PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
28. A Crise dos Anos 30: "Matar uma Formiga é Crime Maior que Matar um Homem"
O café dependia do mercado norte-americano, de sua
capacidade de consumo e de seus preços; as bananas eram
um negócio norte-americano para os norte-americanos. E
prorrompeu, de repente, a crise de 1929. O crack da Bolsa
de Nova York, que fez tremer as bases do capitalismo
mundial, caiu no Caribe como um gigantesco bloco de pedra
numa poça d’água. Baixaram verticalmente os preços do
café e da banana, e não menos verticalmente baixou o
volume de vendas. A expulsão dos camponeses recrudesceu
com violência febril, o desemprego multiplicou-se no campo
e
nas cidades, e começou uma onda de greves;
extinguiram-se bruscamente os créditos, os investimentos e
os gastos públicos, e os salários dos funcionários do Estado
foram reduzidos à metade em Honduras, na Guatemala e na
Nicarágua
[1]. A equipe de ditadores chegou em seguida
para emudecer as tampas das marmitas; inaugurava-se a
época da política de Boa Vizinhança em Washington, mas
era preciso conter a ferro e fogo a agitação social que fervia
em toda parte. Ao redor de vinte anos permaneceram no
poder, uns mais e outros menos, Jorge Ubico na Guatemala,
Maximiliano Hernández Martínez em El Salvador, Tiburcio
Carías em Honduras e Anastasio Somoza na Nicarágua.
A epopeia de Augusto César Sandino comovia o mundo.
A longa luta do chefe guerrilheiro derivava de reivindicações
de terra e mantinha acesa a ira campesina. Durante sete
anos seu pequeno exército em farrapos lutou, ao mesmo
tempo, contra doze mil invasores norte-americanos e contra
membros da Guarda Nacional. As granadas eram feitas com
latas de sardinha cheias de pedras, os fuzis Springfield eram
arrebatados do inimigo e não faltavam facões; a haste da
bandeira era vara sem descascar, e em vez de botas os
camponeses usavam, para mover-se no emaranhado das
montanhas, uma tira de couro chamada caite. Com a
música de Adelita, os guerrilheiros cantavam:
[2]
Na Nicarágua, senhores,é o rato que pega o gato.
Nem o poder de fogo da infantaria da Marinha nem as
bombas lançadas de aviões eram suficientes para esmagar
os rebeldes de Las Segovias. Tampouco as calúnias que
espalhavam pelo mundo inteiro as agências internacionais
Associated Press e United Press, cujos correspondentes na
Nicarágua eram dois norte-americanos que tinham nas
mãos a alfândega do país
[3]. Em 1932, Sandino pressentia:
“Não vou viver muito tempo”. Um ano depois, sob o influxo
da política norte-americana de Boa Vizinhança, celebrava-se
a paz. O chefe guerrilheiro foi convidado pelo presidente
para uma reunião decisiva em Manágua. No caminho, caiu
morto numa emboscada. O assassino, Anastasio Somoza,
sugeriu depois que a execução tinha sido ordenada pelo
embaixador norte-americano Arthur Bliss Lane. Somoza,
então chefe militar, não demorou muito para instalar-se no
poder. Governou a Nicarágua durante um quarto de século,
e seus filhos herdaram o cargo. Antes de cruzar no peito a
faixa presidencial, Somoza condecorara a si mesmo com a
Cruz do Valor, a Medalha da Distinção e a Medalha
Presidencial ao Mérito. Já no poder, organizou várias
matanças e grandes celebrações, nas quais fantasiava seus
soldados de romanos, com sandálias e elmos; tornou-se o
maior produtor de café do país, com 46 fazendas, e também
se dedicou à pecuária em outras 51 fazendas. Nunca lhe
faltou tempo, no entanto, para semear também o terror.
Durante sua longa gestão no governo, verdade seja dita,
não passou maiores dificuldades, e recordava com certa
tristeza os anos de juventude, quando precisava falsificar
moedas de ouro para divertir-se.
Igualmente em El Salvador explodiram as tensões em
consequência da crise. Quase a metade dos trabalhadores
da banana de Honduras eram salvadorenhos e muitos foram
obrigados a retornar a seu país, onde não havia trabalho
para ninguém. Na região de Izalco, houve um grande
levante campesino em 1932, que rapidamente se propagou
em todo o ocidente do país. O ditador Martínez enviou
soldados, com armamento moderno, para combater os
“bolcheviques”. Os índios lutaram com facões contra
metralhadoras, e o episódio chegou ao fim com dez mil
mortos. Martínez, um bruxo vegetariano e teósofo,
sustentava que “matar uma formiga é crime maior do que
matar um homem, porque o homem ao morrer reencarna,
enquanto a formiga morre definitivamente”
[4]. Dizia estar
protegido por “legiões invisíveis”, que lhe revelavam todas
as conspirações, e mantinha comunicação telepática direta
com o presidente dos Estados Unidos. Um relógio de
pêndulo sobre o prato lhe indicava se a comida estava
envenenada, e colocado sobre um mapa assinalava onde se
escondiam os inimigos políticos ou a localização de tesouros
dos piratas. Costumava enviar notas de condolência aos
pais de suas vítimas, e no pátio do palácio pastavam cervos.
Governou até 1944.
As matanças se sucediam em todos os lugares, Em
1933, Jorge Ubico fuzilou na Guatemala uma centena de
dirigentes sindicais, estudantes e políticos, ao mesmo
tempo em que reimplantava as leis contra a “vadiagem”
dos índios. Cada índio devia portar uma caderneta onde
constavam seus dias de trabalho; se não fossem suficientes,
pagava a dívida no cárcere ou arqueando as costas sobre a
terra, gratuitamente, durante meio ano. Na insalubre costa
do Pacífico, os homens trabalhavam com barro até os
joelhos para receber 30 centavos por dia, e a United Fruit
demonstrava que Ubico a obrigara a rebaixar os salários.
Em 1944, pouco antes da queda do ditador, o Reader’s
Digest publicou um artigo repleto de elogios: aquele profeta
do Fundo Monetário Internacional tinha evitado a inflação
baixando os salários, de um dólar para 25 centavos, na
construção de uma estrada militar de emergência, e de um
dólar para 50 centavos nos trabalhos da base aérea na
capital. Por essa época, Ubico deu aos senhores do café e às
empresas bananeiras permissão para matar: “Estarão
isentos de responsabilidade criminal os proprietários das
fazendas...”. O decreto tinha o número 2.795 e foi
restabelecido em 1967, durante o democrático e
representativo governo de Méndez Montenegro.
Como todos os tiranos do Caribe, Ubico achava que era
Napoleão. Vivia rodeado de bustos e quadros do imperador,
cujo perfil, segundo ele mesmo, era quase igual ao seu.
Acreditava na disciplina militar: militarizou os correios, as
crianças nas escolas e a orquestra sinfônica. Os integrantes
da orquestra ganhavam nove dólares mensais e tocavam de
uniforme as peças que Ubico escolhia, e com a técnica e os
instrumentos por ele dispostos. Considerava que hospitais
eram para os maricas, de modo que os pacientes recebiam
assistência no chão das calçadas e dos corredores, se eram
desgraçados ao ponto de serem pobres além de doentes.
continua na página 185...
____________________
____________________
[1] TORRES-RIVAS, op. cit.
[2] SELSER, Gregorio. Sandino, general de hombres livres. uenos Aires, 1959.
[3] EALS, Carleton. América ante América. Santiago de Chile, 1940.
[4] KREHM, op. cit. Krehm viveu longos anos na América Central como
correspondente da revista norte-americana Time.
__________________
Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Crise dos Anos 30 (17)
Nenhum comentário:
Postar um comentário