António Emílio Leite Couto
para além da saudade, da falta, do silêncio, e que espera nesse invisível fio que me costura a pele como quem conhece o destino, se recolhe, mas não deixa de ser, e eu, que me desfio em nada, quase desisto de reaprender, escondido do escuro na luz, já não sei por onde recomeço o gesto de florescer com cor e risos, continuo rasgado, pelo avesso, permaneço quando não permaneço, respiro essa sensação de estar vivo e ferido ao mesmo tempo, dói manter em pé esse quebra-cabeças, um sopro que não obriga, apenas lembra
O Amor, Meu Amor
Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
Minhas pernas são água,as tuas são luze dão a volta ao universoquando se enlaçamaté se tornarem deserto e escuro.E eu sofro de te abraçardepois de te abraçar para não sofrer.
E toco-tepara deixares de ter corpoe o meu corpo nascequando se extingue no teu.
E respiro em tipara me sufocare espreito em tua claridadepara me cegar,meu Sol vertido em Lua,minha noite alvorecida.
Tu me bebese eu me converto na tua sede.Meus lábios mordem,meus dentes beijam,minha pele te vestee ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tuE em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leitoQuando apenas queria dormir em ti.
E sonho-teQuando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,para em mim mesmo te plantarmenos que flor: simples perfume,lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meuse a minha vida, já sem leito,vai galgando margensaté tudo ser mar.Esse mar que só há depois do mar.
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