segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (III.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

III
 

     Haviam transcorrido quinze dias; e na segunda-feira da terceira semana, as folhas de ponto enviadas à direção acusavam uma nova queda no número de operários que se apresentavam ao trabalho. Naquela manhã contava-se com o reinicio das atividades, mas a obstinação da administração em não ceder estava exasperando os mineiros. Já não eram só a Voreux, Crèvecoeur, Mirou e Madeleine que estavam paradas; na Victoire e na Feutry-Cantel, descia agora para o trabalho apenas um quarto dos seus homens; e a própria Saint-Thomas fora atingida. Pouco a pouco a greve alastrava-se, tornando-se geral.
     No pátio da Voreux reinava profundo silêncio. Era uma fábrica morta, com o vazio e o abandono das vastas oficinas onde o trabalho cessara. Sob o céu cinzento de dezembro, ao longo dos altos passadiços, três ou quatro vagonetes esquecidos tinham a muda tristeza das coisas abandonadas. Embaixo, entre as armações dos cavaletes, o estoque de carvão esgotava-se, deixando a terra nua e negra; a provisão de madeira apodrecia sob os aguaceiros. No embarcadouro do canal, estacionava uma chata com seu carregamento incompleto, que parecia estar dormindo na água turva. No aterro deserto, cujas emanações sulfúricas fumegavam apesar da chuva, uma carroça erguia melancolicamente seus varais para o ar. Mas os edifícios, sobretudo, tinham sido atingidos por aquele torpor. A triagem com suas persianas fechadas, a torre do sino de rebate, para onde não mais subiam os ruídos da recepção, a casa das máquinas completamente fria e a gigantesca chaminé, soltando agora uma fumaça rala. A máquina extratora só era aquecida de manhã. Os cavalariços desciam a ração dos cavalos, os contramestres eram os únicos que trabalhavam, voltando a ser operários, remediando os desabamentos que costumam ocorrer nas galerias quando não há conservação. Depois, a partir das nove horas, o resto do serviço era feito pelas escadas. E, por cima dessa agonia dos edifícios amortalhados no seu sudário de poeira negra, não havia mais que o escapamento da bomba com seu bafo grosso e longo, o resto de vida da mina, que teria sido destruída pelas águas se aquela respiração parasse.
     Defronte, no planalto, o conjunto habitacional dos Deux-Cent Quarante também parecia morto. O prefeito de Lille acorrera, policiais tinham batido os caminhos, mas, diante da calma dos grevistas, prefeito e policiais decidiram voltar às suas bases. Nunca o conjunto habitacional dera tão belo exemplo a toda a planície. Os homens, para evitarem a taberna, dormiam o dia inteiro; as mulheres, racionando o café, andavam mais calmas, menos sequiosas de mexericos e disputas; até a garotada parecia estar imbuída dos mesmos propósitos razoáveis, pois corria descalça e brigava em surdina. Era a palavra de ordem, repetida, circulando de boca em boca: calma acima de tudo.
     Mas, apesar disso, a casa dos Maheu era palco de um contínuo vaivém. Etienne, desempenhando as funções de secretário, repartira ali os três mil francos da caixa de previdência entre as famílias necessitadas; em seguida, tinham chegado de diversas partes algumas centenas de francos, produto de subscrição e donativos. Atualmente, porém, todos os recursos se esgotavam, os mineiros não tinham mais dinheiro para levar adiante a greve e a fome já rondava, ameaçadora. Maigrat, após ter prometido crédito por uma quinzena, ao cabo de oito dias mudara bruscamente de atitude, cortando os víveres. De costume ele recebia ordens da companhia; talvez esta desejasse acabar depressa com o movimento esfomeando os conjuntos habitacionais mineiras. Mas a verdade é que ele gostava de agir como um tirano caprichoso, dando ou recusando pão, conforme a aparência da moça que era mandada às compras pelos pais. Cheio de rancor, querendo puni-la por não ter conseguido Catherine, era na cara da mulher de Maheu que ele fechava mais acintosamente sua porta. Para cúmulo da miséria, o frio acentuava-se, as mulheres viam diminuir as provisões de carvão com a inquieta certeza de que elas não seriam renovadas pela companhia enquanto os homens não voltassem ao fundo da mina. Não bastando a fome, havia ainda o frio para castigá-los.
     Na casa dos Maheu já faltava de tudo. Os Levaque ainda comiam com uma moeda de vinte francos que Bouteloup lhes emprestara. Os Pierron, esses tinham sempre dinheiro, mas, para parecerem tão famintos como os demais, temendo os pedidos de empréstimos, compravam fiado no Maigrat, que era capaz de entregar seu armazém à mulher de Pierron se esta levantasse a saia. A partir de sábado muitas famílias deitaram sem jantar. E, diante dos dias terríveis que se anunciavam, nem uma queixa era ouvida, todos obedecendo à palavra de ordem com uma tranquila coragem. Havia, apesar de tudo, uma confiança absoluta, uma fé religiosa, a cega faculdade de suportar de uma população de crentes. Tinham-lhes prometido a era da justiça, eles estavam prontos a sofrer pela conquista da felicidade universal. A fome exaltava as cabeças; nunca antes uma porta a tal ponto estreita abrira-se para horizonte tão largo a esses alucinados da miséria. Viam ao longe, com olhos embaralhados pela fraqueza, a cidade ideal dos seus sonhos quase alcançada e como que real, com seu povo de irmãos, sua época de ouro de trabalho e refeições em comum. Nada abalava a convicção que eles tinham de nela entrar finalmente.
     A caixa se esgotara, a companhia não ia ceder, a situação agravava se com o correr dos dias, mas eles continuavam a ter esperança, sorrindo com desprezo para os fatos. Se a terra se abrisse sob seus pés, um milagre os salvaria. Esta fé substituía o pão e aquecia a barriga. Depois de ingerirem suas sopas ralas, os Maheu e os outros entregavam-se a uma semivertigem, ao êxtase de uma vida melhor que lançava os mártires às feras.
     Daí por diante, Etienne foi o chefe incontestado. Nas conversas da noite falava como um oráculo, à medida que o estudo lhe dava firmeza, fazendo-os discorrer sobre qualquer assunto. Passava as noites lendo; recebia grande número de cartas; chegara mesmo a fazer uma assinatura do Vingador, folha socialista da Bélgica, aliás o primeiro jornal a entrar no conjunto habitacional, o que fez crescer mais ainda sua estatura entre os camaradas. A popularidade de que gozava superexcitava-o. Manter uma correspondência variada, discutir sobre o destino dos trabalhadores com os quatro cantos das províncias dar conselhos aos mineiros da Voreux, sobretudo tornar-se um polo sentir o mundo girar em torno de si, resultava num constante aumento de vaidade, ele, antigo mecânico, atual operador de vagonetes, de mãos sujas e negras. Tinha subido um degrau, penetrava nessa execrada burguesia, com a satisfação da inteligência e do bem-estar que a si mesmo não confessava. Apenas uma coisa o incomodava: a consciência da sua falta de instrução, que o tornava embaraçado e tímido desde o momento em que se encontrava diante de um senhor de sobrecasaca. Se continuava a instruir-se, devorando tudo, a falta de método tornava a assimilação muito lenta, produzindo tal confusão que acabava por saber coisas que não tinha compreendido. Como resultado, em certos momentos de exame de consciência, sentia-se inquieto a respeito de sua missão, tinha medo de não ser o homem esperado. Talvez fosse preciso um advogado, alguém com muitas luzes, capaz de falar e agir sem comprometer os companheiros? Mas uma espécie de revolta fazia que vencesse uma outra vez as dúvidas. Não, não, nada de advogados! São todos uns canalhas que se aproveitam de sua sabedoria para chupar o sangue do povo! Acabando bem ou mal, os operários deviam decidir seus problemas entre eles... E o seu sonho de líder popular voltava a embalá-lo: Montsou a seus pés, Paris ao longe, envolta em bruma, e, quem sabe? a deputação um dia, a tribuna de uma luxuosa assembleia onde se via fulminando os burgueses com o primeiro discurso pronunciado por um operário num parlamento.
     Havia alguns dias que Etienne andava perplexo. Pluchart escrevia carta sobre carta, oferecendo-se para ir a Montsou reativar o ânimo dos grevistas. Tratava-se de organizar uma reunião privada, presidida pelo mecânico. Por trás desse projeto havia a ideia de explorar a greve, de levar para a Internacional os mineiros, até ali desconfiados. Etienne temia barulho, mas teria deixado vir Pluchart, se Rasseneur não se tivesse oposto violentamente a essa intervenção.
     Apesar do seu poder, o rapaz tinha que contar com o taberneiro, cuja influência era mais antiga e que possuía fiéis seguidores entre seus clientes. Por isso hesitava ainda, sem saber o que responder.
     Na segunda-feira, por volta das quatro horas, chegou outra carta de Lille, quando Etienne estava sozinho com a mulher de Maheu na sala do térreo. O dono da casa, enervado pela ociosidade, fora pescar; se tivesse a sorte de fisgar um peixe grande, além da comporta do canal, vendê-lo-ia para comprar pão. O velho Boa-Morte e Jeanlin acabavam de sair, para esticar as pernas curadas, enquanto as crianças tinham saído com Alzire, que passava horas no aterro juntando lascas de carvão. Sentada ao lado do fogo quase morto, que não mais ousavam reavivar, a mulher, com o vestido aberto e um seio de fora caindo até a barriga, dava de mamar a Estelle.
     Quando o rapaz dobrou a carta, ela perguntou: 

— Boas notícias? Vão mandar dinheiro? Ele fez um gesto negativo e ela continuou: 
— Não sei como vamos fazer esta semana... Mas havemos de arranjar-nos. Quando a gente tem o direito do seu lado, pode resistir e acabar vencendo, não é?

     Agora era partidária da greve. Teria sido melhor forçar a companhia a ser justa, mas, já que tinham abandonado o trabalho, não deviam voltar a ele sem a vitória. A esse respeito mostrava-se de uma energia virulenta. Antes morrer do que dar o braço a torcer, estando com a razão! 

— Ah! — exclamou Etienne — se irrompesse uma boa epidemia de cólera que nos livrasse de todos esses exploradores da companhia! 
— Não, isso não — respondeu ela. — Não se deve desejar a morte de ninguém. Não nos adiantaria de nada, outros tomariam os seus lugares. Eu só peço que os atuais se tornem mais sensatos, conto mesmo com isso, porque em toda parte há gente boa... Você sabe que não estou em absoluto de acordo com a sua política.

     Ela, realmente, costumava censurar-lhe o verbo fogoso, achava-o muito brigão. Que exigissem a paga justa pelo trabalho, estava certo; mas para que ocupar-se de outras coisas, dos burgueses, do governo?... Para que meter-se nos assuntos dos outros para depois levar uma bordoada na cabeça? Apesar dessas divergências, continuava a estimá-lo, porque não bebia e pagava com toda a regularidade os quarenta e cinco francos pela pensão. Quando um homem se conduzia direito, podia-se esquecer o resto.

ontinua na página 193...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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