VIII
Os Baquires aprontaram-se e partiram; uns iam a cavalo, outros de carro; Pahóm ia no seu carrinho, com o criado e uma pá; quando chegaram à estepe, já se via no céu o rosado da aurora; subiram a um cabeço, a que os Baquires chamavam shikhan, e, apeando-se dos carros e dos cavalos, juntaram-se num sítio. O chefe veio ter com Pahóm e, estendendo o braço para a planície:
“Olha para isto” — disse ele —,
“tudo o que vês é nosso; poderás
ficar com o que quiseres”.
Os olhos de Pahóm rebrilharam:
era tudo terra virgem, plana como
a
palma da mão, negra como
semente de papoila; e as diferentes
espécies de erva cresciam à altura
do peito.
O chefe tirou o barrete de pele
de raposa, colocou-o no chão e
disse:
“O sinal é este; partes daqui e
voltas aqui; é tua toda a terra a que
deres volta”.
Pahóm puxou do dinheiro e pô-lo no barrete; depois tirou o casaco
e ficou em colete; desapertou o
cinto e ajustou-o logo por baixo do
estômago, pôs um saquinho de pão
ao peito, atou um cantil de água ao
cinto, puxou os canos das botas,
pediu a pá ao criado e ficou pronto
a
largar; considerou por alguns
momentos sobre o caminho que
havia de tomar, mas era uma
tentação por toda a parte.
“Não faz mal” — concluiu —
“vou para o nascente”.
Voltou-se
para
leste,
espreguiçou-se e esperou que o Sol
aparecesse acima do horizonte.
“Não há tempo a perder” —
disse ele — “e é melhor ir já pela
fresquinha”.
Mal apareceu o primeiro raio de
sol, desceu Pahóm a colina, de pá
ao ombro; nem ia devagar, nem
depressa;
ao
fim
de
um
quilômetro, parou, fez um buraco e
pôs os torrões uns sobre os outros;
depois continuou e, como ia
aquecendo, apressou o passo; ao
fim de um certo tempo, fez outra
cova. Pahóm olhou para trás: a
colina
estava
distintamente
iluminada pelo Sol e viam-se os
Baquires e os aros cintilantes das
rodas; Pahóm calculou que teria
andado uma légua; como o calor
apertava, tirou o colete, pô-lo ao
ombro e continuou a caminhar;
estava quente a valer: olhou para o
Sol e viu que eram horas de pensar
no almoço.
“A primeira tirada está feita;
mas posso ainda fazer mais três,
porque é cedo para voltar; o que
tenho é de tirar as botas”.
Sentou-se, descalçou as botas,
pendurou-as ao cinto e continuou;
agora, andava à vontade.
“Mais
uma leguazita” — pensou ele —
“depois volto para a esquerda; este
bocado é tão bom que era uma
pena perdê-lo; quanto mais se
anda, melhor a terra parece.”
Avançou a direito durante algum
tempo e, quando olhou à volta, viu
que a colina mal se enxergava e
que
os
Baquires
pareciam
formiguinhas; e havia qualquer
coisa que brilhava.
“Já andei bastante para este
lado” — pensou Pahóm —, “é
tempo de voltar; e já estou a suar e
com sede”.
Parou, cavou um grande buraco
e
amontoou os torrões; depois,
desatou o cantil, sorveu um gole e
voltou à esquerda; foi andando,
andando sempre; a erva era alta, o
sol quentíssimo. Começou a sentir
se cansado: olhou para o Sol e viu
que era meio-dia.
“Bem, vou descansar um bocado”.
Sentou-se, comeu um naco de
pão, bebeu uma pinga de água;
mas não se deitou, com medo de
adormecer; depois de ficar sentado
uns
momentos, levantou-se e
continuou. A princípio, andava
bem: a comida tinha-lhe dado
forças; mas o calor aumentava,
sentia sono; apesar de tudo,
continuava, e repetia consigo:
“Um dia de dor, uma vida de
amor”.
Andou muito tempo na mesma
direção e estava para rodar à
esquerda, quando viu um sítio
úmido:
“Era uma pena deixar isto;
o linho deve dar-se bem aqui.”
Deu uma volta, cavou um buraco e
olhou para a colina; com o calor, o
ar
tremia e a colina tremia
também, mal se vendo os
Baquires.
“Os outros lados ficaram muito
grandes; tenho que fazer este mais
curto.”
E pôs-se a andar mais
depressa. Olhou para o Sol: estava
quase a meio caminho do
horizonte e não tinha ainda andado
três quilômetros do lado novo; e
ainda lhe faltavam três léguas para
a colina.
“Bem” — pensou ele — “não
me fica a terra quadrada, mas
agora tenho que ir a direito; podia
ir longe demais e assim já tenho
terra bastante”.
Abriu um buraco a toda a pressa
e partiu em direção à colina.
Continua na pág 52...
Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой. Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
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De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / De quanta terra um homem precisa? - III /
De quanta terra um homem precisa? - IV / De quanta terra um homem precisa? - V / De quanta terra um homem precisa? - VI /
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Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.
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