domingo, 27 de setembro de 2015

esses olhos doendo por horas de contemplação... sem asas como voar

Charles Aznavour



She





Ela


Ela pode ser o rosto que eu não consigo esquecer
Um traço de prazer ou de arrependimento
Talvez meu tesouro ou
O preço que eu tenho que pagar

Ela pode ser a música que o verão canta
Talvez o frescor que o outono traz
Talvez uma centena de coisas diferentes
No espaço de um dia

Ela pode ser a bela ou a fera
Talvez fome ou a fartura
Pode transformar cada dia em um paraíso
Ou em um inferno

Ela pode ser o espelho do meu sonho
O sorriso refletido no rio
Ela pode não ser o que parece ser
Dentro de sua concha

Ela, que sempre parece tão feliz no meio da multidão
Com os olhos tão pessoais e tão orgulhosos
Mas que não podem ser vistos
Quando choram

Pode ser o amor que não espera que dure
Pode vir das sombras do passado
Que eu irei me lembrar até o dia de minha morte

Ela talvez seja o motivo para eu sobreviver
A razão pela qual eu estou vivo
A pessoa que cuidarei através
Dos difíceis e imediatos anos

Eu, eu pegarei as risadas e as lágrimas dela
E farei delas todas minhas recordações
Para onde ela for, eu tenho que estar lá
O sentido da minha vida é ela



Composição: Charles Aznavour




La Boheme




La Bohème


Eu lhes falo de um tempo
Que os menores de vinte anos
Não podem saber
Montmartre naquele tempo
Colocava seus lilás
Até sob nossas janelas
E se o humilde quarto mobiliado
Que nos serviu de ninho
Não tinha um boa cara
Foi lá que a gente se conheceu
Eu que chorava miséria
E você que posava nua

A boêmia, a boêmia,
Isso queria dizer: a gente é feliz
A boêmia, a boêmia,
Nós só comíamos um dia em dois

Nos cafés vizinhos
Nós éramos alguns
Que esperávamos a glória
E apesar da miséria
Com o estômago oco
Nós não deixamos de crer na glória
E quando, em alguma taverna
Com uma boa comida quente
Nós pegávamos uma tela
Nós recitávamos versos
Juntos ao redor do aquecedor
Esquecendo do inverno

A boêmia, a boêmia
Isso queria dizer: você é bonita
A boêmia, a boêmia
E nós tínhamos idéas geniais

Freqüentemente me acontecia
Diante do meu cavalete
Passar noites brancas
Retocando o desenho
Da linha de um seio
Da curva de um quadril
E isto só pela manhã
A gente se sentava finalmente
Antes de um café com creme
Esgotados mas deliciados
Era preciso que a gente se amasse
E que amasse a vida

A boêmia, a boêmia
Isso queria dizer: a gente tem vinte anos
A boêmia, a boêmia
E nós vivíamos do ar do tempo

Qualquer dia desses
Eu farei um passeio
Ao meu antigo endereço
Eu não o reconheço mais
Nem as paredes, nem as ruas
Que viram minha juventude
E do alto de um escadaria
Eu procuro o atelier
Que não existe mais
Em sua nova decoração
Montmartre parece triste
E os lilás morreram

A boêmia, a bêemia
A gente era jovem, a gente era louco
A boêmia, a boêmia
Isso não quer dizer absolutamente nad
a


Composição: Charles Aznavour / Jacques Plante




Que C'est Triste Venise






Isabelle






sábado, 26 de setembro de 2015

Auto-ajuda: Canta forte, canta alto!

Martinho da Vila




Porque hoje é sábado, ainda.





"Canta, Canta minha gente"




"Quem é do mar não enjoa"




"Disritmia"





"Segure Tudo"







Pra que dinheiro e Pequeno Burgues





"Quem pode, pode" - "Volta pro morro"





quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Teatro Pedagógico: general

Parábolas de uma Professora



general


baitasar e paulo e marko




quase termino outro cigarro. pelo movimento no abrigo a reunião vai começar, espero que tenhamos frutos, apesar da árvore estar muito envelhecida e continuar agarrada a vida por suas raízes imensas com tentáculos de astúcia

Pessoal, queriam me desculpar pelo atraso. Estou chegando do velório de uma colega que faleceu na madrugada de hoje.

este que fala é o professor aguinaldo, diretor da escola, nomeado secretamente pelo baixo clero de ‘general’. eu, particularmente o chamo de meretíssimo. procuro com o olhar o professor botto, não consigo encontrá-lo

Meu Deus! Quem foi que faleceu, Aguinaldo?

A colega Sara Sampaio que trabalhou aqui na escola, alguns anos atrás. Uma pessoa muito amiga, apesar de bastante amarga nos últimos anos, depois de descobrir a doença que iria acompanhá-la até hoje.

estamos chocadas, algumas lembram de momentos que se passaram, outras não se recordam de nada, outros não conheceram, mas fica no ar a promessa que cedo ou tarde nos alcança a todos. o fim da jornada. ninguém é esquecido, leva-se o mesmo e adeus. a escolha é simples: viver junto ou viver só. não sinto medo, mas sinto que a solidão desaba sobre o abrigo, parecemos nos acabando juntas, queria sentir que estamos vivendo ligadas umas com as outras, mas estamos a cada dia nos separando aos pouquinhos, sem sabermos quando será para valer. tudo sempre acaba e muda, não adianta fugir ou cegar

Colegas, a reunião já vai iniciar, vamos para a sala quatorze.

Por quê na sala quatorze, Aguinaldo?

a professora acemira lembra para o ‘general’ que as reuniões são sempre realizadas na sala treze. não tem solução, as pequenas coisas nos tiram a paz

Alguns alunos estão fazendo cartazes, preparando as atividades do próximo sábado. Vamos para a sala quatorze.

o general aguinaldo está parado, na porta da sala do abrigo, por instantes, parecem brilhar no seu peito medalhas da condecoração por sua bravura em duros combates nas salas de aula, corredores e pátio, pulando trincheiras, esquivando de projéteis em batalhas vencidas e perdidas no corpo-a-corpo, no disse-não-disse, mas jurando a verdade no disse-que-disse. escapa da ruína e da inoculação venenosa da mais variada fauna de peçonhas. um peçonhento que sobrevive as granadas que explodem a todo instante, decepando e mutilando do corpo parte dos sonhos de mudar. alguns perdem os braços, outras as pernas e muitos sucumbem quando passam pelos portões. o portal de uma outra dimensão

Eles não poderiam usar outra sala, tinha que ser a treze?

ofélia se resmunga enquanto recolhe seu material e se sai à reunião

É apenas nesta escola que aluno escolhe e manda.

continuamos doentes de imbecilidade ou ofélia é a cura? ela se funga e refunfa suas rusgas enquanto lança um olhar por sobre os óculos na busca de apoio para o seu soar de atacar. as parcerias não estavam atentas ou dissimulavam evitando um ataque tão aberto e frontal. preferem as escaramuças. as guerrilhas de atacar e recuar. ofélia guarda a trombeta e cessa o toque de corneta, haveria outras oportunidades

Gurias, quem sabe marcamos uma reunião para discutirmos a sala em que devemos fazer nossas reuniões? O engraçado é que não teríamos onde nos reunirmos. A única sala disponível e eficiente, superior a todas as demais, está em uso pelos alunos. Nenhuma outra é comparável.

o cínico professor adail já se dirigindo à reunião com um pequeno sorriso no olhar. convidando-as para descerem a terra dos comuns e cultivarem um pequeno jardim, antes que só sejamos saudade sem poesia, sem concretitude. ou quem sabe, aprendamos tocar violões e esqueçamos as zangas e as rotas de fuga

Professores e professoras, aguardo todos e todas... na sala quatorze.

anuncia o diretor nomeado ‘general’ pelos soldados. sai. atrás de si no abrigo um murmúrio de insatisfação tribal. parece que a discussão que nos importa é sobre a troca de sala da reunião. nem é tão só um detalhe, é mais um episódio insignificante, mas teve lugar num desses momentos absurdos de nosso cotidiano. e eu? calada! sobretudo, sentindo um imenso cansaço. um aborrecimento do vazio. faltam-me as forças, pois continuo dividida entre seguir meus sentimentos ou ir-me para a reunião. torno a ceder às obrigações do quotidiano e vou sentar-me na fórmica fria

A reunião vai começar?

Vaaaaaai!

gritar é uma das contradições do triunfo na sala de aula, vitória de pirro

Alguém viu a minha bolsa?

Nãoooooooo!

seca como uma árvore sem folhas, raiz ou frutos. querendo uma pedagogia que se aproxime dos desprezados e humilhados pelo poder. será que é querer muito? diálogos amuados me permanecem, não os consigo esquecer, libertá-los de mim, desprender-me destas memórias, Esse eu acho que a gente deve reprovar, se for o caso, É muito inteligente, mas faz somente o que quer e aprova, Temos que mostrar para ele que não é bem assim, Precisa de um pequeno susto, Um empurrão. reunião pedagógica e conselho de classe são um amuamento, poderiam ser momentos para salvar todas as almas, uma oração pedagógica amorosa competente, Quem sabe a gente dá um incentivo, Será que com o incentivo ela não piora, novamente, Ah, não sei, ela merece, Comigo ela só fez desaforo, Mas ela é ótima, Em quê, Essa aí, comigo já está reprovada, Pelo menos nós fizemos a nossa parte. sonâmbulos, educar e cuidar é nossa tarefa e compromisso, Esse melhorou até nas atitudes, mas vai reprovar de novo, Comigo não fez nada, não faz nada, Está maravilhosamente reprovado. o escravo só deseja ser livre para ser um senhor de escravos, mas um professor de cada coisa não é só um professor de cada coisa, precisa ser a professora  que educa e cuida. precisamos ser o contrário do liberto transformado no capataz do derramamento do sangue. olhando sacrifícios indiferentes, como se a distância pudesse nos salvar das gotas que respingam em nossos sapatos


não sou boazinha nem anjinho, apenas cansei da miudeza em que se vive, transparente, invisível, miserável, parecendo que é feliz. tudo pra acalmar as culpas das gentes vestidas dos pés a cabeça com meu sangue. nem continuo na cabeça de quem ensina a escrever e ler, muitas vezes, nem me pareço eu mesma, tal a boniteza da imaginação lembrada, encantamento, Isso, fui arrebatada por alguma coisa ou alguém, Algum espírito, Talvez, quem sabe, o meu que retorna depois de sair a passear no mundo, Se eu fosse aquilo ou isso, Mas morri de tiro em luta de corpo a corpo, sem festa, íntima de tão perto e de improviso do matador. um dia haverá de berrar o aluno inconformado, desviado do fio de prumo, e a aluna indiferente do que deveria ser, inclinada, torta da forma de régua, e, juntos, tapando sem luto, com sua sobrevida, aos encaramentos, as pescarias do espírito e as ordens dos construtores do muro, deixarão de ser a mercadoria. Inconformados de morrer, antes do dia

quem sou eu? uma aluna da eja

nossa primeira aula com computador e o professor Abá, O que ele estará pensando da gente, Será que vai nos deixá toca nessas coisas de computador, Aposto que não vai permitir, todo cuidado é pouco. eu sei que não é apenas curiosidade, estou ansiosa e com medo de fazer feio, Imagina se começo dando um pânico no computador e ele pifa, vou estragar junto, Calma, guria, vê se para de pensá besteira. não consigo conter minha imaginação nem a nossa vontade de já estarmos apertando aqueles botões todos, Será que ele sabe pedir socorro se estiver em perigo, Sei lá, só vou fazê o que o professor Abá mandá, É pra isso que ele é pago, E muito bem pago, Mandar em gente que não sabe nada, Vivem reclamando do salário, do pouco jeito que temos de aprendê, mas ensinar a gente de verdade, nada. olho e escuto os gemidos, pequena conferência árida, penso em todos nós e me desculpo, devia ter aprendido com vocês quando éramos crianças, mas nunca é tarde, A escola tá com cara enrugada. espero que além das rugas tenha tesão, E eu, amiudada por idéias velhas, por não ter aprendido tudo bem direitinho quando era menina e jovem, na idade certa. hoje, mulher e quem sabe um dia mãe, mais adiante avó, preciso estar aqui. no fundo, bem lá no fundo, por eu não ter aprendido tudo direitinho quando era menininha, venho atrás do tempo de precisar professor professorando, para me treinar de novo, Coitados, aja paciência, Será que o professor vai faze exame com a gente, Não sei, mas eles sempre fazem. enquanto vou me entendendo com minhas recentes amizades, os travadouros vêm se chegando, mancando das idéias, escondidos das letras

pedras escavocadas das catacumbas pelo marcatório de nomes desconhecidos, rolamos sem gritos umas sobre as outras, até que nos acomodamos depois de perdermos muitas lascas pelo caminho, Voltei, Sim, Tem lugar pra mim, Tem, Graças à Deus, obrigado, meu Deus. sorte nossa de gente amiudada ter ajuda tão poderosa. não tem gostosura isso de ficar olhando a partida sem volta, não gosto de dor repetida
 



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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

num 23 de setembro de 1973 ele morreu, as flores da primavera pela primeira vez choraram

Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto

Pablo Neruda



Pablo Neruda nasceu em Parral, em 12 de julho de 1904. Era filho de José del Carmen Reyes Morales, e de Rosa Basoalto Opazo, morta quando Neruda tinha apenas um mês de vida. Ainda adolescente adotou o pseudônimo de Pablo Neruda (inspirado no escritor checo Jan Neruda), que utilizaria durante toda a vida, tornando-se seu nome legal, após ação de modificação do nome civil.

Morreu em Santiago em 23 de setembro de 1973, de câncer na próstata. Depois do golpe militar de 11 de setembro sua saúde havia se agravado e no dia 19 é transferido com urgência de sua casa na Isla Negra para Santiago, onde veio a morrer no dia 23 às 22 horas e 30 minutos na Clínica Santa Maria.




Te Amo





Te amo,
te amo de una manera inexplicable,
de una forma inconfesable,
de un modo contradictorio.


Te amo
con mis estados de ánimo que son muchos,
y cambian de humor continuamente.
por lo que ya sabes,
el tiempo, la vida, la muerte.


Te amo…
con el mundo que no entiendo,
con la gente que no comprende,
con la ambivalencia de mi alma,
con la incoherencia de mis actos,
con la fatalidad del destino,
con la conspiración del deseo,
con la ambigüedad de los hechos.


Aún cuando te digo que no te amo, te amo,
hasta cuando te engaño, no te engaño,
en el fondo, llevo a cabo un plan,
para amarte mejor.


Te amo…
sin reflexionar, inconscientemente,
irresponsablemente, espontáneamente,
involuntariamente, por instinto,
por impulso, irracionalmente.


En efecto no tengo argumentos lógicos,
ni siquiera improvisados
para fundamentar este amor que siento por ti,
que surgió misteriosamente de la nada,
que no ha resuelto mágicamente nada,
y que milagrosamente, de a poco, con poco y nada
ha mejorado lo peor de mí.


Te amo,
te amo con un cuerpo que no piensa,
con un corazón que no razona,
con una cabeza que no coordina.


Te amo
incomprensiblemente,
sin preguntarme por qué te amo,
sin importarme por qué te amo,
sin cuestionarme por qué te amo.


Te amo
sencillamente porque te amo,
yo mismo no sé por qué te amo.





Me gustas cuando callas






Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.






Mercedes Sosa
Poema 15 (Me gustas cuando callas)





Victor Jara
Poema 15 (Me gustas cuando callas)







O Carteiro e o Poeta






Biografía de Pablo Neruda (fragmento)








Pablo Neruda (1904-1973) - Primera Parte







O Teu Riso de Pablo Neruda recitado por Luma Carvalho






terça-feira, 22 de setembro de 2015

Teatro Pedagógico: xícara vazia

Parábolas de uma Professora



xícara vazia


baitasar e paulo e marko




quase termino meu terceiro cigarro. relaxo a cabeceira. tento afastar lembranças amontoadas num abscesso de espirais que sobem, flutuam e somem. sei que atiro em mim mesma, rendo-me com outra tragada. não tenho a conta exata, mas a tosse avisa que devo parar. não paro até terminá-lo ou terminar, estou tentando só viver o hoje. vem dando certo. não quero garantias. não tenho garantias

entro no abrigo

estou sozinha. quisera eu que pudesse assim, só fechar os olhos. mas é quando fecho os olhos que menos posso tudo e mais posso não desaparecer. faz-me tua presença em tudo. a reunião não inicia. devo estar com os cabelos perfumados com a fragrância marcante do fumeiro. foda-se. conheci um homem muito humilde, com uma vida muito sofrida, mas de uma simplicidade inigualável, que gostava de martelar coisas de madeira. um dia o fiz muito feliz, seus olhos brilhavam num sorriso incontrolável e largo. havia lhe dado algumas gramas de pregos, algum dia, talvez, eu precise me contentar com alguns pequeninos goles de ar

Ano que vem quero continuar com o mesmo nível. Já pensou, perder todo o esforço que fiz preparando minhas aulas?

fernanda maura, toda escola tem pelo menos uma fernanda maura, professora conhecida pelas quedas de braço que se dispõe enfrentar para manter seu status de mais antiga na escola, modus operandi que lhe permite fazer as suas escolhas de níveis e turmas para o ano seguinte, quanto mais antiga mais imunidades. são os anticorpos que nos permitem fazer do mesmo jeito o que sempre foi feito do mesmo jeito

Maura, você não cansa de repetir os mesmos conteúdos, ano após ano?

o samuel propõe um diálogo direto sobre variar coisas em nossas vidas, em todas as vidas. eu gostaria de variar esta mania de ficar sozinha com bocados espalhados. os domingos mormacentos, a escola morna e as paisagens embaciadas me arrastam

Samuel, anos de experiência me ensinaram que cada turma é diferente da outra, assim precisam ter os mesmos conteúdos

responde com um olhar de terna dor por seu colega, ele ainda não chegou onde ela já esteve e preferiu sair. acredita que se salvou. eu o vejo virar-se e partir para as calendas gregas. desistiu, tudo se parece com um domingo, Si alguna vez me suicido, será en domingo. Es el día más desalentador, el más insulso. Quisiera quedarme en la cama hasta tarde, por lo menos hasta las nueve o las diez, pero a las seis y media me despierto solo y ya no puedo pegar los ojos. A veces pienso qué haré cuando toda mi vida sea domingo, tenho tantas leituras em mim, tantas labaredas que preciso amornar. sentada em alguma praça de algum lugar morno decorado com fórmicas verdes

Já abriram as inscrições para o remanejo?

Pensando em sair, Botto?

Ofélia, vai depender da biometria da Mônica.

responde lacônico e cansado. época de remanejo oportuniza solicitar transferência de escola, mudar, pôr-se em outro lugar, outros professores e professoras, outro alunado, maneiras diferentes de encontrar respostas e perguntar. uma chance de salvar um pouco do que ainda resta dos sonhos ou uma oportunidade de fugir desesperadamente, na esperança de descobrir um outro lugar, um outro aluno, um outro sonho, um outro jantar, uma outra vida, outras formigas. esses domingos mornos me perseguem

Gurias e guris, estou em novo momento, outro concurso e outra nomeação, voltei. Não consegui ficar quieta em casa olhando paredes e fotografias amareladas. Não consegui abandoná-las sozinhas nesta batalha. Pensei comigo mesma, Vou ajudar. E me alistei. Vim engrossar a tropa das mocinhas. Decidi trazer minha experiência de alguns anos atrás. Na escola em que me aposentei, a primeira vez, recebemos gratuitamente cadernos pedagógicos, envolvidas que estávamos com um projeto de melhoria da qualidade de ensino. Gente, num desses cadernos encontrei uma parábola oriental que me fez compreender a missão de todo professor. Esta parábola me acendeu uma luz, olhava no espelho e repetia, Jacobina, sua maluca, você descobriu como lidar e aquietar essas crianças inquietas, que acham que sabem tudo. Querem ouvir a parábola destes últimos dez anos da minha vida?

esta é a doidela jacobina, aposentada, fala baixinho, miudinho, no ano passado terminou seu estágio probatório, é da língua portuguesa. vive se queixando das dores nas pernas, varizes mal-cuidadas e escadas demais para subir e descer no front. eu acho que é um problema de peso, mas não opino nem pio, também tenho minhas dores

Claro, Jacobina.

Obrigado, Acemira. Bem... lá vai, pessoal. O título desta parábola oriental é: “A xícara transbordante”, ei-la: “Certa vez, um mestre oriental recebeu uma visita que queria saber algo sobre o ‘Conhecimento’. Mas, em vez de ouvir, o visitante só falava sobre as suas próprias idéias, ouvindo-o o mestre oriental resolveu servir um chá, encheu a xícara do visitante até transbordar e continuou a derramar o chá, finalmente, o visitante não se conteve e exclamou, Não vês que a xícara está cheia, Sim, respondeu o mestre parando de derramar, És como esta xícara, estás cheio de tuas próprias idéias, e terminou perguntando, Como queres que te mostre o ‘Conhecimento’, se não me trazes uma ‘xícara’ vazia”. Gurias, lindo, não é? Sempre que lhes lembro da historinha da xícara transbordante, é um santo remédio com os alunos muito agitados ou faladores. Faz muito tempo que não mando ninguém para a Direção.

meus deus, qual o papel do professor, pergunto-me aos gritos. ensino aprendendo. mostro caminhos caminhando. não caminho só, mas junto tudo, todos e a mim mesma pelo caminho. não posso ficar alheia aos diversos processos e inúmeras mudanças sociais do cotidiano, mudanças individuais minhas, deles e delas, mudanças nossas. precisamos desenvolver nossa consciência política junto com a nossa consciência do cotidiano, perceber e reconhecer que inúmeras teorias pedagógicas estão assentadas em realidades diversas do universo do nosso aluno e devemos responder se iremos manter o que foi criado ou questionar o que está posto, mas não explicitamente desvendado

Jacobina, você os vê como xícaras vazias, na espera, aguardando o depósito bancário do conhecimento. Como será que eles a vêem? Como uma chaleira ou um bule de porcelana? Uma antiguidade que poderão jogar no chão e quebrar, antes que você os afogue expelindo as vísceras mentais sobre eles?

uau, o desorientador samuel estava de volta das calendas gregas e não parece brincar, espero que não esteja brincando. na verdade, nem acemira está se prestando ouvir com atenção a jacobina, acredito que nem mesmo seus alunos se rendem à ela. que bom. mas a tirania moldada em cumplicidade com o medo e o silêncio nos faz parecer mentirosos, ela se instala entre pequenos gestos de caridade não afetuosa. ela não partilha, ela compra. pequenos fingimentos que se multiplicam em muitas e mais muitas mentiras, se as pessoas calam, consentem que mentiras desumanas se apropriem do cotidiano

Alguém viu a minha bolsa? A reunião já começou?

Cala a boca

a fenda pedagógica é tamanha que parece não ter fundo. talvez, a pedagogia seja uma traição inevitável e absolutamente necessária à educação popular, na fabricação de eunucos; talvez, histórias tristes e de lembrança dolorosa não sejam pedagogizadas apenas para acalmar a dor das senhoras e senhores desarmados; talvez, devamos aprender com nossa história. não podemos esquecer que a deterrente burguesia cria o seu próprio poder e, somente, começa a se preocupar com a marginalização quando a criminalidade maltrapilha a invade, e os miseráveis não estão mais invisíveis. os miseráveis, no tempo de serem homens impotentes e mulheres fracas, são úteis. a fraude pedagógica com as classes populares volta a me atormentar. mais um despropósito de fazer esperar amiudado aquele que já se chega sem muita vontade de chão abetumado. estranho isso de apontar aparência para essa gente invisível, impedida de brilhadura. gente que não enxergamos nem ao descer para o cobertor de terra, escavocado por dedos sem casco. a terra nem é jogada, desaba apressada, sem nome nem obrigado. a terra finalmente esconde e esquece. e se alimenta. pedras escavocadas das catacumbas, pelo marcatório de nomes desconhecidos, rolam sem gritos umas sobre as outras, não se apoiam e nunca se acomodam antes de perderem lascas. temos muitos lugares. sorte dessa gente amiudada ter a ajuda tão poderosa da pá e picareta olhando a partida sem volta, uma dor repetida



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