domingo, 23 de agosto de 2026

Reunião Dançante... Garajão 6

Garajão 6


então, 
desaparece de vista
de vez na vida
sem saber ou sem querer saber
o coração se transforma
sempre vai tocar desse jeito
acordo e nada mudou
a sensação daquele primeiro abraço
aquele primeiro beijo
você sabe o que encontrou
nunca mais o mesmo
e você ali,
entre a Lua e a cidade,
escondida na multidão,
onde anda aquele amor?
parece loucura
o que posso fazer?
navegando
preso em devaneios
você vai acreditar?
         não sei
ainda escuto aquela sinfonia em mim


o ano é 1979

Never Be The Same
Christopher Cross




quer cantar junto? dançar?

It was good for me
It was good for you
Now nothing either of us can say or do
Can change the way you feel tonight
Sometimes love just slips out of sight

Just one thing before you go
Just one thing that you've got to know
No one will ever touch me that way
The way that you did that very first day

And I'll
Never be the same without you here
I'll live alone
Hide myself behind my tears
And I'll
Never be the same without your love
I'll live alone
Try so hard to rise above

The years go by
There's always someone new
To try and help me forget about you
Time and again it does me no good
Love never feels the way that it should

I loved you then I guess I'll love you forever
And even though I know we could never stay together
I think about how it could have been
If we could just start all over again

And I'll
Never be the same without you here
I'll live alone
Hide myself behind my tears
And I'll
Never be the same without your love
I'll live alone
Try so hard to rise above

It was good for me
It was good for you
Now nothing either of us can say or do
Can change the way you feel today
Sometimes love just slips away

Just one thing before you go
Just one thing that you've got to know
No one will ever touch me that way
The way that you did that very first day

And I'll
Never be the same without you here
I'll live alone
Hide myself behind my tears
And I'll
Never be the same without your love
I'll live alone
Try so hard to rise above

o ano é 1981

Arthur's Theme
Christopher Cross



"Arthur's Theme" foi co-escrito por Christopher Cross, Burt Bacharach, Carole Bayer Sager e Peter Allen. Serviu como tema principal do filme "Arthur", estrelado por Dudley Moore e Liza Minnelli.

  
a Lua e a cidade...

Once in your life you will find her
Someone who turns your heart around
And next thing you know
Yor're closing down the town
Wake up and it's still with you
Even though you left her way across town
Wonderin' to yourself
Hey what have I found

When you get caught
Between the moon and New York City
I know it's crazy but it's true
If you get caught
Between the moon and New York City
The best that you can do
The best that you can do
Is fall in love

Arthur, he does as he pleases
All of his life his master's toys
And deep in his heart he's just
He's just a boy
Living his life one day at a time
He's showing himself a pretty good time
He's laughing about the way
They want him to be


o ano é 1979

Sailing
Christopher Cross



"Sailing" é uma canção de soft rock de 1979 escrita e gravada por Christopher Cross. Foi lançado em maio de 1980 como o segundo single de seu primeiro álbum, Christopher Cross (1979), que já havia sido certificado como ouro nessa época.


Well, it's not far down to paradise, at least it's not for me
And if the wind is right you can sail away and find tranquility
Oh, the canvas can do miracles, just you wait and see
Baby believe me

It's not far to never-never land, no reason to pretend
And if the wind is right you can find the joy of innocence again
Oh, the canvas can do miracles, just you wait and see
Baby believe me

Sailing takes me away to where I've always heard it could be
Just a dream and the wind to carry me
And soon I will be free

Fantasy, it gets the best of me
When I'm sailing
All caught up in the reverie, every word is a symphony
Won't you believe me?

Sailing takes me away to where I've always heard it could be
Just a dream and the wind to carry me
And soon I will be free

Well it's not far back to sanity, at least it's not for me
And if the wind is right you can sail away and find serenity
Oh, the canvas can do miracles, just you wait and see
Baby believe me

Sailing takes me away to where I've always heard it could be
Just a dream and the wind to carry me
And soon I will be free


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Garajão 01: Alone again / Ben / Soley Soley
Garajão 02: One Day In Your Life / Dance, Little Lady Dance / More Than A Woman
Garajão 03: Não se esqueça de mim / Os seus botões / Café da manhã
Garajão 04: Daddy Cool / Ma Baker / Sunny  
Garajão 05: Everything I Own / Born to be alive / Walk of life
Garajão 06: Never Be The Same / Arthur's Theme / Sailling


Christopher Cross: foi APAGADO pela Indústria




Cinema
ARTHUR, o Milionário Sedutor (1981): 
O Melhor Que Você Pode Fazer *Tema de Arthur*



Tchekhov - O bilhete premiado

 O bilhete premiado


Anton Tchekhov

O bilhete premiado

     Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

– Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando a mesa. – Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.
– Saiu – respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não penhorou seu bilhete?
– Não. Paguei os juros na terça.
– Qual é o número?
– A série é 9499, bilhete 26.
– Então… Vejamos… 9499 e 26.

     Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, como que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e como se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.

– Macha – disse com voz surda -, o 9499 está aqui. A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando. 
– 9499? – Perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.
– Sim, sim… Está, de verdade!
– E o número do bilhete?
– É mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência… espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?…

     Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. É tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!

– A nossa série está – disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. – Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!
– Está bem, mas agora, olhe.
– Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se está na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o número 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?

     Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas Os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a ideia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.
     Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.

– E se tivermos ganho? – disse. – Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, 25 mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova… uma viagem… pagamento de dívidas e assim por diante. Os 40 mil restantes colocaria no banco, para render juros…
– Realmente, uma propriedade seria ótimo – disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. Nalgum canto, na região de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.

     E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranquilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília… Faz calor… O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ir ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão.
     Ao pôr do sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai n’água. Na água, Os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces… À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.

– Sim, seria bom comprar uma propriedade – diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.

     Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto – tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra… Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se…
     Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas – não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!
     Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.

– Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.

     E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália… Para a Índia!

– Eu também iria para o estrangeiro correndo – disse a mulher. – Mas olhe o número do bilhete!
– Espere! Daqui a pouco...

     Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro…

“Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”

     E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.

“Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas… para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo… Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio… Iria escondê-lo de mim… Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.

     Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.
     Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam lhe agora odiosos, repulsivos.

“São uns canalhas”, ele pensou.

     E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.
     Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas ideias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.

“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

     O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:

– Série 9499, bilhete 46! Não 26!

     A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.

– Só o diabo sabe – disse Ivan Dmítritch, começando a implicar.
– Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

Fim
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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV) / O bilhete premiado /     .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (VIII. Saboreando o conhaque)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
VIII
SABOREANDO O CONHAQUE
 
     A discussão chegara ao fim, mas, coisa estranha, Fiódor Pávlovitch, tão alegre até então, ensombreceu-se. Serviu-se de mais um copo de conhaque, o que já era demais.

— Vão-se embora, jesuítas, fora daqui! — gritou ele para os criados.
— Vai-te, Smierdiákov, receberás hoje o ducado prometido. Não te desoles, Gregório, vai procurar Marfa, ela te consolará, cuidará de ti. Esses canalhas não nos deixam descansar — disse ele, de mau humor, quando os criados saíram, obedecendo-lhe às ordens.
— Smierdiákov vem agora aqui todos os dias depois do jantar. És tu que o atrais, que o tratas com mimos? — perguntou ele a Ivã Fiódorovitch.
— Absolutamente — respondeu este.
— Deu-lhe na veneta mostrar respeito por mim, é um lacaio, um pulha. Fará parte da vanguarda, quando o momento chegar. 
— Da vanguarda?  
— Haverá outros e melhores, mas haverá muitos como ele.
— E quando chegará o momento?
— O foguete arderá, mas talvez não até o fim. No momento, não gosta o povo de ouvir esses queima panelas.
— Com efeito, aquela burra de Balaão pensa que não acaba mais, e Deus sabe até onde isso pode ir. 
— Ele armazena idéias — observou Ivã, sorrindo.
— Vês tu? Sei que ele não me pode tolerar, nem a mim nem aos outros, e a ti em primeiro lugar, se bem que creias que "lhe deu na veneta mostrar respeito por ti". E quanto a Aliócha, ele despreza Aliócha. Mas não é ladrão, nem falador; não sai espalhando coisas; faz excelentes pastéis de peixe... Ah! Afinal, que o diabo o leve! Vale a pena falar dele?
— Decerto que não.
— E, quanto ao que ele pensa lá consigo, é preciso em geral chicotear o mujique russo. Sempre foi minha opinião. Nosso mujique é um velhaco, indigno de compaixão, e fazem bem em bater-lhe por vezes ainda agora. É a bétula que faz a força da terra russa, e ela perecerá com as florestas. Sou a favor das pessoas de espírito. Deixamos de bater nos mujiques, por liberalismo, mas eles continuam a chicotear a si mesmos. E fazem bem. "Com a medida com que me dirdes, vos medirão a vós. " É bem isto, não é?... Meu caro, se soubesses como odeio a Rússia... isto é, não a Rússia, mas todos os seus vícios... e talvez a Rússia. Tout cela, c'est de Ia cochonnerie. Sabes o que amo? Amo o espírito. 
— O senhor serviu-se outro copo. Já bebeu bastante.
— Espera, tomarei ainda dois e acabou-se. Mas interrompeste-me. De passagem por Mókroie, conversei um dia com um velho, que me disse: "Gostamos, mais do que tudo, de condenar as moças a açoites, e encarregamos os rapazes de executar a sentença. Em seguida, o rapaz toma como noiva aquela a quem chicoteou, de modo que se tornou isso um costume entre nós para as moças". Que sadistas, hein? Digam o que disserem, é engraçado. Se fôssemos ver isso, hein? Aliócha, ficas corado? Não te envergonhes, meu filho. É pena que não tenhas ficado hoje para jantar com o padre abade. Teria falado aos monges a respeito das moças de Mókroie. Aliócha, não me queiras mal por ter ofendido o padre abade. A cólera arrebata-me. Porque, se há um Deus, se ele existe, evidentemente sou culpado então, e responderei por isso, mas, se ele não existe, há necessidade ainda desses teus padres? Não seria demais se lhes cortassem a cabeça, porque eles impedem o progresso. Crês tu, Ivã, que isso me atormenta? Não, tu não o crês, vejo-o nos teus olhos. Crês que não sou senão um palhaço, como se pretende. Aliócha, crês tu nisso, crês tu?
 — Não, não o creio.
— E eu estou persuadido de que falas sinceramente e que vês com justeza. Não és como Ivã. Ivã é presunçoso... No entanto, gostaria de acabar com o teu mosteiro. Seria preciso suprimir duma vez essa engenhoca mística em toda a terra russa, para converter todos os imbecis à razão. Quanto dinheiro e quanto ouro afluiriam para o Tesouro!
— Mas por que suprimir os mosteiros? — perguntou Ivã.
— A fim de que a verdade resplandeça mais depressa.
— Quando essa verdade resplandecer, primeiramente despojá-los-ão, depois... suprimi-los-ão.  
— Ora! Mas talvez tenhas razão. Que asno sou! — exclamou Fiódor Pávlovitch, coçando a testa. — Paz ao teu mosteiro, Aliócha, se é assim. Nós, pessoas de espírito, ficamos no quente e bebemos conhaque. É sem dúvida a vontade expressa de Deus. Ivã, dize me, há um Deus, sim ou não? Espera, responda-me seriamente! Por que ris ainda?
— Rio de sua observação espirituosa a respeito da fé que revelou Smierdiákov a respeito dos dois eremitas capazes de mover montanhas.
— É a mesma coisa? 
— Totalmente. 
— Pois bem, por consequência, sou também um homem russo, com a mesma característica russa, e tu, filósofo, podes ser apanhado com uma característica do mesmo gênero. Queres que te apanhe? Apostemos que será amanhã. Mas dize-me, no entanto, há um Deus ou não? Somente é preciso que me fales seriamente. 
— Não, não há Deus. 
— Aliócha, Deus existe? 
— Sim, existe. 
— Ivã, há imortalidade? Por pequena que seja, por mais modesta? 
— Não, não há. 
— Nenhuma? 
— Nenhuma.
— Quer dizer, um zero absoluto, ou uma parcela? Não haveria uma parcela? 
— Um zero absoluto. 
— Aliócha, há imortalidade? 
— Sim. 
— Deus e a imortalidade juntos? 
— Sim. É em Deus que repousa a imortalidade.
— Hum! Deve ser Ivã quem tem razão. Senhor, quando se pensa quanto de fé e de energia essa quimera tem custado ao homem, em pura perda, desde milhares de anos! Quem, pois, zomba assim da humanidade? Ivã, pela derradeira vez e categoricamente: há um Deus, sim ou não? 
— Não, pela derradeira vez. 
— Quem, pois, zomba do mundo, Ivã? 
— O diabo, provavelmente — escarneceu Ivã. 
— O diabo existe? 
— Não, não existe. 
— Tanto pior. Não sei o que teria eu feito ao primeiro fanático que inventou Deus. Enforcá-lo seria insuficiente! 
— Sem essa invenção, não haveria civilização. 
— Deveras? Sem Deus? 
— Sim. E não haveria conhaque tampouco. Vai ser preciso retirá-lo. 
— Espera, espera! Ainda um copito! Ofendi Aliócha. Não me queres mal, não é, meu queridinho Alieksiéitchik? 
— Não, não lhe quero mal. Conheço seus pensamentos. Seu coração vale mais que sua cabeça. 
— Meu coração vale mais que minha cabeça? De quem são essas palavras? Ivã, gostas de Aliócha? 
— Sim, amo-o. 
— Ama-o (Fiódor Pávlovitch estava meio embriagado). Escuta, Aliócha, fui grosseiro há pouco com teu stáriets, mas estava superexcitado. É um homem inteligente, que achas, Ivã? 
— Poderia ser. 
— Decerto, il y a du Piron là-dedans¹. É um jesuíta russo. A necessidade de representar a comédia, de usar uma máscara de santidade, indigna-o interiormente, porque é um caráter nobre. 

[1] Há Piron dentro disto.

— Mas ele crê em Deus. 
— Nem 1 copeque. Não o sabias? Ele mesmo fala disso a todo mundo, ou antes, a todas as pessoas inteligentes que vão vê-lo. Declarou sem rebuços ao Governador Schultz: "Creio, mas ignoro em quê". 
— Deveras? 
— É textual. Mas estimo-o. Há nele alguma coisa de Mefistófeles, ou melhor, do Um Herói de Nosso Tempo... Arbiénin, é este mesmo seu nome?.., Vês tu? É um sensual, e a tal ponto que não estaria tranquilo, mesmo agora, se minha mulher ou minha filha fossem confessar-se com ele. Quando começa ele a contar, se tu soubesses... Há três anos, convidou-nos a tomar chá, com licores (porque as damas enviam-lhe licores); pôs-se a descrever sua vida de outrora, de modo que a gente só faltava morrer de rir... e como teve de avir-se para curar uma senhora... "Se não tivesse dor nas pernas", disse ele, "dançaria para vocês certa dança. " Hein? Que sujeito! "Eu também levei vida alegre", acrescentou ele. Extorquiu 60 000 rublos ao negociante Diemídov. 
— Como? Roubando-o?
— O outro havia-se confiado a ele, acreditando-o um homem de honra. "Guarde-os para mim, amanha vão passar minha casa em revista. " O santo homem guardou tudo. "Tu os deste para a igreja", disse ele. Disse- lhe que era ele um tratante. "Não", replicou ele, "mas tenho ideias largas... " De resto, é de um outro que se trata. Confundi... sem dar por isso. Ainda um copinho e pronto. Leva a garrafa, Ivã. Por que não me detiveste nas minhas mentiras? 
— Sabia que o senhor mesmo se deteria.
— É falso, somente por maldade não disseste nada. No fundo, tu me desprezas. Vieste à minha casa para mostrar teu desprezo. 
— Vou-me embora; o conhaque começa a subir-lhe à cabeça. 
— Pedi-te insistentemente que fosses passar um ou dois dias em Tchermachniá, mas não fizeste caso. 
— Partirei amanhã, já que faz tanta questão. 
— Não há perigo. Queres espionar-me; tal é teu fito, maldito, e o que te retém aqui.  

     O velho não se acalmava. Estava naquele ponto em que certos bêbados, até então pacíficos, fazem de repente questão de se mostrarem malvados.
— Que tens para me olhares assim? Teus olhos me dizem: "Vil beberrão". Revelam desconfiança e desprezo. És um velhaco astuto. O olhar de Aliócha resplandece. Ele não me despreza. Alieksiéi, cuida de não amar Ivã. 
— Não se zangue contra meu irmão! Basta de ofendê-lo — proferiu Aliócha, num tom firme. 
 — Pois bem, seja! Ah! que dor de cabeça! Ivã, leva o conhaque, pela terceira vez te digo. — pôs-se a pensar e mostrou de súbito um sorriso astuto. — Não te zangues, Ivã, contra um pobre velho. Não gostas de mim, eu o sei, mas não te zangues. Não há razão para amar-me. Partirás para Tchermachniá, irei encontrar-te lá e te levarei um presente. Mostrar-te ei lá uma mocinha, atrás de quem ando há muito tempo. Anda ainda descalça, mas não tenhas medo das moças descalças, não se deve desprezá-las, elas são umas pérolas!... — e estalou um beijo na mão. — Para mim — animou-se subitamente, como que desembriagado por um instante, abordando seu tema favorito —, para mim... Ah! meus filhos, meus leitõezinhos... para mim... jamais encontrei uma mulher feia, eis minha máxima! Compreendem? Não, não podem. Não é sangue, é leite que corre nas veias de vocês, ainda não quebraram a casca completamente! Na minha opinião, pode-se encontrar em toda mulher algo de muito interessante, que lhe é particular, somente é preciso saber descobri-lo, eis o quid! É um talento! Para mim nunca houve feionas. Basta o sexo e é já muito... Mas isto está fora do alcance de vocês! Até mesmo entre as solteironas velhas, encontram-se por vezes encantos tais, que a gente pergunta a si mesmo como é que imbecis puderam deixá-las envelhecer sem as notar! É preciso em primeiro lugar surpreender uma dessas que andam descalças, é assim que se deve fazer. Não o sabias? É preciso que ela fique maravilhada e confusa por ver um bárin² amoroso do focinhozinho dela. Por sorte, há e sempre haverá senhores para tudo ousar e criadas para obedecer-lhes. Basta isto para felicidade da existência! A propósito, Aliócha, sempre causei espanto à tua defunta mãe, mas duma outra maneira. Por vezes, depois de havê-la privado de carícias, expandia- me diante dela num momento dado, caía a seus joelhos, beijando-lhe os pés, e sempre lhe provocava uma risadinha convulsiva, aguda mas sem estrépito. Ela não ria de outra forma. Sabia que sua crise começava sempre assim, que no dia seguinte ela gritaria como uma possessa, e que aquela risadinha só exprimia a aparência de um entusiasmo; mas era sempre isto! A gente sempre encontra, quando sabe procurar. Um dia um tal Bieliávski, um rico bonitão, que lhe fazia a corte e frequentava nossa casa, esbofeteou-me na presença dela. Mansa como um carneiro, pensei que ela ia bater-me: "Tu foste batido, ele te esbofeteou!", dizia ela. 'Tu me vendias a ele... Como ousou ele, na minha presença? Trata de não me aparecer, corre a desafiá-lo a um duelo!... " Conduzi-a então ao mosteiro, onde rezaram sobre ela para acalmá-la, mas, juro-te perante Deus, Aliócha, jamais ofendi a minha pequena endemoniada. Uma vez somente, foi no primeiro ano de nosso casamento, rezava ela demais, observava estritamente as festas da Virgem, e recusava-me a entrada de seu quarto. "Vou curá-la de seu misticismo!", pensava eu. "Vês", disse, "este ícone que tens como milagroso? Tiro-o, vou cuspir em cima dele na tua presença e nenhum castigo sofrerei!" "Meu Deus, ela vai Tratar-me", digo a mim mesmo. Ela, porém, teve apenas um sobressalto, juntou as mãos, ocultou seu rosto, foi tomada dum tremor e caiu sobre o soalho... Aliócha! Aliócha! Que tens? Que tens?

[2] Senhor. Tratamento respeitoso dado outrora às pessoas classe privilegiada. Atualmente, emprega-se no sentido irônico de comodista, preguiçoso.

     O velho levantou-se, aterrorizado. Desde que se começou a falar de sua mãe, o rosto de Aliócha alterava-se pouco a pouco; corou, seus olhos cintilaram, seu lábios tremeram... O velho bêbedo nada notara, até o momento em que Aliócha teve uma crise estranha, reproduzindo, traço por traço, o que acabava ele de contar a respeito da "endemoniada". De- súbito, levantou-se da mesa, exatamente como sua mãe, de acordo com a narrativa, juntou as mãos, ocultou o rosto, deixou-se cair sobre sua cadeira, todo sacudido por uma crise de histeria, acompanhada de lágrimas silenciosas.

— Ivã! Ivã! Água, depressa! Completamente como a mãe dele. Tira água com a colher grande e asperge o, como eu fazia com ela. É por causa de sua mãe, por causa de sua mãe... — murmurou ele a Ivã.
— Sua mãe era também a minha, suponho, que pensa o senhor? — não pôde Ivã impedir-se de dizer, com um desprezo cheio de cólera. Seu olhar faiscante fez o velho estremecer. Coisa estranha, por um instante, o velho pareceu perder de vista que a mãe de Aliócha era também a de Ivã...
— Como, tua mãe? — murmurou, sem compreender. — Por que dizes isto? A propósito de que mãe? Será que ela... Ah! diabo! é também a tua! Pois bem, onde tinha eu a cabeça? Desculpa-me, mas eu acreditava, Ivã... Eh! eh! eh! — parou, com um sorriso idiota de bêbedo. 

     No mesmo instante, um barulho reboou no vestíbulo, gritos furiosos se elevaram, a porta abriu-se e Dimítri Fiódorovitch irrompeu na sala. O velho apavorado precipitou-se para Ivã. 

— Ele vem matar-me! Não me entregues! — exclamou ele, agarrado às abas do paletó de Ivã.

continua na página 199...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (IV - Ana Pavlovna prometeu, sorrindo)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
IV

Ana Pavlovna prometeu, sorrindo, ocupar-se de Pierre, que sabia ser parente do príncipe Vassili pelo lado paterno. A idosa que estava sentada ao lado de ma tante levantou-se vivamente e alcançou o príncipe no vestíbulo. Sua fisionomia simpática e enrugada não tinha mais a expressão de interesse simulado, mas exprimia apenas inquietação e medo.


— E então, meu príncipe, que me diz de Boris? — fez ela ao alcançá-lo (pronunciava Boris com um acento particular no “o”). — Não posso ficar mais tempo em Petersburgo. Diga-me, que novas devo levar para meu pobre filho?

     Apesar de o príncipe Vassili ouvi-la forçado, quase indelicadamente, com demonstrações de impaciência, a senhora lhe sorria com ternura e de uma forma tocante; para que ele não se afastasse, segurou-lhe a mão. 

— O que lhe custa falar umas palavras ao imperador? Imediatamente ele entrará para a guarda — prosseguiu. 
— Creia, princesa, farei todo o possível — respondeu o príncipe Vassili —, mas me é difícil fazer um pedido ao imperador. Eu lhe aconselharia dirigir-se a Rumiantzev por intermédio do príncipe Golitzine; seria mais hábil.

     A princesa Drubetzkaia, como se chamava a idosa, era de uma das melhores famílias da Rússia, mas estava pobre, havia abandonado a sociedade desde muito e perdera as antigas relações. Estava ali apenas a fim de conseguir que seu único filho fosse nomeado para a guarda.
     Havia sido para encontrar o príncipe Vassili que compareceu ao sarau de Ana Pavlovna; unicamente por isso ouvira a história do visconde. Sua expressão, outrora bela, aparentou um descontentamento claro com as palavras do príncipe, mas somente por um segundo. Em seguida, sorriu novamente e apertou com mais força o braço do príncipe. 

— Escute, príncipe — disse ela —, nunca lhe pedi nem nunca lhe pedirei nada; nunca lhe recordei a amizade que meu pai lhe dedicava. Mas agora, suplico-lhe em nome de Deus, faça isso para meu filho, e eu o considerarei meu benfeitor — acrescentou apressadamente. — Não se zangue, mas prometa… Já pedi a Golitzine e ele recusou. Seja amigo, como outrora — rogou esforçando-se para sorrir, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. 
— Papai, vamos chegar tarde — disse Helena, que esperava à porta, voltando a bela cabeça sobre os ombros dignos de um escultor grego.

     A influência na corte é um capital que se precisa poupar para que não desapareça. O príncipe Vassili sabia disso e compreendia que, se intercedesse por todos que o solicitavam, em pouco tempo nada mais poderia pedir para si próprio. Assim, muito raramente usava sua influência. Com referência ao pedido da princesa Drubetzkaia, porém, sentiu certo remorso. A senhora lembrava-lhe a verdade: devia ao pai dela os primeiros passos que fizera na vida. Além disso, viu-lhe no modo de agir que era uma dessas mulheres, sobretudo quando mães, que, em se lhes metendo alguma coisa na cabeça, não se afastam antes de ver seu desejo satisfeito, e no caso contrário, estão sempre prontas a voltar à carga, cada dia, cada momento, e até mesmo a provocar escândalo. Esta última consideração o fez hesitar. 

Chère Ana Mikhailovna — disse num tom de voz entediado e com sua familiaridade habitual —, é quase impossível fazer o que me pede, mas, para provar-lhe o quanto a estimo e como respeito a lembrança de seu finado pai, farei o impossível. Seu filho entrará para a guarda, tem minha palavra. Está satisfeita? 
— Meu amigo, meu benfeitor! Não esperava outra coisa do senhor, conhecia-lhe a bondade. — Ele tentou afastar-se. — Espere, duas palavras… Uma vez na guarda — parou —, as boas relações que tem com Mikhail Illarionovitch Kutuzov autorizam-no a recomendar-lhe Boris para ajudante de ordens? Então, ficarei tranquila e então…

     O príncipe Vassili sorriu. 

— Isso não lhe prometo. Não imagina como demandam a Kutuzov depois que foi nomeado comandante em chefe do exército. Ele mesmo me disse que todas as senhoras de Moscou combinaram de lhe propor os filhos como ajudantes de ordens. 
— Não, prometa, não o deixarei ir, meu caro, meu benfeitor. 
— Papai — repetiu a beldade no mesmo tom —, vamos chegar atrasados. 
— Pois bem! Au revoir, está vendo? 
— Então fará o pedido ao imperador amanhã? 
— Perfeitamente, mas quanto a Kutuzov, não prometo nada. 
— Não, prometa, prometa, Basile! — disse Ana Mikhailovna com um sorriso de jovem coquete que lhe devia ser habitual outrora, mas que não sentava mais em seu rosto enrugado. Esquecendo a idade, punha em jogo pelo hábito todos os seus recursos femininos. Mas, assim que ele saiu, retomou a expressão anterior, fria e simulada. Voltou ao grupo onde o visconde continuava falando e, novamente, fingiu escutar, esperando o momento de sair, já que seu assunto estava resolvido.

* * *

— E, diga-nos, qual a sua opinião sobre esta última comédia da coroação em Milão? — perguntou Ana Pavlovna. — É essa nova comédia dos habitantes de Gênova e de Lucca, que vão apresentar suas petições a Monsieur Buonaparte sentado num trono, e Monsieur Buonaparte deferindo as petições dos povos! Adorável! Não, é de enlouquecer! Diria que o mundo inteiro perdeu o juízo.
— “É Deus que me concede, ai de quem tocar nela” (palavras de Bonaparte na coroação). — Dizem que ele estava magnífico ao pronunciar tais palavras — acrescentou o príncipe André, repetindo em italiano: — “Dio me la data, guai a chi la tocca.” 
— Espero que enfim — prosseguiu Ana Pavlovna — isso tenha sido a gota d’água que fará transbordar o copo. Os soberanos já não podem suportar esse homem, que é uma ameaça para tudo. 
— Os soberanos? Não falo da Rússia — disse o visconde num tom de amável desprezo. — Mas que fizeram os soberanos, madame, por Luís XVI, pela rainha, por Madame Elisabeth? Nada — continuou, entusiasmando-se. — E creia-me, eles estão sofrendo o castigo pela traição à causa dos Bourbons. Os soberanos!… Eles mandam embaixadores apresentar cumprimentos ao usurpador!

     E com um suspiro de desprezo, tomou outra pose. O príncipe Hippolyte, que, havia muito, olhava o visconde através dos vidros de sua luneta, virou-se subitamente para a princesinha pedindo-lhe uma agulha; e, como se ela houvesse perguntado, desenhou na mesa o brasão dos Condés, explicando-lhe o significado com ar importante. 

Bâton de gueules, engrêlé de gueules d’asur, maison Condé¹ — disse.

[1] Bastão vermelho, entalhado em vermelho e azul, Casa de Condé.

     A princesinha ouvia sorrindo. 

— Se Bonaparte ficar ainda um ano no trono da França — disse o visconde, continuando a discorrer, como um homem que não ouve os outros, mas, senhor de seu assunto, segue exclusivamente o curso de suas ideias —, as coisas irão muito longe. Pela intriga, pela violência, pelo exílio, pelos suplícios, a sociedade, falo da boa sociedade francesa, será destruída para sempre, e então…

     Levantou os ombros e abriu os braços. Interessado pela conversação, Pierre quis dizer qualquer coisa, mas foi impedido por Ana Pavlovna, que estava alerta. 

— O imperador Alexandre — disse ela, com a tristeza que sempre acompanhava suas palavras quando se referia à família imperial — declarou que deixaria aos franceses a escolha do próprio governo. E estou certa que toda a nação, desembaraçada do usurpador, receberá o legítimo rei de braços abertos — concluiu Ana Pavlovna, procurando ser amável com o emigrante realista. 
— É duvidoso — retrucou o príncipe André. — Monsieur le vicomte tem razão quando diz que as coisas já foram muito longe. Creio que a volta ao passado será difícil. 
— Segundo ouvi — intrometeu-se Pierre, corando —, quase toda a nobreza já está com Bonaparte. 
— São os bonapartistas que dizem — respondeu o visconde, sem olhá-lo. — Atualmente é difícil conhecer a opinião pública na França. 
— Bonaparte assim o disse — objetou o príncipe André sorrindo.

     (Era evidente que o visconde lhe desagradava, e essas palavras, sem atingi-lo, eram dirigidas contra ele.)

— “Eu lhes apontei o caminho da glória” — acrescentou, repetindo novamente as palavras de Napoleão —, “não quiseram segui-lo; abri-lhes as minhas antecâmaras, entraram aos magotes.” Não sei até que ponto ele tinha o direito de dizer isso. 
— Direito nenhum — respondeu o visconde. — Depois do assassinato do duque, até os mais parciais deixaram de ver nele um herói. Mesmo que ele tenha sido um herói para certas pessoas — continuou o visconde, dirigindo-se a Ana Pavlovna —, depois do assassinato do duque há mais um mártir no céu e um herói de menos na terra.

     Antes que os presentes esboçassem um sorriso aprovando as palavras do visconde, Pierre intrometeu-se novamente na conversa, sem dar tempo a Ana Pavlovna de interrompê-lo, embora houvesse pressentido que ele ia dizer algo fora de propósito. 

— A execução do duque d’Enghien — disse Pierre — era uma necessidade de Estado, e só vejo grandeza de alma em Napoleão assumindo a inteira responsabilidade desse ato. 
Dieu! Mon Dieu! — murmurou Ana Pavlovna aterrada. 
— Como, Monsieur Pierre, o senhor acha que assassinar é grandeza de alma? — disse a princesinha sorrindo e baixando seu tricô. 
— Ah! Oh! — exclamavam todas as vozes. 
Capital — disse em inglês o príncipe Hippolyte, batendo nos joelhos.

     O visconde contentou-se em dar de ombros. Por cima dos óculos, Pierre olhava todos triunfalmente. 

— Digo isso — continuou — porque os Bourbons fugiram da revolução, deixando o povo na anarquia! Somente Napoleão soube compreendê-la e vencê-la. E pelo bem comum, não podia hesitar diante da vida de um só homem. 
— Quer passar para esta outra mesa? — perguntou Ana Pavlovna.

     Sem responder, Pierre prosseguiu. 

— Não — disse animando-se cada vez mais. — Napoleão é grande porque soube colocar-se acima da revolução, reprimindo os abusos e conservando o que ela tinha de bom: a igualdade dos cidadãos, a liberdade de palavra e de imprensa. Foi só por isso que conquistou o poder. 
— Sim, se tomando o poder para si, sem aproveitá-lo para cometer assassinatos, o houvesse devolvido ao rei legítimo. Então, sim, eu o chamaria de grande homem — retrucou o visconde. 
— Ele não podia fazer isso. O povo lhe deu o poder para que ele destituísse os Bourbons e porque via nele um grande homem. A revolução foi uma grande obra — continuou Pierre, mostrando com essa afirmativa audaciosa e provocadora sua extrema juventude e o desejo de exprimir tudo que pensava da maneira mais completa possível. 
— A revolução e o assassínio dos reis, uma grande obra!… Diante disso… mas não quer passar para esta outra mesa? — repetiu Ana Pavlovna. 
Contrat social — disse o visconde com um sorriso ameno. 
— Não falo da execução do rei, falo das ideias. 
— Sim, as ideias de pilhagem, de morticínio, do assassinato do rei — interrompeu novamente a voz irônica. 
— Muitos excessos foram praticados, não há dúvida, mas nem tudo está neles; o importante está nos direitos do homem, no desaparecimento dos preconceitos, na igualdade dos cidadãos. E Napoleão conservou integralmente essas ideias. 
— Liberdade e igualdade — disse o visconde com desprezo como se, afinal, se propusesse a provar seriamente a esse rapaz a estupidez do que dizia — são grandes palavras desmoralizadas há muito tempo. Quem não ama a liberdade e a igualdade? Nosso santo Salvador já pregava liberdade e igualdade. E a revolução tornou os homens mais felizes? Ao contrário. Nós quisemos a liberdade e Bonaparte a destruiu.

     O príncipe André sorria, olhando alternadamente o visconde, Pierre e a dona da casa. Desde os primeiros arrancos de Pierre, Ana Pavlovna, apesar de seu traquejo social, estava aterrada. Mas, quando percebeu que suas palavras sacrílegas não perturbavam o visconde e que não era possível abafá-las, retomou forças aliando-se ao francês para atacar o orador. 

— Mas, mon cher Monsieur Pierre — perguntou Ana Pavlovna —, como explica isto: um grande homem manda executar um duque, enfim, simplesmente outro homem, sem julgamento e sem crime?… 
— Eu perguntaria — disse o visconde — como o cavalheiro explica o 18 Brumário. Não foi uma farsa? Foi uma escamoteação que em nada se parece com o modo de agir de um grande homem. 
— E os prisioneiros da África que ele matou! É horrível — acrescentou a princesinha. 
— É um plebeu, digam o que disserem — declarou o príncipe Hippolyte.

     Pierre não sabia a quem responder; olhava a todos sorrindo, mas de uma forma diferente dos outros. Ao contrário dos demais, quando sorria sua fisionomia séria e um pouco sombria transformava-se subitamente num semblante de criança, bom, até um pouco apatetado, e que parecia pedir complacência.
     Estava claro para o visconde, que o via pela primeira vez, que esse jacobino não era tão terrível como suas palavras.
     Todos calaram. 

— Como querem que ele responda a todos ao mesmo tempo? — disse o príncipe André. — Além disso, a mim me parece que nos atos de um homem público é necessário distinguir os atos do homem privado, do chefe de exército ou do imperador. 
— Sim, sim, naturalmente — disse Pierre, reanimado com este auxílio. 
— Não se pode deixar de reconhecer — continuou o príncipe André — que Napoleão, como homem, foi muito grande; seja na ponte d’Arcole ou no hospital de Jafa, onde deu a mão aos pestilentos, mas… é verdade, existem outros atos difíceis de justificar.

     O príncipe André, que, evidentemente, quisera suavizar as inconveniências de Pierre, levantou-se para sair, fazendo sinal à sua mulher.
     Inesperadamente o príncipe Hippolyte levantou-se e, detendo a todos com um gesto de mãos, pediu-lhes que se sentassem. 

— Ah! contaram-me hoje uma deliciosa anedota moscovita; vou presenteá-los com ela. Desculpe, visconde, preciso contar em russo, do contrário se perderá o sal da história. — E o príncipe Hippolyte principiou a falar russo, com a pronúncia dos franceses que passam um ano na Rússia.

     Todos pararam, tal era a animação e insistência do príncipe pedindo atenção para a sua história. 

— Em Moscou existe uma senhora, une dame, que é muito avarenta. Precisava ter dois lacaios atrás da carruagem. Mas queria-os muito altos. Era sua mania. E tinha uma criada de quarto, muito alta…

     Nesta altura, o príncipe Hippolyte começou a refletir com visível dificuldade. 

— Ela disse… sim, ela disse: Menina (à criada de quarto), veste a libré e vem comigo atrás da carruagem para fazer visitas.

     Dito isso, o príncipe Hippolyte caiu na risada, muito antes da plateia, causando-lhe uma impressão desfavorável. Só depois disso é que alguns, entre eles Ana Pavlovna, sorriram, apesar do ridículo da situação. 

— Saíram, mas um pé de vento repentino arrancou o chapéu da moça, desmanchando-lhe o penteado…

     Não podia mais conter-se, e, com um riso quase soluçante, concluiu: 

— E todo mundo soube…

     Era essa a anedota. Apesar de ninguém compreender o sentido e nem por que devia ser contada em russo, Ana Pavlovna e os demais admiraram a habilidade mundana do príncipe Hippolyte, evitando novas tiradas desagradáveis de Pierre. Com isso, a conversação dispersou-se pelos pequenos grupos e recaiu sobre comentários insignificantes, bailes passados e futuros, espetáculos, assim como sobre dia e local da próxima reunião.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
III - O sarau de Ana Pavlovna corria animado / IV - Ana Pavlovna prometeu, sorrindo /        
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (III - O sarau de Ana Pavlovna corria animado)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
III

O sarau de Ana Pavlovna corria animado. Os fusos trabalhavam com a máxima regularidade e faziam um rumor ininterrupto. Além de ma tante, que conversava com uma senhora idosa de rosto magro e enrugado, um pouco deslocada nesse círculo brilhante, os convidados formavam três grupos. Um, na maioria homens, em torno do abade. Outro cercava a bela princesa Helena, filha do príncipe Vassili, e a linda e graciosa princesinha Bolkonskaia, um pouco pesada demais para sua idade. O terceiro era composto de Mortemart e Ana Pavlovna.


     O visconde era um belo jovem, de traços e maneiras agradáveis, que, visivelmente, se considerava uma celebridade, mas, homem educado, permitia modestamente que toda aquela gente gozasse da sua companhia. Aparentemente, era a nota de sensação que Ana Pavlovna oferecia. Como um bom maître d’hôtel que serve um prato extraordinário que ninguém comeria se o houvesse visto na cozinha suja, Ana Pavlovna servia a seus convidados o visconde em primeiro lugar e depois o abade, como qualquer coisa de extrafino. No grupo de Mortemart falava-se no assassinato do duque d’Enghien. O visconde dizia que o duque morrera por sua magnanimidade e que havia um motivo especial para a cólera de Bonaparte. 

— Vejamos, conte-nos isso, visconde — disse Ana Pavlovna alegremente, achando em sua frase qualquer ressonância de Luís XV. — Conte-nos isso, visconde.

     O visconde inclinou-se em sinal de obediência e sorriu polidamente. Ana Pavlovna formou um círculo em torno dele e convidou a todos para ouvi-lo. 

— O visconde conheceu pessoalmente o duque — cochichou ela ao ouvido de alguém. — O visconde conta com perfeição — informou a outro. — Como se percebe, o homem é de fino trato! — disse a um terceiro.

     O visconde era servido a todos, sob o aspecto mais elegante e vantajoso para ele, como um rosbife num prato quente guarnecido de verduras.
     Sorrindo finamente, preparou-se para começar sua história. 

— Aproxime-se, chère Hélène — disse Ana Pavlovna à bela princesa, que, sentada mais longe, fazia o centro de outro grupo.

     A princesa Helena sorria. Levantou-se com o mesmo sorriso invariável de mulher verdadeiramente bela, que trazia desde que chegara. Ofuscando todos os olhares com a alvura das espáduas e o esplendor dos cabelos e dos brilhantes, passou entre os homens fazendo um leve ruído com o vestido de baile todo branco e guarnecido de arminho. Como que encarnando todo o brilho da festa, aproximou-se de Ana Pavlovna sem olhar para ninguém, mas autorizando com um sorriso amável que todos lhe admirassem a beleza do porte, dos ombros roliços, das costas e do decote muito em moda nessa época. Apesar de linda assim, Helena era despida de qualquer vaidade, mas, ao contrário, parecia envergonhada, e dava a impressão de procurar inutilmente diminuir o efeito dessa beleza que se impunha tão forte e vitoriosamente. 

— Como é bela! — diziam todos que a viam. Como que atingido por qualquer coisa extraordinária, o visconde fez um movimento de ombros e baixou os olhos, enquanto ela sentava-se à sua frente e iluminava-o com o mesmo sorriso invariável. 
— Madame, diante de tal público, temo por minhas faculdades — disse ele com um sorriso e inclinando a cabeça.

     Com o braço desnudo e roliço a princesa apoiou-se na mesa, sem dizer nenhuma palavra. Esperava sorrindo. Enquanto o visconde falou, ficou sentada, quase sem se mover, olhando de quando em vez para o lindo braço redondo, que a pressão sobre a mesa deformava, ou para seu colo ainda mais bonito, adornado por um colar de diamantes que ela endireitava; às vezes corrigia a prega do vestido, e quando a história lhe causava alguma impressão, fitava Ana Pavlovna, e logo tomava a mesma expressão que a dama de companhia, voltando depois à sua calma e ao seu claro sorriso.
     Seguindo Helena a princesinha também deixou a mesa de chá. 

— Esperem por mim, vou pegar o meu trabalho. Então, no que você está pensando? — disse ela dirigindo-se ao príncipe Hippolyte. — Traga o meu tricô.

     Sorrindo e falando a todos, a princesinha fez com que todos se deslocassem, sentou e ajeitou-se alegremente. 

— Pronto — disse ela, e pedindo para começar, reiniciou o tricô. Trazendo-lhe a bolsa, o príncipe Hippolyte ficou no grupo e, aproximando-se muito da poltrona, sentou-se a seu lado.

     Le charmant Hippolyte chamava a atenção pela semelhança extraordinária com a irmã, a mais bela de todas, e ainda mais porque, apesar dessa semelhança, era horrivelmente feio. Os traços eram os mesmos da irmã, mas, nela, tudo era iluminado por um sorriso alegre, satisfeito, juvenil, imutável, vivo, e pela beleza notável, clássica, do corpo. No irmão, ao contrário, o próprio rosto era obscurecido pela estupidez, sempre com uma expressão de mau humor; era magro e raquítico. Os olhos, o nariz, a boca, tudo parecia contraído numa careta vaga e entediada, e os braços e pernas nunca estavam em posição natural. 

— Não é uma história de fantasmas? — perguntou ele, sentando-se perto da princesa e levando a luneta aos olhos como se não pudesse falar sem esse instrumento. 
— Claro que não, meu caro — disse o visconde admirado e erguendo os ombros. 
— É que eu detesto as histórias de almas do outro mundo — disse num tom que deixava perceber que ele só compreendia o sentido das palavras depois de pronunciá-las. Mas falava com tanta petulância que ninguém tinha muita certeza se o que dizia era verdadeiramente espirituoso ou idiota. Vestia uma casaca verde-garrafa, calças cor de ninfa assustada, como ele mesmo dizia, meias de seda e sapatos de fivelas.

     O visconde contou muito graciosamente a anedota em voga: o duque d’Enghien, indo a Paris às escondidas para encontrar Mademoiselle George, deparou-se com Bonaparte, a quem a célebre atriz também dispensava seus favores; nesse encontro Napoleão foi acometido, casualmente, por um dos acessos a que estava sujeito, ficando, assim, à mercê do duque; este não quis aproveitar a ocasião, e Bonaparte vingou-se dessa magnanimidade mandando matá-lo.
     A história era muito bonita e interessante, principalmente no ponto em que os dois rivais se encontraram inesperadamente; as senhoras pareciam comovidas. 

Charmant! — disse Ana Pavlovna, olhando interrogativamente a princesinha. 
Charmant! — murmurou esta, espetando a agulha no tricô e mostrando assim que o interesse e o encanto da história a impediam de continuar trabalhando

     O visconde notou esse encômio silencioso e, sorrindo, se preparava a continuar. Mas, nesse momento, Ana Pavlovna, que estava sempre de olho no rapaz terrível, notou que ele, muito entusiasmado, falava alto demais com o abade, e apressou-se em direção ao ponto perigoso. De fato, Pierre conseguira travar conversa com o abade sobre o equilíbrio político, e este, visivelmente interessado pelo ardor sincero do rapaz, desenvolvia-lhe sua ideia favorita. Ambos ouviam e falavam com demasiada animação e naturalidade, o que não agradava a Ana Pavlovna. 

— Os meios são o equilíbrio europeu e o direito das pessoas — dizia o abade. — E necessário que um país poderoso como a Rússia, tido como bárbaro, encabece desinteressadamente uma união com a finalidade de manter o equilíbrio europeu que salvará o mundo. 
— Mas como chegar a esse equilíbrio? — perguntava Pierre.


     Nesse momento Ana Pavlovna aproximou-se e, fitando-o severamente, perguntou ao italiano como se dava com o clima de Petersburgo. A fisionomia do abade transformou-se de súbito, tomando uma expressão adocicada, entre afável e ofendida, que lhe devia ser habitual com as senhoras: 

— Estou de tal forma estarrecido diante do espírito e inteligência desta sociedade, e principalmente da sociedade feminina, na qual tenho a honra de ser recebido, que ainda não consegui pensar no clima — respondeu.

     Não querendo mais deixar o abade e Pierre, Ana Pavlovna levou-os para o grupo comum, a fim de controlá-los mais facilmente.
     Nesse momento chegou um novo convidado. Era o jovem príncipe André Bolkonski, o marido da princesinha. Era um rapaz de pequena estatura, muito bonito, de traços secos e acentuados. Todo ele, a começar pelo olhar fatigado e cheio de tédio, até o passo lento e cadenciado, contrastava com a animação de sua jovem esposa. Evidentemente, conhecia todos os presentes, que o aborreciam ao ponto de quase não poder suportá-los, até mesmo quando não falavam. E de todas as fisionomias a que mais parecia enfastiá-lo era a de sua linda mulher. Com uma careta que lhe enfeava o bonito rosto, afastou-se dela. Beijou a mão de Ana Pavlovna e, franzindo o cenho, relanceou ao redor. 

— Vai alistar-se, meu príncipe? — perguntou-lhe Ana Pavlovna. 
— O general Kutuzov — disse Bolkonski, acentuando a última sílaba, como um francês — solicitou-me como ajudante de ordens… 
— E Lisa, sua mulher? 
— Irá para o campo. 
— É um grande pecado privar-nos da companhia de sua encantadora esposa! 
— André — disse a jovem, dirigindo-se ao marido no mesmo tom faceiro com que tratava os demais —, queria que ouvisse a história sobre Mademoiselle George e Bonaparte que o visconde nos contou!

     O príncipe André apertou os olhos e afastou-se. Pierre, que o fitava com uma expressão alegre e amiga desde o momento em que entrara, aproximou-se e segurou-lhe a mão. O príncipe, sem se virar, franziu o rosto numa careta que exprimia seu aborrecimento contra o importuno que lhe tocava a mão; mas, deparando com a fisionomia alegre de Pierre, sorriu também de uma forma inesperada, boa e simpática. 

— Ah, vejam! Tu também na alta-roda? — perguntou. 
— Eu sabia que o encontraria aqui — respondeu Pierre, e acrescentando em voz baixa para não perturbar o visconde, que continuava sua história: — Irei cear na sua casa, se for possível! 
— Não, impossível — disse o príncipe André, rindo e apertando a mão do amigo de forma a fazer-lhe compreender que isso não era coisa que se pedisse. Ia dizer algo mais, porém tiveram de afastar-se para dar passagem ao príncipe Vassili e sua filha, que haviam se levantado. 
— Perdoe-nos, meu caro visconde — disse o príncipe Vassili, tocando-o levemente no braço para que não se levantasse. — Essa infortunada festa do embaixador me priva de um prazer e me faz interrompê-lo. Lamento profundamente deixar sua encantadora reunião — continuou, dirigindo-se a Ana Pavlovna. A princesa Helena, suspendendo levemente o vestido, passou entre as cadeiras com um sorriso que tornava seu lindo rosto ainda mais luminoso.

     Quando passou por Pierre, ele a fitou com uns olhos quase assustados e impressionados. 

— É muito linda — disse o príncipe André. 
— Muito linda — repetiu Pierre.

     Ao passar na frente deles, o príncipe Vassili tomou a mão de Pierre e dirigindo-se a Ana Pavlovna: 

— Dome este urso. Há um mês que está em minha casa e é a primeira vez que o vejo na sociedade. Nada mais indispensável para um moço que a companhia das mulheres inteligentes.

continua na página... 9
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
III - O sarau de Ana Pavlovna corria animado / IV - Ana Pavlovna prometeu, sorrindo /        
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Cinema: O Grito

Michelangelo Antonioni

o ano é 1957

A jornada errante de um homem dividido ao meio, o vazio existencial e a busca dolorosa por um sentido na Itália pós-guerra! Prepare-se para uma obra-prima melancólica do cinema moderno. Assista ao filme completo "Il Grido" (título original | título no Brasil: O Grito, 1957), escrito e dirigido pelo mestre Michelangelo Antonioni. Estrelado por Steve Cochran, Alida Valli, Betsy Blair e Gabriella Pallotta, um clássico monumental do drama psicológico.

ldo (Steve Cochran) é um operário que vive na pacata região do Vale do Pó ao lado de Irma (Alida Valli), com quem tem uma filha. Quando o marido legal de Irma falece após anos no exterior, Aldo acredita que finalmente poderá se casar com a mulher que ama. No entanto, Irma revela que não o ama mais e que se apaixonou por outro homem. Desolado e incapaz de aceitar o fim do relacionamento, Aldo abandona sua cidade e seu emprego, iniciando uma jornada sem rumo com sua pequena filha pela neblina e desolação do interior italiano. Ao longo do caminho, ele tenta se reconectar com antigas e novas mulheres, mas seu vazio emocional o impede de encontrar a redenção.





Direção:
Michelangelo Antonioni

Roteiro:
Michelangelo Antonioni 
Elio Bartolini 
Ennio De Concini

Elenco:
Steve Cochran como Aldo
Alida Valli como Irma
Dorian Gray como Virginia
Jacqueline Jones como Andreina
Gabriella Pallotta como Edera, sua irmã
Pina Boldrini como Lina
Guerrino Campanilli como pai de Virgínia
Mirna Girardi como Rosina
Lilia Landi
Gaetano Matteucci como o noivo de Dera
Betsy Blair como Elvia
Pietro Corvelatti como Fisherman (não creditado)
Elli Parvo como Donna Matilda (não creditado)

Linha do Tempo dos Capítulos (Timestamps):

00:00:00 - Início do filme: A vida pacata no Vale do Pó e a revelação de Irma em HD
00:15:30 - Aldo deixa a cidade: O início da jornada errante 
00:32:45 - Reencontro com Elvia e as primeiras memórias do passado 
00:50:10 - A passagem pelo posto de gasolina de Virginia 
00:08:25 - A solidão sufocante e o isolamento de Aldo 
01:24:40 - Encontro com Eletta e a perda gradual da esperança 
01:42:15 - O retorno ao ponto de partida e o nevoeiro 
01:53:00 - Epílogo e créditos finais 

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05: