quinta-feira, 23 de julho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (5)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     45. A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai aniquilou a única experiência de desenvolvimento independente
          O homem viajava ao meu lado, silencioso. Seu perfil, nariz afilado, altos pômulos, recortava-se contra a forte luz do meio-dia. Íamos para Assunção, partindo da fronteira sul, num ônibus para vinte pessoas que, não sei como, transportava 50. Depois de algumas horas, uma parada. Sentamo-nos num pátio aberto, à sombra de uma árvore de folhas carnosas. Aos nossos olhos, abria-se o brilho ofuscante da vasta, despovoada, intacta terra vermelha: de horizonte a horizonte, nada perturba a transparência do ar do Paraguai. Fumamos. Meu companheiro, camponês de fala guarani, desabafou algumas palavras tristes em castelhano. “Os paraguaios somos pobres e poucos”, disse me. Explicou que havia descido até Encarnación à procura de trabalho, mas nada encontrara. Tinha conseguido apenas juntar uns pesos para a passagem de volta. Muitos anos antes, quando moço, tinha tentado a sorte em Buenos Aires e no sul do Brasil. Agora vinha a colheita do algodão e muitos braceros paraguaios pegavam a estrada, como em todos os anos, rumo às terras argentinas. “Mas eu já tenho 63 anos, meu coração já não suporta essas andanças enroladas.”
     Somam meio milhão os paraguaios que abandonaram definitivamente a pátria, nos últimos vinte anos. A miséria induz ao êxodo os habitantes do país que, até quase um século atrás, era o mais avançado da América do Sul. O Paraguai tem agora uma população que apenas duplica a que tinha então, e como a Bolívia, é um dos dois países sul americanos mais pobres e atrasados. Os paraguaios padecem a herança de uma guerra de extermínio que se integrou à história da América Latina como o seu capítulo mais infame. Chamou-se Guerra da Tríplice Aliança. Brasil, Argentina e Uruguai encarregaram-se do genocídio. Não deixaram pedra sobre pedra e tampouco habitantes varões entre os escombros. Embora a Inglaterra não tenha participado diretamente na horrorosa façanha, foram seus mercadores, seus banqueiros e seus industriais que resultaram beneficiados com o crime do Paraguai. A invasão foi financiada, do princípio ao fim, pelo Banco de Londres, pela casa Baring Brothers e pela banca Rothschild, através de empréstimos a juros leoninos que hipotecaram o destino dos países vencedores. [1]

[1] Para escrever este capítulo, o autor consultou as seguintes obras: AL ERDI, Juan Bautista. Historia de la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1962; OX, Pelham Horton. Los orígenes de la Guerra de la Triple Alianza. Buenos Aires; Asunción, 1958; CARDOZO, Efraim. El império del Brasil y el Rio de la Plata. Buenos Aires, 1961; CHAVES, Julio César. El presidente López. Buenos Aires, 1955; PEREYRA, Carlos. Francisco Solano López y la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1945; PÉREZ ACOSTA, Juan F. Carlos Antonio López, obrero máximo. Labor administrativa y constructiva. Asunción, 1948; ROSA, José Maria. La guerra del Paraguay y las montoneras argentinas. Buenos Aires, 1965; MITRE, Bartolomé & GÓMEZ, Juan Carlos. Cartas polémicas sobre la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1940. Prólogo de J. Natalício González; também um trabalho inédito de Vivian Trias sobre o tema.

     Até sua destruição, o Paraguaio se destacava como uma exceção na América Latina: a única nação que o capital estrangeiro não havia deformado. O longo governo de mão de ferro do ditador Gaspar Rodríguez de Francia (1814 1840) havia incubado, na matriz do isolamento, um desenvolvimento econômico autônomo e sustentado. O Estado onipotente, paternalista, ocupava o lugar de uma burguesia nacional que não existia, na tarefa de organizar a nação e orientar seus recursos e seu destino. Francia apoiara-se nas massas campesinas para esmagar a oligarquia paraguaia e conquistara a paz interior estendendo um estrito cordão sanitário nas fronteiras com os restantes países do vice-reinado do Rio da Prata. As expropriações, os desterros, as prisões, as perseguições e as multas não tinham servido de instrumentos para a consolidação do domínio interno dos latifundiários e comerciantes, mas, ao contrário, tinham sido usados para sua destruição. Não existiam, nem nasceriam mais tarde, as liberdades políticas e o direito de oposição, mas naquela etapa histórica só os saudosos dos privilégios perdidos estranhariam a falta de democracia. Não havia grandes fortunas privadas quando Francia morreu, e o Paraguai era o único país da América Latina que não tinha mendigos, famélicos ou ladrões [2]; os viajantes da época encontravam ali um oásis de tranquilidade em meio às demais comarcas convulsionadas por contínuas guerras. O agente norte americano Hopkins informava em 1845 ao seu governo que no Paraguai “não há criança que não saiba ler e escrever”. Era também o único país que não vivia com o olhar cravado no outro lado do mar. O comércio exterior não se constituía no eixo da vida nacional; a doutrina liberal, expressão ideológica da articulação mundial dos mercados, carecia de respostas para os desafios que o Paraguai, obrigado a crescer para dentro por causa de seu isolamento mediterrâneo, estava equacionando desde o princípio do século. O extermínio da oligarquia tornou possível a concentração das bases econômicas fundamentais nas mãos do Estado, para levar adiante esta política autárquica de desenvolvimento dentro das fronteiras.

[2] Francia integra, como um dos exemplares mais horrorosos, o bestiário da história oficial. As deformações ópticas impostas pelo liberalismo não são um privilégio das classes dominantes na América Latina; muitos intelectuais de esquerda, que costumam olhar com lentes alheias para a história de nossos países, também compartilham certos mitos da direita, suas canonizações e suas excomunhões. O Canto general, de Pablo Neruda ( Buenos Aires, 1955), esplêndida homenagem poética aos povos latino-americanos, exibe claramente este desacerto. Neruda ignora Artigas, Carlos Antonio e Francisco Solano López; em troca, identifica-se com Sarmiento. Qualifica Francia de “rei leproso, rodeado / pelas extensões de erva-mate”, que “fechou o Paraguai como um ninho / de sua majestade” e “amarrou tortura / e barro às fronteiras”. Com Rosas não é mais amável: clama contra os “punhais, gargalhadas de mazorca / sobre o martírio” de uma “Argentina roubada a coronhadas / no vapor da aurora, castigada / até sangrar e enlouquecer, vazia /  montada por rudes capatazes”.

     Os posteriores governos de Carlos Antonio López e seu filho Francisco Solano López continuaram e revigoraram a tarefa. A economia estava em pleno crescimento. Quando os invasores apareceram no horizonte, em 1865, o Paraguai contava com uma linha de telégrafos, uma ferrovia e uma boa quantidade de fábricas de materiais de construção, tecidos, lenços, ponchos, papel, tinta, louça e pólvora. Duzentos técnicos estrangeiros, muito bem pagos pelo Estado, colaboravam decisivamente. Desde 1850, a fundição de Ibycui fabricava canhões, morteiros e balas de todos os calibres; no arsenal de Assunção eram fabricados canhões de bronze, obuses e balas. A siderurgia nacional, como todas as demais atividades econômicas essenciais, estava nas mãos do Estado. O país dispunha de uma frota mercante nacional, e tinham sido construídos no estaleiro de Assunção muitos dos navios que ostentavam a bandeira paraguaia ao longo do rio Paraná ou cruzavam o Atlântico e o Mediterrâneo. O Estado virtualmente monopolizava o comércio exterior: a erva-mate e o tabaco abasteciam o consumo do sul do continente; as madeiras valiosas eram exportadas para a Europa. A balança comercial mostrava um expressivo superavit. O Paraguai tinha uma moeda forte e estável, e possuía suficiente riqueza para efetivar enormes investimentos públicos sem recorrer ao capital estrangeiro. O país não devia nem um centavo no exterior, e estava em condições de manter o melhor exército da América do Sul, contratar técnicos ingleses que se colocavam a serviço do país em vez de pôr o país a seu serviço, e enviar à Europa muitos jovens universitários paraguaios para que se aperfeiçoassem em seus estudos. O excedente econômico gerado pela produção agrícola não era esbanjado no luxo estéril de uma oligarquia inexistente, nem ia parar nos bolsos de atravessadores, nem nas mãos rapinantes dos usurários, nem na rubrica lucros que o Império britânico nutria com os serviços de fretes e seguros. A esponja imperialista não absorvia a riqueza que o país produzia. Noventa e oito por cento do território paraguaio era de propriedade pública: o Estado cedia aos camponeses a exploração das parcelas em troca da obrigação de povoá-las e cultivá-las de forma permanente e sem o direito de vendê-las. Além disso, havia 64 estâncias de la patria, fazendas que o Estado administrava diretamente. As obras de irrigação, represas e canais, e as novas pontes e estradas contribuíam em importante grau para a elevação da produtividade agrícola. Foi resgatada a tradição indígena das colheitas anuais, que fora descartada pelos conquistadores. O alento vivo das tradições jesuítas sem dúvida facilitava todo esse processo criador. [3]

[3] Os fanáticos monges da Companhia de Jesus, “guarda negra do Papa”, tinham assumido a defesa da ordem medieval frente às novas forças que irrompiam no cenário histórico europeu. Na América hispânica, contudo, as missões dos jesuítas se desenvolveram sob um signo progressista. Através do exemplo da abnegação e do ascetismo, vinham purificar uma igreja católica entregue ao ócio e ao gozo desenfreado dos bens que a conquista pusera à disposição do clero. Foram as missões do Paraguai as que alcançaram mais alto nível; em pouco mais de um século e meio (1603-1768) definiram a capacidade e os fins de seus criadores. Os jesuítas atraíram, mediante a linguagem da música, os índios guaranis que tinham buscado proteção na floresta ou que nela haviam permanecido sem integrar-se ao processo civilizatório dos encomenderos e dos latifundiários. Assim, 150 mil índios guaranis puderam reencontrar-se com sua organização comunitária primitiva e ressuscitar suas próprias técnicas nos ofícios e nas artes. Nas missões não existia o latifúndio; a terra era cultivada em parte para a satisfação das necessidades individuais e em parte para desenvolver obras de interesse geral e adquirir os instrumentos de trabalho necessários, que eram de propriedade coletiva. A vida dos índios estava sabiamente organizada; nas oficinas e nas escolas se tornavam músicos, artesãos, agricultores, tecedores, atores, pintores, construtores. O dinheiro não era conhecido; era proibida a entrada dos comerciantes, que deviam negociar instalados em hotéis a certa distância. A Coroa, finalmente, sucumbiu à pressão dos encomenderos criollos, e os jesuítas foram expulsos da América. Os latifundiários e os escravistas se lançaram à caça dos índios. Os cadáveres pendiam das árvores nas missões; povoados inteiros foram vendidos nos mercados de escravos do Brasil. Muitos índios voltaram a encontrar refúgio na selva. As bibliotecas dos jesuítas foram parar nos fornos, como combustível, ou utilizadas para fazer cartuchos de pólvora. RAMOS, Jorge Abelardo. Historia de la nación latinoamericana. Buenos Aires, 1968.

     O Estado paraguaio praticava um zeloso protecionismo da indústria nacional e do mercado interno, especialmente reforçado em 1864; os rios interiores não estavam abertos aos navios britânicos que bombardeavam o resto da América Latina com manufaturas de Manchester e Liverpool. O comércio inglês não dissimulava sua inquietude, não só porque se lhe afigurava invulnerável aquele último foco de resistência nacional no coração do continente, mas também e sobretudo pela força do exemplo que a experiência paraguaia irradiava perigosamente para a vizinhança. O país mais progressista da América Latina construía seu futuro sem investimentos estrangeiros, sem empréstimos da banca inglesa e sem as bênçãos do livre comércio
     Mas à medida que o Paraguai ia avançando neste processo, tornava-se mais aguda sua necessidade de romper a reclusão. O desenvolvimento industrial requeria contatos mais intensos e diretos com o mercado internacional e as fontes da técnica avançada. O Paraguai estava objetivamente bloqueado entre a Argentina e o Brasil, e os dois países podiam negar o oxigênio aos seus pulmões fechando-lhe, como fizeram Rivadavia e Rosas, as bocas dos rios, ou fixando impostos arbitrários para o trânsito de suas mercadorias. De outra parte, para seus vizinhos era imprescindível, em nome da consolidação do estado oligárquico, acabar com o escândalo daquele país que se bastava a si mesmo e não queria ajoelhar-se diante dos mercadores britânicos.
     O ministro inglês em Buenos Aires, Edward Thornton, participou ativamente dos preparativos da guerra. Às vésperas da deflagração, estava presente, como assessor do governo, nas reuniões do gabinete argentino, sentando se ao lado do presidente Bartolomeu Mitre. Diante de seu atento olhar foi maquinada a trama de provocações e de enganos que culminou com o acordo argentino-brasileiro e selou a sorte do Paraguai. Venâncio Flores invadiu o Uruguai, na garupa da intervenção dos dois grandes vizinhos, e depois da matança de Paysandú estabeleceu em Montevidéu seu governo devotado ao Rio de Janeiro e a Buenos Aires. A Tríplice Aliança estava em funcionamento. O presidente paraguaio havia ameaçado com a guerra se o Uruguai fosse tomado de assalto: ele sabia que assim se fechava a tenaz de ferro na garganta de seu país encurralado pela geografia e pelos inimigos. O historiador liberal Efraim Cardozo, no entanto, não vê nenhum inconveniente em sustentar que López confrontou o Brasil simplesmente porque estava ofendido: o imperador lhe negara a mão de uma de suas filhas. A guerra nascia. Não era obra de Cupido, mas de Mercúrio.
     A imprensa de Buenos Aires chamava o presidente paraguaio López de “Átila da América”. E clamavam os editoriais: “É preciso matá-lo como a um réptil”. Em setembro de 1864, Thornton enviou a Londres um extenso informe confidencial, datado de Assunção. Descrevia o Paraguai como Dante o inferno, mas punha em evidência o que realmente interessava: “Os impostos de importação de quase todos os artigos são de vinte a 25 por cento ad valorem; mas como este valor é calculado sobre o preço corrente dos artigos, o imposto que se paga chega frequentemente uma cifra entre 40 e 50 por cento do preço da fatura. Os impostos de exportação são de 10 a 20 por cento do valor...” Em abril de 1965, o Standard, diário inglês de Buenos Aires, já celebrava a declaração de guerra da Argentina contra o Paraguai, cujo presidente “infringiu todos os usos das nações civilizadas”, e anunciava que a espada do presidente argentino Mitre “levará em sua trajetória, além do peso das glórias passadas, o impulso irresistível da opinião pública por uma causa justa”. O tratado com o Brasil e o Uruguai foi assinado em 10 de maio de 1865; seus termos draconianos foram publicados um ano depois no diário britânico The Times, que o obteve dos banqueiros credores da Argentina e do Brasil: os futuros vencedores repartiam antecipadamente os despojos do vencido. A Argentina assegurava para si o território de Misiones e o imenso Chaco; o Brasil devorava uma imensa área a oeste de suas fronteiras. O Uruguai, governado por um títere das duas potências, não ficava com nada. Mitre anunciou que tomaria Assunção em três meses. A guerra, contudo, durou cinco anos. Foi uma carnificina, executada ao longo dos fortins que defendiam, de tanto em tanto, o rio Paraguai. O “oprobrioso tirano” Francisco Solano López encarnou heroicamente a vontade nacional de sobreviver; o povo paraguaio, que no último meio século não conhecera guerra alguma, imolou-se ao seu lado. Homens, mulheres, crianças e velhos: todos se bateram como leões. Os prisioneiros feridos arrancavam as ataduras para que não os obrigassem a lutar contra seus irmãos.
     Em 1870, López, à frente de um exército de espectros, velhos e meninos que punham barba postiça para impressionar de longe, internou-se na selva. Por traição real ou imaginária, fuzilou seu irmão e um bispo que com ele marchavam naquela caravana sem destino. Quando, finalmente, o presidente paraguaio foi assassinado à bala e lançaço na densa mata do cerro Corá, ainda conseguiu dizer: “Morro com minha pátria”, e era verdade.
     As tropas invasoras assaltaram os escombros de Assunção com a faca entre os dentes. Vinham para redimir o povo paraguaio, e o exterminaram. No começo da guerra, o Paraguai tinha uma população um pouco menor do que a da Argentina. Tão só 250 mil paraguaios, menos do que a sexta parte, sobreviviam em 1870. Era o triunfo da civilização. Os vencedores, arruinados pelo alto custo do crime, estavam nas mãos dos banqueiros ingleses que tinham financiado a aventura. O império escravista de Pedro II, cujas tropas se nutriam de escravos e de presos, ainda ganhou territórios, mais de 60 mil quilômetros quadrados, e mão de obra, pois muitos prisioneiros paraguaios foram levados para trabalhar nos cafezais paulistas com a marca de ferro da escravidão. A Argentina do presidente Mitre, que havia esmagado seus próprios caudilhos federais, ficou com 94 mil quilômetros quadrados de terra paraguaia e outros frutos do butim, segundo o próprio Mitre havia anunciado quando escreveu: “Os prisioneiros e demais artigos de guerra nós dividiremos na forma combinada”. O Uruguai, onde os herdeiros de Artigas já estavam mortos ou derrotados, e a oligarquia mandava, participou da guerra como sócio minoritário e sem recompensas. Alguns dos soldados uruguaios enviados à campanha do Paraguai tinham embarcado nos navios com as mãos amarradas. Os três países experimentaram uma bancarrota financeira que agravou a dependência da Inglaterra. A matança do Paraguai os marcou para sempre. [4]

[4] Solano López ainda arde na memória. Quando o Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro anunciou, em setembro de 1969, que inauguraria uma vitrina dedicada ao presidente paraguaio, os militares reagiram furiosamente. O general Mourão Filho, que desencadeara o golpe de Estado de 1964, declarou à imprensa: “Um vento de loucura varre o país (...). Solano López é uma figura que deve ser apagada para sempre de nossa história, como paradigma de ditador uniformizado sul-americano. Foi um sanguinário que destruiu o Paraguai, conduzindo-o a uma guerra impossível”.

     O Brasil havia cumprido a missão que o Império britânico lhe atribuíra desde os tempos em que os ingleses transladaram o trono português para o Rio de Janeiro. No princípio do século XIX, tinham sido claras as instruções de Canning ao embaixador, lorde Strangford: “Fazer do Brasil um empório para as manufaturas britânicas destinadas ao consumo de toda a América do Sul”. Pouco antes do início da guerra, o presidente da Argentina inaugurara uma nova linha férrea britânica em seu país e pronunciara um inflamado discurso: “Qual a força que impele o progresso? Senhores, é o capital inglês!” Do Paraguai derrotado não desapareceu só a população: também as tarifas aduaneiras, os fornos de fundição, os rios fechados ao comércio, a independência econômica e vastas zonas de seu território. Dentro das fronteiras reduzidas pelo espólio, os vencedores implantaram o livre-câmbio e o latifúndio. Tudo foi saqueado e tudo foi vendido: as terras e os matos, as minas, os ervais, os prédios das escolas. Sucessivos governos títeres seriam instalados em Assunção pelas forças estrangeiras de ocupação. Tão logo terminou a guerra, sobre as ruínas ainda fumegantes do Paraguai caiu o primeiro empréstimo estrangeiro de sua história. Era britânico, claro. Seu valor nominal alcançava um milhão de libras esterlinas, mas ao Paraguai chegou menos da metade; nos anos seguintes, os refinanciamentos elevaram a dívida a mais de três milhões. A Guerra do Ópio havia terminado quando foi assinado em Nanking o tratado de livre-comércio que assegurou aos comerciantes britânicos o direito de introduzir livremente a droga no território chinês. Também a liberdade de comércio foi garantida pelo Paraguai depois da derrota. Foram abandonadas as plantações de algodão, e Manchester arruinou a produção têxtil; a indústria nacional não ressuscitou jamais.
     O Partido Colorado, que hoje governa o Paraguai, especula alegremente com a memória dos heróis, mas ostenta ao pé de sua ata de fundação a assinatura de 22 traidores do marechal Solano López, “legionários” a serviço das tropas brasileiras de ocupação. O ditador Alfredo Stroessner, que nos últimos quinze anos converteu o Paraguai num grande campo de concentração, fez sua especialização militar no Brasil, e os generais brasileiros o devolveram ao seu país com altas qualificações e ardentes elogios: “É digno de um grande futuro...” Durante seu reinado, Stroessner descartou os interesses anglo argentinos, dominantes no Paraguai nas últimas décadas, em benefício do Brasil e seus donos norte-americanos. Desde 1870, Brasil e Argentina, que libertaram o Paraguai para comê-lo com duas bocas, alternam-se no aproveitamento dos despojos do país derrotado, mas, por sua vez, padecem o imperialismo da grande potência do momento. O Paraguai padece duas vezes: o imperialismo e o subimperialismo. Antes o Império britânico era o elo maior da corrente de dependências sucessivas. Atualmente, os Estados Unidos, que não ignoram a importância geopolítica desse país encravado no centro da América do Sul, mantém em solo paraguaio um sem-número de assessores que treinam e orientam as forças armadas, cozinham os planos econômicos, reestruturam a universidade ao seu arbítrio, inventam um novo esquema político democrático para o país e retribuem com empréstimos onerosos os bons serviços do regime [5]. Mas o Paraguai é também colônia de colônias. Usando a reforma agrária como pretexto, o governo de Stroessner, fazendo-se de distraído, derrogou a disposição legal que proibia a venda a estrangeiros de terras das zonas de fronteira seca, e hoje até os territórios fiscais caíram nas mãos de latifundiários brasileiros do café. A onda invasora atravessa o rio Paraná com a cumplicidade do presidente, associados a terras-tenentes que falam português. Cheguei à movediça fronteira do nordeste do Paraguai com cédulas que estampavam o rosto do vencido marechal Solano López, e ali pude descobrir que só têm valor aqueles que estampam a efígie do vitorioso imperador Pedro II. O resultado da Guerra da Tríplice Aliança, transcorrido um século, ganha ardente atualidade. Os guardas brasileiros exigem passaportes dos cidadãos paraguaios para que possam circular em seu próprio país; são brasileiras as bandeiras e as igrejas. A pirataria de terra abarca também os saltos do Guayrá, a maior fonte potencial de energia de toda a América Latina, que hoje se chamam, em português, Sete Quedas, e a zona de Itaipu, onde o Brasil vai construir a maior central hidrelétrica do mundo.

[5] Pouco antes das eleições de princípios de 1968, o general Stroessner visitou os Estados Unidos. “Quando me encontrei com o presidente Johnson”, declarou à France Press, “comentei que há doze anos desempenho as funções de primeiro magistrado por mandato das urnas. Johnson me respondeu que esta era uma razão a mais para continuar exercendo-as no período vindouro”.

     O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau, expressa-se de mil maneiras. Quando o presidente Johnson, em 1965, decidiu submergir em sangue os dominicanos, Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos para que colaborassem no serviço. O batalhão se chamou uma piada sinistra – “Marechal Solano López”. Os paraguaios atuavam sob as ordens de um general brasileiro, porque foi o Brasil que recebeu as honras da traição: o general Penasco Alvim comandou as tropas latino americanas cúmplices da matança. Exemplos outros e semelhantes podem ser citados. O Paraguai outorgou ao Brasil uma concessão de petróleo em seu território, mas o Brasil, negócio da distribuição de combustíveis e a petroquímica, no pertencem aos norte-americanos. A Missão Cultural Brasileira é dona da Faculdade de Filosofia e Pedagogia da universidade paraguaia, mas os norte americanos, em nossos dias, manejam as universidades do Brasil. O estado-maior do exército paraguaio recebe assessoramento não só de técnicos do Pentágono, mas também de generais brasileiros, que por sua vez respondem ao Pentágono como o eco responde à voz. Pela via aberta do contrabando, os produtos industriais do Brasil invadem o mercado paraguaio, mas muitas das respectivas fábricas em São Paulo são, desde a avalanche desnacionalizadora destes últimos anos, propriedade de corporações multinacionais.
     Stroessner se considera herdeiro dos López. Pode o Paraguai de um século atrás ser impunemente comparado com o Paraguai de agora, empório do contrabando na bacia do Prata e reino da corrupção institucionalizada? Num ato político em que o partido do governo, entre manifestações de júbilo e aplausos, identificava o Paraguai de outrora com o de hoje, um jovenzinho, com a bandeja apoiada no peito, vendia cigarros contrabandeados: a fervorosa assistência fumava nervosamente Kent, Marlboro, Camel e Benson & Hedges. Em Assunção, a escassa classe média bebe uísque Ballantine’s em vez da aguardente paraguaia. Veem-se nas ruas os últimos modelos dos mais luxuosos automóveis fabricados nos Estados Unidos ou Europa, trazidos ao país de contrabando ou através do pagamento prévio de minguados impostos, ao mesmo tempo em que circulam carretas de bois carregando lentamente os frutos para o mercado: a terra é trabalhada com arados de madeira e os táxis são Impalas 1970. Stroessner diz que o contrabando é “o preço da paz”: os generais enchem os bolsos e não conspiram. A indústria, no entanto, agoniza antes de crescer. O Estado sequer cumpre o decreto que manda preferir os produtos das fábricas nacionais nas aquisições públicas. Os únicos triunfos que, com orgulho, o Estado exibe nesta matéria, são as fábricas da Coca-cola, Crush e Pepsi-Cola, instaladas em fins de 1966 como contribuição norte-americana para o progresso do povo paraguaio.
     O Estado manifesta que só vai intervir diretamente na criação de empresas “quando o setor privado não demonstrar interesse” [6], e o anco Central comunica ao Fundo Monetário Internacional que “decidiu implantar um regime de mercado livre de câmbios e abolir as restrições ao comércio e às transações em divisas”; um folheto editado pelo Ministério de Indústria e Comércio informa aos investidores que o país outorga “concessões especiais para o capital estrangeiro”. Isentam-se as empresas estrangeiras do pagamento de impostos e de tarifas aduaneiras “para criar um clima propício aos investimentos”. Um ano depois de instalar-se em Assunção, o National City Bank de Nova York recupera integralmente o capital investido. A banca estrangeira, dona da poupança interna, proporciona ao Paraguai créditos externos que acentuam sua deformação econômica e hipotecam ainda mais sua soberania. No campo, 1,5 por cento dos proprietários dispõe de 90 por cento das terras exploradas, e se cultiva uma área equivalente a menos de 2 por cento da superfície total do país. O plano oficial de colonização no triângulo de Caaguazú oferece aos camponeses famintos mais tumbas do que prosperidade. [7]

[6] Presidencia de la Nación. Secretaría Técnica de Planificación. Plan nacional de desarrollo económico y social. Asunción, 1966.
[7] Muitos dos camponeses optaram por retornar à região minifundiária do centro do país ou seguiram o caminho do novo êxodo para o Brasil, onde seus braços baratos se oferecem nos ervais do Paraná e do Mato Grosso ou nas plantações de café do Paraná. É desesperadora a situação dos pioneiros que se encontram com a selva sem a menor orientação técnica e sem nenhuma assistência creditícia, com terras concedidas pelo governo, das quais terão de arrancar frutos suficientes para a alimentação e para poder pagá-las, pois se o camponês não paga pela terra o preço estipulado não recebe o título de propriedade.

     A Tríplice Aliança continua sendo um grande êxito.
     Os fornos da fundição de Ibycuí, onde foram forjados os canhões que defenderam a pátria invadida, estão num lugar que agora se chama “Mina-cué”, que em guarani significa “Foi mina”.
     Ali, entre pântanos e mosquitos, junto à caliça de um muro destruído, jaz ainda a base da chaminé que, há um século, os invasores explodiram com dinamite, e também os pedaços de ferro retorcido das instalações desfeitas. Vivem na zona uns poucos camponeses em farrapos, que nem sequer sabem qual foi a guerra que destruiu tudo aquilo. Contudo, dizem eles que em certas noites ali se escutam ruídos de máquinas e batidas de martelos, estampidos de canhões e alaridos de soldados.

continua na página 316...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (5)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

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