segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - Os amigos do ABC / I - Um grupo que esteve quase a tornar-se histórico(b)

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quarto — Os amigos do ABC

     I — Um grupo que esteve quase a tornar-se histórico

continuando... 
   
          Feuilly era um lequeiro, órfão de pai e mãe, que mal ganhava três francos por dia e que só tinha um pensamento libertar o mundo. Tinha ainda outra preocupação: instruir-se, ao que ele também chamava libertar-se a si mesmo. Aprendera sem mestre a ler e a escrever, e tudo o que sabia aprendera-o por si e sem auxílio estranho. Feuilly era um generoso coração. A todos amava. Era órfão, mas adoptara os povos. Faltava-lhe sua mãe; lembrou-se da pátria. Não queria que na terra houvesse um homem que não vesse pátria. Feuilly chocava dentro de si, com o profundo instinto de adivinhar, particular ao homem do povo, o que nós hoje denominamos «a ideia das nacionalidades». De propósito aprendera a história para se indignar com conhecimento de causa. Naquele juvenil cenáculo de utopistas, especialmente ocupados da França, Feuilly representava o exterior. A sua especialidade era a Grécia, a Polónia, a Hungria, a Roménia e a Itália. Pronunciava a todo o instante estes nomes, a propósito ou não, com a tenacidade do direito. Exasperavam-no as violações da Turquia sobre a Grécia e sobre a Tessália, da Rússia sobre Varsóvia, da Áustria sobre Veneza. Entre todos o que mais o exaltava era o grande atentado de 1772. Quando a indignação é verdadeira, não há mais soberana eloquência, e era essa, efetivamente, a que ele possuía, O mancebo nunca se fartava de estigmatizar essa data de infâmia, 1772, de lamentar esse nobre e valoroso povo suprimido por traição, de invectivar esse crime de três, essa cilada monstruosa, protótipo e modelo de todas essas horrorosas supressões de estado, que depois feriram muitas nobres nações, e que, para assim dizer, lhes riscaram o auto do nascimento. Todos os atentados sociais contemporâneos derivam da divisão da Polônia. A divisão da Polônia é um teorema de que são corolários todos os atuais malefícios políticos. Desde há um século para cá, não há um só déspota, um traidor, que não tenha visado, homologado, subscrevido e rubricado, ne varietur, a divisão da Polônia. Se alguém compulsa o registro das traições modernas, é esta a que primeiro se oferece aos olhos. Antes de consumar o seu crime, consultou este o congresso de Viena. 1772 dá o sinal da caça, 1815 é a ceva. Tal era o texto habitual de Feuilly. Este pobre operário fizera-se o tutor da justiça e ela recompensava-o fazendo-o grande. É que, efetivamente, o direito tem o que quer que seja de eterno. Varsóvia não pode ser tártara, bem como Veneza não pode ser tedesca. Os reis perdem nisso o trabalho e a honra. Tarde ou cedo a pátria submergida flutua na superfície e reaparece. A Grécia torna-se Grécia, a Itália torna-se Itália. O protesto do direito contra o fato persiste sempre. O roubo de um povo não tem prescrição, nem futuro estas ladroeiras em ponto grande. Não se tira a marca a uma nação, como a um lenço.
     Quanto a Courfeyrac, seu pai chamava-se senhor de Courfeyrac. Uma das falsas ideias da burguesia, a respeito de aristocracia e de nobreza, era acreditar na partícula, que, como todos sabem, não tem significação nenhuma. Mas os burgueses do tempo da Minerva tinham em tão subida conta este pobre de, que se tornava necessário abdicá-lo. O senhor de Chauvelin, assinava-se simplesmente senhor Chauvelin; o senhor de Caumartin, senhor Caumartin; o senhor de Constant de Rebecque, Benjamin Constant; o senhor de Lafayette, senhor Lafayette. Courfeyrac, pois, que não quisera ficar atrás, assinava-se também simplesmente Courfeyrac.
     Quase que, pelo que diz respeito a Courfeyrac, poderíamos ficar aqui, limitando-nos a dizer quanto ao resto: Courfeyrac, vede Tholomyés.
     Efetivamente, Courfeyrac possuía esse entusiasmo juvenil, que quase se pode chamar a beleza diabólica do espírito. Com os anos, esse entusiasmo extingue-se, como a gentileza do gatinho novo, e toda essa graça vem a transformar-se em bípede, no burguês, em quadrúpede, no gato.
     Este gênero de espírito transmitem-no mutuamente as gerações que frequentam as escolas, as sucessivas levas da juventude, passando de mão em mão, quase cursores, sempre no mesmo estado, com pequena diferença, de modo que, como acabamos de indicar, quem em 1828 escutasse Courfeyrac, imaginaria estar ouvindo Tholomyés em 1817. Com a diferença, porém, de que Courfeyrac era um honrado moço. Debaixo das aparentes semelhanças de espírito exterior, era grande a diferença entre ele e Tholomyés. O homem latente, que em ambos existia, no primeiro era muito diverso do que existia no segundo. Em Tholomyés existia um procurador, em Courfeyrac um paladino.
     Enjolras era o chefe, Combeferre o guia, Courfeyrac o centro. Os outros davam mais luz, ele dava mais calórico; o certo é que ele possuía todas as qualidades de um centro, pois que era circular e luminoso.
     Bahorel figurara no sanguinolento tumulto de Junho de 1822, por ocasião do enterro do jovem Lallemand.
     Bahorel era uma criatura de boa índole e de mau trato, honrado, cesto roto, pródigo com acerto, falador eloquente, ousado com ventura; o melhor estroina que Deus ao mundo deitara; trajando coletes temerários e proclamando opiniões escarlates; tranca ruas em ponto grande, quer dizer, não gostando de nada tanto como de uma bulha, porém mais de um tumulto, e mais ainda de uma revolução do que de um tumulto; sempre pronto a quebrar uma vidraça, em seguida a descalçar uma rua, depois a demolir um governo, a ver o efeito que fazia; estudante do undécimo ano. Bahorel farejava o direito, mas não o fazia. Tinha tomado por divisa estas palavras: Advogado nunca e por armas uma mesa de estudo, sobre a qual se entrevia um capelo. Quando passava pela escola de direito, o que raras vezes lhe acontecia, abotoava o casaco (então ainda se não tinha inventado o paletó) e tomava outras precauções higiênicas. Costumava dizer na entrada da escola: «Que venerando velho!» e do decano, senhor Delvincourt: «Que monumento!» Nas aulas que frequentava, via assunto para cantigas e nos seus professores ocasiões de caricatura. Recebia, sem fazer quase nada, uma avultada pensão, o que quer que fosse parecido com três mil francos. Seus pais eram uns camponeses, a quem soubera inculcar respeito para com o filho.
     Costumava dizer deles: «Por serem aldeãos e não burgueses, é que eles têm inteligência».
     Bahorel, homem caprichoso, frequentava grande número de cafés; os outros tinham seus hábitos, Bahorel não. Passeava. Errar é do homem. Passear é do parisiense. No fundo, espírito penetrante e mais pensador do que parecia.
     Servia Bahorel de laço entre os amigos do ABC e outros grupos ainda informes, mas que mais tarde deviam vir a desenhar-se distintamente.
     No meio, porém, deste conclave de cabeças jovens, havia uma cabeça calva.
     O marquês de Avaray, a quem Luís XVIII fez duque por tê-lo ajudado a subir para um cabriole no dia em que emigrou, contava que em 1814, quando regressou a França e o rei desembarcava em Calais, lhe fora apresentado um requerimento por um homem.

— O que é que pede? — disse o rei. 
— Senhor, desejava ser diretor do correio em qualquer terra. 
— Como se chama? 
— L’Aigle.

     O rei carregou o sobrolho, olhou para a assinatura do requerimento e viu o nome assim escrito: Lesgle. Impressionou-o esta ortografia pouco bonapartista, e principiou a sorrir.

— Senhor — continuou o homem do requerimento — um dos meus antepassados, que era criado de matilhas, tinha o apelido de Lesgueules, e eu desse apelido formei o meu nome. Chamo-me, pois, Lesgueules, por contração Lesgle e por corrupção L’Aigle.

     Isto fez com que o rei terminasse o seu sorriso, e daí por algum tempo, ou de propósito ou por acaso, deu ao homem o lugar de diretor do correio em Meaux.
     O membro calvo do grupo era filho desse Lesgle ou Lègle e assinava-se Lègle (de Meaux). Os seus camaradas chamavam-lhe Bossuet, por abreviatura.
     Bossuet era um rapaz de génio folgazão, mas infeliz. O seu forte consistia em não fazer coisa com coisa. Em compensação, ria de tudo. Tinha apenas vinte e cinco anos e já era calvo. O pai viera por último a possuir uma casa e um campo, mas o filho não descansou enquanto não perdeu tudo numa arriscada especulação que empreendeu, vindo a ficar sem nada. Tinha ciência e espírito, mas abortava. Tudo lhe falhava, com tudo se enganava; tudo quanto construía lhe desabava em cima. Se rachava lenha, cortava algum dedo; se arranjava uma amante, vinha logo a descobrir que também tinha um rival. A cada instante lhe sucedia algum contratempo; disso provinha a sua jovialidade. Eu cá saio da lama, meto-me: no atoleiro, costumava ele dizer. Pouco espantadiço, porque para ele os desastres eram coisas que já previa, encarava as desfortunas com serenidade e sorria das travessuras do destino como quem sabe o que são gracejos. Era pobre, mas nunca à algibeira do seu génio folgazão viu alguém o fundo. Depressa se lhe escoava das mãos o último soldo, nunca dos lábios a derradeira gargalhada. Quando a adversidade lhe entrava pela porta dentro, saudava cordialmente este antigo conhecimento: na ocasião das catástrofes batia na barriga, e tanta familiaridade tinha com a fatalidade, que a tratava pelo seu nome próprio: «Bons dias, Azar», dizia ele.
     Estas perseguições da sorte tinham-lhe dado a faculdade inventiva. Nunca lhe faltavam expedientes. Raríssimas vezes tinha dinheiro, mas apesar disso, achava meio, quando queria, de fazer «despesas loucas». Uma noite chegou a despender «cem francos» com uma serigaita, o que lhe inspirou, no meio da orgia, este memorável dito: «Fille de cinq louis,[1] tira-me as botas».
     Bossuet estudava jurisprudência. Como Bahorel, porém, caminhava lentamente na realização do seu intento de ser um dia advogado. O seu domicílio era incerto e às vezes nenhum. Ora ficava em casa deste, ora em casa daquele, a maior parte das vezes em casa de Joly, que estudava medicina e era mais novo do que ele dois anos.
     Joly era o doente imaginário de Molière, quando novo. O lucro que tinha tirado da medicina era ser antes doente do que médico. Contava apenas vinte e três anos e julgava-se valetudinário, passando a vida a observar a língua num espelho. Afirmava que o homem é susceptível de se magnetizar com uma agulha, e por isso colocava a cama com a cabeceira para o sul e os pés para o norte, para que de noite a grande corrente magnética do globo não lhe contrariasse a circulação do sangue. Em ocasiões de tempestade, costumava tomar o pulso a si mesmo. De resto, o mais alegre de todos. Todas estas incoerências, juventude, mono mania, doença, alegria, davam-se perfeitamente entre si, do que resultava uma criatura excêntrica e agradável, que os seus camaradas, pródigos de consoantes aladas, denominavam Joily.

— Tu podes voar em quatro asas[2] — dizia-lhe Jean Prouvaire.

     Joly tinha por costume coçar o nariz com o castão da bengala, o que é indício de um espírito sagaz.
     Todos estes mancebos tão diversos, e de quem, afinal, cumpre falar com seriedade, tinham uma mesma religião o Progresso.
     Todos eram filhos diretos da revolução francesa. Os mais levianos tornavam-se solenes ao pronunciar a data de 1789. Seus pais, segundo a carne, eram ou tinham sido bernardos, realistas, doutrinários; pouco importava isso; esse mistifório anterior a eles, que eram moços, não lhes dizia respeito; nas veias corria-lhes o puro sangue dos princípios. Tinham-se ligado intimamente com o direito incorruptível e com o dever absoluto.
     Filiados e adeptos, esboçavam o ideal a ocultas.
     Entre todos estes corações apaixonados e todos estes espíritos convictos havia um céptico. Como achara ele modo de se introduzir no meio daqueles crentes do progresso? Por justaposição. Esse céptico chamava-se Grantaire e assinava-se habitualmente desta enigmática maneira: R.[3] Grantaire era um homem que punha todo o cuidado em não acreditar em coisa alguma. Todavia, era um dos estudantes que mais tinham aprendido durante o tempo que frequentara as aulas em Paris; sabia que o melhor botequim era o café Lemblin e o melhor bilhar o do café Voltaire; que na Ermida do boulevard do Maine havia excelentes bolos folhados e boas raparigas; que em casa da a Saguet se guisavam frangos como em parte nenhuma; que na barreira de Cunette se faziam belas caldeiradas de peixe e que na barreira do Combate havia um vinhinho branco, que regalava o paladar. De tudo sabia onde era o melhor; além disto, sabia diversos jogos e danças e era forte no jogo do pau. Porém no que a todos levava a palma era em beber. Grantaire era desmesuradamente feio. Irma Boissy, a mais graciosa debruadeira de botinhas daquele tempo, indignada da sua fealdade, proferira uma vez esta sentença: «Grantaire é impossível»; a fatuidade de Grantaire, porém, não ligava importância a essas coisas. Olhava terna e fixamente para todas as mulheres, com ar de quem dizia: «Se eu quisesse!» e tentava fazer acreditar aos companheiros que era geralmente requestado. Todas estas palavras: direitos do povo, direitos do homem, contrato social, revolução francesa, república, democracia, humanidade, civilização, religião, progresso, estavam todas — para Grantaire muito vizinhas de não significarem coisa alguma. Ria-se delas. O cep cismo, carie da inteligência, não lhe deixava uma ideia inteira no espírito. Vivia com ironia, O seu axioma era este: Não há senão uma coisa certa, que é o meu copo cheio. Zombava de todas as dedicações em todos os par dos, tanto do irmão como do pai, tanto de Robespierre moço, como de Loizerolles. Adiantam muito em estar mortos, dizia ele. Do crucifixo dizia: Aquilo é uma forca que conseguiu o seu fim. Vagabundo, jogador, libertino, quase sempre embriagado, e causando aos moços pensadores o dissabor de o ouvirem continuamente cantarolar com a música do «Viva Henrique IV»:

Não há melhor bocadinho 
Que uma mulher boa e um copo de bom vinho.

     Não obstante tudo isto, esse céptico tinha um fanatismo. Este fanatismo não era uma ideia, nem um dogma, nem uma arte, nem uma ciência; era um homem: Enjolras. Grantaire, admirava e venerava Enjolras. A quem se ligava naquela falange de espíritos absolutos, aquele espírito cheio de dúvidas anárquicas? Ao mais absoluto. De que modo o subjugava Enjolras? Pelas ideias? Não. Pelo carácter; fenómeno muitas vezes observado. A aderência de um céptico a um crente, é uma coisa simples como a lei das cores complementares. O que nos falta atrai-nos. Ninguém é afeiçoado à luz como o cego. O anão adora o tambor-mor. O sapo tem sempre os olhos voltados para o céu; para quê? Para ver voar o pássaro. Grantaire, em quem se arrastava a dúvida, gostava de ver Enjolras pairar na fé. Necessitava de Enjolras, sem que o percebesse claramente e sem que pensasse em achar-lhe a explicação; aquela natureza casta, sã, firme, reta, forte, cândida, encantava-o. Admirava, por instinto, o carácter oposto ao seu. As suas ideias frouxas, vacilantes, deslocadas, doentes, disformes, ligavam-se a Enjolras como a uma espinha dorsal. A sua raquitis moral apoiava-se naquela firmeza. Grantaire junto de Enjolras tornava-se alguém. Ele próprio era composto de dois elementos, aparentemente incompatíveis. Era irónico e cordial. A sua indiferença amava. O seu espírito passava sem crença, mas o seu coração não podia passar sem amizade. Contradição profunda; porque uma afeição é uma convicção. A sua organização era assim. Há homens que parece terem nascido para ser o verso, o inverso e o reverso. São Pollux, Patroclo, Nisus, Eudamidas, Ephes on e Pechméja. Não vivem senão com a condição de se encostarem a outrem; o seu nome é seguimento de outro nome, e não se escreve sem ser precedido da conjunção e; a sua existência não lhes é própria; são o lado oposto de um destino que lhes não pertence. Grantaire era um desses homens; era o inverso de Enjolras.
     Quase poderíamos dizer que as afinidades principiaram pelas letras do alfabeto. Na série delas O e P são inseparáveis. Podeis, se vos aprouver, pronunciar O e P, ou Orestes e Pylades.
     Grantaire, verdadeiro satélite de Enjolras, frequentava também aquele centro de mancebos; entre eles vivia, só com eles se sentia bem, seguia-os para toda a parte. O seu maior prazer era ver os variados movimentos daquelas figuras, através dos vapores do vinho. O seu génio folgazão fazia com que o tolerassem entre eles.
     Enjolras, crente, fazia pouco caso deste céptico, e, sóbrio, desprezava este bêbado. Sentia apenas por ele alguma compaixão altiva. Grantaire era um Pylades mal aceito. Sempre maltratado por Enjolras, repelido com dureza, expulso, mas voltando sempre, dizia de Enjolras: «Que belo mármore!»

continua na página 495...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - I - Um grupo que esteve quase a tornar-se histórico(b)
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 
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[1]  Calemburgo intraduzível, como quase todos. «Cinq louis» pronuncia-se do mesmo modo que Saint Louis: eis o equívoco.
[2] Asas em francês (ailes) tem o mesmo som que a letra L.
[3]  Grantaire tem a mesma pronuncia que «Grander, ou «Regrand»; origem e explicação da assinatura.

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