Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Parte 1
6.
.
Winston escrevia em seu diário:
Foi há três anos. Numa noite escura, numa ruazinha estreita, perto
de uma das grandes estações de trem. Ela estava parada perto de uma
porta encravada no muro, debaixo da lâmpada de um poste que não
iluminava nada. Tinha um rosto jovem, muito maquiado. Foi a
maquiagem, aliás, o que mais me atraiu, a brancura que aquilo dava ao
rosto dela, como se fosse uma máscara, e o vermelho vivo dos lábios. As
mulheres do Partido nunca se pintam. Não tinha mais ninguém na rua e
nenhuma teletela à vista. Ela disse que o preço era dois dólares. Eu...
Por enquanto estava difícil prosseguir. Winston fechou os olhos e os
comprimiu com os dedos, tentando expulsar a imagem que insistia em
voltar. Sentia a tentação quase irresistível de proferir a plenos pulmões uma
sequência de palavras obscenas. Ou de bater com a cabeça na parede, chutar
a mesa e jogar o vidro de tinta pela janela — qualquer ato colérico, barulhento
ou doloroso que pudesse apagar a lembrança que o atormentava.
O pior inimigo de uma pessoa, refletiu, era seu sistema nervoso. A
qualquer momento a tensão que se acumulava em seu interior corria o risco
de traduzir-se num sintoma observável. Lembrou-se de um sujeito com o
qual cruzara na rua semanas antes: um homem de aspecto bastante
normal, membro do Partido, com cerca de trinta e cinco, quarenta anos, um
pouco alto e magro, levando uma pasta na mão. Estavam a alguns metros de
distância um do outro quando, sem mais nem menos, o lado esquerdo do
rosto do desconhecido sofrera uma espécie de espasmo e ficara todo
contorcido. A coisa se repetira no momento em que os dois se cruzavam: era
apenas uma contração muscular, um estremecimento, rápido como o clique
de um obturador fotográfico, mas obviamente acontecia com frequência.
Winston recordava ter pensado na ocasião: esse pobre-coitado está perdido. E
o assustador era o fato de que a coisa podia ser inconsciente. O perigo mais
letal de todos era falar dormindo. Até onde Winston podia ver, contra isso
não havia como precaver-se.
Respirou fundo e recomeçou a escrever:
Fui atrás dela. Atravessamos um pátio interno e chegamos a uma
cozinha num porão. Havia uma cama encostada à parede e em cima da
mesa via-se uma lamparina com a chama bem baixa. Ela...
Sentia os nervos à flor da pele. Gostaria de cuspir. Junto com a visão da
mulher na cozinha do porão, vinha-lhe a imagem de Katharine, sua mulher.
Winston era casado — ou pelo menos fora casado. Provavelmente
continuava casado, pois até onde sabia Katharine não estava morta. Tinha a
impressão de respirar outra vez o cheiro pesado e quente daquela cozinha,
um cheiro resultante da mistura de percevejos com roupas sujas e perfume
abominavelmente barato, mas mesmo assim envolvente, porque as
mulheres do Partido não se perfumavam nunca — era inimaginável que o
fizessem. Só as proletas usavam perfume. E na cabeça de Winston aquelas
fragrâncias estavam inextricavelmente associadas à fornicação.
Aquela mulher fora seu primeiro deslize em cerca de dois anos. Ir para a
cama com prostitutas era proibido, claro, mas essa era uma daquelas normas
que a pessoa por vezes se animava a desrespeitar. Era arriscado, no entanto
não punha a vida de ninguém em risco. Ser apanhado com uma prostituta
podia significar cinco anos num campo de trabalhos forçados; não mais que
isso, porém, se o sujeito não tivesse cometido nenhuma outra infração. E
não envolvia grandes complicações, contanto que você não se deixasse
flagrar em pleno ato. Os bairros mais pobres eram muito bem servidos de
mulheres que se dispunham a vender o próprio corpo. Algumas se vendiam
até por uma garrafa de gim, bebida que os proletas não estavam autorizados
a consumir. O Partido tinha uma tendência, inclusive, a estimular
tacitamente a prostituição, vendo nessa prática uma forma de dar vazão a
impulsos que não podiam ser de todo suprimidos. A devassidão enquanto tal
não preocupava muito, desde que fosse furtiva e sem alegria e envolvesse
apenas mulheres necessitadas que não suscitassem senão desprezo. O
crime imperdoável era a promiscuidade entre membros do Partido. No
entanto — e não obstante esse delito constar invariavelmente da lista de
crimes confessados pelos réus por ocasião dos grandes expurgos — era difícil
imaginar que uma coisa daquelas pudesse acontecer na prática.
A intenção do Partido não era apenas impedir que homens e mulheres
desenvolvessem laços de lealdade que eventualmente pudessem escapar de
seu controle. O objetivo verdadeiro e não declarado era eliminar todo prazer
do ato sexual. O inimigo era menos o amor que o erotismo, tanto dentro
como fora do matrimônio. Todos os casamentos entre membros do Partido
tinham de ser aprovados por uma comissão especialmente nomeada para
esse fim, e — conquanto o princípio jamais fosse exposto com clareza — a
permissão era sempre recusada quando havia sinais de atração física entre o
homem e a mulher em questão. O único propósito reconhecido do
casamento era gerar filhos para servir ao Partido. A relação sexual devia ser
encarada como uma operaçãozinha ligeiramente repulsiva, uma espécie de
lavagem intestinal. Isso tampouco era dito com todas as letras, sendo antes
inculcado sub-repticiamente na cabeça dos membros do Partido desde a mais
tenra infância. Havia inclusive organizações que defendiam o celibato
absoluto para ambos os sexos. Todas as crianças seriam geradas por
inseminação artificial (semart, em Novafala) e criadas por instituições
públicas. Winston estava consciente de que esse era um plano que não
devia ser levado inteiramente a sério, mas de todo modo era algo que se
encaixava na ideologia geral do Partido. O Partido tratava de aniquilar o
impulso sexual e, não podendo aniquilá-lo, queria pelo menos distorcê-lo e
aviltá-lo. Winston não sabia o motivo disso, mas parecia-lhe natural que
assim fosse. E, no que tocava às mulheres, os esforços do Partido eram em
larga medida bem-sucedidos.
Tornou a pensar em Katharine. Devia fazer nove, dez, quase onze anos
que os dois haviam se separado. Era curioso como ele raramente pensava
nela. Podia passar dias sem se lembrar de que havia sido casado. Tinham
vivido juntos apenas quinze meses. O Partido não permitia o divórcio, mas
estimulava a separação na ausência de filhos.
Katharine era uma moça alta, loura, muito ereta e dona de movimentos
esplêndidos. Tinha um rosto atrevido, com feições aduncas, um rosto que a
pessoa talvez se sentisse inclinada a chamar de nobre — até descobrir que
não havia praticamente nada por trás dele. Muito cedo na vida em comum
dos dois, Winston concluíra — embora talvez essa conclusão fosse uma
simples decorrência do fato de que a conhecia mais intimamente do que à
maioria das pessoas — que Katharine era dotada da mente mais estúpida,
vulgar e vazia com que já deparara. A cabeça dela era incapaz de formular um
só pensamento que não fosse um slogan, assim como não havia
imbecilidade que ela não engolisse se o Partido assim o quisesse. “A trilha
sonora humana”, apelidara-a para si mesmo. E, contudo, teria tolerado viver
com ela se não fosse aquele pequeno detalhe — o sexo.
Assim que Winston a tocava, Katharine parecia estremecer e retesar-se
toda. Abraçá-la era como abraçar um boneco articulado de madeira. E o
estranho era que, mesmo quando ela o estreitava contra si, Winston tinha a
sensação de que Katharine ao mesmo tempo o repelia com todas as suas
forças. A impressão era transmitida pela rigidez dos músculos da mulher. Ela
ficava estendida na cama de olhos fechados, sem resistir nem cooperar,
apenas submetendo-se. Era extraordinariamente constrangedor e, passado
algum tempo, horrível. E mesmo assim Winston teria tolerado viver com ela
se os dois tivessem feito um acordo no sentido de manter-se celibatários. No
entanto, curiosamente, fora a própria Katharine quem descartara essa
possibilidade. Não havendo impedimento, era dever dos dois, afirmava ela,
gerar uma criança. De modo que a coisa continuou sucedendo uma vez por
semana, com grande regularidade, sempre que não fosse impossível.
Katharine chegava mesmo a lembrá-lo pela manhã, como se aquilo fosse um
compromisso que os dois tivessem mais tarde, algo de que não podiam se
esquecer. Ela usava dois nomes para se referir à coisa. Um era “fazer nenê”;
o outro, “nosso dever para com o Partido” (sim, ela usara mesmo essa frase).
Não tardou para que Winston passasse a sentir verdadeiro pavor ao ver
chegar o dia marcado. Felizmente, porém, não veio nenhuma criança,
Katharine acabou concordando em desistir de tentar e pouco depois os dois
se separaram.
Winston soltou um suspiro inaudível. Tornou a empunhar a caneta e
escreveu:
Ela se jogou na cama e, no mesmo instante, sem nenhum tipo de
preliminar, da maneira mais grosseira e detestável que se possa
conceber, levantou a saia. Eu...
Winston tornou a ver-se naquele aposento mal-iluminado, com o cheiro
de percevejo e perfume barato nas narinas e no coração um sentimento de
derrota e rancor que mesmo naquele momento vinha mesclado com a
lembrança do corpo de Katharine, aquele corpo branco, congelado para todo o
sempre pelo poder hipnótico do Partido. Por que tinha de ser sempre assim?
Por que ele não podia ter uma mulher que fosse sua, em vez daquele
engalfinhamento asqueroso de tempos em tempos? Viver um amor
verdadeiro, porém, era algo quase impensável. As mulheres do Partido eram
todas iguais. Nelas a castidade estava tão profundamente entranhada
quanto a lealdade ao Partido. Graças a um condicionamento cuidadoso,
iniciado desde muito cedo, com jogos e água fria, com as porcarias que lhes
vociferavam na escola, nos Espiões e na Liga da Juventude, com as palestras,
os desfiles, as canções, os slogans e a música marcial, todo sentimento
natural fora arrancado delas. O lado racional de Winston lhe dizia que devia
haver exceções, porém seu coração não acreditava nisso. Eram todas
inexpugnáveis, como o Partido queria que fossem. E o que ele desejava, ainda
mais que ser amado, era pôr abaixo aquele muro de virtude, nem que fosse
apenas por uma vez na vida. O ato sexual bem realizado era sublevação.
Desejar era pensamento-crime. Se ele tivesse despertado o desejo de
Katharine, se tivesse conseguido fazê-lo, teria sido como uma sedução,
mesmo ela sendo mulher dele.
Mas era preciso escrever o resto da história. Winston prosseguiu:
Aumentei um pouco a chama da lamparina. Com a luz, vi que ela...
Depois da escuridão, a luz débil da lamparina a querosene lhe parecera
fortíssima. Pela primeira vez podia ver claramente a mulher. Dera um passo
na direção dela e em seguida estacara, tomado de desejo e horror. Tinha
consciência — uma consciência dolorida — do risco que assumira ao ir até lá.
Era perfeitamente possível que os policiais o surpreendessem quando
estivesse de saída; podiam inclusive estar, naquele instante mesmo, à sua
espera do lado de fora. Se fosse embora sem chegar a fazer o que tinha ido
fazer ali...!
Era preciso escrever aquilo, era preciso confessá-lo. O que ele percebera
de repente à luz da lamparina era que a mulher era velha. Ela rebocara o
rosto com tantas camadas de maquiagem que o rosto parecia uma máscara
de papelão prestes a sofrer uma rachadura. Viam-se mechas brancas em
seus cabelos, porém o detalhe verdadeiramente pavoroso era que ela abrira
um pouco a boca e ali dentro não havia nada além de um negrume
cavernoso. Não possuía um dente sequer.
Winston escreveu apressado, em garranchos:
Com a luz, vi que ela era bem velha, devia ter pelo menos uns
cinquenta anos. Mas fui em frente e fiz a coisa mesmo assim.
Tornou a comprimir as pálpebras com os dedos. Escrevera, finalmente,
mas não fizera diferença. A terapia não funcionara. A ânsia de proferir
palavras obscenas a plenos pulmões continuava intensa como nunca.
continua na página 74...
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Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) / Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério) /
Parte 1.4 (Com o suspiro profundo) / Parte 1.5a (Na cantina de teto baixo) / Parte 1.5b (Alguma coisa em seu tom de voz) /
Parte 1.6 (Winston escrevia em seu diário:) /
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.
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