António Emílio Leite Couto
leituras onde cada linha parece conversar e se dobrar para dentro, como se respirasse comigo e o silêncio desabasse aos meus pés, quente e úmido, sem gemidos ou olhares (...) apenas nossa respiração e a nossa pele que se encosta sem tocar, murmúrios que não precisam de voz, você não parece saber meu nome, esqueceu. eu não pareço lembrar, não consigo esquecer, você respira comigo, eu penso que sei. (...) preciso tua voz para existir
Carta de Marta para Marcelo
"Sou mulher, sou Marta e só posso escrever. Afinal, talvez seja oportuna a tua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse da minha própria voz. Se viesses agora, Marcelo, ficaria sem fala. A minha voz emigrou para um corpo que já foi meu. E quando me escuto nem eu mesma me reconheço. Em assuntos de amor só posso escrever. Não é de agora, sempre foi assim, mesmo quando estavas presente.
E escrevo como as aves redigem o voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E não tenho para te dizer do que seremos. (...) Não tenho saudade, não tenho memória: meu ventre nunca gerou vida, meu sangue não se abriu em outro corpo. É assim que envelheço em mim, véu esquecido num banco de igreja.
Só te amei a ti, Marcelo. Essa fidelidade levou-me ao mais penoso dos exílios: esse amor afastou-me da possibilidade de amar. Agora, entre todos os nomes, só me resta o teu nome. Só a ele te posso pedir o que antes te pedia a ti: que me faça nascer! De nascer outra, longe de mim, longe do meu tempo. Estou exausta, Marcelo. Exausta, mas não vazia. para se estar vazia é preciso ter dentro. E eu perdi a minha interioridade.
Por que não escreveste nunca? Não é de te ler que mais tenho saudade. É o som da faca rasgando o envelope que trazia a tua carta. E sentir, de novo, uma carícia na alma, como se algures estivessem golpeando um cordão umbilical. Engano meu: não há faca, não há carta. Não há parto de nada, nem de ninguém.
Vês como fico pequena escrevendo para ti? (...)
- És parecida com a terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias. E quando nos beijávamos e eu perdia a respiração e, entre suspiros perguntavas: em que dia nasceste? E me respondias, voz trêmula: estou nascendo agora. E a tua mão ascendia por entre o vão das minhas pernas e eu voltava a perguntar: onde nasceste? E tu, quase sem voz, respondias: estou nascendo em ti, meu amor.
Era assim que dizias. Marcelo, tu eras um poeta. Eu era a tua poesia. E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. Porque te recebia não em meus olhos, mas com o meu corpo todo, linha por linha, poro por poro. (...)
Esta noite cumpri o ritual: despi-me toda para ler as velhas cartas de Marcelo.
O meu amor escrevia de modo tão profundo que, no decurso da leitura, eu sentia o braço dele roçando o meu corpo e era como se desabotoasse o vestido e as roupas desabassem a meus pés."
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Leituras:
Só Nua Eu Te Podia Ler /
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