Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Quarta Parte
III
Haviam transcorrido quinze dias; e na segunda-feira da terceira
semana, as folhas de ponto enviadas à direção acusavam uma nova queda
no número de operários que se apresentavam ao trabalho. Naquela manhã
contava-se com o reinicio das atividades, mas a obstinação da
administração em não ceder estava exasperando os mineiros. Já não eram só
a Voreux, Crèvecoeur, Mirou e Madeleine que estavam paradas; na Victoire
e na Feutry-Cantel, descia agora para o trabalho apenas um quarto dos seus
homens; e a própria Saint-Thomas fora atingida. Pouco a pouco a greve
alastrava-se, tornando-se geral.
No pátio da Voreux reinava profundo silêncio. Era uma fábrica
morta, com o vazio e o abandono das vastas oficinas onde o trabalho
cessara. Sob o céu cinzento de dezembro, ao longo dos altos passadiços,
três ou quatro vagonetes esquecidos tinham a muda tristeza das coisas
abandonadas. Embaixo, entre as armações dos cavaletes, o estoque de
carvão esgotava-se, deixando a terra nua e negra; a provisão de madeira
apodrecia sob os aguaceiros. No embarcadouro do canal, estacionava uma
chata com seu carregamento incompleto, que parecia estar dormindo na
água turva. No aterro deserto, cujas emanações sulfúricas fumegavam
apesar da chuva, uma carroça erguia melancolicamente seus varais para o
ar. Mas os edifícios, sobretudo, tinham sido atingidos por aquele torpor. A
triagem com suas persianas fechadas, a torre do sino de rebate, para onde
não mais subiam os ruídos da recepção, a casa das máquinas
completamente fria e a gigantesca chaminé, soltando agora uma fumaça
rala. A máquina extratora só era aquecida de manhã. Os cavalariços
desciam a ração dos cavalos, os contramestres eram os únicos que
trabalhavam, voltando a ser operários, remediando os desabamentos que
costumam ocorrer nas galerias quando não há conservação. Depois, a partir
das nove horas, o resto do serviço era feito pelas escadas. E, por cima dessa
agonia dos edifícios amortalhados no seu sudário de poeira negra, não havia
mais que o escapamento da bomba com seu bafo grosso e longo, o resto de
vida da mina, que teria sido destruída pelas águas se aquela respiração
parasse.
Defronte, no planalto, o conjunto habitacional dos Deux-Cent
Quarante também parecia morto. O prefeito de Lille acorrera, policiais
tinham batido os caminhos, mas, diante da calma dos grevistas, prefeito e
policiais decidiram voltar às suas bases. Nunca o conjunto habitacional dera
tão belo exemplo a toda a planície. Os homens, para evitarem a taberna,
dormiam o dia inteiro; as mulheres, racionando o café, andavam mais
calmas, menos sequiosas de mexericos e disputas; até a garotada parecia
estar imbuída dos mesmos propósitos razoáveis, pois corria descalça e
brigava em surdina. Era a palavra de ordem, repetida, circulando de boca
em boca: calma acima de tudo.
Mas, apesar disso, a casa dos Maheu era palco de um contínuo
vaivém. Etienne, desempenhando as funções de secretário, repartira ali os
três mil francos da caixa de previdência entre as famílias necessitadas; em
seguida, tinham chegado de diversas partes algumas centenas de francos,
produto de subscrição e donativos. Atualmente, porém, todos os recursos se
esgotavam, os mineiros não tinham mais dinheiro para levar adiante a greve
e a fome já rondava, ameaçadora. Maigrat, após ter prometido crédito por
uma quinzena, ao cabo de oito dias mudara bruscamente de atitude,
cortando os víveres. De costume ele recebia ordens da companhia; talvez
esta desejasse acabar depressa com o movimento esfomeando os conjuntos
habitacionais mineiras. Mas a verdade é que ele gostava de agir como um
tirano caprichoso, dando ou recusando pão, conforme a aparência da moça
que era mandada às compras pelos pais. Cheio de rancor, querendo puni-la
por não ter conseguido Catherine, era na cara da mulher de Maheu que ele
fechava mais acintosamente sua porta. Para cúmulo da miséria, o frio
acentuava-se, as mulheres viam diminuir as provisões de carvão com a
inquieta certeza de que elas não seriam renovadas pela companhia enquanto
os homens não voltassem ao fundo da mina. Não bastando a fome, havia
ainda o frio para castigá-los.
Na casa dos Maheu já faltava de tudo. Os Levaque ainda comiam
com uma moeda de vinte francos que Bouteloup lhes emprestara. Os
Pierron, esses tinham sempre dinheiro, mas, para parecerem tão famintos
como os demais, temendo os pedidos de empréstimos, compravam fiado no
Maigrat, que era capaz de entregar seu armazém à mulher de Pierron se esta
levantasse a saia. A partir de sábado muitas famílias deitaram sem jantar. E,
diante dos dias terríveis que se anunciavam, nem uma queixa era ouvida,
todos obedecendo à palavra de ordem com uma tranquila coragem. Havia,
apesar de tudo, uma confiança absoluta, uma fé religiosa, a cega faculdade
de suportar de uma população de crentes. Tinham-lhes prometido a era da
justiça, eles estavam prontos a sofrer pela conquista da felicidade universal.
A fome exaltava as cabeças; nunca antes uma porta a tal ponto estreita
abrira-se para horizonte tão largo a esses alucinados da miséria. Viam ao
longe, com olhos embaralhados pela fraqueza, a cidade ideal dos seus
sonhos quase alcançada e como que real, com seu povo de irmãos, sua
época de ouro de trabalho e refeições em comum. Nada abalava a convicção
que eles tinham de nela entrar finalmente.
A caixa se esgotara, a companhia não ia ceder, a situação agravava
se com o correr dos dias, mas eles continuavam a ter esperança, sorrindo
com desprezo para os fatos. Se a terra se abrisse sob seus pés, um milagre
os salvaria. Esta fé substituía o pão e aquecia a barriga. Depois de ingerirem
suas sopas ralas, os Maheu e os outros entregavam-se a uma semivertigem,
ao êxtase de uma vida melhor que lançava os mártires às feras.
Daí por diante, Etienne foi o chefe incontestado. Nas conversas da
noite falava como um oráculo, à medida que o estudo lhe dava firmeza,
fazendo-os discorrer sobre qualquer assunto. Passava as noites lendo;
recebia grande número de cartas; chegara mesmo a fazer uma assinatura do
Vingador, folha socialista da Bélgica, aliás o primeiro jornal a entrar no
conjunto habitacional, o que fez crescer mais ainda sua estatura entre os
camaradas. A popularidade de que gozava superexcitava-o. Manter uma
correspondência variada, discutir sobre o destino dos trabalhadores com os
quatro cantos das províncias dar conselhos aos mineiros da Voreux,
sobretudo tornar-se um polo sentir o mundo girar em torno de si, resultava
num constante aumento de vaidade, ele, antigo mecânico, atual operador de
vagonetes, de mãos sujas e negras. Tinha subido um degrau, penetrava
nessa execrada burguesia, com a satisfação da inteligência e do bem-estar
que a si mesmo não confessava. Apenas uma coisa o incomodava: a
consciência da sua falta de instrução, que o tornava embaraçado e tímido
desde o momento em que se encontrava diante de um senhor de
sobrecasaca. Se continuava a instruir-se, devorando tudo, a falta de método
tornava a assimilação muito lenta, produzindo tal confusão que acabava por
saber coisas que não tinha compreendido. Como resultado, em certos
momentos de exame de consciência, sentia-se inquieto a respeito de sua
missão, tinha medo de não ser o homem esperado. Talvez fosse preciso um
advogado, alguém com muitas luzes, capaz de falar e agir sem comprometer
os companheiros? Mas uma espécie de revolta fazia que vencesse uma outra
vez as dúvidas. Não, não, nada de advogados! São todos uns canalhas que
se aproveitam de sua sabedoria para chupar o sangue do povo! Acabando
bem ou mal, os operários deviam decidir seus problemas entre eles... E o
seu sonho de líder popular voltava a embalá-lo: Montsou a seus pés, Paris
ao longe, envolta em bruma, e, quem sabe? a deputação um dia, a tribuna de
uma luxuosa assembleia onde se via fulminando os burgueses com o
primeiro discurso pronunciado por um operário num parlamento.
Havia alguns dias que Etienne andava perplexo. Pluchart escrevia
carta sobre carta, oferecendo-se para ir a Montsou reativar o ânimo dos
grevistas. Tratava-se de organizar uma reunião privada, presidida pelo
mecânico. Por trás desse projeto havia a ideia de explorar a greve, de levar
para a Internacional os mineiros, até ali desconfiados. Etienne temia
barulho, mas teria deixado vir Pluchart, se Rasseneur não se tivesse oposto
violentamente a essa intervenção.
Apesar do seu poder, o rapaz tinha que contar com o taberneiro,
cuja influência era mais antiga e que possuía fiéis seguidores entre seus
clientes. Por isso hesitava ainda, sem saber o que responder.
Na segunda-feira, por volta das quatro horas, chegou outra carta de
Lille, quando Etienne estava sozinho com a mulher de Maheu na sala do
térreo. O dono da casa, enervado pela ociosidade, fora pescar; se tivesse a
sorte de fisgar um peixe grande, além da comporta do canal, vendê-lo-ia
para comprar pão. O velho Boa-Morte e Jeanlin acabavam de sair, para
esticar as pernas curadas, enquanto as crianças tinham saído com Alzire,
que passava horas no aterro juntando lascas de carvão. Sentada ao lado do
fogo quase morto, que não mais ousavam reavivar, a mulher, com o vestido
aberto e um seio de fora caindo até a barriga, dava de mamar a Estelle.
Quando o rapaz dobrou a carta, ela perguntou:
— Boas notícias? Vão mandar dinheiro? Ele fez um gesto negativo
e ela continuou:
— Não sei como vamos fazer esta semana... Mas havemos de
arranjar-nos. Quando a gente tem o direito do seu lado, pode resistir e
acabar vencendo, não é?
Agora era partidária da greve. Teria sido melhor forçar a companhia
a ser justa, mas, já que tinham abandonado o trabalho, não deviam voltar a
ele sem a vitória. A esse respeito mostrava-se de uma energia virulenta.
Antes morrer do que dar o braço a torcer, estando com a razão!
— Ah! — exclamou Etienne — se irrompesse uma boa epidemia de
cólera que nos livrasse de todos esses exploradores da companhia!
— Não, isso não — respondeu ela. — Não se deve desejar a morte
de ninguém. Não nos adiantaria de nada, outros tomariam os seus lugares.
Eu só peço que os atuais se tornem mais sensatos, conto mesmo com isso,
porque em toda parte há gente boa... Você sabe que não estou em absoluto
de acordo com a sua política.
Ela, realmente, costumava censurar-lhe o verbo fogoso, achava-o
muito brigão. Que exigissem a paga justa pelo trabalho, estava certo; mas
para que ocupar-se de outras coisas, dos burgueses, do governo?... Para que
meter-se nos assuntos dos outros para depois levar uma bordoada na
cabeça? Apesar dessas divergências, continuava a estimá-lo, porque não
bebia e pagava com toda a regularidade os quarenta e cinco francos pela
pensão. Quando um homem se conduzia direito, podia-se esquecer o resto.
ontinua na página 193...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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