quinta-feira, 7 de julho de 2011

Comunistas desgraçados


Cala a boca!

baitasar

Sábado ensolarado, seco, frio, bem típico do clima nos pampas, sul da América Latina. A ventania do minuano não apareceu, nem a chuva, então, o sol e o chimarrão forneciam o calor e a água indispensáveis ao Manualdo. Sem eles, naqueles períodos de frio intenso, não existiria vida no bugre.

Sentado feito um lagarto ao sol, as mãos aquecidas pelo seio moreno da cuia levavam o chimarrão até a boca, um longo trago no mate. Gostava assim, quentíssimo, a ponto de estropiar novilho curioso que se aproximasse pra experimentar. Enquanto chuchava o seu mate na cuia pequena, deixou o olhar na lonjura do passado. Sentiu saudades das conversas com o pai. O seu velho de muitas histórias. Vida de menino plantador do milho, mandioca, e seus banhos no arroio. O pai nunca saiu das suas terras, não quis mudar de plantação e dono.

O mormaço do corpo sempre carregava junto um lento desfalecimento, o bugre fechava lentamente os olhos. A cuia no colo, afirmada nas mãos, não tinha perigo de cair. A chaleira de ferro com a água do chimarrão era aquecida no fogão de pedra, invencionice do bugre. Um gaúcho sem cavalo e sem botas, fugido do engenho de carne-seca, bugre cor de terra, catequizado, corpo grosso, pés grandes, vagaroso nos seus movimentos, mas de muita persistência.

Lá estava o catequizado, sonhava ou lembrava o arroio Inhacundá, os meninos pelados. Invencionice que seu pai contava. As memórias da meninice do velho.

As curvas sinuosas do arroio, a cabana humilde com o teto de telhas em canoa, tudo enraizava as lembranças no corpo do pai. O velho nunca deixou de ser o guri que foi, parecia que os cabelos se arrepiavam quando lembrava a barranca, flutuava no ar com as pernas encolhidas, os gritos de alegria, os olhos arregalados da satisfação com a vida.

O bugre lagarteava sonolento, Por São Francisquinho, protetor das terras do Inhacundá, esqueci do encontro. Acordou assustado com a lembrança do aniversário da sua Maria. Esqueceu de buscar a encomenda, Merda. Presente de aniversário tinha gosto melhor se fosse dado no dia do acontecido.

Guardou o ferramental do chimarrão e avisou, Minha preta, vou sair, Não se demora, O meu apetite está em casa. Saiu assobiando.

Foi com a andadura do apressamento, as pernas giravam como hélices, o tempo estava apertado para chegar na hora marcada, se não chegasse no tempo ficava sem o presente. Não podia perder o negócio, já tinha dado sinal de intenção, a compra tinha lhe saído quase de graça, não podia perder essa arrumação depois de tudo arranjado. Aliás, foi tudo rápido e estranho. Lembrava de comentar com o Pimentel a vontade de comprar uma bicicleta para sua esposa. Na saída dos empilhamentos já tinha um camarada oferecendo o maquinário.

Chegou.

O vendedor continuava esperando, Achei que o brother tinha desistido, É essa, Como o combinado, com cadeirinha de bebê, E a outra cadeirinha, No embrulho, É isso, ta fechado, Gostei, meu camarada, Até outro dia.

Voltou pedalando, Coitado, me sinto mal com esse negócio, vendeu por muito pouco. Enfim, cada um com seus problemas.

Quando chegou, passou pela Avó que lhe fez aceno de nenhum entusiasmo. A sogra estava em tempo de manter silêncio de conversa. As crianças falavam da lamentação que saia dos olhos da Avó, sem queixas, apenas não conseguia manter as vistas serenas. Na passagem pela tristeza dela, teve certeza que alguma coisa estava acontecendo. Manualdo sentiu no nariz que a mais velha se meteu com bebida encorpada, pareceu vinho. A língua não estava enrolada, mas o aroma saiu todo perfumado das uvas. O tempo se mostra em cada um.

Na chegada, deu um forte assovio, Minha preta, vem cá, O que é... agora, não posso, Deixa de ser chata e vem.

Passaram alguns minutos e a Cariciosa apareceu enrolada em avental branco encardido, molhado da lavação dos pratos, secava as mãos num dos seus cantos, Feliz aniversário, Amorzinho, adorei, Assim, podemos passear com as crianças, uma cadeirinha em cada bicicleta, Adorei, te amo, Vamos experimentar.

Maria Cariciosa adorava ser mimada na surpresa.

Depois de tudo assegurado e averiguado e apertado, colocaram as crianças nas gaiolas de passageiros e saíram. Na saída do cercado, ouviram as recomendações da Avó, Cuidado com as minhas crianças, Não se desassossegue, mamã. O pequeno Abelaira ia com o pai, a Maria Futuro passeava com a mãe. Manualdo e o filho ficaram um pouco para trás.

O entardecer da luz descolorindo naquele arco-íris foi o acontecimento daquele passeio. Sem vento, apenas com aquelas cores tão fortes da passagem do outono para o inverno. O calor azulado foi diminuindo até envolver o sol em uma imensa bola de trapo vermelha, enfeitiçada. Manualdo repetia que o céu avermelha porque se envergonha das safadezas dele com a Cariciosa.

E aquele entardecer parecia ter sido encomendado. O marido olhava às carnes da mulher abocanhando o selim, bem do jeito que adorava se fazer desaparecido, a chicha bem esticada e toda dentro, sumida do próprio corpo pela ganância dos dois. Sentia os arrepios de vontade da mulher.

Resmungava entre dentes do formigamento nas virilhas que lhe subia até a língua, Pareço tarado, meu pai. O velho, por certo, haveria de ter dito, Meu filho, o bicho homem, sacramentado de esposo, não sai por aí querendo manducar a própria mulher, desavergonhado, isso é uma aberração. Não existe.

Manualdo e a família saíram da vila, foram pelas ruas de pouco uso, até chegar à praça dos pedalinhos. Deram algumas voltas no lago e seguiram o passeio nas ruas da Boa Esperança.

Retornaram antes do anoitecer.

O bugre sonhava com sua noite de amor e desaparecimentos.

Jantar simples. Arroz e feijão. O reforço da carne assada e uma salada de agrião. Serviram às crianças q-suco de laranja e abriram uma garrafa de cerveja, que a sede convidava para brindarem.

Depois do jantar, a lavação dos pratos e dos talheres. As crianças já dormiam. 

Começaram os preparativos para as promessas da noite. A luz das lâmpadas apagou e a escuridão chegou ao galope. Procuravam o lampião de querosene. Manualdo riscou um fósforo, Cariciosa ergueu o vidro do lampião, Socorro, eram gritos abafados, Socorro, os chamados pareciam ser da Avó e assustavam pelo desespero, Por favor, não. Saíram correndo. A lamparina ficou esquecida na mesa dos pratos lavados. O aniversário na luz do lampião.

Manualdo ia à frente e a Cariciosa saiu em sua perseguição, mas não tiveram tempo de muitas correrias. Caíram depois de chutar caixas colocadas na porta. Rolavam pelo chão e mãos graúdas agarraram os dois. A jovem fez intenção de gritar, não conseguiu. A mão de um dos desconhecidos a deixou muda com a violência do tapa que recebeu.

Os dois foram agarrados pelos cabelos e arrastados por sombras imensas até a casa da frente. Entraram aos empurrões, rolando na escuridão. Lanternas brilharam e cegavam. Ogum levou um pau arrebatado. Socos, cuteladas, encontrões, a cabeça soqueada contra a parede. Pegaram a Memória pelos cabelos e a obrigaram tirar toda a roupa. Maria Cariciosa agradeceu aquela escuridão, menos uma humilhação para sua mãe, Por que estão fazendo isso, Cala a boca!

Gritava a manada, dentro da casa.

Levaram a mais velha para um dos carros, jogaram a Memória deitada e nua no assoalho. Reviveu a memória do sangue que derramava e o sofrimento dos que viveram escravizados. As cores em preto e branco daqueles choros de submissão às correntes não desapareceram, ainda. O coração lhe dizia que foi jogada em navio negreiro e não voltaria mais. Não soube como ficaram suas crianças. Queria ter dado atenção de despedida. Não houve tempo.

Repetiram a dose com Ogum em outro camburão. Saíram com os dois.

Na casa da frente ficaram Manualdo e Cariciosa. Algemaram os dois e rasgaram suas roupas, macaco vestido é sempre macaco. Silêncio. Os donos do porrete não calavam. Os gêmeos entraram no colo. Cariciosa gritava com todas as suas forças. Enfiaram buchas de jornal em suas bocas. Sentiram o gosto da tinta  escorrendo na garganta. O ar entrava e saia descontrolado. Afogado. Os dois pareciam dois vulcões explodindo em ódio. O menino Abelaira não havia aberto os olhinhos, mas a menina Futuro vinha aos berros. Foram amontoados com a Maria Destino. Agora, os três choravam.

Os gêmeos da Memória estavam escondidos no galinheiro. Agarrados um ao outro no cárcere do chão batido. Não entendiam. Ninguém entendeu. Os bichos do galinheiro silenciaram enquanto os bichos do andar de cima gritavam ameaças.

Manualdo e Cariciosa foram empurrados frente a frente, retiraram as buchas ensangüentadas. Enfiaram os pés dos dois dentro de duas bacias com água. Com pedaços de fios ligados em um aparelhamento, aplicaram choques, Filha de peixe, peixinho é..., Cabelo ruim e bandido é sempre assim, ta na cadeia ou anda armado.

Voltaram a amordaçá-los.

Um dos homens pegou a menina Futuro e a levou até a janela. A filha ficou de cabeça para baixo, estava pendurada nas canelas, gritava, Mamã, mamã. Estendia os bracinhos, Filho-da-puta, filho-da-puta, repetiram com os olhos do ódio. O galo-enfeitado gritou com o pai e a mãe, Olhem, para cá.

Cravaram os olhos naquela mão que empunhava sua filhinha, Vocês vão dar um passeio, se não contarem direitinho tudo que sabem, a gente volta aqui e solta essa menina, mas não se preocupem se ela cair... do chão não passa.

Disse e largou a menina que caiu na direção do chão. Os olhos dos amarrados gritavam com as forças da urgência, o sacrifício das crianças rompeu seus limites emocionais, souberam que foram abandonados. Cessaram os choros. O sossego despedaçou suas vontades de resistir. Mais um choque pelos fios.

A menina apareceu nos braços de outro torturador. Entraram na casa, ele com um sorriso hiena, óculos escuros de armação dourada, um palito entre os dentes, a menina chorando. Colocou Maria Futuro junto ao irmão Abelaira e a caçula da Memória, Na próxima vez, a garotinha não terá tanta sorte.

Aos gritos e empurrões levaram os dois para o camburão, continuavam nus e amordaçados, encapuzados e as mãos amarradas. Uma pequena trégua dos gritos, tapas e choques.

Choravam enquanto o carro passeava pela cidade.

Sabiam que precisavam da voz para suplicar ajuda. Assim, amordaçados e escondidos no escuro, não foram achados pelo Deus-nos-acuda.

O silêncio foi rompido pela algazarra de muitas vozes. Alegres. Pareciam participantes do mocotó na quermesse. Pelo sopro do ar sabiam que alguma porta se abriu, Chuta, negrão, Porra, perderam mais um, Dessa vez, nem com noventa milhões em ação. Foram empurrados e arrastados até uma mesa. Manualdo foi jogado deitado de costas sobre a mesa de metal frio. Sentiu calafrios. Maria Cariciosa foi atirada deitada de barriga sobre o marido. E assim, ficaram.

O tempo inventado deixou de existir.

As lágrimas escorriam e se embaraçavam. Continuavam misturados. Vivos, por enquanto, Chega de namoro, e a Maria foi puxada para o chão. Caiu de barriga, a cabeça sangrava por mais um corte. Saiu puxada para outra sala de tormentos humanos.

No corredor passou por outras portas. Num destes momentos de lucidez, reconheceu uma voz resmungando, Comunistas desgraçados!

domingo, 3 de julho de 2011

Você Abusou

Jorge Aragão






Você abusou

Tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou

Mas não faz mal
É tão normal ter desamor
É tão cafona sofrer dor
Que eu já nem sei
Se é meninice ou cafonice o meu amor
Se o quadradismo dos meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam o coração como expressão

Você abusou...

Que me perdoem, se eu insisto neste tema
Mas não sei fazer poema
Ou canção que fale de outra coisa que
Não seja o amor
Se o quadradismo dos meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam o coração como expressão

Você abusou...

Mujeres

Juan Gelman




Mujeres

decir que esa mujer era dos mujeres es decir poquito
debía tener unas 12397 mujeres en su mujer
era difícil saber con quién trataba uno
en ese pueblo de mujeres
ejemplo:

yacíamos en un lecho de amor
ella era un alba de algas fosforescentes
cuando la fui a abrazar
se convirtió en singapur llena de perros que aullaban
recuerdo
cuando se apareció envuelta en rosas de agadir
parecía una constelación en la tierra
parecía que la cruz del sur había bajado a la tierra
esa mujer brillaba como la luna de su voz derecha

como el sol que se ponía en su voz
en las rosas estaban escritos todos los nombres de esa mujer menos uno
y cuando se dio vuelta
su nuca era el plan económico
tenía miles de cifras y la balanza de muertes favorables a la dictadura militar
nunca sabía uno adónde iba a parar esa mujer
yo estaba ligeramente desconcertado
una noche le golpeé el hombro para ver con quién era
y vi en sus ojos desiertos un camello

a veces
esa mujer era la banda municipal de mi pueblo
tocaba dulces valses hasta que el trombón empezaba a desafinar
y los demás desafinaban con él
esa mujer tenía la memoria desafinada

usté podía amarla hasta el delirio
hacerle crecer días del sexo tembloroso
hacerla volar como pajarito de sábana
al día siguiente se despertaba hablando de malevich

la memoria le andaba como un reloj con rabia
a las tres de la tarde se acordaba del mulo
que le pateó la infancia una noche del ser
ellaba mucho esa mujer y era una banda municipal

yo
compañeros
una noche como ésta que
nos empapan los rostros que a lo mejor morimos
monté en el camellito que esperaba en sus ojos
y me fui de las costas tibias de esa mujer

callado como un niño bajo los gordos buitres
que me comen de todo
menos el pensamiento
de cuando ella se unía como un ramo
de dulzura y lo tiraba en la tarde

sábado, 2 de julho de 2011

Machucava outros filhos


Tortura Nunca Mais

baitasar

O irmão da Maria Cariciosa estava em pé, na cozinha. Maria Memória colocou a visão do filho nos olhos, suplicava qualquer palavra para acalmar seu coração. Mas os filhos são assim, auto-suficientes para adormecer o coração da mãe. Têm poucas palavras, são econômicos, falta-lhes a solidariedade das filhas. Duros com as nuances da vida, crescem e secam para o colo materno.

O jovem Supimpa, novo nas ordens de polícia, caminhou até a mãe e retirou a pasta preta das suas mãos. Saiu. Memória permaneceu sentada. Imobilizada pela serenidade muda do filho. Apenas, sua perna esquerda, apoiada na ponta do pé, balançava como um tique nervoso, herança da sua avó. Para cima, para baixo. Era o jeito de a velha ninar os filhos e netos.

O polícia retornou sem a pasta. Fez sinal de silêncio com o dedo indicador. Sentado, se debruçou sobre a mesa. O aprendiz do ofício de atormentar falava do tal Beijamim, Mãe, esse sujeito sonhava com essa merda de homem novo, isso não existe, Meu querido, o amor não consegue desistir da vida simples, Mãe, essa gente é perigosa, tudo comunista. Ela também não gostava dos comunistas. Gente perigosa. Não queria o filho envolvido com esses pervertidos. O seu medo estava carregado com a esperança, mas pressentiu que a morte era inevitável, Esse filho-da-puta não se incomoda com tapas e pancadas.

Maria Memória pediu aos Orixás que o tempo parasse, assim, seu guri ficaria longe daquilo tudo. Ali, na cozinha da sua casa. Protegido. Sentiu medo do palavrório do filho. Sentiu vergonha, Mãe, estamos em uma guerra. Não queria chorar, mas o filho estava crescendo mais que o coração, desorientado do seu colo, um jeito atormentado e desgovernado de viver e morrer, Meu filho, se tu acostuma com coisa ruim, acaba gostando, É isso, mãe, o filho-da-puta gosta de apanhar.

Passou a viver com aquela dor, o seu filho não era o surrado, machucava outros filhos, Mãe, ele foi muito arrogante, Por que, meu filho, Procurou confusão, Como assim, Ele só precisava responder com jeito, exagerou na petulância, Estou sonhando um pesadelo, meu filho. Aquele guri carregava o cheiro do seu leite e pensava que já se tinha feito homem, Mãe, a senhora faz juramento sobre o que vai ouvir, Sim. A mãe decidiu entre a curiosidade e a fatalidade de não poder perdoar.

O Beijamim foi adormecido na pancada.

Levou soco na barriga, as mãos atadas às costas. Mais tapas na cara, babava sangue. O surrado fechou os olhos, a boca e o sentido de escutar. Aquela imobilidade coberta de sangue escorria pelas paredes azulejadas em esmeraldas frias mudas cegas, derramava o rastro vermelho sob o pisoteio indiferente do socador. Mais socos, choques, odores de suor, mijo que escapava, mais fome, Mãe, o sujeito tentou fugir e me deixar apenas o corpo, uma engrenagem biológica sem valor. Não permiti, queria ouvir seus devaneios, Meu filho, Mãe, para o delegado Calçacurta, o nosso País precisa de mais formigas trabalhadeiras, organizadas, ordeiras, altruístas, gente que respeita a autoridade dos seus superiores. Eu concordo, mãe... mais formigas e menos cigarras, Precisava ouvir do filho-da-puta onde estava o ninho das cigarras.

Maria Memória chorava pelo filho que perdeu, mas estava ao alcance das vistas. Derramava as lamentações do canto fúnebre, não mais veria o filho, Mãe, o sujeito suportou cordas, banhos de água gelada, afogamentos, insônia desacordado, tocos de cigarro, choques elétricos, borras e urina na cara.

O jovem aprendiz olhava a mulher humilhada pela dor, Quem é você, Sua mãe, Não tenho mãe.

Indiferente faz falação do fim destinado ao espancado. As imagens estavam ali, na cozinha, a voz do filho desconhecido doía. Ela levava as mãos aos ouvidos. Não era o seu filho, Mãe, o filho-da-puta apanhava como um negro e virava as costas, Chega, a mãe grita para um filho que não tem mais ouvidos para ela, Perdi o controle e a caceteação veio abaixo, o corpo nu na minha disposição, paulada a paulada, a luz de lua cheia dos holofotes me cegava.

Parou de falar, pareceu tomar fôlego, Olhei pelo canto do olho, a platéia estava toda ali, não podia decepcionar, ninguém recuava, nem o tal Beijamim.

O suor do batedor escorria nas lágrimas do homem terra e a sua boca fechada. O grito inacabado não vinha, foi sufocado. Bateu descontrolado como jamais ousou fazer. Alucinado. Cego, O filho-da-puta quase me faz reprovar, Reprovar no quê, Esse puto era a minha presa-cobaia.

Maria Memória não podia mais parar, Que história é essa de preso cobaia, Depois das aulas com projeção de slides, sobre torturas, precisamos demonstrar na prática, Nos presos, Em quem mais haveria de ser, Meu Deus, O pilantra me enfrentou na frente dos outros alunos, não podia deixar passar o desrespeito, Chega.

O preso Beijamim saiu do Porão, cárcere subterrâneo úmido sombrio, no embrulho do pão amarrotado, no lixo jogado ao acaso, Maria Memória... essa é a última vez que conversamos sobre isso. O filho da mãe aprendeu a ser mais intolerável que o tirano severo. Formou na própria carne o ódio e o desprezo pelos fracassados, os presos acorrentados. Bate mais, sempre mais.

Como em um desencanto encantado de dor, a Memória ouve pedidos de socorro que em tempo algum foram reconhecidos, índios, negros, índias, negras, pobres, escravos, meninos das ruas, escravas, meninas das calçadas, mulheres surradas, violentadas, prostitutas, homossexuais, desempregados, famintos, sem-terra, sem-teto, retirantes, desempregadas, famintas, todos abandonados em silêncio. Deixados pelo caminho, pequenos pedaços de acácia queimando pelo sustento do endinheirado, abastado de tudo. Até as cinzas.

Maria Memória ficou encolhida num canto da sua gaiola, enquanto olhava seu pássaro engaiolado.

Ninguém ressuscita do Porão


AI – 5

baitasar

O jovem polícia continuava sentado. Mãe e filho acomodados na cozinha. Ela assustada. Imaginava com medo, tudo que o filho não disse e pode ter feito, Meu filho... conta o que está acontecendo, Não posso, mãe, Aquieta o coração da tua mãe, Não dá. Ele nervoso. Acariciava os nós dos dedos esfolados. Não tinha como começar. Não tinha como falar.

Maria Memória preocupada com os silêncios do filho. Conhecia o guri, ele não abria a boca depois da ordem dada. Decidiu que iniciava sua própria investigação. Depois do café, Supimpa foi para o sono. Por descuido dele e vontade de bisbilhotar dela, encontrou o que procurava. A pasta de couro preto aberta, sem a tranca da fechadura. Abriu o que queria ser aberto.

Encontrou papéis carimbados como confidenciais. Eram recortes de jornais. Pensou que as respostas estavam em suas mãos. Não hesitou. A decisão já havia sido tomada pelo guri. No início, lia constrangida.

( não existem, nestes dias de submissão a ditadura militar, apenas, entocados por suas ideias, um homem ou uma mulher revoltados, somos muitos, amotinados, lutando contra o autoritarismo, com nosso sangue e dor. Os jornais não emprestam sua voz aos inconformados, estão com medo ou foram comprados. Só podemos confiar no povo. Adormecido. Os canalhas percebem a nossa fraqueza, nos socam em farelos, evocam o cheque em branco da Defesa da Segurança Nacional e submetem a vida das pessoas a personalidade doente e criminosa do Estado sanguinário. O povo está alienado )

Um tal Beijamim assinava.

Não entendeu muito bem aquelas palavras, mas estava no bom rumo da verdade, precisava ler com a clareza dos olhos e o juízo apreensivo. Fuçava na pasta, não sabia o que procurava, mas queria descobrir onde o filho se metera.

(os rebentos de musgos, gente que se multiplica em desatino por não saber o que lhes acontece, seguem guiados como cegos, pelos folhetins informativos, jornais cúmplices. Os poderosos vivem inconformados com a possibilidade de um mundo conduzido pelo povo. Gente comum. Negam voz ao povo, mas Giovana grita por Beijamim. Ela é a mulher filha, a mulher mãe, a mulher terra, a mulher tudo.
—        Beijamim, por andam os companheiros e as companheiras que se diziam prontos para as mudanças do velho para o novo, em reuniões secretas, combativas e intermináveis?
—        Minha querida Giovana, eu os vejo por aí, desconfortáveis.)

A mãe lia sem entender. Precisava saber se tudo aquilo era coisa ruim. Enquanto esperava pelo acordamento do guri, percebeu que estava sentindo o mesmo desconforto daquela noite de anúncios no rádio. Tantos anos passados e a mesma aflição. Precisava lembrar de rezar para o padre santo, pedir intervenção dos seus orixás. Essa era uma guerra que a mão não enfrentava sozinha, convocava o auxílio da outra. Uma dotada de sensibilidade e a outra feita de habilidade, juntas eram uma blindagem maciça.

Ela rezava e a memória desafogava do esquecimento. O silêncio invadiu sua cozinha. Voltava até aquela sexta-feira, tantos anos atrás. Estava entusiasmada com a feijoada das boas-vindas. Energia redobrada. Foi até sua vizinha para os convites. Tudo decente e rápido, Bom dia, Bom dia, No domingo vamos fazer feijoada, É, É... e vocês estão convidados, Não sei, preciso falar com meu marido, Vizinha... vocês serão muito bem-vindos.

Aquele dia passou rápido, sem maiores sustos. A noite chegou e a Memória acomodava as crianças no sono. Revistou os cantos e recantos, enquanto escutava as suas músicas no rádio, O que seria de mim sem esse companheiro. Ouviu o locutor, naquela sua boa voz, anunciar uma das suas músicas preferidas, Agora, para as nossas ouvintes, um samba-canção de 61, da autoria de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, na voz de João Dias... Perdão Senhorita. Memória não se conteve e cantarolava junto. Adorava João dias. Fez coro ao cantor, Perdão senhorita se o amor de repente aconteceu...

Num súbito de susto e estremecimento a programação da rádio é interrompida. Começa a tocar o Hino Nacional. Ela estaciona junto das paredes mornas do fogão de pedra, Ué... o que é isto, Boa noite. Uma voz grave e pausada, definitiva, anuncia o discurso do Excelentíssimo Ministro da Justiça, O Presidente da República Federativa do Brasil, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e considerando que a Revolução de 31 de março de 1964...

Maria Memória perde sua atenção daquele falador tão sisudo. Ela está alegre. Convencida da bondade das pessoas. Solidariedade. Fraternidade. Família. Batuque. Deus. Mas aquela voz a persegue, tortura seus ouvidos, O Presidente da República, no interesse Nacional, poderá decretar a intervenção... Deus, ela só quer ser feliz, alguém cale essa boca e toque sua canção, O Presidente da República, em qualquer dos casos previstos na Constituição, poderá decretar o estado de sítio... Deus, ela confia em você, faça alguma coisa, Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a Segurança Nacional... Deus, ela não sabe disso de habeas corpus, ela é negra, passe para o lado dos perdedores, Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato Institucional e seus... Deus, não a abandone, ela conta com você, O presente Ato Institucional entra em vigor, nesta data. Revogadas as disposições em contrário. Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência e 80º da República... Deus, cale-se, você não está entendendo nada.

A voz cala e o Hino Nacional retorna. Maria está assustada. Continua parada junto à fornalha de barro. Não chama pelo marido. Está sozinha. Fica em silêncio, talvez nem descubram que eles existem.

A rádio volta às canções.

Olha para os lados. Respira aliviada. Nada mudou para Maria. Foi apenas um susto. Recomeçou o zelo cuidadoso e desconfiado na pasta do Supimpa.

O filho acordou do sono.

Ela pergunta sobre os papéis, Mãe ninguém ressuscita do Porão, deixa os mortos em paz.