sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Aliás, ela era pródiga em comparações zoológicas)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Aliás, ela era pródiga em comparações zoológicas, pois, segundo dizia, não se sabia quando eu estava dormindo, eu revoluteava a noite inteira como uma borboleta e de dia era tão rápido como aqueles esquilos, "sabes Marie, como se veem na nossa casa, tão ágeis que mesmo com os olhos não é possível segui-los." - 

- Mas, Céleste, sabes que ele não gosta de pôr guardanapo quando está comendo. 
- Não é que não goste, é para mostrar que não lhe podem mudar a vontade. É um senhor, e quer que saibam que é um senhor. Trocam-lhe os lençóis dez vezes se for preciso, e ele não se incomoda. Os de ontem, tudo bem, mas os de hoje, mal acabam de ser colocados e já precisam de troca; ah, eu tinha razão em dizer que ele não foi feito para nascer entre os pobres. Olha, seus cabelos se eriçam, incham-se de cólera como as penas dos pássaros. Pobre avezinha! -

     Aqui não era só Marie que protestava, mas também eu, pois de modo algum me sentia um senhor. Mas Céleste jamais acreditava na sinceridade da minha modéstia e, cortando-me a palavra: 

- Ah, novelo! Ah, doçura! Ah, perfídia! Astuto entre os astutos, safado entre os safados! Ah, Moliere! - (Era o único nome de escritor que conhecia, mas aplicava-o a mim, significando com isso alguém que seria ao mesmo tempo capaz de compor e representar peças.) 
 - Céleste! - gritava imperiosamente Marie, que, ignorando o nome de Moliere, temia que se tratasse de uma nova injúria. Céleste se limitava a sorrir: 
- Então não viste na sua gaveta a fotografia dele, quando criança? Queria nos fazer acreditar que o vestiam sempre de modo muito simples. E ali, com sua bengalinha, a gente só enxerga peles e rendas, como um príncipe nunca teve. Mas isso não é nada diante de sua imensa majestade e de sua bondade ainda mais profunda. 
- Então - estrugia a torrente Marie - agora deste para mexer em suas gavetas? -

     Para acalmar os temores de Marie, perguntei-lhe o que pensava do que fazia o Sr. Nissim Bernard. 

- Ah, senhor, é dessas coisas que eu não poderia acreditar que existissem: foi preciso vir para cá e, levando vantagem sobre Céleste por uma vez, com uma palavra mais profunda: - Ah, veja, senhor, nunca se sabe o que pode acontecer numa vida. -

     Para mudar de assunto, falava-lhe da vida de meu pai, que trabalhava dia e noite. 

- Ah, senhor, são vidas em que não se reserva nada para si mesmo, nem um minuto, nem um prazer; tudo, inteiramente tudo, é um sacrificar-se para os outros, são vidas doadas... Olha, Céleste, que distinção só para pousar a mão no cobertor e pegar o seu pãozinho! Ele pode fazer as coisas mais insignificantes e é como se toda a nobreza da França se deslocasse em cada um de seus movimentos.

     Aniquilado por esse retrato tão pouco verídico, mantinha-me calado; Céleste via nisso uma nova artimanha: 

- Ah, fronte que tens um ar tão puro e que escondes tantas coisas, faces amigas e frescas como o fino de uma amêndoa, mãozinhas de cetim bem felpudo, unhas como garras; - Olha, Marie, observa-o beber o leite com um recato que me dá vontade de rezar minha oração. Que ar sério! Deveriam tirar o seu retrato neste momento. Ele tem tudo das crianças. Foi de beber leite como elas que conservam a pele clara? Ah, juventude! Ah, linda pele! O senhor jamais há de envelhecer. Tem sorte, nunca terá de erguer a mão contra ninguém, pois tem olhos de quem sabe impor a sua vontade. E agora ficou furioso. Pôs-se de pé direito como uma evidência.

     Françoise absolutamente não gostava que elas, a quem chamava duas adulonas, viessem conversar desse modo comigo. O gerente, que espreitava tudo através dos empregados, chegou a me observar gravemente que não era digno de um hóspede conversar com mensageiras. Eu, que achava as "adulonas" superiores a todas as hóspedes do hotel, limitei-me a desatar a rir na sua cara, convencido de que ele não compreenderia as minhas explicações. E as duas irmãs voltavam. 

- Observa, Marie, os seus traços finos. O miniatura perfeita, mais linda que a mais preciosa que se veria numa vitrina, pois possui movimentos, e palavras que é da gente ficar escutando dias e noites.

     Era milagre que uma dama estrangeira tivesse podido trazê-las, pois, sem saber história nem geografia, elas detestavam francamente os ingleses, os alemães, os russos, os italianos, a "escória" dos estrangeiros e, com exceções, só gostavam de franceses. Seu rosto de tal modo havia conservado a umidade do barro maleável de seus rios, que, quando se falava num estrangeiro que estava no hotel, Céleste e Marie, para repetir o que ele havia dito, aplicavam sobre os próprios rostos o rosto dele, seus lábios transformavam-se nos lábios dele, seus olhos eram os olhos dele, e a gente gostaria de guardar essas admiráveis máscaras de teatro. A própria Céleste parecendo repetir apenas o que dissera o gerente ou algum de meus amigos, inseria em seu pequeno relato frases fictícias, onde estavam pintados maliciosamente todos os defeitos de Bloch ou do presidente do conselho etc., sem parecer que o fazia. Sob a forma de relatório de uma simples comissão de que se houvesse atenciosamente encarregado, era um retrato inimitável. Elas nunca liam nada, nem mesmo um jornal. No entanto, um dia acharam na minha cama um volume. Eram os poemas admiráveis, menos obscuros, de Saint-Léger Léger. Céleste leu algumas páginas e me disse: 

- Mas o senhor tem certeza de que são mesmo versos, não seriam antes adivinhações? -

     Evidentemente, para uma pessoa que aprendera na infância uma única poesia: Ici bas tous /es /fias meurent ["Aqui todos os Idas morrem"]," havia falta de transição. Creio que sua obstinação em nada aprender provinha um pouco de sua terra malsã. Eram no entanto tão dotadas como um poeta e com mais modéstia do que eles em geral. Pois, se Céleste havia dito algo de notável que eu, não me lembrando bem, pedia que me repetisse, ela garantia tê-lo esquecido.
     Elas nunca lerão livros, mas também nunca os escreverão.
     Françoise ficou grandemente impressionada ao saber que os dois irmãos dessas mulheres tão simples haviam desposado, um, a sobrinha do arcebispo de Tours, o outro, uma parenta do bispo de Rodez. Para o gerente, nada disso teria qualquer significado. Às vezes, Céleste censurava o marido por não compreendê-la, e eu espantava-me que ele pudesse suportá-la. Pois em certos momentos, fremente, furiosa, destruindo tudo, ela era detestável. Pretende-se que o líquido salgado que é o nosso sangue não passa da sobrevivência interna do elemento marinho primitivo. Da mesma maneira, julgo que Céleste, não só em seus furores, mas também em suas horas de depressão, conservava o ritmo dos regatos de sua terra. Quando estava esgotada, era ao jeito deles: estava verdadeiramente seca. Então nada poderia revivificá-la. Depois, subitamente, a circulação retornava a seu alto corpo leve e magnífico. A água corria na transparência opalina de sua pele azulada. Ela sorria ao sol e se fazia mais azul ainda. Nesses momentos, era verdadeiramente celeste.
     Conquanto a família Bloch que jamais houvesse desconfiado do motivo pelo qual o tio nunca almoçava em casa, aceitando isso desde o começo como uma mania de velho celibatário, talvez devido às exigências da ligação com alguma atriz, tudo quanto se referisse ao Sr. Nissim Bernard era tabu para o gerente do hotel de Balbec. E eis a razão por que, sem nem mesmo referi-lo ao tio, ele finalmente não se atrevera a censurar a sobrinha, recomendando-lhe contudo uma certa circunspecção. Ora, a moça e sua amiga, que durante alguns dias tinham se julgado excluídas do cassino e do Grande Hotel, vendo que tudo se ajeitava, ficaram felizes por mostrar aos pais de família, que as mantinham à parte, que podiam se permitir tudo impunemente. É claro que não foram ao ponto de renovar a cena pública que revoltara a todos. Mas pouco a pouco os seus modos reapareceram insensivelmente. E, numa noite em que eu saía do cassino já meio apagado, com Albertine e Bloch, a quem havíamos encontrado, elas passaram abraçadas, sem parar de se beijar, e, ao cruzarem por nós, soltaram cacarejos, risos e gritos indecentes. Bloch baixou os olhos para não parecer ter reconhecido a irmã, e eu me sentia torturado ao pensar que aquela linguagem particular e atroz se dirigia talvez a Albertine.
     Outro incidente ainda mais fixou minhas preocupações sobre o lado de Gomorra. Eu havia visto na praia uma bela jovem esguia e pálida, cujos olhos, ao redor do centro, dispunham raios tão geometricamente luminosos que se pensava, diante de seu olhar, em alguma constelação. Pensava eu o quanto essa moça era mais bonita que Albertine e como não seria mais sábio renunciar à outra. Todavia, o rosto dessa mulher passara pela plaina invisível de uma vida de grande baixeza; da constante aceitação de experiências vulgares; tanto que seus olhos, apesar de mais nobres que o restante da fisionomia, não deviam irradiar senão apetites e desejos. Ora, no dia seguinte, estando essa jovem bem longe de nós no cassino, vi que ela não cessava de pousar em Albertine os fogos alternados e giratórios de seus olhares. Dir-se-ia que lhe fazia sinais como com a ajuda de um farol. Torturava-me que minha amiga visse que lhe prestavam tamanha atenção; temia que esses olhares incessantemente iluminados tivessem o sentido convencional de um encontro de amor para o dia seguinte. Quem sabe? Esse encontro talvez não fosse o primeiro. A jovem de olhos radiosos poderia ter vindo num outro ano a Balbec. Talvez porque Albertine já tivesse cedido à seus desejos, ou aos de uma amiga, é que ela se permitia endereçar lhe aqueles sinais brilhantes. Faziam então mais do que reclamar alguma coisa para o presente; autorizavam-se para isso com os bons momentos do passado. Nesse caso, tal encontro não devia ser o primeiro, mas a consequência de passeios dados juntos em outros anos. E de fato, os olhares não diziam: "Queres?"
     Logo que a jovem avistara Albertine, voltara a cabeça inteiramente para ela e fizera luzir em sua direção olhares repletos de memória, como se receasse e sentisse espanto de que minha amiga não lembrasse. Albertine, que a via muito bem, permaneceu imóvel, com fleuma, de modo que a outra, com o mesmo grau de discrição de um homem que, vendo a antiga amante com um amante novo, deixou de olhá-la, não mais se ocupando de sua pessoa como se ela não existisse.
     Mas, alguns dias depois, tive a prova dos gostos dessa jovem; também, da probabilidade de que ela tivesse conhecido Albertine antigamente. Muitas vezes, quando na sala do cassino duas moças se desejavam produzia-se como que um fenômeno luminoso, uma espécie de corredor fosforescente que ia de uma para outra. Digamos, de passagem, que é com o auxílio de tais materializações, mesmo que imponderáveis, por esses signos astrais que inflamam toda uma parte da atmosfera, que Gomorra, dispersa, tende, em cada cidade, em cada aldeia, a reunir seus membros separados, para reconstituir a cidade bíblica, ao passo que em toda parte prosseguem idênticos esforços, ainda que em vista de uma construção intermitente, por meio dos nostálgicos, hipócritas e, às vezes, corajosos exilados de Sodoma.
     Uma vez vi a desconhecida que Albertine parecia não reconhecer, justo num momento em que passava a prima de Bloch. Os olhos da jovem resplandeceram, mas via-se bem que ela não conhecia a moça israelita. Via-a pela primeira vez, sentia um desejo, e nada de dúvidas, de modo algum a mesma certeza que experimentara quanto a Albertine. Albertine com cuja camaradagem de tal modo deveria ter contado que, diante de sua frieza, sentira a surpresa de um estrangeiro habituado a Paris, mas que nela não mora e que, tendo regressado para ali passar algumas semanas, em vez do teatrinho onde se acostumara a passar boas noitadas, vê que construíram um banco.
     A prima de Bloch foi sentar-se a uma mesa, onde se pôs a folhear uma revista. Em breve a jovem foi sentar-se ao lado dela, com ar distraído. Mas, debaixo da mesa, poderia ver-se, dali a pouco, tocarem-se os seus pés, depois suas pernas e suas mãos, que estavam entrelaçadas. As palavras seguiram-se, travou-se a conversação, e o ingênuo marido da jovem senhora, que a procurava por todo lado, espantou-se de vê-la fazendo projetos para a mesma noite com uma moça que ele não conhecia. Sua mulher lhe apresentou como amiga de infância a prima de Bloch, sob um nome inteligível, pois havia esquecido de lhe perguntar como se chamava. Mas a presença do marido fez avançar um passo mais a intimidade delas, pois passaram a tratar-se por tu, visto que se haviam conhecido no internato de freiras, incidente do qual deram boas risadas mais tarde, bem como do marido enganado, com uma alegria que deu oportunidade a novas carícias.
     Quanto a Albertine, não posso afirmar que em parte alguma, no cassino ou na praia, ela tivesse maneiras tão livres com uma moça. Achava-lhe até um excesso de frieza e de insignificância, que parecia, mais que da boa educação, um ardil destinado a eliminar as suspeitas. A determinada moça, ela possuía um modo rápido, frio e decente de responder em voz bem alta: 

- Sim, eu irei ao tênis mais ou menos às cinco. Vou tomar banho amanhã de manhã cerca das oito horas -, e de deixar imediatamente a pessoa a quem acabara de dizer isto, a qual parecia terrivelmente querer dizer outra coisa, marcar um encontro, ou melhor, depois de o ter combinado em voz baixa, dizer alto aquela frase, na verdade insignificante, para "não se fazer notar". E, quando, em seguida, eu a via pegar a bicicleta e sair na disparada, não podia evitar de pensar que ela ia encontrar-se com aquela a quem mal falara.

     De qualquer modo, quando alguma jovem senhora muito formosa, descia do automóvel na praia, Albertine não podia deixar de virar-se. E explicava logo: 

- Eu estava olhando a bandeira nova que puseram na porta de banho. Poderiam ter gastado mais. A outra já era bem vagabunda. - de fato esta é ainda pior.

     Uma vez Albertine não se limitou à frieza e só contribuiu para me deixar mais infeliz. Sabia que eu ficava aborrecido com a probabilidade dela encontrar-se às vezes com uma amiga de sua tia, que era "de maus costumes" e, de vez em quando, vinha passar dois ou três dias em casa da Sra. Bontemps. Gentilmente, Albertine me dissera que não mais a cumprimentaria. E, quando essa mulher ia a Incarville, Albertine dizia: 

- A propósito, sabe que ela está aqui? Já não lhe disseram? como para me mostrar que ela não a via às escondidas.

     Num dia em que me dizia isso, acrescentou: 

- Sim, encontrei-a na praia e, de propósito, por grosseria, quem lhe dei um encontrão ao passar por ela. Deixei-a desarrumada.

     Quando Albertine disse isso, voltou-me à memória uma frase da Sra. Bontemps,: - qual jamais pensara de novo, aquela em que havia dito, diante de mim a Sra. Swann, o quanto a sua sobrinha Albertine era atrevida, como se tratasse de uma qualidade, e como Albertine dissera a não sei mais qual mulher de funcionário que o pai desta fora um ajudante de cozinha. Mas uma palavra da mulher a quem amamos não se conserva por muito tempo em sua pureza; ela se corrompe, deteriora-se. Uma ou duas noites depois, voltei a pensar na frase de Albertine e já não foi a má educação de quem se orgulhava e que só podia causar um sorriso o que essa frase me pareceu significar mais outra coisa, e que Albertine, talvez mesmo sem uma finalidade precisa, para irritar os sentidos daquela dama ou lembrar-lhe maldosamente antigas propostas, talvez aceitas outrora, roçara rapidamente por ela e, pensando que eu talvez o tivesse sabido porque fora em público, quisera desse modo evitar previamente uma interpretação desfavorável. Aliás, os ciúmes que me causavam as mulheres que talvez andassem com Albertine iam cessar de repente.
     Estávamos, Albertine e eu, diante da estação do trenzinho locar Balbec. Tínhamos tomado o ônibus do hotel por causa do mau tempo. Longe de nós encontrava-se o Sr. Nissim Bernard, que estava com um machucado. Fazia algum tempo que vinha enganando o menino do Athalie com o rapaz de uma granja muito frequentada das vizinhanças de Cerejeiras. Esse rapaz rubro, de feições rudes, era exatamente como tivesse um tomate no lugar da cabeça. Um tomate exatamente igual servia de cabeça a seu irmão gêmeo. Para o contemplador desinteressado, há muito de belo nessas semelhanças perfeitas de dois gêmeos, que a natureza, como se se houvesse momentaneamente industrializado, parece produzir em série. Infelizmente, o ponto de vista do Sr. Nissim Bernard era diferente, e essa parecença era exterior apenas. O tomate não se comprazia freneticamente em fazer com exclusividade as delícias das damas, e o tomate não detestava condescender aos gostos de certos senhores. Ora, cada vez que, sacudido, assim como que por um reflexo, pela lembrança das boas horas passadas com o tomate número um, o Sr. Bernard se apresentava em Às Cerejeiras, míope como era (e, aliás, a miopia não era necessária para confundi-los), o velho israelita, representando o Anfitrião sem o saber, dirigia-se ao irmão gêmeo, dizendo: 

 - Queres marcar um encontro para esta noite? - recebia logo uma surra vigorosa. Chegou até a renovar-se no decurso de uma mesma refeição, em que ele continuava com o outro as frases começadas com o primeiro. Por fim, aquilo acabou por aborrecê-lo de tal modo que, por associação de ideias, se enjoou dos tomates, mesmo dos comestíveis, e, se ouvia a seu lado, no Grande Hotel, um viajante encomendá-los, sussurrava-lhe: 
- Desculpe-me, senhor, por dirigir-me a sua pessoa sem conhecê-lo. Porém ouvi que encomendou tomates. Eles estão podres hoje. Digo-lhe isto no seu interesse, pois por mim tanto faz, nunca os como.

     O estrangeiro agradecia com efusão àquele vizinho filantropo e desinteressado, chamava o garçom, fingia mudar de ideia: 

- Não, decididamente nada de tomates. -

     Aimé, que conhecia a cena, ria-se por dentro e pensava: "É um velho astuto esse Sr. Bernard; ainda achou um meio de mudar o prato."
     O Sr. Bernard, à espera do trem atrasado, não fazia questão nenhuma de cumprimentar a Albertine e a mim, por causa do olho machucado. E nós muito menos ainda de lhe falar. Todavia isso teria sido quase inevitável se, naquele momento, uma bicicleta não arremetesse contra nós a toda velocidade; dela saltou o ascensorista, sem fôlego. A Sra. Verdurin havia telefonado pouco depois da nossa partida para que eu fosse jantar em sua casa, dali a dois dias; logo veremos o porquê. Depois de me dar os detalhes do telefonema, o ascensorista nos deixou e, como esses "empregados" democratas que afetam ser independentes em relação aos burgueses, e entre eles restabelecem o princípio de autoridade, querendo dizer que o porteiro e o cocheiro poderiam ficar descontentes se ele se atrasasse, acrescentou:

- Já vou indo por causa dos chefes.

     As amigas de Albertine estavam fora por algum tempo. Eu desejava distraí-la. Supondo que ela ficaria feliz em passar as tardes só comigo em Balbec, sabia eu contudo que a felicidade nunca se deixa possuir inteiramente, e que Albertine, ainda na idade (que certas pessoas jamais ultrapassam) em que não se descobriu que essa imperfeição decorre de quem experimenta a felicidade e não de quem a proporciona, talvez fosse tentada a atribuir a mim a causa da sua decepção. Preferia que ela a imputasse às circunstâncias que, por mim combinadas, não nos dariam a oportunidade de estarmos a sós, impedindo-a de ficar sem mim no cassino e no molhe! Assim, pedira-lhe naquele dia que me acompanhasse à Doncieres, aonde iria visitar Saint-Loup. Com o mesmo objetivo de deixá-la ocupada, aconselhava-lhe a pintura, que ela havia aprendido outrora. Trabalhando, ela não se indagaria se era feliz ou infeliz. De bom grado a levaria igualmente, dê vez em quando, para jantar na casa dos Verdurin e dos Cambremer, os quais certamente receberiam de boa vontade uma amiga apresentada por mim; mas primeiro era necessário que tivesse a certeza de que a Sra. Putbus ainda não chegara a La Raspeliere. Só no próprio local é que poderia certificar-me; e, como sabia por antecipação que dois dias depois Albertine seria obrigada a ir aos arredores com sua tia, aproveitara a ocasião para enviar um despacho à Sra. Verdurin, perguntando se poderia me receber na quarta-feira. Se a Sra. Putbus se achasse presente, eu daria um jeito para ver a sua camareira, assegurar-me se não seria arriscado que ela fosse a Balbec e, nesse caso, saber quando, para levar Albertine bem longe dali nesse dia. O trenzinho local, dando uma volta inexistente quando eu e minha avó o havíamos tomado, passava agora por Doncieres-la-Goupil, grande estação de onde partiam os trens importantes e principalmente o expresso em que eu tinha vindo de Paris para visitar Saint-Loup, e no qual voltara. E, devido ao mau tempo, o ônibus do Grande Hotel nos conduziu, a mim e a Albertine, à estação do bondinho, Balbec-Plage. 
     O trenzinho ainda não havia chegado, porém via-se, ocioso e lento, o penacho de fumo que ele deixara no caminho e que agora, reduzido a seus escassos meios de nuvem pouco móvel, subia devagar as verdes vertentes da falésia de Criquetot. Por fim o trenzinho, a que o fumo havia precedido para assumir a direção vertical, chegou por sua vez, lentamente. Os viajantes que iam tomá-lo afastaram-se para lhe dar lugar; mas sem apressar-se, sabendo que lidavam com um andarilho complacente, quase humano, e que, guiado como a bicicleta de um novato pelos sinais condescendentes do chefe da estação, sob a tutela poderosa do mecânico, não se arriscava a atropelar ninguém e pararia onde quisessem. 
     Meu despacho explicava o telefonema dos Verdurin e chegava tanto mais a propósito, pois a quarta-feira (dentro de dois dias) era dia de jantar de gala, tanto em La Raspeliere como em Paris, o que eu ignorava. A Sra. Verdurin não dava "jantares", mas tinha "quartas-feiras". As quartas-feiras eram obras de arte. Sabendo que não tinham rival em parte alguma, a Sra. Verdurin introduzia matizes entre elas. 

- Esta última quarta-feira não valia a anterior - dizia. - Mas creio que a próxima será uma das mais bem-sucedidas que já dei. -  

     Chegava por vezes a confessar: 

- Esta quarta não estava à altura das outras. Em compensação, reservo-lhes uma grande surpresa para a próxima. -

     Nas últimas semanas da temporada de Paris, antes de partir para o campo, a Patroa anunciava o fim das quartas-feiras. Era uma ocasião para estimular os fiéis: 

- Há somente três quartas, só faltam duas - dizia, com o mesmo tom de que se o mundo estivesse por acabar. - Não vá perder a quarta-feira próxima de encerramento. -

     Mas esse encerramento era fictício, pois ela avisava: 

- Agora, oficialmente não há mais quartas-feiras. Foi a última quarta deste ano. Mas em todo caso estarei aqui na quarta. Daremos uma quarta-feira íntima; quem sabe? Essas pequenas quartas íntimas talvez sejam as mais agradáveis. -

     Na Raspeliere, as quartas eram forçosamente restritas, e como, segundo se houvesse encontrado um amigo de passagem, fora este convidado para tal ou qual dia, quase todos os dias eram quarta-feira. 

- Não me recordo bem do nome dos convidados, mas sei que lá está a Sra. Marquesa de Camembert - dissera-me o ascensorista.

     A lembrança de nossas explicações relativas aos Cambremer não chegara a suplantar definitivamente a da palavra antiga, cujas sílabas familiares e plenas de sentido vinham em socorro do jovem empregado quando ele se mostrava embaraçado com esse nome difícil, e eram imediatamente preferidas e readotadas por ele, não por preguiça e como um velho hábito inextirpável, mas por causa da necessidade de lógica e de clareza que elas satisfaziam.

continua na página 118...
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Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Aliás, ela era pródiga em comparações zoológicas)
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