domingo, 12 de julho de 2026

Moby Dick: 69 - O funeral

Moby Dick

Herman Melville

69 - O funeral

“Puxem as correntes! Soltem a carcaça à ré!”
 
     As enormes talhas já cumpriram com seu dever. O corpo branco e despido da baleia decapitada brilha como um sepulcro de mármore; embora sua cor tenha mudado, aparentemente não perdeu nada em volume. Ainda é colossal. Vagarosamente ela flutua para longe, muito longe, com a água ao seu redor salpicada de insaciáveis tubarões, e o ar em cima perturbado pelo voo predatório de aves barulhentas, cujos bicos são como muitos punhais a afrontar a baleia. O grande fantasma branco flutua decapitado para bem longe do navio, e a cada jarda que flutua, o que parecem milhas quadradas de tubarões e milhas cúbicas de aves aumenta a balbúrdia sanguinária. Durante horas a fio, do navio quase parado, vê-se esse horrível espetáculo. Sob o céu azul sem nuvens, na superfície tranquila do mar sereno, levada pelas brisas fagueiras, a grande massa da morte continua a flutuar, até se perder na paisagem infinita.
     É um funeral lúgubre e escarnecido! Os abutres do mar todos em luto respeitoso, e os tubarões do ar impecavelmente de preto ou mesclados. Em vida poucos deles teriam ajudado a baleia, creio eu, se por acaso ela tivesse precisado; mas no banquete de seu funeral todos a espreitam religiosamente. Oh, terrível rapacidade do mundo, da qual nem mesmo a mais poderosa baleia está livre!
     Mas isso não é o fim. Por mais profanado que o corpo esteja, um fantasma vingativo sobrevive e paira sobre ele para assustar. Visto de longe por um navio de guerra acanhado, ou por um navio de exploração disparatado, com a distância obscurecendo a multidão de aves, ainda se vê a massa branca flutuando ao sol, e o grande jato branco se elevando a suas alturas; de pronto o cadáver inofensivo da baleia é registrado com dedos trêmulos no livro de bordo – baixios, rochedos e vagalhões nas redondezas: cuidado! E por anos a fio é possível que os navios evitem aquelas paragens; pulando-a como estúpidos carneiros pulam sobre o vazio, apenas porque seu líder, quando forçado, pulava. Eis a lei de precedentes; eis a utilidade das tradições; eis a história da sobrevivência obstinada das antigas crenças, sem fundamentos na terra, e nem correntes no ar! Eis a ortodoxia!
     Assim, enquanto em vida o corpo imenso da baleia pode ter sido um terror real para seus inimigos, na morte seu fantasma se transforma em pânico inócuo para o mundo.
     Você acredita em fantasmas, meu amigo? Existem outros fantasmas além de Cock-Lane, e homens mais perspicazes do que o Dr. Johnson que acreditam neles.

continua na página 337...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
68 - A manta / 69 - O funeral /                        
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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