sexta-feira, 19 de junho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: O lago de Maracaibo no bucho dos grandes abutres do metal (8)

 A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra


PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     40. O lago de Maracaibo no bucho dos grandes abutres do metal
          Ainda que sua participação no mercado mundial, nos anos 60, tenha sido reduzida à metade, a Venezuela, em 1970, ainda é o maior exportador latino-americano de petróleo. Da Venezuela provém quase a metade dos lucros que os capitais norte-americanos subtraem de toda a América Latina. Esse é um dos países mais ricos do planeta e também um dos mais pobres e mais violentos. Exibe a mais alta renda per capita da América Latina e possui a mais completa e ultramoderna rede de estradas; em proporção ao número de habitantes, nenhuma outra nação do mundo bebe tanto uísque escocês. As reservas de petróleo, gás e ferro que seu subsolo oferece à exploração imediata poderiam multiplicar por dez a riqueza de cada um dos venezuelanos; em suas vastas terras virgens poderia caber, inteira, a população da Alemanha ou da Inglaterra. Em meio século, as sondas extraíram uma renda petroleira tão fabulosa que representa o dobro do Plano Marshall para a reconstrução da Europa; desde que jorrou o primeiro poço, a população se multiplicou por três e o orçamento nacional por 100, mas boa parte da população, que disputa os restos da minoria dominante, não se alimenta melhor do que na época em que o país dependia do cacau e de café [1]. Caracas, a capital, cresceu sete vezes em 30 anos; a cidade patriarcal de arejados pátios, praça maior e catedral silenciosa, eriçou-se de arranha-céus na mesma medida em que brotaram as torres de petróleo no lago de Maracaibo. Hoje, é um pesadelo de ar-condicionado, supersônica e estrepitosa, um centro da cultura do petróleo que prefere o consumo à criação e que multiplica as necessidades artificiais para ocultar as reais. Caracas ama os produtos sintéticos e os alimentos enlatados: não caminha nunca, só se movimenta em automóvel, e com os gases dos motores envenenou o outrora límpido ar do vale; Caracas custa a dormir, pois não pode sofrear a ânsia de ganhar, e comprar, consumir e gastar, e de se apossar de tudo. Nas encostas dos morros, mais de meio milhão de esquecidos contempla, de suas choças erguidas com lixo, o esbanjamento alheio. Relampejam milhares e milhares de automóveis último modelo pelas avenidas da dourada capital. Na véspera das festas, os barcos chegam ao porto de La Guaira lotados de champanhe francês, uísque da Escócia e pinheiros de Natal que vêm do Canadá, enquanto a metade das crianças e dos jovens da Venezuela, em 1970, segundo os censos, continua fora da sala de aula.

[1] Na redação deste capítulo, o autor utilizou, além das obras já citadas de Harvey O’Connor e Francisco Mieres, os seguintes livros: ARAÚJO, Orlando. Operación Puerto Rico sobre Venezuela. Caracas, 1967; RITO, Federico. Venezuela siglo XX. La Habana, 1967; FALCON URANO, M. A. Desarrollo e industrialización de Venezuela. Caracas, 1969; HOCHMAN, Elena, MUJICA, Héctor et alii. Venezuela 1º. Caracas, 1963; KREHM, William. Democracia y tiranías en el Caribe. Buenos Aires, 1959; os ensaios de D.F. Maza Zavala, Salvador de la Plaza, Pedro Esteban Mejia y Leonardo Montiel Ortega no volume citado na nota 232; QUINTERO, Rodolfo. La cultura del petróleo. Caracas, 1968; RANGEL, Domingo Alberto. El processo del capitalismo contemporáneo en Venezuela. Caracas, 1968; USLAR PIETRI, Arturo. “¿Tiene un porvenir la juventud venezolana?” In: Cuadernos Americanos. México, marçoabril de 1968; e Nações Unidas-CEPAL. Estudio económico de América Latina – 1969. Santiago de Chile, 1970.

     Três milhões e meio de barris de petróleo a Venezuela produz ao dia para pôr em movimento o maquinário industrial do mundo capitalista, mas as diversas filiais da Standard Oil, da Shell, da Gulf e da Texaco não exploram quatro quintas partes de suas concessões, que continuam sendo reservas virgens, e mais da metade do valor das exportações não volta nunca ao país. Os folhetos de publicidade da Creole (Standard Oil) exaltam a filantropia da corporação na Venezuela nos mesmos termos em que, em meados do século XVIII, proclamava suas virtudes a Real Companhia Guipuzcoana; os lucros arrancados desta grande vaca leiteira só são comparáveis, em proporção ao capital investido, àqueles que no passado obtinham os mercadores de escravos ou os corsários. Nenhum país produziu tanto para o capitalismo mundial em tão pouco tempo: a Venezuela drenou uma riqueza que, segundo Rangel, excede a que os espanhóis usurparam de Potosí ou os ingleses da Índia. A primeira Convenção Nacional de Economistas revelou que os ganhos reais das empresas petrolíferas na Venezuela tinham subido, em 1961, para 38 por cento, e em 1962, para 48 por cento, embora as taxas de lucro anunciadas em seus balanços fossem de 15 e 17 por cento, respectivamente. A diferença corre por conta da magia da contabilidade e das transferências ocultas. De resto, na complicada relojoaria do negócio do petróleo, com seus múltiplos e simultâneos sistemas de preços, torna-se muito difícil estimar o volume dos lucros que se ocultam atrás da baixa artificial da cotação do petróleo cru, que do poço à bomba de gasolina circula sempre pelas mesmas veias, e atrás da alta artificial dos gastos de produção, onde se computam salários de fábula e muito inflados custos de publicidade. O certo é que, segundo os números oficiais, na última década a Venezuela não registrou o ingresso de novos investimentos do exterior, mas registrou, sim, um sistemático desinvestimento. A Venezuela sofre a sangria de mais de 700 milhões de dólares anuais, convictos e confessos como “rendas do capital estrangeiro”. Os únicos investimentos novos provêm dos ganhos que o próprio país proporciona. Enquanto isso, os custos da extração do petróleo vão baixando em linha vertical, pois as empresas, progressivamente, ocupam menos mão de obra. Só entre 1959 e 1962 reduziu-se em mais de dez mil o número de operários: restaram pouco mais de 30 mil em atividade, e em fins de 1970 o petróleo ocupa nada mais do que 23 mil trabalhadores. A produção, no consideravelmente na última década.
     Como consequência do desemprego crescente, agravou-se a crise dos acampamentos petroleiros do lago de Maracaibo. O lago é um bosque de torres. Dentro das armações de ferros cruzados, o implacável cabeceio dos balancins, há meio século, gera toda a opulência e toda a miséria da Venezuela. Ardem os queimadores junto aos balancins, queimando impunemente o gás natural que o país se dá ao luxo de presentear à atmosfera. Encontram-se balancins até nos fundos das casas e nas esquinas das ruas das cidades que brotaram aos jorros, como o petróleo, nas costas do lago: ali o petróleo tinge de preto as ruas e as roupas, os alimentos e as paredes, e até as profissionais do amor recebem apelidos petroleiros, tais como “a Tubeira”, a “Quatro Válvulas”, a “Guindaste” ou a “Rebocadora”. Os preços da vestimenta e da comida são mais altos do que em Caracas. Essas aldeias modernas, de triste nascimento e ao mesmo tempo aceleradas pela alegria do dinheiro fácil, já descobriram que não têm destino. Quando se esgotam os poços, a sobrevivência se torna matéria de milagre: restam os esqueletos das casas, as águas oleosas de veneno matando peixes e lambendo as zonas abandonadas. A desgraça também acomete as cidades que vivem da exploração de poços em atividade, pela mecanização crescente e as demissões em massa. “Por aqui o petróleo nos passou por cima”, dizia um morador de Lagunillas em 1966. Cabimas, que durante meio século foi a maior fonte de petróleo da Venezuela, e que tanta prosperidade deu a Caracas e ao mundo, não tem sequer vasos sanitários. Conta apenas com um par de avenidas asfaltadas.
     A euforia se alastrara muitos anos atrás. Por volta de 1917, o petróleo já coexistia, na Venezuela, com os latifúndios tradicionais, as imensas áreas despovoadas e de terras ociosas, onde os fazendeiros vigiavam o rendimento de sua força de trabalho chicoteando os peões ou enterrando-os vivos até a cintura. Em fins de 1922, irrompeu o poço La Rosa, que jorrava 100 mil barris por dia, e se desencadeou a tormenta petroleira. rotaram as sondas e os guindastes no lago de Maracaibo, subitamente invadido por estranhos equipamentos e homens com capacete de cortiça; afluíam camponeses e se instalavam naqueles solos ferventes, entre tambores e latas de óleo, para oferecer seus braços ao petróleo. Os sotaques de Oklahoma e do Texas ressoavam pela primeira vez nas planícies e nas matas, até nas mais ocultas comarcas. Setenta e três empresas surgiram num santiamém. O rei do carnaval das concessões era o ditador Juan Vicente Gómez, um pecuarista dos Andes que ocupou seus 27 anos de governo (1908-35) fazendo filhos e negócios. Enquanto as torrentes negras nasciam aos borbotões, Gómez tirava ações petroleiras de seus bolsos repletos e com elas presenteava seus amigos, seus parentes, seus cortesãos, o médico que cuidava de sua próstata e os generais que cuidavam de suas costas, os poetas que cantavam sua glória e o arcebispo que lhe dava permissão para comer carne na Sexta-Feira Santa. As grandes potências cobriam o peito de Gómez de cintilantes condecorações: era preciso alimentar os automóveis que invadiam os caminhos do mundo. Os favoritos do ditador vendiam suas concessões à Shell, ou à Standard Oil, ou à Gulf; o tráfico de influências e de subornos estimulou a especulação e a fome de subsolos. As comunidades indígenas foram despojadas de suas terras, e muitas famílias de agricultores, por bem ou por mal, perderam suas propriedades. A lei do petróleo de 1922 foi redigida pelos representantes de três firmas dos Estados Unidos. Os campos de petróleo estavam cercados e tinham polícia própria. Era proibida a entrada de quem não apresentasse documentos expedidos pela empresa; estava interdito até o trânsito pelas estradas que conduziam o petróleo até os portos. Quando Gómez morreu, em 1935, os operários petroleiros cortaram as cercas de arame farpado que rodeavam os acampamentos e se declararam em greve.
     Em 1948, com a queda do governo de Rómulo Gallegos, fechou-se o ciclo reformista inaugurado três anos antes, e os vitoriosos prontamente reduziram a participação do Estado no petróleo extraído pelas filiais do cartel. A baixa nos impostos, em 1954, traduziu-se em mais de 300 milhões de dólares de ganhos adicionais para a Standard Oil. Em 1953, um homem de negócios dos Estados Unidos havia declarado em Caracas: “Aqui, você tem a liberdade de fazer o que quiser com seu dinheiro; para mim, esta liberdade vale mais do que todas as liberdades políticas e civis juntas” [2]. Quando o ditador Marcos Pérez Jiménez foi derrubado em 1958, a Venezuela era um vasto poço de petróleo rodeado de cárceres e câmaras de tortura que importava tudo dos Estados Unidos: os automóveis e as geladeiras, o leite condensado, os ovos, as alfaces, as leis e os decretos. A maior das empresas de Rockefeller, a Creole, havia declarado em 1957 lucros que chegavam quase à metade de seus investimentos totais. A junta revolucionária do governo elevou o imposto de renda das maiores empresas de 25 para 45 por cento. Em represália, o cartel impôs a imediata queda de preço do petróleo venezuelano e foi então que começaram as despedidas em massa de operários. Tanto desabou o preço que, apesar do aumento dos impostos e do maior volume do petróleo exportado, em 1958 o Estado arrecadou 60 milhões de dólares menos do que no ano anterior.

[2] Time, edição para a América Latina, 11 de setembro de 1953.

     Os governos seguintes não nacionalizaram a indústria petrolífera, mas tampouco autorizaram, até 1970, novas concessões às empresas estrangeiras para a extração do ouro negro. Entrementes, o cartel acelerou a produção de suas jazidas no Oriente Próximo e no Canadá; na Venezuela, virtualmente cessou a prospecção de novos poços e a exportação está paralisada. A política de negar novas concessões perdeu sentido, na medida em que a Corporação Venezuelana do Petróleo, o organismo estatal, não assumiu a responsabilidade vacante. A Corporação limitou-se a perfurar uns poucos poços aqui e ali, confirmando que sua função não é outra senão aquela que lhe atribuiu o presidente Rómulo Betancourt: “Não alcançar a dimensão de grande empresa, mas servir de intermediária para as negociações na nova fórmula de concessões”. A nova fórmula, ainda que várias vezes anunciada, não foi posta em prática.
     Entrementes, um forte impulso industrializador que ganhava corpo e força nas duas últimas décadas já mostra visíveis sintomas de esgotamento, e vive uma impotência muito conhecida na América Latina: o mercado interno, reprimido pela pobreza das maiorias, não é capaz de sustentar o desenvolvimento manufatureiro além de certos limites. De outra parte, a reforma agrária, inaugurada pelo governo da Ação Democrática, ficou em menos da metade do caminho que propusera recorrer, segundo as promessas de seus criadores. A Venezuela compra no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, boa parte dos alimentos que consome. O prato nacional, por exemplo, que é o feijão preto, chega do norte em grande quantidade, e nos sacos fulgura a palavra “beans”.
     Salvador Garmendia, o romancista que reinventou o inferno pré-fabricado de toda essa cultura de conquista, a cultura do petróleo, escrevia-me numa carta de meados de 1969: “Já viste um balancim, o aparelho que extrai o petróleo cru? Tem a forma de um grande pássaro negro cuja pontiaguda cabeça sobe e desce pesadamente, dia e noite, sem parar um só segundo: é o único abutre que não come merda. O que acontecerá quando ouvirmos o ruído característico do sorvedouro ao acabar o líquido? A ouverture grotesca já começa a ser ouvida no lago de Maracaibo, onde do dia para a noite brotaram povoados fabulosos com cinemas, supermercados, dancings, ajuntamento de putas e jogatinas em que o dinheiro não valia quase nada. Há pouco andei por lá e senti uma garra no estômago. O cheiro de morto e de sucata é mais forte do que o do óleo. Os povoados estão quase desertos, carcomidos, todos ulcerados pela ruína, as ruas embarradas, as lojas em escombros. Um antigo mergulhador das empresas submerge diariamente, armado de uma serra, para cortar pedaços de canos abandonados e vender como ferro-velho. As pessoas começam a falar das companhias como quem evoca uma fábula dourada. Vive-se de um passado mítico e funambulesco de fortunas perdidas num lance de dados e bebedeiras de sete dias. Os balancins continuam cabeceando, e a chuva de dólares cai em Miraflores, o palácio do governo, para transformar-se em autopista e outros monstros de cimento armado. E 70 por cento do país vive à margem de tudo. Nas cidades prospera uma desnorteada classe média com altos salários, que se enche de objetos inúteis, vive aturdida pela publicidade e professa a imbecilidade e o mau gosto de forma estridente. Recentemente o governo anunciou com grande pompa que acabou com o analfabetismo. Resultado: na passada festa eleitoral, o censo dos inscritos contabilizou 1 milhão de analfabetos entre os dezoito e os 50 anos de idade”.

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As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: O lago de Maracaibo no bucho dos grandes abutres do metal (8)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

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