terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Edgar Allan Poe - Contos: Um Manuscrito encontrado numa Garrafa (final)

Edgar Allan Poe - Contos



Um Manuscrito encontrado numa Garrafa
Título original: Manuscript Found in a Bottle 
Publicado em 1833


Parte Final



Quem não tem mais do que um momento de vida não pode dissimular. 
Quinault-Atys


Apossou-se da minha alma tal sentimento que não encontro palavras para o exprimir, uma sensação impenetrável á análise que não tem tradução nos dicionários conhecidos e cuja significação receio muito que não venha a encontrar-se no futuro.

Para um espírito constituído como o meu, esta última consideração era um verdadeiro suplício. Tenho o pressentimento de que não poderei revelar nunca a verdadeira significação das minhas ideias. No entanto é lógico, de certa maneira, que estas ideias permaneçam indefiníveis, visto que brotam de fontes absolutamente inéditas. Um novo sentimento, uma nova identidade incorporou-se na minha alma.

Há já muito tempo que pisei pela primeira vez a coberta deste navio e os raios do destino concentram-se cada vez mais.

Que gente incompreensível! Passam a meu lado sem me ver, embebidos em meditações cuja natureza não posso adivinhar. Seria loucura minha esconder-me deles, porque eles não podem ver-me. Há pouco passei em frente do imediato e antes disso aventurei-me a ir até ao próprio camarote do capitão, onde arranjei o que precisava para escrever o que antecede e o que se seguirá.

Tenho a intenção de escrever este relato de vez em quando. É certo que não terei forma nem ocasião de o transmitir ao mundo, mas, pelo menos, tentá-lo-ei. E, em último caso, porei o manuscrito numa garrafa e lançá-lo-ei ao mar.

***

Fiz recentemente muitas observações sobre a estrutura do barco. Embora bem armado, não creio que se trate de um navio de guerra. A sua mastreação e a sua tripulação repelem esta ideia. Sei perfeitamente o que não é, mas ser-me-ia impossível dizer o que é. Examinando a forma estranha e singular deste navio e
as suas colossais proporções, a prodigiosa quantidade de velas que tem, a sua proa severamente simples e a sua popa de um estilo exagerado, creio que a percepção de coisas não completamente desconhecidas atravessa o meu espírito como um relâmpago, misturando-se sempre a estas sombras flutuantes da memória uma inexplicável recordação das velhas lendas estrangeiras de séculos antiquíssimos.

***

Examinei cuidadosamente todo o madeiramento do barco. É feito de materiais desconhecidos para mim e parecem-me impróprios para o uso a que foram destinados.


Refiro-me à sua extrema porosidade, considerada independentemente do desgaste natural resultante de uma longa navegação por estes mares, e da podridão da velhice. Talvez se ache demasiado subtil a observação que vou fazer: mas dá-me a impressão de ser feito de madeira muito semelhante ao roble espanhol, se o roble espanhol pudesse ser dilatado por processos artificiais.

Relendo a frase anterior, lembro-me do curioso dito de um velho lobo-do-mar holandês:

— É positivo — dizia, sempre que duvidavam do que dizia — como é positivo que há um mar onde os barcos engordam como os corpos vivos dos marinheiros.

***

Há aproximadamente uma hora tive a audácia de me meter no meio de um grupo de indivíduos da tripulação. Não repararam em mim e, embora permanecesse no meio deles, parecia não terem o mais pequeno conhecimento da minha presença.


Tal como o seu companheiro que vi pela primeira vez na calheta, todos eles tinham o aspecto de uma grande decrepitude. Os seus joelhos tremiam de debilidade; a velhice lhe curvava as costas; a pele enrugada tremia com o vento ; a voz era surda e sacudida; os olhos estavam molhados de lágrimas senis e os cabelos grisalhos pareciam fugir com a tempestade.

Em volta deles jaziam espalhados instrumentos matemáticos de formas antiquíssimas e de emprego fora de uso.

***

O navio, com todas as velas desfraldadas, corria em direção ao Sul, sacudido e abanado pelo mais terrível inferno líquido que um cérebro humano possa conceber. Abandonei a coberta por não poder permanecer nela; a tripulação, no entanto, não mostra sofrer qualquer abalo.


Parece-me o milagre dos milagres que o mar não nos tenha engolido de uma vez para sempre. Estamos condenados, sem dúvida, a bordejar indefinidamente a eternidade, sem nunca mergulharmos no abismo. Deslizamos como aves marinhas sobre ondas mil vezes mais altas e temíveis que qualquer onda conhecida. Outras ondas colossais levantam a sua crista por cima de nós, como demónios que não pudessem passar de simples ameaças e aos quais fosse proibido destruir-nos.

Acabei por atribuir essa boa sorte perpétua à única causa natural que pode explicar semelhante efeito: o navio ser mantido por alguma forte corrente ou por redemoinhos submarinos.

***

Vi o capitão, frente a frente, no seu próprio camarote, mas, como eu supunha, não me prestou a menor atenção. Embora nada haja nele de superior ou inferior a qualquer homem, o assombro que senti na sua presença era impregnado de respeito e de terror supersticioso. Tem pouco mais ou menos a minha estatura; é bem proporcionado e de aspecto robusto, mas a sua constituição não revela um vigor extraordinário. O que é verdadeiramente singular é a expressão do seu rosto, a intensa, terrível e sugestiva aparência de velhice, tão completa, tão absoluta, que cria no meu espírito um sentimento inefável à medida que vou olhando para ele. A sua fronte, embora pouco enrugada, parece ter mil anos. Os seus cabelos grisalhos guardam o passado e os seus olhos, mais cinzentos ainda, como que profetizam o futuro.


O chão do seu camarote está juncado de estranhos volumes «in-fólio» com cantoneiras de ferro, de instrumentos científicos desusados e de antigos mapas de uma forma completamente esquecida.

Tinha a cabeça apoiada sobre as mãos, e o seu olhar ardente e inquieto devorava um pergaminho com a assinatura e os selos reais.

Falava consigo mesmo, como aquele marinheiro que vi pela primeira vez na calheta, e murmurava em voz baixa algumas sílabas de uma língua estranha. Embora estivesse muito perto dele, parecia-me que a sua voz chegava aos meus ouvidos vinda de uma milha de distância.

***

O barco e o seu recheio estão impregnados do espírito de outras épocas. Os homens da tripulação deslizam como sombras dos séculos sepultados. Nos seus olhos vive a inquietação dos pensamentos ardentes. E quando, ao cruzarem comigo, as suas mãos são iluminadas pela luz lívida dos fanais, sinto qualquer coisa que nunca senti, embora a minha vida esteja cheia da loucura das antiguidades, embora me tenha banhado na sombra das colunas arrumadas de Balbek, de Tadmor e de Persépolis, de tal forma que a minha alma acabou por ser uma ruína.

***

Quando olho à minha volta envergonho-me dos antigos terrores. Se a tempestade até agora me fez estremecer de horror, que sensações e que palavras, para a exprimir, necessitaria agora em face da batalha do vento e do oceano, uma batalha para a qual os conceitos vulgares de turbilhão não podem dar a menor ideia?


O barco ficou literalmente mergulhado nas trevas de uma noite eterna, num caos de água sem espuma, mas a distâncias circulares de uma légua, aproximadamente, podemos avistar bem distintamente e de vez em quando prodigiosas superfícies de gelo que sobem para o céu desolado como se fossem as muralhas do universo.

***

Como eu supusera, o navio está indubitavelmente numa corrente, se se pode chamar assim àquilo que vai rugindo e uivando através das brancuras glaciais, e que produz no lado Sul um ruído estrondoso mil vezes mais forte que o de uma catarata caindo verticalmente.

***

É impossível imaginar o horror das minhas sensações. No entanto, a curiosidade de penetrar o mistério desta terrível região é mais forte do que o terror, e até me reconcilia com a odiosa fisionomia da morte. Não há dúvida de que nos precipitamos à busca de um segredo incomunicável, cujo conhecimento só se consegue à custa da vida. Talvez esta corrente nos conduza ao próprio polo. Por muito estranha que seja esta suposição, é preciso acreditar nela.


A tripulação passeia sobre a ponte, inquieta e trémula. Todos os rostos têm uma expressão nova mais parecida com o ardor da esperança do que com a apatia do desespero.

Como levamos todas as velas desfraldadas, e o vento nos empurra, há momentos em que o navio salta fora do mar.

De súbito — horror dos horrores! — o gelo que nos cerca abre-se repentinamente, à direita e à esquerda, e damos voltas vertiginosas em imensos círculos concêntricos em redor das bordas gigantescas de um enorme anfiteatro, cujos muros se prolongam para além das trevas e do espaço.

Mas já não me resta tempo para sonhar o meu destino. Os círculos apertam-se rapidamente e mergulhamos no abraço, cada vez mais cingido, do turbilhão. E, através do mugido horrível do oceano e da tempestade, o navio estremece e — oh Deus! — afunda-se!





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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense.[1][2] Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica.[3] Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.


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Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849 2015



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Leia também:








Manuscrito encontrado em uma garrafa (áudio-book... partes 1 e 2)






Silvia Reis - Edgar Allan Poe é incomparável. O que mais me admira é a maneira sutil com que ele esconde e revela os mistérios de suas histórias. Pode-se ler esse conto com uma interpretação do sobrenatural: "Estão todos mortos". Mas também pode ser lido como uma abstração da realidade do narrador, se considerarmos os elementos indicativos que o autor nos sugere. Nesse caso, não podemos ignorar o carregamento de ópio que levavam no navio. Afinal, o navio "se afundou", mas os manuscritos foram colocados na garrafa. Bom! Acho que não tenho muita imaginação.


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