sábado, 1 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro (b)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


O MAIOR POETA BRASILEIRO

continuando...

     Mas os trovões que prenunciavam os cataclysmos cósmicos e sociaes, do outro lado do> oceano, com Hugo, esmoreceram, e se pôde com o tempo ouvir os accordes lyricos e apaixonados da voz desse mesmo immenso e outro poeta, e, com ella, outras vozes tão sentidas e delicadas desse tempo, as de Lamartine e de Musset.
     Aqui a campanha da Abolição teria o seu pri meiro êxito em 71, para conseguir todo e definitivo em 88; no anno immediato o Brasil alcançava a Republica. O "Poeta dos Escravos", como o Brasil lhe chamava, o "poeta republicano" como lhe chamaria Nabuco¹), o poeta nacional que fora Castro Alves, preenchera o seu destino, attingido esse ideal livre e democrático, exactamente quando a forma literária desses seus poemas tornara á simplicidade lyrica, ou á perfeição parnasiana.

[1] JOAQUIM NABUCO — Minha Formação, Rio, Paris, 1900, p. 7.

     Foi então, que se começou também a ouvir o outro Castro Alves, o definitivo Castro Alves, ly rico e commovido, poeta ás vezes perfeito, sempre original, que cantou o amor e a natureza, com uma sinceridade e uma espontaneidade ainda não conseguidas no Brasil, e que abafara, na sua gloria ruidosa, o poeta social. Ao poeta épico, de cujos alguns poemas pôde Alberto de Oliveira dizer que "exceptas algumas estâncias camoneanas não conheço em nossa lingua outros versos tão vibrantes"¹) substituiu-se o lyrico²) delicioso e in timo, e este não passará, porque é eterno o senti mento humano e só os grandes poetas o sabem exprimir, para os outros que o sentem e soffrem sem expressão. Mudara Castro Alves de feição, sem deixar de ser o mesmo, e entretanto com aquella originalidade, já proclamada, mas que primeiro lhe viu o difficil juizo de Machado de Assis, quando, em 68, exclamava pelo "Correio Mercantil": "Achei um poeta original", "a musa do Sr. Castro Alves tem feição própria"³). Com elle viria a concordar um moderno, José Oiticica, dizendo que criara essas três coisas que não existiam na poética nacional antes delle: a paisagem brasileira, o estylo brasileiro, o thema social brasileiro"4). Para o louvar, ou fazer-lhe apenas justiça, não preciso palavras minhas.

[1] ALBERTO DE OLIVEIRA — Prefacio ás "Espumas Fluctuantes" ed. Garnier, 1913. P- 6"7.
[2] JOSÉ VERÍSSIMO — Castro Alves, "Jornal do Commercio, Rio, 14 de Agosto 1899: "Não sei se não haverá quem prefira hoje a parte puramente lyrica dos seus cantos."
[3] MACHADO DE ASSIS — Resposta ao Cons. José de Alencar, "Correio Mercantil", Rio, 1 Março, 1868.
[4] JOSÉ OITICICA — Um ponto de literatura brasileira, "Jornal do Commercio", Rio, 25 de Dezembro, 1913, p. 21-23.

     Fez-lhe alguém, inconsideradamente, uma censura, que é o maior elogio que se pode attribuir a um artista: conseguir revelar-se. Seriam as confidencias intimas dos seus versos: "é certo que encobriu pouco ou antes nada, de sua alma, aos leitores mais extranhos e indifferentes"¹). A arte é o triumpho esthetico do individualismo; numa fórmula concisa, e persuasiva, alludindo ao que ha nella de pessoal e na sciencia de collectivo, Hugo definiu: — "L'art, c'est moi; Ia science, c'est vous..." Poesia, então, é essencialmente sentimento e o que podemos exprimir, com sinceridade, será apenas, e quando muito, o próprio. E foi com essa sinceridade de Castro Alves, que "ninguém desferiu ainda mais maviosamente as cordas mais santas do amor humano", e só por isso é que "a natureza sorri, irradia e magôa-se nos seus versos", como affirmou Ruy Barbosa²). Aos provectos como este, contraponho os mais recentes, para provar a concordância: um jovem critico, Ronald de Carvalho³) diz de um dos seus poemas: "As admiráveis e perfeitas estrophes da poesia Sub tegmine fagi, que é uma das mais bellas de nossa lingua e onde ha qualquer coisa do melhor Hugo e do mais profundo Lamartine, na sua exaltação religiosa, da arte e da natureza..."

[1] JOAQUIM NABUCO — Castro Alves, II, "A Reforma", Rio, 24 Abril, 1873.
[2] RUY BARBOSA — Op. cit., p. 12.
[3] RONALD DE CARVALHO — Pequena Historia da Literatura Brasileira, ed. Briguiet, Rio. 1919. p. 242.

     Essa perfeição de forma, aliás menos prezada no tempo, de românticos sem disciplina, o que até forçaria á reacção parnasiana, não era rara nos poemas de Castro Alves, cheios de idéas, de imagens e de apuro no estylo. Escreveu José Veríssimo das "Vozes d'África": ha ahi "eloqüência da melhor espécie, sentimento, emoção, e sobre tudo uma elevada idealização artística da situação do Continente maldito e das reivindicações que o nosso ideal humano lhe attribue. E, com todas essas qualidades, uma perfeição rara de forma"¹). Continua ainda assim, exaltado no louvor, que muitos annos depois será também o de Luís Murat²) :"Vozes dAfrica" são um primor de forma; não se pôde exigir mais, do gosto e da mestria de um artista". Na sua obra, muitos poemas, e numerosas estrophes, de outros muitos, merecem destes gabos. A prova é que a affirmativa de José Veríssimo, que nas Miniaturas, de Gonçalves Crespo, vira "a primeira manifestação da poesia parnasiana no Brasil", oppõe-se Alberto de Oliveira, o maior dos nossos parnasianos, lembrando que as Espumas Fluctuantes, em 1870, antecedem de um anno áquelle livro e ahi, nos sonetos d'"Os anjos da meia noite" ia Castro Alves em evolução "para as novas formas de cunho artistico mais leve e delicado da poesia parnasiana". O critico compara dois sonetos, do Castro e do Crespo, e não lhes acha differença no accento da emoção e no lavor da fôrma. O grande romântico attingia, pois, a perfeição parnasiana, pela primeira vez conseguida no Brasil³). Que lhe faltou pois? Apenas tempo, mais edade para polir e aperfeiçoar, o que não sahiu perfeito de seu gênio apenas mal transposta a adolescência, nessa mocidade tonta em que a infinita maioria nem tem a consciência da vida, quanto mais de uma obra a realizar. Emen daria erros, evitaria excessos, talvez repudiasse "as palavras a cavallo", "os palavrões de pennacho" como os que o ridiculo de Aristophanes denunciava no divino E'schylo; talvez, quando lhe fosse escasseando o gênio, com a velhice, fizesse pacto com a grammatica, de não a offender nunca mais4), commodidade que, ainda sem talento, confere no Brasil, nessa idade rhetorica que vamos vivendo, foros de escriptor a quem escreva mal e sem idéas, mas segundo as taes regrinhas; seria tudo o que o gênio desabrochado, fecundado, de vez, sazonado, pode dar de maturidade perfeita e feliz. O que foi, porém, esses poucos annos bastaram para mostrá-lo, como se a sua compleição extraordinária não carecesse de mais. Guilherme de Castro Alves, seu irmão, teria inteira razão de o definir:
     Elle era grande e bom : massa p'ra deuses!

[1] JósÉ VERÍSSIMO — "Jornal do Commercio", Rio, 14 Agosto, 1899.
[2] LUIZ MURAT — "Jornal do Commercio", Rio, 3 Outubro, 1920.
[3] ALBERTO DE OLIVEIRA — O soneto brasileiro — "Revista de Lingua Portuguesa — Rio. 1920. n " 8.
[4] Aliás se alguma vez, inadvertidamente, a aggravou, poderia reclamar illustres precedentes Accusa Horacio a Homero de haver alguma vez dormitado. Faguet apontou desses defeitos no mesmo Flaubert. Entre os nossos, não poupam os incontentaveis aos maiores, de Camões a Ruy Barbosa. Em compensação os grammaticos, que escrevem certo, escrevem mal. Um delles, que por acaso escrevia bem, Paulo Stapfer, pôde dizer: "La correction sans tache ne brille que chez quelques écrivains secondaires..." (Recréations grammaticales, Paris, 1900, p. 205.) Castro Alves não o era: bem ao contrario, foi de primeira ordem.


*

     Intencionalmente, deixei que dissessem delle outros, e os maiores, os mais doutos e mais justos: poeta humano e humanitário, faz-se arauto e defensor de uma grande causa, e torna-se o poeta nacional, senão nacionalista; a natureza do Brasil retrata-se em suas imagens, como num espelho encantado, e as nossas paisagens e as nossas aspirações cantam nos seus versos incomparaveis; nunca uma fúria sonorosa foi tão sublime aqui, ou teve mais ternos accentos a lyra commovida do amor; como vate é vidente, e propheta, e annuncia a liberdade dos ingênuos em 71, a Abolição e a Republica mais tarde: — iria adiante, num appello aos "filhos do Novo-Mundo", que viriam a salvar a Civilização, nos campos de França, assolados pelos Bárbaros em 1914, para se não repetir o crime de 1870; romântico exaltado, tem o culto da idéa e da fôrma e avança literariamente, como idealmente, sobre o seu tempo, no apuro de escrever, como no de pensar...
     Isto é o que vemos daqui. De além-mar conta-se que, ouvindo Eça de Queiroz ler, a Eduardo Prado, "As aves de Arribação", aqui detivera o outro:

A's vezes quando o sol nas matas virgens 
 A fogueira das tardes accendia...

para exclamar: — "Ahi está, em dois versos, toda a poesia dos trópicos". Nos outros, em muitos dos outros de Castro Alves, é que os nacionaes e os extrangeiros podem compreender toda a poesia do Brasil; Um outro grande poeta, á altura de o julgar, Antônio Nobre, viria a dizer delle: "O maior poeta brasileiro..."¹). 

[1] ANTÔNIO NOBRE — Correspondência, publicada na revista "A Rajada", Rio, Abril, 1920, p. 51: "Já os lestes de certo, (a vários poetas franceses e lusitanos, indicados) e lerias por ventura o maior poeta brasileiro (olá, se é) Castro Alves, o autor das Espumas Fluctuantes!" (Carta a Baltar).

     A eleição, pelos sábios e doutos, pode engrandecer qualidades raras e de apreço difficil, por extravagantes, por isso nem sempre comprehensiveis; a nomeada, pelo vulgo, de ouvintes e leitores, mesmo quando não seja movida pela paixão do momento, pôde ser o indicio de uma subalternidade que ao nivel dos applausos ponha o applaudido. Se as duas concordam, porém, não ha restricção para o mérito devidamente denunciado por uns e justa mente consagrado pelos outros. Castro Alves teve em vida as duas benemerencias; não desmereceu de uma dellas nesses cincoenta annos que decorrem de sua morte: e da outra? Também. E' a razão de ser desta introducção bibliographica. Dizia Veríssimo, dos delle, que "poucos livros brasileiros e menos de versos tem sido tão lidos". E isso, porque lhe computava as das Espumas Fluctuantes em "oito ou dez edições"¹). Aqui trago um ról de quasi cincoenta, de todas as suas obras, e, só daquelle livro, "vinte e três". Nenhum poeta, nenhum escriptor brasileiro, nesse tempo, alcançou sequer de longe approximar-se delle. Castro Alves, o grande poeta nacional que Alencar, Machado de Assis, Ruy Barbosa, Nabuco, Euclydes da Cunha, José Veríssimo, tantos e tantos mais... o escol da intelligencia brasileira exaltou' á nossa admiração, foi também o eleito do Povo Brasileiro, da innumeravel multidão dos leitores que o prefere a todos os mais. O Veredicto da Posteridade está apurado: é o primeiro poeta, o maior poeta brasileiro.

A.P.

[1] JOSÉ VERÍSSIMO — Historia da Literatura Brasileira, cit. P. 334-6.  

continua página 19...
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O Maior Poeta Brasileiro(a) / O Maior Poeta Brasileiro (b) /  
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

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