domingo, 12 de agosto de 2018

histórias de avoinha: limonada e bolinhos

mulheres descalças


limonada e bolinhos
Ensaio 123B – 2ª edição 1ª reimpressão

baitasar



Eurásia! Onde se meteu essa negrinha? Eurásia!

a bondosa siá gostava quando gritava, num se importava com o acerto ou a justeza dos grito, sabia se aproveitá do berrêro. esganiçava as reclamação pra anunciá desprezo e rancô. os ingênuo acreditava sê valentia e costume a gritaria. isso de tá acostumada com grito inté pode sê, mais num é valentia. começâmo morrê depois do primêro grito do nascimento, cada grito é um dia a menos na soma de cada um, se eu pudesse dizê sem atrevimento ou cinismo, gritá menos pode aumentá a soma de cada um

donna jojô gritô de novo, menos dia na soma dela dos dia, Eurásia! Eurááásia, a bondosa siá grita pelo privilégio de sê quem é, mais parecia tá com a voz quebrada e véia, digna de lástima; tudo, na sua volta, parecia tá morto de medo. a vida sem memória se virava em pó, desarranjo e embaraço, ela seguia derramando na eurásia o esquecimento, o desperdício, a vontade de fugí e os grito qui viaja de graça no vento

as vista da preta mal dava pra segurá a chuva miúda dusóio, as vista da donna jojô com os grito ficava mais seca e estalada; essa num é a única diferença entre as duas, cada uma com sua razão, espeiava uma aparência jururu. tem munta diferença entre grito e triunfo, silêncio e derrota

eurásia tava com o espritu ajustado pra resistí no seu corpo quebrantado; siá joanna tava com seu espritu herniado pudrento dum corpo contrariado. um dia qualqué, elas num seria mais viva, só saudade, e depois, nem morta mais elas seria; as duas morria, tudo sempre morria, joanna sem fome e sem frio, mais ôca e vazia pudrento; eurásia morria pelo avesso, desbarrancando e violada, assim elas vivia e perdia a época mais boa de vivê enquanto a morte num vinha, mais se aconchegava diminuindo com paciência a soma dos dia

Sim, siá Joanna...

o grito e a resposta se entrelaça com uma qui gesticula e berra suas amargura enquanto a otra é ensombrada pelos fantasma fazendo bolinho amarelado e azeitado

E a limonada e os bolinhos, negrinha preguiçosa? Sempre fazendo corpo mole...

a língua da donna jojô continuava esmagando enquanto cavava um buraco de lodo qui grudava no céu da boca. o fardo da solidão noturna se aproximava e junto carregava as tonteira e as borrasca da dona da casa e tudo qui tava dentro, menos os varão. a voz fraturada tava ensopada de maldade, como a bolsa de veneno qui a cobra carrega na boca. o seu rosto jovem se deformava numa aparência retorcida e sombria; parecia uma cabeça sem corpo, acostumada a vencê pelo grito

a otra com a semeadura do espritu embaçada e fechada como um caramujo, refugiada em si mesma daquele mundo mau demais pra suportá, era o retrato da saudade insuportável, Tudo prontinho, donna Joanna. A mesa do lanche já está arrumada.

uma tarde fresca e de frescura, mais agitada

Arrumada... mas atrasada, no seu modo de vivê e de sentí a vida sem galanteio, num tinha vontade pra dá atenção de cuidado pra marido, fiu ou visita, muntu menó cuidado tinha pra preta escravizada; quase desmaiava daquela vida abafada, cadeada, sem ideia pra sê arrancada dali, num tinha otro lugá pra vivê, só tinha as galinha, a missa e as desfeita com estardalhaço qui podia fazê, seu curação sem esperança feito escombro apreciava o sofrimento e a tortura dos grito na eurásia

Siá Joanna... atrasou um pouquinho porque o miúdo aproveitou para lanchar.

a voz da eurásia denunciava afligimento com a opinião da donna jojô e o seu esforço pra agradá, mais num mostrava o curação nem os verdadêro pensamento qui num declarava, Como faço pra me libertá? Fugí... pra onde? Matá donna Jojô? Num quero matá ninguém, só quero saí daqui sem precisá fugí ou matá, saí saí saí, só saí, pensa assim, todo dia e noite, é um querê com toda força de vivê otra vida. é preciso tê munta força pra num deixá aparecê na garganta nehum quêxume nem a assombração da esperança esfarrapada qui carrega, chora no acompanhamento da própria sombra

Você tem sempre alguma desculpa esfarrapada na ponta da língua...

a preta já tava acostumada com aquela lengalenga cansativa e enjoativa da sua vadiagem; lutava pra num sentí o ódio com a falta da esperança igual donna jojô qui desprezava tudo, menos as trêis fia; no fim das conta, as duas muié vivia entre o embaraço, o incômodo e a aflição da solidão, nada lhes servia, Não sei por quê precisei nascer, escutô ela puruguntá pras fia ciscando, forçando o casco da terra sem quêxume ou ruído, trêis fêmea sem macho, sem galo, sem embaraço, incômodo ou aflição, chego a ter inveja de vocês, meninas. Ninguém, no meu galinheiro, vai lhes subir em cima ou machucar as partes mais secretas e cobiçadas de toda mulher. Sinto nojo. Resmungo para ele ser rápido, sem beijos com seu hálito podre, sem aqueles gemidos que não compreendo, não sei responder e nem sei se devo replicar. Gemidos de dor, talvez. Odeio, toda vez, quase sempre, que ele força sua entrada tirando lascas, estalando e gemendo enquanto fico deitada, parada; sinto que não quer mais nem meu fingimento, só quer um buraco. fico quase sempre desesperada, aborrecida, queria poder evitá-lo, é sempre tanta minha vontade de fugir. Como faço para me libertar? Fugir... para onde? Matar o sargento das polícias da Villa? Não quero matar ninguém, só quero sair daqui sem precisar fugir ou matar, sair sair sair, somente sair. O ruído da boca misturado com o barulho e o buquê da bunda. Fecho os olhos e rezo. Ave Maria cheia de graça, santificado seja o Vosso nome, o Senhor é contigo, o pão nosso de cada dia, bendita és entre as mulheres e bendito o pão nosso de cada dia, sempre me reze, me guarde, ilumine, amém. Até que ele sai da cama pingando e arrotando os dois buquê, vai em busca de uma garrafa toda de vinho. Estremeço de frio. Machucada. Suja. Molhada. Sento e abraço os joelhos, não consigo dormir. Tenho nos olhos a paisagem de um outro lugar. Pingo por pingo espero escorrer o bagaço dele. Continuo calada, não sei mais chorar. Rezo para essa fúria se acalmar e ficar mais distante, esporádica.

... está bem, já vamos entrar, largô a felisaberta no quintal com pulêro, recomendô às trêis um comportamento sem briga. depois, sem oiá pra donna gegê, convidô a visita pra tomá limonada, comer os bolinhos fritos de arroz e continuar nossa conversa. Os bolinhos da Eurásia são maravilhosos, eles não têm um queimadinho a mais. Ficam dourados no ponto. Ninguém na Villa frita bolinhos como a Eurásia.

Engraçado, todos esses anos e eu não tinha provado esses bolinhos.

É mesmo, donna jojô num sabia explicá pru qui nunca fez o convite prus bolinho nem pru qui hoje fez o encorajamento pra donnna gegê ficá, E vosmecê não provou a limonada, tem um gosto escondido que ela jura que não tem.

Vosmecê, minha amiga, não sabe a sorte que tem. Casou com o João, um partidão muito cobiçado na Villa. Tem um homem para chamar de seu. Um bom homem, respeitoso e admirado. E ganhou como dote de casamento a posse da Eurásia, uma negra educada, bonita, cheirosa e cozinheira muito competente.

donna jojô baxô a voz

Não se derrame em tantos elogios, amiga. Depois, vosmecê vai embora e fico eu aqui com uma negrinha cheia de balda.

a preta inclinô a cabeça pra espiá meió as duas qui passava do galinhêro pra sua cozinha, os pensamento voava longe, ajustava as conta se ia valê a pena dá uma, duas ou trêis canelada de deixá marca, sorria pras duas e media, Calma, Eurásia. Logo, a visita vai para casa e você vai ter que se virar sozinha, já tava bão sabê qui a limonada carregava as gota da água morna do xixi da preta, nem tão pouca nem tão muita, hehehehe, Calma, Eurásia. Elas não precisam saber, já está bom demais ver elas se deliciando e pedindo repetição.

Vosmecê tem sorte, Joanna.

Eu sei, sou uma mulher de muita sorte. O sinhô meu marido é um homem vistoso e não deixa faltar nada em nossa casa, uma voz lhe gritava pudrento, Mentira! Estou em ruínas, sinto-me como uma luz apagando no meio da escuridão, escutava essa voz toda veiz qui ficava ameaçada, então mudava o rumo da conversa e deixava os arrepio do desconforto pras amiga, E vosmecê, Georginna?

O que tem eu?

depois as otras voz qui carregava pudrento ficava gritando e se rindo das coisa esquisita qui ela escutava; às veiz, num gostava de escutá tanta voz, mais num era sempre qui ela se pensava esquisita na sombra da esperança com otras voz pudrento, Todas temos uma vida que não será vivida

donna gegê num sabia das voz qui se misturava pudrento da amiga, queria conversa pra tê conversa, mais num sabia onde ia o começo e o fim com donna jojô, Se as galinhas falassem eu pediria seus conselhos. Eu sei que há perguntas que não têm respostas. Teria que me contentar com seus silêncios. O segredo das galinhas.

toda cautela num era muntu nem bastante

Conte alguma novidade...

Novidade, respondeu sem respondê, tava com a voz baixa e pensativa, num chegava lembrá de nada, mais num podia ficá calada, queria parecê esperta e talentosa, num sabia como

então, ficô quieta e parada inté achá um lugá nos pensamento com a porta aberta, sem medo de entrá como o sapo num tem medo de saí nú da água

É... insistiu a donna jojô, conte alguma novidade. Mas antes, venha sentar, comer os bolinhos e tomar a limonada.

Novidades... na Villa? Neste fim de mundo?

Isso, mas prove os bolinhos e a limonada.

Hum... hum... mas é uma delícia. Eurásia, meus parabéns! Qual é o seu segredo? Conta...

Não posso, é segredo de família, foi a resposta da eurásia

donna jojô arregalô os óio e afinô a voz, a bolsa com veneno na boca tava escorrendo, num conseguia segurá no silêncio a leviandade das palavra tola e torta, sem rumo de bondade, cheias de insensatez e desonra

Segredo de família, Eurásia? Qual família? Nunca soube que você teve família!

num era palavra vazia, carregava o hálito de uma moribunda maldizente, eurásia podia sê a preta mina qui nasceu no tumbêro e deixô mãe falecida no nascimento. a fia das água qui garrô a vida nas têta do porão imundo e desumano do tumbêro, pelo menos, essa podia sê a história contada, mais tem quem juramente, em nome da vida sem medo da morte, qui a moça carregada pra dentro do casamento da donna jojô é metade irmã da siá joanna, nascida antes da siazinha tê feito o primêro aninho, mais isso num tem como se prová, e ficô assim, otra história do dito e num dito, o visto qui num foi visto, a verdade qui pode sê mentira ou pode num sê verdade e num sê mentira

Está bem, Joanna. Deixe a Eurásia para lá. Lembrei de algo...

donna gegê aparentô qui pensô na vida, quase chorô, pelo menos, foi uqui aparentô sem desatá o silêncio. parecia envergonhada de num tê muntu uqui dizê da própria vida qui levava sem novidade, sem uma paixão alegre e limpa ou um amante apaixonado. tinha noite qui passava batendo os dente, encolhida da friagi, Que patife são os homens, pensô sem se desatá do silêncio, sem se declará, todos sem-vergonha, se você dá o que eles querem, somem; se você não dá, escorregam-se entre os dedos. Queria um abraço de verdade, cheio de vontade, assim sentiria menos o frio da noite. Tem noite que custa passar.

Vamos, Georginna...

Sei lá, deixe-me pensar... Ah! Alguns dias atrás, salvei das ruas um cãozinho. Levei para minha casa.

donna jojô abriu os braço sorrindo e bateu palma, a muié dos pulícia é diferente das otra, ela se acostuma a dormí sozinha e se contentá com uqui tem, vive faminta e dorme quando pode esquecê o desatre da própria vida

Mas que fofa! Abrigando um animalzinho sem lar, maltratado e sem futuro. Ainda vai lhe ser útil. Quando ele rosnar ao teu lado, mete-lhe na boca uma migalha, e passará a farejar-te. Veja, Eurásia. Duvido que queira sair da nossa casa, onde tem tudo, desde a comida até um teto para morar.

donna gegê balanceô os ombro, num tinha pensado assim, foi só dó de vê tanto abandono, num quis tê ganho com o feito

Nem olhei bem para o coitadinho, meu lado materno foi mais forte. Depois, fui prestando mais atenção e percebi que ele não será muito bonitinho.

e tumbém num será muntu grande, pensô dizê, mais num disse. lembrô das palavra do pai, o siô filipi pança e rego, Não é a todos que devemos a verdade, é prudente deixar algumas coisas por dizer, Que coisas, papai, É preciso saber esconder o que não deve ser mostrado. Escutou, Georginna, ele sempre pruguntava no fim dos consêio, pra depois continuá sem ouví a resposta, É preciso ter uma capa, uma camuflagem e uma caraça, Por que, papai, A verdade mesmo quando justa pode não fazer bem.

O que vosmecê sente por ele? É muito bôbo? A amiga não vai largá-lo na rua, vai?

Não! Não posso, ele me consola e me dá coragem. Já acostumei com o rapazinho. Dorme na minha cama, uma fofura. Os meus pés ficam bem quentinhos. Ele tem os pelos bem macios.

Ele deve estar todo convencido.

Não sei, acho que não. O meu bebê já tem até roupinha.

Que fofo, menos um bichinho sofrendo nas ruas. Aposto que está feliz na casa nova...

Acho que sim.

E o nome dele? Já deu um nome para ele?

Não... eu não pensei nisto, ainda.

Amiga, vou ajudá-la escolher um nome.

donna jojô chamô eurásia, a artilharia das palavra pronta pra gritá. ela num ia tê nehuma mudança, num queria mudá, num queria perdê o conforto dos fundo da casa, o quintal com pulêro

O que você está esperando para servir mais limonada e bolinhos?




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