volume V
A Prisioneira
continuando...
continuando...
- Decerto, o senhor é amável e eu jamais esquecerei o reconhecimento que lhe devo (isto
provavelmente para que eu criasse títulos à sua gratidão). Mas a casa está empestada desde que a
amabilidade instalou aqui a trapaça, e que a inteligência protege a pessoa mais cretina que já se viu,
depois que a finura, as boas maneiras, o espírito, a dignidade em todas as coisas, a aparência e a
realidade de um príncipe se deixaram dominar e enganar, permitindo que eu, que há quarenta anos estou
na família, fosse humilhada pelo vício, pelo que há de mais vulgar e mais baixo.
A aversão de Françoise por Albertine decorria principalmente do fato de receber ordens de alguém que não fosse nós, de um aumento do trabalho de casa e de um cansaço que, alterando a saúde de nossa velha criada (que apesar disso não queria ser auxiliada no trabalho, não se julgando "uma pessoa sem serventia"), bastaria para explicar esse nervosismo, essa cólera odiosa. Decerto, ela gostaria que Albertine-Esther fosse banida. Era o voto de Françoise. E isto, consolando-a, já teria sossegado nossa velha criada. Mas, na minha opinião, não se tratava só disso. Um ódio dessa natureza só poderia ter nascido num corpo exausto. E, mais ainda que de cuidados, Françoise precisava de sono.
A aversão de Françoise por Albertine decorria principalmente do fato de receber ordens de alguém que não fosse nós, de um aumento do trabalho de casa e de um cansaço que, alterando a saúde de nossa velha criada (que apesar disso não queria ser auxiliada no trabalho, não se julgando "uma pessoa sem serventia"), bastaria para explicar esse nervosismo, essa cólera odiosa. Decerto, ela gostaria que Albertine-Esther fosse banida. Era o voto de Françoise. E isto, consolando-a, já teria sossegado nossa velha criada. Mas, na minha opinião, não se tratava só disso. Um ódio dessa natureza só poderia ter nascido num corpo exausto. E, mais ainda que de cuidados, Françoise precisava de sono.
Enquanto Albertine ia mudar de roupa, eu, para providenciar o mais depressa possível, peguei o
receptor do telefone, invoquei as divindades implacáveis, mas não fiz mais que excitar a sua fúria, que se
traduziu por estas palavras:
- Está ocupado. -
De fato, Andrée estava conversando com alguém. Enquanto aguardava que ela terminasse a
ligação, eu me perguntava por que motivo, já que tantos pintores buscam renovar os retratos femininos
do século XVIII, em que a engenhosa encenação é um pretexto para as expressões da espera, do arrufo,
do interesse e do devaneio, por que motivo nenhum dos nossos modernos Boucher ou Fragonard pintou,
em vez de La Lettre ['A Carta'] ou o Clavecin ['Cravo'], etc., esta cena, que poderia chamar-se: Diante do
telefone, e na qual nasceria espontaneamente nos lábios da ouvinte um sorriso tanto mais verdadeiro por
saber que não era visto. Finalmente, Andrée me ouviu:
- Você vem buscar Albertine amanhã? e, ao pronunciar este nome de Albertine, pensava eu na
inveja que me havia inspirado Swann quando me dissera, no dia da festa na casa da princesa de
Guermantes:
- Venha ver Odette - e eu ficara pensando no que, apesar de tudo, havia de forte num prenome
que aos olhos de todos, e da própria Odette, somente na boca de Swann possuía aquele sentido
absolutamente possessivo.
E como semelhante embargo - resumido num vocábulo - sobre uma existência inteira me havia
parecido, de cada vez que eu estava apaixonado, dever ser tão doce! Mas na realidade, quando se é
possível dizê-lo, ou isto se tornou indiferente, ou então o hábito não embotou a ternura, mas ela mudou
as doçuras em mágoas. A mentira é muito pouco, vivemos no meio dela não fazendo mais que sorrir,
praticamo-la julgando não fazer mal a ninguém, mas o ciúme sofre por causa dela e enxerga mais do que
ela oculta (muitas vezes a nossa amiga se recusa a passar a noite conosco e vai ao teatro simplesmente
para que não lhe vejamos a fisionomia abatida), assim como frequentes vezes se mostra cego ao que
esconde a verdade. Mas o ciúme não pode obter coisa alguma, pois aquelas que juram não mentir
recusariam, até o último instante, confessar o seu caráter. Sabia que somente eu podia dizer daquele
modo "Albertine" a Andrée. E no entanto, para Albertine, para Andrée e para mim mesmo, eu sentia que
não era nada. E compreendia a impossibilidade em que tropeça o amor. Imaginamos que ele tenha por
objeto uma criatura que pode estar deitada diante de nós, fechada num corpo. Infelizmente ele é a
extensão dessa criatura a todos os pontos do espaço e do tempo que ela ocupou e ocupará. Se não
possuímos o seu contato com determinado lugar, com determinada hora, não a possuímos. Ora, não
podemos tocar todos esses pontos. Ainda se nos fossem designados, talvez pudéssemos estender-nos
até eles. Porém tateamos sem encontrá-los. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um
tempo precioso a seguir uma pista absurda e passamos sem desconfiar ao lado da verdade. Porém já
uma das divindades irascíveis, de servas vertiginosamente ágeis, irritava-se não mais porque eu falava,
mas porque não dizia nada.
- Mas fale, está livre! Há tempos que está em comunicação; se não falar, desligo. -
Mas ela não fez nada e, ao mesmo tempo que suscitava a presença de Andrée, envolveu-a,
grande poeta que é sempre uma telefonista, da atmosfera peculiar à casa, ao bairro, à própria vida da
amiga de Albertine.
- É você? - disse Andrée, cuja voz era projetada até mim com uma velocidade instantânea pela
deusa que tem o privilégio de tornar os sons mais rápidos que o relâmpago.
- Escute - respondi - vá aonde quiser, menos à casa da Sra. Verdurin. É preciso a todo custo
amanhã afastar Albertine de lá.
- Mas é que justamente ela deve ir lá amanhã.
- Ah!
Mas eu era obrigado a me interromper por um instante e fazer gestos ameaçadores, pois, se
Françoise continuava como se se tratasse de coisa tão desagradável como a vacina ou tão perigosa
como o aeroplano a não querer aprender a telefonar, o que, se nos teria aliviado das comunicações de
que ela poderia ficar sabendo sem inconveniente, em compensação entrava imediatamente no meu
quarto quando me dispunha a dar telefonemas bastante secretos para que fizesse questão de lhes
ocultar.
Por fim, quando ela saiu do quarto, não sem demorar-se apanhando vários objetos que ali
estavam desde a véspera e onde poderiam ter permanecido uma hora a mais sem incomodar ninguém
por nada neste mundo, e para recolocar uma acha de lenha no fogo, medida totalmente inútil devido ao
calor abrasador que me davam a presença da intrusa e o medo de ter a ligação cortada:
- Perdão - disse eu a Andrée -, fui atrapalhado. Tem certeza absoluta de que ela devia ir amanhã à
casa dos Verdurin?
- Absoluta, mas posso dizer a ela que isto o aborrece.
- Não, pelo contrário, é possível que eu vá com vocês.
- Ah! - fez Andrée com voz contrariada e como que surpresa pela minha audácia, que aliás não fez
mais que se afirmar.
- Então, deixo-a, e desculpe por tê-la incomodado por nada.
- De modo algum - disse Andrée, e (como agora o uso do telefone se tornara comum, em torno
dele desenvolvera-se o adorno de frases especiais, como antigamente ao redor dos "chás") acrescentou: -Tenho grande prazer em ouvir a sua voz.
Eu poderia dizer outro tanto, e mais verdadeiramente que Andrée, pois acabara de ficar
infinitamente sensível à sua voz, não tendo até então reparado que era tão diferente das outras. Então,
lembrei-me de outras vozes mais, sobretudo vozes de mulheres, umas vagarosas por causa da precisão
de uma pergunta e devido à atenção do espírito; outras sufocadas, até mesmo interrompidas, pela onda
lírica do que estão contando; lembrei-me, uma a uma, das vozes das moças que havia conhecido em
Balbec, depois da de Gilberte, depois da de minha avó, depois da Sra. de Guermantes, achei-as todas
dissemelhantes, moldadas numa linguagem particular a cada uma, tocando todas um instrumento
diverso, e disse comigo que pífio concerto devem dar no Paraíso os três ou quatro anjos músicos dos
velhos pintores, quando eu via elevar-se para Deus, às dezenas, às centenas, aos milhares, a
harmoniosa e multissonora saudação de todas as Vozes. Não desliguei o telefone sem agradecer, com
algumas palavras propiciatórias, àquela que reina sobre a velocidade dos sons, por ter querido usar em
favor de minhas humildes palavras, de um poder que as tornava cem vezes mais rápidas que o trovão.
Mas minhas ações de graça não tiveram como resposta senão o serem cortadas.
Quando Albertine voltou para o meu quarto, usava um vestido de cetim preto que contribuía para
torná-la mais pálida, fazer dela a parisiense lívida, ardente, estiolada pela falta de ar, pela atmosfera das
multidões e talvez pelo hábito do vício, e cujos olhos pareciam mais inquietos porque não os animava o
rubor das faces.
- Adivinhe - disse eu - a quem acabo de telefonar: a Andrée.
- A Andrée?! - exclamou Albertine em tom estridente, surpreso, emocionado, que uma notícia tão
simples não comportava. - Espero que ela pensou em lhe dizer que tínhamos encontrado a Sra. Verdurin
outro dia.
- A Sra. Verdurin? Não me lembro - respondi, parecendo estar pensando em outra coisa, a um
tempo para mostrar-me indiferente a tal encontro e para não trair Andrée, que me dissera aonde Albertine
iria no dia seguinte. Mas quem sabe se a própria Andrée não me trairia, se amanhã não contaria a
Albertine que eu lhe pedira que evitasse, seja a que preço fosse, que ela comparecesse aos Verdurin, e
se ela já não lhe revelara que várias vezes eu lhe tinha feito recomendações análogas? Ela me garantira
jamais tê-las repetido, mas o valor dessa afirmação era contrabalançado em meu espírito pela impressão
de que já não via mais no rosto de Albertine a confiança que durante tanto tempo ela tivera em mim.
No amor, o sofrimento cessa por instantes, mas para assumir um aspecto diverso. Choramos ao
ver a mulher a quem amamos já não ter para conosco aqueles impulsos de simpatia, aqueles avanços
amorosos do princípio; sofremos ainda mais ao ver que, não os tendo mais conosco, tenha-os com
outros; depois somos distraídos desse sofrimento por um novo mal, mais atroz, a suspeita de que ela nos
mentiu sobre a noite da véspera, onde ela sem dúvida nos traiu; tal suspeita igualmente se dissipa, a
gentileza demonstrada por nossa amiga nos acalma; mas então uma frase esquecida nos volta ao
espírito, disseram-nos que ela era ardente no gozo, e todavia sempre a conhecêramos tranquila;
tentamos imaginar o que teriam sido os seus frenesis com outros, percebemos o pouco que somos para
ela, reparamos num ar de tédio, de nostalgia, de tristeza, enquanto falamos, reparamos, como se fossem
um céu negro, nos vestidos descuidados que ela põe quando está conosco, guardando para os outros
aqueles com que procurava a princípio deslumbrar-nos. Se, ao contrário, ela é carinhosa, que alegria por
um instante! Mas, vendo essa linguinha esticada como para um chamado dos olhos, pensamos naquelas
a quem tantas vezes era dirigido esse chamado, que, mesmo talvez junto a mim, sem que Albertine
pensasse nelas, tinha persistido como um sinal maquinal, por causa de um longo hábito. Depois, retorna
a sensação de que a aborrecemos. Mas, subitamente, tal sofrimento se reduz a bem pouco ao
pensarmos nos maus procedimentos desconhecidos de sua vida, nos lugares, impossíveis de conhecer,
em que ela esteve, aonde vai ainda nas horas em que não estamos a seu lado, se mesmo ela não
tenciona viver definitivamente nesses lugares, lugares em que está longe de nós, não é nossa, e sente-se
mais feliz do que conosco. Tais são as eventualidades do ciúme.
O ciúme é também um demônio que não pode ser exorcizado, e sempre reaparece, encarnado
sob uma nova forma. Mesmo que chegássemos a exterminar todas elas, a guardar perpetuamente aquela
a quem amamos, o Espírito do Mal tomaria então uma outra forma, ainda mais patética, o desespero de
não ter obtido a fidelidade senão pela força, o desespero de não ser amado.
Entre Albertine e mim havia muitas vezes o obstáculo de um silêncio feito sem dúvida de agravos
que ela calava, pois julgava-os irreparáveis. Por mais terna que se mostrasse em certas noites, Albertine
já não possuía aqueles movimentos espontâneos que eu lhe conhecera em Balbec quando ela me dizia:
- Mas como você é gentil! -e o fundo do seu coração parecia vir até mim sem a reserva de nenhum
desses agravos que ela tinha agora, e que calava, pois sem dúvida julgava-os irreparáveis, impossíveis
de esquecer, inconfessados, mas que, nem por isso deixavam de erguer entre nós a significativa
prudência de suas palavras ou o intervalo de um silêncio intransponível.
- E pode-se saber por que telefonou a Andrée?
- Para perguntar se não ficaria contrariada se eu me juntasse à vocês amanhã e, assim, fazer aos
Verdurin a visita que lhes prometo desde a Raspeliere.
- Como quiser. Mas previno-o de que há um terrível nevoeiro esta noite e que certamente haverá
outro amanhã. Digo isto porque não gostaria que você passasse mal. Sabe muito bem que, por mim,
prefiro que venha conosco. Aliás - acrescentou com ar preocupado - não sei absolutamente se irei à casa
dos Verdurin. Fizeram-me tantas gentilezas que, no fundo, eu deveria ir. Depois de você, foram as
pessoas que me trataram melhor, mas há umas coisinhas que me desagradam na casa deles. É
absolutamente necessário que eu vá ao Bon Marché ou aos Trois Quartiers para comprar um lenço
branco para o pescoço, pois este vestido é escuro demais.
Deixar Albertine ir sozinha à uma grande loja percorrida por tantas pessoas em quem a gente se esfrega, dotada de tantas saídas que se pode alegar que não se encontrou o carro, que esperava um pouco além, era coisa que eu estava resolvido a não consentir, mas sobretudo sentia-me infeliz. E no entanto, não percebia que de há muito deveria ter cessado de ver Albertine, pois para mim, ela havia entrado naquele período lamentável em que uma criatura, disseminada no espaço e no tempo, já não é para nós uma mulher, mas uma série de eventos sobre os quais não podemos fazer luz, uma série de problemas insolúveis, um mar que ridiculamente procuramos, como Xerxes, chicotear para puni-lo pelo que engoliu. Uma vez principiado esse período, estamos forçosamente derrotados. Felizes aqueles que o compreendem logo para não prolongar uma batalha inútil, exaustiva, cercada de todas as partes pelos limites da imaginação e onde o ciúme se debate tão vergonhosamente que o mesmo homem que outrora, se os olhares da que estava sempre a seu lado se dirigiam para um outro, imaginava uma intriga e experimentava tantos tormentos, resigna-se depois a deixá-la sair sozinha, às vezes com aquele que sabe ser seu amante, preferindo, ao que não pode conhecer, essa tortura ao menos conhecida! É uma questão de ritmo a adotar e que é seguido por hábito. Nervosos que não poderiam faltar a um jantar e que bem depois fazem curas de repouso nunca suficientemente longas; mulheres, ainda recentemente levianas, vivem na penitência; ciumentos que, para espionar a mulher amada, privam-se do sono, do repouso, sentindo que os desejos dela, o mundo tão vasto e tão secreto, e o tempo são mais fortes que eles, deixam-na sair sem a sua companhia, e depois viajar, e depois se separam. Assim, o ciúme acaba por falta do que alimentar-se e só durou tanto devido a tê-los reclamado sem parar. Eu estava bem longe desse estado.
Deixar Albertine ir sozinha à uma grande loja percorrida por tantas pessoas em quem a gente se esfrega, dotada de tantas saídas que se pode alegar que não se encontrou o carro, que esperava um pouco além, era coisa que eu estava resolvido a não consentir, mas sobretudo sentia-me infeliz. E no entanto, não percebia que de há muito deveria ter cessado de ver Albertine, pois para mim, ela havia entrado naquele período lamentável em que uma criatura, disseminada no espaço e no tempo, já não é para nós uma mulher, mas uma série de eventos sobre os quais não podemos fazer luz, uma série de problemas insolúveis, um mar que ridiculamente procuramos, como Xerxes, chicotear para puni-lo pelo que engoliu. Uma vez principiado esse período, estamos forçosamente derrotados. Felizes aqueles que o compreendem logo para não prolongar uma batalha inútil, exaustiva, cercada de todas as partes pelos limites da imaginação e onde o ciúme se debate tão vergonhosamente que o mesmo homem que outrora, se os olhares da que estava sempre a seu lado se dirigiam para um outro, imaginava uma intriga e experimentava tantos tormentos, resigna-se depois a deixá-la sair sozinha, às vezes com aquele que sabe ser seu amante, preferindo, ao que não pode conhecer, essa tortura ao menos conhecida! É uma questão de ritmo a adotar e que é seguido por hábito. Nervosos que não poderiam faltar a um jantar e que bem depois fazem curas de repouso nunca suficientemente longas; mulheres, ainda recentemente levianas, vivem na penitência; ciumentos que, para espionar a mulher amada, privam-se do sono, do repouso, sentindo que os desejos dela, o mundo tão vasto e tão secreto, e o tempo são mais fortes que eles, deixam-na sair sem a sua companhia, e depois viajar, e depois se separam. Assim, o ciúme acaba por falta do que alimentar-se e só durou tanto devido a tê-los reclamado sem parar. Eu estava bem longe desse estado.
É claro que o tempo de Albertine me pertencia em quantidades superiores que em Balbec. Agora
eu era livre para passear com ela quantas vezes quisesse. Como não demorara que se construíssem
campos de aviação ao redor de Paris, e que são para os aeroplanos o que os portos representam para os
navios, e como, desde o dia em que, perto da Raspeliere, o encontro quase mitológico com um aviador,
cujo voo fizera encabritar o meu cavalo, tinha sido para mim como uma imagem da liberdade, eu gostava
muitas vezes que, ao entardecer, o fim das nossas jornadas - aliás agradável à Albertine, apaixonada por
todos os esportes -fosse um desses aeródromos. Íamos para lá, atraídos ambos por essa vida incessante
de partidas e chegadas que conferem tanto encanto aos passeios pelo cais ou apenas pela praia para
aqueles que apreciam o mar, e às andanças em torno de um centro de aviação, para os que gostam do
céu. A todo instante, por entre o descanso dos aparelhos inertes e como que ancorados, víamos um
deles sendo tirado penosamente por vários mecânicos, como é arrastado sobre a areia um barco pedido
por um turista que deseja dar um passeio no mar. Depois o motor era posto em funcionamento, o
aparelho corria, tomava impulso e por fim, de repente, em ângulo reto, elevava-se lentamente no êxtase
rígido, como que imobilizado, de uma velocidade horizontal súbito transformada em majestosa ascensão
vertical. Albertine não podia conter o júbilo e pedia explicações aos mecânicos que regressavam, agora
que o aparelho se pusera a voar. Entretanto, o passageiro não tardava a transpor quilômetros, e o grande
esquife sobre o qual não cessávamos de fixar os olhos não era mais no azul do que um ponto quase
indistinto, o qual, aliás, ia retomando aos poucos a sua materialidade, sua grandeza, seu volume, quando,
aproximando-se do fim o tempo do passeio, chegava o momento de voltar a seu porto. Albertine e eu
olhávamos com inveja, no instante em que saltava em terra, o passeante que desse modo fora desfrutar
ao largo, naqueles horizontes solitários, o sossego e a limpidez da tarde. Depois, fosse do aeródromo,
fosse de algum museu ou igreja que tivéssemos ido visitar, voltávamos juntos para a hora do jantar. E
todavia eu não regressava calmo, como me sentia em Balbec, depois dos passeios mais raros de que me
orgulhava durassem toda uma tarde, e que contemplava a seguir, destacando-se em belos maciços de
flores sobre o resto da vida de Albertine como sobre um céu vazio diante do qual a gente sonha
suavemente, sem pensar. O tempo de Albertine, por essa época, não me pertencia em quantidades tão
amplas como hoje. No entanto, parecia-me então muito mais meu, porque eu só levava em consideração
o meu amor regozijando-se como se fosse uma dádiva as horas que ela passava comigo; agora o meu
ciúme procurando nelas, com inquietude, a possibilidade de uma traição; eu só levava em conta as horas
que ela passava sem mim. Ora, amanhã ela iria desejar que houvesse tais horas. Seria preciso escolher
entre cessar de sofrer e deixar de amar. Pois, assim como no princípio é formado pelo desejo, o amor,
depois, só é mantido pela ansiedade dolorosa. Sentia que uma parte da vida de Albertine me escapava.
O amor, tanto na ansiedade dolorosa como no desejo feliz, é a exigência de um todo. Ele só nasce, só
subsiste se resta uma parte a conquistar. Só se ama aquilo que não se possui completamente. Albertine
mentia ao dizer que certamente não iria visitar os Verdurin, como eu mentia ao dizer que desejava ir à
casa deles. Ela procurava somente impedir-me de sair em sua companhia, e eu, devido ao brusco
anúncio desse projeto, que de modo algum contava pôr em execução, queria ferir nela o ponto que
adivinhava ser o mais sensível, atacar o desejo que ela ocultava e forçá-la a confessar que minha
presença junto dela amanhã, a impediria de satisfazê-la. Em suma, ela o fizera ao deixar bruscamente de
querer ir à casa dos Verdurin.
- Se você não quer ir visitar os Verdurin -disse eu -, há no Trocadero uma representação magnífica
de caráter beneficente.-
Ela ouvia a minha sugestão com ar dolente.
Voltei a ser duro com ela, como em Balbec, nos tempos do meu primeiro ciúme. Seu rosto refletia
uma decepção e empreguei para censurar a minha amiga os mesmos motivos que tantas vezes me
haviam sido dados por meus pais quando eu era criança e que me tinham parecido desinteligentes e
cruéis à minha infância incompreendida.
- Não. - apesar do seu ar triste dizia eu à Albertine - não posso lamentá-la; lamentaria se você
estivesse enferma, se lhe houvesse acontecido uma desgraça, se tivesse perdido um parente; o que
talvez não lhe desse nenhum pesar, devido ao desperdício de falsa sensibilidade que você faz por um
nada. Além disso, não aprecio a sensibilidade de pessoas que tanto pretendem nos amar, sem serem
capazes de nos prestar o menor serviço e cujo pensamento, ao se voltar para nós, as deixa tão distraídas
que se esquecem de levar a carta que lhes confiamos e da qual depende o nosso futuro.
Tais palavras, pois uma grande parte do que dizemos não passa de um recitativo, eu as ouvira pronunciar todas por minha mãe, a qual (explicando-me de bom grado que não convinha confundira verdadeira sensibilidade, o que, dizia ela, os alemães, cujo idioma admirava bastante, apesar do horror de meu pai por aquele país, denominavam Empfindung, com o sentimentalismo, Empfindelei) chegara certa vez a ponto de dizer, quando eu estava chorando, que Nero talvez fosse nervoso e não era melhor por causa disso. Na verdade, como essas plantas que se desdobram ao crescer, havia agora, diante da criança sensitiva que eu exclusivamente fora, um homem completamente diverso, cheio de bom senso, severo para com a sensibilidade doentia dos outros, um homem parecido com o que meus pais tinham sido para mim.
Tais palavras, pois uma grande parte do que dizemos não passa de um recitativo, eu as ouvira pronunciar todas por minha mãe, a qual (explicando-me de bom grado que não convinha confundira verdadeira sensibilidade, o que, dizia ela, os alemães, cujo idioma admirava bastante, apesar do horror de meu pai por aquele país, denominavam Empfindung, com o sentimentalismo, Empfindelei) chegara certa vez a ponto de dizer, quando eu estava chorando, que Nero talvez fosse nervoso e não era melhor por causa disso. Na verdade, como essas plantas que se desdobram ao crescer, havia agora, diante da criança sensitiva que eu exclusivamente fora, um homem completamente diverso, cheio de bom senso, severo para com a sensibilidade doentia dos outros, um homem parecido com o que meus pais tinham sido para mim.
Sem dúvida, visto que cada um deve fazer continuar em si a vida dos seus, o homem ponderado e
zombeteiro, inexistente em mim no começo, juntara-se ao sensível, e era natural que eu por minha vez
fosse igual ao que meus pais tinham sido. Ademais, no momento em que este novo eu se formava,
encontrava a sua linguagem já pronta na lembrança da outra, irônica e rabugenta, que empregaram
comigo e que eu agora usava com os outros, e saía muito naturalmente da minha boca, seja porque a
evocasse por mimetismo e associação de lembranças, seja também porque as delicadas e misteriosas
incrustações do poder genésico tivessem desenhado em mim, sem que o soubesse, como sobre a folha
de uma planta, as mesmas entonações, os mesmos gestos, as mesmas atitudes que tinham tido aqueles
de quem me originara. Pois, às vezes, bancando o homem prudente quando falava a Albertine, parecia
estar ouvindo minha avó. De resto, não sucedera a minha mãe (de tantas obscuras correntes
inconscientes refletirem em mim, até aos menores movimentos dos meus dedos para arrastá-los nos
mesmos ciclos que meus pais) acreditar que se tratava de meu pai entrando, de tal modo eu tinha a
mesma forma de bater que ele? Por outro lado, o acoplamento de elementos contrários é a lei da vida, o
princípio da fecundação e, conforme veremos, a causa de muitas infelicidades. De hábito, detestamos o
que nos é semelhante, e nossos próprios defeitos vistos de fora nos exasperam. Ainda mais quando
alguém, que passou da idade em que os expressamos ingenuamente e que, por exemplo, assume um ar
glacial nos momentos mais ardentes, execra os mesmos defeitos se se trata de outro, mais jovem ou
mais ingênuo, ou mais bobo, que os exprime! Há pessoas sensíveis para quem a visão, nos olhos
alheios, de lágrimas que eles próprios contêm, é exasperadora.
É a máxima semelhança que faz com que, apesar da afeição, e às vezes quanto maior é a
afeição, reine a divisão nas famílias. Talvez em mim, e em muitos, o segundo homem em que eu me
tornara era simplesmente uma face do primeiro, exaltado e sensível ao lado de si mesmo, sábio Mentor
para os outros. Talvez o mesmo ocorresse com meus pais, conforme fossem considerados em relação a
mim ou em si mesmos. E, quanto a minha avó e minha mãe, era bastante visível que a severidade delas
comigo era proposital e até mesmo lhes custava, mas talvez até no meu pai não seria a frieza apenas um
aspecto exterior de sua sensibilidade? Pois não era talvez a verdade humana desse duplo aspecto,
aspecto da vida interior e aspecto da vida das relações sociais, o que se expressava nestas palavras que
outrora me pareciam tão falsas em seu sentido quanto plenas de banalidade em sua forma, quando se
dizia, falando de meu pai:
- Sob sua frieza glacial, esconde uma sensibilidade extraordinária; o que ele possui, acima de
tudo, e o pudor de sua sensibilidade. -
No fundo, não ocultava incessantes e secretas tempestades, aquela calma semeada, se preciso,
de reflexões sentenciosas, de ironia pelas manifestações desastradas da sensibilidade, calma que era a
sua, mas que agora também eu afetava diante de todos e de que não me afastava, em certas
circunstâncias, diante de Albertine?
Creio que, naquele dia, eu verdadeiramente ia decidir a nossa separação e seguir para Veneza. O
que me prendeu de novo à minha ligação disse respeito à Normandia, não que Albertine manifestasse
alguma intenção de viajar àquela região, onde eu tinha tido ciúmes dela (pois, por sorte, os seus projetos
nunca tocavam nos pontos dolorosos das minhas recordações), mas porque, tendo-lhe dito:
- É como se eu lhe falasse da amiga de sua tia que mora em InfreviIle-, ela respondera,
encolerizada, feliz como toda pessoa que discute e que deseja para si o maior número possível de
argumentos, para mostrar que eu estava errado e ela certa:
- Mas minha tia jamais conheceu alguém em Infreville, e eu mesma nunca estive lá. -
continua na página 45...
________________
Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Se eu não amava Albertine)
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