sábado, 1 de agosto de 2026

Augusto dos Anjos - O Deus-Verme

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


0 Deus-Verme

Factor universal do transformismo, 
Filho da teleológica matéria, 
Na superabundancia ou na miséria, 
Verme — é o seu nome obscuro de baptismo. 

Jamais emprega o acérrimo exorcismo 
Em sua diária occupaçâo funerea, 
E vive em contubernio com a bactéria, 
Livre das roupas do anthropomorphismo. 

Almoça a podridão das drupas agras, 
anta hydrópicos, roe vísceras magras 
E dos defuntos novos incha a mão. 

Ah! Para elle é que a carne podre fica, 
E no inventario da matéria rica 
Cabe aos seus filhos a maior porção!  


Debaixo do Tamarindo 

No tempo de meu Pae, sob estes galhos, 
Como uma vela fúnebre de cera, 
Chorei bilhões de vezes com a canceira 
De inexorabilissimos trabalhos!

Hoje, esta arvore, de amplos agasalhos, 
Guarda, como uma caixa derradeira, 
O passado da Flora Brazileira E
a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pafarem todos os relógios 
De minha vida, e a voz dos necrológios 
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando á pátria da homogeneidade, 
Abraçada com a própria Eternidade 
A minha sombra ha de ficar aqui!  

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  O Deus-Verme /  
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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