terça-feira, 3 de outubro de 2023

Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4c)

Ópera do malandro


Chico Buarque 
 

Ópera do malandro
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
 

"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran


SEGUNDO ATO

CENA 4

continuando...

GENI 
Pois é, como eu ia dizendo, o Max conheceu uma putinha nova ontem e marcou encontro pra esta tarde. O Max é um cavalheiro muito distinto e é incapaz de faltar com a palavra. As mulheres também não faltam, é claro, todas elas adoram o Max. Por falar nisso, que menina sortuda a tua filha, hein, Vitória? Sabe, eu trouxe aqui um anel que é feito sob medida pra uma recém-casada. (Abre a chapeleira) É platina pura com um big solitário da índia.

VITÓRIA 
Faz aí um cheque, Duran. São três contos, né? 

GENI 
Três? Isso faz muito tempo, meu anjo. Agora não pode ficar por menos de doze. 

DURAN 
O quê? Doze contos? De jeito nenhum! 

VITÓRIA 
Duran, o tempo tá correndo! 

DURAN 
Eu pago sete e fim. 

GENI 
É doze e fim. 

CHAVES 
Vamos, pessoal, vamos logo com isso! 

GENI 
Ah, Tigrão, eu também não me esqueci da tua filha. Coitada, ela era tarada pelo Max e ele chutou ela pra titia. Olha aqui, esses brincos vão cair lindamente numa solteirona. Bem discretos, são de marcassita. Pra você eu faço um preçinho especial: quinze contos. 

CHAVES 
Tá louco! Onde é que eu vou arranjar quinze contos? 

GENI 
Ah, Vitória, olha só esse xale. Todo bordado a mão. É da ilha da Madeira e bate com o solitário: doze contos, apenas. E pro Duran não ficar chateado, tem esse isqueiro Dupont, folheado a ouro. . . 

DURAN 
Eu não fumo! 

GENI 
Sai por dezesseis contos. Dezesseis com vinte e quatro, olha que graça, deu quarenta justinhos! Você, Tigrão, tem os quinze dos brincos, mais este chaveiro com uma figa de marfim, total: trinta e cinco contos, só porque é amigo. . . 

CHAVES (Pula sobre Geni e torce-lhe o braço
Diga já onde é que tá o Max, senão. . . 

GENI 
Avenida Atlântica, 120. 

CHAVES 
Tão vendo, seus idiotas? (Prepara-se para sair) Comigo não tem eu doce não! 

GENI 
Otário. 

CHAVES 
Como disse? 

GENI 
Otário. 

CHAVES 
Vai dizer que deu o endereço errado? Não, tu não é homem pra isso! Se o Max não tá lá nesse número, eu volto, te prendo e te mato! 

GENI 
Só que, quando voltar de Copacabana, às quatro e meia da tarde, com esse carnaval aí fora, você não vai ter tempo de prender ninguém. Você vai estar promovido a xerife no território do Acre! Bem, gente, eu vou andando. Agora sim, eu acredito nessa passeata. E eu não quero perder. 

DURAN 
Espera, Genival. 

VITÓRIA 
Você é burro mesmo, hein, inspetor? Puta que o pariu! 

CHAVES 
Genival, eu peço perdão, eu perdi o controle, desculpa! 

GENI 
Eu tô exausta de desculpas. Agora eu quero é quarenta contos do Duran e trinta e cinco do inspetor que aliás acabam de passar a cinquenta pra indenizar a ofensa física. 

CHAVES 
Mas eu não tenho esse dinheiro todo! 

GENI 
O teu amigo Duran empresta, né? 

DURAN 
Você tá me arruinando, Genival. Noventa contos é demais! 

VITÓRIA 
Duran, tá em cima da hora! 

DURAN 
Merda! (Assina o cheque

VITÓRIA 
Agora fala, Genival. 

CHAVES 
Pelo amor que tu tem a Cristo, fala! 

GENI 
Então o Max marcou encontro esta tarde com a menina. Aliás, não sei o que foi que ele viu naquela biscatinha. Mas enfim, ele é tão novidadeiro! E, ao mesmo tempo, o Max é muito metódico. O primeiro encontro com uma mulher tem que ser sempre no mesmo lugar. Diga-se de passagem que é um lugar maravilhoso. Muito bem decorado, espaçoso, confortável, cheio de tapetes, almofadas, coisa e tal. Enfim, a mulher passa horas inesquecíveis com o Max. Porque ele é insaciável. Dá uma, muda de cama, dá outra, muda de cama, ele não para quieto. E nessa agitação toda, consegue ser romântico, tão romântico. . . 

CHAVES 
Assim é foda! 

DURAN 
Toma o cheque e diz logo o endereço. 

GENI (Guarda o cheque no peito, como se usasse sutiã
Tão romântico! Mas tão romântico que me deu vontade de cantar. Vocês agora vão-se sentar direitinho pra assistir ao meu show. 

CHAVES 
Ai, meu saco, meus culhões, caralho. . .

VITÓRIA 
Cala a boca, cretino, e senta aqui.

GENI 
Ah, na hora do coro vocês cantam comigo, tá? Mas bem forte, inspetor, bem forte!

Orquestra ataca introdução
Geni canta "Geni e o Zepelim"




De tudo que é nego torto 
Do mangue e do cais do porto 
Ela jâ foi namorada 
O seu corpo é dos errantes 
Dos cegos, dos retirantes 
É de quem não tem mais nada 
Foi assim desde menina 
Das lésbicas, concubina 
Dos pederastas, amásio 
É a rainha dos detentos 
Das loucas, dos lazarentos 
Dos moleques de ginásio 
E também dá-se amiúde 
Aos velhinhos sem saúde 
E às viúvas sem porvir 
Ela é um poço de bondade 
E ê por isso que a cidade 
Vive sempre a repetir 

COM CORO 
Joga pedra na Geni 
joga bosta na Geni 
Ela é feita pra apanhar 
Ela ê boa de cuspir 
Ela dá pra qualquer um 
Maldita Geni 

Um dia surgiu, brilhante 
Entre as nuvens, flutuante 
Um enorme zepelim 
Pairou sobre os edifícios 
Abriu dois mil orifícios 
Com dois mil canhões assim 
A cidade apavorada 
Se quedou paralisada 
Pronta pra virar geleia 
Mas do zepelim gigante 
Desceu o seu comandante 
Dizendo Mudei de ideia 
Quando vi nesta cidade 
Tanto horror e iniquidade 
Resolvi tudo explodir 
Mas posso evitar o drama 
Se aquela formosa dama 
Esta noite me servir 

COM CORO 
Essa dama era Geni 
Mas não pode ser Geni 
Ela é feita pra apanhar 
Ela ê boa de cuspir 
Ela dâ pra qualquer um 
Maldita Geni 

Mas, de fato, logo ela 
Tão coitada e tão singela 
Cativara o forasteiro 
O guerreiro tão vistoso 
Tão temido e poderoso 
Era dela, prisioneiro 
Acontece que a donzela 
e isso era segredo dela 
Também tinha seus caprichos 
E a deitar com homem tão nobre 
Tão cheirando a brilho e a cobre 
Preferia amar com os bichos 
Ao ouvir tal heresia 
A cidade em romaria 
Foi beijar a sua mão 
O prefeito de joelhos 
O bispo de olhos vermelhos 
E o banqueiro com um milhão 

COM CORO 
Vai com ele, vai, 
Geni 
Vai com ele, vai, 
Geni 
Você pode nos salvar 
Você vai nos redimir 
Você dâ pra qualquer um 
Bendita Geni 

Foram tantos os pedidos 
Tão sinceros, tão sentidos 
Que ela dominou seu asco 
Nessa noite lancinante 
Entregou-se a tal amante 
Como quem dá-se ao carrasco 
Ele fez tanta sujeira 
Lambuzou-se a noite inteira 
Até ficar saciado 
E nem bem amanhecia 
Partiu numa nuvem fria 
Com seu zepelim prateado 
Num suspiro aliviado 
Ela se virou de lado 
E tentou até sorrir 
Mas logo raiou o dia 
E a cidade em cantoria 
Não deixou ela dormir

COM CORO
 joga pedra na Geni 
Joga bosta na Geni 
Ela é feita pra apanhar 
Ela é boa de cuspir 
Ela dá pra qualquer um 
Maldita Geni


Breque na orquestra.


GENI 
Acabou. 

DURAN 
Ah, muito bem. 

VITÓRIA 
Bravos! 

GENI 
Não vão pedir bis? 

VITÓRIA 
Ah, Genival! 

GENI 
Inspetor, não vai pedir bis? 

CHAVES 
Bis. 

GENI 
É, mas hoje eu tô muito cansada pra dar bis. Vocês voltam amanhã, tá? 

DURAN 
O endereço, Genival! 

GENI 
É Rua do Catete, 194. A Renascença, Móveis e Decorações. 

CHAVES 
Tu tá gozando. .. 

GENI 
É isso mesmo. Ele tem cópia das chaves. Todo domingo, feriado e dia santo ele festeja uma mocinha naquela garçonnière lá. 

Todos saem correndo, exceto Geni que senta-se na poltrona, toma um gole de conhaque e se abana com o cheque; cai a luz em resistência.

continua pág 125 ...

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NOTA 

O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A  equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes. 

Chico Buarque Rio, junho de 1978

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Leia também:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (prefácio e nota)
Chico Buarque - Ópera do Malandro (introdução)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 1
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 5
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Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio  a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

My Funny Valentine

Chet Baker

um dos grandes do cool jazz


Minha namorada engraçada

Minha namorada engraçada
Doce, engraçada namorada
Você me faz sorrir com o meu coração
Sua aparência é cômica, não fotogenica
Mesmo assim, você é a minha obra de arte favorita

Seus traços não são gregos?
Sua boca é meio mole?
Quando você a abre para falar
Você é inteligente?
Mas não mude um fio de cabelo por mim
Não se você se importa comigo
Continue namoradinha
Continue
Todo dia é dia dos namorados

Seus traços não são gregos?
Sua boca é meio mole?
Quando você a abre para falar
Você é inteligente?
Mas não mude um fio de cabelo por mim
Não se você se importa comigo
Continue namoradinha
Continue
Todo dia é dia dos namorados

Composição: Lorenz Hart / Richard Rogers


My Funny Valentine 
- Chet Baker in Tokyo





Chet Baker 
- My funny valentine 
( Italy 24-11-1985)




"Para o historiador britânico Eric Hobsbawm, o cool é o “ponto que fica quase na fronteira entre o jazz e a música erudita comum. O próprio nome é um paradoxo. O jazz do passado era, pela sua própria natureza, quente — sensual, emocional, físico — e “sujo”. (…) O jazz cool buscou um ideal até então irrelevante de pureza musical, o que quer dizer, em muitos aspectos, uma reversão total da maioria dos valores do jazz” . ( A História Social do Jazz , 1989, Ed. Paz e Terra)".


Stan Getz and Chet Baker 
- 1983




"Chet foi um dos maiores representantes do cool jazz; estilo de jazz que surgiu a partir de 1940, caracterizado por um andamento mais lento, melancólico, uso de poucas notas, ausência de vibrato, frio como seu próprio nome indica; e que tem em Miles Davis o seu maior expoente."


I've Never Been In Love Before / Eu Nunca Estive Apaixonado Antes
- Chet Baker 

Eu nunca estive apaixonado antes
Agora tudo é você de uma vez
É sempre mais você

Eu nunca estive apaixonado antes
Pensei que meu coração estava a salvo
Eu achava que sabia as respostas

Mas isso é vinho
É tudo muito estranho e forte
Estou cheio de música tola
E a minha música deve derramar

Então, por favor, perdoe esta neblina em que estou
Eu realmente nunca estive
Apaixonado antes

Mas isso é vinho
É tudo muito estranho e forte
Estou cheio de música tola
E a minha música deve derramar

Então, por favor, perdoe esta neblina em que estou
Eu realmente nunca estive
Apaixonado antes

Composição: Frank Loesser





Chet Baker a Lenda do Jazz
Trailer legendado




I've Never Been in Love before 
- Ethan Hawke (cena do filme)



Chesney Henry "Chet" Baker, Jr. (Yale, 23 de dezembro de 1929 — Amsterdã, 13 de maio de 1988) foi um trompetista e cantor de jazz norte-americano.

Ainda bem jovem, passou a integrar grupos de renome da música americana da época. Os seus primeiros trabalhos foram com a Vido Musso's Band e com Stan Getz, porém, Chet só conheceu o sucesso depois do convite de Charlie Parker (Bird), em 1951, para uma série de apresentações na Costa Oeste dos Estados Unidos. Em 1952 entrou para a banda de Gerry Mulligan, alcançando grande notoriedade com a primeira versão de My Funny Valentine. Entretanto, devido aos problemas de Gerry com as drogas, o quarteto acabou por ter uma vida curta, sustentando-se por menos de um ano. Mas o talento de Chet logo o transformaria num ídolo, por toda a América e pela Europa.

Especialistas dividem a vasta obra do músico em duas etapas: a fase cool, do início da sua carreira, mais ligada ao virtuosismo jazzístico, e a outra, a partir de 1957, quando a sensibilidade na interpretação se torna ainda mais evidente.


" Autumn Leaves " 
Chet Baker - Paul Desmond



Chet Baker (trompete),
Paul Desmond( saxo alto),
Hubert Laws (flauta),
Bob James (teclado),
Ron Carter (contrabajo)
y Steve Gadd (batería)

Ulisses - Parte 1 (3b): Ele parou

Ulisses

James Joyce

Parte 1

3

continuando...


Ele parou. Deixei pra trás o caminho para a casa de tia Sara. Será que eu não vou lá? Parece que não. Ninguém à volta. Ele se voltou para o nordeste e atravessou a areia mais firme em direção ao Pigeonhouse.

Qui vous a mis dans cette fichue position?

C’est le pigeon, Joseph.

Patrice, de licença em casa, bebeu leite morno comigo no bar MacMahon. Filho do ganso selvagem, Kevin Egan de Paris. Meu pai é um passarinho, ele lambeu o lait chaud doce com sua língua cor-de-rosa de jovem e rosto rechonchudo de coelhinho. Lambida, lapin. Ele tem esperança de ganhar no gros lots. Ele leu a respeito da natureza das mulheres em Michelet. Mas ele precisa me mandar La Vie de Jésus de M. Léo Taxil. Ele emprestou a um amigo.

C’est tordant, vous savez. Moi, je suis socialiste. Je ne crois pas en l’existence de Dieu. Faut pas le dire à mon père.

Il croit?

Mon père, oui.

Schluss. Ele lambe.
Meu chapéu do Quartier Latin. Meu Deus, nós simplesmente precisamos vestir direito o personagem. Eu quero luvas de pelica. Você era um estudante, não era? De quê, em nome do outro diabo? Peceene. P.C.N., você sabe: physiques, chimiques et naturelles. Ah! Ah! Comendo o equivalente a um bocado de mou en civet, panelas de carne do Egito, tendo ao lado cocheiros a arrotar. Diga apenas no tom mais natural possível: quando eu estava em Paris, boul’ Mich’, eu costumava. É, eu costumava trazer comigo bilhetes picotados para servirem de álibi se me prendessem por assassinato em algum lugar. Justiça. Na noite de 17 de fevereiro de 1904 o prisioneiro foi visto por duas testemunhas. Um outro camarada fez isso: um outro eu. Chapéu, gravata, sobretudo, nariz. Lui, c’est moi. Você parece ter se divertido.
Andando ufanamente. De quem você estava tentando imitar o andar? Esqueça: um despojado. Com a ordem de pagamento da mãe, oito shillings, fechada com violência a porta do correio que o porteiro bateu em sua cara. Fome, dor de dente. Encore deux minutes. Olhe para o relógio. Preciso receber. Fermé. Funcionário miserável! Atire nele com um tiro barulhento até ficar em pedacinhos, pedacinhos do homem botões de metal tudo salpicado nas paredes. Os pedaços todos criquecraque estalando de volta ao seu lugar. Não está machucado? Ó, tudo bem. Aperte aqui a mão. Percebe o que eu quero dizer, percebe? Ó, está tudo bem. Aperto de mão daqui e dali. Ó, está tudo simplesmente muito bem.

Você ia fazer maravilhas, se lembra? Missionário na Europa como o ardente Columbano. Fiacre e Scotus empoleirados no céu em seus tamboretes cospem sua cerveja ao rirem alto em latim: Euge! Euge! Fingindo falar um inglês estropiado ao arrastar a sua valise, carregador três pence, através do píer pegajoso de Newhaven. Comment? Que rico despojo você trouxe de volta. Le Tutu, cinco números esfarrapados de Pantalon Blanc et Culotte Rouge, um telegrama francês azul, uma curiosidade a mostrar:

– Mãe morrendo venha para casa pai.

A tia acha que você matou sua mãe. É por isso que ela não quer.

E aqui vai um brinde à tia de Mulligan
Pela simples razão que ela sempre manteve
As coisas todas certinhas e muito decentes
Na inteira família Hanniganneve.

Seus pés marcharam com um ritmo subitamente orgulhoso sobre os sulcos de areia ao longo dos penedos da amurada sul. Ele as fixou altivamente, pedras empilhadas crânios de mamutes. Luz dourada sobre o mar, sobre a areia, sobre blocos de pedra. O sol está ali, as árvores esbeltas, as casas limão.
Paris despertando cruamente, luz solar tosca sobre as ruas limão. Bolinhos de miolo úmido de pão, absinto, seu incenso matinal, cortejam a atmosfera. Belluomo se levanta da cama da mulher do amante de sua mulher, a dona de casa de lenço na cabeça se movimenta, com um pires com ácido acético em sua mão. Na pastelaria Rodot Yvonne e Madeleine recompõem suas belezas enrugadas, despedaçando pastéis com seus dentes de ouro, suas bocas amareladas com o pus do flan breton. Rostos de parisienses passam, com suas suíças satisfeitonas, conquistadores de cabelos anelados.
Sonolência do meio-dia. Kevin Egan enrola cigarros à maneira de estopim de pólvora através de dedos manchados de tinta de impressora, bebericando sua fada verde assim como Patrice sua fada branca. À nossa volta comilões engarfam feijão condimentado goela abaixo. Un demi setier! Um jato de vapor de café sai da cafeteira polida. A um sinal dele ela me serve. Il est irlandais. Hollandais? Non fromage. Deux irlandais, nous, Irlande, vous savez? Ah, oui! Ela pensou que você queria um queijo hollandais. Seu pós-prandial, você conhece essa palavra? Pós-prandial. Havia um camarada que eu conheci em Barcelona, um camarada esquisito, que costumava chamar isso de seu pós-prandial. Ora: slainte. Em volta das mesas de lajes de mármore o emaranhado de hálitos recendendo a vinho e de gargantas sussurrantes. Seu bafo paira acima dos nossos pratos manchados de molho, a fada verde enfiando suas presas entre os lábios dele. Sobre a Irlanda, os Dalcassians, sobre esperanças, conspirações, sobre Arthur Griffith agora, AE, poimandres, bom pastor de homens. Juntar-me a ele como seu parceiro, nossos crimes nossa causa comum. Você é bem o filho de seu pai. Eu reconheço a voz. Sua camisa de fustão com flores vermelhas agita seus pompons espanhóis quando ele confia seus segredos. M. Drumont, famoso jornalista, Drumont, você sabe como ele chamava a rainha Vitória? Velha megera de dentes amarelos. Vieille ogresse de dents jaunes. Maud Gonne, mulher bonita, la Patrie, M. Millevoye, Félix Faure, sabe como ele morreu? Homens libertinos. A froeken, bonne à tout faire, que esfrega a nudez masculina no banho em Upsala. Moi faire, disse ela, tous les messieurs. Não este monsieur, disse eu. Um costume muito libidinoso. O banho é uma coisa muito particular. Eu não deixaria meu irmão, nem mesmo o meu irmão, uma coisa muito libidinosa. Olhos verdes, eu vejo você. Presas, eu sinto. Raça libidinosa.
A mecha azul queima agonizante por entre as mãos e queima claro. Fragmentos de tabaco soltos pegam fogo: uma chama e uma fumaça acre iluminam o nosso canto. Maçãs do rosto ossudas debaixo de seu chapéu de conspirador. Como o cabeça do grupo escapou, versão autêntica. Vestiu-se como uma jovem noiva, homem, véu, flores de laranja, de carro pela estrada para Malahide. Fez isso, por certo. Sobre líderes desaparecidos, os traídos, fugas fantásticas. Disfarces, agarrados, sumidos, não mais aqui.
Amante rejeitado. Eu era um rapaz jovem e forte naquele tempo, eu lhe digo. Algum dia eu vou lhe mostrar qual era a minha aparência. Eu era assim, garanto. Apaixonado, por amor a ela ele rodou com o coronel Richard Burke, sucessor do chefe de seu clã, agachados fora dos muros de Clerkenwell, eles viram uma chama de vingança os lançar para o alto no nevoeiro. Vidro estilhaçado e alvenaria ruída. Na alegre Paris ele se esconde, Egan de Paris, não procurado por ninguém a não ser por mim. Fazendo de suas bases diurnas a tipografia suja, suas três tavernas, ele dorme uma noite curta na toca de Montmartre, rue de la Goutte-d’Or, adamascada com os rostos deteriorados dos que já se foram. Desamado, desterrado, descasado. Ela está bem satisfeita e tranquila sem o seu homem proscrito, a senhora na rue Gît-le-Coeur, com seu canário e dois inquilinos janotas. Faces aveludadas, uma saia listrada, brincalhona como é uma coisinha jovem. Rejeitado e não desesperançado. Diga a Pat que você me viu, está bem? Certa vez eu quis arranjar um emprego para o pobre Pat. Mon fils, soldado da França. Eu o ensinei a cantar Os rapazes de Kilkenny são espadachins corajosos e exuberantes. Conhece essa velha canção? Eu ensinei isso a Patrice. Velho Kilkenny: São Canice, o castelo de Strongbow em Nore. É assim. O, O. Ele me leva, Napper Tandy, pela mão.

O, O os rapazes de
Kilkenny...

Mão frágil desgastada na minha. Eles se esqueceram de Kevin Egan, não ele deles. Lembrando de ti, O Sion.
Ele se aproximara da beira do mar e a areia molhada bateu em suas botas. O novo ar o saudou, tocando os nervos desenfreados, vento do ar turbulento das sementes de claridade. Espere, eu não estou caminhando para o navio farol de Kish Bank, estou? Ele se deteve subitamente, seus pés começando a afundar lentamente no solo oscilante. Volte para trás.
Voltando, ele examinou o lado sul da praia, com seus pés afundando novamente lentamente em novos encaixes. O quarto abobadado e frio da torre me aguarda. Através das barbacãs os raios de luz estão sempre se movendo, sempre lentamente enquanto meus pés afundam, se arrastando em direção à sombra da noite sobre o solo quadrante solar. Crepúsculo azul, o cair da noite, noite de um azul profundo. Na escuridão da cúpula eles esperam, com as cadeiras empurradas para trás, minha valise obeliscal em volta de uma mesa com travessas abandonadas. Quem vai limpar isso? Ele tem a chave. Eu não vou dormir lá quando a noite chegar. Uma porta fechada de uma torre silenciosa, sepultando seus corpos insensíveis, o panterasahib e seu pointer. Chamada: nenhuma resposta. Ele ergueu os pés da sucção arenosa e voltou para trás pelo quebra-mar. Pegue tudo, fique com tudo. Minha alma caminha comigo, forma das formas. Assim sob as meias-vigílias da lua eu ando a passos largos pelo caminho acima das rochas, de areia prateada, ouvindo a torrente tentadora de Elsinore.
A torrente está me seguindo. Eu posso observá-la passando por aqui fluindo. Volte então pela Poolbeg Road para a praia ali. Ele galgou a junça e algas litorâneas escorregadias e se sentou num banco de pedra, repousando sua bengala numa fenda.
Uma carcaça intumecida de um cachorro estava refestelada num destroço inflado. Diante dele a amurada de um barco, fincada na areia. Un coche ensablé era como Louis Veuillot chamava a prosa de Gautier. Estas areias pesadas são a linguagem usada pela maré e o vento para obstruir aqui com aluvião. E estes montes de pedras dos construtores mortos, um viveiro de fuinhas. Esconda ouro aqui. Experimente. Você tem algum. Bancos de areia e pedras. Com o peso do passado. Os brinquedos de sir Lout. Cuidado para não levar um estrondo no ouvido. Eu sou o maldito gigante que faz rolar miseravelmente bem pedras grandes, ossadas miseravelmente boas para me servirem de degraus. Fiifófam. Eu zsinto o zcheiro do zsangue de zum zirlandês.
Um ponto, um cão vivo, surgiu à vista correndo ao longo da praia. Meu Deus, será que ele vai me atacar? Respeite a liberdade dele. Você não será o patrão dos outros ou o escravo deles. Eu tenho a minha vareta. Sente-se firme. De bem longe, caminhando em direção à praia do outro lado das ondas encrespadas, figuras, duas. As duas marias. Elas cobriram aquilo bem escondido por entre os juncos. Piquebês. Eu vejo vocês. Não, o cachorro. Ele está correndo de volta para elas. Quem?
Galeras de Lochlanns afluíram aqui na praia em busca de presas, com suas proas de bicosvermelhos rasantes sobre a arrebentação de metal derretido. Vikings dinamarqueses, com colares de metal como os dos tomahawks cintilantes no peito quando Malachi usou o colar de ouro. Um cardume de baleias turlehides no calor do meio-dia, esguichando, cambaleando, encalhou nos bancos de areia. Então da fortificação engaiolante da cidade faminta uma horda de anões vestindo jaquetas, meu povo, com facas esfoladoras, correram, escamaram, retalharam aos prantos carne-de-baleia. Fome, peste e carnificinas. O sangue deles está em mim, seus desejos são minhas avalanches. Eu, criança trocada ao nascer, me movimentei entre eles sobre o Liffey congelado, entre as fogueiras que expeliam resina. Eu não falei com ninguém e ninguém comigo.
O latido do cachorro correu em direção a ele, parou, correu de volta. Cão do meu inimigo. Eu simplesmente parei pálido, silencioso, acuado. Terribilia meditans. Um gibão amarelo pálido, destino de um velhaco, sorriu do meu medo. É por isso que você está penando, pelo latido do aplauso deles? Pretendentes: vivem as vidas deles. O irmão de Bruce, Thomas Fitzgerald, cavalheiro sedoso, Perkin Warbeck, falso herdeiro de York, de calças de seda cor de marfim rosado, maravilha de um dia, e Lambert Simnel, com uma comitiva de empregadas domésticas e vivandeiros, um ajudante de cozinha coroado. Todos filhos de reis. Paraíso de pretendentes outrora e agora. Ele salvou homens de se afogarem e você estremece com o ganido de um vira-lata. Mas os cortesãos que zombaram de Guido em Or san Michele estavam em suas próprias casas. Casa de... Nós não queremos nenhuma de suas obscuridades medievais. Você faria o que ele fez? Um barco estaria perto, uma boia de salvamento. Natürlich, posta ali para você. Faria ou não faria? O homem que se afogou nove dias atrás perto do rochedo de Maiden. Eles estão esperando por ele agora. A verdade, cuspa ela fora. Eu gostaria de. Eu tentaria. Eu não sou um bom nadador. Água macia e fria. Quando eu pus minha cara nela na bacia em Clongowes. Não consigo ver! Quem está atrás de mim? Fora rápido, rápido! Você está vendo a corrente fluindo rapidamente de todos os lados, cobrindo rapidamente com seus lençóis os bancos de areia cordeconchachocolate? Se eu tivesse terra sob os meus pés. Eu quero que a vida dele seja ainda dele, a minha seja minha. Um homem se afogando. Seus olhos humanos clamam para mim do horror de sua morte. Eu... Junto com ele embaixo... Eu não pude salvá-la. Águas: morte amarga: perdida.

continua na página 52...
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Ulisses - Parte 1 (3b): Ele parou
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Joyce, James 
Ulisses [recurso eletrônico] / James Joyce ; tradução Bernardina da Silveira Pinheiro ; [seleção, elaboração e tradução das notas de capítulos Flavia Maria Samuda]. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2010. Romance irlandês.

O Apanhador no Campo de Centeio - 8: Era muito tarde

O Apanhador no Campo de Centeio

J.D. Salinger

8


Era muito tarde para chamar um táxi ou coisa parecida, por isso fui mesmo a pé até a estação. Não era tão longe, mas fazia um frio danado, a neve dificultava a caminhada e as malas iam chacoalhando como umas desgraçadas de encontro a minhas pernas. Mas, de qualquer maneira, até que me sentia bem com o ar puro e tudo. O único problema era que o frio fazia meu nariz doer, e aumentava a dor que eu já estava sentindo na parte de dentro do meu lábio superior, onde o safado do Stradlater tinha me acertado. Ele tinha arrebentado meu lábio contra os dentes, e estava doendo pra chuchu. Mas minhas orelhas estavam bem quentinhas. Aquele chapéu que eu havia comprado tinha protetores de orelha, que eu tratei de abaixar. Estava pouco ligando para minha aparência.
Tive bastante sorte quando cheguei na estação, porque só precisava esperar uns dez minutos pelo próximo trem. Enquanto esperava, apanhei um bocado de neve e lavei minha cara, que ainda estava cheia de sangue.
Normalmente, eu gosto de andar de trem, principalmente de noite, com as luzes acesas e as janelas tão escuras, e um desses sujeitos passando pelo corredor, vendendo café, sanduíches e revistas. Normalmente eu compro um sanduíche de presunto e mais ou menos quatro revistas. Num trem, de noite, sou até capaz de ler uma dessas estórias imbecis sem vomitar de nojo. Uma dessas estórias com uma porção de machões de queixo ossudo, chamados David, e uma porção de garotas bestas, chamadas Linda ou Márcia, que estão sempre acendendo os cachimbos dos David para eles. Normalmente, consigo ler até mesmo uma dessas estórias cretinas se estou andando de trem, de noite. Mas dessa vez foi diferente. Pura e simplesmente, não estava no estado de espírito necessário. Fiquei só sentado, sem fazer nada. A única coisa que fiz foi tirar meu chapéu de caça e guardá-lo no bolso.
De repente, uma dona tomou o trem em Trenton e sentou ao meu lado. Já era um bocado tarde e tudo, e por isso o vagão estava praticamente vazio, mas ela sentou bem ao meu lado, e não em qualquer banco vazio, porque vinha carregando uma mala enorme e eu estava logo no primeiro banco. Deixou a mala bem no meio do corredor, onde o condutor ou qualquer um podia tropeçar nela. Estava usando umas orquídeas, como se tivesse acabado de sair de uma baita duma festa ou coisa parecida. Acho que ela devia ter uns quarenta ou quarenta e cinco anos, mas era um bocado bonita. Sou doido por mulher. No duro. Não que eu seja nenhum tarado nem nada, embora seja bastante macho. O negócio é que eu gosto mesmo das mulheres. Elas estão sempre deixando a porcaria das malas delas bem no meio dos corredores.
De qualquer modo, nós estávamos sentados lá e, de repente, ela me perguntou:

- Desculpe, mas essa etiqueta não é do Colégio Pencey?

Ela estava olhando para minhas malas, em cima da prateleira.

- É sim - respondi. Ela tinha razão. Havia mesmo uma droga duma etiqueta do Pencey em uma das minhas malas. Reconheço que era o tipo do negócio idiota de se usar.

- Ah, você estuda no Pencey? - perguntou. Ela tinha uma voz agradável. Era mais uma voz agradável de telefone. Ela bem que devia carregar uma porcaria dum telefone com ela por toda parte.

- É, eu estudo lá, sim - respondi.

- Ah, que interessante. Então talvez você conheça meu filho, o Ernest Morrow. Ele também está lá no Pencey.

- Conheço sim. Ele é da minha turma.

O filho dela era sem dúvida o maior sacana que já tinha passado pelo Pencey, em toda a infeliz história do colégio. Ele estava sempre andando pelo corredor, depois de tomar banho, batendo com a toalha encharcada na bunda dos outros. É esse o tipo de cara que ele era.

- Ah, que interessante! - ela disse, mas sem ser besta nem nada. Estava só querendo ser simpática. - Vou contar ao Ernest que nós nos encontramos - continuou ela. - Posso saber o seu nome, meu filho?

- Rudolph Schmidt - respondi. Não estava com a mínima vontade de contar a ela toda a história da minha vida. Rudolph Schmidt era o nome do zelador do nosso dormitório.

- Você gosta do Pencey? - ela perguntou.

- O Pencey? Não é de todo mau. Não é nenhum paraíso nem nada, mas é tão bom quanto a maioria dos colégios. Alguns professores são um bocado conscienciosos.

- O Ernest adora o Pencey.

- É, eu sei que ele gosta de lá - eu disse. Aí comecei a embromar um pouco. - Ele se adapta muito bem às coisas. No duro. Ele realmente sabe se adaptar ao meio.

- Você acha? - ela perguntou. Parecia interessada pra burro.

- O Ernest? Claro que sim.
Aí fiquei olhando enquanto ela tirava as luvas. Puxa, a mulherzinha estava coberta de pedraria.

- Acabei de quebrar uma unha saindo do táxi.

Olhou para e mim e sorriu. Ela tinha um sorriso tremendamente simpático. Verdade. A maioria das pessoas ou não sabem sorrir ou têm um sorriso pavoroso.

- Eu e o pai do Ernest às vezes nos preocupamos com ele. Às vezes pensamos que ele não faz amigos com facilidade.

- Como assim?

- Bem, ele é um rapaz muito sensível. Ele nunca foi de ter muitos amigos. Talvez porque encara as coisas com seriedade demais para a idade dele.

Sensível. Essa era a maior. O tal do Morrow tinha tanta sensibilidade quanto um assento de privada.
Olhei bem para ela. Não me parecia nenhuma imbecil. Parecia mesmo que era capaz de saber direitinho que bom sacana que era o filho dela. Mas não se sabe nunca, quando se trata da mãe de alguém. Todas as mães são um pouquinho amalucadas. Mas o fato é que eu estava simpatizando com a mãe do Morrow. Ela era cem por cento.

- A senhora aceita um cigarro?

Ela olhou em volta: - Acho que não se pode fumar neste carro, Rudolph - ela disse. Rudolph. Essa foi infernal!

- Não faz mal não. A gente pode fumar até eles começarem a reclamar - respondi.

Aceitou um cigarro, que eu acendi para ela. Fumava de uma maneira simpática. Tragava e tudo, mas não engolia a fumaça, como a maioria das mulheres da idade dela. Tinha um bocado de charme. Para dizer mesmo a verdade, ela era um bocado atraente sexualmente.
Ela estava me olhando de um jeito meio esquisito. – Pode ser que eu esteja enganada - ela disse, de repente - mas acho que seu nariz está sangrando, meu filho.
Acenei com a cabeça e apanhei meu lenço.

- Me acertaram uma bola de neve - falei. – Uma dessas bem geladas.

Eu provavelmente teria contado a ela tudo que tinha de fato acontecido, mas ia tomar muito tempo. Mas eu simpatizava com ela. Estava começando a me sentir chateado de haver dito que meu nome era Rudolph Schmidt.

- O Ernie - eu disse - ele é um dos sujeitos mais populares do Pencey. A senhora sabe disso?

- Não, não sabia.

Sacudi a cabeça afirmativamente.

- Na verdade, custou um bocado até o pessoal todo conhecer bem o Ernie. Ele é um sujeito engraçado. Um sujeito estranho, de certo modo - a senhora compreende? Por exemplo, a primeira vez que eu encontrei com ele. Nessa primeira vez, pensei que ele era um sujeito meio metido a besta. Foi o que eu pensei. Mas ele não é, não. O caso é que ele tem uma personalidade muito original, e a gente custa um pouco a conhecer ele bem.

A mãe dele não disse nada, mas, puxa, valia a pena ver a cara dela. Parecia colada na poltrona. É sempre assim, a gente fala com a mãe de alguém, e a única coisa que elas querem ouvir é como o filho delas é bacana pra chuchu.
Aí eu comecei a embromar mesmo.

- Ele falou à senhora sobre as eleições? - perguntei. - As eleições na turma?

Ela fez que não com a cabeça. Tinha posto a mulherzinha em transe. No duro.

- Bem, muitos de nós queríamos que o Ernie fosse o chefe da turma. Era realmente uma escolha unânime. Quer dizer, ele era o único sujeito realmente capaz de ocupar o cargo - eu disse. Puxa, agora ninguém me segurava mais. - Mas quem acabou sendo eleito foi outro cara, o Harry Fencer. E sabe por quê? Pela única e exclusiva razão de que o Ernie não quis ser candidato. Só porque ele é tão modesto, tão tímido e tudo. Ele recusou... Puxa, ele é modesto mesmo. A senhora deve procurar fazer com que ele se modifique um pouco nesse ponto.

Olhei para ela.

- Ele falou à senhora sobre isso?

- Não, não me disse nada.

Sacudi a cabeça. - O Ernie é assim mesmo. É evidente que não ia contar. Esse é o defeito dele - ser tão tímido e modesto. A senhora deve realmente tentar fazer com que ele seja um pouco mais desembaraçado.
Nesse exato instante, o condutor apareceu para conferir a passagem dela, e me deu uma chance de parar com a embromação. Mas até que eu estava satisfeito de ter dito aquelas besteiras. Um sujeito assim como o Morrow, que está sempre batendo com a toalha na bunda dos outros - pra machucar mesmo - não é safado só quando é garoto. É safado a vida toda. Mas aposto que, depois de toda aquela baboseira que eu falei, a mãe dele vai pensar sempre nele como o sujeito tímido e modesto pra burro, que não deixou a gente elegê-lo chefe da turma. Certamente vai pensar, não se sabe nunca. As mães não são lá muito espertas nesse tipo de coisa.

- A senhora aceita um drinque? - perguntei. Estava com vontade de beber um troço qualquer. - Podemos ir até o carro-restaurante. Vamos?

- Meu filho, você tem idade para pedir bebidas alcoólicas? - ela perguntou. Mas sem ser desagradável. Ela era simpática demais para ser desagradável.

- Poder não posso, lá isso é verdade, mas normalmente me servem por causa da minha altura - respondi. - E, além disso, eu tenho um bocado de cabelo branco.

Virei de lado e mostrei a ela os meus cabelos brancos. Ela ficou fascinada com o troço.

- Vamos, a senhora não quer me acompanhar? - insisti. Eu bem que gostaria que ela fosse comigo.

- Acho que não, mas muito obrigada, meu filho. E, de qualquer maneira, o carro-restaurante deve estar fechado. Já é muito tarde sabe?

Ela tinha razão. Eu já havia até esquecido da hora. Aí ela olhou para mim e perguntou aquilo que eu estava mesmo com medo que ela perguntasse.

- O Ernest me escreveu dizendo que voltava para casa na quarta-feira, que as férias de Natal iam começar na quarta-feira. Espero que você não tenha sido chamado para casa de repente por causa de doença na família.

Ela realmente parecia preocupada. Era evidente que não estava perguntando só porque era enxerida nem nada.

- Não, todo mundo vai bem lá em casa - respondi. - Sou eu mesmo. Tenho que fazer uma operação.

- Oh! Que pena! - disse ela. E estava com pena mesmo. Me arrependi imediatamente de ter dito aquilo, mas agora já era tarde demais.

- Não é nada sério, não. Estou só com um tumorzinho no cérebro.

- Ah, não! - ela falou. Levantou a mão até a boca e tudo.

- Ah, vai correr tudo bem. É bem perto da superfície, e é bem pequenininho e tudo. Eles podem tirar o troço em dois minutos.

Aí eu comecei a ler um horário de trem que tinha trazido no bolso. Só para parar de mentir. Quando eu começo, posso ficar mentindo horas a fio, se me dá vontade. Sem brincadeira. Horas.
Não conversamos muito depois disso. Ela começou a ler o Vogue que tinha trazido, e eu fiquei olhando algum tempo pela janela. Ela desceu em Newark. Desejou que tudo corresse bem na operação. Sempre me chamando de Rudolph. Aí me convidou para visitar o Ernie durante o verão em Gloucester, Massachussets. Disse que a casa deles era bem em frente da praia e tinha quadra de tênis e tudo, mas eu só agradeci e disse a ela que ia para a América do Sul com minha avó. Essa era mesmo de amargar, porque minha avó quase nunca sai nem de casa, a não ser talvez para ir a uma porcaria duma matinée ou coisa que o valha. Mas eu não ia visitar aquele filho da puta do Morrow nem por'todo o dinheiro do mundo, nem que eu estivesse desesperado.

O Apanhador no Campo de Centeio - 8: Era muito tarde

domingo, 1 de outubro de 2023

Autumn Leaves

Miles Davis Quintet 


Teatro dell'Arte, Milan, Italy, 
October 11th, 1964 



The band:
Miles Davis (trumpet), 
Wayne Shorter (sax), 
Herbie Hancock (piano), 
Ron Carter (bass), 
Tony Williams (drums)


Autumn Leaves 
Miles Davis with Julian Adderley




Miles Dewey Davis III (Alton, 26 de maio de 1926 – Santa Mônica, 28 de setembro de 1991) foi um trompetista, compositor e bandleader de jazz norte-americano.

Considerado um dos mais influentes músicos do século XX, Davis esteve na vanguarda de quase todos os desenvolvimentos do jazz desde a Segunda Guerra Mundial até a década de 1990. Ele participou de várias gravações do bebop e das primeiras gravações do cool jazz. Foi parte do desenvolvimento do jazz modal, e também do jazz fusion que originou-se do trabalho dele com outros músicos no final da década de 1960 e no começo da década de 1970.

Miles Davis pertenceu a uma classe tradicional de trompetistas de jazz, que começou com Buddy Bolden e desenvolveu-se com Joe "King" Oliver, Louis Armstrong, Roy Eldridge e Dizzy Gillespie. Ao contrário desses músicos ele nunca foi considerado com um alto nível de habilidade técnica. Seu grande êxito como músico, entretanto, foi ir mais além do que ser influente e distinto em seu instrumento, e moldar estilos inteiros e maneiras de fazer música através dos seus trabalhos. Muitos dos mais importantes músicos de jazz fizeram seu nome na segunda metade do século XX nos grupos de Miles Davis, incluindo: Joe Zawinul, Chick Corea e Herbie Hancock, os saxofonistas John Coltrane, Wayne Shorter, George Coleman e Kenny Garrett, o baterista Tony Williams e o guitarrista John McLaughlin.

Como trompetista Davis tinha um som puro e claro, mas também uma incomum liberdade de articulação e altura. Ele ficou conhecido por ter um registro baixo e minimalista de tocar, mas também era capaz de conseguir alta complexidade e técnica com seu trompete.

Em 13 de Março de 2006, Davis foi postumamente incluído no Rock and Roll Hall of Fame. Ele foi também incluído no St. Louis Walk of Fame, Big Band and Jazz Hall of Fame, e no Down Beat's Jazz Hall of Fame.

Kind of Blue tem sido citado como o álbum de Miles Davis mais vendido da sua carreira, bem como o álbum de jazz mais vendido da história. Em 7 de setembro de 2008, o álbum foi certificado pela RIAA (Associação das Indústrias Fonográficas Americanas) com um álbum de platina quádruplo. Kind of Blue é também reconhecido por muitos fãs, críticos e ouvintes de jazz como o maior álbum de jazz de todos os tempos, frequentemente alcançando o topo listas de "melhores álbuns" de vários outros gêneros além do jazz. Em 2002, a gravação do álbum foi uma das 50 escolhidas naquele ano para o Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso Americano. E Em 2003, o álbum foi classificado em 12º lugar pela revista Rolling Stone em sua Lista dos 500 melhores álbuns de sempre. Em 30 de setembro de 2008 um box do 50º aniversário de lançamento do álbum foi lançada pela Columbia/Legacy Records.



Kind Of Blue






Jeanne Moreau - Miles Davis - Louis Malle 
- Paris - 1958



Cena maravilhosa, Jeanne Moreau sozinha caminhando por Paris e Miles Davis transformando seus sentimentos em música!
"Ascenseur pour l'échafaud" é um álbum do músico de jazz Miles Davis. Foi gravado no Le Poste Parisien Studio em Paris nos dias 4 e 5 de dezembro de 1957. O álbum traz as pistas musicais do filme de Louis Malle de 1958. 
Jean-Paul Rappeneau, fã de jazz e assistente de Malle na época, sugeriu pedir a Miles Davis para criar a trilha sonora do filme - possivelmente inspirada na gravação do Modern Jazz Quartet para "Sait-on jamais" de Roger Vadim. 
Davis foi contratado para se apresentar no Club Saint-Germain em Paris em novembro de 1957. Rappeneau o apresentou a Malle, e Davis concordou em gravar a música depois de assistir a uma exibição privada.


Miles Ahead 
(Trailer Legendado)