão e do poder, não é um deus da violência gratuita. Ele é ordem, soberania, destino. Ares é caos. Por isso Zeus o chama de leviano, alguém que vive reclamando, alguém que não aceita limites.
* Ares é filho de Zeus — mas carrega o temperamento de Hera
     Zeus diz: “De tua mãe herdaste o gênio indomável e insuportável.”
     Aqui há uma ironia cruel: 
- Ares é filho de Zeus, mas Zeus atribui sua natureza violenta à mãe, Hera.
- Hera é a deusa da fúria, do rancor, da vingança — especialmente contra Zeus e suas amantes.
- Ares, portanto, é visto como produto da ira de Hera, não da ordem de Zeus.
     Zeus praticamente diz: “Você é meu filho, mas não é como eu. Você é como ela.”
     Isso reforça a ideia de que os deuses não são perfeitos nem harmoniosos — são uma família disfuncional com poderes cósmicos.
* Ares é curado rapidamente — porque não é mortal
     A cura de Ares é descrita com uma imagem doméstica: “Como o queijeiro que faz o leite coagular…”
     Essa comparação é brilhante:
- A guerra é brutal, mas a cura divina é simples, quase cotidiana.
- Ares, que representa o horror da batalha, é tratado como algo fácil de consertar.
- Isso reforça a diferença entre dor divina e dor humana.
     Para os deuses, ferimentos são inconvenientes. Para os mortais, são destino.
* Ares volta ao lado de Zeus — “radiante de glória”
     Isso é irônico. Ares volta ao trono de Zeus não como herói, mas como alguém que foi:
- ferido,
- humilhado,
- repreendido,
- curado,
- e reintegrado
     A glória aqui não é mérito — é status divino. Ares é glorioso porque é imortal, não porque é admirável.
* Hera e Atena retornam — depois de acalmar a fúria de Ares
     Esse detalhe é fundamental:
- Hera e Atena são inimigas de Ares.
- Atena é a deusa da guerra estratégica, racional — o oposto de Ares.
- Hera odeia Ares por ele ser reflexo da violência masculina que ela despreza.
     Mas aqui, ambas retornam ao Olimpo vitoriosas, porque:
- Diomedes feriu Ares com ajuda de Atena,
- Ares foi humilhado por Zeus,
- a fúria do deus da guerra foi contida.
     É como se a ordem olímpica tivesse sido restaurada.
* O significado profundo desse episódio
     Este trecho revela três grandes temas da Ilíada:
- Os deuses são poderosos, mas não são sábios: eles sentem dor, ciúme, raiva, orgulho. São eternos, mas infantis.
- A guerra é uma força divina — mas também é um problema divino: Ares não é admirado. Ele é tolerado.
- A glória humana depende dos deuses — mas também os desafia: Diomedes feriu um deus. Isso é um ato de audácia que redefine o limite entre humano e divino.


Ilíada, de Homero - Canto V



Ilíada: Homero (Canto V.c - Os feitos heroicos de Diomedes)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto V - Os feitos heroicos de Diomedes (Aristia de Diomedes)
 
“Atena convence Ares a abandonar a guerra aos homens, e, assim, os Gregos sobrepujam os Troianos. Diomedes, ferido por Pândaro, e protegido por Palas Atena, se sobressai ainda mais. Lutando com Pândaro e Eneias, mata o primeiro e quase mata o segundo, que é salvo por Afrodite. No entanto, Diomedes fere a própria Afrodite. Apolo cura Eneias e Ares volta ao combate, reanimando os Troianos. Os Gregos começam a perder e Hera e Atenas os ajudam. Diomedes, ajudado por Atena, fere o próprio Ares, que vai ao Olimpo reclamar com Zeus da ousadia de Diomedes.”

continuando... 

No alto de Pérgamo após ter falado foi ele assentar-se. 
Ares as filas Troianas penetra, visando a excitá-las, 
sob a figura do chefe dos Trácios, o forte Acamante. 
Os nobres filhos de Príamo, alunos de Zeus, ele incita: 
   “Filhos de Príamo, alunos de Zeus, até quando, dizei-me, 
consentireis que os Aqueus a matar nossa gente prossigam? 
Esperareis que a batalha até as sólidas portas se estenda? 
Já vulnerado se encontra o guerreiro que a Heitor, em apreço 
equiparávamos, filho de Anquises magnânimo, Eneias. 
Vamos, salvemos do prélio terrível o fiel companheiro.”

Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos. 
Vira-se, então, para Heitor, censurando-o acremente, Sarpédone: 
   “Para onde foi, divo Heitor, a coragem que sempre mostraste? 
Não afirmavas que té sem aliados, sem povo, podias, 
só com os cunhados e irmãos, defender a cidade altanada? 
Ora, em que muito me esforce, nenhum deles vejo ou percebo. 
Trêmulos todos estão, como em frente do leão cachorrinhos. 
Nós combatemos, conquanto sejamos apenas aliados. 
Enquanto a mim, como aliado de terra distante sou vindo, 
sim, das longínquas paragens da Lícia, no Xanto revolto,

onde deixei a dileta consorte, o filhinho inocente 
e bens inúmeros, causa de inveja de quem não tem nada. 
Mas, ainda assim, estimulo os meus Lícios, ardendo em desejos 
de me enfrentar com o inimigo, apesar de não ter coisa alguma 
que pelos homens Aqueus possa ser conduzido ou levado. 
Ficas, no entanto, inativo; sequer estimulas os outros 
a resistência of’recer, defendendo as esposas e os filhos. 
Tende cuidado! Bem cedo nas malhas de rede finíssima 
presa vireis a ficar e rapina de vossos imigos. 
Hão de tomar, dentro em pouco, a cidade altanada, que é vossa.

A ti compete pensar em tudo isso, de noite e de dia, 
e concitar os guerreiros aliados, de fama excelente, 
para que firmes resistam, deixando de lado as censuras.” 
   Essas palavras do Lício a alma nobre de Heitor mordiscaram. 
Rapidamente, do carro pulou, sem que as armas soltasse, 
e, duas lanças brandindo, correu as fileiras do exército, 
a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura. 
Mais uma vez os Troianos aos homens Aquivos enfrentam; 
estes, compactos, resistem, sem dar mostra alguma de medo. 
Como, pela eira sagrada, em remoinhos a palha se eleva,

quando os campônios padejam, no tempo em que a loura Deméter 
ao sopro forte do vento separa do grão toda a palha, 
que se amontoa, alvejando o terreiro: desta arte os Aquivos 
brancos ficaram por causa do pó que de sob as fileiras 
se levanta até a abóbada brônzea, ao pisar dos cavalos, 
pois os aurigas, de novo, os faziam voltar para a pugna. 
Travam-se todos os homens; a fim de ajudar aos Troianos, 
Ares, o forte, envolveu a batalha nas trevas da Noite, 
a toda parte acudindo, cuidoso de dar cumprimento 
à ordem de Febo, da espada dourada, que o tinha incitado

a estimular os Troianos, depois que dali se afastara 
Palas Atena, que auxílio levara aos guerreiros Acaios. 
Febo, entrementes, a Eneias do tempo suntuoso impelia, 
força espertando no peito do herói e incontida coragem. 
Aos companheiros Eneias correu a reunir-se, que mostras 
deram de muita alegria ao revê-lo, com vida e refeito, 
sobre-esforçado; contudo ninguém lhe dirige perguntas, 
pois o impedia o trabalho espertado pelo alto frecheiro. 
Ares, o grande homicida, e a Discórdia que nunca se aplaca. 
   Os dois Ajazes, Diomedes, e o forte Odisseu os Aquivos

estimulavam, conquanto nenhum se mostrasse receoso 
do ímpeto grande dos Teucros, nem mesmo dos gritos que davam. 
Firmes, quedaram-se à espera, qual nuvem que Zeus deixa imóvel, 
por ocasião de bonança, nos picos mais altos dos montes, 
sem se mexer, quando Bóreas ao sono se entrega e os restantes 
ventos de força impetuosa que soem fazer dissiparem-se, 
quando sibilam violentos, as nuvens de aspecto sombrio: 
firmes, os Dânaos, desta arte, sem medo aos Troianos aguardam. 
Por entre as filas o Atrida corria, dando ordens diversas: 
   “Sede homens, caros amigos, e ardor demonstrai combativo!

Possa o respeito recíproco a todos na pugna dar ânimo. 
São mais poupados na guerra os que sabem morrer briosamente, 
ao passo que os fugitivos nem glória obterão, nem defesa.” 
   Disse, e atirou logo a lança, que foi atingir na vanguarda 
a Diecoonte, o consórcio de Eneias de espírito grande, 
filho de Pérgaso, a quem como aos filhos de Príamo os Teucros 
honras prestavam, por ser impetuoso e pugnar na dianteira. 
A este no escudo acertou a hasta forte do Atrida Agamémnone. 
Não resistiu nada o escudo, que a lança de bronze o atravessa, 
indo cravar-se no ventre, depois de o talim ter quebrado.

Com grande estrondo caiu, ressoando-lhe em torno a armadura. 
   Por sua vez mata Eneias dois fortes guerreiros Argivos, 
os caros filhos de Diocles, Orsíloco e Crétone. Casa 
na bem-construída cidade de Feras os pais tinha pronta, 
opulentíssima. Era ele da estirpe do Alfeio divino, 
o grande rio que corre através do terreno dos Pílios. 
Rei poderoso era Orsíloco, oriundo do Alfeio divino; 
por sua vez gera Orsíloco a Diocles, de espírito grande: 
Diocles, por último, foi genitor dos dois gêmeos galhardos, 
Crétone e Orsíloco, em todas as artes da guerra sabidos.

Ambos, no viço da idade, aos Argivos seguiram, quando estes 
em naus escuras vieram para Ílio, nutriz de ginetes, 
a fim de a injúria vingar, feita aos filhos de Atreu, Agamémnone 
e Menelau. A ambos eles a Morte impiedosa recobre. 
Como dois fortes leões pela mãe, com desvelos, criados 
no mais espesso das matas que os picos dos montes revestem, 
que bois costumam, depois, assaltar, e vistosas ovelhas, 
e as propriedades dos homens devastam, té virem a Morte, 
por sua vez, a encontrar pela mão de robustos pastores: 
do mesmo modo eles dois, pelo braço de Eneias feridos,

sobre o chão duro caíram, tal como dois grandes abetos. 
   Vendo-os tombar, teve dó Menelau, de Ares forte discípulo. 
Corta através das primeiras fileiras, em bronze envolvido, 
a lança forte a brandir. Incitava-o, por esse caminho, 
Ares, a fim de que fosse cair aos ataques de Eneias. 
Mas por Antíloco foi percebido, o Nestórida ilustre; 
corre para ele, receando que viesse a sofrer qualquer coisa, 
frustres deixando a eles todos os prêmios dos grandes trabalhos. 
Já frente a frente os dois cabos de guerra se achavam, com as lanças 
alevantadas, querendo dar ambos início ao combate.

Chega-se Antíloco para onde estava o pastor de homens fortes; 
retrocedeu, logo. Eneias, conquanto guerreiro animoso, 
quando viu juntos, dispostos contra ele, os dois fortes guerreiros. 
Estes então, para os homens Aquivos os corpos levaram 
desventurados, deixando-os a cargo de seus companheiros, 
e retornaram, sem mora, a lutar nas fileiras da frente. 
Matam Pilémenes, logo, notável discípulo de Ares, 
cabo viril dos heróis Paflagônios, armados de escudos. 
A esse, que estava de pé, com a lança bem junto à clavícula 
fere o nascido de Atreu, Menelau, mui famoso lanceiro.

Por sua vez, fere Antíloco ao claro cocheiro Midonte, 
filho de Antímnio valente, quando ele desviara os cavalos. 
Do cotovelo no meio o alcançou grande pedra, escapando-se-lhe 
das mãos as rédeas de enfeites ebúrneos, que tombam na poeira. 
Salta, ferindo-o na fonte, com a espada, o notável Nestórida. 
Estertorando, o guerreiro, do carro de bela feitura 
cai de cabeça, na poeira, onde o crânio, até os ombros, enterra. 
Por algum tempo ficou desse jeito — que a areia era muita —, 
té que os cavalos ao solo o fizeram rolar, quando Antíloco 
os chicoteou para ao campo levá-los dos homens Acaios.

Viu-os Heitor entre as filas dos seus, e sobre eles lançou-se 
com grandes gritos, seguido por muitas falanges Troianas, 
irresistíveis; Enió e Ares forte serviam de guia. 
Leva a primeira, consigo, o Tormento feroz da batalha; 
Ares avança, também, manejando uma lança monstruosa, 
ora passando na frente de Heitor, ora vindo após ele. 
Vendo-o, Diomedes, de voz retumbante, ficou receoso. 
Como o viandante, de meios privado, em planície extensíssima, 
para ante o curso impetuoso de um rio que ao mar se despenha, 
vendo-o espumoso a ressoar, e desanda, sem mais, o caminho:

por este modo o Tidida recuou, dirigindo-se aos sócios: 
   “Caros amigos, realmente, espantado me sinto ante o modo 
de o grande Heitor manejar a hasta longa e avançar impetuoso. 
Sempre ao seu lado se encontra algum deus, que dos golpes o livra. 
Ares agora, que o vulto assumiu de um mortal, o defende. 
Por isso tudo recuemos, sem dar aos Troianos as costas; 
não é prudente querer contra os deuses usar de violência.” 
   Os picadores Troianos já próximos deles se achavam. 
Nesse momento Heitor mata a dois fortes e excelsos guerreiros, 
que num só carro se achavam, Menestes e Anquíalo bravos.¹

O grande Ajaz Telamônio da sorte dos dois apiedou-se; 
junto dos corpos se pôs e atirou contra os Troas a lança, 
que em Anfião foi cravar-se, de Sélago o filho, que tinha 
casa e terrenos em Peso; porém induzido ele fora 
pelo Destino a socorro trazer para Príamo e os filhos. 
O grande Ajaz Telamônio o atingiu bem na altura do cinto, 
indo encravar-se no ventre a hasta longa de sombra comprida. 
Com grande estrondo caiu; salta Ajaz, o guerreiro notável, 
para privá-lo das armas; os Teucros, porém, lhe atiraram 
dardos em número grande que, em parte, no escudo se encravam.

A lança o herói conseguiu arrancar do cadáver, firmando-o 
com o calcanhar; mas não pôde dos ombros tirar-lhe a armadura 
de alto lavor, que se via alvejada por tiros sem conta. 
Teve, de fato, receio do ataque dos Teucros valentes, 
que, numerosos e fortes, armados de lança, o cercaram 
e a recuar o obrigaram, conquanto galhardo ele fosse 
e de grandíssimo vulto; fremindo de raiva, recua. 
   Por esse modo, eles todos, no prélio terrível lutavam. 
Leva o Destino potente a lutar contra o divo Sarpédone, 
o destemido Tlepólemo, de Héracles forte nascido.

Logo que os dois combatentes em frente se acharam um do outro, 
filho e o neto de Zeus poderoso, que as nuvens cumula, 
pôs-se Tlepólemo, logo, a falar, tendo dito o seguinte: 
   “Chefe dos Lícios guerreiros, Sarpédone, quem te concita 
a vir mostrar-te medroso, se nada de guerra conheces? 
Não falam certo os que dizem que és filho de Zeus poderoso, 
pois não revelas virtudes que tua pessoa equiparem 
aos varões fortes nascidos de Zeus nas idades passadas. 
Bem diferente, por certo, é o que de Héracles forte se conta, 
meu audacíssimo pai, de coragem leonina dotado,

que já aqui esteve, uma vez, por motivo dos fortes cavalos 
de Laomedonte, em seis naves somente e com bem pouca gente, 
quando destruiu a cidade, deixando as estradas desertas. 
Alma covarde te anima; teu povo tem sido destruído. 
Tenho certeza de que pouco auxílio trouxeste da Lícia 
para os guerreiros Troianos, embora valor estardeies. 
Ora, por mim jugulado, o limiar do Hades negro atravessas.” 
   O comandante dos Lícios, Sarpédone, disse, em resposta: 
“Ílio sagrada, Tlepólemo, foi destruída por Héracles 
em consequência da própria estultícia do herói Laomedonte,

que benefícios daquele pagou com palavras violentas, 
com recusar-lhe os cavalos que viera buscar de tão longe. 
Digo-te, entanto, que a lívida Morte hás de, agora, de minha 
mão receber; minha espada, prostrando-te, vai dar-me excelsa 
fama, mandando tua alma para Hades, de claros ginetes.” 
   Ainda falava Sarpédone, e a lança de freixo Tlepólemo 
já levantara; a um só tempo eles ambos as lanças jogaram. 
A de Sarpédone o imigo atingiu bem no meio do colo, 
de forma tal, que a hasta acerba foi logo sair do outro lado. 
Noite escuríssima, então, sobre os olhos lhe desce, envolvendo-os.

Na coxa esquerda, no entanto, também foi ferido Sarpédone 
pela hasta longa, que as carnes, sequiosa, do herói atravessa, 
té raspar o osso. Seu pai, dessa vez, o salvou do perigo. 
Os companheiros galhardos do divo Sarpédone, entanto, 
o retiraram da pugna. Afligia-o, demais, a hasta longa 
que era forçado a arrastar, pois ninguém se lembrou de, lá mesmo, 
da coxa o freixo arrancar-lhe, que fácil lhe fosse mover-se, 
tanta era a azáfama e a pressa ao redor do esforçado guerreiro. 
Por outro lado, os Aquivos do campo o cadáver tiraram 
do companheiro; esse foi pelo divo Odisseu conhecido,

o sofredor, que sentiu na alma grande incontida revolta. 
No coração e no espírito pôs-se a pensar o guerreiro 
sobre se fora melhor ir no encalço do filho de Zeus 
de voz tonante, ou se a muitos dos Lícios prostrasse sem vida. 
Mas o Destino assentara que o filho de Zeus poderoso 
não pelo bronze do grande Odisseu perecer deveria. 
Palas Atena, por isso, o desviou para a chusma dos Lícios, 
onde sem vida a Cerano deixou, ressupino, no campo, 
Crômio, Hálio, Alcandro, Noémone, Alástor e Prítanis forte. 
E, porventura, a outros Lícios o divo Odisseu prostraria,

se por Heitor, de penacho ondulante, notado não fosse. 
Corta através das primeiras fileiras, em bronze envolvido; 
aos Dânaos leva o terror; alegrou-se, no entanto, Sarpédone, 
filho de Zeus, à sua vista, e lhe fala com voz lamentosa: 
   “Filho de Príamo, faze que eu presa não seja dos Dânaos, 
abandonado; socorre-me! Possa colher-me, após isso, 
em vossos muros, a Morte, uma vez que o Destino me nega 
ver novamente, na pátria querida, meu rico palácio, 
e à cara esposa e aos filhinhos levar novamente alegria.” 
   Sem se deter, nada disse em resposta a essas suas palavras 

continua página 171...
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A peste e a ira
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Esse é um momento decisivo da aristeia de Diomedes, ainda no Canto V da Ilíada, quando o herói, que vinha agindo com fúria quase sobre-humana, de repente freia ao perceber que Heitor não está sozinho—há um deus ao lado dele, Ares, disfarçado de mortal. É sobre medo lúcido, não covardia; sobre o limite entre a coragem humana e a presença do divino.
     A comparação com o viajante diante do rio: “Como o viandante, de meios privado, em planície extensíssima, para ante o curso impetuoso de um rio que ao mar se despenha, vendo-o espumoso a ressoar, e desanda, sem mais, o caminho...” 
Imagem central: um viajante pobre, sem recursos, diante de um rio enorme, impetuoso, espumoso, barulhento.
Sentido: ele não atravessa; não porque seja fraco, mas porque reconhece o limite.
Aplicação a Diomedes: o herói percebe que, naquele ponto, a força que enfrenta não é apenas humana—é algo que o ultrapassa.
     Homero usa essa comparação para mostrar que recuar pode ser um ato de sabedoria, não de fraqueza.
     Diomedes reconhece o papel dos deuses: “Sempre ao seu lado se encontra algum deus, que dos golpes o livra. Ares agora, que o vulto assumiu de um mortal, o defende.”
     Aqui Diomedes faz três coisas importantes:
Reconhece a excelência de Heitor: “o grande Heitor manejar a hasta longa e avançar impetuoso”.
Percebe a intervenção divina: Heitor não é só bom guerreiro; ele é amparado por deuses.
Nomeia Ares: ele identifica que é o próprio deus da guerra, disfarçado, protegendo Heitor.
     Isso mostra que Diomedes não é apenas um bruto em fúria—ele é capaz de ler o campo de batalha, perceber o invisível, entender que há uma camada divina atuando.
     A prudência diante dos deuses: “Por isso tudo recuemos, sem dar aos Troianos as costas; não é prudente querer contra os deuses usar de violência.”
     Esse verso é chave:
“Recuemos, sem dar as costas”: não é fuga desonrosa; é reorganização, mantendo a frente voltada ao inimigo.
“não é prudente...”: Diomedes introduz a ideia de prudência no código heroico; há um limite ético e cósmico: não se luta contra deuses como se fossem homens.
     Isso dialoga com o que Apolo já havia dito antes: que é absurdo um mortal se achar igual aos deuses.
     Diomedes, então, internaliza essa advertência: ele continua herói, mas não quer ser sacrílego.
     Heitor em contraste: impulso e apoio divino: “Nesse momento Heitor mata a dois fortes e excelsos guerreiros...” 
     Enquanto Diomedes recua com lucidez, Heitor avança com fúria, matando Menestes e Anquíalo:
Heitor é o espelho troiano de Diomedes: ambos são grandes guerreiros, mas aqui Heitor está inflado por Ares.
A cena mostra o peso da intervenção divina: quando um deus está ao lado de um guerreiro, o equilíbrio da batalha se rompe.
     Temas profundos desse trecho:
Limite entre humano e divino - Diomedes entende que há um ponto em que a coragem se torna arrogância. O herói verdadeiro não é aquele que ignora os deuses, mas aquele que sabe até onde pode ir.
Coragem vs. imprudência - Recuar aqui não é covardia, é inteligência trágica: ele sabe que desafiar Ares diretamente seria violar a ordem do mundo.
A guerra como espaço de forças invisíveis - Homero mostra que a batalha não é só choque de lanças e escudos; é também campo de atuação dos deuses, que inclinam o destino de um lado ou de outro.
A tensão entre honra e sobrevivência - Diomedes quer manter a honra (“sem dar as costas”), mas também quer preservar a vida dos seus companheiros. Ele pensa como líder, não só como indivíduo em busca de glória.