terça-feira, 10 de março de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Crise dos Anos 30 (17)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     28. A Crise dos Anos 30: "Matar uma Formiga é Crime Maior que Matar um Homem"
          O café dependia do mercado norte-americano, de sua capacidade de consumo e de seus preços; as bananas eram um negócio norte-americano para os norte-americanos. E prorrompeu, de repente, a crise de 1929. O crack da Bolsa de Nova York, que fez tremer as bases do capitalismo mundial, caiu no Caribe como um gigantesco bloco de pedra numa poça d’água. Baixaram verticalmente os preços do café e da banana, e não menos verticalmente baixou o volume de vendas. A expulsão dos camponeses recrudesceu com violência febril, o desemprego multiplicou-se no campo e nas cidades, e começou uma onda de greves; extinguiram-se bruscamente os créditos, os investimentos e os gastos públicos, e os salários dos funcionários do Estado foram reduzidos à metade em Honduras, na Guatemala e na Nicarágua [1]. A equipe de ditadores chegou em seguida para emudecer as tampas das marmitas; inaugurava-se a época da política de Boa Vizinhança em Washington, mas era preciso conter a ferro e fogo a agitação social que fervia em toda parte. Ao redor de vinte anos permaneceram no poder, uns mais e outros menos, Jorge Ubico na Guatemala, Maximiliano Hernández Martínez em El Salvador, Tiburcio Carías em Honduras e Anastasio Somoza na Nicarágua.
     A epopeia de Augusto César Sandino comovia o mundo. A longa luta do chefe guerrilheiro derivava de reivindicações de terra e mantinha acesa a ira campesina. Durante sete anos seu pequeno exército em farrapos lutou, ao mesmo tempo, contra doze mil invasores norte-americanos e contra membros da Guarda Nacional. As granadas eram feitas com latas de sardinha cheias de pedras, os fuzis Springfield eram arrebatados do inimigo e não faltavam facões; a haste da bandeira era vara sem descascar, e em vez de botas os camponeses usavam, para mover-se no emaranhado das montanhas, uma tira de couro chamada caite. Com a música de Adelita, os guerrilheiros cantavam: [2]

Na Nicarágua, senhores, 
é o rato que pega o gato.

     Nem o poder de fogo da infantaria da Marinha nem as bombas lançadas de aviões eram suficientes para esmagar os rebeldes de Las Segovias. Tampouco as calúnias que espalhavam pelo mundo inteiro as agências internacionais Associated Press e United Press, cujos correspondentes na Nicarágua eram dois norte-americanos que tinham nas mãos a alfândega do país [3]. Em 1932, Sandino pressentia: “Não vou viver muito tempo”. Um ano depois, sob o influxo da política norte-americana de Boa Vizinhança, celebrava-se a paz. O chefe guerrilheiro foi convidado pelo presidente para uma reunião decisiva em Manágua. No caminho, caiu morto numa emboscada. O assassino, Anastasio Somoza, sugeriu depois que a execução tinha sido ordenada pelo embaixador norte-americano Arthur Bliss Lane. Somoza, então chefe militar, não demorou muito para instalar-se no poder. Governou a Nicarágua durante um quarto de século, e seus filhos herdaram o cargo. Antes de cruzar no peito a faixa presidencial, Somoza condecorara a si mesmo com a Cruz do Valor, a Medalha da Distinção e a Medalha Presidencial ao Mérito. Já no poder, organizou várias matanças e grandes celebrações, nas quais fantasiava seus soldados de romanos, com sandálias e elmos; tornou-se o maior produtor de café do país, com 46 fazendas, e também se dedicou à pecuária em outras 51 fazendas. Nunca lhe faltou tempo, no entanto, para semear também o terror. Durante sua longa gestão no governo, verdade seja dita, não passou maiores dificuldades, e recordava com certa tristeza os anos de juventude, quando precisava falsificar moedas de ouro para divertir-se.
     Igualmente em El Salvador explodiram as tensões em consequência da crise. Quase a metade dos trabalhadores da banana de Honduras eram salvadorenhos e muitos foram obrigados a retornar a seu país, onde não havia trabalho para ninguém. Na região de Izalco, houve um grande levante campesino em 1932, que rapidamente se propagou em todo o ocidente do país. O ditador Martínez enviou soldados, com armamento moderno, para combater os “bolcheviques”. Os índios lutaram com facões contra metralhadoras, e o episódio chegou ao fim com dez mil mortos. Martínez, um bruxo vegetariano e teósofo, sustentava que “matar uma formiga é crime maior do que matar um homem, porque o homem ao morrer reencarna, enquanto a formiga morre definitivamente” [4]. Dizia estar protegido por “legiões invisíveis”, que lhe revelavam todas as conspirações, e mantinha comunicação telepática direta com o presidente dos Estados Unidos. Um relógio de pêndulo sobre o prato lhe indicava se a comida estava envenenada, e colocado sobre um mapa assinalava onde se escondiam os inimigos políticos ou a localização de tesouros dos piratas. Costumava enviar notas de condolência aos pais de suas vítimas, e no pátio do palácio pastavam cervos. Governou até 1944.
     As matanças se sucediam em todos os lugares, Em 1933, Jorge Ubico fuzilou na Guatemala uma centena de dirigentes sindicais, estudantes e políticos, ao mesmo tempo em que reimplantava as leis contra a “vadiagem” dos índios. Cada índio devia portar uma caderneta onde constavam seus dias de trabalho; se não fossem suficientes, pagava a dívida no cárcere ou arqueando as costas sobre a terra, gratuitamente, durante meio ano. Na insalubre costa do Pacífico, os homens trabalhavam com barro até os joelhos para receber 30 centavos por dia, e a United Fruit demonstrava que Ubico a obrigara a rebaixar os salários. Em 1944, pouco antes da queda do ditador, o Reader’s Digest publicou um artigo repleto de elogios: aquele profeta do Fundo Monetário Internacional tinha evitado a inflação baixando os salários, de um dólar para 25 centavos, na construção de uma estrada militar de emergência, e de um dólar para 50 centavos nos trabalhos da base aérea na capital. Por essa época, Ubico deu aos senhores do café e às empresas bananeiras permissão para matar: “Estarão isentos de responsabilidade criminal os proprietários das fazendas...”. O decreto tinha o número 2.795 e foi restabelecido em 1967, durante o democrático e representativo governo de Méndez Montenegro.
     Como todos os tiranos do Caribe, Ubico achava que era Napoleão. Vivia rodeado de bustos e quadros do imperador, cujo perfil, segundo ele mesmo, era quase igual ao seu. Acreditava na disciplina militar: militarizou os correios, as crianças nas escolas e a orquestra sinfônica. Os integrantes da orquestra ganhavam nove dólares mensais e tocavam de uniforme as peças que Ubico escolhia, e com a técnica e os instrumentos por ele dispostos. Considerava que hospitais eram para os maricas, de modo que os pacientes recebiam assistência no chão das calçadas e dos corredores, se eram desgraçados ao ponto de serem pobres além de doentes.

continua na página 185...
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[1] TORRES-RIVAS, op. cit.
[2] SELSER, Gregorio. Sandino, general de hombres livres. uenos Aires, 1959. 
[3] EALS, Carleton. América ante América. Santiago de Chile, 1940.
[4] KREHM, op. cit. Krehm viveu longos anos na América Central como correspondente da revista norte-americana Time.       

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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Crise dos Anos 30 (17)

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