volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Segundo
Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.
continuando...
Apressamo-nos a procurar um vagão vazio, onde eu pudesse beijar Albertine durante todo
o trajeto. Não o tendo encontrado, subimos para um compartimento onde já se achava instalada
uma dama de cara imensa, velha e feia, de expressão masculina, muito endomingada, e que lia a
Revue des Deux Mondes. Malgrado sua vulgaridade, era pretensiosa em seus gestos, e eu me
diverti em indagar a mim mesmo a que categoria social ela podia pertencer; concluí de imediato
que devia se tratar de alguma gerente de uma grande casa de tolerância, uma alcoviteira em
viagem. Suas maneiras e seu rosto o proclamavam. Apenas, eu ignorava até então que tais
senhoras lessem La Revue des Deux Mondes. Albertine mostrou-me, sorrindo, não sem piscar o
olho. A dama tinha um aspecto muito digno; e, como de minha parte eu trazia em mim a
consciência de que estava convidado para dali a dois dias, no ponto final da linha da pequena
estrada de ferro. Para ir à casa da célebre Sra. Verdurin, de que era esperado numa estação
intermediária por Robert de Saint-Loup e que, um pouco mais adiante, daria um grande prazer à
Sra. de Cambremer, indo parar em Féterne, meus olhos cintilaram de ironia ao considerar essa
dama importante que parecia crer que, devido a seu vestido rebuscado, às plumas do seu chapéu
e a sua Revue des Deux Mondes, era um personagem mais considerável do que eu. Esperava
que essa dama não permanecesse por muito mais tempo que o Sr. Nissim Bernard e que
descesse pelo menos em Toutainville; mas não. O trem parou em Épreville, ela ficou sentada. O
mesmo ocorreu em Montmartin-sur-Mer, em Parville-la-Bingard, em Incarville, de modo que, por
desespero, quando o trem deixou Saint-Frichoux, que era a última estação antes de Doncieres,
comecei a abraçar Albertine sem mais me ocupar com essa dama.
Em Doncieres, Saint-Loup tinha vindo esperar-me na gare, com as maiores dificuldades,
disse-me, pois, parando na casa da tia, meu telegrama só lhe chegara às mãos há poucos
instantes, e ele só podia dedicar-me uma hora, visto não ter conseguido distribuir seu tempo com
antecipação. Ai de mim, essa hora me pareceu bastante longa, pois mal desceu do vagão
Albertine só cuidou de Saint-Loup. Não conversava comigo, mal me respondia se lhe dirigia a
palavra, repelia-me quando me aproximava dela. Em compensação, com Robert, ria o seu riso
feiticeiro, falava-lhe com volubilidade, brincava com o cão que ele trazia e, ao mesmo tempo que
acariciava o animal, roçava de propósito em seu dono. Lembrei-me de que, no dia em que
Albertine deixara-se beijar por mim pela primeira vez, eu tivera um sorriso de gratidão pelo sedutor
desconhecido que operara nela uma tão profunda modificação, simplificando tanto a minha tarefa.
Pensava nele agora com horror. Robert devia ter percebido que Albertine não me era indiferente,
pois não respondeu às suas provocações, o que a pôs de mau humor contra mim; depois, ele me
falou como se eu estivesse sozinho, o que, quando ela o notou, me fez subir na sua estima.
Robert me perguntou se eu não queria tentar encontrar, entre os amigos com os quais me fazia
jantar todas as noites em Doncieres, quando eu lá estivera, aqueles que ainda se achavam ali. E,
como ele próprio incidia no gênero de pretensão irritante que reprovava:
- De que te serve tê-los encantado com tanta perseverança se não queres revê-los? -,
declinei de sua proposta porquanto não desejava correr o risco de me afastar de Albertine, mas
também porque agora estava desligado deles. Deles, quer dizer, de mim. Desejamos
apaixonadamente que exista uma outra vida na qual seríamos iguais ao que somos nesta. Mas
não refletimos que, mesmo sem esperar essa outra vida, somos nesta, ao fim de alguns anos,
infiéis ao que havíamos sido; ao que desejaríamos de nós mesmos; como dessas pessoas com
quem fomos ligados, mas que há muito já não vemos; por exemplo, os amigos de Saint-Loup, que
tanto me agradava encontrar todas as noites no faisan; cuja conversa só seria para mim agora
importuna e constrangedora. A tal respeito, e porque preferi não ir e encontrar lá o que me havia
agradado, um passeio a Doncieres poderia como que me prefigurar a chegada ao paraíso. Sonha
se muito com o paraíso, ou melhor, com numerosos paraísos sucessivos, mas todos eles são,
bem antes da morte, paraísos perdidos e onde a gente se sentiria perdido.
Saint-Loup nos deixou na gare.
- Mas vais ter cerca de uma hora de espera - disse. - Se a passares aqui, verás sem
dúvida o meu tio Charlus, que em breve há de tomar o trem para Paris, dez minutos antes do teu.
Já me despedi dele, pois sou obrigado a regressar antes da hora do seu trem. Não pude lhe falar
de ti visto que ainda não lera o teu telegrama. -
As censuras que fiz a Albertine depois que Saint-Loup nos deixou, ela me respondeu que
desejara, com sua frieza para comigo, dissipar a ideia que ele pudesse ter tido se, no momento da
parada do trem, me tivesse visto inclinado sobre ela e com o braço a enlaçar o seu talhe. De fato,
ele havia reparado nessa posição (coisa que eu não percebera, pois do contrário me colocaria
mais corretamente ao lado de Albertine) e tivera tempo de me dizer ao ouvido:
- É isso... essas meninas tão bestinhas de que me falaste e que não queriam frequentar a
Srta. de Stermaria porque achavam que não se comportava bem? -
Eu dissera com efeito a Robert, e muito sinceramente, quando fora de Paris para visitá-lo
em Doncieres, e como voltássemos a falar de Balbec, que nada havia a fazer com Albertine, que
ela era a virtude em pessoa. E agora que, por mim mesmo, há muito tempo, soubera que aquilo
era falso, desejava ainda mais que Robert acreditasse que era verdade. Bastaria dizer a Robert
que amava Albertine. Robert era dessas criaturas que sabem renunciar a um prazer para poupar
ao amigo sofrimentos que continuaria sentindo como se fossem seus.
- Sim, ela é muito criança. Mas não sabes nada sobre ela? - acrescentei com inquietação.
- Nada, a não ser que os vi abraçados como dois amantes.
- Sua atitude não dissipava nada - disse eu a Albertine quando Saint-Loup nos deixou.
- É verdade concordou ela; fui desajeitada, magoei-o, sinto-me bem mais infeliz que você.
Verá que nunca mais será assim; perdoe-me - disse ela, estendendo-me a mão com ar triste.
Nesse momento, do fundo da sala de espera onde estávamos sentados, vi passar
lentamente, seguido a certa distância por um empregado que carregava suas malas, o Sr. de
Charlus. Em Paris, onde eu só o encontrava em reuniões festivas, imóvel, apertado numa casaca
preta, mantido em direção vertical por seu aprumo orgulhoso, seu impulso para agradar, pelo
brilho da conversa, eu não me dava conta do quanto ele havia envelhecido. Agora, num terno
claro de viagem que o fazia parecer mais gordo, em marcha e bamboleando-se, balançando um
ventre barrigudo e um traseiro quase simbólico, a crueldade do dia claro decompunha, em
arrebique sobre os lábios, em pó-de-arroz fixado pelo cold-cream na ponta do nariz, em negro nos
bigodes tingidos cuja cor de ébano contrastava com os cabelos grisalhos, tudo aquilo que
pareceria, sob as luzes, a animação da tez numa pessoa ainda jovem.
Enquanto conversava com ele, mas brevemente, por causa do seu trem, eu olhava para o
vagão de Albertine para lhe fazer sinal de que já iria ao seu encontro. Quando desviei a cabeça
para o Sr. de Charlus, ele me pediu que lhe fizesse o favor de chamar um militar, parente seu, que
estava do outro lado da via férrea, exatamente como se fosse subir no nosso trem, mas em
sentido oposto, na direção que se afastava de Balbec.
- Ele faz parte da banda do regimento - disse o Sr. de Charlus. - Como o senhor tem a
sorte de ser muito jovem e eu o aborrecimento de ser bastante velho, bem pode poupar-me
atravessar a linha e ir até lá... -
Senti-me no dever de ir até o militar apontado e, com efeito, vi, pelas liras bordadas na sua
gola, que pertencia à banda. Mas, no momento em que eu ia prestar contas do meu recado, qual
não foi minha surpresa e, posso dizer, o meu prazer ao reconhecer Morel, o filho do lacaio de meu
tio e que me recordava tantas coisas! Esqueci de dar o recado do Sr. de Charlus.
- Como! Está em Doncieres? - Sim, e incorporaram-me à banda, a serviço das baterias. -
- Sim, e incorporaram-me à banda, a serviço das baterias. -
Mas ele me falou isso num tom seco e altivo. Tornara-se muito posudo e, evidentemente, a
minha vista, lembrando-lhe a profissão do pai, não lhe era agradável. De súbito, vi o Sr. de
Charlus arremeter contra nós. Meu atraso claramente o impacientara.
- Eu gostaria de ouvir um pouco de música esta noite - disse ele a Morel sem mais rodeios; -dou quinhentos francos pelo recital, isto poderia talvez interessar um de seus amigos, se é que os
tem na banda. -
Por mais que eu conhecesse a insolência do Sr. de Charlus, fiquei estupefato que ele nem
sequer desse bom-dia a seu jovem amigo. Aliás, o barão não me deu tempo para refletir.
Estendendo-me a mão, afetuosamente, disse:
- Até logo, meu caro - para indicar que eu nada mais tinha a fazer ali. De resto, eu já
deixara por muito tempo sozinha a minha querida Albertine.
- Veja - disse-lhe eu, subindo para o vagão -, a vida dos banhos de mar e a vida de
viagens fazem-me compreender que o teatro do mundo dispõe de menos cenários que de atores,
e de menos atores que de "situações".
- A propósito de que está dizendo isso?
- É que o Sr. de Charlus acabou de me pedir que lhe chamasse um de seus amigos, o
qual, justo nesse instante, na gare, reconheci como sendo um dos meus. -
Porém, dizendo isso, perguntava a mim mesmo de que modo o barão podia conhecer
Morel. A desproporção social, em que a princípio não havia pensado, era imensa. Primeiro, tive a
ideia de que seria por meio de Jupien, cuja filha, estão lembrados, parecera enamorar-se do
violinista. Entretanto, o que espantava era que, devendo viajar para Paris dentro de cinco minutos,
o barão pedisse para ouvir música em Doncieres. Revendo, porém, na lembrança a filha de
Jupien, eu começava a achar que os "reconhecimentos", pobre expediente de obras fictícias, ao
contrário, talvez exprimissem uma parte importante da vida, se a gente soubesse chegar ao
verdadeiro romanesco, quando tive subitamente uma revelação e compreendi que fora bem
ingênuo. O Sr. de Charlus por nada neste mundo conhecia Morel, nem este ao Sr. de Charlus, o
qual, deslumbrado mas também tímido, ante um militar que, no entanto, só ostentava liras,
requisitara-me, em sua emoção, para lhe trazer aquele a quem não imaginava que eu
conhecesse. Em todo caso, a oferta dos quinhentos francos deveria, para Morel, ter substituído a
ausência de relações anteriores, pois vi que continuavam a conversar, sem cuidar que se
achavam ao lado do nosso trem. E, lembrando-me de como o Sr. de Charlus se dirigira a Morel e
a mim, eu percebia a sua semelhança com certos parentes seus, quando apanhavam uma mulher
na rua. Unicamente, o objeto visado mudara de sexo. A partir de uma certa idade, e até se se
efetuam em nós evoluções diferentes, mais nos tornamos nós mesmos, mais se acentuam os
traços de família. Pois a natureza, continuando harmoniosamente a trama de sua tapeçaria,
interrompe a monotonia da composição graças à variedade das figuras intercaladas. Aliás, a
altivez com que o Sr. de Charlus medira de alto a baixo o violinista é relativa conforme o ponto de
vista em que nos coloquemos. Teria sido entendida pela maioria das pessoas da sociedade, que
se inclinavam diante dele, mas não pelo chefe de polícia que, alguns anos depois, mandaria vigiá-lo.
- O trem de Paris já deu sinal, senhor - disse o empregado que carregava as malas.
- Mas eu não vou tomar o trem, ponha tudo isso no depósito, que diabo! - retrucou o Sr. de
Charlus, dando vinte francos ao empregado, que ficou estupefato com a reviravolta e encantado
com a gorjeta. Tal generosidade logo atraiu uma vendedora de flores:
- Fique com estes cravos, olhe esta bela rosa, meu bom senhor, vai lhe trazer felicidade. -
O Sr. de Charlus, impaciente, estendeu-lhe quarenta sous, em troca do que a mulher ofereceu
suas bênçãos e, de novo, as flores.
- Meu Deus, se ela nos deixasse em paz - disse o Sr. de Charlus, dirigindo-se num tom
irônico e gemendo, como se fosse uma pessoa enervada, a Morel, a quem achava uma certa
doçura em solicitar apoio. - O que temos a nos dizer já é bem complicado. -
Visto que o carregador do trem ainda não estava muito longe, talvez o Sr. de Charlus não
quisesse ter uma audiência numerosa, talvez essas frases incidentais permitissem à sua timidez
altiva não abordar muito diretamente o pedido de um encontro. O músico, voltando-se para a
vendedora de flores com ar franco, imperativo e decidido, ergueu-lhe uma palma que a repelia e
dava a entender que não queriam as suas flores e que ela desse o fora o quanto antes. Com
deslumbramento, o Sr. de Charlus viu esse gesto autoritário e viril, feito pela mão graciosa para a
qual ele ainda pareceria muito pesado, muito maciçamente brutal, com uma firmeza e um
desembaraço precoces, que conferiam a esse adolescente ainda imberbe o ar de um jovem Davi,
capaz de assumir um combate contra Golias. A admiração do barão era involuntariamente,
mesclada desse sorriso que experimentamos ao ver numa criança uma expressão sisuda acima
de sua idade.
- Eis alguém por quem desejaria ser acompanhado em minhas viagens e auxiliado em
meus negócios. Como me simplificaria a vida! - disse consigo o Sr. de Charlus.
Partiu o trem de Paris (que o barão não tomou). Depois, subimos para o nosso, Albertine e
eu, sem que eu ficasse sabendo o que fora feito de Morel e do Sr. de Charlus.
- Nunca mais devemos brigar; novamente lhe peço que me perdoe - voltou a dizer
Albertine, aludindo ao incidente Saint-Loup. - Precisamos ser sempre amáveis um com o outro
continuou com ternura. - Quanto ao seu amigo Saint-Loup, se acha que ele não interessa no que
quer que seja, engana-se redondamente. O que me agrada nele é que parece gostar muito de
você.
- É muito bom rapaz - disse eu, evitando atribuir a Robert qualidades superiores
imaginárias, como por amizade não teria deixado de fazer caso se tratasse de outra pessoa que
não Albertine. - É uma criatura excelente, franca, devotada, leal, com quem se pode contar para
tudo. -
Dizendo isto, eu me limitava, tolhido pelo ciúmes, a falar a verdade sobre Saint-Loup, mas
era a verdade mesmo o que eu exprimia. Pois fora exatamente nos mesmos termos que se
expressara a Sra. de Villeparisis para me falar dele, quando eu ainda não o conhecia, e o
imaginava tão diferente, tão altaneiro, e dizia comigo:
"Acham-no bom por que é um grão-senhor."
Da mesma forma, quando ela me dissera:
"Ele ficaria tão feliz", eu pensara depois de o ter avistado diante do hotel, pronto para guiar,
que as palavras de sua tia eram pura banalidade mundana, destinadas a me lisonjear. E a seguir
havia percebido que ela falara sinceramente, pensando no que me interessava, nas minhas
leituras, e por saber que era daquilo que Saint-Loup gostava, como me devia suceder dizer
sinceramente a alguém que estava escrevendo a história de seu antepassado La Rochefoucauld,
autor das Máximas, e que desejaria pedir conselhos à Robert:
- Ele ficaria muito feliz. É que eu aprendera a conhecê-lo. Mas, ao vê-lo pela primeira vez,
não acreditara que uma inteligência aparentemente minha pudesse envolver-se em tanta
elegância exterior de indumentária suas atitudes. Devido a sua plumagem, eu o julgara um ser de
outra espécie.
Agora era Albertine quem, um pouco talvez porque Saint-Loup, em consideração para
comigo, a tratara de modo tão frio, me disse o que eu havia pensado outrora:
- Ah, ele é tão devotado assim?! Percebo que acham sempre todas as virtudes nas
pessoas quando elas saem do faubourg Saint-Germain. -
Ora, que Saint-Loup pertencesse ao faubourg Saint-Germain era coisa em que eu não
pensara uma só vez sequer em todos esses anos, quando, despojando-se de seu prestígio, ele
me manifestara as suas virtudes. Mudança de perspectiva para contemplar os seres, já mais
impressionante na amizade que nas simples relações sociais, mas quanto mais ainda no amor,
onde o desejo, numa escala tão vasta, aumenta em tamanhas proporções os menores sinais de
frieza, que bem menos me seria necessário do que a que possuía de início Saint-Loup, para que
eu me acreditasse desde o começo desdenhado por Albertine, para que imaginasse suas amigas
como criaturas maravilhosamente inumanas e que só atribuísse à indulgência que se tem para
com a beleza e para com uma certa elegância o juízo de Elstir, quando ele me dizia acerca do
pequeno grupo, exatamente nos mesmos sentimentos que a Sra. de Villeparisis sobre Saint-Loup:
- São boas moças. -
Ora, esse julgamento não era o que eu de bom grado faria ao ouvir Albertine dizer:
- Em todo caso, devotado ou não, espero não mais tornar a vê-lo, já que ele causou
desavença entre nós. Não devemos mais brigar. Não é justo. -
Considerando que Albertine parecera ter desejado Saint-Loup, eu me sentia mais ou
menos curado por algum tempo da ideia de que ela amava as mulheres, o que se me afigurava
inconciliável. E, diante do impermeável de Albertine, no qual ela parecia tornar-se uma outra
pessoa, a infatigável irradiação das tardes chuvosas, e que, colante, maleável e cinzento naquela
ocasião, parecia menos proteger seu vestuário contra a água do que ter sido encharcado por ela e
ligar-se ao corpo de minha amiga, como que para modelar-lhe as formas para um escultor,
arranquei aquela túnica que esposava zelosamente um colo desejado e, puxando Albertine ao
meu encontro:
Mais toi, ne veux-tu pas, voyageuse indolente, Rêver sor mon épaule en y posant ton
front?" [Senão queres, viajante indolente, sonhar no meu ombro, nele pousando a tua fronte?"
(Poema "La maison du berger" [A casa do pastor] de Alfred de Vigny). (N. do T)]
- Disse-lhe, tomando sua cabeça em minhas mãos e lhe mostrando as grandes campinas
inundadas e mudas que se estendiam no entardecer até o horizonte fechado pelas cadeias
paralelas de longínquos e azulados vales.
Dois dias depois, na quarta-feira famosa, nesse mesmo trem que acabava de tomar em
Balbec para ir jantar a Raspeliére, tinha especial interesse em não perdê-lo à Cottard no
Graincourt-Saint-Vast, onde um novo chamado telefônico da senhora de Verdurin me tinha
indicado que encontraria. Devia subir no trem e me indicar onde achar os carros que se
mandavam à estação, de Raspeliére. Por isso, como o trem não se detinha mais que um
instante em Graincourt, primeira estação depois de Doncières, localizei-me de antemão na
portinhola, a tal ponto temia não vê-lo em Cottard ou que não me visse. Vãos temores! Não tinha
advertido até onde o pequeno clã moldava seus membros conforme um mesmo tipo; estes além
disso, esperavam na plataforma em grande traje de ornamento e se reconheciam em
seguida por certa expressão de segurança, elegância e familiaridade, com as olhadas que
franqueavam as filas apertadas do público vulgar, como um espaço livre e sem obstáculos
à vista, espreitavam a chegada de algum confrade que tinha tomado o trem na estação anterior e
faiscavam já pela próxima conversação. Esse sinal de seleção que já tinha marcado aos membros
do pequeno grupo, pelo costume de comerem juntos, não só os distinguia quando eram
numerosos e constituíam uma força, agrupados e formando uma mancha mais brilhante no
meio do turbilhão de passageiros; o que Brichot chamava o Pecus; sobre cujos rostos opacos
não podia ler-se nenhuma noção relativa aos Verdurin, nenhuma esperança de jantar jamais na
Raspeliére. Por outra parte, esses passageiros vulgares se interessaram menos que eu se diante
deles se pronunciassem; e apesar da notoriedade adquirida por alguns, os nomes desses
fiéis que me assombrava ver; continuavam jantando fora de sua casa; sendo deste modo que
vários já o faziam desde antes de meu nascimento, segundo os relatos que tinha ouvido, em uma
época; uma vez suficientemente vaga e distante para que me tentasse exagerar seu afastamento.
O contraste entre a continuação não só de sua existência, mas sim da plenitude de suas forças e
o aniquilamento de tantos amigos que já tinha visto desaparecer aqui ou lá, dava-me essa mesma
sensação que experimentamos quando na ultima hora dos jornais leem precisamente a notícia
que menos esperávamos; por exemplo a de um falecimento prematuro e que nos parece fortuito,
porque os motivos resultantes nos são desconhecidos. Esse sentimento é que a morte não
alcança uniformemente a todos os homens, mas que uma onda mais avançada de sua trágica
crescente arrasta uma existência situada ao nível de outras que por muito mais tempo
perdoarão as ondas sucessivas. Veremos, por outra parte, mais tarde, a diversidade de quão
mortos circulam invisivelmente e são a causa do inesperado especial que apresentam as
necrologias dos jornais. Além disso, via que com o tempo não só se revelam e se impõem dons
reais que possam coexistir com a pior vulgaridade de conversação, mas sim até indivíduos
medíocres chegam à esses lugares. Vinculados na imaginação de nossa infância a alguns
anciões célebres sem pensar que o seriam, certo número de anos mais tarde, seus discípulos
convertidos em Mestres; e que agora inspiram o respeito e o temor que experimentavam antes.
Mas se os nomes dos fiéis não eram conhecidos dos peitilhos, seu aspecto, entretanto, os fazia
muito visíveis. Até no trem (quando ao azar uns e outros falavam o que poderiam fazer no dia, os
reunia a todos), não tendo que recolher na estação seguinte mais que um solitário, o vagão em
que se encontravam juntos, designado pelo cotovelo do escultor Ski, adornado pelo Tempo de
Cottard, florescia de longe como um carro de luxo e recolhia na estação requerida ao
companheiro atrasado. O único ao qual lhe tivessem escapado esses sinais de promissão, devido
a
sua semi-cegueira, era Brichot. Mas também um dos confrades assegurava
voluntariamente a favor do cego, as funções de vigilante, e assim que a gente visse seu chapéu
de palha, seu guarda-chuva verde e seus óculos verdes, encaminhava-o com pressa e
doçura para o compartimento eleito. De tal sorte que não havia exemplo de que um dos fiéis
extraviasse dos outros no percurso do caminho, a menos que provocasse as mais graves suspeita
de farra ou até de não ter viajado com o trem.. Às vezes se produzia o inverso: um fiel tinha
afastado-se bastante, na tarde e, por conseguinte, fazia sozinho parte do percurso, antes de que o
alcançasse o grupo; mas até isolado nessa forma, sendo único em sua espécie, não deixava de
produzir, o mais frequentemente, algum efeito. O futuro fazia o qual se dirigia o designava à
pessoa sentada no banco de em frente, a que se dizia:
- Deve ser alguém. - distinguia uma vaga auréola já em volto ao chapéu flexível de Cottard
ou do escultor Ski, e não se assombrava, a não ser na metade quando, na estação seguinte,
uma multidão elegante, se era seu ponto terminal, recebia o fiel na portinhola e o acompanhava
por volta de um dos carros que esperavam, sendo todos cumprimentados até o chão pelo
empregado de Doville; ou invadia o compartimento se era uma estação intermediária. Era o que
fazia precipitadamente, porque alguns tinham chegado com atraso justo no momento em que o
trem, já na estação, dispunha-se a sair de novo, o turbilhão que Cottard conduziu a passo
redobrado até o vagão em cujas janelas tinha visto meus sinais. Brichot, que se encontrava entre
esses fiéis, era-o muito mais no curso desses anos, em que outros tinham diminuído sua
assiduidade. Sua vista se debilitava progressivamente, e o tinha obrigado, até em Paris, a
diminuir cada vez mais os trabalhos noturnos. Por outra parte, pouca simpatia tinha pela Nova
Sorbonne, em que as ideias de exatidão científica à alemã começavam a prevalecer sobre o
humanismo. Agora, limitava-se exclusivamente ao seu curso e às bancas de exame; dispunha
também de muito mais tempo para se dedicar ao mundanismo, ou seja, às reuniões dos Verdurin,
ou àquelas oferecidas às vezes aos Verdurin por um ou outro fiel, trêmulo de emoção. É verdade
que em duas ocasiões o amor quase fizera o que os trabalhos já não podiam mais: desligar
Brichot do pequeno clã. Contudo, a Sra. Verdurin, que "velava por sua sementeira" e, aliás, tendo
se habituado a isso no interesse de seu salão, acabara por encontrar um prazer desinteressado
nesse gênero de dramas e de execuções, fizera-o romper irremediavelmente com a pessoa
perigosa, pois sabia, como ela mesma o afirmava, "para ordem em tudo" e "aplicar o ferro em
brasa na ferida". Isto lhe fora tanto mais fácil no caso de uma das pessoas perigosas, que era
simplesmente lavadeira de Brichot, e a Sra. Verdurin, que tinha livre acesso ao quinto andar do
professor, rubra de orgulho quando se dignava a subir-lhe as escadas; não fizera mais que pôr no
olho da rua aquela mulher de nada.
Como dissera a Patroa a Brichot:
- Uma mulher feito eu lhe faz a honra de vir à sua casa e o senhor recebe uma criatura
dessas? -
Brichot jamais esquecera o serviço que a Sra. Verdurin lhe havia prestado, ao impedir que
sua velhice soçobrasse no lodo, e se lhe mostrava cada vez mais apegado, ao passo que, em
contraste com essa renovada afeição e talvez devido a ele, a Patroa começava a se aborrecer
com um fiel excessivamente dócil; com a obediência do qual estava certa por antecipação. Mas
Brichot extraía de sua intimidade com os Verdurin um brilho que o distinguia entre todos os
colegas da Sorbonne. Estes ficavam deslumbrados com a narrativa que Brichot lhes fazia de
jantares aos quais nunca seriam convidados, com a menção nas revistas; ou o retrato exposto no
Salão, que dele haviam feito este ou aquele escritor ou pintor famosos; cujo talento os titulares
das outras cátedras da Faculdade de Letras prezavam; mas sem terem a menor possibilidade de
chamar a atenção, enfim, com a própria elegância indumentária do filósofo mundano; elegância
que a princípio haviam tomado por displicência, até que seu colega benevolamente lhes
explicasse, que fica bem pousar a cartola no chão, no decorrer de uma visita, e não é adequada
para os jantares no campo, por mais elegantes que sejam, onde convém que a substituam pelo
chapéu de feltro que cai muito bem com o smoking. Durante os primeiros segundos em que o
pequeno grupo se engolfou no vagão, nem sequer pude falar a Cottard, pois ele estava sufocado,
menos por haver corrido para apanhar o trem do que pelo encantamento de tê-lo apanhado tão a
tempo. Com isso, experimentava mais que a alegria de um êxito quase que a hilaridade de boa
farsa.
- Ah, essa é boa! - disse ele, ao se recobrar. - Um pouco mais... Puxa! Isto é o que se
chamaria chegar a propósito! - acrescentou piscando o olho, não para indagar se a expressão era
correta, pois agora transbordava de segurança, mas por satisfação. Por fim, conseguiu
apresentar-me aos outros membros do pequeno clã. Aborreceu-me verificar que estavam quase
todos vestindo o que em Paris se chama smoking. Eu havia esquecido que os Verdurin
principiavam uma evolução tímida em direção à sociedade, atenuada pelo Caso Dreyfus,
acelerada pela música "nova", evolução, aliás, desmentida por eles, e que continuariam a
desmentir até que houvesse chegado a bom termo, como esses objetivos militares que um
general só anuncia quando os alcançou, de modo a não parecer derrotado se lhe falharem. De
outra parte, a sociedade estava bem preparada para ir a seu encontro. Eram ainda considerados
como pessoas que ninguém da sociedade frequentava, mas que pouco se importavam com isso.
O salão Verdurin passava por um templo da música. Fora lá, diziam, que Vinteuil encontrara
inspiração e encorajamento. Ora, se a sonata de Vinteuil continuava totalmente incompreendida e
mais ou menos desconhecida, o seu nome, pronunciado como o do maior compositor
contemporâneo, era dotado de um prestígio extraordinário. Enfim, tendo certos jovens do faubourg
achado que deviam ser tão instruídos como os burgueses, havia três dentre eles que tinham
aprendido música e junto aos quais a sonata de Vinteuil gozava de imensa reputação. De volta
para casa, falavam nisso à mãe inteligente que os impelira a cultivar-se. E, interessando-se pelos
estudos dos filhos, as mães, no concerto, olhavam com algum respeito a Sra. Verdurin, que, no
camarote de primeira, seguia a partitura. Até aqui, esse mundanismo latente dos Verdurin só se
traduzia por dois fatos. Por um lado, a Sra. de Verdurin dizia da princesa de Caprarola:
- Ah! Essa é inteligente, é uma mulher agradável. O que não posso tolerar são os imbecis,
as pessoas que me enfadam, isso me deixa louca. -
O que faria pensar a alguém um pouco inteligente que a princesa de Caprarola, mulher da
mais alta sociedade, fizera uma visita à Sra. Verdurin. Tinha até chegado a pronunciar seu nome
por ocasião de uma visita de pêsames à Sra. Swann, após a morte do marido desta, e lhe
perguntara se ela os conhecia.
- Como diz? - retrucara Odette, com ar subitamente triste. - Verdurin. - Ah! Então sei
volvera ela desolada. - Não os conheço, ou melhor, conheço-os sem conhecer, são gente que vi
outrora em casa de amigos, há muito tempo; são agradáveis. -
continua na página 124...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Apressamo-nos a procurar um vagão vazio)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7
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