quarta-feira, 17 de junho de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.6 (Winston escrevia em seu diário:)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

6.
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     Winston escrevia em seu diário:

          Foi há três anos. Numa noite escura, numa ruazinha estreita, perto de uma das grandes estações de trem. Ela estava parada perto de uma porta encravada no muro, debaixo da lâmpada de um poste que não iluminava nada. Tinha um rosto jovem, muito maquiado. Foi a maquiagem, aliás, o que mais me atraiu, a brancura que aquilo dava ao rosto dela, como se fosse uma máscara, e o vermelho vivo dos lábios. As mulheres do Partido nunca se pintam. Não tinha mais ninguém na rua e nenhuma teletela à vista. Ela disse que o preço era dois dólares. Eu...

     Por enquanto estava difícil prosseguir. Winston fechou os olhos e os comprimiu com os dedos, tentando expulsar a imagem que insistia em voltar. Sentia a tentação quase irresistível de proferir a plenos pulmões uma sequência de palavras obscenas. Ou de bater com a cabeça na parede, chutar a mesa e jogar o vidro de tinta pela janela — qualquer ato colérico, barulhento ou doloroso que pudesse apagar a lembrança que o atormentava.
     O pior inimigo de uma pessoa, refletiu, era seu sistema nervoso. A qualquer momento a tensão que se acumulava em seu interior corria o risco de traduzir-se num sintoma observável. Lembrou-se de um sujeito com o qual cruzara na rua semanas antes: um homem de aspecto bastante normal, membro do Partido, com cerca de trinta e cinco, quarenta anos, um pouco alto e magro, levando uma pasta na mão. Estavam a alguns metros de distância um do outro quando, sem mais nem menos, o lado esquerdo do rosto do desconhecido sofrera uma espécie de espasmo e ficara todo contorcido. A coisa se repetira no momento em que os dois se cruzavam: era apenas uma contração muscular, um estremecimento, rápido como o clique de um obturador fotográfico, mas obviamente acontecia com frequência. Winston recordava ter pensado na ocasião: esse pobre-coitado está perdido. E o assustador era o fato de que a coisa podia ser inconsciente. O perigo mais letal de todos era falar dormindo. Até onde Winston podia ver, contra isso não havia como precaver-se.
     Respirou fundo e recomeçou a escrever:

          Fui atrás dela. Atravessamos um pátio interno e chegamos a uma cozinha num porão. Havia uma cama encostada à parede e em cima da mesa via-se uma lamparina com a chama bem baixa. Ela...

     Sentia os nervos à flor da pele. Gostaria de cuspir. Junto com a visão da mulher na cozinha do porão, vinha-lhe a imagem de Katharine, sua mulher. Winston era casado — ou pelo menos fora casado. Provavelmente continuava casado, pois até onde sabia Katharine não estava morta. Tinha a impressão de respirar outra vez o cheiro pesado e quente daquela cozinha, um cheiro resultante da mistura de percevejos com roupas sujas e perfume abominavelmente barato, mas mesmo assim envolvente, porque as mulheres do Partido não se perfumavam nunca — era inimaginável que o fizessem. Só as proletas usavam perfume. E na cabeça de Winston aquelas fragrâncias estavam inextricavelmente associadas à fornicação.
     Aquela mulher fora seu primeiro deslize em cerca de dois anos. Ir para a cama com prostitutas era proibido, claro, mas essa era uma daquelas normas que a pessoa por vezes se animava a desrespeitar. Era arriscado, no entanto não punha a vida de ninguém em risco. Ser apanhado com uma prostituta podia significar cinco anos num campo de trabalhos forçados; não mais que isso, porém, se o sujeito não tivesse cometido nenhuma outra infração. E não envolvia grandes complicações, contanto que você não se deixasse flagrar em pleno ato. Os bairros mais pobres eram muito bem servidos de mulheres que se dispunham a vender o próprio corpo. Algumas se vendiam até por uma garrafa de gim, bebida que os proletas não estavam autorizados a consumir. O Partido tinha uma tendência, inclusive, a estimular tacitamente a prostituição, vendo nessa prática uma forma de dar vazão a impulsos que não podiam ser de todo suprimidos. A devassidão enquanto tal não preocupava muito, desde que fosse furtiva e sem alegria e envolvesse apenas mulheres necessitadas que não suscitassem senão desprezo. O crime imperdoável era a promiscuidade entre membros do Partido. No entanto — e não obstante esse delito constar invariavelmente da lista de crimes confessados pelos réus por ocasião dos grandes expurgos — era difícil imaginar que uma coisa daquelas pudesse acontecer na prática.
     A intenção do Partido não era apenas impedir que homens e mulheres desenvolvessem laços de lealdade que eventualmente pudessem escapar de seu controle. O objetivo verdadeiro e não declarado era eliminar todo prazer do ato sexual. O inimigo era menos o amor que o erotismo, tanto dentro como fora do matrimônio. Todos os casamentos entre membros do Partido tinham de ser aprovados por uma comissão especialmente nomeada para esse fim, e — conquanto o princípio jamais fosse exposto com clareza — a permissão era sempre recusada quando havia sinais de atração física entre o homem e a mulher em questão. O único propósito reconhecido do casamento era gerar filhos para servir ao Partido. A relação sexual devia ser encarada como uma operaçãozinha ligeiramente repulsiva, uma espécie de lavagem intestinal. Isso tampouco era dito com todas as letras, sendo antes inculcado sub-repticiamente na cabeça dos membros do Partido desde a mais tenra infância. Havia inclusive organizações que defendiam o celibato absoluto para ambos os sexos. Todas as crianças seriam geradas por inseminação artificial (semart, em Novafala) e criadas por instituições públicas. Winston estava consciente de que esse era um plano que não devia ser levado inteiramente a sério, mas de todo modo era algo que se encaixava na ideologia geral do Partido. O Partido tratava de aniquilar o impulso sexual e, não podendo aniquilá-lo, queria pelo menos distorcê-lo e aviltá-lo. Winston não sabia o motivo disso, mas parecia-lhe natural que assim fosse. E, no que tocava às mulheres, os esforços do Partido eram em larga medida bem-sucedidos.
     Tornou a pensar em Katharine. Devia fazer nove, dez, quase onze anos que os dois haviam se separado. Era curioso como ele raramente pensava nela. Podia passar dias sem se lembrar de que havia sido casado. Tinham vivido juntos apenas quinze meses. O Partido não permitia o divórcio, mas estimulava a separação na ausência de filhos.
     Katharine era uma moça alta, loura, muito ereta e dona de movimentos esplêndidos. Tinha um rosto atrevido, com feições aduncas, um rosto que a pessoa talvez se sentisse inclinada a chamar de nobre — até descobrir que não havia praticamente nada por trás dele. Muito cedo na vida em comum dos dois, Winston concluíra — embora talvez essa conclusão fosse uma simples decorrência do fato de que a conhecia mais intimamente do que à maioria das pessoas — que Katharine era dotada da mente mais estúpida, vulgar e vazia com que já deparara. A cabeça dela era incapaz de formular um só pensamento que não fosse um slogan, assim como não havia imbecilidade que ela não engolisse se o Partido assim o quisesse. “A trilha sonora humana”, apelidara-a para si mesmo. E, contudo, teria tolerado viver com ela se não fosse aquele pequeno detalhe — o sexo.
     Assim que Winston a tocava, Katharine parecia estremecer e retesar-se toda. Abraçá-la era como abraçar um boneco articulado de madeira. E o estranho era que, mesmo quando ela o estreitava contra si, Winston tinha a sensação de que Katharine ao mesmo tempo o repelia com todas as suas forças. A impressão era transmitida pela rigidez dos músculos da mulher. Ela ficava estendida na cama de olhos fechados, sem resistir nem cooperar, apenas submetendo-se. Era extraordinariamente constrangedor e, passado algum tempo, horrível. E mesmo assim Winston teria tolerado viver com ela se os dois tivessem feito um acordo no sentido de manter-se celibatários. No entanto, curiosamente, fora a própria Katharine quem descartara essa possibilidade. Não havendo impedimento, era dever dos dois, afirmava ela, gerar uma criança. De modo que a coisa continuou sucedendo uma vez por semana, com grande regularidade, sempre que não fosse impossível. Katharine chegava mesmo a lembrá-lo pela manhã, como se aquilo fosse um compromisso que os dois tivessem mais tarde, algo de que não podiam se esquecer. Ela usava dois nomes para se referir à coisa. Um era “fazer nenê”; o outro, “nosso dever para com o Partido” (sim, ela usara mesmo essa frase). Não tardou para que Winston passasse a sentir verdadeiro pavor ao ver chegar o dia marcado. Felizmente, porém, não veio nenhuma criança, Katharine acabou concordando em desistir de tentar e pouco depois os dois se separaram.
     Winston soltou um suspiro inaudível. Tornou a empunhar a caneta e escreveu:

          Ela se jogou na cama e, no mesmo instante, sem nenhum tipo de preliminar, da maneira mais grosseira e detestável que se possa conceber, levantou a saia. Eu...

     Winston tornou a ver-se naquele aposento mal-iluminado, com o cheiro de percevejo e perfume barato nas narinas e no coração um sentimento de derrota e rancor que mesmo naquele momento vinha mesclado com a lembrança do corpo de Katharine, aquele corpo branco, congelado para todo o sempre pelo poder hipnótico do Partido. Por que tinha de ser sempre assim? Por que ele não podia ter uma mulher que fosse sua, em vez daquele engalfinhamento asqueroso de tempos em tempos? Viver um amor verdadeiro, porém, era algo quase impensável. As mulheres do Partido eram todas iguais. Nelas a castidade estava tão profundamente entranhada quanto a lealdade ao Partido. Graças a um condicionamento cuidadoso, iniciado desde muito cedo, com jogos e água fria, com as porcarias que lhes vociferavam na escola, nos Espiões e na Liga da Juventude, com as palestras, os desfiles, as canções, os slogans e a música marcial, todo sentimento natural fora arrancado delas. O lado racional de Winston lhe dizia que devia haver exceções, porém seu coração não acreditava nisso. Eram todas inexpugnáveis, como o Partido queria que fossem. E o que ele desejava, ainda mais que ser amado, era pôr abaixo aquele muro de virtude, nem que fosse apenas por uma vez na vida. O ato sexual bem realizado era sublevação. Desejar era pensamento-crime. Se ele tivesse despertado o desejo de Katharine, se tivesse conseguido fazê-lo, teria sido como uma sedução, mesmo ela sendo mulher dele.
     Mas era preciso escrever o resto da história. Winston prosseguiu:

          Aumentei um pouco a chama da lamparina. Com a luz, vi que ela...

     Depois da escuridão, a luz débil da lamparina a querosene lhe parecera fortíssima. Pela primeira vez podia ver claramente a mulher. Dera um passo na direção dela e em seguida estacara, tomado de desejo e horror. Tinha consciência — uma consciência dolorida — do risco que assumira ao ir até lá. Era perfeitamente possível que os policiais o surpreendessem quando estivesse de saída; podiam inclusive estar, naquele instante mesmo, à sua espera do lado de fora. Se fosse embora sem chegar a fazer o que tinha ido fazer ali...!
     Era preciso escrever aquilo, era preciso confessá-lo. O que ele percebera de repente à luz da lamparina era que a mulher era velha. Ela rebocara o rosto com tantas camadas de maquiagem que o rosto parecia uma máscara de papelão prestes a sofrer uma rachadura. Viam-se mechas brancas em seus cabelos, porém o detalhe verdadeiramente pavoroso era que ela abrira um pouco a boca e ali dentro não havia nada além de um negrume cavernoso. Não possuía um dente sequer.
     Winston escreveu apressado, em garranchos:

          Com a luz, vi que ela era bem velha, devia ter pelo menos uns cinquenta anos. Mas fui em frente e fiz a coisa mesmo assim.

     Tornou a comprimir as pálpebras com os dedos. Escrevera, finalmente, mas não fizera diferença. A terapia não funcionara. A ânsia de proferir palavras obscenas a plenos pulmões continuava intensa como nunca.
  
continua na página 74...
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Parte 1.6 (Winston escrevia em seu diário:) /                  
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

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