quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Espumas Flutuantes - MOCIDADE E MORTE

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

MOCIDADE E MORTE 
 
  E perto avisto o porto 
 Imenso, nebuloso e sempre noite 
 Chamado — Eternidade. — 
Laurindo

Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.
Dante

Oh! eu quero viver, beber perfumes 
 Na flor silvestre, que embalsama os ares; Ver
minh’alma adejar pelo infinito, 
 Qual branca vela n’amplidão dos mares. 
 No seio da mulher há tanto aroma... 
 Nos seus beijos de fogo há tanta vida... 
 — Árabe errante, vou dormir à tarde 
 À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria: 
 Terás o sono sob a lájea fria. 

Morrer... quando este mundo é um paraíso, 
 E a alma um cisne de douradas plumas: 
Não! o seio da amante é um lago virgem... 
 Quero boiar à tona das espumas. 
 Vem! formosa mulher — camélia pálida, 
 Que banharam de pranto as alvoradas. 
 Minh’alma é a borboleta, que espaneja 
 O pó das asas lúcidas, douradas...  

E a mesma voz repete-me terrível, 
 Com gargalhar sarcástico: — impossível! 

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. 
 Vejo além um futuro radiante: 
 Avante! — brada-me o talento n’alma 
 E o eco ao longe me repete — avante! — 
 O futuro... o futuro... no seu seio... 
 Entre louros e bênçãos dorme a glória! 
 Após — um nome do universo n’alma, 
 Um nome escrito no Panteon da história. 

E a mesma voz repete funerária: 
 Teu Panteon — a pedra mortuária! 

Morrer — é ver extinto dentre as névoas 
 O fanal, que nos guia na tormenta: 
 Condenado — escutar dobres de sino, — 
Voz da morte, que a morte lhe lamenta — 
 Ai! morrer — é trocar astros por círios, 
 Leito macio por esquife imundo, 
 Trocar os beijos da mulher — no visco 
 Da larva errante no sepulcro fundo. 

Ver tudo findo... só na lousa um nome, 
 Que o viandante a perpassar consome. 

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito 
 Um mal terrível me devora a vida: 
 Triste Ahasverus, que no fim da estrada, 
 Só tem por braços uma cruz erguida. 
 Sou o cipreste, qu’inda mesmo flórido, 
 Sombra de morte no ramal encerra! 
 Vivo — que vaga sobre o chão da morte, 
 Morto — entre os vivos a vagar na terra. 

Do sepulcro escutando triste grito 
 Sempre, sempre bradando-me: maldito! — 

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência, 
 Quando a sede e o desejo em nós palpita... 
 Levei aos lábios o dourado pomo, 
Mordi no fruto podre do Asfaltita. 
 No triclínio da vida — novo Tântalo — 
 O vinho do viver ante mim passa... 
 Sou dos convivas da legenda Hebraica, 
 O estilete de Deus quebra-me a taça.

É que até minha sombra é inexorável, 
 Morrer! morrer! soluça-me implacável. 

Adeus, pálida amante dos meus sonhos! 
 Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos! 
 Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga 
 Os prantos de meu pai nos teus cabelos. 
 Fora louco esperar! fria rajada 
 Sinto que do viver me extingue a lampa... 
 Resta-me agora por futuro — a terra, 
 Por glória — nada, por amor — a campa.

Adeus!... arrasta-me uma voz sombria 
 Já me foge a razão na noite fria!...

1864 


AO DOUS DE JULHO 
Recitada no teatro de S. João 

É a hora das epopeias, 
 Das Ilíadas reais. 
 Ruge o vento — do passado 
 Pelos mares sepulcrais. 
 É a hora, em que a Eternidade 
 Dialoga a Imortalidade... 
 Fala o herói com Jeová!... 
 E Deus — nas celestes plagas — 
 Colhe da glória nas vagas 
 Os mortos de Pirajá. 

Há destes dias augustos 
 Na tumba dos Briareus. 
 Como que Deus baixa à terra 
 Sem mesmo descer dos céus. 
 É que essas lousas rasteiras 
 São — gigantes cordilheiras 
 Do senhor aos olhos nus. 
 É que essas brancas ossadas 
 São — colunas arrojadas 
 Dos infinitos azuis.

Sim! Quando o tempo entre os dedos 
 Quebra um sec’lo, uma nação... 
 Encontra nomes tão grandes 
 Que não lhe cabem na mão!... 
 Heróis! Como o cedro augusto 
 Campeia rijo e vetusto 
 Dos sec’los ao perpassar, 
 Vós sois os cedros da história, 
 À cuja sombra de glória 
 Vai-se o Brasil abrigar.

E nós, que somos faíscas 
 Da luz desses arrebóis, 
 Nós, que somos borboletas 
 — Das crisálidas de avós, 
 Nós, que entre as bagas dos cantos, 
 Por entre as gotas dos prantos 
 Inda os sabemos chorar, 
 Podemos dizer: “Das campas 
 Sacudi as frias tampas! 
 Vinde a Pátria abençoar!...” 

Erguei-vos, santos fantasmas! 
 Vós não tendes que corar... 
 (Porque eu sei que o filho torpe 
 Faz o morto soluçar...) 
 Gemem as sombras dos Gracos, 
 Dos Catões, dos Espartacos 
 Vendo seus filhos tão vis... 
 Dize-o tu, soberbo Mário! 
 Tu, que ensopas o sudário 
 Vendo Roma — meretriz!... 

Ai! Que lágrimas candentes 
 Choram órbitas sem luz! — 
 Que ideia terá Leônidas 
 Vendo Esparta nos pauis?!... 
 Alta noite, quando pena 
 Sobre Árcole, sobre Iena, 
 Bonaparte — o rei dos reis —, 
 Que dor d’alma lhe rebenta, 
 — Ao ver su’águia sangrenta 
 No sabre de Juarez!?...  

Porém aqui não há grito, 
 Nem pranto, nem ai, nem dor... 
 O presente não desmente 
 Do seu ninho de condor...  
Mãos, que, outrora de crianças 
 A rir — dentaram as lanças 
 Dos velhos de Pirajá... 
 De homens hoje, as empunhando, 
 Nas batalhas afiando, 
 Vão caminho de Humaitá!...

Basta!... Curvai-vos, ó povo!... 
 Ei-los os vultos sem par, 
 Só de joelhos podemos 
 N’est’hora augusta fitar 
 Riachuelo e Cabrito, 
 Que sobem para o infinito 
 Como jungidos leões, 
 Puxando os carros dourados 
 Dos meteoros largados 
 Sobre a noite das nações. 

Bahia, 1867.

continua pag 14...
____________________

Prólogo / Hebreia / Laço de fita / Mocidade e Morte / 
________________

Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário