Mostrando postagens com marcador ContoTerror. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ContoTerror. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de março de 2021

Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 21 — Cataclismo Artificial

 Edgar Allan Poe - Contos





Aventuras de Arthur Gordon Pym 
Título original: Narrative of A. G. Pym 
Publicado em 1837





21 — Cataclismo Artificial




Quando recuperei os sentidos, senti-me quase sufocado, mergulhado na mais profunda escuridão, entre uma massa de terra difusa que rolava pesadamente sobre mim vinda de todos os lados e ameaçando enterrar-me completamente. Alarmadíssimo com esta ideia, esforcei-me por me pôr de pé, o que por fim consegui. Então permaneci imóvel durante alguns instantes, tentando compreender o que me tinha acontecido e onde estava. Em breve ouvi um profundo gemido, mesmo junto a mim, e pouco depois, a voz abafada de Peters que, por amor de Deus, suplicava que o auxiliasse. A custo, dei um ou dois passos e tropecei na cabeça e nos ombros do meu camarada, que estava meio enterrado e que lutava com desespero para se livrar daquela opressão. Com toda a energia que tinha afastei a terra mole que o rodeava e acabei por conseguir libertá-lo. Assim que recuperamos o suficiente do nosso terror e surpresa, e que pudemos raciocinar, chegamos os dois à conclusão de que as paredes da abertura, onde nos tínhamos aventurado, devido a qualquer convulsão natural ou talvez devido ao seu próprio peso, se tinham desmoronado, enterrando-nos vivos e deixando-nos perdidos para sempre. Durante bastante tempo, abandonámo-nos cobardemente à dor e ao desespero mais terríveis, que só aqueles que já passaram por uma situação semelhante poderão compreender. Estou firmemente convencido de que nenhum dos acidentes que podem semear a existência humana é mais suscetível de criar o paroxismo da dor física e moral do que um caso semelhante ao nosso: — ser enterrado vivo! As trevas que envolvem a vítima, a opressão terrível dos pulmões, as exalações sufocantes da terra húmida juntam-se a este horrível pensamento, que estamos para lá dos confins da mais longínqua esperança e que estamos na mesma condição dos mortos, lançando no espírito humano um calafrio, um horror deslizante, que são intoleráveis e impossíveis de conceber.

Por fim, Peters propôs que, antes de mais, devíamos verificar até que ponto ia a nossa desgraça e investigar bem a nossa prisão, pois não era completamente impossível que conseguíssemos descobrir uma abertura por onde escapar. Agarrei-me desesperadamente a esta esperança e, apelando para toda a minha energia, esforcei-me pior descobrir uma caminho através daquele amontoado de terra desmoronada. Mal tinha dado um passo, quando um raio de luz chegou até mim, quase imperceptível é certo, mas suficiente para me convencer que não morreríamos imediatamente por falta de ar. Então recuperamos um pouco a coragem e tentámos convencer-nos mutuamente de que tudo correria pelo melhor. Depois de termos trepado por cima de um monte de escombros que obstruíam a nossa passagem em direção à luz, foi-nos mais fácil avançar e sentimos um certo alívio da excessiva opressão que nos atormentava os pulmões. Em breve conseguíamos distinguir os objetos que nos rodeavam e descobrimos que estávamos quase na extremidade da fenda que se estendia em linha reta, isto é, no ponto onde curvava para a esquerda. Mais um esforço e atingimos a curva, onde, com alegria indescritível, distinguimos uma longa cicatriz ou fenda que se estendia a uma grande distância em direção à parte superior, fazendo de um modo geral ângulo de cerca de quarenta e cinco graus, por vezes mais em certos pontos. O nosso olhar não conseguia verificar toda a extensão da abertura, mas pela luz que por ela entrava tínhamos quase a certeza (se acaso pudéssemos trepar até ao cimo) de encontrar uma saída para o ar livre.

Lembrei-me então que tínhamos sido três a abandonar o caminho principal para entrar na fenda e que ainda não tínhamos encontrado o nosso camarada Allen; assim; resolvemos voltar para trás para o procurar. Depois de longa busca, recheada de perigos devido à massa superior de terra que se abatera sobre nós, Peters exclamou por fim que tinha tropeçado num dos pés do nosso camarada e que todo o corpo estava tão profundamente enterrado que era impossível retirá-lo. Depressa verifiquei que Peters tinha razão e que Allen já devia estar morto há muito tempo. Com tristeza, abandonamos o corpo ao seu destino e encaminhámo-nos de novo para a curva do túnel.

A largura da fenda mal dava para os nossos corpos e, depois de uma ou duas tentativas infrutíferas para subir, começamos a desesperar de novo. Já disse que a cadeia de montanhas através da qual o desfiladeiro se estendia era formada por uma espécie de rochas semelhantes a esteatite ou pedra-sabão. As paredes da abertura que tentávamos alcançar eram feitas da mesma substância e eram tão escorregadias e húmidas que mal conseguíamos fixar os pés, mesmo nos pontos menos íngremes; noutros sítios, onde a escalada era quase perpendicular, as dificuldades eram naturalmente muito maiores e durante algum tempo pensámos que nunca conseguiríamos transpô-las. No entanto, tiramos a coragem do nosso desespero e, tendo tido a feliz ideia de escavar degraus na rocha com as nossas facas de mato, subimos, correndo o risco de nos matarmos, apoiando-nos em pequenas saliências feitas de uma espécie de argila xistosa um pouco mais dura, que aqui e ali se destacava das paredes, e finalmente chegámos a uma plataforma natural donde se avistava uma nesga do céu azul, na extremidade de uma ravina muito arborizada. Olhando para trás e examinando com cuidado a passagem através da qual tínhamos subido, vimos claramente, pelo aspecto das paredes, que era de formação recente e concluímos que o tremor de terra que tão inesperadamente nos tinha sepultado, fosse de que natureza fosse, também nos tinha aberto um caminho de salvação. Quase esgotados devido aos esforços feitos, e tão fracos que mal podíamos manter-nos de pé e pronunciar qualquer palavra, Peters, teve a ideia de dar o alarme aos nossos companheiros, disparando as pistolas que tinha à cintura, já que tínhamos perdido as espingardas e as catanas no meio dos destroços no fundo do abismo. Os acontecimentos subsequentes provaram que, se tivéssemos feito fogo, nos teríamos arrependido amargamente, mas por felicidade uma vaga suspeita de que tínhamos sido vítimas de uma infame patifaria, despertou no meu espírito e não quisemos dar a conhecer aos selvagens o local onde nos encontrávamos.

Depois de termos descansado durante cerca de uma hora, seguimos lentamente para o cimo da ravina e ainda não tínhamos avançado muito quando ouvimos uma série de horríveis bramidos. Atingimos por fim aquilo a que podíamos chamar a superfície, porque o nosso caminho até ali, desde que tínhamos deixado a plataforma, tinha serpenteado sob um túnel de altas rochas e folhagem, numa grande distância acima das nossas cabeças. Com a maior prudência rastejamos até uma abertura estreita, donde nos foi fácil ver toda a região que nos rodeava e, finalmente foi-nos revelado num momento e à primeira vista todo o segredo do tremor de terra.

O nosso ponto de observação não estava longe do pico mais elevado da cadeia de montanhas de esteatite. A garganta onde se tinha metido o nosso grupo de trinta e dois homens estendia-se a cinquenta pés à nossa esquerda. Mas, numa extensão de cerca de cem jardas, o desfiladeiro ou leito daquela garganta, estava completamente coberto pelos destroços caóticos de mais de um milhão de toneladas de terra e pedras, verdadeira avalanche artificial que para lá fora lançada propositadamente. O método utilizado para fazer deslizar aquela vasta massa era tão simples como evidente, pois ainda havia vestígios da criminosa ação. Em vários pontos, ao longo da crista Este da garganta (nós estávamos a Oeste) podíamos distinguir estacas de madeira enterradas no solo. Nesses sítios o terreno não cedera, mas ao longo de toda a vertente do precipício, donde a massa se tinha desprendido, era evidente, por certos vestígios deixados no solo, semelhantes aos deixados quando se fazem escavações, que outras estacas iguais às que ainda subsistiam tinham estado fixas, a uma distância de uma jarda entre si, talvez num comprimento de cem pés, sobre uma linha situada a cerca de dez pés da borda do abismo. Fortes ligamentos de videira ainda estavam presos às estacas que subsistiam na colina, e era evidente que cordas da mesma natureza deviam ter unido cada uma das outras estacas. Já mencionei a estratificação singular destas colinas de pedra-sabão e a descrição que fiz da estreita e profunda fenda através da qual escapamos à nossa terrível sepultura deve servir para compreenderem melhor a natureza do terreno, que era tal que a primeira convulsão natural devia fender o solo em camadas perpendiculares ou linhas paralelas, e que um pequeno esforço propositado devia ser suficiente para obter o mesmo resultado. Foi desta estratificação especial que os selvagens se serviram para levar a bom termo a sua abominável traição. Não havia dúvida que a ruptura parcial do solo se tinha operado graças àquela linha contínua de estacas, enterradas a uma profundidade de um ou dois pés e que um selvagem colocado na extremidade de cada uma das cordas, puxando-as (as cordas estavam presas à ponta das estacas e estendiam-se desde a crista do monte) obteria uma enorme força de alavanca capaz de precipitar, a um determinado sinal, toda a parede da colina no fundo do abismo. O destino dos nossos pobres camaradas também não podia ser objeto de dúvidas. Nós éramos os únicos sobreviventes daquele cataclismo artificial. Éramos os únicos homens brancos vivos na ilha.





continua na página 256...


__________________


Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.




____________________


Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849


_____________________


Leia também:

Edgar Allan Poe - Contos: MetzengersteinEdgar Allan Poe - Contos: Silêncio
Edgar Allan Poe - Contos: Um Manuscrito encontrado numa Garrafa
Edgar Allan Poe - Contos: A Entrevista
Edgar Allan Poe - Contos: Berenice (começo)
Edgar Allan Poe - Contos: Morella
Edgar Allan Poe - Contos: O Rei Peste
Edgar Allan Poe - Contos: O Rei Peste (fim)
Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (01)
Edgar Allan Poe - Contos: A Sombra
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym (Prefácio)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(3)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido (1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido (2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 4 — Revolta e Massacre
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 5 — A Carta de Sangue
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 6 — Um Raio de Esperança
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 7 — Plano de Libertação
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 8 — O Fantasma
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 9 — A Pesca dos Víveres 
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 10 — O Brigue Misterioso 
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 11 — A Garrafa de Porto
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 12 — A Palha Mais Curta
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (1) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (2) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (1) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (2) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 15 — As Ilhas que não se encontram
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 16 — As Explorações do Polo Sul
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 17 — Terra!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 18 — Outros Homens
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 19 — Klock - Klock

Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 20 — Enterrados vivos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 21 — Cataclismo Artificial
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 22 — Takeli-li

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 20 — Enterrados vivos!

Edgar Allan Poe - Contos





Aventuras de Arthur Gordon Pym 
Título original: Narrative of A. G. Pym 
Publicado em 1837





20 — Enterrados vivos!




O chefe foi fiel à sua palavra e forneceu-nos provisões frescas em grande abundância. Achámos as tartarugas mais saborosas do que quaisquer outras que jamais tínhamos provado e os patos eram superiores às nossas melhores espécies de aves selvagens — excecionalmente tenros, suculentos e de sabor requintado. Além disso, os selvagens trouxeram-nos, depois de lhes termos feito compreender o nosso desejo, uma grande quantidade de aipo castanho e de cocleária, ou erva contra o escorbuto, assim como uma canoa cheia de peixe fresco e seco. O aipo foi para nós um verdadeiro regalo e a cocleária teve um resultado admirável, servindo para curar aqueles de nós que já tinham manifestado sintomas de doença. Em pouco tempo todos os enfermos se curaram. Recebemos ainda outras provisões frescas em abundância, entre as quais devo citar uma espécie de marisco, que pela forma se assemelhava ao mexilhão mas que sabia a ostra. Também nos trouxeram grande quantidade de camarões das duas espécies e ovos de albatroz e de outras aves, cujas cascas eram negras. Embarcámos uma boa provisão de carne de porco, da espécie de que já falei. A maior parte dos nossos homens achou-o um alimento agradável, mas a mim pareceu-me impregnado de um cheiro a peixe absolutamente repugnante. Em troca de todas estas boas coisas oferecemos aos nativos colares de contas azuis, joias de cobre, pregos, facas e tecidos vermelhos e eles mostraram-se encantados com a troca. Estabelecemos na costa um mercado regular, ao alcance dos canhões da escuna, e todo o tráfego se desenrolou sob a aparência da boa fé e com uma ordem que não seria de esperar da parte dos selvagens a julgar pela sua conduta na aldeia de Klock-Klock.

As coisas correram desta forma agradável durante alguns dias e nesse período grupos de indígenas vieram a bordo da escuna, enquanto destacamentos dos nossos homens se deslocaram várias vezes a terra, fazendo longas incursões para o interior e não sofrendo da parte dos selvagens nenhum vexame. Vendo a facilidade com que o navio podia ser carregado de escombro-do-mar, graças à disposição amistosa dos ilhéus e ao auxílio que nos podiam prestar para o apanhar, o capitão Guy resolveu entrar em negociações com Too-wit relativamente à construção de edifícios apropriados para a preparação do artigo e à forma de recompensá-lo e aos seus homens pelo trabalho de recolher o mais possível, enquanto nós aproveitaríamos o bom tempo para seguir a nossa viagem em direção ao Sul. Quando o chefe foi informado deste plano, pareceu disposto a aceitá-lo e, assim, o negócio foi concluído com vantagens para ambas as partes, ficando combinado que, depois dos preparativos necessários, tais como a escolha de um local conveniente e a construção de uma parte dos edifícios ou outras tarefas para as quais fosse preciso a participação de toda a tripulação, a escuna levantaria âncora, deixando na ilha três tripulantes para vigiarem o cumprimento do projeto e ensinarem aos nativos o modo de secar o escombro-do-mar. Quanto ao modo de pagamento dependeria do zelo e da atividade dos selvagens. Deviam receber uma certa quantidade de contas azuis, facas e panos vermelhos em troca de um certo número de piculs de escombro-do-mar, que tivessem preparado durante a nossa ausência.

Uma descrição da natureza deste importante artigo de comércio e do método de o preparar pode ter algum interesse para os leitores e acho que esta é a ocasião apropriada para o fazer. O relato que se segue, relativo à substância em questão, foi tirado de uma narrativa recente de uma viagem aos mares do Sul:

« Este molusco dos mares do Sul que comercialmente é conhecido pelo nome francês de bouche de mer (manjar extraído do mar) é aquele a que, se não estou em erro, Cuvier chama gasteropeda pulmonifera. Colhe-se em abundância nas costas das ilhas do Pacífico, principalmente para o mercado chinês, onde está cotado a alto preço, quase tanto como esses famosos ninhos comestíveis, que são feitos de uma matéria gelatinosa que determinada espécie de andorinha retira dos corpos destes moluscos. Não possuem nem concha, nem patas, nem qualquer membro saliente, exceto um órgão de absorção e outro de excreção, situados em partes opostas; mas, graças aos seus anéis, elásticos como os das lagartas e dos vermes, arrastam-se para os recifes pouco profundos onde, quando a maré está baixa, são apanhados por uma espécie de andorinha, cujo bico agudo lhes penetra o corpo mole retirando uma substância gomosa e filamentosa que lhes serve, quando seca, para solidificar as paredes do ninho. Daí o nome de gasteropeda pulmonifera.

« Estes moluscos têm uma forma oblonga e as suas dimensões variam entre 3 e 18 polegadas de comprimento; vi alguns que atingiam os dois pés. São quase redondos, mas ligeiramente achatados num dos lados, aquele que está virado para o fundo do mar, e têm uma espessura que varia entre 1 e 8 polegadas. Arrastam-se pelos recifes pouco fundos em certas épocas do ano, provavelmente para se reproduzirem, pois são vistos muitas vezes aos pares. Aproximam-se da costa quando o sol incidindo sobre a água a aquece e, por vezes, vão para águas tão pouco fundas que, quando a maré baixa, ficam expostos ao calor do sol. No entanto, não se reproduzem nos baixios, pois nunca vimos nenhuma cria e, quando os observámos a subir de águas mais fundas já tinham sempre atingido o seu estado adulto. Alimentam-se principalmente dessa espécie de zoófitos que o coral produz.

« O escombro-do-mar apanha-se geralmente a uma profundidade de três ou quatro pés, depois do que é levado para a costa, onde, com a ponta de uma faca, se lhe faz uma incisão numa das extremidades, com cerca de uma polegada ou mais, segundo as dimensões do molusco. Através desta abertura tiram-se as entranhas, pressionando o corpo do animal, as quais, aliás, são semelhantes às de todos os pequenos animais que habitam o mar. São então lavadas e depois postas a ferver a uma determinada temperatura que não deve ser nem muito alta nem muito baixa. Seguidamente envolvem-se em terra durante quatro horas, fervem mais um pouco e finalmente põem-se a secar ou ao lume ou ao sol. Os moluscos melhores são os que são secos ao sol, mas, enquanto por este meio se obtém o valor de um picul (133 libras e 1/3), ao lume podem-se secar trinta piculs. Quando são convenientemente secos, podem ser conservados sem perigo três ou quatro anos num local seco, embora seja necessário examiná-los de vez em quando, talvez quatro vezes por ano para ver se a humidade não os atingiu e estragou.

« Os chineses, como já disse, consideram o escombro-do-mar um dos mais deliciosos manjares, atribuindo-lhes os mais altos poderes alimentícios e fortificantes, além de o acharem apropriado para rejuvenescer um temperamento esgotado pelas volúpias desregradas. O molusco de primeira qualidade está altamente cotado em Cantão, onde se vende a 90 dólares o picul; o de segunda qualidade a 75 dólares; o de terceira a 50 dólares; o de quarta a 30 dólares; o de quinta a 20 dólares; o de sexta a 12 dólares; o de sétima a 8 dólares; e o de oitava a 4 dólares. No entanto, acontece que por vezes os pequenos carregamentos conseguem preços mais elevados nos mercados de Manila, Singapura e Batavia.»

Estabelecido o acordo, desembarcamos imediatamente tudo o que era necessário para começar as construções e desbravar terreno. Escolhemos um amplo terreno plano, perto da costa e da baía, onde existia em abundância água e madeira, e a uma distância conveniente dos principais recifes onde se podia procurar o escombro-do-mar. Pusemos todos mãos à obra com grande afinco e em breve, para grande surpresa dos selvagens, tínhamos abatido um número de árvores suficiente para os nossos desígnios, as quais aparelhamos e fixamos para armar as construções. Ao fim de dois ou três dias os trabalhos estavam tão adiantados, que os podíamos entregar descansados aos três homens que deviam ficar em terra. Eram eles John Carson, Alfred Harris e... Peterson (todos de Londres, segundo julgo) que aliás se ofereceram para este serviço.

No fim do mês tínhamos tudo preparado para partir. No entanto, tínhamos combinado fazer uma visita solene de despedida à aldeia, e Too-wit insistiu tanto na necessidade de cumprirmos esta promessa, que julgamos conveniente não o ofender com uma recusa definitiva. Julgo que naquela altura nenhum de nós tinha a menor dúvida sobre a boa fé dos selvagens. Todos os nativos se tinham comportado respeitosamente, auxiliando-nos de bom grado nos nossos trabalhos, oferecendo-nos os seus produtos, muitas vezes gratuitamente e nunca, em caso algum, nos roubaram um único objeto, apesar do alto valor que atribuíam às nossas mercadorias a julgar pelas extravagantes demonstrações de alegria que faziam cada vez que os presenteávamos. Especialmente as mulheres eram muito solícitas em tudo e, numa palavra, teríamos de ser os homens mais desconfiados do mundo para suspeitarmos de qualquer pensamento de perfídia da parte de um povo que nos tratava tão bem. Porém precisamos de pouco tempo para verificarmos que aquela aparente solicitude não era mais do que o resultado de um plano bem estudado para nos levar à destruição e que aqueles ilhéus que nos tinham inspirado sentimentos de estima, pertenciam à raça dos mais bárbaros, manhosos e sanguinários miseráveis que jamais contaminaram o globo.

Foi no dia 1 de fevereiro que fomos a terra para visitar a aldeia. Embora, repito, não tivéssemos a menor suspeita, não negligenciamos nenhuma medida de precaução. Seis homens permaneceram a bordo da escuna, com ordem de não deixarem aproximar nenhum selvagem durante a nossa ausência, sob que pretexto fosse, e de estarem sempre na coberta. Recolheram-se as redes de filerete, carregaram-se os canhões com uma carga dupla de balas e metralha e as roqueiras foram carregadas com as caixas de balas de espingarda. O navio estava ancorado, com a âncora a pique, a cerca de uma milha da costa e nenhuma embarcação se podia aproximar por qualquer dos lados sem ser vista e sem ficar imediatamente ao alcance do fogo da nossa artilharia.

Excluindo os seis homens que tinham ficado a bordo, o nosso grupo era constituído por trinta e dois indivíduos, todos armados até aos dentes com espingardas, pistolas e punhais, além de cada homem levar a sua faca de marinheiro, um pouco semelhante à faca de mato, hoje tão popularizada em todas as nossas regiões do Sul e do Oeste. Uma centena de guerreiros, envergando peles negras, foram ao nosso encontro para nos conduzirem. Devo dizer que notamos com certa surpresa que não estavam armados. Quando interrogamos Too-wit sobre o assunto, respondeu-nos simplesmente: Mattee non we pa pa si — isto é — Entre irmãos não são precisas armas. Consideramos esta resposta favorável e prosseguimos o nosso caminho.

Tínhamos já passado a nascente e o regato de que falei anteriormente e penetrávamos numa estreita garganta através de colinas de pedra, no meio das quais estava situada a aldeia. A garganta era rochosa e muito desigual, a ponto de, por ocasião da nossa primeira incursão com Too-wit, a termos passado com extrema dificuldade. A ravina devia ter uma milha ou mais de comprimento. Serpenteava em mil sinuosidades através das colinas (em épocas recuadas devia ter sido o leito de uma torrente) e nunca continuava mais de vinte jardas sem fazer uma curva brusca. Tenho a certeza de que as vertentes deste vale se elevavam a mais de 70 ou 80 pés de altura na perpendicular e, em alguns sítios, as paredes atingiam tal altura que impediam a penetração da luz do dia. A largura média era de cerca de quarenta pés, mas por vezes estreitava tanto que só cabiam cinco ou seis homens de frente. Em suma, não podia existir melhor local para uma emboscada e não é de estranhar que nos agarrássemos às nossas armas assim que lá entramos.

Quando agora penso na nossa enorme loucura, o que mais me espanta é que nos tivéssemos aventurado daquela maneira, sem atender às circunstâncias, pondo-nos assim à disposição de selvagens desconhecidos, a ponto de lhes permitirmos caminhar adiante e atrás de nós durante toda a extensão da ravina. No entanto, foi essa a ordem que cegamente adotamos fiando-nos estupidamente na nossa força, no desaparecimento das armas de Too-wit e dos seus homens, no efeito das nossas armas de fogo, cujo funcionamento ainda era um segredo para os nativos e, acima de tudo, nas repetidas manifestações de amizade daqueles infames canalhas. Cinco ou seis deles abriam caminho, como que para nos mostrar a estrada, fazendo gala nos seus cuidados, afastando pomposamente as grandes pedras ou outros objetos que nos entravassem o caminho. A seguir íamos nós, caminhando juntos, pois a nossa única preocupação era não nos separarmos. Atrás seguia o corpo principal dos selvagens, numa ordem e correção perfeitamente insólitas.

Dirk Peters, um tal Wilson Allen e eu caminhávamos à direita dos nossos camaradas, examinando tudo ao longo do percurso, nas estranhas estratificações da muralha que se erguiam sobre as nossas cabeças. Uma fenda na rocha despertou-nos a atenção. Era suficientemente larga para permitir a passagem de um homem e penetrava na montanha dezoito ou vinte pés em linha reta, virando depois para a esquerda. A altura do buraco, até onde podíamos ver, era de sessenta ou setenta pés. Através das sinuosidades cresciam dois ou três arbustos enfezados, que lembravam um pouco a aveleira e que eu tive a curiosidade de examinar; com este objetivo avancei resolutamente, tirei cinco ou seis avelãs de um cacho e retirei-me a toda a pressa. Quando regressava verifiquei que Peters e Allen me tinham seguido. Pedi-lhes que recuassem, pois não havia espaço para deixar passar duas pessoas e disse-lhes que lhes daria algumas das minhas avelãs. Assim, os meus companheiros deram meia volta e dirigiram-se para o caminho. Quando Allen estava quase à entrada da gruta, senti, de repente, uma sacudidela, como nunca tinha experimentado, a qual me inspirou uma vaga ideia (se na verdade posso dizer que tive uma ideia) de que as fundações do nosso globo estavam a ruir e que a hora da destruição final tinha chegado.


continua na página 252...


__________________



Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.


____________________



Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849 



_____________________

Leia também:

Edgar Allan Poe - Contos: MetzengersteinEdgar Allan Poe - Contos: Silêncio
Edgar Allan Poe - Contos: Um Manuscrito encontrado numa Garrafa
Edgar Allan Poe - Contos: A Entrevista
Edgar Allan Poe - Contos: Berenice (começo)
Edgar Allan Poe - Contos: Morella
Edgar Allan Poe - Contos: O Rei Peste
Edgar Allan Poe - Contos: O Rei Peste (fim)
Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (01)
Edgar Allan Poe - Contos: A Sombra
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym (Prefácio)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(3)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido (1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido (2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 4 — Revolta e Massacre
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 5 — A Carta de Sangue
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 6 — Um Raio de Esperança
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 7 — Plano de Libertação
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 8 — O Fantasma
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 9 — A Pesca dos Víveres
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 10 — O Brigue Misterioso
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 11 — A Garrafa de Porto
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 12 — A Palha Mais Curta
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (1) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (2) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (1) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (2) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 15 — As Ilhas que não se encontram
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 16 — As Explorações do Polo Sul
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 17 — Terra!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 18 — Outros Homens
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 19 — Klock - Klock
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 20 — Enterrados vivos!



quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 19 — Klock - Klock

 Edgar Allan Poe - Contos





Aventuras de Arthur Gordon Pym 
Título original: Narrative of A. G. Pym 
Publicado em 1837





19 — Klock - Klock




Demoramos cerca de três horas a chegar à aldeia, situada três milhas para o interior, através de uma região arborizada. Ao longo de caminho, o destacamento de Too-wit (os cento e dez selvagens das canoas) era reforçado de vez em quando por pequenos grupos de dez ou sete indivíduos, que desembocavam no caminho e se juntavam a nós como por acaso. Havia ali qualquer coisa muito estranha e não pude deixar de sentir desconfiança, acabando por transmitir as minhas apreensões ao capitão Guy. 

Mas era demasiado tarde para voltar para trás e decidimos que a melhor maneira de velar pela nossa segurança era mostrar a maior confiança na lealdade de Too-wit. Assim, prosseguimos, sempre atentos às manobras dos selvagens e não lhes permitindo que rompessem as nossas alas com empurrões súbitos. Depois de atravessarmos uma ravina escarpada, deparámos com um grupo de habitações, que nos disseram ser as únicas existentes na ilha. Quando avistámos a aldeia, o chefe soltou um grito e repetiu várias vezes a palavra Klock-Klock, que pensamos ser o nome da aldeia ou talvez o nome genérico aplicado a todas as aldeias.

As habitações tinham o aspecto mais miserável que se possa imaginar, diferindo das cabanas das raças mais atrasadas conhecidas da humanidade, por não estarem construídas sobre um plano uniforme. Algumas (pertencentes aos Wampoos ou Yampoos, os grandes dignitários da ilha) consistiam numa árvore cortada e cerca de quatro pés de raiz, com uma grande pele negra estendida em cima, caindo em pregas soltas até ao chão. Outras eram feitas de ramos de árvores, não desbastados e conservando ainda a sua folhagem ressequida, apoiadas de forma a fazerem um ângulo de quarenta e cinco graus, sobre uma base de argila, amontoada, sem qualquer preocupação de forma regular, a uma altura de cinco ou seis pés. Outras ainda eram simples buracos abertos perpendicularmente no solo e cobertos de ramagens, que o habitante era obrigado a afastar para entrar e que tinha novamente de repor no lugar. Algumas eram feitas de ramos de árvores, tal qual tinham sido encontrados, meio enterrados no solo, apoiados os superiores nos inferiores, de maneira a formarem um abrigo contra o mau tempo. As mais numerosas consistiam em pequenas cavernas, pouco profundas, que eram, por assim dizer, escavadas na superfície de uma parede de pedra negra, caindo a pique, muito parecida com a terra calcada que envolvia os três lados da aldeia. À entrada de cada uma destas cavernas grosseiras, havia um pequeno bloco de pedra, que o respetivo habitante colocava cuidadosamente à entrada, cada vez que saía do seu nicho; nunca soube para que servia, porque a pedra nunca era de tamanho suficiente para tapar mais do que um terço da passagem.

Esta aldeia, se na verdade lhe podemos chamar assim, estava situada num vale bastante profundo e só era acessível pelo lado sul, pois o barranco escarpado de que falei fechava o acesso pelos outros lados.

No meio do vale corria um riacho com a mesma aparência mágica que já referi. Notamos à volta das habitações alguns estranhos animais que pareciam completamente domesticados. Os maiores assemelhavam-se ao nosso porco vulgar, tanto pela forma do corpo como pelo focinho, mas a cauda era peluda e as patas esguias como as do antílope. O andar do animal era indeciso e trôpego, e nunca o vimos tentar correr.

Vimos ainda alguns animais de fisionomia análoga, mas com o corpo mais comprido e coberto de lã negra. Havia uma grande variedade de aves domésticas, que andavam pelas vizinhanças e que pareciam constituir a alimentação principal dos indígenas.

Para nossa grande surpresa, vimos entre as aves albatrozes negros, completamente domesticados que iam ao mar procurar o seu alimento e voltavam sempre à aldeia, como se fosse o seu poiso, servindo-se apenas da costa sul como local de incubação.

Como de costume, estavam associados aos seus amigos pinguins, mas estes últimos nunca seguiam os albatrozes até às habitações dos selvagens. Entre as outras aves domesticadas, havia patos, que não diferiam muito do canvass-back ou anas valisneria do nosso pais, búbias negras e uma grande ave parecida com o abutre, mas que não era carnívora. O peixe parecia ser abundante. Ao longo da nossa excursão, vimos uma quantidade considerável de salmões secos, bacalhaus, golfinhos azuis, cavalas, raias, congros, elefantes-do-mar, tainhas, linguados, escaros ou papagaios-do-mar, leather-jackets, salmonetes, badejos, patruças, paracutas e muitas outras espécies. Reparámos que, na sua maioria, se pareciam com as que se encontram na região do arquipélago de Lord Auckland a 51° de latitude Sul. A tartaruga tipo galápago também era muito abundante. Os animais selvagens eram muito poucos, e nenhum de grandes proporções ou nosso conhecido. Uma ou duas serpentes de aspecto horrível atravessaram-se no nosso caminho, mas como os naturais não lhes prestaram atenção, concluímos que não eram venenosas. Quando nos aproximamos da aldeia com Too-wit e o seu bando, uma imensa populaça precipitou-se ao nosso encontro, soltando gritos estridentes, entre os quais distinguimos os habituais Anamoo-moo! e Lama-Lama! Surpreendeu-nos bastante vermos que os recém chegados estavam, com uma ou outra exceção, totalmente nus, pois só os homens das canoas usavam peles. Todas as armas pareciam igualmente em poder destes últimos, porque não vimos nem uma nas mãos dos habitantes da aldeia. Havia também muitas mulheres e crianças, não faltando às primeiras aquilo a que chamamos beleza pessoal. Eram altas e esguias, bem feitas e dotadas de uma graça e desenvoltura que não encontramos numa sociedade civilizada, mas tinham os lábios grossos, como os dos homens, a ponto de nunca se lhes verem os dentes, mesmo quando riam. A cabeleira era de uma natureza mais fina do que a dos homens.

Entre todos os habitantes da aldeia, nus, viam-se dez ou doze homens envergando peles como o grupo de Too-wit e armados de lanças e pesadas mocas. Pareciam ter grande influência sobre os outros e nunca lhes dirigiam a palavra sem os honrar com a palavra Wampoo. Eram os mesmos homens que habitavam os famosos palácios de peles pretas. A habitação de Too-wit estava situada no centro da aldeia, sendo muito maior e melhor construída do que as outras do mesmo género. A árvore que lhe servia de suporte tinha sido cortada a cerca de doze pés da raiz e, abaixo do corte, tinham sido deixados alguns ramos que serviam para prolongar o teto e o impediam de bater contra o tronco. O teto que consistia em quatro grandes peles ligadas entre si por cavilhas de madeira, estava preso com pequenas estacas que o atravessavam e se enterravam no solo, que estava juncado de folhas secas, com a função de tapete.

Fomos conduzidos a esta cabana com grande solenidade e atrás de nós entraram todos os indígenas que lá conseguiram caber. Too-wit sentou-se sobre as folhas e, por gestos, convidou-nos a seguir-lhe o exemplo. Obedecemos e então encontrámo-nos numa situação estranhamente incomoda, senão crítica, pois éramos doze sentados no chão rodeados por quarenta selvagens acocorados e apertando-nos tanto que, se surgisse alguma desordem, nos seria impossível utilizar as armas ou mesmo levantar-nos.

A confusão não era apenas dentro da tenda mas também fora dela, onde provavelmente toda a população da ilha se tinha concentrado, que só não nos esmagava com os pés, porque os esforços e vociferações de Too-wit o impediam.

A nossa principal segurança residia na presença de Too-wit entre nós e, vendo que era a melhor maneira de sairmos daquele apuro, decidimos apertá-lo o mais possível entre nós, dispostos a matá-lo imediatamente à primeira manifestação hostil.

Depois de alguma algazarra, foi possível obter um pouco de silêncio e o chefe fez-nos uma longa discursata, semelhante à que nos tinha dirigido das canoas, mas desta vez havia menos Anamoo-moo! do que Lama-Lama!

Escutamos o discurso no mais profundo silêncio até ao fim, respondendo-lhe o capitão Guy, que assegurou ao chefe a sua eterna amizade e estima e concluiu a sua réplica oferecendo-lhe alguns rosários ou colares de pedras azuis e uma faca. O monarca, ao receber os colares, franziu a testa numa certa expressão de desdém, mas a faca causou-lhe uma satisfação indescritível e ordenou que servissem imediatamente o jantar.

Os alimentos entraram na tenda, por cima das nossas cabeças e consistiam de vísceras palpitantes de algum animal desconhecido, provavelmente um daqueles porcos de patas esguias que tínhamos visto ao entrar na aldeia. Vendo que não sabíamos como comer aquilo, começou por nos dar o exemplo, devorando pedaço a pedaço aquela apetitosa comida, mas não nos foi possível suportar por muito tempo aquele espetáculo e deixamos transparecer a nossa repugnância, de tal modo que Sua Majestade se mostrou quase tão surpreendido como no caso dos espelhos. Apesar do que isso podia significar, recusámos partilhar as maravilhas culinárias que nos eram oferecidas, esforçando-nos por lhe fazer compreender que não tínhamos apetite, pois tínhamos acabado de tomar uma sólida refeição.

Quando o monarca terminou o seu repasto, começamos a interrogá-lo da maneira mais inteligente possível, com o objetivo de descobrir quais eram os principais produtos da região e se havia alguns que nos pudessem ser úteis.

Ao fim de algum tempo, parecer ter compreendido o que queríamos dizer e ofereceu-se para nos acompanhar até um determinado local da costa, onde existia (e desenhou um esboço do animal) o escombro do mar em grande abundância. Aproveitámos com agrado aquela ocasião para fugir à opressão da multidão, e demonstrámos a nossa impaciência em partir. Assim, saímos da tenda e, acompanhados por toda a população da aldeia, seguimos o chefe até à extremidade Sudeste da ilha, não muito longe da baía onde o nosso navio estava ancorado.

Esperamos ali cerca de uma hora, até que as quatro canoas, conduzidas por alguns selvagens, chegassem ao local onde estávamos. Todo o nosso grupo embarcou numa canoa e fomos conduzidos à pangaia ao longo do recife de que falei, depois até outro, onde vimos o escombro-do-mar numa abundância nunca vista mesmo pelos velhos marinheiros nos arquipélagos de latitude inferiores, tão famosos por este artigo de comércio. Permanecemos naquele lugar o tempo suficiente para nos convencermos que teríamos facilmente carregado uma dúzia de navios se fosse necessário, após o que voltámos a bordo da escuna, e nos despedimos de Too-wit, que nos prometeu levar-nos no prazo de vinte e quatro horas tantos patos canvass-bad e tartarugas galápagos, quantos as suas canoas pudessem transportar.

Durante toda esta aventura, não notamos na conduta dos selvagens nada que pudesse levantar as nossas suspeitas, a não ser a maneira estranha como tinham engrossado o grupo, quando percorremos o caminho da escuna à aldeia.



continua na página 246...


__________________



Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.


____________________



Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849 



_____________________

Leia também:

Edgar Allan Poe - Contos: MetzengersteinEdgar Allan Poe - Contos: Silêncio
Edgar Allan Poe - Contos: Um Manuscrito encontrado numa Garrafa
Edgar Allan Poe - Contos: A Entrevista
Edgar Allan Poe - Contos: Berenice (começo)
Edgar Allan Poe - Contos: Morella
Edgar Allan Poe - Contos: O Rei Peste
Edgar Allan Poe - Contos: O Rei Peste (fim)
Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (01)
Edgar Allan Poe - Contos: A Sombra
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym (Prefácio)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Py: 2 — O Esconderijo(3)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido (1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido (2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 4 — Revolta e Massacre
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 5 — A Carta de Sangue
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 6 — Um Raio de Esperança
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 7 — Plano de Libertação
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 8 — O Fantasma
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 9 — A Pesca dos Víveres
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 10 — O Brigue Misterioso
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 11 — A Garrafa de Porto
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 12 — A Palha Mais Curta
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (1) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (2) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (1) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (2) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 15 — As Ilhas que não se encontram
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 16 — As Explorações do Polo Sul
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 17 — Terra!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 18 — Outros Homens
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 19 — Klock - Klock
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 20 — Enterrados vivos!



terça-feira, 22 de setembro de 2020

Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 18 — Outros Homens

Edgar Allan Poe - Contos



Aventuras de Arthur Gordon Pym 
Título original: Narrative of A. G. Pym 
Publicado em 1837





18 — Outros Homens




18 de janeiro. — Esta manhã continuámos a nossa rota para Sul com um tempo tão bom como nos dias precedentes. O mar estava completamente calmo, o vento soprava de Nordeste e a temperatura do ar era suficientemente quente e a da água marcava 53° F. Recomeçámos com as sondagens e, com uma corda de 150 braças, encontrámos uma corrente em direção ao Polo a uma velocidade de uma milha por hora. Esta tendência constante do vento e da corrente para Sul provocaram reflexões e até alarme entre a tripulação, e vi perfeitamente que causara forte impressão no espírito do capitão Guy. Felizmente, tinha muito receio do ridículo e consegui que se risse das suas próprias apreensões. A variação era agora quase insignificante. Durante o dia vimos algumas baleias e numerosos bandos de albatrozes sobrevoaram o navio. Apanhámos também uma espécie de arbusto com bagas vermelhas como as do espinheiro e o corpo de um animal terrestre, de aspecto muito estranho. Tinha três pés de comprimento por seis polegadas de altura, quatro pernas muito curtas, os pés com longas garras de um vermelho brilhante e semelhantes ao coral. A cauda era afilada como a de um rato e com cerca de um pé e meio de comprimento. A cabeça lembrava a de um gato, exceto nas orelhas que eram reviradas e pendentes como as de um cão. Os dentes eram do mesmo vermelho vivo das garras. O corpo estava revestido por um pelo sedoso e compacto, perfeitamente branco.

19 de janeiro. — Encontrando-nos a 83° 20’ de latitude e a 43° 5’ de longitude Oeste (o mar tinha um tom escuro extraordinário), o vigia avistou terra de novo e, depois de um exame atento, descobrimos que se tratava de uma ilha pertencente a um grupo de ilhas mais extensas. A costa era a pique e o interior parecia bastante arborizado, circunstância que nos causou grande alegria. Cerca de quatro horas depois de ter avistado terra, lançámos a âncora a dez braças de profundidade, com um fundo de areia, a uma légua da costa, porque uma forte ressaca, com remoinhos em várias direções, tornava a aproximação perigosa. Recebemos ordem para levar duas das embarcações maiores, e um destacamento bem armado, de que eu e Peters fazíamos parte, foi encarregado de encontrar uma abertura no recife que parecia circundar a ilha. Depois de termos procurado durante algum tempo, descobrimos uma passagem, por onde íamos entrar, quando avistámos quatro grandes canoas que largavam da margem, cheias de homens que pareciam bem armados. Deixámo-los aproximar e, como navegavam com grande velocidade, em breve estavam ao alcance da voz. O capitão Guy içou então um lenço branco na ponta de um remo. Os selvagens pararam e de repente começaram a tagarelar numa algaraviada muito alta e a gritar estranhas palavras, entre as quais distinguimos: Anamoo-moo! e Lama-Lama! Continuaram com aquela algazarra durante uma boa meia hora, em que pudemos observar, à vontade, as suas fisionomias.

Nas quatro canoas, que deviam ter cinquenta pés de comprimento e cinco de largura, havia ao todo cento e dez selvagens. Tinham uma estatura semelhante à dos europeus, mas mais musculosa e carnuda. A sua pele era de um negro de jade e os cabelos longos espessos e encarapinhados. Estavam vestidos com a pele de um animal negro desconhecido que tinha longos e sedosos pelos. A pele era ajustada ao corpo, com o pelo voltado para dentro, exceto à volta do pescoço, nos punhos e nos tornozelos. As suas armas consistiam principalmente em paus de madeira preta, de aparência muito dura. No entanto, também distinguimos algumas lanças de ponta de sílex e algumas fundas. O fundo das canoas estava coberto de pedras negras do tamanho de um ovo grande.

Quando terminaram aquela discursata (pois era evidente que aquela algaraviada se dirigia a nós), um deles, que parecia o chefe, pôs-se de pé na proa da sua canoa e fez-nos repetidos sinais para que nos aproximássemos. Fingimos que não percebíamos o que ele queria, pensando que era mais sensato manter, tanto quanto possível, um espaço razoável entre nós, porque eles eram quatro vezes mais do que nós. Adivinhando o nosso pensamento, o chefe pediu às outras três canoas para o seguirem enquanto ele avançava com a sua. Assim que nos alcançou, saltou para bordo do bote maior e sentou-se ao lado do capitão Guy, ao mesmo tempo que apontava para a escuna repetindo as palavras: Anamoo-moo! Lama-Lama! Regressámos ao navio, seguidos a alguma distância pelas quatro canoas.

Ao chegar junto do costado, o chefe mostrou sinais de uma surpresa e prazer extremos, batendo palmas, batendo nas coxas e no peito e soltando gargalhadas ensurdecedoras. Todos os seus súbditos, que o seguiam, uniram a sua alegria à do chefe, fazendo uma tremenda algazarra. Feliz por regressar ao seu navio, o capitão Guy ordenou que içassem as embarcações como medida de precaução e deu a entender ao chefe, cujo nome em breve descobrimos que era Too-wit, que só podia receber a bordo vinte homens de cada vez. Este pareceu aceitar perfeitamente esta sugestão e transmitiu algumas ordens para as canoas, uma das quais se aproximou, enquanto as outras permaneciam a cerca de cinquenta jardas de distância. Subiram a bordo vinte selvagens que começaram a bisbilhotar por toda a parte, a trepar pelos mastros, como se estivessem em casa, e examinando todos os objetas com a maior curiosidade.

Era mais que evidente que nunca tinham visto um indivíduo de raça branca. Aliás a nossa cor parecia inspirar-lhes grande repugnância. Julgavam que a Jane era um ser vivo e dir-se-ia que receavam atingi-la com as pontas das lanças que levantavam cuidadosamente. Houve um momento em que toda a tripulação se divertiu bastante com a conduta de Too-wit. O cozinheiro estava a partir lenha perto da cozinha, quando, por acidente, cravou o machado na coberta, onde fez um entalhe bastante fundo. O chefe ocorreu imediatamente e, empurrando o cozinheiro com força, soltou um gemido, quase um grito, que demonstrava bem quanto sofria com as dores da escuna; depois, começou a acariciar e a esfregar a ferida com a mão e lavá-la com um pouco de água do mar que estava perto. Demonstrava tamanha ignorância, para a qual não estávamos preparados, que eu não pude deixar de pensar que ali havia um pouco de fingimento.

Quando os nossos visitantes satisfizeram completamente a sua curiosidade em relação à coberta, foram conduzidos ao interior, onde a sua admiração ultrapassou todos os limites. A sua estupefação parecia demasiado forte para se exprimir por palavras, pois observavam tudo em silêncio, emitindo apenas algumas exclamações. As armas devem-lhes ter dado que pensar e permitimos lhes que as examinassem à vontade. Penso que não tinham a mínima suspeita da sua utilidade, tomando-as por ídolos, vendo o cuidado que tínhamos e a atenção com que os olhávamos enquanto eles lhes mexiam. O seu espanto redobrou ao verem os canhões. Aproximaram-se fazendo as maiores demonstrações de veneração e de terror, mas não quiseram examiná-los minuciosamente. Havia no camarote dois grandes espelhos e isso foi o cúmulo do seu espanto. Too-wit foi o primeiro a aproximar-se e já se encontrava no meio do camarote de frente para um e de costas para o outro, mas ainda não os tinha notado. Quando o selvagem levantou os olhos e se viu refletido no espelho, julguei que ia enlouquecer; mas ao voltar-se para fugir, voltou a ver-se no espelho oposto e então julguei que ia morrer. Nada o levou a olhar-se de novo, pois todos os meios de persuasão foram inúteis. Atirou-se para o chão, escondeu a cabeça entre as mãos e permaneceu imóvel, até que resolvemos levá-lo para a coberta.

Todos os selvagens foram recebidos a bordo em grupos de vinte, mas Toowit permaneceu todo o tempo no navio. Não descobrimos neles nenhuma propensão para o roubo e depois da sua partida não demos pela falta de nada. Enquanto durou a visita, mostraram-se sempre muito cordiais. No entanto, havia alguns traços na sua conduta que nos foi impossível compreender, como por exemplo nunca conseguimos que se aproximassem de alguns objetas inofensivos, tais como as velas da escuna, um ovo, um livro aberto ou uma chávena de farinha. Tentámos saber se possuíam alguns artigos para comerciar ou trocar, mas tivemos grande dificuldade em nos fazer compreender. No entanto, soubemos, com grande surpresa, que nas ilhas abundavam as grandes tartarugas da espécie Galápagos, e vimos uma na canoa de Too-wit. Vimos também um escombro de mar nas mãos de um selvagem que o devorava cru com a maior avidez.

Estas anomalias, ou pelo menos aquilo que considerámos anomalias relativamente à latitude, levaram o capitão Guy a tentar uma exploração completa da região, na esperança de encontrar algo lucrativo. Pela minha parte, desejoso como estava de levar mais longe a descoberta, só tinha um objetivo, só pensava em prosseguir viagem em direção ao sul, sem mais demoras. O tempo estava bom, mas ninguém sabia quanto iria durar e, uma vez que já estávamos no paralelo 84, com um mar completamente livre à nossa frente, uma corrente forte arrastando para Sul e bom tempo, não podia estar de acordo com nenhuma proposta de permanência naquelas paragens mais tempo do que o necessário para refazer a saúde da tripulação e reabastecermos o navio em provisões e combustível. Fiz ver ao capitão que nos seria fácil aportar àquelas ilhas no nosso regresso e que até lá podíamos, passar o inverno, no caso de os gelos nos barrarem a passagem. Acabou por seguir o meu conselho (porque, não sei como, tinha adquirido grande influência sobre ele) e, por fim, foi decidido que, mesmo que encontrássemos escombros do mar em abundância, apenas ali ficaríamos uma semana, para nos restabelecermos, e que seguiríamos para Sul assim que fosse possível.

Assim, fizemos todos os preparativos necessários e, depois de conduzirmos com êxito, seguindo as indicações de Too-wit, a escuna através dos recifes, lançamos a âncora a cerca de uma milha da costa, numa excelente baía, muito fechada, na costa Sudeste da ilha principal, sobre dez braças de água, num fundo de areia negra. Disseram-nos que, na extremidade da baía, desaguavam três riachos de água excelente e verificámos que as redondezas eram muito arborizadas. As quatro canoas seguiam-nos, mas sempre a uma distância respeitosa. Quanto a Too-wit, ficou a bordo e depois de lançarmos a âncora, convidou-nos a acompanhá-lo a terra e a visitarmos a sua aldeia no interior. O capitão Guy aceitou e, tendo ficado a bordo com dez selvagens como reféns, doze homens da nossa tripulação prepararam-se para seguir o chefe. Tivemos o cuidado de irmos bem armados, mas sem deixar transparecer a mínima desconfiança. Na escuna tinham sido tomadas todas as precauções para evitar qualquer surpresa, colocando os canhões nas portinholas e içando as redes de filarete. Foi especialmente recomendado ao imediato que não recebesse ninguém a bordo durante a nossa ausência e que, no caso de não estarmos de volta daí a doze horas, enviasse a chalupa, armada com um canhão pedreiro, à nossa procura em volta da ilha.

A cada passo que dávamos naquela terra, cada vez mais nos convencíamos que estávamos numa região completamente diferente das que até hoje foram visitadas por homens civilizados. Nada do que víamos nos era familiar. As árvores não se pareciam com as existentes nas zonas tórridas, nas zonas temperadas ou nas zonas frias do Norte, e diferiam essencialmente das existentes nas latitudes meridionais que acabávamos de atravessar. As próprias rochas nos eram desconhecidas, no volume, na cor e na contextura; e os cursos de água, por mais estranho que possa parecer, assemelhavam-se tão pouco aos de outros climas, que hesitámos em beber dessa água e tivemos grande dificuldade em nos convencermos que as suas qualidades eram puramente naturais. No primeiro riacho que apareceu no caminho, Too-wit e a sua comitiva pararam para beber. Devido ao aspecto estranho daquela água, recusámo-nos a beber, supondo que era insalubre, e só mais tarde compreendemos que todos os cursos de água do arquipélago eram assim. Realmente não sei como vos dar uma ideia clara da natureza daquele líquido e não sou capaz de o fazer, sem utilizar muitas palavras. Embora esta água rolasse com rapidez por todas as encostas como qualquer outra água, só nas quedas e cascatas adquiria a habitual aparência de limpidez. Porém, devo dizer que era tão límpida como qualquer água calcária e a diferença que existia era apenas aparente. À primeira vista, e especialmente nos casos em que o declive era pouco acentuado, parecia um pouco, quanto a consistência, uma espessa dissolução de goma-arábica em água vulgar. Mas esta era apenas uma das suas extravagantes qualidades. Não era incolor, mas não tinha uma cor uniforme, e ao deslizar apresentava à vista todas as tonalidades possíveis da púrpura, como reflexos e cambiantes de seda furta-cores. Para dizer a verdade, esta variação da tonalidade efetuava-se de uma maneira que produzia nos nossos espíritos uma surpresa tão profunda como a dos espelhos no espírito de Too-wit. Enchendo uma bacia com esta água e deixando-a assentar, verificámos que toda a massa de líquido era constituída por um certo número de veios distintos de uma cor especial, que estes veios não se misturavam e que a sua coesão era perfeita, relativamente às moléculas que os formavam, e imperfeita quanto aos veios próximos. Fazendo passar a ponta de uma faca através dos veios, a água fechava-se imediatamente atrás da ponta e, quando a retirávamos, todos os vestígios da passagem da faca desapareciam por completo. Mas, se a faca interceptava cuidadosamente dois veios, operava-se uma separação completa, que o poder de coesão não reconstituía logo. Os fenómenos desta água formaram o primeiro elo definido de uma vasta cadeia de milagres aparentes, que me foram envolvendo.


continua na página 241...

__________________



Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.


____________________



Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849 



_____________________

Leia também:

Edgar Allan Poe - Contos: MetzengersteinEdgar Allan Poe - Contos: Silêncio
Edgar Allan Poe - Contos: Um Manuscrito encontrado numa Garrafa
Edgar Allan Poe - Contos: A Entrevista
Edgar Allan Poe - Contos: Berenice (começo)
Edgar Allan Poe - Contos: Morella
Edgar Allan Poe - Contos: O Rei Peste
Edgar Allan Poe - Contos: O Rei Peste (fim)
Edgar Allan Poe - Contos: Um Homem na Lua (01)
Edgar Allan Poe - Contos: A Sombra
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym (Prefácio)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(3)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido (1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido (2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 4 — Revolta e Massacre
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 5 — A Carta de Sangue
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 6 — Um Raio de Esperança
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 7 — Plano de Libertação
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 8 — O Fantasma
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 9 — A Pesca dos Víveres
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 10 — O Brigue Misterioso
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 11 — A Garrafa de Porto
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 12 — A Palha Mais Curta
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (1) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (2) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (1) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (2) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 15 — As Ilhas que não se encontram
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 16 — As Explorações do Polo Sul
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 17 — Terra!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 19 — Klock - Klock