quinta-feira, 9 de julho de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Havia esquecido a mentira)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Havia esquecido a mentira que me dissera uma noite acerca da dama suscetível em cuja casa era de todo necessário que fosse tomar chá, ainda que, indo visitar essa dama, corresse o risco de perder minha amizade e ter de se matar. Não lhe recordei a mentira. Mas fiquei acabrunhado. E adiei o rompimento para outra ocasião. Não é necessária a sinceridade, e nem mesmo a destreza na mentira, para ser amado. Aqui, chamo de amor uma tortura recíproca. Nessa noite, eu não achava de modo algum repreensível falar-lhe como minha avó, tão perfeita, fizera comigo, nem, para lhe dizer que a acompanharia à casa dos Verdurin, ter adotado a maneira brusca de meu pai, o qual jamais nos comunicava uma decisão a não ser do jeito que nos pudesse causar o máximo de uma agitação desproporcionada, nesse grau, à própria decisão. De modo que estava coberto de razão quando nos achava absurdos de mostrarmos tanta angústia por tão pequena coisa, angústia que de fato correspondia à comoção que nos causara. E como (da mesma forma que o bom senso inflexível de minha avó) essas veleidades arbitrárias de meu pai viessem completar em mim a natureza sensível a que tinham permanecido por tanto tempo alheias, e a qual durante toda a minha infância fizeram sofrer tanto, essa natureza sensível informava-se bem exatamente sobre os pontos que deviam visar com eficácia: não existe melhor delator que um antigo ladrão, ou do que um súdito da nação que se guerreia. Em certas famílias mentirosas, um irmão que vem visitar outro irmão sem motivo aparente e lhe pede casualmente, à porta da rua, ao sair, uma informação que nem sequer parece ouvir, por isso mesmo dá a entender ao irmão que tal informação era a finalidade de sua visita, pois o irmão bem conhece aquele ar desligado, aquelas palavras ditas como que entre parênteses no último minuto, pois ele próprio as empregou várias vezes. Ora, existem igualmente famílias patológicas, sensibilidades aparentadas, temperamentos fraternos, iniciados nesse tácito idioma que faz com que em família as pessoas se compreendam sem falar. Assim, quem mais que um nervoso pode ser enervante? E além do mais, talvez houvesse na minha conduta, nesses casos, uma causa mais geral, mais profunda. É que, nesses momentos breves, porém inevitáveis, quando se detesta a quem se ama - esses momentos que duram às vezes toda a vida com as pessoas de quem não se gosta -, não desejamos parecer bons, para que não tenham pena de nós; queremos ao mesmo tempo ser malvados e cruéis o mais possível para que nossa felicidade seja verdadeiramente odiosa e ulcere a alma do nosso inimigo ocasional ou duradouro. Diante de quantas pessoas não fui eu mentirosamente caluniado, apenas para que meus "êxitos" lhes parecessem imorais e os encarniçassem ainda mais contra mim! Seria preciso seguir o caminho inverso, mostrar sem orgulho que temos bons sentimentos, em vez de os esconder tanto. O que seria fácil se soubéssemos jamais odiar, amar sempre. Pois então seríamos tão felizes por só dizer as coisas que podem dar alegria aos outros, enternecê-los, fazer com que nos amem!
     Decerto eu sentia um pouco de remorso por ser tão irritante para com Albertine, e dizia comigo: "Se não a amasse, ela me teria maior reconhecimento, pois eu não seria ruim com ela; mas não, isto se compensaria, pois eu também seria menos amável." E, para me justificar, poderia lhe dizer que a amava. Mas a confissão desse amor, além de não trazer novidade alguma a Albertine, talvez a deixasse mais fria a meu respeito do que as durezas e ardis de que justamente o amor era a única desculpa.
     É tão natural ser duro e ardiloso com quem se ama! Se o interesse que demonstramos aos outros não nos impede de sermos doces com eles e complacentes com aquilo que desejam, é que esse interesse é uma mentira. O próximo nos é indiferente, e a indiferença não convida à maldade.
     A noite passava; antes que Albertine fosse deitar-se, não havia tempo a perder se quiséssemos fazer as pazes e recomeçar com os beijos. Nenhum de nós ainda tomara a iniciativa.
     Sentindo que ela estava realmente zangada, aproveitei para lhe falar de Esther Lévy.

- Bloch me disse (o que não era verdade) que você conhecera muito bem a sua prima Esther. 
- Eu nem sequer a reconheceria - disse Albertine com ar vago.
- Vi a fotografia dela - acrescentei furioso. Ao dizer isto, não encarava Albertine, de modo que não vi sua expressão, que teria sido a única resposta, pois ela não disse nada.

     Já não era o sossego do beijo de minha mãe em Combray o que eu sentia junto de Albertine nessas noites, mas, ao contrário, a angústia daqueles dias em que minha mãe mal me dava boa-noite, ou até nem subia para o meu quarto, ou porque estivesse zangada comigo ou porque a retivessem os convidados. Essa angústia, não a sua transposição para o amor, não, essa própria angústia, que por algum tempo se especializara no amor, que se destinara unicamente a ele, depois de operada a partilha, a divisão das paixões, agora parecia de novo estender-se a todas, tornada outra vez indivisa, assim como na minha infância, como se todos os meus sentimentos, que estremeciam à ideia de não poder conservar Albertine junto ao meu leito, a um tempo como amante, como irmã, como filha, como mãe igualmente, de cujo boa-noite cotidiano eu recomeçava a sentir a necessidade pueril, tivessem começado a reunir-se, a se unificar na noite prematura da minha vida, que parecia ser tão breve como um dia de inverno. Mas, se eu experimentava a angústia de minha infância, a mudança da criatura que me fazia senti-la, a diferença de sentimento que ela me inspirava, a própria transformação do meu caráter, tornavam impossível reclamar-lhe o alívio como outrora à minha mãe. Eu já não sabia dizer: "Estou triste."
     Com a morte na alma, limitava-se a falar de coisas indiferentes que não me adiantavam em nada para uma solução feliz. Repisava em dolorosas banalidades. E com aquele egoísmo intelectual que, por menos que uma verdade insignificante se refira ao nosso amor, nos faz ter em grande conta aquele que a encontrou, talvez tão casualmente como a cartomante que nos anunciou um fato banal mas que desde então se cumpriu, eu não estava muito longe de acreditar Françoise superior a Bergotte e a Elstir, porque me dissera em Balbec:

- Essa moça lhe dará desgostos.

     Cada minuto me aproximava do boa-noite de Albertine, que por fim ela me dava. Mas naquela noite o seu beijo, de onde ela própria estava ausente e que não me encontrava, fazia-me tão ansioso que, o coração palpitante, eu a contemplava ir até a porta, pensando: "Se quero achar um pretexto para chamá-la, retê-la, fazer as pazes, preciso apressar-me, ela só precisa de mais alguns passos para sair do quarto, mais dois, mais um, ela gira a maçaneta, abre, é tarde, já fechou a porta." Talvez não fosse tarde demais, apesar de tudo. Como antigamente em Combray, quando minha mãe me havia deixado sem me sossegar com seu beijo, eu queria lançar-me no encalço de Albertine, sentia que não teria sossego enquanto não a visse de novo, que o fato de revê-la iria tornar-se algo imenso como ainda não ocorrera até ali, e que, se não conseguisse me livrar sozinho dessa tristeza, talvez adquirisse o hábito vergonhoso de ir mendigar aos pés de Albertine; saltei da cama quando ela já estava em seu quarto, andava para cá e para lá no corredor, esperando que ela saísse e me chamasse; permanecia imóvel diante de sua porta, para não me arriscar a não ouvir um débil chamado, entrava por um instante em meu quarto para ver se minha amiga por felicidade não tinha esquecido um lenço, uma bolsa, alguma coisa que eu pudesse fingir recear que lhe fizesse falta e que me desse o pretexto de ir a seu quarto. Não, nada. Voltava a postar-me diante de sua porta. Mas na frincha desta já não havia luz, Albertine já a apagara, estava deitada, eu ficava lá, imóvel, esperando não sei que oportunidade que não vinha; e muito tempo depois, gelado, tornava a me deitar sob os cobertores e chorava a noite inteira.
     Assim, às vezes, em certas noites, recorria um ardil que me proporcionava o beijo de Albertine. Sabendo o quanto era rápido o seu adormecimento logo que se estendia na cama (ela também o sabia, pois instintivamente, quando se deitava, descalçava as sandálias que eu lhe dera, e o anel, que punha a seu lado, como fazia em seu quarto ao se acomodar), sabendo o quanto era profundo o seu sono e carinhoso o seu despertar, agarrava-me a um pretexto para ir buscar alguma coisa, fazia-a estender-se em minha cama. Quando voltava, ela adormecera, e eu via diante de mim aquela outra mulher em que se transformava quando estava inteiramente de frente. Mas ela mudava depressa de personalidade, pois eu me estendia a seu lado e a reencontrava de perfil. Podia pôr a minha mão na sua, nos seus ombros, no seu rosto, que Albertine continuava a dormir. Podia segurar sua cabeça, virá-la, encostá-la nos meus lábios, rodear meu pescoço com seus braços, e ela continuava a dormir como um relógio de bolso que não para, como um bicho que continua vivendo qualquer que seja a posição que lhe deem, como uma trepadeira, uma ipomeia que continua a estender seus ramos, seja qual for o arrimo de que disponha. Apenas o seu arfar se modificava a cada um dos meus contatos, como se ele fosse um instrumento que eu tocasse e ao qual fizesse executar modulações, tirando notas diferentes de uma, depois de outra de suas cordas. Meu ciúme se acalmava, pois sentia que Albertine transformada num ser que respira, que não é outra coisa, como o indicava o sopro regular pelo qual se exprime essa pura função fisiológica, a qual, inteiramente fluida, não possui a espessura da palavra nem do silêncio e, em sua ignorância de todo mal, ofegar extraído antes de um caniço oco que de um ser humano, realmente paradisíaco para mim, que naqueles momentos sentia Albertine subtraída de tudo, não só material mas moralmente, era o puro cântico dos anjos. No entanto, por aquele hálito eu de súbito considerava que talvez muitos nomes humanos, trazidos pela memória, deveriam passar.
     Às vezes, até a voz humana se acrescentava a essa música. Albertine pronunciava algumas palavras. Como desejaria obter-lhes o sentido! Acontecia que o nome de uma pessoa de quem tínhamos falado e que excitava o meu ciúme, subia-lhe aos lábios, mas sem me fazer infeliz, pois a recordação que trazia parecia ser apenas a das conversas que ela tivera comigo sobre o assunto. Entretanto, certa noite, de olhos fechados, meio que acordada, disse carinhosamente dirigindo-se a mim: "Andrée." Dissimulei minha emoção. 

- Estás sonhando, não sou Andrée - retruquei rindo. Ela também sorriu: 
- Não, eu queria te perguntar o que te disse Andrée há pouco. 
- Pensei que já tinhas deitado assim junto dela.
- Não, nunca. - disse Albertine.

     Unicamente, antes de responder isto, escondera por um instante o rosto nas mãos. Logo, seus silêncios eram apenas véus, seus carinhos superficiais no fundo somente retinham milhares de lembranças que teriam me dilacerado sua vida, portanto, era repleta desses fatos cuja narrativa trocista e cuja crônica risonha constituem nossos mexericos diários a respeito dos outros, dos indiferentes, mas que, enquanto uma criatura permanece extraviada em nosso coração, nos parecem um esclarecimento tão precioso de sua vida que, para conhecer esse mundo subjacente, daríamos de bom grado a nossa. Então o seu sono me surgia como um mundo maravilhoso e mágico, onde por instantes se eleva, do fundo do elemento apenas translúcido, a confissão de um segredo que não se compreenderá. Mas em geral, quando Albertine dormia, parecia-me que reencontrava sua inocência. Na atitude que eu lhe atribuíra mas que em seu sono ela depressa tornava sua, dava a impressão de confiar-se a mim. Sua fisionomia perdera toda e qualquer expressão de manha ou de vulgaridade, e entre ela e mim, para quem erguia o braço, sobre quem descansava a mão, parecia haver um abandono completo, um elo indissolúvel. Aliás, o seu sono não a separava de mim, deixando subsistir nela a noção de nossa ternura, tendo antes por efeito abolido o resto; eu a beijava, dizia que ia dar alguns passos lá fora, ela entreabria os olhos e me dizia, com ar espantado -e de fato já era noite: 

- Mas aonde vais desse jeito, meu querido?-e, chamando-me pelo meu prenome, logo voltava a adormecer.

     Seu sono era apenas uma espécie de apagamento do resto da vida, um silêncio uniforme onde, de vez em quando, erguiam voo palavras familiares de carinho. Aproximando-as umas das outras, teria sido possível compor a conversação sem mistura, a secreta intimidade de um amor puro. Este sono tão calmo encantava-me como encanta à mãe, que o considera uma qualidade, o bom sono de seu filho. E com efeito o sono de Albertine era o de uma criança. Outrossim o seu despertar, e é tão natural, tão carinhoso, antes mesmo que ela se desse conta de onde estava, que às vezes eu me perguntava, com terror, se ela tivera o hábito, antes de viver comigo, de não dormir sozinha e de encontrar alguém a seu lado ao abrir os olhos. Mas sua graça infantil era mais forte. Tal uma mãe, ainda maravilha-me que sempre acordasse de bom humor. Ao cabo de alguns instantes, ela readquiria a consciência, dizia palavras encantadoras, sem relação umas com as outras, um pipilar apenas. Por uma espécie de contradança, o seu pescoço, habitualmente pouco notado, e agora quase belo demais, tomara a importância enorme que seus olhos fechados pelo sono haviam perdido, seus olhos, meus habituais interlocutores e aos quais já não podia me dirigir desde o cerrar das pálpebras. Da mesma forma que os olhos fechados conferem uma beleza inocente e grave ao rosto, suprimindo tudo o que os olhares expressam demais, nas palavras, não sem sentido, mas entrecortadas de silêncio, que Albertine pronunciava ao despertar, havia uma beleza pura que não é a todo instante manchada, como o é a conversação, de hábitos verbais, de lenga-lengas, de vestígios de defeitos. Além disso, quando me decidia a acordar Albertine, podia fazê-lo sem medo, pois sabia que seu despertar não estaria de modo algum relacionado com a noite que acabáramos de passar, mas sairia do seu sono como da noite sai a manhã. Logo que ela entreabria os olhos sorrindo, estendia-me os lábios e, antes que dissesse alguma coisa, eu já lhe saboreara o frescor, calmante como o de um jardim ainda silencioso antes do despontar do dia.
     No dia seguinte àquela noite em que Albertine me dissera que talvez fosse à casa dos Verdurin, e depois que não iria, eu acordei cedo e, ainda meio adormecido, minha alegria informou-me que era, interpolado no inverno, um dia de primavera. Lá fora, temas populares finamente escritos por instrumentos variados, desde a buzina do consertador de porcelana, ou a corneta do empalhador de cadeiras, até a flauta do cabreiro que parecia num dia lindo ser um pastor da Sicília, orquestravam de leve o ar matinal numa "Abertura para um dia de festa". A audição, este sentido delicioso, traz até nós a companhia da rua, da qual retraça todas as linhas, desenha todas as formas que passam, mostrando-nos o seu colorido. As cortinas de ferro da padaria, da leiteria, que haviam abaixado a noite anterior sobre todas as possibilidades de ventura feminina, erguiam-se agora como as leves polés de um navio que aparelha e vai zarpar, cruzando o mar transparente, sobre um sonho de jovens empregadas. Este rumor da cortina de ferro que está sendo erguida talvez fosse o meu único prazer num bairro diferente. Neste meu, cem outros formavam a minha alegria, e nem um só eu quisera perder dormindo até mais tarde. O encanto dos velhos bairros aristocráticos é serem igualmente populares. Como às vezes os tiveram as catedrais, não longe das portadas (às quais ocorreu mesmo conservarem-lhes o nome, como o da catedral de Ruão, chamada dos "Livreiros", porque junto a ela expunham estes a sua mercadoria ao ar livre), diversos pequenos ofícios, mas ambulantes, passavam diante do nobre palacete de Guermantes, e por vezes faziam pensar na França eclesiástica de outrora. Pois o apelo que lançavam às pequenas residências vizinhas nada possuía com raras exceções, de uma canção. Diferia dela tanto quanto da declamação - mal colorida por variações insensíveis de Boris Godunov e de Pélleas; mas, por outro lado, lembrava o salmodiar de um padre no decurso dos ofícios, dos quais estas cenas de rua são apenas a contrapartida ingênua, forânea, todavia meio litúrgica. Eu jamais sentira tanto prazer com elas desde que Albertine morava comigo; parecia-me um alegre sinal de seu despertar e, interessando-me pela vida lá fora, faziam-me sentir melhor a virtude calmante de uma presença querida, tão constante como a desejava.
     Certos alimentos gritados na rua, e que eu pessoalmente achava detestáveis, eram muito do gosto de Albertine, de modo que Françoise os mandava comprar pelo seu jovem lacaio, que talvez se sentisse humilhado por se ver confundido na multidão plebeia. Naquele bairro tão tranquilo (em que os rumores já não eram um motivo de tristeza para Françoise e haviam se tornado a razão de doçura para mim) chegavam-me, cada qual com sua modulação diversa, os recitativos declamados por aquelas pessoas do povo, como o seriam na música, tão popular, de Boris, onde uma entonação inicial quase não se altera pela inflexão de uma nota que sobre outra se debruça, música da multidão que antes é uma linguagem do que uma música. Era: "Olha o marisco, olha o marisco por dez tostões!", atraindo a freguesia para os cestos onde eram vendidas essas horríveis conchinhas que, não fosse Albertine, teriam me causado repugnância, assim como os caramujos que eu ouvia serem vendidos à mesma hora. Aqui, ainda era na declamação apenas lírica de Mussorgsky que fazia pensar o vendedor, mas não somente nela. Pois, após ter quase "falado": "Os caramujos estão fresquinhos, estão bonitos", era com a tristeza e a vaguidão de Maeterlinck, musicalmente transpostas por Debussy, que o vendedor de caramujos, num desses dolorosos finais com que o autor de Pélleas se parece com Rameau ("Se devo ser vencida, serás tu o meu vencedor?"), acrescentava com sua melancolia cantante: "A trinta tostões a dúzia..."
     Sempre me foi difícil compreender porque aquelas palavras tão claras eram suspiradas num tom tão pouco adequado, misterioso, como o segredo que faz com que todos tenham a fisionomia triste no velho palácio a que Mélisande não conseguiu levar a alegria, e profundo como um pensamento do velho Arkel, que busca proferir em palavras muito simples toda a sabedoria e o destino. As próprias notas em que se eleva com doçura crescente a voz do velho rei de Allemonde, ou a de Golaud, para dizer: "Não se sabe o que acontece aqui. Isto pode parecer estranho. Talvez não existam ocorrências inúteis", ou então: "Não precisas te assustar... Era uma pobre criaturinha misteriosa, como todo mundo", eram as que serviam ao vendedor de caramujos para repetir, numa cantilena indefinida: "A trinta tostões a dúzia..." Porém essa lamentação metafísica não tinha tempo de expirar à beira do infinito; era interrompida por uma forte trombeta. Desta vez não se tratava de comidas, as palavras do libreto eram: "Tosamos cachorros, cortamos gatos, as caudas e as orelhas."
     Certo, a fantasia e o espírito de cada vendedor ou vendedora introduziam, com frequência, variantes nas frases de todas essas músicas que eu ouvia da cama. Entretanto, uma parada ritual, pondo um silêncio em meio a uma frase, sobretudo quando era repetida duas vezes, evocava constantemente a lembrança de velhas igrejas. Em seu pequeno carro, conduzido por uma burrinha que ele fazia parar diante de todas as casas para entrar nos pátios, o vendedor de roupa, segurando um chicote, salmodiava: "Roupas, vendem-se roupas, rou... pas" com a mesma pausa, entre as duas sílabas de "roupas", com que teria entoado em cantochão: "Per omnia saecula saeculo... rum" ou: "Requiescat in pa... ce", embora não acreditasse na eternidade de suas roupas e nem tampouco as oferecesse como sudário para o supremo repouso na paz. E da mesma forma, como os motivos principiavam a cruzar-se desde aquela hora matinal, uma vendedora de hortaliças, empurrando o seu carrinho, usava para a sua ladainha a divisão gregoriana: As hortaliças, as hortaliças Alcachofras macias e bonitas Alca-chofras embora ela fosse provavelmente ignorante do antifonário e dos sete tons que simbolizam, quatro as ciências do quadrívio e três as do trívio.
     Tirando de uma flautinha, de uma gaita de foles, as melodias de sua região meridional, cuja luz combinava bem com os dias claros, um homem de blusa, tendo à mão um vergalho e na cabeça uma boina basca, parava diante das casas. Era o cabreiro com dois cães e, à sua frente, o rebanho de cabras. Como vinha de longe, passava bem tarde no nosso bairro; e as mulheres acorriam com uma tigela para recolher o leite que devia fortalecer os seus filhinhos. Mas às melodias pirenaicas daquele pastor benfazejo misturava-se já a campainha do amolador, que gritava: "Facas, tesouras, navalhas." Com ele não podia lutar o amolador de serrotes, pois, destituído de instrumento, contentava-se em chamar: "Quem tem serrotes para amolar? Olha o amolador!", ao passo que, mais alegre, o funileiro, depois de ter enumerado os caldeirões, as caçarolas, tudo quanto ele soldava, entoava o refrão: Tão, tão, tão Conserto até o chão/ Ponho fundo em tudo/ E tapo buracos/ Raco, raco, raco e italianinhos, carregando grandes caixas de ferro pintadas de vermelho, onde estavam marcados os números perdedores e ganhadores-, e tocando matraca, convidavam:
     "Venham, venham, minhas senhoras, eis a grande diversão." Françoise me trouxe o Fígaro. Bastou um só olhar para ver que o meu artigo ainda não fora publicado. Ela me disse que Albertine indagava se podia vir ao meu quarto e me mandava dizer que, em todo caso, desistira de fazer uma visita aos Verdurin e esperava ir, como eu lhe aconselhara, à vesperal "extraordinária" do Trocadero (o que hoje chamaríamos, para coisa muito menos importante, uma vesperal de gala) depois de um passeiozinho a cavalo que faria com Andrée. Agora que eu sabia que ela renunciara a seu desejo, talvez perverso, de ir visitar a Sra. Verdurin, respondi rindo:  

- Que venha! - e disse para mim mesmo que ela podia ir aonde bem quisesse, pois para mim seria indiferente. Sabia que, no fim da tarde, quando chegasse o crepúsculo, eu sem dúvida seria um outro homem, triste, dando às menores idas e vindas de Albertine uma importância que elas não tinham naquela hora matinal, e quando o dia era tão lindo. Pois a minha despreocupação era seguida pela noção bem clara de sua causa, mas sem ser alterada por ela. 
- Françoise me assegurou que você estava acordado e que eu não incomodaria - disse Albertine entrando. E, como aquele de me causar frio abrindo a janela num momento mal escolhido, o maior medo de Albertine era o de entrar no meu quarto quando eu cochilava: 
- Espero não ter feito mal - acrescentou. - Receava que você me dissesse: Que mortal insolente vem procurar a morte?'

     E ela riu com aquele riso que tanto me perturbava. Respondi-lhe no mesmo tom gracejador:

- Foi para vós que se deu ordem tão severa? 

     E de medo que ela a infringisse alguma vez, acrescentei:

- Embora ficasse furioso se você me acordasse.
- Eu sei, eu sei, não tenha medo - disse Albertine.

     E, para suavizar, acrescentei, continuando a representar com ela a cena de Esther, ao passo que na rua prosseguiam os apelos que ficavam confusos devido à nossa conversa:

- Somente em vós encontro uma tal ou qual graça. Que me deslumbra sempre, mas jamais me cansa. (e comigo mesmo dizia: "Sim, ela me cansa muitas vezes"). E lembrando-me do que ela dissera na véspera, e agradecendo-lhe com exagero por ter renunciado ir aos Verdurin, para que de outra vez me obedecesse da mesma forma nisso ou naquilo, observei: 
- Albertine, você desconfia de mim, que muito a amo, e tem confiança em pessoas que não gostam de você (como se não fosse natural desconfiar das pessoas que nos amam e são as únicas que têm interesse em nos mentir para saber, para nos opor obstáculos).

     E acrescentei estas palavras mentirosas: 

- No fundo, você não acredita que eu a ame, é engraçado. De fato, não a adoro. -

     Ela por sua vez mentiu, dizendo que só confiava em mim, e a seguir foi sincera, garantindo que sabia muito bem que eu a amava. Mas tal afirmação não parecia implicar que ela não me julgasse mentiroso e capaz de espioná-la. E parecia perdoar-me, como se visse aí a consequência insuportável de um grande amor, ou como se ela mesma se achasse menos bondosa. 

- Peço-lhe, minha querida, nada de cabriolas como fez outro dia. Pense, Albertine, se lhe ocorre um acidente! -


continua na página 50...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Havia esquecido a mentira)

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