quarta-feira, 8 de julho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Protecionismo e livre-câmbio na América Latina: O curto voo de Lucas Alamán (3)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     43. Protecionismo e livre-câmbio na América Latina: O curto voo de Lucas Alamán
          A expansão dos mercados latino-americanos acelerava a acumulação de capitais nas sementeiras da indústria britânica. Fazia já muito tempo que o Atlântico se tornara o eixo do comércio mundial, e os ingleses tinham sabido tirar proveito da localização de sua ilha, cheia de portos, a meio caminho do Báltico e do Mediterrâneo e apontando as costas da América. A Inglaterra organizava um sistema universal e se tornava a prodigiosa fábrica abastecedora do planeta: do mundo inteiro vinham as matérias-primas e no mundo inteiro se derramavam as mercadorias elaboradas. O império contava com o maior porto e o mais poderoso sistema financeiro de seu tempo; tinha o mais alto grau de especialização comercial, dispunha do monopólio mundial dos seguros e dos fretes, e dominava o mercado internacional do ouro. Friederich List, pai da união aduaneira alemã, havia advertido que o livre-comércio era o principal produto de exportação da Grã- Bretanha [1]. Nada enfurecia tanto os ingleses quanto o protecionismo aduaneiro, e às vezes faziam sabê-lo numa linguagem de sangue e fogo, como na Guerra do Ópio contra a China. No entanto, a livre concorrência nos mercados se converteu numa verdade revelada para a Inglaterra somente a partir do momento em que teve certeza de que era a mais forte, e depois de ter desenvolvido sua própria indústria têxtil ao abrigo da legislação protecionista mais severa da Europa. No difícil começo, quando a indústria britânica ainda levava desvantagem, o cidadão inglês que fosse surpreendido exportando lã crua, sem elaborar, era condenado a perder a mão direita, e se reincidia, era enforcado; estava proibido de enterrar um cadáver sem que antes o pároco do lugar garantisse que a mortalha provinha de uma fábrica nacional. [2]  

[1] Este economista alemão, nascido em 1789, propagou nos Estados Unidos e em sua própria pátria a doutrina do protecionismo aduaneiro e do fomento industrial. Suicidou-se em 1846, mas suas ideias se impuseram nos dois países.
[2]  VÉLIZ, Claudio. “La mesa de tres patas”. In: Desarrollo económico, v.3 (1 e 2). Santiago de Chile, setembro de 1963.

     “Todos os fenômenos deletérios suscitados pela livre concorrência no interior de um país”, observou Marx, “se reproduzem em proporções mais gigantescas no mercado mundial” [3]. O ingresso da América Latina na órbita britânica, da qual só sairia para se incorporar à órbita norte americana, ocorreu nos termos desse quadro geral, e nele se consolidou a dependência dos novos países independentes. A livre circulação de mercadorias e a livre circulação do dinheiro para os pagamentos, assim como a transferência de capitais, tiveram consequências dramáticas.

[3] “Não é estranho que os livre-cambistas sejam incapazes de compreender como um país pode enriquecer à custa de outro, pois estes mesmos senhores tampouco querem compreender como no interior de um país uma classe pode enriquecer à custa de outra. MARX, Karl. “Discurso sobre el libre cambio.” In: Miseria de la filosofía. Moscou, s.f.

     No México, Vicente Guerrero chegou ao poder, em 1829, “nos ombros do desespero dos artesãos, insuflados pelo grande demagogo Lorenzo de Zavala, que lançou sobre as lojas repletas de mercadorias inglesas do Parián uma turba faminta e desesperada” [4]. Pouco durou Guerrero no poder, e caiu em meio à indiferença dos trabalhadores, pois não quis ou não pôde opor um dique à importação de mercadorias europeias, “cuja abundância”, diz Chávez Orozco, “levava ao desemprego as massas artesãs das cidades, que antes da independência, sobretudo nos períodos bélicos da Europa, viviam com certa folga”. A indústria mexicana carecera de capitais, mão de obra suficiente e técnicas modernas; não tivera uma organização adequada, nem meios de comunicação e de transporte para chegar aos mercados e às fontes de abastecimento. “Sobraram-lhe unicamente interferências, restrições e impedimentos de toda ordem”, diz Alonso Aguilar [5]. Apesar disso, como notara Humboldt, a indústria havia despertado nos momentos de estancamento do comércio exterior, quando se interrompiam ou se tornavam problemáticas as comunicações marítimas, e começara a fabricar o aço e a fazer uso do ferro e do mercúrio. O liberalismo que a independência trouxe consigo agregava pérolas à coroa britânica e paralisava os estabelecimentos têxteis e metalúrgicos do México, Puebla e Guadalajara.

[4] CHÁVEZ OROZCO, Luis. “La industria de transformación mexicana (1821 1867).” In: ANCO NACIONAL DE COMERCIO EXTERIOR. Colección de documentos para la historia del comercio exterior de México. México, 1962. t.VII.
[5] AGUILAR MONTEVERDE, Alonso. Dialéctica de la economía mexicana. México, 1968.

     Lucas Alamán, um político conservador de grande capacidade, percebeu a tempo que as ideias de Adam Smith continham veneno para a economia nacional, e propiciou, como ministro, a criação de um banco estatal, o anco de Avio, com o fim de incrementar a industrialização. Um imposto aplicado aos tecidos estrangeiros de algodão proporcionaria ao país os recursos para comprar no exterior as máquinas e os meios técnicos que o México precisava para abastecer-se de tecidos de algodão de fabricação própria. O país dispunha de matéria-prima, contava com energia hidráulica mais barata do que o carvão e podia formar rapidamente bons operários. O anco nasceu em 1830, e pouco depois chegaram das melhores fábricas europeias as máquinas mais modernas para fiar e tecer algodão; além disso, o Estado contratou especialistas estrangeiros na técnica têxtil. Em 1844, as grandes fábricas de Puebla produziram um milhão e 400 mil cortes de manta grossa. A nova capacidade industrial do país ultrapassava a demanda interna; o mercado de consumo do “reino da desigualdade”, formado em sua grande maioria por índios famintos, não podia sustentar a continuidade daquele desenvolvimento fabril vertiginoso. Contra essa muralha se chocava o esforço de romper a estrutura herdada da colônia. A tal ponto se modernizara a indústria que as fábricas têxteis norte-americanas, por volta de 1840, contavam em média com menos fusos do que as fábricas mexicanas [6]. Dez anos depois, a proporção se invertera com sobras. A instabilidade política, as pressões dos comerciantes ingleses e franceses e seus poderosos sócios internos, as mesquinhas dimensões do mercado interno, de antemão estrangulado pela economia mineira e latifundiária, derrubaram a exitosa experiência. Antes de 1850 já se interrompera o progresso da indústria têxtil mexicana. Os criadores do anco de Avio tinham ampliado seu raio de ação, e quando ele se extinguiu, os créditos abarcavam também as tecelagens de lã, as fábricas de tapetes e a produção de ferro e de papel. Esteban de Antuñano sustentava, inclusive, a necessidade de que o México criasse o quanto antes uma indústria nacional de maquinarias, “para resistir ao egoísmo europeu”.

[6] AZANT, Jan. Estudio sobre la productividad de la industria algodonera mexicana en 1843-1845 (Lucas Alamán y la revolución industrial en México). In: Banco Nacional de Comercio Exterior, op. cit.

     O maior mérito do ciclo industrializador de Alamán e Antuñano reside em que ambos restabeleceram a identidade “entre a independência política e a independência econômica, e o fato de preconizar, como único meio de defesa contra os povos poderosos e agressivos, um enérgico impulso à economia industrial” [7]. O próprio Alamán se tornou industrial, criou o maior estabelecimento têxtil mexicano daquele tempo (chamava se Cocolapan e ainda existe) e organizou os industriais como grupo de pressão frente aos sucessivos governos livre-cambistas [8]. Mas Alamán, conservador e católico, não chegou a equacionar a questão agrária, porque ele mesmo se sentia ideologicamente ligado à velha ordem, e não percebeu que o desenvolvimento industrial estava de antemão condenado a ficar no meio do caminho, sem bases de sustentação, naquele país de latifúndios infinitos e miséria generalizada.

[7] CHÁVEZ OROZCO, op. cit.
[8] No tomo III da citada coleção de documentos do anco Nacional de Comércio Exterior são transcritos vários arrazoados protecionistas publicados en El Siglo XIX em fins de 1850: “Passada já a conquista da civilização espanhola com seus três séculos de dominação militar, entrou o México numa nova era, que também pode ser chamada de conquista, mas científica e mercantil (..). Sua potência são os navios mercantes; sua prédica é a absoluta liberdade econômica; sua norma poderosíssima em relação aos povos menos adiantados é a lei da reciprocidade (...). ‘Levai à Europa’, disse-nos, ‘quantas manufaturas possais (exceto, no entanto, as que nós proibimos); e em contrapartida permiti que tragamos quantas manufaturas possamos, ainda que arruinando vossas artes (...)’. Adotemos as doutrinas que eles (nossos senhores do outro lado do oceano e do rio Bravo) dão e não tomam, e nosso erário crescerá um pouco, se queiramos (..), mas não será fomentando o trabalho do povo mexicano, mas o dos povos inglês e francês, suíço e da América do Norte”.

continua na página 293...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Protecionismo e livre-câmbio na América Latina (3)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

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