quinta-feira, 16 de julho de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Mas é claro que não lhe desejava)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Mas é claro que não lhe desejava nenhum mal. Mas que bom seria se, com seus cavalos, ela tivesse a boa ideia de partir não sei para onde, onde se sentisse feliz, e de nunca mais voltar para a minha casa! Como tudo se simplificaria se ela fosse viver feliz algures, e nem mesmo me importava saber onde!

- Oh, sei muito bem que você não sobreviveria quarenta e oito horas, acabaria se matando!

     Assim, trocávamos palavras mentirosas. Mas uma verdade mais profunda do que essa que proferiríamos se fôssemos sinceros pode às vezes ser expressa e prenunciada por outro meio que o da sinceridade.

- Esses barulhos todos na rua não o incomodam? - perguntou ela-; pois eu os adoro. Mas você que tem o sono tão leve?-

     Ao contrário, eu o tinha às vezes bem profundo (como já disse, mas como o episódio que se segue me obriga a recordá-lo) e sobretudo quando só adormecia pela manhã. Como tal sono foi em média quatro vezes mais repousante, parece ter sido quatro vezes mais longo àquele que dormiu, quando de fato foi quatro vezes mais curto. Magnífico erro de uma multiplicação por dezesseis que confere tanta beleza ao despertar e na vida introduz uma verdadeira inovação, semelhante àquelas grandes mudanças de ritmo que, na música, fazem com que uma colcheia, no andante, tenha a mesma duração que uma mínima num prestíssimo, e que são desconhecidas no estado de vigília. A vida aí é quase sempre a mesma, de onde as decepções da viagem. No entanto, bem parece que o sonho é feito às vezes da matéria mais grosseira da vida, mas tal matéria aí é tratada, amassada de tal modo, com um alongamento devido a que nenhum dos limites horários do estado de vigília a impede de desprender-se a tão enormes alturas, que ninguém mais a reconhece. Nas manhãs em que esta boa sorte me ocorria, em que a esponja do sono apagara do meu cérebro os sinais das ocupações diárias que nele são traçadas como num quadro-negro, eu precisava fazer reviver a minha memória; à força de vontade, pode-se reaver o que a amnésia do sono ou de um ataque fez olvidar e que renasce aos poucos, à medida que os olhos se abrem ou que a paralisia desaparece. Eu vivera tantas horas em alguns minutos que, desejando falar a Françoise, a quem chamara, numa linguagem conforme a realidade e de acordo com a hora, era obrigado a empregar todo o meu poder interno de compreensão para não dizer: "Ora, Françoise, já são cinco horas da tarde e não vejo você desde ontem à tarde." E para repelir os meus sonhos, em contradição com eles, mentindo para mim mesmo, eu dizia atrevidamente, e reduzindo-me com todas as minhas forças ao silêncio, palavras opostas:

- Françoise, já são dez horas! - 

     Eu nem dizia dez horas da manhã, mas simplesmente dez horas, para que essas dez horas, tão incríveis, dessem a impressão de ser pronunciadas no tom mais natural. Todavia, dizer essas palavras em vez daquelas que continuava a pensar, mal desperto, o dormidor que eu era ainda, exigia o mesmo esforço de equilíbrio que a alguém que, saltando de um trem em movimento e correndo por um instante ao longo da linha, consegue entretanto não cair. Corre por um instante porque o meio que abandona é um meio animado de grande velocidade, e muito diverso do solo inerte ao qual seus pés têm alguma dificuldade de se adaptar. Pelo fato de que o mundo do sono não é o mundo da vigília, daí não se segue que o mundo da vigília seja menos verdadeiro, pelo contrário. No mundo do sono as nossas percepções são de tal forma sobrecarregadas, cada qual engrossada por outra, superposta, que a reduplica e inutilmente a deixa cega, que nem sequer sabemos distinguir o que se passa no aturdimento do despertar; Françoise é quem viera ou fora eu que, cansado de chamá-la, tinha ido ao seu encontro? O silêncio naquele instante era o único meio de nada revelar, como no momento em que somos presos por um juiz instruído de circunstâncias que nos dizem respeito, mas das quais não temos conhecimento. Viera Françoise ou fora eu quem a chamara? Talvez Françoise é que dormia e eu a tinha despertado. Ainda mais, não estaria Françoise encerrada no meu peito, e a distinção das pessoas e sua interação existindo apenas nessa parda escuridão em que a realidade é tão pouco translúcida como no corpo de um porco-espinho, e onde a percepção quase nula talvez possa dar a ideia da de certos animais? Além disso, mesmo na límpida loucura que antecede esses sonos mais pesados, flutuam-se luminosamente alguns fragmentos de sabedoria, se os nomes de Taine e de George Eliot ali não são ignorados, nem por isso resta menos, para o mundo da vigília, aquela superioridade de ser possível continuar a cada manhã, o que não sucede a cada noite com o sonho. Mas talvez haja outros mundos mais reais que o da vigília. Aliás, temos visto que mesmo este é transformado a cada revolução nas artes, e muito mais, ao mesmo tempo, pelo grau de aptidão ou de cultura que diferencia um artista de um tolo ignorante.
     E muitas vezes uma hora de sono a mais é um ataque de paralisia após o qual é preciso reencontrar o uso dos membros, reaprender a falar. A vontade não o conseguiria.
     Dormiu-se demais, não se é mais. O despertar é apenas sentido mecanicamente e sem consciência, como o pode ser num tubo o fechamento de uma torneira. Sucede-se uma vida mais inanimada que a da medusa, na qual bem que se poderia imaginar que se está sendo retirado do fundo do mar ou voltando do banho, caso fosse possível pensar alguma coisa. Mas então, do alto dos céus, a deusa Mnemotecnia se inclina e nos confere, sob a forma "hábito de pedir o café com leite", a esperança da ressurreição. 

[Mnemotecnia: arte e técnica de desenvolver a memória. Aqui o termo é empregado em vez do nome da deusa da memória entre os gregos, Mnemósine. (N. do T)]

     E mesmo o dom súbito da memória nem sempre é tão simples. Temos muitas vezes junto a nós, nesses primeiros minutos em que nos deixamos deslizar para fora do sono, uma gama de realidades diversas onde julgamos poder escolher como num jogo de cartas. É manhã de sexta-feira e voltamos do passeio, ou então é a hora do chá à beira-mar.
     A ideia do sono e de que estamos deitados de camisola é muitas vezes a última que se nos apresenta. A ressurreição não chega de imediato, pensamos ter tocado a campainha e não o fizemos, agitamos palavras loucas no cérebro. Só o movimento é que nos devolve o raciocínio e, quando efetivamente tocamos a campainha, podemos dizer devagar mas com nitidez:

- Já são dez horas. Françoise, traga-me o café com leite.

     Ó milagre! Françoise não pudera imaginar o oceano de irrealidade que ainda me banhava todo e através do qual eu tivera a energia de fazer passar minha estranha pergunta. De fato, ela me respondeu:

- São dez e dez - o que me dava uma aparência razoável e me permitia não deixar perceber as conversas esquisitas que me haviam acalentado interminavelmente, nos dias em que não fora uma montanha do Nada que me cancelara a vida. A força de vontade eu me reintegrara no real. Desfrutava ainda dos destroços do sono, ou seja, da única invenção, do único renovo que existe no modo de contar, não comportando todas as narrativas em estado de vigília, ainda que embelezadas pela literatura, essas misteriosas diferenças de onde deriva a beleza. É fácil falar da que o ópio originou. Mas, para um homem habituado a só dormir sob o efeito de drogas, uma hora inesperada de sono natural desvendará a imensidão matinal de uma paisagem tão misteriosa e de maior frescura. Fazendo variar a hora, o local onde se adormece, provocando o sono de modo artificial, ou, pelo contrário, retornando por um dia ao sono natural o mais estranho de todos para qualquer pessoa que tenha o hábito de dormir tomando soporíferos-, chega-se a obter variedades de sono mil vezes mais numerosas do que as variedades de cravos e de rosas que obteríamos se fôssemos jardineiros. Estes obtêm flores que são deliciosos sonhos e outras também que se parecem a pesadelos. Quando eu adormecia de certo modo, despertava tiritando, julgando estar com sarampo ou, coisa bem mais dolorosa, que minha avó (em quem já nunca pensava) sofria porque eu zombara dela no dia em que, em Balbec, acreditando que ia morrer, ela quisera que eu tivesse uma fotografia sua. E depressa, apesar de acordado, queria explicar-lhe que ela não me havia compreendido. Porém já me reaquecia. O diagnóstico de sarampo estava afastado e minha avó se distanciava de mim a tal ponto que não mais fazia doer meu coração.
     Por vezes, abatia-se uma súbita escuridão sobre esses diferentes sonos. Eu sentia medo ao prolongar o meu passeio numa avenida completamente às escuras, onde ouvia passarem os vagabundos. De repente, erguia-se uma discussão entre um policial e uma dessas mulheres que muitas vezes exerciam a profissão de cocheiro e que, de longe, tomamos por um rapaz. Na sua boleia cercada de trevas eu não a enxergava, mas ela me falava e na sua voz eu lia as perfeições do seu rosto e a juventude do seu corpo. Caminhava na sua direção, dentro do negror, para subir no seu cupê antes que ela fosse embora. Estava longe. Felizmente, a discussão com o guarda se prolongava.
     Alcançava o carro, ainda parado. Este pedaço da avenida era iluminado por lampiões. A pessoa na boleia tornava-se visível. Era mesmo uma mulher, porém velha, alta e corpulenta, com cabelos brancos que lhe fugiam por debaixo do boné, e uma lepra vermelha no rosto. Afastava-me pensando: "É isso o que acontece com a mocidade das mulheres? Aquelas que encontramos, se de repente desejamos revê-las, tornam-se velhas? A jovem que desejamos será como um emprego de teatro, em que, pela decadência das criadoras de um papel, somos obrigados a confiá-lo a novas estrelas? Mas então já não é a mesma."
     Depois uma tristeza me invadia. Assim, temos em nosso sono numerosas Piedades, como as Pietà do Renascimento, mas não como elas executadas no mármore, mas pelo contrário, inconsistentes. Todavia, elas têm a sua utilidade, que é a de nos lembrar um certo ponto de vista mais enternecido e mais humano das coisas, que somos por demais tentados a esquecer no bom senso gelado da vigília, por vezes cheio de hostilidade. Assim me foi lembrada a promessa, que eu me fizera em Balbec, de sempre ser compassivo para com Françoise. E, ao menos durante toda aquela manhã, eu saberia me esforçar para não irritar-me com as rixas de Françoise e do mordomo, ser carinhoso com Françoise, a quem os outros tratavam com tão pouca bondade.
     Somente naquela manhã; e precisaria tentar estabelecer para mim um código mais estável; pois, assim como os povos não são governados durante muito tempo por uma política de puro sentimento, os homens não o são pela recordação de seus sonhos. Este já principiava a evolar-se. Buscando lembrá-lo para o descrever, fazia-o fugir ainda mais depressa. Minhas pálpebras já não estavam seladas com tanta força sobre meus olhos. Se tentava reconstituir meu sonho, elas se abririam totalmente. A todo instante é preciso escolher entre a saúde e a lucidez, de um lado, e os prazeres espirituais, de outro. Sempre tive a covardia de escolher a primeira. Aliás, o perigoso poder ao qual eu renunciava era-o ainda mais do que imaginamos. As Piedades e os sonhos não se dissipam sozinhos. Variando assim as condições em que adormecemos, não são apenas os sonhos que se dissipam, mas durante muitos dias, anos às vezes, a faculdade não só de sonhar mas de adormecer. O sono é divino, mas pouco estável; o mais leve choque deixa-o volátil. Amigo dos hábitos, estes o retêm cada noite, mais fixos do que ele, em seu lugar consagrado, preservam-no de todo choque. Mas, se o mudarmos de lugar, se não o mantivermos submisso, ele se desfaz como um vapor. Assemelha-se à juventude e aos amores, não o encontraremos mais.
     Nestes sonos diversos, ainda como na música, era o aumento ou a diminuição do intervalo que criava a beleza. Eu desfrutava dela, mas, em compensação, tinha perdido naquele sono, conquanto breve, uma boa parte dos pregões em que se nos torna sensível a vida circulante dos ofícios e dos alimentos de Paris. Assim, de hábito (sem prever, infelizmente, o drama que tais despertares tardios e minhas leis draconianas e persas de Assuero raciniano deviam em breve me acarretar), eu me esforçava por acordar cedo a fim de não perder coisa alguma daqueles pregões.
     Além da satisfação de conhecer o gosto de Albertine por eles e de sair de casa sem me erguer da cama, ouvia neles como o que o símbolo da atmosfera exterior, da perigosa vida turbulenta em cujo seio não a deixava circular sem minha tutela, num prolongamento exterior do sequestro, e de onde a retirava à hora que quisesse a fim de fazê-la voltar para junto de mim.
     Portanto, foi com a maior sinceridade do mundo que pude responder a Albertine:

- Pelo contrário, eles me agradam porque sei que você gosta deles. 
'Olha as ostras fresquinhas!' 
- Oh, as ostras! Tenho tanta vontade de comê-las! -

     Felizmente Albertine, meio inconstância, meio docilidade, esquecia depressa o que desejara e, antes que eu tivesse tempo de dizer que ela encontraria melhores ostras na casa Prunier, ela queria sucessivamente tudo o que ouvia ser apregoado pela vendedora de peixes: "Olha os camarões, os bons camarões, olha a arraia viva, vivinha!" - "Pescadas para fritar, para fritar!" - "Está chegando a cavala, cavala nova, cavala fresquinha!"-"Chegou a cavala, senhoras, é boa a cavala" - "Olha os mexilhões, bons e fresquinhos, os mexilhões!" - Contra a minha vontade, o pregão: "Está chegando a cavala" me fazia estremecer. Mas, como tais palavras não podiam aplicar-se ao nosso motorista," eu só pensei no peixe que detestava e minha inquietação logo se dissipou. 

- Ah, os mexilhões - disse Albertine -, gostaria tanto de comer os mexilhões. 
- Minha querida, isso era bom em Balbec, aqui não presta; peço que se lembre do que lhe disse Cottard a respeito dos mexilhões. -

     Porém a minha observação era tanto mais desastrada, pois a vendedora seguinte anunciava algo que Cottard proibia ainda mais: Alface romana, a boa alface! Não se vende, dá-se!
     Todavia Albertine consentiu-me o sacrifício da alface romana, contanto que lhe prometesse mandar comprar dali a uns dias à vendedora que apregoa: "Olha o belo aspargo de Argenteuil, olha o belo aspargo!" Uma voz misteriosa, e da qual seria de esperar as frases mais estranhas, insinuava: "Tonéis, tonéis!" Éramos obrigados a sentir a decepção de que se tratava apenas de tonéis, pois essa palavra era quase inteiramente abafada pelo pregão: "Vidrá, vidraceiro, vidraças quebradas, aqui está o vidrá, vidraceiro!", divisão gregoriana que, entretanto, lembrou-me menos a liturgia do que o fizera o grito do vendedor de roupas velhas, que reproduzia, sem o saber, uma dessas bruscas interrupções de sonoridades, no meio de uma prece, tão frequentes no ritual da Igreja: Praeceptis salutaribus moniti et divina institutione fomarti audemus dicere - ["Do latim: "Instruídos em seus preceitos salvadores e formados pelo seu ensinamento divino, ousamos dizer..." Fórmula ritual que na missa precede o Paternoster ('Padre-nosso') (N. do T)] - diz o padre, concluindo vivamente no dicere. Sem irreverência, como o piedoso povo da Idade Média, na própria igreja, representava as farsas e as soties, é nesse dicere que faz pensar o vendedor de roupas velhas, quando, depois de arrastar a voz por todas as palavras, diz a última sílaba com uma precipitação digna do acento regulado pelo grande papa do século VII: [" Papa Gregório I Magno (590-604). Deu ao ritual da missa a forma que se mantém até hoje. (N. do T)] : "Trapos, ferro-velho pra vender!" (tudo isto salmodiado lentamente, bem como as duas sílabas seguintes, ao passo que a última acaba mais vivamente que dicere), "peles de coê-lhos." - "Olha a laranja fresquinha, a Valência, a boa laranja de Valência!", os próprios alhos-porros modestos: "Olha os bonitos alhos-porros", as cebolas: "Oito tostões a minha cebola!", ressoavam para mim como um eco das vagas onde, livre, Albertine poderia perder-se, assumindo desse modo a doçura de um suave mari magno." "Olha as cenouras! só dois vinténs o molho!" 

- Oh! - exclamou Albertine-, couves, cenouras, laranjas. Só coisas que tenho vontade de comer. Mande Françoise comprá-las. Ela fará cenouras com creme. E além do mais, será muito bom comer tudo isso junto. Serão todos os ruídos que ouvimos transformados numa boa refeição. Oh, peço-lhe, diga a Françoise para preparar de preferência uma arraia frita na manteiga queimada. É tão gostoso! 
- Meu benzinho, está combinado. Não demore mais, senão vai querer tudo o que essas mulheres estão vendendo. 
- Está feito, vou indo, mas de agora em diante só quero para os nossos jantares as coisas que tivermos ouvido apregoar. É bem divertido. E dizer que precisamos ainda esperar dois meses para ouvir: "Ervilhas macias, ervilhas, olha a ervilha!". Como fica bem dizer "ervilhas macias"! Sabe que gosto delas finas, bem fininhas, escorrendo molho de vinagre, nem se diria que as estamos comendo, macias como o orvalho. Ai de mim! É o caso dos requeijõezinhos, estão mais longe ainda: "Olha o requeijão fresquinho, o requeijão!", e as uvas brancas de Fontainebleau: "Tenho belas uvas brancas." - E eu pensava com pavor em todo aquele tempo que teria de ficar com ela até à época das uvas brancas. - Escute, estava dizendo que só queria as coisas que tivermos ouvido apregoar, mas é claro que faço algumas exceções. De modo que não será impossível que você passe no Rebattet para encomendar sorvete para nós dois. Você vai dizer que ainda não é tempo, mas tenho tanta vontade! -

     Fui agitado pelo projeto sobre Rebattet, tornado mais certo e suspeito para mim devido a estas palavras: "Não será impossível." Era no dia em que os Verdurin recebiam e, desde que Swann lhes dissera que era a melhor casa, era no Rebattet que eles encomendavam sorvetes e bolinhos. 

- Não faço qualquer objeção a um sorvete, minha querida Albertine, mas deixe-o por minha conta, não sei mesmo se o encomendarei no Poiré-Blanche, no Rebattet, no Ritz, enfim, vou ver. 
- Então vai sair? - perguntou Albertine com ar desconfiado. Sempre dizia que ficaria encantada se eu saísse mais, mas se uma palavra minha podia deixar supor que eu não ficaria em casa, seu ar inquieto fazia pensar que a satisfação que ela teria em me ver sair com frequência talvez não fosse sincera. 
- Talvez saia, talvez não, você sabe perfeitamente que nunca faço projetos antecipados. Em todo caso, os sorvetes não são coisa que se apregoe, que se venda pelas ruas; por que você os deseja então? - E aí ela me respondeu com estas palavras que me provaram o quanto, de fato, a inteligência e o gosto latente se haviam bruscamente desenvolvido nela desde Balbec, com estas palavras do tipo daquelas que ela pretendia serem devidas unicamente à minha influência, à constante coabitação comigo, palavras que no entanto eu jamais teria dito, como se me tivesse sido feita alguma proibição, por um desconhecido, de empregar na conversa formas literárias. Talvez o futuro não devesse ser o mesmo para Albertine e para mim. Tive quase o pressentimento disso, ao vê-la apressar-se a empregar, falando, imagens tão escritas e que me pareciam reservadas para outro uso mais sagrado e que eu ainda ignorava. Ela me disse (e apesar de tudo fiquei profundamente enternecido, pois pensei: "Com certeza não falaria desse modo, sofreu profundamente a minha influência, portanto ela não pode me amar, é obra minha"): 
- O que eu amo nessas comidas apregoadas é uma coisa ouvida, como uma rapsódia, muda de natureza às refeições, e se dirige ao meu paladar. Quanto aos sorvetes (pois espero que você os encomende naquelas formas fora de moda que têm todas as configurações possíveis de arquitetura), todas as vezes que os tomo, templos, igrejas, obeliscos, rochedos, é como uma geografia pitoresca que olho primeiro e, a seguir, converto seus monumentos de framboesa ou de baunilha em frescor na minha garganta. -

     Eu achava que aquilo era um tanto bem enunciado demais, porém ela sentiu que eu achava que estava bem dito e continuou, parando por um momento quando obtinha uma comparação feliz, para rir com seu belo riso que me parecia tão cruel por ser tão voluptuoso: 

- Meu Deus, no hotel Ritz receio muito que você encontre colunas Vendôme de sorvetes, sorvete de chocolate ou de framboesa, e então será preciso vários para que se pareçam à colunas votivas ou pilares erguidos numa alameda à glória do Frescor. Fazem também obeliscos de framboesa que se levantarão de sítio em sítio no deserto ardente de minha sede e cujo granito róseo irei derreter no fundo da garganta e que eles irão desalterar melhor do que os oásis (e aqui estalou o riso profundo, fosse pela satisfação de falar bem, fosse por zombaria consigo mesma por expressar-se em imagens tão continuadas, fosse, ai de mim, pela volúpia física de sentir em si própria algo de tão bom, tão viçoso, que lhe causava o equivalente de um orgasmo). Esses picos de sorvete do Ritz lembram às vezes o monte Rose, e até, se o sorvete é de limão, não desgosto que não tenha forma monumental, que seja irregular, abrupto, como uma montanha de Elstir. Então, não é necessário que seja muito branco, mas um tanto amarelado, com aquele aspecto de neve suja e embaçada das montanhas de Elstir. O sorvete pode não ser grande, ser meio sorvete apenas, se quiser; mesmo assim, esses sorvetes de limão são montanhas reduzidas a uma escala bem pequena, mas a imaginação restabelece as proporções como no caso daquelas arvorezinhas japonesas anãs que se percebe muito bem serem cedros, carvalhos, mancenilhas, de modo que, pondo algumas delas ao longo de um pequeno sulco no meu quarto, eu teria uma imensa floresta descendo para um rio e onde as criancinhas poderiam perder-se. Da mesma forma, junto ao meu sorvete amarelado de limão, vejo perfeitamente postilhões, viajantes, seges de posta, sobre os quais a minha língua se encarrega de fazer desabar glaciais avalanches que os engolirão (a cruel volúpia com que ela falou isto excitou o meu ciúme); da mesma forma - acrescentou ela - encarrego-me de destruir com meus lábios, coluna por coluna, essas igrejas venezianas de um pórfiro que é morango, e de fazer cair sobre os fiéis o que eu tiver poupado. Sim, todos esses monumentos hão de passar de sua praça de pedra para o meu peito, onde já palpita o seu frescor que se derrete. Mas, olhe, mesmo sorvetes, nada é tão excitante nem dá sede como os anúncios de fontes termais. Em Montjouvain, na casa da Srta. Vinteuil, não existia um bom sorveteiro nas redondezas, mas nós fazíamos no jardim a nossa excursão pela França, bebendo a cada dia uma água mineral gasosa e diferente, como a água de Vichy, que, ao ser servida, levanta logo das profundezas do copo uma nuvem branca, que se abranda e se dissipa se não bebemos depressa. -

     Mas ouvir falar de Montjouvain era penoso demais para mim, de modo que a interrompia. 

- Estou sendo aborrecida, adeus querido. 

     Que mudança desde Balbec, onde duvido que o próprio Elstir pudesse ter adivinhado essas riquezas de poesia em Albertine. De uma poesia menos estranha, menos pessoal que a de Céleste Albaret, por exemplo, que ainda na véspera viera visitar-me e, encontrando-me deitado, exclamara: 

- Ó majestade do céu deposta numa cama! 
- Por que do céu, Céleste?
- Oh, porque o senhor não se parece com ninguém, está enganado se julga ter algo desses que viajam sobre essa nossa terra vil. 
- Em todo caso, por que "deposto"?
- Porque o senhor nada tem de um homem deitado, o senhor não está na cama, não se move, os anjos é que parecem ter descido para depô-lo aí. 

     Albertine jamais teria tido esse achado, mas o amor, mesmo quando parece a ponto de acabar, é parcial. Eu preferia a "geografia pitoresca" dos sorvetes, cuja graça excessivamente fácil me parecia um motivo para amar Albertine e uma prova de que eu tinha poder sobre ela, que ela me amava.


continua na página 54...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Mas é claro que não lhe desejava)

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