quinta-feira, 9 de abril de 2026

De quanta terra um homem precisa? - VIII

Liev Tolstói

VIII

     Os Baquires aprontaram-se e partiram; uns iam a cavalo, outros de carro; Pahóm ia no seu carrinho, com o criado e uma pá; quando chegaram à estepe, já se via no céu o rosado da aurora; subiram a um cabeço, a que os Baquires chamavam shikhan, e, apeando-se dos carros e dos cavalos, juntaram-se num sítio. O chefe veio ter com Pahóm e, estendendo o braço para a planície:

“Olha para isto” — disse ele —, “tudo o que vês é nosso; poderás ficar com o que quiseres”.

     Os olhos de Pahóm rebrilharam: era tudo terra virgem, plana como a palma da mão, negra como semente de papoila; e as diferentes espécies de erva cresciam à altura do peito.
     O chefe tirou o barrete de pele de raposa, colocou-o no chão e disse:

“O sinal é este; partes daqui e voltas aqui; é tua toda a terra a que deres volta”.

     Pahóm puxou do dinheiro e pô-lo no barrete; depois tirou o casaco e ficou em colete; desapertou o cinto e ajustou-o logo por baixo do estômago, pôs um saquinho de pão ao peito, atou um cantil de água ao cinto, puxou os canos das botas, pediu a pá ao criado e ficou pronto a largar; considerou por alguns momentos sobre o caminho que havia de tomar, mas era uma tentação por toda a parte.

“Não faz mal” — concluiu — “vou para o nascente”.

     Voltou-se para leste, espreguiçou-se e esperou que o Sol aparecesse acima do horizonte. 

“Não há tempo a perder” — disse ele — “e é melhor ir já pela fresquinha”. 

     Mal apareceu o primeiro raio de sol, desceu Pahóm a colina, de pá ao ombro; nem ia devagar, nem depressa; ao fim de um quilômetro, parou, fez um buraco e pôs os torrões uns sobre os outros; depois continuou e, como ia aquecendo, apressou o passo; ao fim de um certo tempo, fez outra cova. Pahóm olhou para trás: a colina estava distintamente iluminada pelo Sol e viam-se os Baquires e os aros cintilantes das rodas; Pahóm calculou que teria andado uma légua; como o calor apertava, tirou o colete, pô-lo ao ombro e continuou a caminhar; estava quente a valer: olhou para o Sol e viu que eram horas de pensar no almoço.

“A primeira tirada está feita; mas posso ainda fazer mais três, porque é cedo para voltar; o que tenho é de tirar as botas”. 

     Sentou-se, descalçou as botas, pendurou-as ao cinto e continuou; agora, andava à vontade.

“Mais uma leguazita” — pensou ele — “depois volto para a esquerda; este bocado é tão bom que era uma pena perdê-lo; quanto mais se anda, melhor a terra parece.” 

     Avançou a direito durante algum tempo e, quando olhou à volta, viu que a colina mal se enxergava e que os Baquires pareciam formiguinhas; e havia qualquer coisa que brilhava. 

“Já andei bastante para este lado” — pensou Pahóm —, “é tempo de voltar; e já estou a suar e com sede”. 

     Parou, cavou um grande buraco e amontoou os torrões; depois, desatou o cantil, sorveu um gole e voltou à esquerda; foi andando, andando sempre; a erva era alta, o sol quentíssimo. Começou a sentir se cansado: olhou para o Sol e viu que era meio-dia. 

“Bem, vou descansar um  bocado”. 

     Sentou-se, comeu um naco de pão, bebeu uma pinga de água; mas não se deitou, com medo de adormecer; depois de ficar sentado uns momentos, levantou-se e continuou. A princípio, andava bem: a comida tinha-lhe dado forças; mas o calor aumentava, sentia sono; apesar de tudo, continuava, e repetia consigo:

“Um dia de dor, uma vida de amor”.

     Andou muito tempo na mesma direção e estava para rodar à esquerda, quando viu um sítio úmido:

“Era uma pena deixar isto; o linho deve dar-se bem aqui.” 

     Deu uma volta, cavou um buraco e olhou para a colina; com o calor, o ar tremia e a colina tremia também, mal se vendo os Baquires.

“Os outros lados ficaram muito grandes; tenho que fazer este mais curto.”

     E pôs-se a andar mais depressa. Olhou para o Sol: estava quase a meio caminho do horizonte e não tinha ainda andado três quilômetros do lado novo; e ainda lhe faltavam três léguas para a colina.

“Bem” — pensou ele — “não me fica a terra quadrada, mas agora tenho que ir a direito; podia ir longe demais e assim já tenho terra bastante”. 

     Abriu um buraco a toda a pressa e partiu em direção à colina.  

Continua na pág 52...
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De quanta terra um homem precisa? - VII / De quanta terra um homem precisa? - VIII /    
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Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.

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