quarta-feira, 15 de julho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas (4)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     44. As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas
          Protecionismo contra livre-câmbio, o país contra o porto: no fundo, esta foi a luta que ardeu por trás das guerras civis argentinas durante o século passado. Buenos Aires, que no século XVII ainda era uma grande aldeia de 400 casas, apoderou-se da nação inteira a partir da Revolução de Maio e da independência. Era o porto único, e por ele tinham de passar todos os produtos que entravam e saíam do país. As deformações que a hegemonia portenha impôs à nação se notam claramente em nossos dias: a capital abarca, com seus subúrbios, mais de um terço da população total da Argentina, e exerce sobre as províncias diversas formas de proxenetismo. Naquela época, detinha o monopólio da renda aduaneira, dos bancos e da emissão de moeda, e prosperava vertiginosamente à custa das províncias do interior. A quase totalidade da receita de Buenos Aires provinha da alfândega nacional, que o porto usurpava em proveito próprio, e mais da metade se destinava aos gastos de guerra contra as províncias, que deste modo pagavam para ser aniquiladas. [1]

[1]  URGIN, Miron. Aspectos económicos del federalismo argentino. Buenos Aires, 1960.

     Da Sala de Comércio de Buenos Aires, fundada em 1810, os ingleses alongavam seus telescópios para vigiar a passagem dos navios e abasteciam os portenhos com tecidos finos, flores artificiais, guarda-chuvas, botões e chocolates, enquanto uma inundação de ponchos e estribos de fabricação inglesa fazia seus estragos no interior do país. Para aquilatar a importância que o mercado mundial então atribuía aos couros rio-platenses, é preciso remontar a uma época em que os plásticos e os revestimentos sintéticos não existiam nem mesmo como suspeita na imaginação dos químicos. Nenhum cenário mais propício que a fértil planície do litoral para a criação de gado em larga escala. Em 1816, descobriu-se um novo sistema que permitia conservar indefinidamente os couros, através de um tratamento de arsênico; de resto, prosperavam e se multiplicavam as charqueadas. O Brasil, as Antilhas e a África abriam seus mercados para a importação do charque, e na medida em que a carne salgada, cortada em mantas secas, ia ganhando consumidores estrangeiros, os consumidores argentinos notavam a mudança. Criaram-se impostos para o consumo interno da carne, ao mesmo tempo em que eram desoneradas as exportações; em poucos anos, o preço dos novilhos se multiplicou por três, e as estâncias valorizaram suas terras. Os gaúchos estavam acostumados a caçar livremente os novilhos a céu aberto, no pampa sem aramados, para comer o lombo e se desfazer do resto, com a única obrigação de entregar o couro ao dono do campo. As coisas mudaram. A reorganização da produção implicava a submissão do gaúcho nômade a uma nova dependência servil: um decreto de 1815 estabeleceu que todo homem do campo que não tivesse propriedades seria reputado servente, com a obrigação de portar uma papeleta assinada a cada três meses pelo seu patrão. Ou era servente, ou era vadio, e os vadios eram incorporados, à força, nos batalhões de fronteira [2]. O criollo rude, que servira de carne de canhão nos exércitos patriotas, era convertido em pária, em peão miserável ou em milico de fortim. Ou se rebelava, lança em punho, no redemoinho das montoneras [3]. Esse gaúcho arisco, despossuído de tudo exceto de glória e de coragem, nutriu as cargas de cavalaria que por vezes desafiaram os bem armados exércitos de linha de Buenos Aires. O surgimento da estância capitalista, no pampa úmido do litoral, colocava todo o país a serviço das exportações de couro e carne, e a marchar de mãos dadas com a ditadura do porto livre-cambista de Buenos Aires. O uruguaio José Artigas havia sido, até a derrota e o exílio, o mais lúcido dos caudilhos que lideraram o combate das massas criollas contra os comerciantes e os terras-tenentes atados ao mercado mundial, mas muitos anos depois Felipe Varela ainda foi capaz de desencadear uma grande rebelião no norte argentino porque, como constava em sua proclamação, “ser provinciano é ser mendigo sem pátria, sem liberdade, sem direitos”. Sua insurreição encontrou ressonância em todo o interior mediterrâneo. Foi o último montonero; morreu tuberculoso e na miséria, em 1870 [4]. O defensor da “União Americana”, projeto de ressurreição da Pátria Grande despedaçada, ainda é considerado um bandoleiro – como o era Artigas não faz muito – na história argentina ensinada nas escolas.

[2] ÁLVAREZ, Juan. Las guerras civiles argentinas. Buenos Aires, 1912.
[3] A montonera “nasce no descampado como os redemoinhos. Arremete, brada e despedaça como os redemoinhos e se detém, de repente, e morre como eles” . VEGA DÍAZ, Dardo de la. La Rioja heroica. Mendoza, 1955.
      José Hernández, que foi soldado da causa federal, cantou no Martín Fierro, o mais popular dos livros argentinos, as desditas do gaúcho desterrado de sua querência e perseguido pela autoridade: Vive el áquila en su nido, / el tigre vive en la selva, / el zorro en la cueva agena, / y en su destino inconstante, / sólo el gaucho vive errante / donde la suerte o lleva. / Porque: Para él son los calabozos, / para él las duras prisiones, / en su boca no hay razones / aunque la razón le sobre, / que son campanas de palo / las razones de los pobres.
      José Abelardo Ramos observa (Revolución y contrarrevolución en la Argentina. Buenos Aires, 1965) que os dois sobrenomes verdadeiros que aparecem no Martín Fierro são os de Anchorena y Gainza, nomes representativos da oligarquia que exterminou a criollaje em armas, e que hoje em dia se fundiram na família proprietária do diário La Prensa.
      Ricardo Güiraldes mostrou em Don Segundo Sombra ( Buenos Aires, 1939) o rosto oposto de Martín Fierro: o gaúcho domesticado, amarrado à diária, bajulador do patrão, bom para ser usado no folclore nostálgico ou para ser lastimado.
[4]  ORTEGA PEÑA, Rodolfo & DUHALDE, Eduardo Luis. Felipe Varela contra el Imperio Británico. Buenos Aires, 1966. Em 1870, também o Paraguai caía banhado em sangue pela invasão estrangeira. Era o único Estado latino americano que não tinha entrado na prisão imperialista.

     Felipe Varela nascera num pequeno povoado perdido entre as serras de Catamarca e tinha sido uma sentida testemunha da pobreza de sua província, arruinada pelo porto soberbo e distante. Em fins de 1824, quando Varela tinha três anos de idade, Catamarca não conseguiu pagar os gastos dos delegados que enviou ao Congresso Constituinte que se reuniu em Buenos Aires, e na mesma situação estavam Misiones, Santiago del Estero e outras províncias. O deputado catamarquenho Manuel Antonio Acevedo denunciava a “ominosa mudança” que a concorrência dos produtos estrangeiros havia provocado: “Catamarca tem olhado há algum tempo, sem poder solucionar, os problemas de nossa agricultura, com produtos inferiores às suas despesas; e também para sua indústria, sem um consumo capaz de alentar aqueles que a fomentam e a exercem, e para seu comércio, quase em total abandono [5]. O representante da província de Corrientes, general brigadeiro Pedro Ferré, resumia assim, em 1830, as consequências possíveis do protecionismo que ele propugnava: “Sim, sem dúvida, um pequeno número de homens de fortuna padecerá, pois estarão privados de excelentes vinhos e licores (...). As classes menos acomodadas não acharão muita diferença nos vinhos e licores que atualmente bebem, exceto no preço, e diminuirão o consumo, o que não me parece prejudicial. Nossos camponeses não usarão ponchos ingleses; não vão levar consigo boleadeiras e laços feitos na Inglaterra; não vestiremos roupas de estrangeiros; e outras regras que podemos fixar; mas em troca começará a ser menos desgraçada a condição de povoados inteiros de argentinos, e não nos perseguirá a lembrança da espantosa miséria a que hoje são condenados”. [6]

[5] URGIN, op. cit.
[6] ÁLVAREZ, op. cit.

     Dando um passo importante para a reconstrução da unidade nacional dilacerada pela guerra, o governo de Juan Manuel de Rosas, em 1835, editou uma lei aduaneira que extração protecionista. A lei proibia a importação de manufaturas de ferro e latão, arreios de cavalo, ponchos, cintos, faixas de lã ou de algodão, xergas, produtos granjeiros, rodas de carroças, velas de sebo e pentes, e estipulava pesados impostos à introdução de carruagens, sapatos, cordões, roupas, cavalgaduras, frutas secas e bebidas alcoólicas. Não era cobrado imposto sobre a carne transportada em navios de bandeira argentina, e eram estimuladas as correarias nacionais e a cultura do tabaco. Os efeitos foram notados sem demora. Até a batalha de Caseros, que derrubou Rosas em 1852, navegavam pelos rios escunas e navios construídos nos estaleiros de Corrientes e Santa Fé, havia em Buenos Aires mais de 100 fábricas prósperas, e todos os viajantes coincidiam na opinião de que eram excelentes os tecidos e os sapatos elaborados em Córdoba e Tucumán, os cigarros e os artesanatos de Salta, os vinhos e as aguardentes de Mendoza e San Juan. A marcenaria de Tucumán exportava para o Chile, Bolívia e Peru [7]. Dez anos depois da aprovação da lei, os navios de guerra da Inglaterra e da França rebentaram a canhonaços as correntes estendidas no rio Paraná, abrindo à navegação os rios interiores argentinos que Rosa mantivera, dir-se-ia, hermeticamente fechados. À invasão seguiu-se o bloqueio. Dez memoriais dos centros industriais de Yorkshire, Liverpool, Manchester, Leeds, Halifax e Bradford, assinados por 1.500 banqueiros, comerciantes e industriais, tinham instado o governo inglês a tomar providências contra as restrições impostas ao comércio no Prata.

[7] RAMOS, op.cit.

     A despeito dos progressos decorrentes da lei aduaneira, o bloqueio evidenciou as limitações da indústria nacional, que não estava capacitada para satisfazer a demanda interna. Na verdade, desde 1841 o protecionismo vinha enfraquecendo, ao invés de acentuar-se; Rosas representava como ninguém os interesses dos estancieiros charqueadores da província de Buenos Aires, e não existia, nem nasceu, uma burguesia industrial capaz de impulsionar o desenvolvimento de um capitalismo nacional autêntico e pujante: a grande estância ocupava o centro da vida econômica do país, e nenhuma política industrial podia ser empreendida com independência e vigor sem derrubar a onipotência do latifúndio exportador. Rosa, no fundo, sempre permaneceu fiel à sua classe. “O homem que era o melhor ginete da província” [8], guitarrista e bailarino, grande domador, que se orientava nas noites de tormenta e sem estrelas mastigando algumas ervas do pasto, e era um grande estancieiro produtor de carne seca e couros, os terras-tenentes tinham convertido em seu chefe. A lenda negra que logo foi urdida para difamá-lo não pode ocultar o caráter nacional e popular de muitos de seus atos de governo [9], mas a contradição de classes explica a ausência de uma política industrial dinâmica e sustentada, que ultrapassasse a cirurgia aduaneira, no governo do caudilho dos pecuaristas. Esta ausência não pode ser atribuída à instabilidade e às penúrias implícitas nas guerras nacionais e no bloqueio estrangeiro. Afinal, em meio ao torvelinho de uma revolução acossada, vinte anos antes José Artigas combinou suas normas industrialistas e integradoras com uma reforma agrária em profundidade.

[8] USANICHE, José Luis. Rosas visto por sus contemporáneos. Buenos Aires, 1955.
[9] José Rivera Indarte realizou, em suas célebres Tablas de sangre, um inventário dos crimes de Rosas, para estremecer a sensibilidade europeia. Segundo o Atlas de Londres, a casa bancária inglesa de Samuel Lafone pagou ao escritor um pêni por morto. Rosas havia proibido a exportação de ouro e prata, duro golpe no Império, e dissolvera o Banco Nacional, que era um instrumento do comércio britânico. CADY, John F. La intervención extranjera en el Río de la Plata. Buenos Aires, 1943.

     Num livro fecundo, Vivian Trías compara o protecionismo de Rosas com o ciclo de medidas que Artigas irradiou desde a anda Oriental, entre 1813 e 1815, para conquistar a verdadeira independência na área do vice reinado rio-platense. Rosas não proibiu os mercadores estrangeiros de exercer o comércio no mercado interno, nem devolveu ao país as rendas alfandegárias que Buenos Aires continuou usurpando, nem terminou com a ditadura do porto único. No entanto, a nacionalização do comércio interior e a quebra do monopólio portuário e alfandegário de Buenos Aires haviam sido capítulos fundamentais da política artiguista, assim como a questão agrária. Artigas pretendera a livre navegação nos rios interiores, mas Rosas nunca abriu às províncias essa chave de acesso ao comércio de ultramar. No fundo, Rosas também permaneceu fiel à sua privilegiada província. A despeito de todas essas limitações, o nacionalismo e o populismo do “gaúcho de olhos azuis” seguem gerando ódio nas classes dominantes argentinas. Rosas continua sendo “réu de lesa-pátria”, de acordo com uma lei de 1857 ainda vigente, e o país ainda se nega a abrir uma sepultura nacional para seus ossos enterrados na Europa. Sua imagem oficial é a imagem de um assassino.
     Superada a heresia de Rosas, a oligarquia se reencontrou com seu destino. Em 1858, o presidente da comissão diretora da exposição rural declarava inaugurado o evento com estas palavras: “Nós, que ainda estamos na infância, contentemo-nos com a humilde ideia de enviar àqueles bazares europeus os nossos produtos e matérias primas, para que nos devolvam transformados por meio dos poderosos agentes de que dispõem. O que pede a Europa são matérias-primas, para trocá-las por ricos artefatos”. [10]

[10] Discurso de Gervásio A. de Posadas, conf. CÚNEO, Dardo. Comportamiento y crisis de la clase empresaria. Buenos Aires, 1967. Em 1876, o ministro da Fazenda disse no Congresso: “Não devemos criar um direito exagerado que torne impossível a entrada do calçado, de modo que quatro remendões aqui floresçam, enquanto mil fabricantes de calçado estrangeiros não possam vender um só par de sapatos”.

     O ilustre Domingo Faustino Sarmiento e outros escritores liberais viram na montonera camponesa não mais do que o símbolo da barbárie, o atraso e a ignorância, o anacronismo das campanhas pastoris frente à civilização que a cidade encarnava: o poncho e o chiripá contra o fraque; a lança e o punhal contra a tropa de linha; o analfabetismo contra a escola [11]. Em 1861, Sarmiento escrevia a Mitre: “Não economize sangue dos gaúchos, é a única coisa que eles têm de humano. É preciso tornar útil para o país este adubo”. Tanto desprezo e tanto ódio revelavam uma negação da própria pátria que continha também, por certo, uma expressão de política econômica: “Não somos industriais nem navegantes”, afirmava Sarmiento, “e a Europa nos abastecerá de seus produtos por longos séculos, em troca de nossas matérias primas.” [12]

[11] AZÁN, Armando Raúl. Las bases sociales de la montonera. Revista de Historia Americana y Argentina. Mendoza (7-8), 1962-3.
[12] SARMIENTO, Domingo Faustino. Facundo. Buenos Aires, 1952. 

     O presidente artolomeu Mitre, a partir de 1862, levou adiante uma guerra de extermínio contra as províncias e seus últimos caudilhos. Sarmiento foi nomeado comandante da guerra e as tropas marcharam rumo ao norte para matar gaúchos, “animais bípedes de tão perversa condição”. Em La Rioja, Chacho Peñaloza, general das planícies, que irradiava sua influência até Mendoza e San Juan, era um dos últimos redutos da rebelião contra o porto, e Buenos Aires considerou que havia chegado a hora de acabar com ele. Cortaram-lhe a cabeça e a cravaram, em exibição, no centro da Praça de Olta. A ferrovia e as estradas arremataram a ruína de La Rioja, que havia começado a revolução em 1810: o livre-câmbio provocou a crise de seus artesanatos e acentuou a crônica pobreza da região. No século XX, os camponeses de La Rioja fogem de suas aldeias nas montanhas ou nas planícies e descem até Buenos Aires para oferecer seus braços: como os camponeses de outras províncias, só chegam às portas da cidade. Nos subúrbios encontram lugar junto a outros 700 mil habitantes das villas miserias e, bem ou mal, arranjam-se com as migalhas do banquete da grande capital. Você nota mudanças naqueles que foram embora e voltam de visita? – perguntaram os sociólogos aos 150 sobreviventes de uma aldeia de La Rioja, há poucos anos. Eles responderam, com inveja, que em Buenos Aires tinham melhorado o traje, os modos e a maneira de falar dos emigrados, e que alguns, inclusive, tinham voltado “mais brancos”. [13]

[13] MARGULIS, Mario. Migración y marginalidad en la sociedad argentina. Buenos Aires, 1968.


continua na página 302...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas (4)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

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