terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Edgar Allan Poe - Contos: Um Manuscrito encontrado numa Garrafa

Edgar Allan Poe - Contos



Um Manuscrito encontrado numa Garrafa
Título original: Manuscript Found in a Bottle 
Publicado em 1833


Primeira Parte



Quem não tem mais do que um momento de vida não pode dissimular. 
Quinault-Atys


Da minha pátria e da minha família tenho pouco que dizer. O meu mau procedimento e o decorrer dos anos tornaram-me estranho a ambas. Graças ao meu patrimônio, tive o benefício de uma educação pouco vulgar, e a inclinação do meu espírito para a contemplação deu-me possibilidades de classificar metodicamente todo esse material instrutivo acumulado pelo estudo aturado. 

As obras dos filósofos alemães, sobretudo, causaram-me infinitas delícias, não por admiração pela sua eloquente loucura, mas pelo prazer que, por virtude dos meus hábitos de rigorosa análise, sentia surpreendendo os seus erros. 

Censuraram-me muitas vezes o gênio azedo e a falta de imaginação. O pirronismo das minhas opiniões tornou-me célebre. 

Temo, realmente, que uma forte inclinação para a filosofia da física tenha impregnado o meu espírito de um dos defeitos mais comuns deste século, ou seja o costume da relacionar com os princípios desta ciência as circunstâncias menos suscetíveis de semelhante relação. 

Considero oportuno este preâmbulo, perante o receio de que o incrível relato que vou fazer seja considerado como o frenesi de uma imaginação desvairada e não como a experiência positiva de um homem para o qual não existiram nunca as lucubrações imaginativas. 

Após muitos anos sem proveito numa longa e longínqua viagem, embarquei em 18... em Batávia, na seca e populosa ilha de Java, para dar um passeio pelo arquipélago das ilhas de Sonda. 

Ia como simples passageiro, visto que não me impelia outro móbil além da minha instabilidade nervosa, sempre tentadora como um mau espírito. O barco tinha aproximadamente 400 toneladas, fora construído em Bombaim, e ia carregado de algodão, lã e óleo das Laquedivas. 

Levávamos também outro carregamento: açúcar de palma, cocos e algumas caixas de ópio. Durante alguns dias, permanecemos ao largo da costa oriental de Java, sem outro incidente que cortasse a monotonia da viagem além do aparecimento de algumas ilhotas. 

Uma tarde, estava eu apoiado à borda do tombadilho, quando vi uma singularíssima nuvem isolada no lado noroeste do céu. Distinguia-se não só pela sua cor como por ser a primeira que tínhamos visto desde a partida de Batávia. Examinei-a atentamente até ao pôr do sol; então estendeu-se de Este para Oeste, marcando no horizonte uma linha nítida de vapor que parecia um troço de costa muito baixa. 

Mas, em breve, a minha atenção foi distraída pelo aspeto vermelho-escuro da lua e pela estranha fisionomia do mar. Este último sofrera uma rápida transformação; a água parecia mais transparente que de costume e distinguia-se o fundo com toda a nitidez. Não obstante isso, ao deitar a sonda verificamos que estávamos a uma altura de quinze braças. 

O ar tornou-se intoleravelmente cálido e estava carregado de exalações semelhantes às que emanam do ferro incandescente. Com a noite, a brisa amainou completamente e fomos envolvidos por uma calma absoluta. A chama de uma vela ardia sem o menor movimento sensível e um cabelo suspenso entre o indicador e o polegar caía a direito sem a mais pequena oscilação. 

No entanto, como o capitão dizia que não havia nenhuma ameaça de perigo, e como derivávamos para terra, ficamos tranquilos. Colheram-se as velas e lançou-se a âncora. Não se pôs vigia de quarto e a tripulação, composta principalmente de malaios, deitou-se sobre a ponte. 

Fui para o meu camarote com alguma inquietação, porque tinha o pressentimento de uma desgraça. 

Todos aqueles sintomas faziam prever um ciclone, mas, quando o disse ao capitão, este encolheu os ombros e voltou-me as costas sem me responder. 

Como não podia conciliar o sono, à meia-noite subi para a coberta. Ao pôr o pé sobre o último degrau fiquei aterrado com um rumor profundo, semelhante ao que produz a rotação rápida de uma roda de moinho, e antes que pudesse averiguar a causa reparei que o navio estremecia sacudido violentamente. Um golpe de mar deitou-o de lado e, passando por cima de nós, varreu a coberta.

A própria fúria do vento contribuiu para o salvar, embora mergulhasse quase por completo na água. Como os seus mastaréus ficaram livres, tornou a levantar-se lentamente, vacilou um instante sobre a enorme pressão da tempestade, e por fim voltou à antiga posição. 

Escapei da morte milagrosamente. Atordoado pelo violento choque da água, encontrei-me, ao voltar a mim, entre o cadaste e o timão. Consegui, com muito trabalho, pôr-me em pé e, ao olhar à minha volta, imaginei que estávamos no meio da rebentação do mar contra os escolhos, tão terrível era o torvelinho em que nos encontrávamos. 

Ao cabo de alguns momentos, ouvi a voz de um velho sueco que tinha embarcado minutos antes do navio abandonar o porto. Chamei-o aos gritos e, cambaleando, dirigiu-se para mim. 

Em breve percebemos que éramos os únicos sobreviventes do desastre. Tudo o que estava sobre a coberta, exceto nós, tinha ido pela borda fora. O capitão e os marinheiros morreram durante o sono, porque os seus camarotes foram inundados. 

Sozinhos, nada podíamos fazer para salvar o navio, nem tão pouco nos deixava pensar nisso a certeza que tínhamos de que íamos morrer de um momento para o outro. Éramos acossados pelo furacão e a água precipitava-se de todos os lados; no entanto, verificamos que as bombas funcionavam e que o carregamento não tinha sofrido muito. 

Durante cinco dias e cinco noites inteiras, em que vivemos de alguns pedaços de açúcar de palma, o barco continuou a sua correria com incalculável rapidez, impelido pelas correntes de ar que se sucediam assustadoramente e que, sem igualar o primeiro ímpeto do tufão, eram no entanto muito mais terríveis que as de qualquer outra tempestade conhecida. 

Nos primeiros dias, a nossa rota, salvo ligeiras variações, foi a do sudoeste, em direção às costas da Nova Zelândia. 

Ao quinto dia o frio aumentou, embora o vento viesse do Norte. O sol ergueu-se com um resplendor amarelento e doentio, sem projetar uma luz clara. Não se via nenhuma nuvem e, no entanto, o vento esfriava e soprava furioso. Cerca do meio dia, o aspeto do sol chamou a nossa atenção. Realmente, não desferia verdadeira luminosidade mas uma espécie de fulgor sombrio e triste, sem reflexos, como se todos os seus raios estivessem polarizados. Antes de mergulhar no mar, o seu clarão central desapareceu repentinamente, como se um poder inexplicável o tivesse apagado de súbito. Não era mais que uma rosa pálida e prateada quando se precipitou no oceano insondável. 

Inutilmente esperamos a chegada do sexto dia. Este dia não chegou ainda para mim; para o sueco não chegou nunca. 

A partir desse momento ficamos sepultados em trevas muito espessas e não distinguíamos um objeto a vinte passos do navio. Envolvia-nos uma noite eterna que não era sequer aliviada pelo resplendor fosfórico do mar, ao qual estávamos acostumados nos trópicos. Observamos igualmente que, apesar da tempestade continuar, raivosa e enfurecida, já não sentíamos nenhuma ressaca nem os alvacentos carneirinhos que nos acompanhavam e sacudiam dias antes. 

Em volta de nós, o horror, a escuridão impenetrável e o negro deserto de ébano líquido. Pouco a pouco, ia-se infiltrando no espírito do velho sueco um terror supersticioso e a minha alma mergulhava em muda estupefação. 

Abandonamos por completo toda a reparação e cuidado com o barco e, abraçados ao pau de mezena, passeávamos os nossos olhares amargamente sobre a imensidade oceânica. Faltavam-nos os meios para calcular o tempo e não podíamos fazer a mais pequena conjetura sobre a nossa situação. Estávamos certos, contudo, de ter ido muito mais para o sul que nenhum dos anteriores navegantes e surpreendia-nos não encontrar o natural obstáculo do gelo. Cada minuto nos parecia ser o último da nossa existência e cada onda nos parecia a derradeira que veríamos. Realmente, só por milagre escapamos de ser engolidos pelo mar em fúria. 

O meu companheiro falava da leveza do carregamento e recordava as excelentes qualidades do navio, mas eu já tinha renunciado de antemão à vida e p reparava-me melancolicamente para a morte, que nada poderia deter mais de uma hora, porque a cada novo avanço do barco aquele mar negro e prodigioso adquiria um aspeto mais lúgubre e fatal. 

Às vezes, a uma altura maior que a do albatroz, a respiração faltava-nos. Outras vezes descíamos vertiginosamente ao fundo de um inferno líquido, onde não parecia existir ar nem som. Estávamos no fundo de um desses abismos quando um súbito grito do meu companheiro rasgou sinistramente a noite: 

— Olhe, olhe! — exclamou ao meu ouvido. — Deus omnipotente! 

Uma luz vermelha, com um brilho sombrio e triste, flutuava e lançava sobre o barco um reflexo vacilante. 

Levantei o olhar e vi então um espetáculo que me gelou o sangue nas veias. A uma altura tremenda, justamente por cima de nós, e sobre a própria crista do precipício, passava um barco gigantesco, talvez de 4000 toneladas. Embora empoleirado no alto de uma onda cem vezes mais alta do que ele, parecia de dimensões muito maiores do que as de qualquer outro barco de linha ou da Companhia das índias. O seu enorme casco, pintado de um negro carregado, não era aligeirado por nenhum dos ornamentos próprios dos navios. Uma simples fileira de canhões devolvia, refletida pela sua superfície polida, a luz de inumeráveis faróis de combate que se balançavam nos seus mastros. Mas o que nos inspirou maior assombro e terror foi o facto de navegar com as velas desfraldadas no meio daquele mar sobrenatural e tempestuoso. 

Durante um momento — momento de supremo terror — vacilou no alto do abismo, depois estremeceu, inclinou-se, e por fim deslizou pela vertente abaixo. 

Ignoro como pude conservar o sangue-frio para dominar o pavor. Recuando o mais possível, aguardei impávido a catástrofe que devia esmagar-nos. A nossa embarcação já não lutava com o mar e mergulhava de proa, lentamente. 

Assim, pois, o enorme e misterioso navio chocou com a parte do nosso que estava já debaixo de água, do que resultou eu ser arremessado para o cordame da sua mastreação. 

Quando caí, o navio teve um momento de quietação, depois virou rapidamente e isso, sem dúvida, produzindo uma natural confusão, fez com que a minha presença passasse despercebida. Não tive muito trabalho em escapar-me, sem ser visto, pela escotilha principal, e pude esconder-me no canto mais obscuro e afastado da calheta. Não sei dizer como nem porque o fiz. O que me levou a isso foi um vago sentimento de terror que se apoderou do meu espírito perante o aspeto da sua tripulação. 

Não me lembro de nenhuma raça que apresentasse aquelas características de indefinível raridade e que pudesse produzir tantas razões de dúvida e de desconfiança. 

Apenas tinha conseguido ocultar-me quando senti um ruído de passos. Um homem passou diante do meu esconderijo. Não podia ver-lhe o rosto mas pude observar-lhe o aspeto geral. Tinha toda a aparência de um ser débil e caduco. Os joelhos dobravam-se-lhe sob o peso dos anos e um tremor constante sacudia-lhe o corpo. Falava consigo mesmo, com voz débil e entrecortada, em palavras de um idioma incompreensível, enquanto revolvia um canto onde se empilhavam instrumentos de formas estranhas e cartas de navegação deterioradas. Os seus gestos e atitudes eram uma mistura singular da fraqueza de uma segunda infância e da dignidade solene de um deus. Ao fim de certo tempo voltou para a coberta e já o não vi mais.



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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense.[1][2] Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica.[3] Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.


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Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849 2015

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