domingo, 2 de agosto de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (VI. Smierdiákov)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
VI
SMIERDIÁKOV
  
     Encontrou Fiódor Pávlovitch ainda à mesa. Como de hábito, a mesa fora posta no salão e não na sala de jantar. Era a peça maior da casa, mobiliada com certa pretensão antiquada. Os móveis, bastante antigos, eram brancos, cobertos por um estofo vermelho, meio seda, meio algodão. Havia tremós de molduras pretensiosas, esculpidas à velha moda, igualmente brancas e douradas. Nas paredes, cuja tapeçaria branca estava rasgada em muitos lugares, figuravam dois grandes retratos, o de um antigo governador-geral da província, e o de um prelado, também morto desde muito tempo. No ângulo que fazia face à porta de entrada encontravam-se vários ícones, diante dos quais ardia uma lâmpada durante a noite, menos por devoção do que para iluminar a sala. Fiódor Pávlovitch deitava-se muito tarde, às 3 ou 4 horas da madrugada, e até então passeava de lá para cá ou meditava em sua poltrona. Tornara-se isso um hábito. Passava muitas vezes a noite sozinho, depois de ter despedido os criados, mas a maior parte do tempo o criado Smierdiákov dormia na antecâmara, deitado em cima de uma comprida arca. À chegada de Aliócha, o jantar estava no fim, haviam-se servido a sobremesa e o café. Fiódor Pávlovitch gostava de doces, após o jantar, com conhaque. Ivã estava tomando café com seu pai. Os criados, Gregório e Smierdiákov, conservavam-se perto da mesa. Amos e servidores achavam-se visivelmente de bom humor. Fiódor Pávlovitch ria às gargalhadas; desde o vestíbulo, reconheceu Aliócha sua risada semelhante a latidos, que lhe era tão familiar. Concluiu dali que seu pai, ainda longe da embriaguez, encontrava-se em felizes disposições.

— Ei-lo afinal! — exclamou Fiódor Pávlovitch, encantado com a chegada de Aliócha. — Vem sentar te conosco. Queres café forte? É famoso e está fervendo. Não te ofereço conhaque porque estás jejuando. Mas se quiseres... Não, dar-te-ei antes licores de boa qualidade. Smierdiákov, abre o armário, eles se acham na segunda prateleira, à direita, aqui estão as chaves. Ufa! 

     Aliócha fez gesto de que recusava os licores. 

— Servi-los-ão mesmo assim para nós, já que não queres. Dize-me, já jantaste?  

     Aliócha respondeu que sim; na realidade, comera um pedaço de pão e beber a um copo de kvas na cozinha do padre abade

— Tomarei de bom grado uma xícara de café quente. — Ah! o espertalhão! Não recusa o café! Será preciso esquentá-lo? Mas não, está ainda fervendo. É café famoso, preparado por Smierdiákov. É mestre em fazer café, tortas e sopas de peixe. Virás um dia tomar a sopa de peixe aqui. Avisa-me com antecedência. A propósito, não te disse que transportasses teu colchão e teus travesseiros hoje mesmo? Já o fizeste? Ah! ah! ah!
— Não, não os trouxe — respondeu Aliócha, também rindo. — Ah! tiveste medo, no entanto, tiveste medo! Serei capaz de fazer- te sofrer, meu querido? Escuta, Ivã, não posso resistir, quando ele me fita nos olhos, rindo. A alegria dilata-me as entranhas, somente ao vê-lo. Gosto dele! Aliócha, vem receber minha bênção.

     Aliócha levantou-se, mas Fiódor Pávlovitch reconsiderara.

— Não, farei somente um sinal-da cruz, assim, vai-te sentar. Pois bem, ficarás contente, a propósito de teu assunto favorito, vais rir. A burra de Balaão falou, e que linguagem a dela!

     A burra de Balaão não era outro senão o criado Smierdiákov, rapaz de 24 anos, insociável e taciturno, embora não fosse selvagem ou acanhado; pelo contrário, era arrogante e parecia desprezar todo mundo. Chegou o momento de falar a seu respeito, ainda que pouco. Educado por Marfa Ignátievna e Gregório Vassílievitch, o garoto, "natureza ingrata", segundo a expressão de Gregório, crescera selvagem no seu canto. Na sua infância, tinha prazer em enforcar os gatos, enterrando-os depois com grande cerimonial. Para fazer isto, cobria-se com uma colcha de cama, à guisa de casula, e cantava, agitando um simulacro de turíbulo por cima do cadáver. Tudo isso no maior mistério. Gregório surpreendeu-o um dia e chicoteou-o rudemente. Durante uma semana, o garoto enfurnou-se num canto, olhando de través.

"Ele não gosta de nós, o monstro", dizia Gregório a Marfa. "Aliás, não gosta de ninguém. És verdadeiramente um ser humano?", perguntou ele uma vez a Smierdiákov. "Mas não, nasceste da umidade do banheiro..."

     Smierdiákov, como se viu posteriormente, jamais lhe perdoara essas palavras. Gregório ensinou-o a ler e a história sagrada desde que completou doze anos. Mas esta tentativa foi infeliz. Um dia, numa das primeiras lições, o menino pôs-se a rir.

— Que tens? — perguntou Gregório, olhando-o severamente por cima de seus óculos. 
— Nada. Deus criou o mundo no primeiro dia; o sol, a lua e as estrelas no quarto dia. Donde vinha, pois, a luz do primeiro dia?

     Gregório ficou estupefato. O menino olhava seu amo com ar irônico, seu olhar parecia mesmo provocá-lo. Gregório não pôde conter-se:

"Eis donde ela veio!", exclamou, esbofeteando-o violentamente.

     O menino não se moveu, mas meteu-se de novo no seu canto por vários dias. Uma semana depois, teve ele uma primeira crise de epilepsia, doença que não o deixou mais dali por diante. Tendo conhecimento disso, Fiódor Pávlovitch mudou logo sua maneira de tratar o garoto. Até então olhava-o com indiferença, se bem que não o repreendesse nunca e lhe desse 1 copeque todas as vezes em que o encontrava. Quando estava de bom humor, mandava-lhe sobremesa de sua mesa. A doença do menino provocou sua solicitude; mandou buscar um médico; ensaiou-se um tratamento, mas Smierdiákov era incurável. Em média, tinha uma crise uma vez por mês, a intervalos irregulares. Os ataques variavam de intensidade, ora fracos, ora violentos.
     Fiódor Pávlovitch proibiu terminantemente que Gregório batesse no menino e deu-lhe acesso à sua casa. Proibiu igualmente qualquer estudo até nova ordem.
     Um dia — tinha Smierdiákov então quinze anos — Fiódor Pávlovitch viu-o lendo os títulos das obras através dos vidros da biblioteca. Fiódor Pávlovitch possuía uma centena de volumes, mas nunca fora visto a folheá-los. Deu logo as chaves a Smierdiákov. "Toma, serás meu bibliotecário; senta-te e lê, será melhor do que andares à toa pelo pátio. Toma isto", e Fiódor Pávlovitch deu-lhe Serões na Quinta de Dikanhka¹.

[1]  Primeira coletânea de novelas de Gógol (1831).

     Esse livro não agradou ao rapaz, que o acabou de ler com ar sombrio, sem ter rido uma vez sequer.

— Pois bem! Não é divertido? — perguntou Fiódor Pávlovitch. Smierdiákov permaneceu calado. — Responde, pois, imbecil.
— Só há mentiras, aqui dentro — resmungou Smierdiákov, sorrindo.
— Vai-te para o diabo, alma de lacaio! Espera, eis aqui a História Universal, de Smarágdov. Aqui tudo é verdadeiro. Lê.  

     Mas Smierdiákov não chegou a ler dez páginas. Achava aquilo enfadonho. Não se falou mais em biblioteca.
     Em breve Marfa e Gregório levaram ao conhecimento de Fiódor Pávlovitch que Smierdiákov, pouco a pouco se tornara de trato muito difícil, fazendo-se requintado; contemplando seu prato de sopa, examinava-o curvado, enchia uma colherada, que olhava à luz.

— Uma barata, talvez? — perguntava por vezes Gregório. 
— Ou então uma mosca? — insinuava Marfa. 

      O meticuloso rapaz não respondia nunca, mas procedia da mesma maneira com o pão, a carne, todas as comidas; pegando um pedaço com seu garfo, estudava-o à luz, como num microscópio, e, após reflexão, decidia-se a levá-lo à boca. "Dir-se-ia que é o filho de um senhor", murmurava Gregório, olhando-o.
     Posto ao corrente dessa mania de Smierdiákov, decretou Fiódor Pávlovitch logo que tinha ele vocação para cozinheiro e mandou-o a aprender sua arte em Moscou. Passou ali vários anos e voltou bastante mudado de aspecto; envelhecido demasiadamente para sua idade, enrugado, amarelecido, assemelhava-se a um skópiets. Moralmente, era quase o mesmo de antes da partida; sempre um verdadeiro selvagem que não procurava absolutamente a sociedade. Não dizia palavra em Moscou, como se soube mais tarde. A própria cidade muito pouco o interessara. Tendo ido uma vez ao teatro, voltou descontente.
     Usava roupas de linho convenientes, escovava cuidadosamente seus ternos duas vezes por dia; gostava muito de engraxar suas botas elegantes, de bezerra, com uma graxa inglesa especial, que as fazia reluzir como um espelho. Revelou-se excelente cozinheiro.
     Fiódor Pávlovitch decidiu pagar-lhe ordenado, que era quase todo gasto em roupas, pomadas, perfumes, etc. Parecia fazer tão pouco caso das mulheres quanto dos homens, mostrando se para com elas empertigado e quase inabordável. Fiódor Pávlovitch pôs-se a considerá-lo de um ponto de vista um pouco diferente. Suas crises tornavam se mais frequentes. Marfa substituía-o naqueles dias na cozinha, o que não convinha absolutamente a seu amo.

— Por que tens crises mais frequentemente? — E olhava carrancudo para o novo cozinheiro. — Deverias arranjar mulher, queres que te case? 

     Mas Smierdiákov não respondia nada àquelas palavras, que o tornavam lívido de despeito.
     Fiódor Pávlovitch ia-se embora, dando de ombros. Sabia-o visceralmente honesto, incapaz de tomar ou roubar o que quer que fosse, e era o essencial. Estando bêbado, perdeu Fiódor Pávlovitch em seu pátio três cédulas de 100 rublos que acabara de receber e só se deu conta disso no dia seguinte. Ao cascavilhar em seus bolsos, viu-os em cima da mesa. Smierdiákov tinha-os achado e trazido na véspera. "Nunca encontrei outro igual a ti, meu bravo", disse laconicamente Fiódor Pávlovitch, e presenteou-o com 10 rublos.
     É preciso acrescentar que não somente estava certo de sua honestidade, mas tinha afeição por ele, muito embora o rapaz lhe fizesse má cara, como aos outros. Se alguém que o visse perguntasse: "Por que se interessa esse rapaz, que é que o preocupa sobretudo?" não se teria podido responder, olhando-o. Entretanto, em casa, no pátio ou na rua, parava por vezes, pensativo, e ficava assim uma dezena de minutos. O rosto de Smierdiákov nada teria revelado a um fisionomista; nenhum pensamento, pelo menos, mas somente uma espécie de contemplação.
     Há um notável quadro do pintor Kramskói, intitulado O Contemplativo. Uma floresta no inverno; sobre a estrada vê-se um mujique, vestido com um cafetã rasgado e com sapatos de tília. Ali está numa solidão profunda e parece refletir, mas não pensa, contempla alguma coisa. Se se desse nele um encontrão, estremeceria e olharia como quem desperta, mas sem compreender. Na verdade, voltaria logo a si, mas se lhe perguntassem em que pensava, certamente não se lembraria de nada, mas, em compensação, decerto guardaria para si a impressão sob cujo império se achava durante, sua contemplação. Essas impressões são-lhe caras e se acumulam nele, imperceptivelmente, sem que o perceba; com que fim, ele o ignora.
     Um dia, talvez, depois de havê-las armazenado durante anos, deixará tudo e partirá para Jerusalém, a fim de tratar talvez de sua salvação. Ou então deitará fogo à sua aldeia natal ou faça mesmo as duas coisas sucessivamente.
     Há muitos contemplativos em nosso povo. Smierdiákov era certamente um tipo desse gênero e armazenava avidamente suas impressões, quase sem conhecer a razão disso.

continua na página 183...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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