Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
______________________________________________________
CAPÍTULO II
A MÃE
continuando...
A relação da mãe com os filhos define-se no seio da forma
global que é a sua vida; depende de suas relações com o
marido, com o passado, com suas ocupações e consigo mesma
é um erro nefasto tanto quanto absurdo pretender ver no filho
uma panaceia universal. É a conclusão a que também chega H.
Deutsch, na obra que citei muitas vezes e em que estuda, através
de sua experiência de psiquiatra, os fenômenos da maternidade.
Ela coloca muito alto essa função pela qual considera que a mulher se realiza totalmente; mas com a condição de que seja livremente assumida e sinceramente desejada; é preciso que a jovem
mulher se encontre numa situação psicológica, moral e material
que lhe permita suportar-lhe o fardo, sem o quê as consequências
serão desastrosas. É criminoso, em particular, aconselhar o filho
como remédio a melancólicas ou neuróticas; faz-se com isso a infelicidade da mulher e da criança. A mulher equilibrada, sadia,
consciente de suas responsabilidades é a única capaz de se tornar
uma "boa mãe".
Disse que a maldição que pesa sobre o casamento provém
de que muito frequentemente os indivíduos nele se juntam em sua
fraqueza, não em sua força, cada qual solicitando do outro ao
invés de dar. É um engano ainda mais decepcionante do que
sonhar em alcançar, pelo filho, uma plenitude, um calor, um valor
que não se soube criar por si mesmo; o casamento só dá alegria
a uma mulher capaz de querer desinteressadamente a felicidade
de outro, àquela que, sem se voltar para si mesma, busca uma
superação de sua própria existência. O filho é, sem dúvida, uma
empresa a que se pode validamente destinar; mas tal como outras
não representa uma justificação em si; e é preciso que seja desejada pelo que é e não por benefícios hipotéticos. Stekel diz
muito justamente:
Os filhos não são sucedâneos do amor; não substituem uma meta de vida falhada; não são material destinado a encher o vazio de nossa vida; são uma responsabilidade e um pesado dever; são os florões mais generosos do amor livre. Não são nem o brinquedo dos pais, nem a realização de sua necessidade de viver, nem sucedâneos de suas ambições insatisfeitas. Os filhos representam a obrigação de formar seres felizes.
Uma tal obrigação nada tem de natural: a Natureza não
poderá nunca ditar uma escolha moral; esta implica um compromisso; dar à luz é assumir um compromisso; se a mãe
não o cumpre a seguir, comete um erro contra uma existência
humana, contra uma liberdade; mas ninguém lhe pode impor. A relação dos pais com os filhos, como a relação da mulher com
o marido, deveria ser livremente desejada. Nem sequer é verdade que o filho seja para a mulher uma realização privilegiada;
diz-se de bom grado que uma mulher é coquete, amorosa, lésbica,
ambiciosa por "não ter filho"; sua vida sexual, seus objetivos,
seus valores seriam sucedâneos do filho. Na realidade, há primitivamente indeterminação: pode-se dizer também que é por
falta de amor, de ocupação, de satisfação de suas tendências
homossexuais que a mulher deseja um filho. Sob esse pseudo naturalismo esconde-se uma moral social e artificiai. Afirmar
que o filho é o fim supremo da mulher tem exatamente o valor
de um slogan publicitário.
O segundo preconceito imediatamente implicado pelo primeiro, consiste em dizer que o filho encontra uma felicidade
segura nos braços maternos. Não há mãe "desnaturada", posto
que o amor materno nada tem de natural: mas precisamente por
causa disso há mães más. E uma das grandes verdades que a
psicanálise proclamou é o perigo que constituem para o filho os
próprios pais "normais". Os complexos, as obsessões, as neuroses de que sofrem os adultos têm sua raiz no passado familiar;
os pais, que têm seus próprios conflitos, suas dissensões, seus
dramas, são para o filho a companhia menos desejável. Profundamente marcados pela vida do lar paterno, abordam os próprios filhos através de complexos e frustrações e essa cadeia de
miséria perpetuar-se-á indefinidamente. O sado-masoquismo materno, em particular, cria na jovem um sentimento de culpa que
se traduzirá sempre por condutas sado-masoquistas para com
os filhos. Há uma má-fé extravagante na conciliação do desprezo
que se dedica às mulheres com o respeito com que são cercadas
as mães. É um paradoxo criminoso recusar à mulher toda atividade pública, vedar-lhe as carreiras masculinas, proclamar sua
incapacidade em todos os terrenos e confiar-lhe a empresa mais
delicada, mais grave que existe: a formação de um ser humano.
Há muitas mulheres a quem os costumes, a tradição recusam
ainda a educação, a cultura, as responsabilidades, as atividades
que são privilégio dos homens e a quem, no entanto, entregam
sem escrúpulos os filhos, como outrora as consolavam com bonecas
de sua inferioridade em relação aos meninos; impedem-nas de
viver; em compensação, autorizam-nas a brincar com brinquedos de carne e osso. Seria preciso que a mulher fosse perfeitamente feliz, ou uma santa, para resistir à tentação de abusar
de seus direitos. Montesquieu talvez tivesse razão quando dizia que fora preferível confiar o governo do Estado a uma mulher
a entregar-lhe o da família, porque, desde que se lhe dê a oportunidade, a mulher mostra-se tão sensata, tão eficiente quanto o
homem: é no pensamento abstrato, na ação concertada que ela
supera mais facilmente seu sexo; é-lhe bem mais difícil, atualmente, libertar-se de seu passado de mulher, encontrar um equilíbrio afetivo que nada em sua situação favorece. O homem também é muito mais equilibrado, sensato em seu trabalho do que no
lar; conduz seus cálculos com uma precisão matemática: torna-se ilógico, mentiroso, caprichoso junto da mulher com quem
"se abandona"; o mesmo ocorre com ela em relação ao filho.
E essa complacência é mais perigosa, porque ela pode defender-se
melhor contra o marido do que o filho contra ela. Naturalmente seria desejável para o bem da criança que a mãe fosse
uma pessoa completa e não mutilada, uma mulher que encontra
em seu trabalho, em sua relação com a coletividade, uma realização de si que não buscasse alcançar através do filho, tiranicamente. E seria desejável também que ele fosse menos abandonado aos pais do que o é atualmente, que seus estudos e distrações se desenrolassem no meio de outras crianças, sob o controle
de adultos que só tivessem com ele relações impessoais e puras.
Mesmo no caso em que o filho se apresenta como uma riqueza no seio de uma vida feliz, ou pelo menos equilibrada, não
pode limitar o horizonte da mãe. Não a arranca da imanência;
ela modela-lhe a carne, cuida dele, sustenta-o: só pode criar uma
situação de fato que cabe tão somente â liberdade do filho ultrapassar; quando ela joga no futuro dele, é ainda por procuração
que se transcende através do universo e do tempo, isto é, uma
vez mais ela se amarra à dependência. Não somente a ingratidão, mas o malogro do filho será o desmentido de todas as esperanças: como no casamento ou no amor, ela entrega a outro
o cuidado de lhe justificar a vida, quando a única conduta autêntica consiste em a assumir livremente. Vimos que a inferioridade da mulher provinha originalmente de se ter ela limitado a
repetir a vida, enquanto o homem inventava razões de viver, a
seus olhos mais essenciais do que a pura facticidade da existência;
encerrar a mulher na maternidade seria perpetuar essa situação.
Ela reclama hoje o direito de participar do movimento pelo qual
a humanidade tenta incessantemente justifícar-se, em se superando;
ela só pode consentir em dar vida se a vida tem um sentido;
não poderia ser mãe sem tentar desempenhar um papel na vida
econômica, política, social.
Não, é a mesma coisa engendrar carne para canhão, escravos, vítimas ou homens livres. Numa
sociedade convenientemente organizada, em que o filho estivesse
até certo ponto a cargo da coletividade, a mãe tratada e auxiliada,
a maternidade não seria absolutamente incompatível com o trabalho feminino. Ao contrário: é a mulher que trabalha — camponesa, química ou escritora — que tem o parto mais fácil, pelo
fato de não se fascinar com sua própria pessoa. A mulher de
vida pessoal mais rica será a que mais dará ao filho e menos
lhe pedirá; será quem adquire no esforço e na luta o conhecimento
dos verdadeiros valores humanos, será a melhor educadora. Se
atualmente muitas vezes a mulher tem dificuldade em conciliar
o ofício, que a retém durante horas fora do lar e lhe toma todas
as forças, com o interesse de seus filhos, é porque, por um
lado, o trabalho feminino é ainda frequentemente uma escravidão,
e, por outro, porque nenhum esforço se fez para assegurar o
cuidado, a guarda, a educação das crianças fora do lar. Trata--se de uma carência social; mas é um sofisma justificá-la alegando
que uma lei inscrita no céu ou nas entranhas da terra determina
que a mãe e o filho se pertençam exclusivamente um ao outro;
essa mútua pertinência não constitui, na verdade, senão uma
dupla e nefasta opressão.
É uma mistificação sustentar que a mulher se torna, pela
maternidade, a igual concreta do homem. Os psicanalistas esforçaram-se muito por demonstrar que o filho lhe trazia um equivalente do pênis; mas, por invejável que seja esse atributo, ninguém pretende que sua simples posse seja capaz de justificar
uma existência nem que seja o fim supremo desta. Falou-se
também muitíssimo dos direitos sagrados da mãe, mas não foi
como mãe que as mulheres conquistaram o direito de voto; a mãe
solteira é ainda desprezada; é somente no casamento que a mãe
é glorificada, isto é, na medida em que permanece subordina
da ao marido. Enquanto este permanece o chefe econômico da
família, embora ela se ocupe muito mais dos filhos, eles dependem
muito mais dele do que dela. É por isso que, como vimos, a
relação da mãe com os filhos se acha estreitamente comandada
pela que mantém com o esposo.
As relações conjugais, a vida caseira, a maternidade formam
assim um conjunto em que todos os momentos se determinam; ternamente unida ao marido, a mulher pode assumir com alegria
os encargos do lar; feliz com os filhos, será indulgente com o
marido. Mas essa harmonia não é facilmente realizável porque
as diferentes funções consignadas à mulher se conjugam mal entre si.
Os jornais femininos ensinam abundantemente à dona de
casa a arte de conservar sua atração sexual embora lavando a
louça, a permanecer elegante durante a gravidez, a conciliar o coquetismo com a maternidade e a economia; mas aquela que se sujeitasse a seguir atentamente esses conselhos logo se veria atormentada e desfigurada pelas preocupações; é-lhe muito difícil permanecer desejável quando tem as mãos inchadas e o corpo deformado pelas maternidades; eis por que uma mulher amorosa experimenta muitas vezes certo rancor contra os filhos que lhe arruínam
a sedução e a privam das carícias do marido; se, ao contrário, é
profundamente mãe, ela tem ciúme do homem que reivindica
igualmente os filhos. Por outro lado, o ideal caseiro contradiz,
como vimos, o movimento da vida; a criança é inimiga dos
assoalhos encerados. O amor materno perde-se, amiúde, nas repreensões e cóleras ditadas pela preocupação de um lar bem
arranjado. Não é de espantar que a mulher que se debate em
meio a essas contradições viva muitas vezes seus dias em estado
de nervosismo e azedume; ela perde sempre, no que quer que
aposte, e seus ganhos são precários, não se inscrevem em nenhum
êxito seguro. Nunca é por seu próprio trabalho que se pode
salvar; esse trabalho ocupa-a, mas não constitui uma justificação:
esta assenta em liberdade alheias. A mulher encerrada no lar
não pode fundar ela própria sua existência; não tem os meios
de se afirmar em sua singularidade e esta, por conseguinte, não
lhe é reconhecida. Entre os árabes, os índios e muitas populações rurais, a mulher é apenas uma criada, apreciada segundo
o trabalho que fornece e substituída sem lamentações caso
desapareça. Na civilização moderna, ela é, aos olhos do marido, mais ou menos individualizada; mas, a menos que renuncie
inteiramente a seu eu, abismando-se como Natacha numa dedicação apaixonada e tirânica pela família, ela sofre por se ver
reduzida à sua pura generalidade. É a dona de casa, a esposa,
a mãe única e indistinta; Natacha compraz-se nesse aniquilamento soberano e, rechaçando qualquer confronto, nega os outros.
Mas a mulher ocidental moderna almeja, ao contrário, ser notada por outrem como essa dona de casa, essa esposa, essa mãe, essa
mulher. É a satisfação que procurará na vida social.
continua página 295...
_______________
Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (8)
______________________
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
Nenhum comentário:
Postar um comentário