volume V
A Prisioneira
continuando...
continuando...
- Oh, sei muito bem que você não sobreviveria quarenta e oito horas, acabaria se matando!
Assim, trocávamos palavras mentirosas. Mas uma verdade mais profunda do que essa que proferiríamos se fôssemos sinceros pode às vezes ser expressa e prenunciada por outro meio que o da sinceridade.
Assim, trocávamos palavras mentirosas. Mas uma verdade mais profunda do que essa que proferiríamos se fôssemos sinceros pode às vezes ser expressa e prenunciada por outro meio que o da sinceridade.
- Esses barulhos todos na rua não o incomodam? - perguntou ela-; pois eu os adoro. Mas você
que tem o sono tão leve?-
Ao contrário, eu o tinha às vezes bem profundo (como já disse, mas como o episódio que se
segue me obriga a recordá-lo) e sobretudo quando só adormecia pela manhã. Como tal sono foi em
média quatro vezes mais repousante, parece ter sido quatro vezes mais longo àquele que dormiu, quando
de fato foi quatro vezes mais curto. Magnífico erro de uma multiplicação por dezesseis que confere tanta
beleza ao despertar e na vida introduz uma verdadeira inovação, semelhante àquelas grandes mudanças
de ritmo que, na música, fazem com que uma colcheia, no andante, tenha a mesma duração que uma
mínima num prestíssimo, e que são desconhecidas no estado de vigília. A vida aí é quase sempre a
mesma, de onde as decepções da viagem. No entanto, bem parece que o sonho é feito às vezes da
matéria mais grosseira da vida, mas tal matéria aí é tratada, amassada de tal modo, com um
alongamento devido a que nenhum dos limites horários do estado de vigília a impede de desprender-se a
tão enormes alturas, que ninguém mais a reconhece. Nas manhãs em que esta boa sorte me ocorria, em
que a esponja do sono apagara do meu cérebro os sinais das ocupações diárias que nele são traçadas
como num quadro-negro, eu precisava fazer reviver a minha memória; à força de vontade, pode-se reaver
o que a amnésia do sono ou de um ataque fez olvidar e que renasce aos poucos, à medida que os olhos
se abrem ou que a paralisia desaparece. Eu vivera tantas horas em alguns minutos que, desejando falar
a Françoise, a quem chamara, numa linguagem conforme a realidade e de acordo com a hora, era
obrigado a empregar todo o meu poder interno de compreensão para não dizer: "Ora, Françoise, já são
cinco horas da tarde e não vejo você desde ontem à tarde." E para repelir os meus sonhos, em
contradição com eles, mentindo para mim mesmo, eu dizia atrevidamente, e reduzindo-me com todas as
minhas forças ao silêncio, palavras opostas:
- Françoise, já são dez horas! -
Eu nem dizia dez horas da manhã, mas simplesmente dez horas, para que essas dez horas, tão
incríveis, dessem a impressão de ser pronunciadas no tom mais natural. Todavia, dizer essas palavras
em vez daquelas que continuava a pensar, mal desperto, o dormidor que eu era ainda, exigia o mesmo
esforço de equilíbrio que a alguém que, saltando de um trem em movimento e correndo por um instante
ao longo da linha, consegue entretanto não cair. Corre por um instante porque o meio que abandona é
um meio animado de grande velocidade, e muito diverso do solo inerte ao qual seus pés têm alguma
dificuldade de se adaptar. Pelo fato de que o mundo do sono não é o mundo da vigília, daí não se segue
que o mundo da vigília seja menos verdadeiro, pelo contrário. No mundo do sono as nossas percepções
são de tal forma sobrecarregadas, cada qual engrossada por outra, superposta, que a reduplica e
inutilmente a deixa cega, que nem sequer sabemos distinguir o que se passa no aturdimento do
despertar; Françoise é quem viera ou fora eu que, cansado de chamá-la, tinha ido ao seu encontro? O
silêncio naquele instante era o único meio de nada revelar, como no momento em que somos presos por
um juiz instruído de circunstâncias que nos dizem respeito, mas das quais não temos conhecimento.
Viera Françoise ou fora eu quem a chamara? Talvez Françoise é que dormia e eu a tinha despertado.
Ainda mais, não estaria Françoise encerrada no meu peito, e a distinção das pessoas e sua interação
existindo apenas nessa parda escuridão em que a realidade é tão pouco translúcida como no corpo de
um porco-espinho, e onde a percepção quase nula talvez possa dar a ideia da de certos animais? Além
disso, mesmo na límpida loucura que antecede esses sonos mais pesados, flutuam-se luminosamente
alguns fragmentos de sabedoria, se os nomes de Taine e de George Eliot ali não são ignorados, nem por
isso resta menos, para o mundo da vigília, aquela superioridade de ser possível continuar a cada manhã,
o que não sucede a cada noite com o sonho. Mas talvez haja outros mundos mais reais que o da vigília.
Aliás, temos visto que mesmo este é transformado a cada revolução nas artes, e muito mais, ao mesmo
tempo, pelo grau de aptidão ou de cultura que diferencia um artista de um tolo ignorante.
E muitas vezes uma hora de sono a mais é um ataque de paralisia após o qual é preciso
reencontrar o uso dos membros, reaprender a falar. A vontade não o conseguiria.
Dormiu-se demais, não se é mais. O despertar é apenas sentido mecanicamente e sem
consciência, como o pode ser num tubo o fechamento de uma torneira. Sucede-se uma vida mais
inanimada que a da medusa, na qual bem que se poderia imaginar que se está sendo retirado do fundo
do mar ou voltando do banho, caso fosse possível pensar alguma coisa. Mas então, do alto dos céus, a
deusa Mnemotecnia se inclina e nos confere, sob a forma "hábito de pedir o café com leite", a esperança
da ressurreição.
[Mnemotecnia: arte e técnica de desenvolver a memória. Aqui o termo é empregado em
vez do nome da deusa da memória entre os gregos, Mnemósine. (N. do T)]
E mesmo o dom súbito da memória nem sempre é tão simples. Temos muitas vezes junto a nós,
nesses primeiros minutos em que nos deixamos deslizar para fora do sono, uma gama de realidades
diversas onde julgamos poder escolher como num jogo de cartas. É manhã de sexta-feira e voltamos do
passeio, ou então é a hora do chá à beira-mar.
A ideia do sono e de que estamos deitados de camisola é muitas vezes a última que se nos
apresenta. A ressurreição não chega de imediato, pensamos ter tocado a campainha e não o fizemos,
agitamos palavras loucas no cérebro. Só o movimento é que nos devolve o raciocínio e, quando
efetivamente tocamos a campainha, podemos dizer devagar mas com nitidez:
- Já são dez horas. Françoise, traga-me o café com leite.
Ó milagre! Françoise não pudera imaginar o oceano de irrealidade que ainda me banhava todo e
através do qual eu tivera a energia de fazer passar minha estranha pergunta. De fato, ela me respondeu:
- São dez e dez - o que me dava uma aparência razoável e me permitia não deixar perceber as
conversas esquisitas que me haviam acalentado interminavelmente, nos dias em que não fora uma
montanha do Nada que me cancelara a vida. A força de vontade eu me reintegrara no real. Desfrutava
ainda dos destroços do sono, ou seja, da única invenção, do único renovo que existe no modo de contar,
não comportando todas as narrativas em estado de vigília, ainda que embelezadas pela literatura, essas
misteriosas diferenças de onde deriva a beleza. É fácil falar da que o ópio originou. Mas, para um homem
habituado a só dormir sob o efeito de drogas, uma hora inesperada de sono natural desvendará a
imensidão matinal de uma paisagem tão misteriosa e de maior frescura. Fazendo variar a hora, o local
onde se adormece, provocando o sono de modo artificial, ou, pelo contrário, retornando por um dia ao
sono natural o mais estranho de todos para qualquer pessoa que tenha o hábito de dormir tomando
soporíferos-, chega-se a obter variedades de sono mil vezes mais numerosas do que as variedades de
cravos e de rosas que obteríamos se fôssemos jardineiros. Estes obtêm flores que são deliciosos sonhos
e outras também que se parecem a pesadelos. Quando eu adormecia de certo modo, despertava
tiritando, julgando estar com sarampo ou, coisa bem mais dolorosa, que minha avó (em quem já nunca
pensava) sofria porque eu zombara dela no dia em que, em Balbec, acreditando que ia morrer, ela
quisera que eu tivesse uma fotografia sua. E depressa, apesar de acordado, queria explicar-lhe que ela
não me havia compreendido. Porém já me reaquecia. O diagnóstico de sarampo estava afastado e minha
avó se distanciava de mim a tal ponto que não mais fazia doer meu coração.
Por vezes, abatia-se uma súbita escuridão sobre esses diferentes sonos. Eu sentia medo ao
prolongar o meu passeio numa avenida completamente às escuras, onde ouvia passarem os
vagabundos. De repente, erguia-se uma discussão entre um policial e uma dessas mulheres que muitas
vezes exerciam a profissão de cocheiro e que, de longe, tomamos por um rapaz. Na sua boleia cercada
de trevas eu não a enxergava, mas ela me falava e na sua voz eu lia as perfeições do seu rosto e a
juventude do seu corpo. Caminhava na sua direção, dentro do negror, para subir no seu cupê antes que
ela fosse embora. Estava longe. Felizmente, a discussão com o guarda se prolongava.
Alcançava o carro, ainda parado. Este pedaço da avenida era iluminado por lampiões. A pessoa
na boleia tornava-se visível. Era mesmo uma mulher, porém velha, alta e corpulenta, com cabelos
brancos que lhe fugiam por debaixo do boné, e uma lepra vermelha no rosto. Afastava-me pensando: "É
isso o que acontece com a mocidade das mulheres? Aquelas que encontramos, se de repente desejamos
revê-las, tornam-se velhas? A jovem que desejamos será como um emprego de teatro, em que, pela
decadência das criadoras de um papel, somos obrigados a confiá-lo a novas estrelas? Mas então já não é
a mesma."
Depois uma tristeza me invadia. Assim, temos em nosso sono numerosas Piedades, como as
Pietà do Renascimento, mas não como elas executadas no mármore, mas pelo contrário, inconsistentes.
Todavia, elas têm a sua utilidade, que é a de nos lembrar um certo ponto de vista mais enternecido e
mais humano das coisas, que somos por demais tentados a esquecer no bom senso gelado da vigília, por
vezes cheio de hostilidade. Assim me foi lembrada a promessa, que eu me fizera em Balbec, de sempre
ser compassivo para com Françoise. E, ao menos durante toda aquela manhã, eu saberia me esforçar
para não irritar-me com as rixas de Françoise e do mordomo, ser carinhoso com Françoise, a quem os
outros tratavam com tão pouca bondade.
Somente naquela manhã; e precisaria tentar estabelecer para mim um código mais estável; pois,
assim como os povos não são governados durante muito tempo por uma política de puro sentimento, os
homens não o são pela recordação de seus sonhos. Este já principiava a evolar-se. Buscando lembrá-lo
para o descrever, fazia-o fugir ainda mais depressa. Minhas pálpebras já não estavam seladas com tanta
força sobre meus olhos. Se tentava reconstituir meu sonho, elas se abririam totalmente. A todo instante é
preciso escolher entre a saúde e a lucidez, de um lado, e os prazeres espirituais, de outro. Sempre tive a
covardia de escolher a primeira. Aliás, o perigoso poder ao qual eu renunciava era-o ainda mais do que
imaginamos. As Piedades e os sonhos não se dissipam sozinhos. Variando assim as condições em que
adormecemos, não são apenas os sonhos que se dissipam, mas durante muitos dias, anos às vezes, a
faculdade não só de sonhar mas de adormecer. O sono é divino, mas pouco estável; o mais leve choque
deixa-o volátil. Amigo dos hábitos, estes o retêm cada noite, mais fixos do que ele, em seu lugar
consagrado, preservam-no de todo choque. Mas, se o mudarmos de lugar, se não o mantivermos
submisso, ele se desfaz como um vapor. Assemelha-se à juventude e aos amores, não o encontraremos
mais.
Nestes sonos diversos, ainda como na música, era o aumento ou a diminuição do intervalo que
criava a beleza. Eu desfrutava dela, mas, em compensação, tinha perdido naquele sono, conquanto
breve, uma boa parte dos pregões em que se nos torna sensível a vida circulante dos ofícios e dos
alimentos de Paris. Assim, de hábito (sem prever, infelizmente, o drama que tais despertares tardios e
minhas leis draconianas e persas de Assuero raciniano deviam em breve me acarretar), eu me esforçava
por acordar cedo a fim de não perder coisa alguma daqueles pregões.
Além da satisfação de conhecer o gosto de Albertine por eles e de sair de casa sem me erguer da
cama, ouvia neles como o que o símbolo da atmosfera exterior, da perigosa vida turbulenta em cujo seio
não a deixava circular sem minha tutela, num prolongamento exterior do sequestro, e de onde a retirava à
hora que quisesse a fim de fazê-la voltar para junto de mim.
Portanto, foi com a maior sinceridade do mundo que pude responder a Albertine:
- Pelo contrário, eles me agradam porque sei que você gosta deles.
'Olha as ostras fresquinhas!'
- Oh, as ostras! Tenho tanta vontade de comê-las! -
Felizmente Albertine, meio inconstância, meio docilidade, esquecia depressa o que desejara e,
antes que eu tivesse tempo de dizer que ela encontraria melhores ostras na casa Prunier, ela queria
sucessivamente tudo o que ouvia ser apregoado pela vendedora de peixes: "Olha os camarões, os bons
camarões, olha a arraia viva, vivinha!" - "Pescadas para fritar, para fritar!" - "Está chegando a cavala, cavala
nova, cavala fresquinha!"-"Chegou a cavala, senhoras, é boa a cavala" - "Olha os mexilhões, bons e
fresquinhos, os mexilhões!" - Contra a minha vontade, o pregão: "Está chegando a cavala" me fazia
estremecer. Mas, como tais palavras não podiam aplicar-se ao nosso motorista," eu só pensei no peixe
que detestava e minha inquietação logo se dissipou.
- Ah, os mexilhões - disse Albertine -, gostaria tanto de comer os mexilhões.
- Minha querida, isso era bom em Balbec, aqui não presta; peço que se lembre do que lhe disse
Cottard a respeito dos mexilhões. -
Porém a minha observação era tanto mais desastrada, pois a vendedora seguinte anunciava algo
que Cottard proibia ainda mais: Alface romana, a boa alface! Não se vende, dá-se!
Todavia Albertine consentiu-me o sacrifício da alface romana, contanto que lhe prometesse
mandar comprar dali a uns dias à vendedora que apregoa: "Olha o belo aspargo de Argenteuil, olha o
belo aspargo!" Uma voz misteriosa, e da qual seria de esperar as frases mais estranhas, insinuava:
"Tonéis, tonéis!" Éramos obrigados a sentir a decepção de que se tratava apenas de tonéis, pois essa
palavra era quase inteiramente abafada pelo pregão: "Vidrá, vidraceiro, vidraças quebradas, aqui está o
vidrá, vidraceiro!", divisão gregoriana que, entretanto, lembrou-me menos a liturgia do que o fizera o grito
do vendedor de roupas velhas, que reproduzia, sem o saber, uma dessas bruscas interrupções de
sonoridades, no meio de uma prece, tão frequentes no ritual da Igreja: Praeceptis salutaribus moniti et
divina institutione fomarti audemus dicere - ["Do latim: "Instruídos em seus preceitos salvadores e
formados pelo seu ensinamento divino, ousamos dizer..." Fórmula ritual que na missa precede o
Paternoster ('Padre-nosso') (N. do T)] - diz o padre, concluindo vivamente no dicere. Sem irreverência,
como o piedoso povo da Idade Média, na própria igreja, representava as farsas e as soties, é nesse
dicere que faz pensar o vendedor de roupas velhas, quando, depois de arrastar a voz por todas as
palavras, diz a última sílaba com uma precipitação digna do acento regulado pelo grande papa do século
VII: [" Papa Gregório I Magno (590-604). Deu ao ritual da missa a forma que se mantém até hoje. (N. do
T)] : "Trapos, ferro-velho pra vender!" (tudo isto salmodiado lentamente, bem como as duas sílabas
seguintes, ao passo que a última acaba mais vivamente que dicere), "peles de coê-lhos." - "Olha a laranja
fresquinha, a Valência, a boa laranja de Valência!", os próprios alhos-porros modestos: "Olha os bonitos
alhos-porros", as cebolas: "Oito tostões a minha cebola!", ressoavam para mim como um eco das vagas
onde, livre, Albertine poderia perder-se, assumindo desse modo a doçura de um suave mari magno."
"Olha as cenouras! só dois vinténs o molho!"
- Oh! - exclamou Albertine-, couves, cenouras, laranjas. Só coisas que tenho vontade de comer.
Mande Françoise comprá-las. Ela fará cenouras com creme. E além do mais, será muito bom comer tudo
isso junto. Serão todos os ruídos que ouvimos transformados numa boa refeição. Oh, peço-lhe, diga a
Françoise para preparar de preferência uma arraia frita na manteiga queimada. É tão gostoso!
- Meu benzinho, está combinado. Não demore mais, senão vai querer tudo o que essas mulheres
estão vendendo.
- Está feito, vou indo, mas de agora em diante só quero para os nossos jantares as coisas que
tivermos ouvido apregoar. É bem divertido. E dizer que precisamos ainda esperar dois meses para ouvir:
"Ervilhas macias, ervilhas, olha a ervilha!". Como fica bem dizer "ervilhas macias"! Sabe que gosto delas
finas, bem fininhas, escorrendo molho de vinagre, nem se diria que as estamos comendo, macias como o
orvalho. Ai de mim! É o caso dos requeijõezinhos, estão mais longe ainda: "Olha o requeijão fresquinho, o
requeijão!", e as uvas brancas de Fontainebleau: "Tenho belas uvas brancas." - E eu pensava com pavor
em todo aquele tempo que teria de ficar com ela até à época das uvas brancas. - Escute, estava dizendo
que só queria as coisas que tivermos ouvido apregoar, mas é claro que faço algumas exceções. De modo
que não será impossível que você passe no Rebattet para encomendar sorvete para nós dois. Você vai
dizer que ainda não é tempo, mas tenho tanta vontade! -
Fui agitado pelo projeto sobre Rebattet, tornado mais certo e suspeito para mim devido a estas
palavras: "Não será impossível." Era no dia em que os Verdurin recebiam e, desde que Swann lhes
dissera que era a melhor casa, era no Rebattet que eles encomendavam sorvetes e bolinhos.
- Não faço qualquer objeção a um sorvete, minha querida Albertine, mas deixe-o por minha conta,
não sei mesmo se o encomendarei no Poiré-Blanche, no Rebattet, no Ritz, enfim, vou ver.
- Então vai sair? - perguntou Albertine com ar desconfiado. Sempre dizia que ficaria encantada se
eu saísse mais, mas se uma palavra minha podia deixar supor que eu não ficaria em casa, seu ar inquieto
fazia pensar que a satisfação que ela teria em me ver sair com frequência talvez não fosse sincera.
- Talvez saia, talvez não, você sabe perfeitamente que nunca faço projetos antecipados. Em todo
caso, os sorvetes não são coisa que se apregoe, que se venda pelas ruas; por que você os deseja então? - E aí ela me respondeu com estas palavras que me provaram o quanto, de fato, a inteligência e o gosto
latente se haviam bruscamente desenvolvido nela desde Balbec, com estas palavras do tipo daquelas
que ela pretendia serem devidas unicamente à minha influência, à constante coabitação comigo, palavras
que no entanto eu jamais teria dito, como se me tivesse sido feita alguma proibição, por um
desconhecido, de empregar na conversa formas literárias. Talvez o futuro não devesse ser o mesmo para
Albertine e para mim. Tive quase o pressentimento disso, ao vê-la apressar-se a empregar, falando,
imagens tão escritas e que me pareciam reservadas para outro uso mais sagrado e que eu ainda
ignorava. Ela me disse (e apesar de tudo fiquei profundamente enternecido, pois pensei: "Com certeza
não falaria desse modo, sofreu profundamente a minha influência, portanto ela não pode me amar, é obra
minha"):
- O que eu amo nessas comidas apregoadas é uma coisa ouvida, como uma rapsódia, muda de
natureza às refeições, e se dirige ao meu paladar. Quanto aos sorvetes (pois espero que você os
encomende naquelas formas fora de moda que têm todas as configurações possíveis de arquitetura),
todas as vezes que os tomo, templos, igrejas, obeliscos, rochedos, é como uma geografia pitoresca que
olho primeiro e, a seguir, converto seus monumentos de framboesa ou de baunilha em frescor na minha
garganta. -
Eu achava que aquilo era um tanto bem enunciado demais, porém ela sentiu que eu achava que
estava bem dito e continuou, parando por um momento quando obtinha uma comparação feliz, para rir
com seu belo riso que me parecia tão cruel por ser tão voluptuoso:
- Meu Deus, no hotel Ritz receio muito que você encontre colunas Vendôme de sorvetes, sorvete
de chocolate ou de framboesa, e então será preciso vários para que se pareçam à colunas votivas ou
pilares erguidos numa alameda à glória do Frescor. Fazem também obeliscos de framboesa que se
levantarão de sítio em sítio no deserto ardente de minha sede e cujo granito róseo irei derreter no fundo
da garganta e que eles irão desalterar melhor do que os oásis (e aqui estalou o riso profundo, fosse pela
satisfação de falar bem, fosse por zombaria consigo mesma por expressar-se em imagens tão
continuadas, fosse, ai de mim, pela volúpia física de sentir em si própria algo de tão bom, tão viçoso, que
lhe causava o equivalente de um orgasmo). Esses picos de sorvete do Ritz lembram às vezes o monte
Rose, e até, se o sorvete é de limão, não desgosto que não tenha forma monumental, que seja irregular,
abrupto, como uma montanha de Elstir. Então, não é necessário que seja muito branco, mas um tanto
amarelado, com aquele aspecto de neve suja e embaçada das montanhas de Elstir. O sorvete pode não
ser grande, ser meio sorvete apenas, se quiser; mesmo assim, esses sorvetes de limão são montanhas
reduzidas a uma escala bem pequena, mas a imaginação restabelece as proporções como no caso
daquelas arvorezinhas japonesas anãs que se percebe muito bem serem cedros, carvalhos, mancenilhas,
de modo que, pondo algumas delas ao longo de um pequeno sulco no meu quarto, eu teria uma imensa
floresta descendo para um rio e onde as criancinhas poderiam perder-se. Da mesma forma, junto ao meu
sorvete amarelado de limão, vejo perfeitamente postilhões, viajantes, seges de posta, sobre os quais a
minha língua se encarrega de fazer desabar glaciais avalanches que os engolirão (a cruel volúpia com
que ela falou isto excitou o meu ciúme); da mesma forma - acrescentou ela - encarrego-me de destruir com
meus lábios, coluna por coluna, essas igrejas venezianas de um pórfiro que é morango, e de fazer cair
sobre os fiéis o que eu tiver poupado. Sim, todos esses monumentos hão de passar de sua praça de
pedra para o meu peito, onde já palpita o seu frescor que se derrete. Mas, olhe, mesmo sorvetes, nada é
tão excitante nem dá sede como os anúncios de fontes termais. Em Montjouvain, na casa da Srta.
Vinteuil, não existia um bom sorveteiro nas redondezas, mas nós fazíamos no jardim a nossa excursão
pela França, bebendo a cada dia uma água mineral gasosa e diferente, como a água de Vichy, que, ao
ser servida, levanta logo das profundezas do copo uma nuvem branca, que se abranda e se dissipa se
não bebemos depressa. -
Mas ouvir falar de Montjouvain era penoso demais para mim, de modo que a interrompia.
- Estou sendo aborrecida, adeus querido.
Que mudança desde Balbec, onde duvido que o próprio Elstir pudesse ter adivinhado essas
riquezas de poesia em Albertine. De uma poesia menos estranha, menos pessoal que a de Céleste
Albaret, por exemplo, que ainda na véspera viera visitar-me e, encontrando-me deitado, exclamara:
- Ó majestade do céu deposta numa cama!
- Por que do céu, Céleste?
- Oh, porque o senhor não se parece com ninguém, está enganado se julga ter algo desses que
viajam sobre essa nossa terra vil.
- Em todo caso, por que "deposto"?
- Porque o senhor nada tem de um homem deitado, o senhor não está na cama, não se move, os
anjos é que parecem ter descido para depô-lo aí.
Albertine jamais teria tido esse achado, mas o amor, mesmo quando parece a ponto de acabar, é
parcial. Eu preferia a "geografia pitoresca" dos sorvetes, cuja graça excessivamente fácil me parecia um
motivo para amar Albertine e uma prova de que eu tinha poder sobre ela, que ela me amava.
continua na página 54...
________________
Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Mas é claro que não lhe desejava)
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