sábado, 1 de agosto de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Logo que Albertine saiu)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Logo que Albertine saiu, senti como era cansativa para mim essa presença perpétua, insaciável de vida e movimento, que perturbava o meu sono com seus movimentos e me fazia viver num constante resfriado devido às portas que deixava abertas, forçava-me para achar pretextos que justificassem não acompanhá-la, sem todavia parecer muito enfermo, e por outro lado, para fazê-la acompanhar- a inventar cada dia mais artimanhas que Sherazade. Infelizmente, se por uma artimanha igual a narradora persa adiava a sua morte, eu apressava a minha. Assim, há na vida certas situações, nem todas criadas, como esta, pelo ciúme amoroso e por uma saúde precária que não permite compartilhar da vida de uma criatura ativa e jovem, mas em que, mesmo assim, o problema de continuar a vida em comum ou de retornar à vida separada de antes, coloca-se de uma forma quase médica: à qual das duas espécies de repouso é necessário sacrificar-se (continuando a estafa diária, ou regressando às angústias da ausência): à do cérebro ou à do coração?
     De qualquer modo, sentia-me bem satisfeito que Andrée acompanhasse Albertine ao Trocadero, pois recentes e aliás minúsculos incidentes faziam com que, mesmo tendo é claro igual confiança na honestidade do motorista, sua vigilância ou pelo menos a perspicácia da sua vigilância já não me parecia tão boa como antes. Assim é que, ultimamente, tendo eu mandado Albertine sozinha com ele a Versalhes, Albertine me dissera ter almoçado nos Reservatórios. Como o motorista me falara do restaurante Vatel, no dia em que percebi essa contradição, arrumei um pretexto para descer e falar ao chofer (sempre o mesmo, aquele que vimos em Balbec) enquanto Albertine se vestia.

- Outro dia você me disse que havia almoçado no Vatel; a Srta. Albertine me fala dos Reservatórios. Que significa isso? - 

     O chofer respondeu:

- Ah, eu disse que tinha almoçado no Vatel, mas não posso saber onde a senhorita almoçou. Ao chegar a Versalhes, ela me deixou para tomar um fiacre puxado a cavalo, o que ela prefere quando não é para andar na estrada. 
- Já me enfureci pensando que ela ficara sozinha; enfim, fora apenas para almoçar. Você não poderia - disse eu com ar gentil (pois não queria parecer estar positivamente mandando vigiar Albertine, o que teria sido humilhante para mim, e duplamente, pois aquilo significaria que ela me ocultava as suas ações) - almoçar, não digo com ela, mas no mesmo restaurante? 
- Mas ela me havia pedido que só às seis da tarde estivesse na Praça de Armas. Eu não deveria ir buscá-la à saída do seu almoço.
- Ah - disse eu, procurando dissimular meu abatimento.

     E subi de novo. 
     Assim, Albertine estivera sozinha mais de sete horas, entregue a si mesma. É verdade que eu bem sabia que o fiacre não fora um simples expediente para se desembaraçar da vigilância do chofer. Na cidade, Albertine preferia passear de fiacre, dizia que se via bem, que o ar era mais puro. Apesar disso, ela passara sete horas sobre as quais eu nunca saberia coisa alguma. E não ousava imaginar no modo como ele as empregara. Achei que o motorista fora muito inábil, mas minha confiança nele, daí em diante, foi completa. Pois, se ele estivesse de combinação com Albertine, jamais teria me confessado que a deixara livre das onze da manhã às seis da tarde. Só haveria outra explicação, porém absurda, para a confissão do motorista. É que uma briga entre ele e Albertine lhe tivesse dado o desejo de, fazendo-me uma pequena revelação, mostrar à minha amiga que era homem capaz de falar e que, se depois da primeira advertência, feita de modo benigno, Albertine não andasse direito conforme ele queria, iria denunciá-la abertamente. Mas tal explicação era absurda; era preciso primeiro supor uma desavença inexistente entre ele e Albertine, e depois atribuir uma natureza de vigarista àquele bom chofer, que sempre se mostrara tão afável e tão bom rapaz. Aliás, dois dias depois eu percebi que, mais do que supusera; por um momento em minha loucura suspicaz, ele sabia exercer sobre Albertine uma vigilância aguda e discreta. Pois, tendo podido lhe falar particularmente a respeito do que me contara acerca de Versalhes, dizia-lhe com ar amistoso e natural:

- Aquele passeio a Versalhes, de que me falou anteontem, era perfeito, e você foi perfeito como sempre. Apenas, como uma pequena recomendação, aliás sem importância, tenho tal responsabilidade desde que a Sra. Bontemps pôs a sua sobrinha sob a minha guarda, que sinto muito medo de acidentes; e me censuro tanto por não acompanhá-la que prefiro que seja você, tão seguro, tão maravilhosamente hábil, que leve a Srta. Albertine a toda parte. Assim, não receio nada. -

     O encantador chofer apostólico sorriu com finura, com a mão no volante em forma de cruz de consagração. Depois disse-me estas palavras que (expulsando as inquietudes do meu peito, onde logo foram substituídas pelo júbilo) me deram vontade de lhe saltar ao pescoço: 

- Não tenha medo - disse. - Nada pode lhe acontecer, pois, quando o meu volante não a leva, o meu olhar a segue por toda parte. Em Versalhes, como quem não quer nada, visitei a cidade por assim dizer com ela. Dos Reservatórios ela foi ao Château, do Château aos Trianons, e sempre eu na sua cola sem que parecesse vê-la, e o melhor é que ela não me viu. Oh, se ela me visse, não tinha importância. Era natural que, tendo o dia inteiro à minha frente sem fazer nada, eu também visitasse o Château. Tanto mais que a senhorita certamente já percebeu que tenho alguma leitura e que me interesso por todas as velhas curiosidades (era verdade, eu teria até ficado surpreendido se soubesse que ele era amigo de Morel, de tanto que ultrapassava o violinista em gosto e finura). Mas enfim, ela não me viu. 
- Aliás, deve ter encontrado amigas, pois tem muitas delas em Versalhes. 
- Não, estava sempre sozinha. 
- Devem observá-la então; uma jovem deslumbrante e sozinha! 
- É certo que a olhem, mas ela quase não dá atenção, pois tem os olhos no guia o tempo todo, e depois ergue-os para os quadros. - 
  
     A narrativa do motorista me pareceu tanto mais exata quanto fora, de fato, um cartão-postal representando o Château e um outro representando os Trianons, que Albertine me mandara no dia de seu passeio. A atenção com que o gentil chofer a seguira passo a passo muito me comoveu. Como poderia supor que essa retificação, sob a forma de um vasto complemento às suas palavras da antevéspera, derivasse de que, no decurso desses dois dias, Albertine, alarmada com a ideia de que o chofer me falasse, fizera as pazes com ele? Tal suspeita nem mesmo me ocorreu.
     É certo que o depoimento do motorista, tirando-me todo o medo de que Albertine me enganasse, esfriou-me muito naturalmente em relação à minha amiga, tornando menos interessante o dia que ela passara em Versalhes. Todavia, creio que as explicações do chofer que, inocentando Albertine, fazia-a ainda mais aborrecida a meus olhos, não teriam talvez bastado para me acalmar tão depressa. Duas pequenas espinhas que minha amiga teve na testa durante alguns dias conseguiram, talvez melhor ainda, modificar os sentimentos do meu coração. Por fim, tais sentimentos se desviaram dela, a ponto de eu só me lembrar de sua existência quando a via, devido à confidência singular que me fez a camareira de Gilberte, encontrada por acaso. Fiquei sabendo que, quando eu ia diariamente à casa de Gilberte, ela amava um rapaz a quem via muito mais que a mim. Por um instante eu suspeitara disso, à época, e até mesmo interrogara a respeito esta mesma camareira. Mas, como ela sabia que eu estava apaixonado por Gilberte, havia negado o fato, jurando que a Srta. Swann nunca vira aquele rapaz. Mas agora, sabendo que meu amor estava morto há tanto tempo, que há muito eu deixara sem respostas as cartas de GiIberte (e talvez também porque já não estava a serviço da moça), espontaneamente contou-me por extenso o episódio amoroso que eu não tinha sabido. Isso lhe parecia muito natural. Lembrando-me de seus juramentos de então, julguei que ela não estivesse a par. Absolutamente; era ela mesma que, sob as ordens da Srta. Swann, ia prevenir o rapaz logo que aquela a quem eu amava estava a sós. Que eu amava então... Mas não me perguntei se meu amor de outrora estava tão morto quanto o julgava, pois essa narrativa me foi penosa. Como não creio que o ciúme possa ressuscitar um amor morto, imaginei que minha triste impressão era devida, ao menos em parte, ao meu amor-próprio ferido, pois várias pessoas de quem eu não gostava e que naquela época, e até mesmo um pouco depois isto mais tarde mudou-, afetavam a meu respeito uma atitude de desprezo, sabiam perfeitamente, enquanto eu estava tão apaixonado por Gilberte, que me portava como um iludido. E tal constatação me fez até indagar, retrospectivamente, se no meu amor por Gilberte não houvera uma parcela de amor-próprio, visto que sofria tanto agora por verificar que todas as horas de ternura que me haviam feito tão feliz, eram conhecidas como uma verdadeira traição de minha amiga à minha custa, pelas pessoas de quem eu não gostava. Em todo caso, amor ou amor-próprio, Gilberte estava quase morta em mim, porém não de todo, e esse aborrecimento acabou por impedir que eu me preocupasse demais com Albertine, que ocupava uma faixa tão estreita em meu coração. Não obstante, para voltar a ela (depois de um parêntese tão longo) e a seu passeio a Versalhes, os cartões-postais de Versalhes (pode-se, então, ter assim o coração simultaneamente consumido por dois ciúmes entrecruzados, cada qual se referindo a uma pessoa diferente?) me davam uma impressão um tanto desagradável, cada vez que, arrumando papéis, meus olhos caíam sobre eles. E eu pensava que, se o motorista não fosse um homem correto, a concordância de seu segundo depoimento com os cartões-postais de Albertine não teria significado muita coisa, pois o que é que nos mandam de Versalhes senão o Château e os Trianons, a menos que o cartão seja escolhido por um sujeito requintado, amoroso de uma determinada estátua, ou por algum idiota elegendo como vista a estação de bondes a cavalo ou a gare dos Chantiers?
     E ainda erro dizendo um idiota, pois esses cartões-postais nem sempre foram comprados por um deles ao acaso, pelo interesse de vir de Versalhes. Durante dois anos, os homens inteligentes e os artistas acharam Siena, Veneza, Granada uma chatice, e diziam de qualquer ônibus e de todos os vagões: 

- Isto é que é belo. -

     Pois esse gosto passou, como os outros. Nem mesmo sei se não se voltou ao "sacrilégio de destruir as coisas nobres do passado". Em todo caso, um vagão de primeira classe deixou de ser considerado a priori como mais belo que São Marcos de Veneza. Entretanto, dizia-se:

- Ali é que está a vida, a volta para trás é uma coisa artificial -, mas sem tirar disso uma conclusão clara. Para estar mais seguro, e embora tendo toda a confiança no chofer e para que Albertine não pudesse livrar-se dele sem que ele ousasse recusar por medo de passar por espião, não a deixei mais sair sem o reforço de Andrée, ao passo que por algum tempo o chofer me bastara.

     Eu até a deixara então (o que não teria ousado fazer desde aí) ausentar-se durante três dias, sozinha com o chofer, e ir até as vizinhanças de Balbec, de tanta vontade que ela havia mostrado de rodar pela estrada em simples chassis a toda velocidade. Três dias em que eu ficara bem tranquilo, embora a chuva de cartões-postais que ela me enviara só me houvesse chegado às mãos, devido ao detestável funcionamento do correio bretão (bom no verão, mas muito desorganizado no inverno), oito dias depois do regresso de Albertine e do chofer, tão corajosos que na própria manhã do regresso retomaram, como se nada tivesse havido, o passeio cotidiano. Mas desde o incidente de Versalhes eu tinha mudado. Estava entusiasmado que Albertine fosse hoje ao Trocadero, àquela vesperal "extraordinária", mas, sobretudo, tranquilo por sabê-la na companhia de Andrée.
     Abandonando esses pensamentos, agora que Albertine saíra, fui colocar-me por um momento à janela. Primeiro houve um silêncio, em que o apito do vendedor de tecidos e a buzina do bonde fizeram ressoar o ar em oitavas diferentes, como um afinador de piano cego. Depois, aos poucos, tornaram-se distintos os motivos entrecruzados aos quais se juntavam outros novos. Havia também em outro apito, chamamento de um vendedor de quem nunca soube o que vendia, apito que era exatamente igual ao de um bonde, e como não fosse levado pela velocidade poder-se-ia dizer um só bonde, não dotado de movimento, ou que estivesse com uma pane, imobilizado, gemendo a curtos intervalos como um animal agonizante.
     E parecia-me que, se jamais devesse deixar esse bairro aristocrático a menos que me mudasse para outro inteiramente popular-, as ruas e as alamedas do centro (onde a frutaria, a peixaria, etc., estabilizada em grandes casas de gêneros alimentícios, tornavam inúteis os gritos dos vendedores, que aliás não teriam conseguido fazer-me ouvir) me dariam a impressão de serem bem tristes, bem inabitáveis, despojadas, filtradas de todas aquelas ladainhas dos pequenos ofícios e das comedorias ambulantes, privados da orquestra que vinha me encantar desde a manhã. Na calçada, uma mulher pouco elegante (ou obediente a uma moda feia) passava, clara demais num paletó saco de pelo de cabra; mas não, não era uma mulher, era um motorista que, enfiado no seu casaco de pele, voltava a pé para a garagem. Saindo dos grandes hotéis, os grooms alados, de tons cambiantes, curvados sobre o guidom das bicicletas, corriam velozmente para as gares, a fim de alcançar os viajantes do trem da manhã.
     O ressoo de um violino era causado às vezes pela passagem de um automóvel, às vezes por eu não ter posto água suficiente no meu saco elétrico. Em meio à sinfonia destoava uma ária fora de moda: substituindo a vendedora de bombons que de costume acompanhava sua melodia com uma matraca, o vendedor de brinquedos, em cuja flauta de cana estava preso um boneco, que ele fazia mover em todos os sentidos, ia levando outros bonecos de engonço e, sem se preocupar com a declamação ritual de Gregório o Grande, com a declamação reformada de Palestrina e com a declamação lírica dos modernos, entoava a plenos pulmões, partidário atrasado da melodia pura:

Vamos, papais, vamos mamães/ Satisfaçam seus filhinhos: Eu mesmo os faço, eu mesmo os vendo/ E eu mesmo recolho o dinheiro. Tra-lá-lá-lá, trá-lá-lá-lé/ Trá-lá-lá-lá-lá-lá-lá Vamos, crianças!

     Italianinhos de gorro na cabeça não tentavam resistir àquela aria vivaz, e, sem dizer nada, ofereciam suas pequenas estatuetas. Enquanto que um pequeno pífaro obrigava o vendedor de brinquedos a afastar-se e a cantar de modo mais confuso, embora presto: "Vamos papais, vamos mamães." Seria o pequeno pífaro um daqueles dragões que eu ouvia de manhã em Doncieres? Não, pois o que se seguia eram estas palavras: 

- Aqui está o consertador de faianças e de porcelana. Conserto vidros, mármores, cristais, ossos, marfins e objetos de antiguidades. Aqui está o consertador.

     Num açougue, onde à esquerda havia uma auréola de sol e à direita um boi inteiro pendurado, um açougueiro muito alto e magro, de cabelos louros, com o pescoço saindo de um colarinho azul-celeste, separava, com rapidez vertiginosa e uma religiosa consciência, de um lado os filés mais escolhidos e de outro a pior alcatra, colocava-os em deslumbrantes balanças superadas por uma cruz, de onde pendiam belas correntes e (embora a seguir só se ocupasse em arrumar no mostrador os rins, turnedôs e entrecostos) dava na realidade muito mais impressão de um belo anjo que no Dia do Juízo Final irá preparar para Deus, conforme suas qualidades, a separação dos Bons e dos Maus, e a pesagem das almas. E novamente o pífaro agudo e esguio subia nos ares, anunciador não mais das destruições que Françoise temia, cada vez que desfilava um regimento de cavalaria, mas de "reparações" prometidas por um "antiquário" ingênuo ou zombeteiro, e que, de qualquer modo bastante eclético, longe de se especializar, tinha por objeto de sua arte as mais diversas matérias. As pequenas entregadoras de pão se apressavam a empilhar em seus cestos os pãezinhos destinados ao almoço, e, a seus ganchos, as leiteiras rapidamente penduravam as garrafas de leite. A nostálgica visão que eu tinha dessas meninas, podia considerá-la exata? Não seria uma outra caso eu pudesse conservar imóvel, junto a mim, por alguns instantes, uma dessas que, das alturas da minha janela, eu só enxergava na loja ou de fugida? Para avaliar a perda que me causava a reclusão, isto é, a riqueza que me ofertava o dia, seria preciso interceptar, no longo desenvolvimento da frisa animada, alguma garota que levasse leite ou roupa lavada, fazê-la passar por um momento, como uma silhueta de cenário móvel, entre os batentes, pelo vão da minha porta, e retê-la sob meus olhos, não sem obter a seu respeito algumas informações que me permitissem reencontrá-la um dia, semelhantes à ficha sinalética que os ornitólogos ou os ictiólogos pregam, antes de devolver-lhes a liberdade, no ventre dos pássaros ou dos peixes, cujas migrações desejam poder identificar.
     Assim, disse a Françoise que, para um recado que eu queria enviar, mandasse-me ela uma dessas meninas que vinham frequentemente levar e trazer a roupa, o pão ou as garrafas de leite, e que ela muitas vezes mandava à rua em pequenas comissões. Nisso eu me parecia a Elstir, que, obrigado a ficar trancado em seu ateliê, em certos dias de primavera, quando, sabendo que os bosques estavam cheios de violetas, sentia um desejo violento de vê-las, mandava a porteira lhe comprar um buquê; então, comovido, alucinado, não era a mesa sobre a qual depusera o pequeno modelo vegetal, mas todo o tapete de vegetação rasteira, onde vira outrora, aos milhares, hastes serpentinas se dobrando sob seu bico azul, que Elstir pensava ter sob os olhos como uma zona imaginária, encerrada em seu ateliê pelo límpido aroma da flor evocadora.
     Num domingo não era de esperar que viesse uma lavadeira. Quanto à padeirinha, por um acaso infeliz ela havia tocado a campainha num momento em que Françoise estava ausente, deixara os pães no cesto, no patamar da escada, e escapulira. A vendedora de frutas só viria bem mais tarde. Uma vez eu tinha entrado na leiteria para encomendar um queijo e, no meio das empregadinhas, havia reparado numa moça, verdadeira extravagância loura, de porte alto embora pueril, e que, no meio das outras vendedoras, parecia sonhar, numa atitude bem altiva. Eu só a vira de longe e passando tão rápido que não poderia dizer como era, a não ser que devia ter crescido depressa demais e sua cabeleira dava muito menos idéia das particularidades capilares que de uma estilização escultural dos meandros isolados de nevados paralelos. Fora tudo o que eu distinguira, bem como um nariz muito desenhado (coisa rara numa criança) num rosto magro, e que lembrava o bico dos filhotes de abutres. Além disso, o grupo das companheiras a seu redor não fora a única coisa a me impedir de observá-la bem, mas igualmente a incerteza dos sentimentos que eu poderia lhe inspirar à primeira vista e a seguir, fossem de altivez indomável, ou de ironia, ou de um desdém que mais tarde exprimisse às amigas. Tais suposições alternativas que eu fizera em um segundo a seu respeito tinham espessado em torno dela a atmosfera perturbadora em que ela se ocultava, como uma deusa na nuvem que o raio faz tremer. Pois a incerteza moral é uma causa maior de dificuldades para uma exata percepção visual do que o seria um defeito material do olho. Naquela jovem magra demais e que também chamava demais a atenção, o excesso do que um outro talvez qualificasse de encantos era justamente o que me desagradava, mas, ainda assim, tivera como resultado impedir-me de perceber alguma coisa e, pela mais forte razão, de não me lembrar nada das outras empregadinhas, que o nariz arqueado desta, o seu olhar, algo tão pouco agradável, pensativo, pessoal, dando a impressão de julgar, tinham mergulhado na noite à maneira de um relâmpago louro que entenebrecesse a paisagem circundante. E assim, da minha visita para encomendar um queijo na leiteira, eu só me lembrara (se é que se pode dizer "lembrar-se" a propósito de um rosto, tão mal observado que adaptamos dez vezes ao nada do rosto um nariz diferente), eu só me lembrara da moça que me havia desagradado. Isso foi o bastante para fazer começar um amor. No entanto, eu teria esquecido a extravagância loura e jamais desejaria revê-la, se Françoise não me houvesse dito que, embora muito nova, essa garota era espertíssima e ia abandonar sua patroa porque, demasiado coquete, fizera dívidas no bairro. Diz-se que a beleza é uma promessa de felicidade. Inversamente, a possibilidade do prazer pode indicar um princípio de beleza.
     Pus-me a ler a carta de minha mãe. Através das citações da Sra. de Sévigné ("Se meus pensamentos não são inteiramente negros em Combray, são pelo menos de um cinzento-escuro; penso em ti a todo instante; desejo a tua presença; tua saúde; teus assuntos, tua ausência; que pensas que tudo isso pode fazer no luscofusco?") eu sentia que ela estava aborrecida por ver que a temporada de Albertine em nossa casa se prolongava, e se afirmavam, embora ainda não declaradas à noiva, as minhas intenções de casamento.
     Ela não me dizia mais diretamente por temer que eu largasse suas cartas em qualquer lugar. E ainda me censurava, por mais veladas que elas fossem, por não avisá-la imediatamente do recebimento de cada uma: "Sabes muito bem que a Sra. de Sévigné dizia: 'Quando se está distante, já não se zomba das cartas que principiam por: recebi a sua."' Sem falar do que mais a inquietava, ela se dizia zangada com minhas grandes despesas: "Em que se vai todo o teu dinheiro? Já me atormenta bastante que tu, como Charles de Sévigné, não saibas o que queres e que sejas 'dois ou três homens ao mesmo tempo', mas pelo menos trata de não ser como ele nos gastos e que eu não possa dizer de ti: 'Ele achou um meio de gastar sem parecer, de perder sem jogar e de pagar sem ficar quites."'
     Eu acabava de ler a carta de mamãe quando Françoise voltou para me dizer que ali estava justamente a pequena leiteira, um tanto ousada demais, da qual me havia falado. 

- Ela poderá muito bem levar a carta do senhor e dar algum recado desde que não seja para muito longe. O senhor vai ver, ela parece um Chapeuzinho Vermelho, - Françoise foi buscá-la e ouvi que a conduzia, dizendo: 
- Ora vamos, estás com medo porque há um corredor, sua fingida, pensava que fosses menos acanhada. Será que vou precisar segurar a tua mão? -

     E Françoise, como boa e honesta empregada que acha dever em respeitar o patrão como ela própria o respeita, revestia-se daquela majestade que enobrece as alcoviteiras nesses quadros dos velhos mestres, onde ao lado delas se dilui quase à insignificância o casal de amantes.
     Elstir, quando as olhava, não tinha de se preocupar com o que faziam as violetas. A entrada da pequena leiteira logo me tirou a calma de contemplador; só pensei em tornar verossímil a fábula da carta que ela haveria de levar e me pus a escrever com rapidez, sem ousar encará-la senão às furtadelas, para não parecer tê-Ia feito entrar só para aquilo. Para mim, ela estava ornada com o encanto do desconhecido, que eu não poderia ver acrescentado a uma bonita moça nessas casas em que elas nos esperam. Não estava nem nua nem disfarçada, mas era uma legítima empregadinha de leiteria, dessas que imaginamos tão bonitas quando não temos tempo de nos aproximar delas; era um pouco do que constitui o eterno desejo, a eterna tristeza da vida, cuja dupla corrente por fim é desviada e trazida para junto de nós. Dupla, pois trata-se do desconhecido, de uma criatura que adivinhamos dever ser divina, por causa da sua estatura, das suas proporções, seu olhar indiferente, sua tranqüila altivez; por outro lado, queremos que essa mulher seja bem especializada em sua profissão, permitindo-nos a evasão para esse mundo que um costume particular nos faz romanticamente julgar diverso. De resto, se procuramos enquadrar numa fórmula a lei das nossas curiosidades amorosas, seria preciso buscá-la no afastamento máximo entre uma mulher avistada e uma mulher que se aborda e acaricia. Se as mulheres daquilo que antigamente se chamava casas de tolerância, se as próprias meretrizes (desde que as saibamos meretrizes) nos atraem tão pouco, não é que sejam menos bonitas que as outras, é que elas estão inteiramente a nosso dispor; é que o que se busca exatamente atingir elas já no-lo ofertam; é que não são conquistas. O afastamento aí é mínimo. Uma prostituta já nos sorri na rua como o fará junto a nós. Somos escultores. Queremos obter de uma mulher uma estátua inteiramente diversa da que ela nos apresentou. Vimos uma jovem indiferente, mal-educada, à beira-mar; vimos uma caixeira ativa e séria, no seu balcão, que nos responderá com secura, ainda que seja apenas para não se tornar objeto das zombarias das companheiras, uma vendedora de frutas que mal nos responde. Pois bem, não sossegamos enquanto não pudermos experimentar se a jovem altiva de beira-mar, se a caixeira que pouco se importa com o que dizem dela, se a distraída vendedora de frutas não são suscetíveis, depois de manobras sagazes de nossa parte, de concordarem dobrar sua atitude retilínea, de rodear-nos o pescoço com esses braços que trazem frutas, de inclinar sobre nossa boca, num sorriso que consente, os olhos até então glaciais ou distraídos; beleza dos olhos severos nas horas de trabalho, em que a operária receava tanto a maledicência das companheiras, olhos que se furtavam aos nossos olhares obsessivos e que agora, que estamos a sós, baixam as pupilas ao peso ensolarado do riso quando falamos de fazer amor).
     Entre a caixeira, a lavadeira atenta a passar roupa, a vendedora de frutas, a moçada leiteria - e esta mesma garota que vai se tornar nossa amante -, atinge-se o máximo de afastamento, levado a seus limites extremos, e variado por esses gestos habituais da profissão, que fazem dos braços, enquanto dura o trabalho, algo tão diferente quanto possível, como arabesco, desses elos suaves que todas as noites já enlaçam nosso pescoço ao passo que a boca se apresta para o beijo. Assim, passamos toda a nossa vida em inquietas manobras, incessantemente renovadas, junto às jovens sérias e cujo mister parece afastá-las de nós. Uma vez em nossos braços, elas já não são o que eram, está suprimida a distância que sonhávamos franquear. Porém recomeçamos com outras mulheres, com tais empreendimentos gastamos todo o tempo de que dispomos, todo o dinheiro, todas as forças, explodimos de raiva contra o cocheiro demasiado lento que talvez nos faça perder o primeiro encontro, temos febre. Esse primeiro encontro, sabemos todavia que acarretará o desvanecimento de uma ilusão. Não importa; enquanto durar a ilusão, queremos ver se podemos mudá-la em realidade, e então pensamos na lavadeira em cuja frieza reparamos. A curiosidade amorosa é como a que em nós excitam os nomes de países; sempre decepcionada, renasce e permanece sempre insaciável.
     Ai de mim! Uma vez junto comigo, a loura leiteira de mechas estriadas, destituída de tanta imaginação, de tantos desejos despertados em mim, achou-se reduzida a si própria. A nuvem fremente de minhas suposições já não a envolvia de vertigem. Ela assumia um ar todo envergonhado de só ter um nariz (em lugar dos dez, dos vinte, de que me lembrava sucessivamente, sem poder fixar a lembrança), mais redondo do que o imaginara, que lhe dava um ar de estupidez e, de qualquer modo, perdera a faculdade de se multiplicar. Esse voo capturado, inerte, aniquilado, incapaz de acrescentar coisa alguma à sua pobre evidência, já não dispunha da minha imaginação para colaborar com ele. Caído no real imóvel, tentei reagir; as faces, não percebidas na loja, pareceram-me tão lindas que fiquei intimidado e, para recobrar a naturalidade, disse à garota: 

- Poderia me fazer o favor de me alcançar o Fígaro que está aí; preciso ver o nome de um lugar aonde quero mandá-la.-
     
continua na página 59...
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Volume 2
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Volume 4
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A Prisioneira (Prefácio)
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