sexta-feira, 10 de julho de 2026

Espumas Flutuantes - Uma Página de Escola Realista

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

Uma Página de Escola Realista
DRAMA CÔMICO EM QUATRO PALAVRAS 

A tragédia me faz rir, a comédia me faz chorar, 
E o drama? Nem rir, nem chorar... 
 (Pensamento de CARNIOLI)

 CENÁRIO 

A alcova é fria e pequena 
 Abrindo sobre um jardim. 
 A tarde frouxa e serena lá desmaia para o fim. 
 No centro um leito fechado 
 Deixa o longo cortinado 
 Sobre o tapete rolar... 
 Há, nas jarras deslumbrantes, 
 Camélias frias, brilhantes, 
 Lembrando a neve polar. 

Livros esparsos por terra, 
 Uma harpa caída além; 
 E essa tristeza, que encerra 
 O asilo, onde sofre alguém. 
 Fitas, máscaras e flores 
 Não sei que vagos odores 
 Falam de amor e prazer. 
 Além da frouxa penumbra 
 Um vulto incerto ressumbra 
 —O vulto de uma mulher.  

Vous, qui volez là-bas. légères hirondelles
Dites-moi, dites-moi, pourquoi vais-je mourir!
MUSSET

MÁRIO (no leito)

É tarde! É tarde! Abri-me estas cortinas 
 Deixai que a luz me acaricie a fronte!... 
 Ó sol, ó noivo das regiões divinas, 
 Suspende um pouco a luz neste horizonte! 

SÍLVIA (abrindo a janela) 

Da noite o frio vento te regela 
 O mórbido suor...  

MÁRIO

Oh! que me importa? 
 A tarde doura-me o suor da fronte... 
 — Último louro desta vida morta! 

Crepusc'lo! mocidade! natureza! 
 Inundai de fulgor meu dia extremo... 
 Quero banhar-me em vagas de harmonia. 
 Como no lago se mergulha o remo!

E que amores que sonham as esferas! 
 A brisa é de volúpia um calafrio. 
 A estrela sai das folhas do infinito, 
 Sai dos musgos o verme luzidio... 

Tudo que vive, que palpita e sente 
 Chama o par amoroso para a sombra. 
 O pombo arrula — preparando o ninho, 
 A abelha zumbe — preparando a alfombra.

As trevas rolam como as tranças negras, 
 Que a Andaluza desmancha em mago enleio. 
 E entre rendas sutis surge medrosa 
 A lua plena, qual moreno seio. 

Abre-se o ninho... o cálice... o regaço... 
 Anfitrite, corando, aguarda o noivo...  

( Longa pausa )

E tu também esperas teu esposo, 
 Ó morte! ó moça, que engrinalda o goivo!  

SÍLVIA (a meia voz, acompanhando-se na guitarra)

Dizem as moças galantes 
                                     Que as rolas são tão constantes... 
 Pois será? 
 Que morrendo-lhe os amantes, 
                                Morrem de fome, arquejantes, 
  Quem dirá? 

Dizem sábios arrogantes 
 Que nestas terras distantes, 
 Não por cá, 
 Sobre piras fumegantes 
                            Morrem viúvas constantes, 
 Pois será? 

Não creio nos navegantes 
 Nem nas histórias galantes, 
 Que há por lá. 
 Fome e fogueiras brilhantes 

Cá não há... 
 Mas inda morrem amantes 
                    De saudades lacerantes 
 Quem dirá? 

MÁRIO ( vendo-a chorar) 

(Aos últimos arpejos cai-lhe umas lágrimas 

Sílvia! Deixa rolar sobre a guitarra, 
 Da lágrima a harmonia peregrina! 
 Sílvia! cantando— és a mulher formosa! 
 Sílvia! chorando—és a mulher divina!  

Oh! lágrimas e pérolas! — aljofares 
 Que rebentais no interno cataclismo, 
 Do oceano — este, dédalo insondável! 
 Do coração—este profundo abismo!  

Sílvia! dá-me a beber a gota d'água, 
 Nessa pálpebra roxa como o lírio... 
 Como lambe a gazela o brando orvalho 
 Nas largas folhas do deserto assírio.

E quando est'alma desdobrando as asas 
 Entrar do céu na região serena, 
 Como uma estrela eu levarei nos dedos 
 Teu pranto sideral, ó Madalena!... 

SÍLVIA (tem-se ajoelhado aos pés do leito) 

Meus prantos sirvam apenas 
 P'ra umedecer teus cabelos, 
 Como da corça nos velos 
 Fresco orvalho a resvalar! 
 P'ra molhar a flor, que aspires, 
 Rolem prantos de meus olhos, 
 P'ra atravessar os escolhos 
 Meus prantos manda rolar!... 

Meus prantos sirvam apenas 
 P'ra a terra, em que tu pisares, 
 P'ra a sede, em que te abrasares, 
 Terás meu sangue, Senhor! 
 Meus prantos são óleo humilde 
 Que eu derramo a tuas plantas.. 

MÁRIO (estende-lhe os braços) 

Mas se acaso me levantas 
 Meus prantos dizem-te amor!...

MÁRIO (tendo-a contra o seio) 

Sentir que a vida vai fugindo aos poucos 
 Como a luz, que desmaia no ocidente... 
 E boiar sobre as ondas do sepulcro, 
 Como Ofélia nas águas da corrente...

Sentir o sangue espanadar do peito 
                         — Licor de morte — sobre a boca fria, 
 E meu lábio enxugar nos teus cabelos, 
 Como Rolla nas tranças de Maria.

De teus braços fazer o diadema 
 De minha vida, que desmaia insana, 
 Esquecer o passado em teu regaço, 
 Como Byron aos pés da Italiana; 

Em teu lábio molhado e perfumoso 
 O licor entornar de minha vida... 
 Escutar-te nus vascas da agonia, 
 Como Fausto as canções de Margarida!... 

Eis como eu quero — na embriaguez da morte... 
 Do banquete no chão pender a fronte... 
 Inda a taça empunhando de teus beijos 
 Sob as rosas gentis de Anacreonte!... 

(A noite tem descido pouco a pouco 
O luar penetrando /o pela alcova a alumia o grupo dos amantes.) 

Sílvia! 

Que palidez, meu poeta, 
 Se estende nu face tua 

 MÁRIO!...

São os raios descorados, 
 Os alvos raios da lua! 

Sílvia!

Mas um suor de agonia 
 Teu peito ardente tressua..  

MÁRIO

São os orvalhos, que descem 
 Ao frio clarão da lua! 

Sílvia!

Que mancha é esta sangrenta, 
 Que no teu lábio flutua?  

MÁRIO

São as sombras de uma nuvem 
 Que tolda a face da lua!  

SÍLVIA

Como teus dedos esfriam 
 Sobre minha espádua nua!...  

MÁRIO (distraído)

Não vês um anjo, que desce, 
 o frouxo clarão da lua?... 

SÍLVIA

Mário? Não vês quem te chama?... 
Tua amante... Sílvia... a tua...  

MÁRIO (desmaiando)

É a morte que me leva 
 Num frio raio da lua!... 

(O poeta cai semimorto sobre o leito. 
 No espasmo sua mão contraída prende uma tranca da mura.) 

SÍLVIA

Teus brancos dedos fecharam 
 De meu cabelo a madeixa, 
 Tua amante não se queixa... 
 Bem vês... cativa ficou. 
 Mas não se prende o desejo 
 Que n'alma acaso se aninha!... 
 Nunca viste a andorinha, 
 Que alegre o fio quebrou? 

(Ouve-se um relógio dar horas.)

Já! tão tarde! E embalde tento 
 Abrir-te os dedos fechados... 
 Como frios cadeados, 
 Que o teu amor me lançou. 
 Porém se aqui me cativas 
 Minh'alma foge-te asinha... 
 Nunca viste a andorinha, 
 Que alegre o fio quebrou!  

(Debruça-se Q escrever numa carteira.)

"Paulo! Vem à meia-noite. . . 
 Mário morre! Mário expira! 
 Vem que minha alma delira 
 E embalde cativa estou..."  

MÁRIO (que tem lido por cima de seu ombro) 

Sílvia! a morte abre-me os dedos, 
 És livre, Sílvia... caminha!( morrendo ) 
 Minh'alma é como a andorinha, 
 Que alegre o fio quebrou. 

Coup D'Étrier 

É preciso partir! Já na calçada 
 Retinem. as esporas do arrieiro; 
 Da mula a ferradura tacheada 
 Impaciente chama o cavaleiro; 
 A espaços ensaiando uma toada 
 Sincha as bestas o lépido tropeiro... 
 Soa a celeuma alegre da partida, 
 O pajem firma o loro e empunha a brida.
 
Já do largo deserto o sopro quente 
 Mergulha perfumado em meus cabelos. 
 Ouço das selvas a canção cadente 
 Segredando-me incógnitos anelos. 
 A voz dos servos pitoresca, ardente 
 Fala de amores férvidos, singelos... 
 Adeus! Na folha rota de meu fado 
 Traço ainda um — adeus — ao meu

Um adeus! E depois morra no olvido 
 Minha história de luto e de martírio, 
 As horas que eu vaguei louco, perdido 
 Das cidades no tétrico delírio; 
 Onde em pântano turvo, apodrecido 
 D'íntimas flores não rebenta um lírio... 
 E no drama das noites do prostíbulo 
 É mártir — alma... a saturnal — patíbulo! 

Onde o Gênio sucumbe na asfixia 
 Em meio à turba alvar e zombadora; 
 Onde Musset suicida-se na orgia, 
 E Chatterton na fome aterradora! 
 Onde, à luz de uma lâmpada sombrio, 
 O Anjo-da-Guarda ajoelhado chora, 
 Enquanto a cortesã lhe apanha os prantos 
 P'ra realce dos lúbricos encantos!... 

Abre-me o seio, ó Madre Natureza! 
 Regaços da floresta americana, 
 Acalenta-me a mádida tristeza 
 Que da vaga das turbas espadana. 
 Troca dest'alma a fria morbideza 
 Nessa ubérrima seiva soberana!... 
 O Pródigo... do lar procura o trilho... 
 Natureza! Eu voltei... e eu sou teu filho! 

Novo alento selvagem, grandioso 
 Trema nas cordas desta frouxa lira. 
 Dá-me um plectro bizarro e majestoso, 
 Alto como os ramais da sicupira. 
 Cante meu gênio o dédalo assombroso 
 Da floresta que ruge e que suspira, 
 Onde a víbora lambe a parasita... 
 E a onça fula o dorso pardo agita! 

Onde em cálix de flor imaginária 
 A cobra de coral rola no orvalho, 
 E o vento leva a um tempo o canto vário 
 D'araponga e da serpe de chocalho... 
 Onde a solidão é o magno estradivário... 
 Onde há músc'los em fúria em cada galho, 
 E as raízes se torcem quais serpentes... 
 E os monstros jazem no ervaçal dormentes. 

E se eu devo expirar. .. se a fibra morta 
 Reviver já não pode a tanto alento... 
 Companheiro! Uma cruz na selva corta 
 E planta-a no meu tosco monumento!... 
 Da chapada nos ermos... (o qu'importa?) 
 Melhor o inverno chora... e geme o vento. 
 E Deus para o poeta o céu desata 
 Semeado de lágrimas de prata!... 

 Curralinho, 1 de junho de 1870.

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Canção do Boêmio / A meu irmão Guilherme de Castro Alves / Uma Página de Escola Realista                                   
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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