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domingo, 12 de agosto de 2018

histórias de avoinha: limonada e bolinhos

mulheres descalças


limonada e bolinhos
Ensaio 123B – 2ª edição 1ª reimpressão

baitasar



Eurásia! Onde se meteu essa negrinha? Eurásia!

a bondosa siá gostava quando gritava, num se importava com o acerto ou a justeza dos grito, sabia se aproveitá do berrêro. esganiçava as reclamação pra anunciá desprezo e rancô. os ingênuo acreditava sê valentia e costume a gritaria. isso de tá acostumada com grito inté pode sê, mais num é valentia. começâmo morrê depois do primêro grito do nascimento, cada grito é um dia a menos na soma de cada um, se eu pudesse dizê sem atrevimento ou cinismo, gritá menos pode aumentá a soma de cada um

donna jojô gritô de novo, menos dia na soma dela dos dia, Eurásia! Eurááásia, a bondosa siá grita pelo privilégio de sê quem é, mais parecia tá com a voz quebrada e véia, digna de lástima; tudo, na sua volta, parecia tá morto de medo. a vida sem memória se virava em pó, desarranjo e embaraço, ela seguia derramando na eurásia o esquecimento, o desperdício, a vontade de fugí e os grito qui viaja de graça no vento

as vista da preta mal dava pra segurá a chuva miúda dusóio, as vista da donna jojô com os grito ficava mais seca e estalada; essa num é a única diferença entre as duas, cada uma com sua razão, espeiava uma aparência jururu. tem munta diferença entre grito e triunfo, silêncio e derrota

eurásia tava com o espritu ajustado pra resistí no seu corpo quebrantado; siá joanna tava com seu espritu herniado pudrento dum corpo contrariado. um dia qualqué, elas num seria mais viva, só saudade, e depois, nem morta mais elas seria; as duas morria, tudo sempre morria, joanna sem fome e sem frio, mais ôca e vazia pudrento; eurásia morria pelo avesso, desbarrancando e violada, assim elas vivia e perdia a época mais boa de vivê enquanto a morte num vinha, mais se aconchegava diminuindo com paciência a soma dos dia

Sim, siá Joanna...

o grito e a resposta se entrelaça com uma qui gesticula e berra suas amargura enquanto a otra é ensombrada pelos fantasma fazendo bolinho amarelado e azeitado

E a limonada e os bolinhos, negrinha preguiçosa? Sempre fazendo corpo mole...

a língua da donna jojô continuava esmagando enquanto cavava um buraco de lodo qui grudava no céu da boca. o fardo da solidão noturna se aproximava e junto carregava as tonteira e as borrasca da dona da casa e tudo qui tava dentro, menos os varão. a voz fraturada tava ensopada de maldade, como a bolsa de veneno qui a cobra carrega na boca. o seu rosto jovem se deformava numa aparência retorcida e sombria; parecia uma cabeça sem corpo, acostumada a vencê pelo grito

a otra com a semeadura do espritu embaçada e fechada como um caramujo, refugiada em si mesma daquele mundo mau demais pra suportá, era o retrato da saudade insuportável, Tudo prontinho, donna Joanna. A mesa do lanche já está arrumada.

uma tarde fresca e de frescura, mais agitada

Arrumada... mas atrasada, no seu modo de vivê e de sentí a vida sem galanteio, num tinha vontade pra dá atenção de cuidado pra marido, fiu ou visita, muntu menó cuidado tinha pra preta escravizada; quase desmaiava daquela vida abafada, cadeada, sem ideia pra sê arrancada dali, num tinha otro lugá pra vivê, só tinha as galinha, a missa e as desfeita com estardalhaço qui podia fazê, seu curação sem esperança feito escombro apreciava o sofrimento e a tortura dos grito na eurásia

Siá Joanna... atrasou um pouquinho porque o miúdo aproveitou para lanchar.

a voz da eurásia denunciava afligimento com a opinião da donna jojô e o seu esforço pra agradá, mais num mostrava o curação nem os verdadêro pensamento qui num declarava, Como faço pra me libertá? Fugí... pra onde? Matá donna Jojô? Num quero matá ninguém, só quero saí daqui sem precisá fugí ou matá, saí saí saí, só saí, pensa assim, todo dia e noite, é um querê com toda força de vivê otra vida. é preciso tê munta força pra num deixá aparecê na garganta nehum quêxume nem a assombração da esperança esfarrapada qui carrega, chora no acompanhamento da própria sombra

Você tem sempre alguma desculpa esfarrapada na ponta da língua...

a preta já tava acostumada com aquela lengalenga cansativa e enjoativa da sua vadiagem; lutava pra num sentí o ódio com a falta da esperança igual donna jojô qui desprezava tudo, menos as trêis fia; no fim das conta, as duas muié vivia entre o embaraço, o incômodo e a aflição da solidão, nada lhes servia, Não sei por quê precisei nascer, escutô ela puruguntá pras fia ciscando, forçando o casco da terra sem quêxume ou ruído, trêis fêmea sem macho, sem galo, sem embaraço, incômodo ou aflição, chego a ter inveja de vocês, meninas. Ninguém, no meu galinheiro, vai lhes subir em cima ou machucar as partes mais secretas e cobiçadas de toda mulher. Sinto nojo. Resmungo para ele ser rápido, sem beijos com seu hálito podre, sem aqueles gemidos que não compreendo, não sei responder e nem sei se devo replicar. Gemidos de dor, talvez. Odeio, toda vez, quase sempre, que ele força sua entrada tirando lascas, estalando e gemendo enquanto fico deitada, parada; sinto que não quer mais nem meu fingimento, só quer um buraco. fico quase sempre desesperada, aborrecida, queria poder evitá-lo, é sempre tanta minha vontade de fugir. Como faço para me libertar? Fugir... para onde? Matar o sargento das polícias da Villa? Não quero matar ninguém, só quero sair daqui sem precisar fugir ou matar, sair sair sair, somente sair. O ruído da boca misturado com o barulho e o buquê da bunda. Fecho os olhos e rezo. Ave Maria cheia de graça, santificado seja o Vosso nome, o Senhor é contigo, o pão nosso de cada dia, bendita és entre as mulheres e bendito o pão nosso de cada dia, sempre me reze, me guarde, ilumine, amém. Até que ele sai da cama pingando e arrotando os dois buquê, vai em busca de uma garrafa toda de vinho. Estremeço de frio. Machucada. Suja. Molhada. Sento e abraço os joelhos, não consigo dormir. Tenho nos olhos a paisagem de um outro lugar. Pingo por pingo espero escorrer o bagaço dele. Continuo calada, não sei mais chorar. Rezo para essa fúria se acalmar e ficar mais distante, esporádica.

... está bem, já vamos entrar, largô a felisaberta no quintal com pulêro, recomendô às trêis um comportamento sem briga. depois, sem oiá pra donna gegê, convidô a visita pra tomá limonada, comer os bolinhos fritos de arroz e continuar nossa conversa. Os bolinhos da Eurásia são maravilhosos, eles não têm um queimadinho a mais. Ficam dourados no ponto. Ninguém na Villa frita bolinhos como a Eurásia.

Engraçado, todos esses anos e eu não tinha provado esses bolinhos.

É mesmo, donna jojô num sabia explicá pru qui nunca fez o convite prus bolinho nem pru qui hoje fez o encorajamento pra donnna gegê ficá, E vosmecê não provou a limonada, tem um gosto escondido que ela jura que não tem.

Vosmecê, minha amiga, não sabe a sorte que tem. Casou com o João, um partidão muito cobiçado na Villa. Tem um homem para chamar de seu. Um bom homem, respeitoso e admirado. E ganhou como dote de casamento a posse da Eurásia, uma negra educada, bonita, cheirosa e cozinheira muito competente.

donna jojô baxô a voz

Não se derrame em tantos elogios, amiga. Depois, vosmecê vai embora e fico eu aqui com uma negrinha cheia de balda.

a preta inclinô a cabeça pra espiá meió as duas qui passava do galinhêro pra sua cozinha, os pensamento voava longe, ajustava as conta se ia valê a pena dá uma, duas ou trêis canelada de deixá marca, sorria pras duas e media, Calma, Eurásia. Logo, a visita vai para casa e você vai ter que se virar sozinha, já tava bão sabê qui a limonada carregava as gota da água morna do xixi da preta, nem tão pouca nem tão muita, hehehehe, Calma, Eurásia. Elas não precisam saber, já está bom demais ver elas se deliciando e pedindo repetição.

Vosmecê tem sorte, Joanna.

Eu sei, sou uma mulher de muita sorte. O sinhô meu marido é um homem vistoso e não deixa faltar nada em nossa casa, uma voz lhe gritava pudrento, Mentira! Estou em ruínas, sinto-me como uma luz apagando no meio da escuridão, escutava essa voz toda veiz qui ficava ameaçada, então mudava o rumo da conversa e deixava os arrepio do desconforto pras amiga, E vosmecê, Georginna?

O que tem eu?

depois as otras voz qui carregava pudrento ficava gritando e se rindo das coisa esquisita qui ela escutava; às veiz, num gostava de escutá tanta voz, mais num era sempre qui ela se pensava esquisita na sombra da esperança com otras voz pudrento, Todas temos uma vida que não será vivida

donna gegê num sabia das voz qui se misturava pudrento da amiga, queria conversa pra tê conversa, mais num sabia onde ia o começo e o fim com donna jojô, Se as galinhas falassem eu pediria seus conselhos. Eu sei que há perguntas que não têm respostas. Teria que me contentar com seus silêncios. O segredo das galinhas.

toda cautela num era muntu nem bastante

Conte alguma novidade...

Novidade, respondeu sem respondê, tava com a voz baixa e pensativa, num chegava lembrá de nada, mais num podia ficá calada, queria parecê esperta e talentosa, num sabia como

então, ficô quieta e parada inté achá um lugá nos pensamento com a porta aberta, sem medo de entrá como o sapo num tem medo de saí nú da água

É... insistiu a donna jojô, conte alguma novidade. Mas antes, venha sentar, comer os bolinhos e tomar a limonada.

Novidades... na Villa? Neste fim de mundo?

Isso, mas prove os bolinhos e a limonada.

Hum... hum... mas é uma delícia. Eurásia, meus parabéns! Qual é o seu segredo? Conta...

Não posso, é segredo de família, foi a resposta da eurásia

donna jojô arregalô os óio e afinô a voz, a bolsa com veneno na boca tava escorrendo, num conseguia segurá no silêncio a leviandade das palavra tola e torta, sem rumo de bondade, cheias de insensatez e desonra

Segredo de família, Eurásia? Qual família? Nunca soube que você teve família!

num era palavra vazia, carregava o hálito de uma moribunda maldizente, eurásia podia sê a preta mina qui nasceu no tumbêro e deixô mãe falecida no nascimento. a fia das água qui garrô a vida nas têta do porão imundo e desumano do tumbêro, pelo menos, essa podia sê a história contada, mais tem quem juramente, em nome da vida sem medo da morte, qui a moça carregada pra dentro do casamento da donna jojô é metade irmã da siá joanna, nascida antes da siazinha tê feito o primêro aninho, mais isso num tem como se prová, e ficô assim, otra história do dito e num dito, o visto qui num foi visto, a verdade qui pode sê mentira ou pode num sê verdade e num sê mentira

Está bem, Joanna. Deixe a Eurásia para lá. Lembrei de algo...

donna gegê aparentô qui pensô na vida, quase chorô, pelo menos, foi uqui aparentô sem desatá o silêncio. parecia envergonhada de num tê muntu uqui dizê da própria vida qui levava sem novidade, sem uma paixão alegre e limpa ou um amante apaixonado. tinha noite qui passava batendo os dente, encolhida da friagi, Que patife são os homens, pensô sem se desatá do silêncio, sem se declará, todos sem-vergonha, se você dá o que eles querem, somem; se você não dá, escorregam-se entre os dedos. Queria um abraço de verdade, cheio de vontade, assim sentiria menos o frio da noite. Tem noite que custa passar.

Vamos, Georginna...

Sei lá, deixe-me pensar... Ah! Alguns dias atrás, salvei das ruas um cãozinho. Levei para minha casa.

donna jojô abriu os braço sorrindo e bateu palma, a muié dos pulícia é diferente das otra, ela se acostuma a dormí sozinha e se contentá com uqui tem, vive faminta e dorme quando pode esquecê o desatre da própria vida

Mas que fofa! Abrigando um animalzinho sem lar, maltratado e sem futuro. Ainda vai lhe ser útil. Quando ele rosnar ao teu lado, mete-lhe na boca uma migalha, e passará a farejar-te. Veja, Eurásia. Duvido que queira sair da nossa casa, onde tem tudo, desde a comida até um teto para morar.

donna gegê balanceô os ombro, num tinha pensado assim, foi só dó de vê tanto abandono, num quis tê ganho com o feito

Nem olhei bem para o coitadinho, meu lado materno foi mais forte. Depois, fui prestando mais atenção e percebi que ele não será muito bonitinho.

e tumbém num será muntu grande, pensô dizê, mais num disse. lembrô das palavra do pai, o siô filipi pança e rego, Não é a todos que devemos a verdade, é prudente deixar algumas coisas por dizer, Que coisas, papai, É preciso saber esconder o que não deve ser mostrado. Escutou, Georginna, ele sempre pruguntava no fim dos consêio, pra depois continuá sem ouví a resposta, É preciso ter uma capa, uma camuflagem e uma caraça, Por que, papai, A verdade mesmo quando justa pode não fazer bem.

O que vosmecê sente por ele? É muito bôbo? A amiga não vai largá-lo na rua, vai?

Não! Não posso, ele me consola e me dá coragem. Já acostumei com o rapazinho. Dorme na minha cama, uma fofura. Os meus pés ficam bem quentinhos. Ele tem os pelos bem macios.

Ele deve estar todo convencido.

Não sei, acho que não. O meu bebê já tem até roupinha.

Que fofo, menos um bichinho sofrendo nas ruas. Aposto que está feliz na casa nova...

Acho que sim.

E o nome dele? Já deu um nome para ele?

Não... eu não pensei nisto, ainda.

Amiga, vou ajudá-la escolher um nome.

donna jojô chamô eurásia, a artilharia das palavra pronta pra gritá. ela num ia tê nehuma mudança, num queria mudá, num queria perdê o conforto dos fundo da casa, o quintal com pulêro

O que você está esperando para servir mais limonada e bolinhos?




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domingo, 24 de junho de 2018

histórias de avoinha: a fome num é bão pra companhia

mulheres descalças


a fome num é bão pra companhia
Ensaio 122B – 2ª edição 1ª reimpressão

baitasar



quando o muleque entrô no quintal pra dizê dos encaminhamento feito com o pretu jaquín num tava animado, mais tava diferente, parecia mais forte e pronto pra uivá, os óio examinava tudo com atenção. num gastava as força com movimento de inutilidade ou resmungo de maldição, como todo bão caçadô aprendia sê frio, determinado e cruento; sonhava com o dia de usá o capote militá do pai, tê de veiz a autoridade pra agarrá, amansá ou matá

ele encontrô donna jojô com a felisaberta nos braço, tava sorrindo pru fiu e parecia tê devoção no jeito de oiá pru miúdo. felisaberta parecia observá tudo distraída das amargura da vida, Os olhos dela são diferentes, pensô o muleque, vê a vida sem alegria ou tristeza, nem sabe porque vive, não entende as coisas da vida além de comer, ciscar e pôr ovos. Por isso, a panela é o rumo certo. E acabou-se. Ter pena das galinhas é bobagem. Ficou com fome? Pegue um naco de pão e coma com um pedaço de galinha assada na brasa. Isso mesmo, e piscô um dos ôio debochado, mais num disse uma palavra dos pensamento

logo pra tráis tava donna gegê, todo o desastre brutal pareceu tê sumido do ânimo dela, o muleque observô a tia sem sabê explicá qual a importância dela na sua vida, num sentia o mesmo entusiasmo da mãe pela visita, num tinha uqui dizê, mais sabia vê qui alguma coisa nela num tava bem, parecia tê aquelas doença qui num parece sê doença, respirava, falava, escutava, mais num sorria cumsóio, parecia num sabê a razão de tê vida, nada parecia lhe tê serventia, uma pessoa sem lugá, sem aconchego, sem alívio, sem ardência, uma brasa morna escondida nas cinza esperando pelo assopro

o miúdo voltô oiá na sua volta, as cinco tava com os ânimo acalmado, riu-se de tudo, todas passava bem, Foi só alvoroço, e riu-se de novo, pensô no sargento pulícia, se papai está aqui saberia dá a medida certa para o acontecido: Filho, calma. É só nervosismo de moça!

é desde o tempo de miúdo qui o pepino fica torto

depois qui se riu com os pensamento do pai, fez um gesto encenado pra sê comovente, num tava mais se rindo, ergueu a mão e acariciô a cabeça da felisaberta, Espantoso, pensô o miúdo, somos filhos da mesma mãe...

Meu filho amado, por que tudo aquilo?

o miúdo num se sentia ocupando o lugá difiu. pelo menos, quando donna jojô resolvia hospedá nos seus braço de mãe uma das trêis penosa. já é trabalhoso desmanchá a ciumêra dufiu qui precisa dividí os cuidado da mãe com o pai, mais repartí as delicadeza de mãe com trêis penosa deixava seu curação vazio, Acho que não nasci como devia, num achava prudente falá uqui pensava, mas no fim, é bem simples, cada um tem a mãe que tem e é o filho que é, e pronto. Cada um escolhe ser estúpido e desmiolado ou um homem que se aguenta em pé, crescia um hômi qui se aguenta em pé e num solta os pensamento, a ruindade dos pensamento qui fica guardado, e depois escondido, é qui eles transtorna as vida dum jeito qui deixa marca funda e a cicatriz nem sempre se mostra

Nada demais, mãe. Só queria mostrar um pouco do inferno...

donna jojô abriu os óio e deu um passo atráis, parecia tá querendo distância daquele fiu escondido qui tava se mostrando, O que há com esse menino?

Mostrar o inferno para quem, meu filho?

parecia qui todas as força poderosa qui ajunta mãe e fiu, num importa o lugá nem a distância, rangia com frio. os dois num vibrava junto, muntu menos, rugia junto de contentamento

Para o criolo, mamãe!

um moribundo pretu qui foi mutilado, teve o ôio vazado, esse véio inválido num lhe fazia tê vontade de sentí compaixão nem lhe encorajava brigá com o miúdo qui saiu das suas entranha, mais convocá o inferno num era coisa boa de tê em casa

E por que para o negro?

num entendeu e pruqui num entendeu num ficô triste nem alegre, tem vida qui no modo de vê das pessoa de bem só atrapáia a vida. fez uma purugunta ingênua qui ia tê uma resposta rude e manchada de mentira suja

Mamãe, aparentava tá enjoado pra explicá uqui parecia sê tão fácil de vê, assim ele pode escolher pela própria vontade o criolo que ele quer ser, o miúdo tava inabalável no seu ponto de vê e julgá os pretu, foi só um pequeno susto, mãe. Assim, ele sabe o que pode ter do inferno ou do céu, a escolha é dele.

o ódio é uma doença qui gruda nas pessoa, sabendo ou sem sabê, ele pode chegá como uma tempestade e do mesmo jeito voltá pru lugá donde saiu; mais pode crescê junto com a crescença do miúdo, dia a dia, num muntu nem demais, todo dia um tanto a mais, inté tá com as raiz fincada nos pensamento, nas palavra qui é dita, nos jeito das vista oiá, é o ódio qui vê sem oiá

o miúdo da siá joanna, sabendo ou sem sabê, já tava no começo da missão qui escoieu tê: esperava o tempo passá pra esparramá seu tamanho dentro da vestimenta de pulícia da villa e sonhava deixá a barba encompridá, oiava todo dia no espêio se o bigode esfarelado já aparentava cara de bigode, tava com o gosto da impaciência de crescê logo quando se credita tê uma missão pra cumprí

Na próxima vez... tome mais cuidado, meu filho.

E a galinha, mamãe?

Foi só um pequeno susto...

Tudo bem, então?

puruguntô isso e abriu os braço num gesto de abraço, nada normal entre os dois, a donna jojô retesô o corpo, a respiração, as palavra; num esperava, sabendo ou sem sabê, pelo abraço do miúdo; os dois parecia tê areia movediça nos pé, eles num queria tá afundando ali, mais num podia saí. o abraço num foi dado nem foi recebido

Sim, meu querido... tudo bem...

as vista da donna jojô já tava no galinhêro. as trêis pisava e repisava o chão da terra esgravatada, elas num parava de buscá comida, Meu Deus, as minhas meninas estão parecidas com essa gente morta de fome! Que horror! Eu não deixo faltar nada, os pensamento todo voltado pras trêis fia, num viu qui esse seu jeito roubô a lembrança do fiu, era sempre assim, num tinha como ou num queria evitá, Eurásia! Só pode ser isso. A negra esconde a ração das meninas para essa gente perigosa pedindo de porta em porta. Hoje, ela não me escapa. É muito fácil fazer caridade com o dinheiro dos outros.

o miúdo continuava ali, parado, oiando pras cinco, e num pode deixá de pensá, É... não nasci como deveria, pelo menos, não para minha mãe e minhas irmãzinhas, fez um esforço pra num corrê gritando, Eu não sou uma menina histérica e chorona, quando o miúdo virô as costa pra saí, já tinha tirado dos pensamento a carcaça do pretu jaquín qui ele soltô nas rua e a carcaça da mãe com as chorona, pensava na limonada e nos bolinho de arroz da eufrásia. a boca seca avisava qui tava com sede. a barriga vazia reclamava qui tava com fome. foi ficando arredado de tudo e de todas na sua volta. ele num aprende com o sofrimento dosotro, ele aprende do sofrimento nostro

Meu filho, escute...

parô os passo, lutô contra o muxoxo de bruxa qui sentiu vontade de fazê, queria podê ignorá a mãe com jeito bem-educado, desaparecendo pra uma distância segura, opaca, triste e secreta

Sim, mãe...

donna jojô sabia qui a educação pru fiu é dada em casa, mais num sabia se fazia voz zangada ou preocupada com os ocorrido de hoje, de todo modo, num queria deixá passá sem uma boa conversa com ensinamento pru miúdo. pensô dizê, A vida já tem muito sofrimento, meu filho. Não existe lugar sem sofrimento, sem dor, mais num disse, queria tê dito pru fiu: Não confie nos próprios sonhos sem ter um suborno guardado, mais num disse, queria tê dito pra ele num engravidá a vida com mais vida pruqui as criança padece e os pai sofre muntu mais com o aguardamento entre a felicidade e o desapontamento, queria tê dito muntu mais duqui num disse

aproximô do miúdo com a felisaberta de volta nos braço, as duas cacarejando, numa faísca de desconfiança ele pensô qui as duas parecia assustada com ele, Machucar os outros me dá um alívio que eu não gosto, queria tê dito pra mãe, mais num disse, É como ficar me tocando nas intimidades, na hora, é bom, mas depois piora. Sinto que não devia fazer isso, mas aquele negro me provocou com seu jeito de vagabundo. Eu não sou assim, eu sou bom. Não sou ruim, não. É o demônio que se aproveita das minhas mãos, num disse nada disso

Meu filho, nunca mais me apareça em casa com um negro encardido, suado, fedido, sujo de escarros. Menino, aposto que você nem reparou nas marcas do negro. Um criolo muito marcado é perigoso e desobediente.

quando o miúdo respondeu pra sua mãe, ele já tava com as mão desenfeitiçada e a felisaberta já tava no chão ciscando

Eu sei, mãe. Eu prometo que não vai mais acontecer.

dava pra escutá as penosa resmungando e esgravatando, pra lá e cá, torrão por torrão, dava pra vê qui era só minhoca e formiga uqui elas buscava. a fome num é bão pra companhia, ela entristece a moldura das vista com a vida, as pessoa parece árvore despida, seca, cheia de lástima, parece qui tudo morre ou tá morrendo na volta

o miúdo fingia atenção qui num tinha, o medo qui num sentia, Não posso esquecer de aparecer no galinheiro dessas vacas com um punhado de milho, num sabia como o pai foi casá logo com a primêra qui foi oferecida, deu no qui deu, Um bom homem todo estropiado, condenado a morrer aos poucos.

a tia gegê, era assim qui ele foi ensinado dizê, e era isso qui precisava sabê, achô qui tumbé podia se metê. afinal, o susto qui levô quase lhe fez provocá o óbito da felisaberta. ela saiu do silêncio das testemunha, mais continuô pra tráis, uma sombra decorativa, como as manequim sem rosto, mão ou perna, apenas pra simulá um corpo de gente

o descaso da donna jojô era pra mostrá podê, dizê sem dizê, pra gêmea mais nova, qui era ela: jojô, qui mandava e desamandava entre as duas; o desdém do miúdo, era pra num mostrá aceno – igual letrêro na tabuleta – qui a tia gegê lhe acendia as vontade de tocá as intimidade de hômi pra muié, puro desassossego querê mais qui pode tê ou achá qui pode acendê as brasa mais amornada com seu assopro de querê aprendê

Querido, sua mãe não precisava ver isso. Esse é o trabalho do seu pai. Os homens fortes e do bem cuidam dos corretivos nos negros. Essas coisas fedidas e sujas não entram na porta da frente.

nem a mais véia nem ufiu da mais véia virô na direção da donna gegê, otro descaso qui ela deixô guardado pra num desmanchá aquela amizade da vida toda, pensô em puruguntá, De quantos desdém a pessoa precisa para se cansar, mais num disse, tem pessoa qui é assim, na villa parece qui tudo é assim, quanto mais maltratada mais perto qué ficá, é o seu modo de vivê, o seu caminho inté morrê. num presta atenção na própria vida pruqui num aprendeu, ou num quis aprendê vivê bem com as otra vida, dá trabáio qualqué vida, toda vida

essa gente qui num vê merecimento nas otras vida parece vivê cercada com um muro de vasteza gigante e sem janela, uma pequena fresta no teto, na volta um fedô de gente esfarrapada e se desmanchando como se fosse comida. gente qui mastiga gente num sabe sentí a vida, gosta de adormecê a cabeça no travessêro das mentira e das mistura nojenta do egoísmo, a maldade precisa se prufumá muntu pra escondê a catinga ôca e tola da crueldade qui tem pudrento

Por que tudo isso, meu filho?

as vista do miúdo num tava asustada, nada nele tremia, uqui dava pra vê era um brilho excitado qui teimava ficá como amostra duqui ele deixô jogado pra tráis por cima do ombro

Tudo isso o quê, mãe?

mãe e fiu continuava soprando palavra atráis das palavra como uma rajada fria, um pru otro, e tumbém desatendendo os dito e num dito da donna gegê. as crista branca erguida congelava a grosseria rude da mais véia e derramava sobre a mais nova o silêncio indiferente. donna jojô ficô parada, se o seu miúdo num fosse uqui é ela podia achá qui ele tava bêbado como o pai, a vontade qui teve foi descê seu punho delicado com toda força sobre alguma mesa, pra sorte do seu punho fino e efeminado num tinha mesa no galinhêro, Seu fedelho de merda nem imagina tudo que já suportei por você, num gritô e num disse

Esse circo de horrores com aquele negro...

o miúdo já tava, pela força do hábito, com as atitude fingida grudada na sua crista branca e impaciente, abanava a cabeça prum lado e outro sacudindo os ombro

A molecada duvidou...

uma enxurrada de gente qui já viveu na villa puxava a carretêra dos hábito, figuras humana qui rastejava como verme e recebia mais verme em troca. donna jojô voltô pegá felisaberta, abraçô o corpo da bichana, segurô as pata magra e colocô a cabeça da miúda de penas no seu ombro, como se sossega os bebê muntu chorão

Calma, meu amorzinho. Vai ficar tudo bem. Somos boas pessoas, ninguém vai lhe fazer mal.

Pelo menos, enquanto a fome não bater à porta.

Não se assuste com seu irmão, Felisaberta... ele é um bom filho.

a felisaberta continuava com sua crista vermêia impaciente, abanava a cabeça pru lado e otro

Meu filho, não se torne uma vítima dos outros. Não queira aparecer para os outros. Jamais perca o controle. É mais fácil satisfazer a sua fome que a fome dos outros...

enquanto a donna do galinhêro falava, falava e falava, sem dizê nada pra tê importância pru miúdo, as palavra se misturava com os vulto manso e estranho qui cacarejava nas sombra como anjos desinteressados e frios, aparição sem rosto, sem repouso, qui zombava do silêncio medroso das conveniência

... a vida, lá fora, meu filho, é muito triste e insuportável. Aqui, no quintal das galinhas, ao contrário, é tudo inocente e sem arrependimentos.

as duas qui tava fora do colo materno respondeu cacarejando, elas empurrava com o bico e ciscava com uspé, em volta delas a voz descolorida da donna jojô. num tinha um pedaço do galinhêro qui elas num examinô, mais num era trabáio, num era fome, era o costume qui parecia dá pra elas a liberdade de lutá pelas própria necessidade sem aborrecimento, desde qui num fosse vontade arredada do galinhêro. fazê tudo igual com medo de sê mudada num é sê livre, é sê obediente ao julgamento da voz qui manda enquanto a vida se afasta do contorno das vista cacarejando e ciscando

Eu sei, mãe.

donna jojô oiô pru fiu, ela num conhecia a trilha qui leva pru coração do miúdo, num conhecia pruqui num procurô ou desistiu de procurá, então, já basta qui ele fique sem reação e com jeito de vencido, obediente

Agora, vá tomar seu banho... e tire do seu corpo essa catinga de negro.

a tardinha já caminhava nas rua da villa e entrava no galinhêro da donna jojô, a porta tava aberta. a brancura qui entrava pelo terrêro sem respondê se podia, tava se indo. o dia seguia sempre em frente, num parava pra ouví as reclamação ou as alegria, sempre em frente, sem oiá pra tráis

Sim, mãe.

ia e voltava, num era o primêro nem o último dia qui vai varrê a claridade e passá tudo pra escuridão da noite, desde o começo de tudo é assim, um dia depois otro, pru qui mudá se tá dando tão certo, né

Espere o seu pai para o jantar.

nem as lágrima consegue pará a sua balada de chegada e despedida, um miúdo esfarrapado corre, bem cedinho, gritando pra lhe dá as boa-vinda quando chega de volta, Eu conheço o caminho... Eu conheço o caminho, repete e repete prum dia cambaleante, mais ele segue sem respondê, sem pedí, sem ouví, desde os tempo mais remoto foi assim, mudá pra quê

Sim, mãe.

o miúdo sumiu na direção da cozinha enquanto as cinco ficô parada sem dá um piu, inté qui a siá georginna se resolveu pela gabação

Joanna, minha amiga querida, adorei vê como vosmecê controlou tudo.

a donna do galinhêro embalava nos braço felisaberta, controlava as otra duas com oiá de cuidado. logo pra tráis, donna gegê media na amiga se aquele quase desastre brutal tinha desaparecido do seu ânimo de gentileza

Tudo isso, Georginna... foi só um susto.

as duas fez o contorno da cruiz qui elas tinha estampada na memória, levô as mão na testa, Em nome do Pai, depois no peito, do Filho, no lado esquerdo, do Espírito, no lado direito, Santo, e terminô com as mão nos lábio, Amém...

Sinto tanto orgulho de vosmecê, minha amiga.

duas nuvem cinzenta cobriu o galinhêro, só faltô o vento gelado e o miúdo esfarrapado e magrento do destino pra puruguntá, A siazinha conheceu a defunta? Foi uma pena, essa galinha só faltava falar, a visita sentiu um calafrio só de pensá na desgraça qui num aconteceu e podia tê acontecido, mais tudo num passô do susto

Georginna, o que seria da vida na nossa querida Villa sem algumas regras alicerçadas em nosso caráter: os pobres e os miseráveis servem aos ricos, certo?

a mais véia caminhava lá e cá no galinhêro

Perfeito, Joanna.

O que seria nossa vida se alguém decide que os negros não serão mais escravos?

Um pandemônio, Joanna.

Quem faria o serviço dos pobres? Não posso nem imaginar! Georginna, vosmecê consegue imaginar o disparate que seria eu servir essa negrinha Eurásia? Meu Deus, nem com muita imaginação.

a mais nova se agachô pra chamá uma das bichana

Não consigo, Joanna.

Não, Georginna, Deus quer assim como sempre foi, se não fosse para ser assim, Ele já teria mudado isso tudo.




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domingo, 20 de maio de 2018

histórias de avoinha: - solta o negro nas ruas... e volta!

mulheres descalças


- solta o negro nas ruas... e volta!
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baitasar



Filho amado, pensa no seu pai. Ele é de grande importância na Polícia Pública onde desfruta da maior consideração e respeito, é bem verdade que ele foi desconsiderado e rebaixado, mas o mundo gira e hão de aproveitá-lo em lugar de maior importância. Peço todos os dias ao Nosso Pai misericordioso que ele recupere a maior importância que o seu pai já teve na Villa. É questão de tempo.

Será? Papai anda muito triste.

Eu sei, também percebi. Mas ficar triste vez que outra é da vida, tenho certeza que tudo isso vai mudar. A Villa precisa de homens como o seu pai. Ele é um homem de bem, determinado, corajoso e justo.

Eu sei, mãe...

Seu pai não deixa faltar nada em casa. E você, filho amado, não pode se queixar, parô dois ou trêis tempo pra respirá, num ia tê ninguém pra lhe acudí com essa conversa, procurô com os óio as suas trêis amada, elas ciscava nas terra do galinhêro, nehuma parecia tê interesse naquela trama, no modo de vê da dona jojô elas é quieta, pensativa e de pôca conversa, lembrô da visita, aquele num era assunto pra esmiuçá com acompanhamento da visitante do seu galinhêro, mais num podia deixá pra lá a deseducação do moleque, Tudo que você pede seu pai lhe compra, mas você precisa compreender que não podemos ter esse negro sem conhecer a procedência. É o mesmo que roubar!

Mãe, o pai está bebendo vinho em vez de água nem vai reparar.

siá joanna levantô a mão pra descê no fiu, mais siá georgina lhe segurô, Não faça isso, Jojô! o piá pareceu tê sido mais afetado pela rareza da mão da mãe qui subiu – mais num desceu pruqui foi segurada pelo grito da sua tia gegê – duqui com as palavra da mãe qui chegô inté ele

o piá num tava pronto pra largá as arma nem aliviá os abuso, deu otro puxão na sissal – ainda num aprendeu rangê os dente de brabo, mais vai aprendê – já tava chegando no tempo, pelo menos no jeito dele sivê, de exigí respeito pelo seu talento de caçadô, Mas, mãe... achado jogado na rua não é roubado, agachado feito vagabundo.

nos óio da mãinha anoitecia enquanto oiava pru fiu, tava na cara dele a determinação do pai, pensô silenciosa qui: A fruta não cai longe do pé.

Não, meu filho amado. Não podemos ficar com esse negro. Peça ao seu pai um negro mais novo e com aparência melhor. Tenho certeza que ele compra para você. Ele tem desempenhado com submissão, respeito e fidelidade seus serviços para as pessoas mais importantes da nossa Villa. Não seria de estranhar ele receber sem constrangimento um agrado, isso é normal, é assim mesmo. Mas desse seu jeito não pode e acabou-se!

oiava pru fiu com um sorriso tristonho, mais atenta em sua volta, siá joanna deu um passo pra tráis, pareceu sentí qui o ar no galinhêro tava abafado, pesado pru nariz e com gosto ruim pela boca, cruzô os braço

viu o fiu dá otro puxão na sissal e um passo pra frente

A senhora não entende, né?

num tinha como ela entendê, num queria entendê, dona jojô deu otro passo pra ré, só queria qui o chêro da dô do pretu, qui entrô no seu galinhêro como um monstro devorando tudo, fosse dali, dentro de um caixão ou arrastado, e mais nada. queria o seu galinhêro sereno e silencioso, como tava antes

ela num entendia qui o fiu num era mais um muriquinhu, agora tinha sangue nas mão

Não, meu filho. Eu não entendo.

amuié siá joanna pensô nas suas trêis menina, essas trêis lhe conhecia meió quiufiu, ele num tinha nem a metade das vontade de lhe agradá qui as suas menina tinha, tudo quiufiu pensava era pru pai, isso qui ele ainda num tava crescido nem pronto pra passá acima das vontade dela

Esse, o piá apontava com o dedo duro pru jaquín, peguei com uma corda, um chicote e as minhas mãos. Enfrentei o bicho sem recuar um passo, o ódio parecia tá crescendo em combinação com a vontade de fazê existí beleza na vida numa cô só; o bão, o belo e o verdadêro é o mundo dos branco, Não pensei em mim, só pensava em atacar. Na verdade, não parei para pensar. Foi um presente que recebi de Deus, e estava pronto. Sei que tomei a decisão certa, o piá continuava empinado com o resultado da sua emboscada, num cabia dentro dele mesmo, num ia deixá sua mãe estragá tudo, Adorei acabar com a vagabundagem desse criolo!

e a sissal agarrada – numa ponta na mão do piá e notra no pescoço do véio – ficô retesada com o puxão da mão e a relutância do gargalo do jaquín qui fincô as raiz dos pé no chão. a sissal apertô e jaquín ficô sem respiração, mais num deu um passo pra frente. inté qui a corda balançô pelo alívio da força do piá em retesá a sissal

Isso foi formidável, meu filho. Mas você não pode ir pegando tudo que encontra jogado nas ruas.

siá gegê deu um passo atráis, tava assustada com a insistência do mulecote. ele continuô teimá. siá jojô continuô dizê pra ele devolvê o pretu pru lugá onde achô. a gêmea solterôna deu otro passo pra tráis sem oiá... queria ficá mais de longe, num viu quando pisô na felisaberta

o alvoroço qui se mostrô no galinhêro da siá joanna foi pra dá inveja aos inferno qui o padinhu anuncia nas missa dominguêra. a desarrumação foi tão grande qui a felisaberta num achava o caminho pru paraíso dos braço da sua mãe de proteção. vai sabê uqui passava nas cabeça do galinhêro, inté pode qui as trêis irmã avisava aos grito, Ela voltô sê humana cócócócó, A vontade selvagem de matá cócócócó, O prazê de matá cócócócó, Vamos todas pra panela cócócócó, Nada dura para sempre cócócócó!

Georgina! O que vosmecê fez!?

a rival de nascimento num respondeu logo, inclinô pru lado, mais num mexeu os pé, desceu as vista na sua volta. naquele momento, viu qui a sua meió amiga num era só chata, ela era muntu só, o amô pelas galinha era muntu estúpido, passava demais da preocupação da vida com a vida, mais num disse uqui pensô, só lamentô

Perdão, Joanna! Eu não vi a coitadinha... e esse negro fedido me assusta tanto...

num sabia se as suas desculpa foi escutada nem se foi aceita, então foi atacada pelo pavô de perdê a sua meió amiga. pensô em abraçá dona jojô, deixá ela adormecê no seu colo, como faziam na juventude de beijos e carícias escondidas de todos. tava pensativa e calada, num sabia se tava com pena dela mesma ou das galinha ou da amargura da vida da meió amiga

Minhas queridas! Mimosas! Venham aqui com a mamãe, dona jojô catava as assustadas crias do seu descampado de vida, Venham com a mamãe, venham...

Perdão, Joanna... perdão...

dona gegê tava muntu preocupada e cogitô dá otra galinha pra amiga, no vê dela era justo qui dona jojô fosse recompensada, só num podia dá reparação praquilo qui lhe faltava de verdade

Vou lhe dar outra galinha, Joanna, ofereceu um presente pru descarrego da sua consciência culpada, como a obrigação da visita qui quebrô uma porcelana na casa da visitada e combina fazê um repositório, mas não sei como fazer essa reposição. Devo trazer alguns pintinhos para vosmecê escolher, minha amiga?

Vosmecê está louca? Por acaso, quando um filho adoece ou está ferido a mãe suplica por um outro filho? Não! Uma mãe de verdade não desiste do seu filho, mas vosmecê não pode saber, é uma solteirona sem filhos. Ninguém lhe quer nem os filhos que não lhe nascem, só essa sua amiga aqui ainda lhe quer, dona gegê num disse mais nada, no modo de vê dela, a amizade num pode vivê só da agonia e das reclamação intepestiva. achô meió guardá pra ela as incomodação qui sentiu com as palavra demasiada da dona jojô. e no caso do falecimento da anacleta – ou teria sido a perpétua? ou a felisaberta? o pisão foi grave? – decidiu esperá passá o tempo do luto pra oferecê reposição pru galinhêro. num tem milagre... se a galinha já se foi num tem volta

a chuva lava, o vento seca e o tempo cura

o muleque qui assistia tudo com tédio e aborrecimento pensô se oferecê pra ajudá na captura. tinha prática em cercá, acuá e aprisioná, Primeiro, é preciso saber ameaçar com a atiradeira até a fugitiva ficar enfiada, num canto qualquer, assustada e empacada. Não é preciso ter afobação, o muleque tem razão, tudo qui é do pó volta pru pó, É só assustar um pouquinho. A morte vem para todos, mas os amedrontados morrem na véspera. Depois é só jogar a laçada da sissal no pescoço e apertar. O sufoco do aperto é para o bicho se acalmar. Apertar o pescoço não falha. Mas é preciso saber o tempo de afrouxar o laço para o caso do negro precisar se recuperar do desfalecimento.

a chuva, o vento e o tempo

quanto mais dona jojô oiava pru fiu mais ela ficava convencida qui num conhecia ufiu, num sabia se ele era mau ou malcriado

Do quê você está falando, meu filho?

Mãe, eu posso ajudar. Sou muito bom com a laçada da sissal.

siá joanna qui num queria pensá otra coisa qui abraçá a felisaberta, muntu menos queria sabê de vê sua fia agarrada pelo pescoço, oiô com toda descompostura pru fiu, tinha esse oiá guardado prus momento do desespero, usô do grito e desprezo qui nunca usô, mais teve qui usá

Tira esse animal nojento da minha casa!

Mas, mãe...

o tempo das conversa da mãe com ufiu tinha acabado. o moleque aprendia qui o momento errado e as palavra errada podia fazê ele mordê a língua. repetiu qui só tinha feito oferecimento do meió uso qui sabia fazê: cercá e prendê

Agora!

o mulecote estalô o chicote no chão de pedra com munta raiva. ele sabia qui nasceu pra isso, queria sê isso: pulícia pública, como o pai, Afinal de contas, meu filho, um bom polícia precisa fazer apenas duas coisas direito: viver e prender!

ora soltava, ora puxava a sissal agarrada na volta do pescoço do pretu benguela. o sofrimento do jaquín é tão grande e forte quanto é desumana a realidade, num tem cura a dô qui cresce do martírio desalmado

Estou indo, mãe...

Solta esse negro na rua e volta!

o chicote voltô estalá no chão das pedra do pátio, Cuidado, Jaquín! Muntu cuidado, o aviso do abicu num conseguiu alertá o pretu benguela cum tempo de preparo pra defesa, na verdade, num tinha como o pretu agarrado pelo pescoço, sem fôlego e sem uso das mão fazê alguma coisa. depois de estremecê o chão com as tira do chicote, o muleque desalmado estalô as tira nos ombro e nas anca do jaquín, os golpe era dado à esmo, inté qui acertô na cabeça e puxô do lugá um dos óio do jaquín

Anda... criolo vagabundo!

o mulecote perdeu os cuidado, o estouro do ódio nas mão do piá armado se preparava pra matá o pretu véio benguela de nome jaquín. munta raiva da mãe e da visita e das galinha e dos pretu, munta raiva de tudo qui num deixava o mulecote crescê como ele qué

jaquín caiu na rua sem um grito, um pretu muntu pôco conhecido na villa, mais, pelas marca qui carrega no corpo, um pretu muntu usado e castigado. uma das mão ensaguinhada apertava a vista ôca enquanto a otra empurrava o chão da rua pra ele subí nas perna. num era só a dô qui ele carregava, podia vê o seu caixão de pano e barro, mais num queria saí sem o seu ôio

O macaco está esperando o quê?

Siôzinho!...

O que foi, Eurásia?

a dô e a raiva sacudia e tremia o corpo do pretu jaquín com a lembrança de tanta vida qui num teve, no coração só as tortura, os dente qui sobrô rangia, a língua parecia em carne viva de tanta vontade de dizê as palavra qui nunca foi dita, os ombro dobrado pelo peso do cativêro. cuspiu sangue no chão, ardia de desejo da libertação pela morte, tem coisa qui o tempo num cura, o vento só espáia nos óio e a chuva afunda

A siá Joanna lhe chama...

o piá soltô sem gosto de soltá a sissal, pisô na vista cega do jaquín e estalô otra veiz o chicote nas perna do pretu com um ôio só

... siôzinho, a siá sua mãe lhe chama!

Some daqui, criolo safado! Volta à África! Outro macaco que não tem mais serventia...

o pretu jaquín tropeçava um passo depois otro, a sissal agarrada no pescoço seguia arrastada nas pedra do beco, os dois seguia no rumo das rua. o mulecote num conseguiu segurá o riso e o suspiro da satisfação qui sentia pelo corpo, Acho que me saí bem, falô pra ele mesmo

oiô mais otra veiz pru benguela, firmô as vista inté ele dobrá a esquina do beco, O safado vai na direção da praça, jaquín queria o rumo da praça dos tabulêro

Siôzinho, a siá sua mãe...

oiô cruamente calmo pra eufrásia, num reclamô da descontinuação da tortura, mais deixô claro qui o jaquín e a felisaberta era coisa e bicho qui é pru dono fazê uqui é meió pru dono, pru muleque quem tem dono precisa licença pra tê vida

Tudo parado por nada, uma galinha que melhor ficaria na mesa do almoço e um criolo que respira, mas não tem vida, num queria dizê qui tava desgostoso pruqui perdeu a bucha pra praticá meió o uso do chicote, só pelo prazê de praticá, Mãe! Voltei...

Ainda bem, meu filho. A mamãe estava preocupada.

Não era preciso ter preocupação...

Você está bem, meu filho?

Sim. E por aqui, ficou tudo bem?

Graças à Deus, ninguém se machucou.

Então, tudo foi só um susto...

Sim.





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